Milionário demitiu 9 Babas em 15 dias — até que a Babá rejeitada por todos mudou tudo

7 horas da manhã de segunda-feira. Alexandre Santoro observa da janela do seu escritório uma cena que se repetiu nove vezes em 15 dias. Uma mulher a sair da sua mansão em lágrimas, carregando uma mala e jurando nunca mais voltar. A nona ama acabara de ser despedida pelo próprio patrão, que já não conseguia suportar o caos que a sua casa se tornado.
O Alexandre tem 35 anos, é proprietário de uma das maiores empresas de construção do país. Herdou uma fortuna de R milhões de reais e deveria ter tudo para ser feliz. Mas há seis meses, desde que a sua mulher Camila morreu num acidente de viação, a sua vida tornou-se um inferno. Não pelo luto, sempre foi demasiado frio para sofrer de verdade, mas por causa de Miguel, o seu filho de 3 anos.
O menino, que antes era quieto e obediente, transformou-se num furacão destrutivo depois da morte da mãe. Chora sem parar, parte tudo o que vê pela frente, morde e grita, faz birras homéricas que duram horas. Nenhuma ama consegue controlá-lo durante mais do que dois dias. O senhor Alexandre, a voz da dona Antónia, governanta da casa há 20 anos, ecoa pelo intercomunicador. Chegou a déma candidata.
Alexandre suspira, manda subir. Lá em baixo, Carla Silva espera nervosa na sala de espera improvisada. Aos 28 anos, ela tem uma barriga de 6 meses de gravidez que tenta disfarçar com um blazer largo. Sabe que estar grávida diminui drasticamente as suas hipóteses de ser contratada. mas está desesperada. O namorado abandonou-a quando soube da gravidez, foi despedida do último emprego por incompatibilidade e está há três meses sem conseguir trabalho.
A agência não me disse que o senhor estava grávida. Dona Antónia comenta observando Carla. Estou de se meses A Carla responde honestamente. Mas não interfere no meu trabalho. Hum. A Dona Antónia não parece convencida. Vamos ver o que o patrão pensa. Carla sobe as escadas de mármore, observando os estragos pelo caminho. Vas partidos, riscos na parede, brinquedos espalhados por todos os cantos.
É óbvio que uma criança está descontrolada nesta casa. Entre. A voz fria de Alexandre ressoa quando ela bate à porta. Carla entra no escritório e vê um homem alto, moreno, cabelos grisalhos nas têmporas, vestindo um fato que custa mais que ela ganharia num ano. Ele está sentado atrás de uma mesa gigantesca, a mexer no computador sem sequer levantar os olhos.
“Mais uma”, murmura sem disfarçar o desdém. Nome: Carla Silva. Experiência: 5 anos a cuidar de crianças. Tenho curso de pedagogia infantil e primeiros socorros. Alexandre levanta finalmente os olhos e vê a barriga de Carla. Sua expressão torna-se ainda mais fria. Você está grávida? Sim, senhor. A agência não informou isso.
Informaria se perguntassem. Alexandre recosta-se na cadeira. Senrita Silva, despedi nove amas em 15 dias. O meu filho é complicado. Acha que consegue cuidar dele estando grávida? Posso tentar. Tentar não é suficiente. Ou consegue ou não consegue. Carla engole o orgulho. Precisa deste emprego. Senhor Alexandre.
Crianças problemáticas geralmente só precisam de atenção e carinho. Se me der uma oportunidade, uma oportunidade, Alexandre R sarcástico. Dei oportunidade a nove mulheres qualificadas. Todas saíram a correr. Talvez não soubessem como lidar com trauma infantil. E sabe? Sei que criança que perde a mãe fica perdida e assustada e que quando está perdida e assustada ataca porque não sabe como se expressar.
Alexandre observa Carla com mais atenção. É a primeira candidata que não prometeu fazer milagres nem garantiu que conseguiria domesticar o Miguel? Quanto quer ganhar? O que é que o Sr. achar justo? 2000 por semana. Mas se não aguentar nem 48 horas como as outras, não leva nada. A Carla calcula rapidamente. 2000 por semana daria para sobreviver até o bebé nascer. Aceito.
Ótimo. A Dona Antónia vai mostrar o seu quarto e as regras da casa. Você começa agora. Carla é levada para um quarto simples no térrio, junto ao quarto de Miguel. A Dona Antónia enumera as regras. Não dar doces à criança, não deixá-la ver televisão, mantê-la sempre no quarto ou no jardim dos fundos, chamá-la se a situação fugir ao controle.
E onde está o Miguel agora? pergunta a Carla. Trancado no quarto dele. Partiu a televisão da sala esta manhã. Trancado? O patrão manda trancar quando ele fica muito agitado. A Carla fica chocada. Uma criança de três anos fechada no quarto. É o modo que funciona aqui. Posso vê-lo? Pode tentar. Mas cuidado, ele morde. Carla sobe até ao segundo andar e pára em frente a uma porta branca com vários riscos na altura de uma criança.
Do lado de dentro vem um barulho estranho, como se alguém estivesse a atirar coisas contra a parede. Ela bate suavemente. Miguel. Oi. O meu nome é Carla. O ruído para im. Imediatamente. Sou a sua nova ama. Silêncio. Posso entrar? Mais silêncio. A Carla tenta a porta. Está trancada por fora. Ela pega a chave com a dona Antónia e abre-a lentamente.
O quarto é uma zona de guerra. Brinquedos partidos espalhados pelo chão, livros rasgados, roupa atirada para todos os lados. No meio do caos, sentado no chão, encostado à parede, está o Miguel. A Carla sente o coração apertar ao ver o menino. Ele é pequenino para três anos, muito magro, cabelo loiro despenteado, olhos azuis vermelhos de tanto chorar.
Está usando uma t-shirt suja e segura nos braços, um ursinho de peluche sem um braço. Olá, Miguel. O menino olha-a com desconfiança, pronto para atacar se ela chegar muito perto. Que ursinho tão bonito tem. O Miguel aperta o brinquedo contra o peito. Como é que ele se chama? Silêncio.
Carla senta-se no chão, longe dele, para não parecer ameaçadora. Sabe, eu também tenho um bebé aqui na barriga. Quer sentir? Miguel franze o sobrolho, curioso, apesar da raiva. Às vezes ele mexe. É engraçado. Carla coloca a mão na barriga. Olha, acho que ele está a mexer agora. O Miguel inclina-se um pouquinho para ver melhor.
