“SEGURA MEU BEBÊ, QUE VOU CANTAR”, falou mendiga. Quando ela soltou a voz, todos CHORARAM! 

Sem-abrigo segurando bebé no colo, pede para cantarem um espetáculo de talentos em troca de um prato de comida. Só preciso de um pouco de comida ao meu filho. Se eu cantar bem, vocês alimentam-no, por favor? >> Ela implorou de joelhos, fazendo com que todos os rirem dela. Mas quando a mulher apanha o microfone, mesmo humilhada, e solta a voz, todos ficam paralisados, incrédulos com a forma como ela canta.

 Eu vim cantar em troca de um prato de comida. >> Foi assim que a Viviane falou. A voz rouca, cansada, mas cheia de coragem. Tinha nos braços [música] o pequeno Anthony, o seu filho de apenas 1 ano e 4 meses, demasiado magro [música] para a idade. Estavam parados diante de um clube iluminado, onde se realizavam as audições [música] de um novo reality espetáculo de música.

 A mãe solteira, de apenas 27 anos, segurava o bebé como quem segurava o último motivo [música] para continuar viva. O homem que cuidava das inscrições olhou-a de cima a baixo e deu uma gargalhada de gozo. A roupa da Viviane [música] estava rasgada, suja, o cabelo colado à cara de tanto suor e pó. Anthony, o bebé choramingava, o corpinho a tremer de fome.

>> Menina, [a música] aqui não é uma ONG de caridade, não, >> disse o responsável cruzando os braços. >> Estamos a fechar o local para fazer as audições do reality show. Não aceitamos pessoas do seu tipo aqui. >> Fez um gesto com [música] à mão, mandando-a sair dali, como se enchotasse um bicho de rua.

 Viviane ficou parada por um instante. Aquilo doía, mas não era [música] novidade. Já tinha ouvido rejeição tantas vezes que até parecia habituada. Mesmo assim, a dor no estômago apertava. Não comia em condições há dias e o pouco leite que ainda conseguia dar ao filho estava a secar. O desespero batia como um tambor dentro do peito.

 Ela precisava de alimentos, precisava de uma chance. Quando começou a afastar-se, arrastando [música] os pés cansados pela calçada, uma voz masculina ecoou por detrás dela. Deixa-a participar. >> A Viviane virou-se rapidamente. Um homem [música] alto se aproximava. Barba bem feita, bigode aparado, roupa elegante.

 Ela o reconheceu de imediato. Era Daniel, o cantor que toda a gente andava comentando nas redes. O público [música] dizia que ele tinha o bom coração e o talento de gente rara. Daniel caminhou até ao organizador e falou firme: >> “Esta mulher pode ser o novo talento da música e vai recusar só porque ela está mal vestida?” O homem deu um suspiro impaciente.

>> Não é só a roupa dela, é ela toda, >> respondeu com [música] desprezo. Olha para esta mulher, provavelmente é alguma toxicodependente, sem casa, sem trabalho. E essa criança aí? Até tenho pena. Deve ser filho de algum. >> Mas ele não terminou a frase. O Daniel deu um passo em frente, o olhar duro e o outro [música] engoliu as palavras.

Ainda assim, o sujeito insistiu: >> “Olha, Senhor Daniel, não posso fazer nada. Existem regras. Ela precisa apresentar comprovativo de residência e, sinceramente, duvido que tenha onde morar”. >> Daniel respirou fundo, observou Viviane, segurando o filho com cuidado, os olhos baixos, o corpo encolhido de vergonha.

Então, perguntou com voz calma: >> “Como te chamas?” >> A Viviane assustou-se. Fazia tempo que ninguém lhe perguntava isso. Engoliu em seco e [música] respondeu baixinho: >> “O meu nome é Viviane, mas porque é que o senhor quer saber?” >> Daniel sorriu levemente. “Porque é importante saber o nome das pessoas”, disse.

 “E diz-me uma coisa, para ti participar, este sujeito aqui precisa que tenha uma casa, não é? Pois então aceitaria viver comigo?” Viviane arregalou os olhos, deu um passo para trás, confusa, [música] sem saber se aquilo era grave. A ideia de ter um tecto, de dar um banho quente [música] no filho, era tentadora, mas ela não conhecia aquele homem.

