Alexandre passa a mão pelo rosto confuso. Carla, preciso de processar isto tudo. Processa então. Mas não me castiga por erros do passado. Não é castigo, é decepção. Desilusão porquê? Por eu não ser perfeita, por você terme mentido. Eu não menti sobre o que importa. Como assim? Não menti sobre amar-te. Não menti sobre amar o Miguel.

 Não menti sobre querer ser família. Alexandre olha-a nos olhos e vê sinceridade. Como é que eu sei que não está a mentir agora? Porque me conhece, conhece o meu coração. Nesse momento, Miguel aparece a correr no jardim. Tia Carla, por que está chorando? A Carla limpa as lágrimas rapidamente. Não é nada, meu amor. Papa fez-te chorar.

 A pergunta inocente constrange Alexandre. Não, filho, só estamos a conversar. Conversa que faz chorar é discussão. A sabedoria infantil desarma os dois adultos. Miguel, Carla, ajoelha-se na altura dele. Por vezes, os adultos discutem, mas isso não quer dizer que não se amem. Vocês amam-se? Carla olha para Alexandre aguardando a resposta. Sim.

 Alexandre responde depois de hesitar. Nós nos amamos. Então, por que razão estão a discutir? Porque cometi alguns erros e o Papa está chateado. Que erros? Erros que lhe não precisa de se preocupar. Miguel abraça Carla. Todo o mundo erra. Às vezes o papa também erra. É verdade. Mas quando a a gente ama, a gente perdoa, não é? Alexandre sente uma pontada no peito.

 O próprio filho está a dar-lhe uma lição. É verdade, Miguel. Nessa noite, depois que Miguel dorme, Alexandre procura Carla no quarto dela. Carla, posso entrar? Pode. Ele encontra-a arrumando as suas coisas numa mala. Vai embora? Acho que é melhor. Não quero que vá. Mas já não confias em mim. Alexandre senta-se na cama ao lado dela.

 Carla, me escuta. Ela deixa de fazer a mala e o olha. Estou a escutar. Eu fiquei chateado porque não confiaste em mim para contar a verdade. Eu sei, mas compreendo porque fez isso. Entende? Estava desesperada, sozinha, grávida. Faria qualquer coisa para sobreviver. A Carla sente os olhos marejarem. É verdade.

 E não te posso condenar por isso. Não pode? Não posso, porque no seu lugar talvez fizesse a mesma coisa. Carla atira-se para os braços dele, a chorar. Eu sinto muito, Alexandre, muito mesmo. Eu também sinto. Sente o quê? Sinto que te fiz se sentir-se julgada quando deveria terte acolhido. Ficam abraçados por um longo tempo. Alexandre. Sim.

A sua proposta de ontem ainda é válida? Que proposta? De casamento. Alexandre se afasta-se para olhar nos olhos dela. Vale, mas agora com uma condição. Que condição? Nada de mentiras entre nós. Nunca mais. Prometo. E eu prometo que nunca mais te vou julgar pelo passado. A Carla sorri pela primeira vez no dia.

Então, estamos noivos. Estamos noivos. Beijam-se com paixão, mas são interrompidos por uma pancada na porta. Carla, a tia Carla, é a voz do Miguel. O que foi, meu amor? Carla abre a porta. Tive pesadelo. Que pesadelo? Sonhei que ias embora e nunca mais voltavas. Alexandre pega no filho ao colo. A tia A Carla não vai embora nunca mais.

Promete? Prometo. E também não vai embora, papá? Eu também não. E quando a bebé da tia Carla nascer, depois vamos ser uma família de quatro pessoas. Miguel sorri radiante. Uma família grande. É uma família grande e feliz. Na manhã seguinte, Alexandre desce para tomar café e encontra Margarete, Helena e Beatriz à espera na sala.

 Mãe, o que estão a fazer aqui? Viemos cobrar uma decisão, diz Margarete seriamente. Que decisão? Vai despedir a babá ou não? Alexandre senta-se na poltrona. Não vou despedir. Vou casar com ela. O silêncio que se segue é sepulcral. Você enlouqueceu, Helena grita. Estou apaixonado. Mesmo sabendo que ela lhe mentiu. Beatriz pergunta sabendo tudo.