Quer tocar? Depois de hesitar, Miguel aproxima-se devagar e coloca a mãozinha na barriga da Carla. Nesse preciso momento, o bebé dá um pontapé. Os olhos de Miguel arregalam-se. Ele bateu. Bateu sim. Acho que ele gostou de você. Pela primeira vez, Miguel esboça algo parecido com um sorriso. Ele vai nascer? Vai sim, daqui a três meses.
E vai ser meu amigo. Quer que seja? O Miguel abana a cabeça que sim. Então vai ser sim. Carla olha em redor do quarto destruído. Miguel, o que aconteceu aqui? O rostinho do menino se fecha novamente. Fiquei zangado. Por quê? Porque Miguel começa a chorar. Porque a mama não volta. Carla sente lágrimas nos olhos.
O menino não é problemático. É uma criança sofrendo. Vem cá. Ela abre os braços e, para sua surpresa, Miguel corre para o colo dela. Eu quero a minha mama. Ele soluça. Eu sei, meu amor. Eu sei. Carla embala-o enquanto ele chora. É a primeira vez em meses que Miguel se deixa consolar. Sabe o que vamos fazer? Vamos arrumar o teu quarto juntos.
O que acha? Pode. Claro, é o seu quarto, certo? Durante duas horas, Carla e Miguel arrumam o quarto. Ela não força nada. Deixa-o escolher onde quer colocar cada brinquedo. Aos poucos, o Miguel vai abrindo-se. Tia Carla? Sim. Por que razão as outras amas foram embora? Não sei. Talvez não soubessem brincar com você. O papá disse que eu sou muito mau.
Carla para o que está a fazer e se ajoelha-se à frente dele. Miguel, tu não é mau. Está triste, é diferente, mas eu parto as coisas quando estás muito zangado, né? É. E por que razão fica bravo? Miguel pensa um momento. Porque ninguém me compreende? A resposta de uma criança de 3 anos é tão madura que Carla fica emocionada.
Eu vou tentar te perceber, tá bom? Promete? Prometo. À tarde, o Alexandre chega a casa esperando encontrar mais um campo de batalha. Em vez disso, encontra silêncio. Silêncio pela primeira vez em seis meses. Ele sobe a correr, achando que algo terrível aconteceu. No quarto de Miguel encontra uma cena que o deixa sem palavras.
Carla está sentada no chão a ler um livro e Miguel está deitado com a cabeça no colo dela, dormindo tranquilamente. O quê? Como? Carla faz-lhe sinal falar baixo. Ele estava cansado, acabou dormindo. O Miguel não dorme à tarde há meses. Hoje dormiu. O Alexandre olha ao redor. O quarto está arrumado. Miguel está calmo.
Carla aparece no controlo da situação. Como fez isso? Conversei com ele. Só isso? Só isso? O Alexandre não entende. As outras amas tentaram conversar também. Por que com a Carla foi diferente? À noite, à hora do jantar, Alexandre espera o pior. É sempre o momento mais difícil do dia com o Miguel. Mas quando desce à cozinha, encontra Miguel sentado à mesa a comer normalmente.
Papa! O menino grita quando vê o pai. Alexandre fica surpreendido. Faz meses que o Miguel não demonstra alegria ao vê-lo. Olá, filho. Como foi o seu dia? Bem, a tia Carla tem um bebé na barriga. Alexandre olha para Carla, que está servindo o jantar. É mesmo? É. E ele mexe. Quer sentir, papá? Alexandre fica sem jeito. Talvez noutro dia.
Durante o jantar, Miguel conversa normalmente, conta sobre o que fez a Carla, ri-se de algumas piadas parvas. É como se fosse outra criança. Alexandre observa Carla interagindo com o seu filho. Ela tem paciência infinita. Escuta tudo o que ele diz. responde às suas perguntas sem pressa e Miguel está claramente a agarrar-se a ela.
Tia Carla, vai-se embora como as outras? A pergunta inocente cria um silêncio constrangedor. Não vou embora, meu amor. Promete? Carla olha para Alexandre, que observa a cena sem expressão. Prometo. Depois que Miguel vai dormir, Alexandre chama Carla para conversar. O que fez com ele hoje? Nada demais. Brinquei, conversei, escutei.
As outras amas também faziam isso. Faziam? Não sei. Suponho que sim. Carla percebe que Alexandre não faz ideia de como as outras amas tratavam Miguel. Senhor Alexandre, posso perguntar uma coisa? Pode. O senhor sabe porque é que o Miguel estava tão revoltado? Porque perdeu a mãe. E quem conversou com ele sobre isso? Alexandre fica em silêncio.
Nunca ninguém conversou com Miguel sobre a morte da mãe. Ele é criança, não compreenderia. Criança entende mais do que imaginamos. O que você quer dizer? O Miguel sabe que a mãe morreu, mas ninguém explicou o que isso significa. Fica confuso, assustado. O Alexandre nunca pensou nisso. E o que fez? Expliquei que a mamã dele foi para o céu, mas que continua a amá-lo de lá e que não é culpa dele ela ter ido embora.
Culpa dele? As crianças sempre acham que a culpa é delas quando algo mal acontece. Alexandre sente um aperto no peito. Miguel acha que a mãe morreu por culpa dele. Achava. Hoje conversamos sobre isso. Alexandre passa a mão no rosto. Como não se apercebeu que o filho estava a carregar essa culpa? Carla, estudou psicologia infantil? Não, mas já tomei conta de muitas crianças que passaram por traumas.
E sempre funciona? Amor e paciência sempre funcionam. Alexandre observa Carla. Ela tem algo diferente das outras amas. Uma genuína bondade, uma sabedoria natural para lidar com crianças. Posso fazer mais uma questão? Claro. Por que razão você não contou que estava grávida quando se candidatou? Carla baixa os olhos.
Porque sabia que ninguém contrataria uma ama grávida. Não tem marido? Não. O pai da criança abandonou-me quando soube da gravidez. Alexandre sente uma pontada de culpa. Ele também estava pronto para dispensá-la por causa da gravidez. E pretende continuar a trabalhar depois de o bebé nascer? Se o Sr. permitir, não tenho para onde ir.
Alexandre fica pensativo. Uma ama com bebé recém-nascido seria complicado, mas A Carla conseguiu num dia o que nove profissionais não conseguiram em 15 dias. Vamos ver como as coisas evoluem. Na semana seguinte, a transformação do O Miguel é impressionante. Ele para de partir coisas, para de gritar, para de fazer birras.