 O medo e a [música] a desconfiança apertaram o peito. Tentou dizer alguma coisa, mas as palavras saíam emboladas, [música] gaguejadas. De repente, uma voz feminina cortou o ar. Vai levar esse lixo para viver com você?” >> Todos olharam. Quem falava [música] era Carla, cantora famosa de 31 anos, vaidosa, [música] vestida com brilho e salto alto.

 O rosto dela estava estampado [música] em todos os sites de mexericos nas últimas semanas. Diziam que era a nova namorada de Daniel. Ela cruzou os braços e sorriu com deboche. >> Isto aqui é um reality, Daniel. O público quer ver gente interessante, com histórias inspiradoras, não uma drogada qualquer da rua. >> Daniel olhou para ela, surpreendido com tanta crueldade.

>> “Como pode dizer isso se nem conhece a mulher?”, >> perguntou indignado. >> “Ela pode muito bem ser alguém de bem, a passar por um momento difícil.” >> A Carla deu uma gargalhada alta. >> “Oh, não seja ingénuo, querido.” >> Gozou. >> As pessoas de bem não vão viver para a rua. Para chegar a este ponto é porque já estragou tudo. Família, amigos, tudo.

Provavelmente fez alguma asneira. Olha para ela. Mãe [música] solteira, sozinha, com um filho ao colo. Se nem o pai da criança quis ficar, por que a gente deveria aceitar? >> Viviane baixou a cabeça. As palavras daquela mulher calaram fundo no coração. Anthony começou a chorar e ela o abanou devagar.

 tentando esconder o rosto molhado de lágrimas. Daniel respirou fundo, [música] controlando a raiva. “Nenhum de nós pode julgar sem ouvir a história dela e muito menos sem ouvi-la cantar”, >> disse firme. >> “Se eu lhe puder dar a hipótese de cantar uma canção, eu vou fazer isso. Não imaginam o talento que pode estar aí escondido”.

>> Carla cruzou os braços e encarou Daniel irritada. >> “E por acaso sabe?” Provocou, arqueando uma sobrancelha. >> Porque se disser que sim, vou começar a perguntar-me que tipo de lugar anda frequentando. Um cantor famoso, aclamado, andando com este tipo de gente? >> O Daniel respondeu sem pestanejar. >> Ao contrário de si, Carla, quando eu Fiquei famoso, não deixei de ser humano.

A frase cortou o silêncio. As pessoas ao redor se entreolharam. Algumas até contiveram o riso. A Carla ficou vermelha de raiva, mas não respondeu. [música] Então, Daniel voltou-se novamente para Viviane. O seu olhar era gentil, sincero. >> Viviane, estou a falar a sério. Não é para sempre, nem te estou a pedir nada em troca.

Mas se aceitar viver comigo só para ter um endereço, vai poder participar no teste agora mesmo. Viviane [música] ficou sem ar durante um instante. O coração batia forte, misturado de medo, esperança e vergonha. Nunca ninguém se tinha [música] importado com ela daquela maneira. Olhou para o filho dormir no seu colo, depois para [música] Daniel.

 A chuva começava a cair fina, molhando-lhe os cabelos, e o vento frio da noite fez com que o bebé se encolher ainda mais. Viviane ainda estava [música] hesitante. O convite de O Daniel parecia demasiado bom para ser verdade, mas algo dentro dela [música] dizia que podia confiar nele. Depois de alguns segundos em silêncio, respirou fundo e respondeu com a voz embargada: >> “Sim, aceito viver contigo desde que eu tenha hipótese de cantar.

 Se [música] for para isso, faço qualquer coisa”. Daniel esboçou um sorriso sincero. Jacarla virou o rosto, revirando os olhos com desprezo. Foi caminhando lentamente até ao porta do clube e ficou ali encostada ao batente, observando com um ar de quem esperava que tudo acabasse em fiasco. O recrutador, por sua vez, abanou a cabeça, soltando um riso curto e irónico.

