Zezé Di Camargo HUMILHADO AO VIVO por CHICO BUARQUE 

Zezé, vocês transformaram a música sertaneja em instrumento de manipulação política. Isto é uma traição à arte e a democracia brasileira. A declaração serena, mas devastadora, de Chico Buarque ecoou pelo estúdio com a autoridade de quem dedicou décadas à música e à defesa da liberdade, fazendo o cantor sertanejo remexer-se desconfortavelmente na cadeira.

 Chico, com todo o respeito, não compreende o nosso público. A gente só expressa o que o povo sente. Zezé respondeu com voz hesitante, claramente intimidado pela presença do ícone da MPB. Expressa o que o povo sente ou manipula o que o povo deve sentir, porque há uma diferença fundamental entre a arte e a propaganda política.

 Chico retorquiu com a sua característica calma intelectual, ajustando os óculos com a sabedoria de quem viveu e resistiu a ditaduras. O programa ao vivo tinha começado como um encontro histórico entre duas gerações da música brasileira, mas rapidamente se transformou-se em um confronto ideológico onde Chico Buarque, ícone da resistência cultural, decidiu questionar o papel político da música sertaneja contemporânea. O contraste era flagrante.

De um lado, o Chico com a sua elegância intelectual e história de luta pela democracia. do outro, Zezé, visivelmente nervoso perante a autoridade moral do compositor. Olha, Chico, nós sempre cantou para o povo brasileiro. Zezé tentou justificar-se, mas a sua voz já demonstrava insegurança. Cantar para o povo é uma coisa, Zezé.

 Usar a música para incitar o povo contra as instituições democráticas é outra completamente diferente. O Chico foi preciso inclinando-se para a frente com a postura de quem estava prestes a dar uma lição de responsabilidade artística. A atenção no estúdio era palpável. Os técnicos pararam as suas atividades, conscientes de que estavam a presenciar um momento histórico da música brasileira.

 Enquanto Zezé, conhecido por a sua simpatia e carisma, parecia diminuído perante a presença imponente do mestre da MPB. Chico, estás exagerando. A gente nunca fez publicidade política. Zezé murmurou, mexendo nervosamente com o chapéu. Nunca fizeram, Zezé, vocês cantaram em atos que pediam o encerramento do Supremo, intervenção militar, golpe de Estado.

Como lhe chama? E Chico questionou com a precisão de um professor confrontar um aluno impreparado. O compositor pegou em alguns papéis. Zezé, trouxe aqui algumas fotos e vídeos. Vocês no palco, no dia 7 de setembro cantando enquanto multidões gritavam: “Fora STF!” Intervenção militar. Vocês eram a trilha sonoro do autoritarismo.

Zezé estava visivelmente desconfortável. A gente só cantava, não controlava o que o público gritava. Só cantavam, Zezé. Quando um artista sobe ao palco, ele assume a responsabilidade pelo contexto. Sabiam exatamente onde estavam e o que representavam. Chico foi categórico, com a autoridade de quem enfrentou a censura e a repressão.

 Chico levantou-se e caminhou pelo estúdio com a elegância de um intelectual. Zezé, vou-te contar uma coisa que aprendi em décadas de carreira. A arte tem poder e o poder traz responsabilidade. Mas, Chico, nós temos o direito de ter opinião política. Zezé tentou argumentar. Claro que tem, Zezé. Eu mesmo sempre tive posições políticas claras, mas há uma diferença entre expressar opinião e usar a arte para manipular massas”, Chico explicou pacientemente.

 O compositor continuou: “Durante a ditadura, usei a minha música para resistir à opressão. Vocês usaram a vossa música para apoiar tendências autoritárias.” Vê a diferença? Zeszé estava su visivelmente. Isso não é justo, Chico. Não é justo, Zezé. O que não é justo é utilizar a confiança do povo para promover ideologias antidemocráticas.

Chico foi implacável, mas mantendo o seu tom educativo. Chico voltou para a sua cadeira. Zezé, vou explicar-te algo sobre o poder da música. Ela não só reflete a sociedade, molda-a. Vocês moldaram uma geração para aceitar o autoritarismo. Chico, estás exagerando o nosso poder. Zezé murmurou. Exagerando, Zezé? Vocês têm milhões de fãs. As suas músicas tocam em todo o país.

Quantos jovens foram influenciados por as suas narrativas políticas? Chico questionou diretamente. O compositor levou mais documentos. Zezé, eu Pesquisei sobre o impacto da música sertaneja politizada. Os estudos mostram que ela contribuiu significativamente para a polarização social. Chico começou a citar dados.

 Segundo inquéritos, regiões onde a música A sertaneja politizada tem maior penetração, apresentam índices mais elevados de intolerância política e desconfiança nas instituições. Zezé estava claramente abalado. Isto, isto não pode ser só por causa da a nossa música. Não só, mas vocês contribuíram.

 E contribuição significa responsabilidade. Chico foi categórico, ajustando os óculos com a sabedoria de quem entendia profundamente o papel social da arte. Chico levantou-se novamente. Zezé, durante a ditadura, muitos artistas se omitiram, calaram-se, colaboraram. A história não os perdoou. Vocês estão repetindo o mesmo erro.

 Mas não era ditadura, Chico. Zezé tentou argumentar. Ainda não era, Zezé, mas vocês estavam apoiando quem queria instaurar uma. Estavam a ser a banda sonora de uma tentativa de golpe. O Chico foi preciso. O compositor continuou: “Zez, vivi uma ditadura. Sei como ela começa. Sempre começa com artistas, intelectuais e comunicadores legitimando o autoritarismo.