Carla estabelece uma rotina carinhosa. Acordar cedo, tomar café juntos, brincar no jardim, ler pequenas histórias, almoçar conversando sobre coisas parvas. A tia Carla, o bebé da sua barriga gosta de música? Gosta sim. Quando canto, ele mexe-se bastante. Você pode cantar para ele? A Carla começa a cantar uma canção de Ninar.
Miguel fica encantado vendo a barriga dela mexer. Ele está a dançar. Sim, está, tia Carla. Sim, quando ele nascer, ainda vais cuidar de mim? A pergunta apanha Carla de surpresa. Claro que sim, meu amor. Mas e se o papa não quiser? O seu papa não é mau. Ele só está triste também. Triste por quê? Porque perdeu a mamã tal como você.
Miguel fica pensativo. Papa amava a mama? Amava muito. Então porque é que ele não chora? Carla pára para pensar na resposta. As pessoas grandes às vezes escondem a tristeza. Elas acham que não podem chorar. Mas é mau ficar triste escondido? É sim. É melhor chorar e conversar sobre a tristeza. Miguel abana a cabeça como se entendesse perfeitamente.
Nessa noite, Alexandre chega a casa e encontra Miguel à sua espera na sala. Papa, posso falar contigo? Alexandre estranha. O Miguel nunca quer falar com ele. Claro, filho. Está triste porque mama morreu? A pergunta direta deixa Alexandre desarmado. Sim, estou, filho. Eu também estou triste, eu sei. Mas a tia A Carla disse que é bom falar sobre tristeza.
Alexandre olha para Carla, que observa a conversa de longe. É mesmo? É. Quer falar comigo sobre a mama? Alexandre sente os olhos marejarem. Faz seis meses que não fala sobre a Camila com ninguém. Quero sim. Pai e filho se sentam-se no sofá e, pela primeira vez desde a morte de Camila, conversam abertamente sobre ela. Miguel conta que sente saudades dos abraços da mãe.
Alexandre conta que sente saudades das gargalhadas dela. Papa? Sim. A tia Carla disse que a mama continua a amar a gente lá do céu. É verdade. E que ela quer que a gente seja feliz também. É verdade. Então podemos ser felizes de novo? Alexandre abraça o filho pela primeira vez em meses. Podemos sim, filho.
Carla observa a cena da cozinha emocionada. Não é só o Miguel que estava a precisar de cura. Alexandre também estava a sofrer. Duas semanas depois. A vida na mansão está irreconhecível. O Miguel brinca, ri, conversa normalmente. O Alexandre começou a chegar mais cedo do trabalho para jantar com o filho. A casa, que era um campo de batalha, tornou-se um lar, mas nem tudo são rosas.
Margarete Santoro, mãe de Alexandre, aparece numa tarde para visitar o neto e fica chocada com o que encontra. Alexandre, o que significa isto? Ela pergunta, apontando para a Carla, que está brincando com o Miguel no jardim. Significa que encontrei uma ama competente. Uma ama grávida? Que imagem passa? Que imagem, mãe? Parecer que você engravidou a empregada.
O Alexandre sente raiva. Isto é ridículo. Ridículo é você contratar uma mulher grávida para cuidar do seu filho. Porque é problema ela estar grávida? Porque uma grávida não tem como dedicar-se totalmente ao trabalho. E depois de o bebé nascer, vai ser pior ainda. Mãe, Carla conseguiu em duas semanas o que nenhuma outra ama conseguiu em seis meses.
Conseguiu o quê? Seduzi-lo através do Miguel. Seduzir do que se está a falar? Margarete observa Carla a brincar com Miguel no jardim. Alexandre, mulher pobre e grávida, é sempre perigosa. Elas são desesperadas, capazes de inventar qualquer coisa para se dar bem na vida. A Carla não é assim. Como pode ter certeza? Porque a vejo todos os dias cuidando do Miguel com amor genuíno, amor interesseiro.
Ela sabe que se conquistar a criança conquista-o a si. Alexandre abana a cabeça. Mãe, tu está a ser preconceituosa. Estou a ser realista. Quantos anos ela tem? 28.º Tem 35. Rico, viúvo, com filho pequeno. É um prato feito para uma oportunista. Ela nunca deu sinais de interesse romântico. Ainda não, mas vai dar. Margarete sai da casa a plantar dúvidas na cabeça do filho.
Naquela noite, Alexandre observa Carla com outros olhos. Ela realmente nunca flertou com ele, nunca insinuou nada para além do profissional, mas a semente da desconfiança foi plantada. Na semana seguinte, Margarete regressa com reforços. Traz duas amigas da alta sociedade, Helena Marques e Beatriz Almeida. Alexandre, querido, diz Helena, a sua mãe contou-nos sobre a situação aqui em casa.
Que situação? A ama grávida? Responde a Beatriz como se fosse algo escandaloso. Qual é o problema? Vários problemas, Helena enumera. Primeiro, a imagem. O que as pessoas vão pensar. Segundo, continua Beatriz, a praticidade. Como é que ela vai cuidar do Miguel quando estiver com um bebé ao colo? Terceiro, Margarete completa, a segurança.
Você não sabe nada sobre o passado dela. Alexandre irrita-se. O passado dela não é um problema meu. Deveria ser, Helena insiste. E se ela tiver envolvimentos perigosos? E se o pai da criança aparecer aqui a causar problemas? E se ela estiver a mentir sobre estar sozinha? Acrescenta Beatriz. Pode ser golpe.
Que golpe? Fingir estar abandonada e grávida para despertar pena e instalar-se na casa de um homem rico? O Alexandre nunca pensou nessa possibilidade. Vocês estão a exagerar. Estamos a ser cautelosas. Margarete corrige. Alexandre, precisa de investigar essa mulher antes que seja tarde demais. Tarde demais para quê? Para você se apaixonar por ela.
Alexandre fica desconcertado. Quem disse que me vou apaixonar? O filho Margarete aproxima-se dele. Está vulnerável. Perdeu a sua esposa, está sozinho, vê esta mulher cuidando do seu filho com carinho. É natural que confunda gratidão com amor. Não estou a confundir nada. Tem certeza? Não sente nada por ela? Alexandre hesita.
Sente sim, mas não sabe bem o quê. Gratidão. Admiração, algo mais? É uma boa funcionária e quando o bebé dela nascer, vai sustentar duas crianças? Se for necessário. As três mulheres trocam olhares. Alexandre está mais envolvido do que imagina. Alexandre, Helena fala com voz pausada. Queremos apresentar -lo para umas pessoas.