>> Olha, mesmo que agora ela tenha onde ficar, ainda assim não posso simplesmente aceitá-la. disse ele cruzando os braços. >> O programa exige que só participem cantores com histórico de atuações. E olhando para ela, sinceramente, eu duvido que tenha cantado para mais alguém para além desse bebé aí. >> As suas palavras caíram como uma pedrada.

 Viviane baixou o olhar, o coração apertado. Não tinha vídeos, não não tinha nada para provar quem era. Nunca tinha gravado, nunca teve oportunidade, [música] apenas segurou o filho com mais força e respondeu [música] num tom, quase pedindo. >> Moço, não há como saltar essa parte. Mesmo sem histórico, se eu cantar bem, isso não deve fazer diferença, certo? >> O Daniel assentiu e [música] completou.

Isso é verdade. E sejamos sinceros, entre os nomes que aceitou para essa audição, há vários que deu um jeitinho, não é? Gente que mandou o comprovativo depois ou que precisou de mudar o horário para conseguir cantar depois do trabalho. >> Falou com firmeza. [música] >> Porque precisamente no caso dela, que é ainda mais simples, não pode abrir uma exceção.

>> O recrutador coçou a nuca, [música] desconfortável, mas manteve a pose. >> Olha, eu não quero saber. disse com [música] arrogância. >> Primeiro que ela nem tem onde morar. O facto de ter convidado para sua casa não muda isso. E segundo, o programa é só para profissionais. É o único requisito que não posso ignorar.

 São ordens da direcção. >> Daniel respirou fundo. O sangue fervia nas veias, [música] mas tentou manter o controle. Viviane, ao lado, já parecia derrotada. olhou para ele com tristeza e disse com a voz trémula: >> “Olhe, rapaz, agradeço-lhe de coração o que está a fazer por mim, mas eu não quero trazer-te problemas.

 Se o rapaz disse que não [música] me vai deixar entrar, tudo bem, estou habituada a este tipo de situação.” [música] >> Baixou a cabeça e completou. >> “E não tem de se preocupar com o lugar para eu ficar. Eu dou o meu jeito. >> Quando ela se virou para se ir embora, O Daniel [música] deu um passo rápido e segurou-lhe o braço com cuidado.

 O toque firme, mas respeitoso. [música] >> “Eu resolvo isso. Só entra lá para dentro”, >> disse [música] decidido. Viviane ficou paralisada, confusa e assustada. [música] O recrutador, por outro lado, ficou furioso. >> “Espera aí um bocadinho”, >> gritou. “O senhor não pode simplesmente mandá-la entrar.

 Eu sou o responsável por organizar as audições. O senhor não pode passar por cima da minha autoridade. >> Daniel esboçou um sorriso calmo, mas havia algo de desafiante no seu olhar. A escolha é sua, respondeu cruzando os braços. Ou deixa-a participar, ou ligo agora para a emissora e digo que já não aceito fazer parte do reality.

E vou deixar claro que a culpa é de um certo recrutador que se julga melhor do que os outros. Quero ver como é que vai explicar ao seu chefe que conseguiu fazer com que o astro principal desistir do programa. >> O silêncio foi imediato. O rosto do recrutador perdeu toda a cor. As mãos começaram a tremer.

 Ele sabia que se O Daniel fizesse aquilo, [a música] seria despedido no mesmo dia. Daniel, porém, não recuou. [música] Manteve o olhar firme, decidido, pronto para bancar cada palavra que dissera. Mas antes que conseguisse a vitória, uma voz irritada rompeu o ar. >> Estás a ver só, Daniel? Olha o que estás a fazer com o programa por causa dessa dessa mendiga.

>> A Carla tinha voltado para discussão. Caminhou até ao meio do salão, o salto ecoando no chão, o rosto cheio de raiva. >> Olha o caos que ela está a provocar. Você vai fazer com que este pobre recrutador perca o emprego só por teimosia e ainda coloca a a sua vaga em risco para defender esta mulher? Não percebe o quanto ela incomoda toda a gente? vive a tentar despertar pena, uma pena que ela nem merece.