 Chico dirigiu-se às câmaras. Brasil, estão a ver como a arte pode ser utilizada para fins políticos perigosos, como os artistas podem ser irresponsáveis com a sua influência. O compositor regressou a Zezé. Sabe o que mais me entristece? Vocês têm talento real. Poderiam usar a sua música para unir o país para promover valores positivos.

Sempre quisemos o bem do Brasil. Zezé murmurou. Queriam o bem do Brasil apoiando tentativa de golpe? Zezé, golpe nunca esteve bem para país nenhum. Chico foi implacável, mas mantendo a sua elegância intelectual. O Chico pegou numa guitarra que estava no estúdio. Zezé, vou mostrar-te a diferença entre música engajada responsável e propaganda política.

 O compositor tocou alguns acordes. Quando compus cálice, estava protestando contra a censura, defendendo a liberdade. Quando cantam em atos antidemocráticos, estão a atacar a liberdade. Zezé estava visivelmente emocionado. Chico, nunca pensei nisso dessa forma. Nunca pensaram, Zezé? Essa é exatamente a irresponsabilidade que estou a denunciar.

 Vocês influenciam sem refletir sobre as consequências. Chico foi educativo, mas firme. O compositor continuou: “Zez, a arte sem consciência é perigosa. É como dar uma arma a um criança.” Chico aproximou-se de Zezé. Vou contar-te uma história. Durante a ditadura, muitos artistas se arrependeram de ter colaborado. Alguns nunca se perdoaram.

 O que está querendo dizer? Bizezé perguntou claramente preocupado. Estou a dizer que ainda têm tempo de mudar. Ainda podem usar a sua música para reparar o dano que causaram. Chico explicou paternalmente. O compositor continuou. Zezé, podem optar por continuar sendo parte do problema ou tornarem-se parte da solução. Chico voltou para a sua cadeira.

 Sabe qual é a minha sugestão? Façam músicas que promovam a união, a tolerância, a democracia. Usem a vossa influência para curar as feridas que ajudaram a abrir. Como assim? Zezé perguntou, parecendo genuinamente interessado. É simples, O Chico respondeu. Componham canções que celebrem a diversidade brasileira, que promovam o diálogo, que defendam as instituições democráticas.

 O compositor continuou: “Zez, vocês têm o poder de influenciar milhões. Imaginem se usassem este poder para promover a paz em vez de conflito.” Chico assumiu um tom mais professoral. Zezé, vou ensinar-te algo sobre o engajamento artístico responsável. O artista deve questionar o poder, não legitimá-lo cegamente.

 Mas vocês sempre questionaram o poder. Zezé tentou argumentar. Questionamos o poder autoritário, Zezé. Vocês legitimaram tendências autoritárias. Há uma diferença fundamental, Chico explicou pacientemente. O compositor continuou: “Zez, a democracia não é perfeita, mas é o melhor sistema que temos. Os artistas devem defendê-la, não atacá-la.

 O Chico se levantou. Sabe o que me preocupa? Vocês influenciaram uma geração inteira a desconfiar da democracia. Isso terá consequências durante décadas. Chico, a gente nunca quis isto. Zezé admitiu visivelmente abalado. Nunca quiseram. Então assumam o erro e trabalhem para corrigi-lo. Chico foi direto, mas mantendo a sua elegância.

 O compositor continuou. Zezé, a coragem não é apenas admitir o erro, é trabalhar para repará-lo. Chico dirigiu-se às câmaras. Brasil, estão a ver um momento importante, um artista ser confrontado com a sua responsabilidade social. O compositor regressou a Zezé. Minha proposta é simples. Usem a vossa música para reconstruir o que ajudaram a destruir.

 O que sugere concretamente? perguntou o Zezé. Façam um álbum pela democracia. Componham músicas que celebrem a diversidade, que promovam a diálogo, que defendam as instituições. O Chico sugeriu. O compositor continuou: “Zez, podem ser recordados como artistas que ajudaram a dividir o país ou como artistas que ajudaram a uni-lo novamente.

” Chico assumiu um tom mais paternal. Zezé, não é tarde para mudar, mas precisam de ter a coragem de assumir o erro e trabalhar para o corrigir. Eu vou pensar seriamente no que disse. Zezé respondeu com voz embargada. Não pensem só, Zezé. Ajam. O Brasil precisa de artistas que construam pontes, não que as destruam. Chico foi taxativo.

 O compositor dirigiu-se às câmaras uma última vez. Brasil, a arte é responsabilidade. Os artistas têm o dever de usar a sua influência para o bem comum. Chico voltou para Zezé. Meu amigo, espero que a nossa conversa seja o início de uma reflexão profunda sobre o papel da arte na sociedade. Zezé estava visivelmente emocionado.

Chico, obrigado pela lição. Você fez-me ver coisas que não via. Enxergar é o primeiro passo, Zezé. O segundo é agir com base no que se vê. Chico concluiu com sabedoria. O programa foi encerrado com Zezé, claramente transformado pela conversa, tendo recebido uma das maiores lições de responsabilidade artística do seu carreira, enquanto Chico mantinha a sua postura digna e elegante, satisfeito por ter plantado sementes de reflexão.

“Lembrem-se”, disse Chico antes do fim. A verdadeira arte eleva o espírito humano e fortalece a democracia.