Que pessoas? Algumas amigas nossas, viúvas elegantes, bem educadas, que seriam mães maravilhosas para o Miguel. Não estou interessado em conhecer ninguém. Ainda não. A Beatriz sorri. Mas deveria estar. O Miguel precisa de uma mãe a sério. Ele tem a Carla. A Carla é ama, não é mãe. Para o Miguel é a mesma coisa. Não é, Margarete insiste. Mãe é para sempre.
Ama é temporária. Alexandre fica pensativo. É certo que a Carla é temporária? Uma hora ela pode querer sair, casar, ter a sua própria vida. E daí o que acontecerá ao Miguel? Vamos organizar alguns jantares, Helena propõe. Nada formal, só para si conhecer pessoas interessantes. Não quero jantares, um só.
Beatriz insiste. Como favor? Alexandre cede mais para se livrar da pressão do que por interesse real. Um só, mas nada de expectativas. As três saem da casa satisfeitas. O plano para afastar Carla está em movimento. No sábado seguinte, Margarete organiza um jantar na mansão. Convida três mulheres elegantes, todas viúvas ou divorciadas, todas interessadas em Alexandre.
Verónica Tavares, 40 anos, herdeira de uma família tradicional, magra, loira, sofisticada. Patrícia Mendes, 35 anos, médica bem-sucedida, morena elegante, MBA em administração. Cristina Rocha, 32 anos, arquiteta conceituada, ruiva, exuberante, dona de várias empresas, todas elas bonitas, educadas, ricas e claramente interessadas em conquistar Alexandre.
Durante o jantar, fazem charme, contam piadas inteligentes, demonstram conhecimento sobre negócios e cultura. Alexandre, diz Verónica, a sua mãe nos contou que tem um filhinho. Tenho sim, Miguel, três anos. Que fofo. Deve ser difícil criar sozinho. Tenho ajuda. Uma boa ama é difícil de encontrar, comenta Patrícia.
Eu própria já tive problemas com várias. A minha é excelente. Que sorte, A Cristina sorri. E pretende manter por muito tempo, enquanto ela quiser ficar. Por vezes é melhor trocar antes que a criança se apegue demasiado”, Patrícia sugere. “Apego excessivo com funcionários não é saudável”. Alexandre fica incomodado com a conversa, mas não sabe como mudar de assunto.
Durante o jantar, Carla fica no andar de cima com Miguel, que está com febre baixa. “Tia Carla, quem são aquelas mulheres ali por baixo? Amigas da avó Margarete? Elas vieram conhecer o Papa?” “Acho que sim.” Miguel fica pensativo. Tia Carla? Sim. Se o papa casar com uma delas, vais embora? Carla sente o coração apertar.
Por que razão está a pensar nisso? Porque as outras amas diziam que se papa arranjasse uma esposa, não ia precisar mais de ama. Outras amas? É, elas estavam sempre a falar de papa arranjar esposa. Carla percebe que as amas anteriores tinham interesse romântico em Alexandre. Por isso não conseguiam cuidar direito de Miguel.
Estavam focadas no pai, e não no filho. Miguel, mesmo que o seu pai casar um dia, não te vou abandonar. Promete? Prometo. Mas por dentro Carla está preocupada. E se Alexandre realmente interessar-se por uma daquelas mulheres, onde isso a deixaria? Depois do jantar, o Alexandre acompanha as convidadas até à porta. Todas se despedem com beijos na cara e insinuações sobre próximos encontros.
Foi um prazer conhecer-te, Alexandre. Verónica sussurra-lhe ao ouvido. Espero que nos vejamos em breve. Ligar para mim qualquer hora. Patrícia entrega o seu cartão. Adorava conhecer o Miguel. Se necessitar de consultoria em arquitetura para a casa, estou ao dispor. Cristina pisca o olho. De dia e de noite. Alexandre fica desconfortável com as investidas, mas admite que as três são mulheres interessantes.
Margarete se aproxima quando as convidadas saem. E então, o que achou? São simpáticas. Simpáticas, Alexandre? São mulheres perfeitas, ricas, educadas, bonitas. É. E qualquer uma delas seria uma mãe maravilhosa para o Miguel. Como você pode saber isso? Porque são da nossa classe social, sabem educar uma criança rica. Alexandre franze o sobrolho.
Miguel precisa de amor, não de educação de classe social. Precisa dos dois. Naquela noite, Alexandre sobe para dar as boas-noites para Miguel e encontra o menino a conversar com Carla. Papa. Miguel corre para abraçar o pai. Olá, campeão. Como está? Melhor. A febre passou. Alexandre olha para Carla com gratidão. Obrigado por cuidar dele sempre. Papa.
O Miguel puxa a manga do pai. As raparigas que vieram jantar são bonitas. Alexandre fica sem jeito. São sim. Elas querem ser minha mãe. A pergunta inocente deixa o ambiente tenso. Por que razão está perguntando isso? Porque a avó Margarete falou que uma delas pode tornar-se a minha nova mãe.
O Alexandre olha para Carla, que mantém uma expressão neutra, apesar do desconforto. Miguel, ninguém vai ser tua mãe só porque eu decido. Também teria que querer. E se eu não quiser, então não acontece. E se eu quiser a tia Carla como a minha mãe? O silêncio que se segue é constrangedor. Carla cora e desvia o olhar.
Alexandre fica sem saber o que responder. Miguel, Carla adianta-se. Eu sou sua ama. A sua mãe está no céu. Mas podes ser a minha segunda mãe. Não é assim que funciona, meu amor. Por que não, o Alexandre intervém? Porque as mães e as amas são coisas diferentes. Mas a tia Carla cuida de mim como uma mãe. É o trabalho dela. Miguel fica triste.
Então não me amas de verdade, tia Carla? A pergunta inocente corta o coração de Carla como uma lâmina. Eu te amo sim, meu amor. Muito. Então, por que não pode ser a minha mãe? Alexandre se sente-se obrigado a intervir. Miguel, vamos dormir. Amanhã falamos sobre isso. Depois de Miguel dormir, Alexandre e Carla ficam num silêncio desconfortável no corredor.
Carla, sobre o que o Miguel perguntou. Sei que foi apenas curiosidade de criança. Pois, ele apegou-se muito a si e eu a ele. Alexandre observa Carla. Há algo nos olhos dela, uma tristeza que não consegue decifrar. Carla, posso fazer-te uma pergunta pessoal? Pode. Pretende ficar aqui por muito tempo? A pergunta apanha-a de surpresa. Porque é que o senhor quer que eu saia? Não, mas vai ter o seu bebé daqui a três meses.