 Tenho a certeza [música] absoluta que fez por onde para estar nessa situação. >> Viviane sentiu o coração despencar. As palavras cruéis batiam [música] como chicotes. As lágrimas vieram sem controlo e ela abraçou o filho, tentando proteger o pequeno Anthony do ódio que escorria da boca daquela mulher. Nunca tinha-se sentido tão [música] humilhada.

já tinha dormido na rua, passado fome, perdido tudo. Mas ouvir alguém falar assim, olhando diretamente para os seus olhos perante o próprio filho, era algo que a destruía por dentro. Por um momento, ela perguntou-se [música] se aquela seria a sua vida para sempre, se o seu menino cresceria vendo a mãe ser tratada como um estorvo, como se fosse invisível.

 com a voz embargada entre soluços, respondeu: >> “Eu não vim aqui para prejudicar ninguém”, >> disse tentando recompor-se. >> “Eu só estava a tentar arranjar alguma coisa para mim e para o meu filho. [música] Eu nem sabia que aqui era um lugar de audição para um reality. Eu só falei com o moço porque me disseram que era o responsável pelas apresentações.

” [música] >> As pessoas começaram a entreolhar-se. Já ninguém ria. Viviane continuou enxugando as lágrimas. Um homem disse-me que talvez eu conseguisse uma vaga aqui a cantar em troca de um prato de comida. Foi só isso. A senhora não devia falar comigo desse jeito. >> O tom dela não era de raiva, era de dor. Uma dor que nascia da vergonha, da fome, do cansaço.

 Daniel olhou para ela e [música] sentiu um nó na garganta. O silêncio que se formou foi tão pesado que até a Carla, por um [música] instante pareceu sem palavras. O recrutador baixou o olhar envergonhado. [música] Pela primeira vez, percebeu que talvez tivesse ido longe demais. Daniel respirou fundo e disse [música] em voz baixa, mas firme.

>> Agora já percebe porque é que eu pedi para ela cantar? >> Viviane olhou para ele, ainda com lágrimas nos olhos, e sentiu algo diferente. Pela primeira vez em muito tempo, alguém a defendia. Alguém via nela algo para além da sujidade das roupas ou da fome estampada no rosto. A Carla deu uma gargalhada amarga, o som soando [música] como veneno.

 Olhou para Viviane com desdém e disse: >> “Olhe, eu conheço muito bem o seu tipinho de gente”, >> falou cruzando os braços. Vocês fazem as asneiras que querem, magoam os outros, prejudicam quem está por perto e depois ficam por ali com uma tigela na mão, incomodando os outros na rua pedindo esmola. Aí fazem-se de vítimas dizendo que a sociedade foi cruel, que o mundo foi injusto, quando na verdade só estão a colher o que plantaram.

 Gente assim não é azarada, é mau carácter. Viviane sentiu [música] o peito a fechar. As palavras eram demasiado duras, cortantes. As lágrimas [música] já rolavam sem controlo, mas de repente algo dentro dela [música] acendeu. Já tinha sido demasiado humilhada para continuar calada. levantou o queixo, respirou fundo e respondeu: “A voz trémula, mas firme.

>> Diz isso porque nunca teve uma dificuldade de verdade na sua vida”, >> disse encarando a Carla. >> Acha que eu não conheço a sua história? O problema de quem nasce famoso é esse. Vive [música] achando que pode apontar o dedo para quem teve menos sorte. O seu pai já era cantor quando nasceu. [música] A sua família tem uma editora discográfica.

 Você cresceu rodeada de luxo e acha que isso dá-te o direito de me julgares. Eu nunca fiz mal a ninguém, tentei sempre fazer tudo no jeito certo. >> Ela respirou tentando controlar a emoção e completou. >> Nem sempre as pessoas passam por dificuldade por escolha. Às vezes [música] é só falta de sorte e eu não vou deixar que nem ninguém me diminua por causa disso.

>> As palavras de Viviane [música] ecoaram pelo salão como uma bofetada. A Carla ficou vermelha, as veias do pescoço a saltar. Era visível que não estava habituada [música] a ser contrariada. A cantora deu um passo em frente, o salto batendo forte no chão e respondeu com raiva: >> “Então está bem, já que quer pagar de corajosa, vamos ver até onde vai esta a sua ousadia”, >> disse apontando [música] para o recrutador.