Alexandre Margarete aproxima-se. Você vai assumir uma criança que não é sua? Vou. Vai sustentar uma mulher que engravidou de um homem casado? Vou. Vai destruir a sua reputação por uma aventureira. Não é aventureira, é a mulher que amo. As três ficam visivelmente irritadas. Então escolheu-a ao invés da sua família? Helena pergunta.

 Escolhi a minha felicidade. E se a sua família não aprovar esse casamento? O Alexandre olha para as três mulheres. Então vou ter de aceitar que vocês já não fazem parte da minha vida. Margarete fica pálida. Você está expulsando-me da sua vida por causa de uma empregada doméstica? Estou a escolher quem fica na minha vida e quem fica são pessoas que me apoiam. Alexandre.

Beatriz tenta uma última cartada. Pensa no Miguel. Que tipo de educação vai ter a crescer com uma mulher sem classe? Vai ter a educação que interessa. Vai aprender sobre o amor, a compaixão, a humildade e sobre a posição social, sobre tradição familiar. Vai aprender que este não importa quando se tem uma família que te ama.

 As três saem da casa derrotadas. Horas depois, Carla desce para a sala e encontra Alexandre a mexer no computador. As visitas foram embora? Foram e já não voltam. Alexandre, não quero que se afaste da sua família por minha causa. Não me estou a afastar. Estou a escolher prioridades. E se elas não mudarem de opinião, problema delas.

 Carla senta-se ao lado dele. Tem certeza disso? Absoluta, Carla. Tiveram a chance de conhecer quem você realmente é. Se escolheram ver só preconceito, o problema não é nosso. E se as outras pessoas pensarem da mesma forma? Deixa elas pensarem. Nesse momento, Miguel aparece a correr na sala. Papa tia Carla tem uma novidade.

 Que novidade? Falei com a bebé da barriga da tia Carla e ela mexeu. Ela gostou de mim. Alexandre e Carla riem-se. Claro que ela gostou de você, Carla. responde: “Vais ser o melhor irmão mais velho do mundo e tu vai ser a melhor mãe do mundo. Obrigada, meu amor. E o papa vai ser o melhor pai do mundo. Vou tentar.

 Miguel abraça os dois. Eu amo a nossa família. Nós também adoramos.” Alexandre responde, olhando para Carla. Dois meses depois, numa tarde de sábado, Carla sente as primeiras contrações. Alexandre, acho que chegou a hora. A hora? A bebé está vindo. Alexandre entra agora em pânico, mas ainda falta uma semana. Os bebés não respeitam cronograma. Miguel.

 Alexandre grita. Vamos para o hospital. Por quê? A a irmãzinha da tia Carla vai nascer. Miguel fica eufórico. Hoje, hoje mesmo. Hoje mesmo. No hospital, Alexandre segura a mão de Carla durante todo o trabalho de parto. Está a ir bem? Ele sussurra. Dói muito. Eu sei, mas logo vai passar. Depois de seis horas de trabalho de parto, a bebé finalmente nasce.

 É uma menina linda, o médico anuncia. Carla chora de emoção ao ver o filha pela primeira vez. Ela é perfeita. Alexandre observa a cena emocionado. A bebé tem cabelos escuros como a mãe e olhos grandes e curiosos. Como vai chamá-la? Helena, em homenagem à sua mãe, Alexandre fica surpreendido, mesmo depois de tudo o que ela fez, porque ela é sua mãe e talvez isso a ajude a nos aceitar.

 Uma hora depois, Miguel chega ao hospital acompanhado pela dona Antónia. Onde está a minha irmãzinha? A Carla mostra a bebé para ele. Olha, Miguel, esta é a Helena. Miguel fica fascinado. Ela é pequenina. É sim, mas vai crescer rápido. Posso tocar-lhe? Pode sim. Miguel toca delicadamente na mãozinha do bebé. Olá, Helena.

 Eu sou o seu irmão mais velho. Vou cuidar de ti para sempre. Como se entendesse, a bebé agarra o dedinho dele. Papa, olha, ela gostou de mim. O Alexandre sorri. Claro que gostou. És um irmão maravilhoso. Naquela noite, quando Carla e Helena estão a dormir, Alexandre fica observando as suas duas mulheres. Dona Antónia aproxima-se. Senr.

 Alexandre, posso dizer uma coisa? Claro. Em 20 anos a trabalhar para a sua família, nunca o vi tão feliz. É verdade. Estou muito feliz. E o Miguel também. Ele mudou completamente desde que a Carla chegou. mudou para melhor. A a menina Carla é uma bênção na vida de vocês. É mesmo? E esta bebé, ela vai ser muito amada. O Alexandre sorri.