Como vai fazer? Carla baixa os olhos. É a pergunta que a aterroriza. Ainda não sei. Tem algum plano? Meu plano era trabalhar até o bebé nascer e depois tentar conciliar as duas coisas. Vai ser difícil cuidar do Miguel e de um recém-nascido. Eu sei. Alexandre vê a angústia nos olhos dela. Carla, tem alguma família? Alguém que possa ajudar? Não tenho ninguém.
Ninguém mesmo? Os meus pais morreram quando eu tinha 18 anos. Não Tenho irmãos. O pai do bebé me abandonou. Alexandre sente uma pontada de pena. A Carla está completamente sozinha no mundo. Ah, é financeiramente. Como se vai sustentar? Com o que conseguir poupar até o bebé nascer? Não vai dar para muito tempo. Eu sei. Alexandre fica pensativo.
Parte dele quer ajudar Carla, mas parte recorda-se dos avisos da mãe sobre mulheres interesseiras. Vamos ver como as coisas se desenrolam”, conclui. Na semana seguinte, Margarete intensifica a pressão. Ela liga para o Alexandre todos os dias falando sobre as mulheres que ele conheceu no jantar.
A Verónica ligou perguntando de si. Ai, é? Ela ficou muito interessada. Que tal chamá-la para jantar outra vez? Mãe, estou ocupado. Alexandre, não pode ficar sozinho para sempre. Não estou sozinho. Tenho o Miguel. O Miguel precisa de uma mãe e você precisa de uma esposa. Eu decido do que preciso. Está a ser teimoso. E essa teimosia tem a ver com a ama.
Alexandre nega, mas sabe que a mãe não está totalmente errada. Há algo na Carla que o impede de se interessar por outras mulheres. Nessa tarde, ele resolve observarla mais atentamente. Ela está no jardim com o Miguel. ensinando-o a plantar flores. Vês, Miguel, tens que fazer um buraquinho assim bem delicadinho. E depois depois põe a sementinha e cobre com terra.
E ela vai crescer? Vai sim, mas tem de ter paciência. Plantas demoram a crescer. Igual ao bebé da a sua barriga. Carla ri-se. Igual. Alexandre observa a cena da janela. A Carla tem uma naturalidade com o Miguel que é impressionante. Ela não está a fingir. O carinho é genuíno. Tia Carla? Sim. Quando for grande posso casar contigo? Carla ri-se gostoso.
Miguel, quando você crescer, vou estar velhinha. Mas eu vou amar-te mesmo, tu velha. E eu vou amar-te também. Alexandre sente algo se mexer no peito, ouvindo a conversa. É ciúmes do próprio filho. Naquela noite ele não consegue parar de pensar em Carla. A forma como ela ri, como cuida do Miguel, como está a crescer uma vida dentro dela.
Ele apercebe-se de que está apaixonando-se. A perceção assusta-o. Margarete tinha razão. Ele está confundindo gratidão com amor. Na quinta-feira, Margarete aparece de surpresa na mansão acompanhada por Verónica Tavares. Alexandre, olha quem trouxe para conhecer o Miguel. Verônica está elegante como sempre, vestindo um conjunto caro e sorridente de forma calculada. Olá, Alexandre.
A sua mãe insistiu tanto que vim conhecer o seu filhinho. Alexandre fica contrariado, não gosta de surpresas. O Miguel está no jardim com a ama. Perfeito. Vou adorar conhecê-lo. Os três vão para o jardim, onde encontram Carla e Miguel a brincar de escolinha. O Miguel está a ensinar matemática para os ursinhos de peluche.
Miguel, Alexandre chama. Anda cá, quero apresentar-te uma pessoa. O Miguel corre até ao pai, mas pára timidamente quando vê Verónica. Miguel, esta é a tia Verónica. Oi! Ele sussurra escondendo-se atrás das pernas do pai. Verónica se ajoelha-se à altura dele, mas o seu sorriso parece forçado.
Olá, Miguel, que menino bonito que é. Miguel não responde, apenas observa desconfiado. Gosta de brincar de quê? De escolinha com a tia Carla. Verónica olha para Carla pela primeira vez, notando-se a barriga de grávida. Ah, deve ser a babá. Sou a Carla Silva. Verónica cumprimenta-a friamente, depois volta a atenção para Miguel.
Miguel, que tal brincar comigo agora? Não quero. Por que não? Quero brincar com a tia Carla. Verónica fica desconcertada. Não esperava ser rejeitada por uma criança de 3 anos. Vamos, Miguel. Margarete intervém. A tia Verónica trouxe presentes para si. Os olhos de Miguel iluminam-se por um segundo. Que presentes? Verónica abre a mala e tira um carrinho telecomandado caríssimo. Olha só que giro.
Miguel pega no carrinho, mas passados alguns segundos perde o interesse. É agradável. Obrigado. Não quer brincar com ele agora? Depois. Miguel volta a correr para Carla, que o recebe com um abraço carinhoso. Verónica fica constrangida. Margarete fica irritada. Alexandre fica dividido entre o orgulho de ver o filho leal a Carla e a pressão social de agradar às visitas.
O Miguel não foi educado, repreende, mas eu agradeci. Tinha de brincar com o presente. Miguel fica confuso. Tenho mesmo de brincar não querendo. A pergunta inocente deixa todos sem resposta. Carla adianta-se. Miguel, porque não mostra o seu jardim para a tia Verónica? Você plantou flores muito bonitas. Posso? Claro.
Miguel pega na mão de Verónica e leva-a a ver as flores que plantou. Verónica finge interesse, mas é óbvio que não se preocupa com as plantas. Que flores tão coloridas, comenta ela sem entusiasmo. Eu plantei com a tia Carla. Ela disse que demoram a crescer igual o bebé dela. Verónica fica desconfortável a falar sobre a gravidez de uma criada. Ah, que interessante.
O Alexandre observa a interação e percebe que Verónica não tem paciência genuína com crianças. Está claramente a forçar a situação. Depois de as visitas irem embora, Margarete confronte Alexandre. Já viu como o Miguel foi mal educado? Foi educado, só não estava interessado. Não estava interessado porque a ama não incentivou.
Carla incentivou, sim. Foi ela que sugeriu mostrar o jardim. Depois de o estrago já estar feito, Alexandre irrita-se. Que estrago, Alexandre? Não percebe? A ama está fazendo o Miguel rejeitar outras mulheres para proteger o território dela. Que território? Você. Ela quer que o Miguel apegue-se só nela para dificultar uma futura madrastra.