>> Deixa-a participar. Se ela acha que é isto tudo, se acha que tem talento, quero ver o que faz em cima do palco. E Garanto-te uma coisa, quando ela desafinar, quando [a música] tropeça na própria vergonha, serei a primeira a levantar e começar a vaiar. >> O recrutador ficou paralisado durante alguns segundos.

 Olhou para Viviane, ainda com o filho ao colo, depois para Daniel, [música] que o fitava com firmeza, disposto a sair do programa, se fosse preciso. Por fim, olhou para Carla, que ardia de raiva, ansiosa por ver a mulher cair no ridículo. O homem [música] sabia que se o Daniel realmente abandonasse o reality, o seu emprego estaria perdido.

 E agora com Carla também a pressionar, não havia saída. Respirou fundo e, tentando manter a autoridade, disse: >> “Está bem, já que vocês os dois estão insistindo, vou deixá-la cantar”, >> falou, gesticulando com as mãos. >> Mas que fique claro, ela será a última da noite. E se alguém da estação vier queixar-se da participação dela, quem vai responder são os dois.

 Entendido? Viviane não conseguia conter o sorriso. O coração batia forte, um misto de alegria e o medo. Não era seu plano entrar num reality show, mas aquela podia ser a sua oportunidade de mudar tudo. Se cantasse bem, talvez conseguisse mais apresentações, talvez até um local para viver com o filho. O Daniel ficou aliviado.

 Um sorriso formou-se em seu rosto enquanto segurava a mão de Viviane com firmeza. Vamos”, disse ele, puxando-a com cuidado. Entraram juntos no clube. O som dos passos [música] ecoava no corredor estreito e Viviane sentia o estômago revirar-se de nervoso. Daniel levou-a até o seu camarim, um [música] espaço pequeno, iluminado por luzes quentes de espelho e cheio de instrumentos, roupas e perfumes.

 Lá dentro, uma mulher alta, de pele morena e cabelo black power, pintado de cor-de-rosa, arranjava maquilhagens em um estojo grande. Tinha um coração tatuado no tórax mesmo no centro que parecia pulsar com a luz. Daniel anunciou em voz alta. >> Esta é a minha figurinista, disse animado, fazendo a mulher levar um susto e quase deixar cair um batom.

 E também é a minha irmã de consideração, a pessoa que mais me ajudou e motivou durante todo o a minha carreira. A rapariga se [música] virou-se, ainda a rir do susto, e abriu um sorriso rasgado. >> Prazer, eu sou a Daniela, >> disse simpática. [música] Quando os seus olhos caíram sobre o pequeno Anthony, o sorriso dela abriu-se ainda mais.

>> Meu Deus, que bebé tão lindo. Posso apanhá-lo um pouquinho? >> Perguntou toda entusiasmada. Viviane sorriu de volta, sentindo pela primeira vez nesse dia um pouco de ternura. >> Claro que sim, respondeu, entregando o filho com cuidado. Daniela pegou no bebé no [música] colo e fez uma careta brincalhona, arrancando o primeiro sorriso tímido de Viviane [música] desde que chegara.

 Anthony soltou uma risadinha fraca e a rapariga apertou levemente as suas bochechas. Enquanto isso, Daniel aproveitou o momento para explicar. >> Irmã, esta mulher aqui vai ser um dos maiores nomes da música moderna, >> disse com convicção. >> Mas antes disso, ela precisa da nossa ajuda. >> Daniela arqueou uma sobrancelha surpresa.

>> Não me diga que convenceu o pessoal a deixá-la cantar. disse meio a rir, meio séria. Viviane baixou a cabeça, o coração [música] apertado. Já esperava ouvir o mesmo discurso de sempre, o olhar de julgamento, a reprovação. Mas Daniel confirmou com um sorriso. >> Sim, convenci. Foi à força, mas convenci, disse orgulhoso.

 A Daniela ficou em silêncio por um instante. [música] Observou Viviane com atenção, dos pés à cabeça, avaliando cada detalhe. [música] As roupas sujas, o cabelo despenteado, o olhar cansado. Depois respirou fundo e respondeu: >> “Desta maneira não dá para subir no palco.” >> Falou com doçura. [música] Mas calma, eu não tenho muita coisa aqui.