 Vai ser filha minha também. O senhor vai adotá-la? Vou e vou dar o meu apelido para ela. Helena Santoro. Helena Santoro. Uma semana depois, voltam para casa. A mansão foi decorada com balões cor-de-rosa para receber a Helena. Bem-vinda a casa, princesinha”, Diz Alexandre, segurando a bebé. Miguel corre atrás deles.

 “Papá, agora podemos fazer a festa de casamento. Que festa? Vocês não vão casar?” Alexandre olha para Carla. Vamos sim. O que acha de sermos uma família oficial? Eu adoraria. Assim, vamos marcar o casamento. E posso levar as alianças? Miguel pergunta entusiasmado. Pode sim. E a Helena pode ser da minha? Ela ainda é muito pequena para ser da minha.

 Então ela pode ser o quê? Ela pode ser a nossa filha mais nova no casamento. Miguel abraça Alexandre e Carla. Vai ser o casamento mais bonito do mundo. Três meses depois, numa cerimónia simples no Jardim da Mansão, Alexandre e Carla se casam. Miguel entrega as alianças vestido com um fato azul marinho. A Helena dorme tranquila nos braços da mãe, usando um vestidinho branco de renda.

 Alexandre Santoro, diz o juiz, aceita a Carla Silva como sua esposa? Aceito com todo o amor do meu coração. Carla Silva, aceitas Alexandre Santoro como seu marido? Aceito para sempre. E vocês, Miguel e Helena, aceitam ser irmãos para sempre? Miguel grita: Aceitamos. Todos se riem. Então eu declaro-vos marido, mulher e família. Alexandre beija Carla enquanto Miguel bate palmas e Helena dorme tranquila.

 Na plateia pequena, apenas os funcionários da casa e alguns verdadeiros amigos de Alexandre. Margarete não veio, nem Helena, nem Beatriz, mas Alexandre não se importa. tem tudo o que precisa ali na frente dele. Seis meses depois, Helena está a crescer rapidamente. Ela ri-se para Miguel, que a trata como uma princesa.

 Papa, a Helena falou, mano. Ela ainda é pequena para falar, mas eu ouvi. Alexandre ri-se da imaginação do filho. Uma tarde está no escritório quando recebe uma chamada inesperada. Alexandre, é a sua mãe. Mãe, posso posso ir aí? Alexandre hesita. Para quê? Para conhecer. Para conhecer a minha neta? Alexandre fica surpreendido.

 Há seis meses que não fala com Margarete que mudou. Eu pensei muito e talvez, talvez tenha sido injusta. Talvez estivesse. Estava sendo injusta. Alexandre olha pela janela e vê Carla a brincar com as duas crianças no jardim. O Miguel está empurrando Helena num balancinho de bebé. Carla ri-se gostoso da alegria dos filhos.

 Mãe, pode vir, mas tem regras. Que regras? Vai tratar a Carla com respeito, vai tratar Helena como a sua neta e não vai fazer qualquer comentário preconceituoso. Está bem? Tem a certeza? Tenho. Quero conhecer a minha família. Uma hora depois, Margarete chega à mansão. Está visivelmente nervosa. Alexandre recebe-a à porta.

 Mãe, filho, abraçam-se, mas ainda há atenção no ar. Onde está? Onde estão? No jardim. Margarete caminha lentamente até ao jardim e para ver a cena. A Carla está no chão a brincar com Helena, que gatinha no relvado. Miguel está a construir um castelo de areia ao lado delas. Olha, Helena, é a avó do Miguel.

 A Helena levanta os olhinhos curiosos. Mãe, Alexandre aproxima-se. Esta é a Carla, a minha esposa. A Carla se levanta-se, segurando Helena ao colo. Dona Margarida. Carla. Elas cumprimentam-se friamente. E esta é a Helena, a sua neta. Margarete olha para a bebé e sente algo se mexer no peito. A Helena tem olhos grandes e expressivos, tal como Miguel tinha nessa idade. Ela é Ela é bela.

Quer apanhá-la? Posso? Carla entrega Helena a Margarete, que a segura com cuidado. Olá, Helena. Eu sou a tua avó. Helena sorri um sorriso desdentado. Ela sorriu para mim. Ela gosta de todo o mundo. Miguel comenta. É igual à tia Carla. Margarete olha para Carla. Ela parece ser uma bebé feliz. É muito feliz. Nunca chora, sorri sempre.