Isso é teoria da conspiração. É realidade. Mulheres como ela são muito inteligentes. Alexandre abana a cabeça. Mãe, Carla não é manipuladora. Como pode ter a certeza? Porque eu a vejo todos os dias. Vejo como ela cuida do Miguel e é exatamente isso que ela quer que veja. Margarete planta mais uma semente de dúvida e vai-se embora.
Nessa noite, Alexandre observa Carla a dar banho ao Miguel. A cena é tão natural, tão cheia de carinho, que é impossível acreditar que seja fingimento. O Papa Miguel chama-lhe da banheira. Gostou da tia Verónica? A pergunta apanha Alexandre de surpresa. Por que quer saber? Porque ela não gosta de crianças.
Como sabe isso? Ela fingia, tal como as outras amas fingiam gostar de mim. Alexandre fica impressionado com a perceção do filho. E a tia Carla? Ela finge gostar de si? Não, ela gosta mesmo. Como você sabe? Miguel pensa um momento. Porque quando eu estou triste, ela fica triste também. As outras ficavam zangadas. Carla ouve a conversa calada, emocionada com as palavras de Miguel. Tia Carla.
Miguel vira-se para ela. Você fica triste quando estou triste? Fico sim, o meu amor. Por quê? Porque quando a gente ama alguém, sente-se junto. Alexandre observa a troca entre eles e entende que não há fingimento ali. O amor é real. Duas semanas depois, Margarete organiza outro jantar. Desta vez, convida Patrícia Mendes, a médica.
A Patrícia é mais estratégica que Verónica. Ela pesquisou sobre as crianças, trouxe presentes educativos e preparou-se para conquistar Miguel. O Miguel trouxe um livro muito agradável para si. É um livro sobre anatomia infantil, didático, mas apropriado para crianças. Que giro! O Miguel interessa-se realmente. Patrícia senta-se no chão com ele e começam a foliar o livro em conjunto.
Vês, Miguel? Este é o coração. Ele bate assim. Pum, pum, bum, bum. Miguel fica fascinado. Ele bate à tia Carla também? Bate sim. E no bebé da barriga dela também. Miguel corre para junto de Carla. Tia Carla, posso escutar o coração do bebé? A Carla olha para a Patrícia, que sorria aprovadoramente. Pode sim. Miguel encosta o ouvido à barriga de Carla.
Escutei. Bum bum bum bum. A Patrícia se aproxima. Quer que eu lhe ensine a escutar melhor? Ela pega num estetoscópio da bolsa. Olha, com isto aqui fica mais fácil. A Patrícia coloca o estetoscópio em Miguel e ajuda-o a escutar o coração do bebé. Ui, bate bem forte. Alexandre observa a cena e fica impressionado.
A Patrícia conseguiu interagir com o Miguel através da Carla, e não apesar dela. Durante o jantar, Patrícia é inteligente suficiente para incluir a Carla na conversa. Carla, para quando está previsto o nascimento? Para daqui a do meses e meio. Primeiro filho. Sim. Que emocionante. Já sabe o sexo? Vai ser menina.
Miguel, que estava a ouvir, se anima. Menina, então vou ter uma irmãzinha. A frase inocente cria um silêncio constrangedor. Miguel, Alexandre corrige. Não vai ser sua irmã, é filha da tia Carla. Mas se a a tia Carla vive aqui, a bebé também vai morar. Não necessariamente. Miguel fica confuso. Por que não? Alexandre não sabe como explicar.
Patrícia adianta-se. Miguel, famílias são formadas de formas diferentes. Às vezes as pessoas vivem juntas, outras não. E se eu quiser que a bebé viva aqui? Isso quem decide são os adultos. Miguel fica pensativo, depois olha para Alexandre. Papa, pode decidir que vivem aqui para sempre? Todos os olhares se viram para Alexandre, que fica sem saber o que responder.
Vamos ver, filho. Depois do jantar, a Patrícia despede-se educadamente, mas deixa claro o seu interesse. Alexandre, foi uma noite maravilhosa. O Miguel é um menino muito especial. Obrigado. E a Carla parece ser uma ama excepcional. É sim. Você tem sorte de a ter encontrado. A Patrícia se despede-se com um beijinho na cara, mas Alexandre percebe que ela é genuinamente simpática com a Carla e o Miguel.
Quando saem, Margarete comenta: “Esta sim foi melhor que a Verónica. Foi mais natural e inteligente. Percebeu que o caminho para o conquistar é através do Miguel e da ama”. Alexandre franze a testa. Como assim? Ela foi esperta. Em vez de competir com a ama, aliou-se a ela. E isso é mau? É estratégia. Mulher inteligente sabe que não pode atacar frontalmente, tem de ser subtil.
Alexandre não gosta da forma como a mãe fala sobre a Patrícia. Talvez ela seja genuinamente simpática. Talvez. Mas você vai saber quando a ama sair. Por que ela sairia? Porque bebé vai nascer. Alexandre, acha que ela vai conseguir cuidar do Miguel e de um recém-nascido? A pergunta fica a ecoar na cabeça de Alexandre.
É certo que ele não pensou direito sobre o que acontecerá quando o bebé de Carla nascer. Na semana seguinte, decide abordar o assunto diretamente. Carla, precisamos de falar sobre o que vai acontecer quando o seu bebé nascer. Carla sente o estômago apertar. O senhor quer que eu saia? Não é isso? É que vai tornar-se complicado você cuidar do Miguel e de uma recém-nascida.
Eu posso tentar conciliar. Vai ser muito difícil. Carla baixa os olhos. Eu sei. Você pensou em alguma alternativa? Pensei em procurar uma creche para deixar a minha filha durante o dia. O bebé recém-nascido não pode ficar em creche. Então, então não sei o que fazer. Alexandre vê o desespero nos olhos dela. Carla, não estou a pressionar-te para sair.
Só quero que pensemos numa solução. Que tipo de solução? Não sei ainda. Talvez, talvez pudesse ficar aqui mesmo depois de o bebé nascer. Carla levanta os olhos, surpreendida. Ficar como? Como como? Como? Família. A palavra fica suspensa no ar. Senr. Alexandre, pode me chamar apenas Alexandre. Alexandre, o senhor não pode dizer isso por pena de mim. Não é pena.
Então é o quê? Alexandre hesita. Como explicar que se apaixonou-se por ela? Como dizer que não consegue mais imaginar a vida sem ela e Miguel? É gratidão. Você transformou a vida do Miguel e a minha também. A gratidão não é base para o que o Sr. está a sugerir. Não estou a sugerir nada ainda. Só estou a pensar em possibilidades. Carla levanta-se.