 Ainda assim, vou tentar deixar-te linda. Pelo menos uma maquilhagem para disfarçar essa sujidade no rosto. Está bom. >> Viviane ficou sem palavras. Um nó se formou na garganta. >> Obrigada, de verdade, >> disse emocionada. A Daniela sorriu e devolveu o bebé a Daniel. Segura-o para mim, grandalhão”, >> brincou, entregando Anthony com cuidado.

De seguida, pegou em Viviane pela mão e a conduziu até uma cadeira diante do espelho. Enquanto separava pincéis e [música] sombras, observava o formato do rosto dela com atenção, planeando como realçar a sua [música] beleza natural. Vamos aprontar-te para a tua grande estreia”, >> disse a Daniela, animada, passando a base suavemente sobre a [música] pele cansada de Viviane.

>> E, entretanto, conta-me quem és, de onde veio, como vocês os dois se conheceram? olhou de relance para Daniel e acrescentou rindo. >> Porque olhe, o meu irmão não é de fazer isso por qualquer pessoa, não. >> A Viviane pensou muito antes de responder. Aquilo que a Daniela tinha perguntado era demasiado delicado.

 Não era uma simples história, era a sua vida. Por um momento, ela ficou em silêncio, [música] olhando para o espelho e vendo o próprio reflexo com o rosto meio limpo pela maquilhagem e o olhar cheio de recordações, mas também sabia que aquelas pessoas estavam a tentar ajudá-la [música] e esconder a verdade seria injusto. Respirou fundo, o coração pesado e resolveu contar tudo.

>> Até há pouco tempo, eu era casada. Começou a voz baixa, trémula. >> O meu marido chamava-se Marroni. [música] >> Ela engoliu em seco e continuou. Marron era um homem de 30 anos. Não era rico, mas tinha uma vida [música] estável, uma boa casa e um emprego fixo. Os dois se conheceram [música] numa noite de cara, num simples bar do bairro, onde ela tinha ido com umas amigas [música] para se distrair.

 Naquela noite, parecia um homem gentil, educado e divertido. Aplaudiu quando ela subiu [música] ao palco, elogiou a voz dela e, desde então passaram a ver-se com frequência. [música] No início, Marron era carinhoso e atencioso, dizendo sempre o quanto admirava o talento dela [música] e o quanto ela merecia ser ouvida.

>> Dizia que eu tinha nascido para cantar, >> contou Viviane com um sorriso amargo. >> E eu acreditava. Antes do casamento, ela já fazia pequenas apresentações em festas de amigos e familiares. Eram eventos simples, [música] mas que lhe traziam alegria. Mesmo assim, nunca teve coragem de tentar seguir a carreira profissionalmente.

 [música] Achava que não era suficientemente boa, que ninguém a levaria a sério. Mas conforme o namoro com Marron avançava, ela foi ganhando confiança. Ele dizia [música] que acreditava nela e aquelas palavras davam força. Viviane começou a sonhar. [música] Sonhar que um dia seria uma grande cantora.

 Não demorou muito e os dois se casaram. [música] Foi uma cerimónia simples, mas bonita. A recordação [música] ainda a fazia sorrir. Ela própria cantou durante a festa e [música] todos se emocionaram. Mas foi logo depois do casamento que as coisas começaram a mudar. Os meses seguintes [música] foram o início de uma descida lenta e cruel.

 Marron começou a mudar de comportamento, primeiro com pequenas coisas. Uma cobrança aqui, uma pergunta insistente sobre para onde ela ia, um tom mais alto na voz. Depois vieram os olhares duros, os puxões de braços, as discussões cada vez mais pesadas. Viviane engoliu em seco e disse: >> “No início, pensei que ele só estava cansado, que o trabalho o deixava nervoso, mas aquele homem gentil que eu conheci com o tempo desapareceu.

” >> Ela recordava-se com clareza do dia em que tudo mudou de verdade. Estava na cozinha preparar o jantar, como sempre fazia. O cheiro a arroz e alho subia da panela. Marron chegou do trabalho batendo com a porta. Parecia irritado. O relógio marcava pouco depois das 7. Ele atirou a mochila para o sofá e foi até ao cozinha.