 Bebê felizes vem de famílias felizes. A frase soa a um pedido de desculpas velado. É verdade. A Carla concorda. Durante a tarde, Margarete observa a dinâmica da família. Vê como a Carla cuida das duas crianças com igual carinho. Como O Alexandre ajuda em tudo. Como Miguel trata Helena como uma verdadeira irmã.

 Na hora de ir embora, ela pede para falar com a Carla em particular. Carla, posso-te pedir uma coisa? Pode, perdoa-me. Eu fui horrível consigo. Carla fica surpreendida com a sinceridade. Dona Margarete, não, deixe-me falar. Eu estava com medo. Medo de quê? Medo de perder o meu filho, de não ser mais importante para ele.

 A senhora sempre vai ser importante para ele. Mas agora ele tem-no a si. E vocês são felizes de um forma como ele nunca foi comigo. Carla compreende a dor da sogra. Dona Margarete, uma mãe nunca perde o lugar no coração do filho, só ganha companhia. Você acredita mesmo nisso? Acredito e Quero que a senhora faça parte da nossa família. Margarete começa a chorar.

 Você perdoa-me mesmo? Perdoo. E quero que ser a avó das minhas duas crianças. Duas, o Miguel e a Helena, para mim não há diferença. Margarete abraça Carla. Obrigada. Obrigada por cuidar tão bem do meu filho e do meu neto. E obrigada por dar-me uma chance. Dois anos depois, a família Santoro está consolidada.

 Helena caminha e diz algumas palavras. Miguel está na escola e adora contar a todos que tem uma irmãzinha. Numa tarde de domingo, estão todos no jardim quando Helena dá os primeiros passos sozinha. Olha, o Miguel grita. Helena andou? Andou, sim. A Carla bate palmas. Helena caminha cambaleante em direção a Alexandre, que abre os braços.

 Vem cá, princesa. Helena chega até ele rindo e atira-se para os braços do pai. Papá. É a primeira vez que ela diz papá claramente. Alexandre fica emocionado. Ela chamou-me de papá. Porque você é o pai dela. A Carla responde em todos os sentidos. Em todos os sentidos. Miguel corre para se juntar ao abraço. Grupo familiar.

 Os quatro ficam abraçados no jardim sob o sol da tarde. Carla. Alexandre sussurra. Sim. Obrigado. Por quê? Por me ter salvo a vida. Que a vida do Miguel, vocês que salvaram a minha, então salvamo-nos uns aos outros. Salvamos. Miguel solta-se do abraço. Papa, posso fazer uma pergunta? Claro. Se não tivesse despedido as nove amas, teria encontrado a tia Carla? Alexandre pensa na pergunta.

 Não sei, filho. Então, foi bom ter despedido elas? Foi a melhor coisa que fiz na vida. A Carla sorri. A décima ama era a certa. A décima ama era o amor da minha vida. Helena balbucia algumas sílabas, como se quisesse participar na conversa. A Helena está a dizer que nos ama. Miguel traduz. Como sabe? Porque eu entendo linguagem de bebé. Todos se riem.

 E o que mais ela está a dizer? Carla pergunta. Miguel encosta o ouvido perto da irmã. Ela está a dizer que somos a família mais feliz do mundo. Alexandre olha em redor, a sua casa, a sua mulher, os seus filhos, a sua vida. Ela tem razão. Somos a família mais feliz do mundo. E era mesmo.

 Às vezes, as melhores coisas da vida surgem quando menos esperamos. Alexandre procurava uma ama e encontrou uma família. A Carla procurava um emprego e encontrou um lar. O Miguel precisava de cuidado e encontrou amor. A Helena nasceu e encontrou três pessoas dispostas a amá-la incondicionalmente. O preconceito quase destruiu esta felicidade, mas o amor foi mais forte.

Porque quando encontra a sua verdadeira família, não importa como ela se formou, importa apenas que exista. E a família Santoro existia, forte e unida, provando que o verdadeiro amor não conhece diferenças de classe social, não liga ao passado e sempre encontra uma forma de vencer. Fim. Gostou dessa história? O que achou da transformação do Alexandre? Carla mereceu esta família? Deixa nos comentários.

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