Alexandre, eu sei qual é o meu lugar. Sou a ama. Quando já não precisar dos os meus serviços, vou-me embora. E se eu disser que vou sempre precisar? Carla o olha nos olhos. Para ser babysitter ou para ser algo mais? A pergunta direta deixa Alexandre sem resposta. Eu ainda não sei. Quando souber, me avisa.
Carla sai da sala, deixando Alexandre sozinho com os seus sentimentos confusos. No dia seguinte, Margarete aparece com Helena e Beatriz para uma intervenção. Alexandre, precisamos de ter uma conversa séria sobre o quê? Sobre o que está a acontecer entre si e a babá. Não está a acontecer nada. Mentira. Helena diz diretamente. Ontem mesmo a Patrícia comentou que se apercebeu uma tensão romântica entre vocês.
A Patrícia disse isso? Disse e ela tem experiência para anotar estas coisas. Beatriz adianta. Alexandre, estás envolvendo-se emocionalmente com uma funcionária grávida. Isto é problemático a vários níveis. Por que é problemático? Primeiro, Helena enumera, porque está grávida de outro homem. Segundo, a Beatriz continua, porque vocês são de classes sociais diferentes.
Terceiro, Margarete completa, porque ela pode estar a aproveitar-se da sua vulnerabilidade. Alexandre irrita-se. Vocês não conhecem a Carla. Conhecemos mulheres como ela, Helena responde, mulheres desesperadas que utilizam a maternidade para conseguir segurança financeira. A Beatriz explica. Isso é preconceito.
Isto é experiência de vida. Margarete corrige. Alexandre, está a ser ingénuo. Estou a ser humano. Você está confundindo o carinho maternal dela pelo Miguel com interesse romântico por si. Não estou a confundir nada. Está sim. Helena insiste e quando o seu bebé nascer, vai ver-se a sustentar duas crianças que não são suas.
A frase incomoda, Alexandre. É certo que seria financeiramente responsável pela filha da Carla se ela continuasse a viver na mansão. E daí? Como assim? E daí? Beatriz explode. Vai virar pai de uma criança que outro homem fez? Se eu escolher isso, sim. As três mulheres ficam escandalizadas. Alexandre, Margarete aproxima-se.
Você perdeu o juízo. Está a ponderar assumir responsabilidade por uma criança que nem é sua para ficar com uma mulher que nem sabemos se é fiável. A Carla é fiável. Baseado em quê? No que eu vejo todos os dias. Vê o que ela quer mostrar. Alexandre levanta-se irritado. Chega. Eu decido a minha vida. E a vida do Miguel? Helena pergunta.
Você vai criar o seu filho juntamente com o filho de outro homem? Se for necessário, Alexandre. A Beatriz fala mais suave. Pense bem. Tem 35 anos. É rico, bem-sucedido. Pode ter qualquer mulher. Porque é que eu iria querer qualquer mulher se posso ter a mulher certa? Como você sabe que ela é a certa? Porque? Porque sim.
Alexandre sai do gabinete sem terminar a conversa. As três ficam preocupadas. Ele está mais apaixonado do que imaginavam. Nessa noite, Alexandre encontra Carla a ler para Miguel no quarto e a princesa descobriu que o dragão não era mau, apenas estava sozinho e triste, tal como eu estava antes da tia Carla chegar.
Miguel comenta: “É, o meu amor, às vezes as pessoas parecem zangadas só porque estão tristes e quando alguém cuida delas com carinho, ficam boas outra vez.” Exatamente. Alexandre observa da porta a forma como Carla transforma simples histórias em lições de vida para Miguel. É impressionante. Tia Carla? Sim. Está triste às vezes.
Por que razão pergunta? Porque hoje estavas quieta. A Carla olha para Alexandre à porta, depois volta à atenção para o Miguel. Às vezes fico um bocadinho triste, sim. Por quê? Por quê? Porque às vezes não sei como as coisas vão ser no futuro. Que coisas? Onde eu vou viver quando a minha bebé nascer? Como vou cuidar de vocês as duas? Você vai viver aqui para sempre? Não sei, meu amor.
Eu Quero que more. Eu também quero, mas não é só o que eu quero que importa. Miguel olha para Alexandre. Papa, queres que a tia Carla vive aqui para sempre? Alexandre entra no quarto. Por que razão você quer saber? Porque se quiser e eu quiser, então ela pode ficar, não é? A lógica simples da criança desarma Alexandre. Não é assim tão simples.
Por que não? Alexandre olha para Carla, que mantém os olhos baixos. Por quê? Porque os adultos complicam as coisas. Então não compliquem. O Miguel boceja. Estou com sono. Carla tuca-o na cama e dá um beijinho à testa. Boa noite, meu amor. Boa noite, tia Carla. Boa noite, papá. Boa noite, filho.
Carla e Alexandre saem do quarto juntos. Alexandre, sobre o que falámos ontem. Sim, pensei muito e acho que quando a minha filha nascer é melhor eu procurar outro emprego. Alexandre sente o coração parar. Por quê? Porque a situação está a ficar complicada. Como assim complicada? Você sabe como? Alexandre pára no meio do corredor.
Carla, se a complicação for o que estou a sentir por ti, isso não é um problema que precisa de resolver sozinha. Carla encará-lo. O que você está a sentir por mim? Alexandre hesita, mas decide ser honesto. Estou a me apaixonando por si. As palavras ficam suspensas no ar durante um longo momento. Alexandre, e sente alguma coisa por mim? Carla baixa os olhos.
Isso não importa. Importa sim. Não importa porque somos de mundos diferentes. Mundos diferentes como: “Tu és bilionário. Sou babá grávida sem família”. E então? Como assim? E então? O Alexandre, a mãe e as amigas dela t razão. O que é que as pessoas vão pensar? Me importo com o que as pessoas pensam. Eu me importo.
Por quê? Porque não quero que achem que me estou a aproveitar de você. Alexandre aproxima-se dela. Carla, olha-me nos olhos. Ela obedece relutantemente. Acha que eu sou otário? Claro que não. Então, porque é que eu deixar-me-ia enganar por uma oportunista? Não é isso? É sim. Ou acha-me burro, ou sabe que não é oportunista. Carla suspira.
Eu sei que não sou oportunista. Então, qual é o problema? O problema é que é que é que o quê? é que eu também estou a apaixonar-me por você. A confissão sai como um sussurro. Alexandre sente o coração acelerar. Então, porque é que isso é um problema? Por não vai resultar? Por que não? Porque quando o bebé nascer, tudo vai complicar.
Vai ter que sustentar uma criança que não é sua. A sua família vai pressionar ainda mais. As pessoas vão dizer: “Carla, ouve-me?” Alexandre pega-lhe nas mãos. Eu não me importo com nada disto. Você diz que agora, mas quando a realidade bater, a realidade já bateu. Eu amo-te. Amo o Miguel e vou adorar a sua filha também. Carla começa a chorar.
Como pode ter a certeza? Porque nunca senti isso por ninguém, nem pela Camila. A comparação com a mulher morta assusta a Carla. O Alexandre não diz isso. É verdade. A Camila e eu casámos por conveniência, desenvolvemos afeto, mas não era amor verdadeiro. E acha que isto é amor verdadeiro? Tenho a certeza. Alexandre inclina-se e beija Carla suavemente. Ela não resiste.
Quando se separam, os dois estão ofegantes. Alexandre, casa comigo. A proposta pega a Carla totalmente desprevenida. O quê? Casa comigo. Vamos ser uma família de verdade. Tu, eu, o Miguel e a tua filha. Está louco? Estou apaixonado. É a mesma coisa. Alexandre ri-se. Talvez seja, mas é o que eu quero. Tem certeza? Absoluta. Carla abraça-o, chorando.
Eu amo-te, Alexandre. Eu também te amo. Ficam abraçados no corredor até ouvirem uma voz irritada atrás deles. Eu sabia. É Margarette que chegou de surpresa e apanhou o beijo. Mãe, eu sabia que isto ia acontecer. Essa mulher enfeitiçou-te. Carla afasta-se de Alexandre envergonhada. Dona Margarete, a senhora não fala comigo.
Margarete aponta o dedo para Carla. Fez exatamente o que eu imaginei. Seduziu o meu filho usando o Miguel. Não foi assim, Alexandre protesta. Foi sim. Ela planeou tudo desde o primeiro dia. Mãe, para com isso. Não paro. Não percebe que está a ser enganado? Margarete vira-se para Carla. Quantos homens ricos já tentou engravidar antes de o conseguir, dona Margarete. Eu nunca mentirosa.
A criança que está à espera nem deve ser do namorado que te abandonou. Deve ser de algum outro homem casado que V. tentou chantagear. Alexandre explode. Chega. O grito ecoa pela casa toda. Mãe, passaste do limite. Eu passei o limite. Você que está a perder a cabeça por uma aventureira. A Carla não é aventureira.
É sim. E vou provar. Margarete sai de casa batendo com a porta. Alexandre vira-se para Carla, que está a chorar. Não liga a o que ela disse. Como não vou ligar? Ela é a sua mãe. Ela está errada. Mas outras pessoas vão pensar a mesma coisa. Alexandre abraça Carla, deixa elas pensarem. Na manhã seguinte, Margarete regressa com reforços.
Helena e Beatriz, mais um investigador particular. Alexandre, contratei o Dr. Silva para investigar o passado da sua defuncionária. Fez o quê? Investigação de antecedentes. É o mínimo que se faz. O investigador, um homem de 50 anos com cara de poucos amigos, abre uma pasta. Senor Alexandre, encontrei algumas informações perturbadoras sobre a senrita Carla Silva.
O Alexandre sente raiva, mas também curiosidade. Que informações! Foi despedida do último emprego por roubo. Impossível. Tenho aqui o relatório da família. Sumiu uma jóia valiosa na casa onde trabalhava. O Alexandre olha para a mãe. Você mandou fabricar isso? Claro que não. São documentos reais. O investigador continua.
E sobre a gravidez dela Descobri que o suposto ex-namorado, na verdade é casado. Ela tentou chantagear ele para assumir a criança. Alexandre sente o mundo a girar. De onde é que vocês retiraram essas informações? Investigação séria, filho, com fontes fiáveis. Alexandre sobe a correr para confrontar Carla. A encontra no jardim com o Miguel.
Carla, preciso de falar contigo. Ela repara no tom alterado. Aconteceu alguma coisa? A minha mãe contratou um investigador. O rosto de Carla empalidece. E ele disse que o senhor foi despedida do último emprego por roubo e que o pai do seu bebé é casado. Carla sente as pernas bambas. Alexandre, é verdade, Carla.
olha para Miguel, que ouve tudo com os olhinhos arregalados. Miguel, vai brincar lá para dentro um minutinho. Mas vai, meu amor, já volto. Depois de Miguel sair, Carla vira-se para Alexandre. Parte é verdade. Alexandre sente o coração parar. Que parte? É certo que fui despedida do último emprego, mas não por roubo. Então, porquê? Carla respira fundo.
A patroa acusou-me de ter roubado um anel, mas não foi verdade. E por que razão ela faria uma acusação falsa? Porque descobriu que o marido estava a confessar-se comigo sobre os problemas no casamento. Ela achou que eu o estava a seduzir. E estava? Claro que não. Eu só ouvia quando ele precisava de desabafar.
Nunca houve nada entre nós. Alexandre observa o rosto de Carla, à procura de sinais de mentira. E sobre o pai do seu bebé. A Carla baixa os olhos envergonhada. É verdade que é casado? Alexandre sente como se tivesse levado um soco no estômago. Você sabia? Não sabia quando envolvi-me com ele. Descobri depois que engravidei.
E aí? Aí ele disse-me que nunca ia assumir a criança. E se eu contasse à sua esposa, ele negaria tudo. Por isso está sozinha. Por isso estou sozinha. Alexandre fica em silêncio por um longo momento, processando a informação. Carla, por que não me contou isso desde o início? Porque sabia que não me ias contratar se soubesse a verdade toda.
Você mentiu-me. Omiti detalhes. É a mesma coisa. Carla começa a chorar. Alexandre, eu sei que errei, mas eu precisava daquele emprego. Não tinha para onde ir. Fez-me acreditar que o namorado abandonou-te por Covarian. Não disse-me que era casado, porque sabia que me ia julgar. Não ia julgar, ia querer perceber. Ia mesmo.
Alexandre fica pensativo. É certo que se soubesse desde o início que a Carla se envolveu com um homem casado, teria pensado duas vezes antes de a contratar. Não sei. Portanto, eu estava certa em não contar. Não tinha razão em mentir. Carla afasta-se dele. Alexandre, se você quer que eu vá embora, eu vou. É isso que quer? Quero ficar, mas não se for para ser julgada todos os dias.
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