>> Isto é a sério, Viviane? Você ainda tá a fazer a janta? >> Gritou, com a voz carregada de impaciência. Já te disse mil vezes que quero a comida pronta quando chego. >> Viviane parou de mexer a panela durante um instante, respirou fundo e respondeu com calma: >> “Amor, não me apetece discutir hoje. Eu estou cansada.

 Ainda preciso de terminar aqui e tu ficares a gritar atrás de mim não vai ajudar”. >> Marron deu uma gargalhada amarga, balançando a cabeça. >> “Cansada?” >> Gozou? Ah, essa é boa. Farta de quê, Viviane? A única pessoa que trabalha aqui sou eu. Só fica em casa brincando de dona de casa e ainda tem a lata de dizer que está cansada? Deu um passo à frente e continuou o rosto vermelho.

>> Saio cedo, volto morto de fome e tudo o que quero é comer e descansar. Mas a madame aqui acha demasiado pesado mexer uma panela. Põe um pouco de juízo nessa tua cabeça burra, Viviane. >> A mulher baixou os olhos tentando conter a raiva. O coração acelerava, mas ela não queria discutir, só queria paz. Mesmo assim, as suas palavras eram como facadas.

Até que chegou um ponto em que ela não aguentou mais. largou a colher que usava, que caiu no chão com um estalido, e respondeu em voz alta: >> “Ouve lá, Marron, eu não nasci para ser sua empregada. A comida já está quase pronta. Não vai morrer se esperar 10 minutos”. >> O silêncio que veio depois foi pior do que qualquer grito.

 O olhar dele ficou gelado, sem vida. Viviane sentiu o medo espalhar por todo o corpo. Ele deu dois passos lentos, como quem se preparava para algo inevitável. E então, sem pensar, a mão dele veio com força. O estalido ecoou pela cozinha. Viviane caiu no chão, com o rosto a arder, as lágrimas descendo sem controlo. Marrone apenas respirou fundo e disse friamente: “Não quero saber dos seus prazos.

Fica o dia todo em casa para cuidar das responsabilidades dela. O mínimo é ter a comida pronta antes de eu chegar. Em seguida, virou-se e foi tomar banho, sem dizer mais nada. Viviane ficou no chão durante alguns segundos, tentando perceber o que tinha acontecido. As lágrimas escorriam pelo rosto, misturando-se com o cheiro da comida que agora ardia no fogão.

 Naquela noite, o seu jantar teve o sabor amargo das lágrimas e aquele dia marcou o início da pior fase da sua vida. Depois daquela bofetada, tudo desandou”, >> disse a Viviane com os olhos marejados. >> Ele percebeu que eu não reagi e quanto mais eu ficava quieta, mais ele piorava. >> A violência tornou-se rotina.

 Se o jantar atrasava, vinha um empurrão. Se ela falhava o tempero, vinham os gritos. E quando tentava defender-se, vinham os socos. O que antes era uma bofetada, tornaram-se cinco. Depois vieram os pontapés. Cada marca no corpo era um lembrete de que o homem que jurara a mala transformara-se no seu maior pesadelo.

 Com o tempo, Marron começou a controlar tudo. Proibiu que ela saísse de casa, que visse as amigas, que falasse com a família. E pouco depois veio o golpe mais cruel. Proibiu-a de cantar. disse que a voz dela o irritava, que aquilo era perda de tempo. >> Dizia que eu devia agradecer por ter um tecto e um marido, >> contou Viviane com o olhar distante.

>> Que mulher nenhuma precisa de cantar para se sentir útil. >> A Daniela deixou de mexer na maquilhagem, os olhos marejados. Daniel, que segurava Anthony ao colo, ficou imóvel, o maxilar travado. Viviane respirou fundo, lutando para não chorar. Com o passar dos meses, fui deixando de existir. >> Continuou. >> Nem cantar dentro de casa podia.

 Se um vizinho comentasse da minha voz, ele já me batia. Até os vizinhos deixaram de falar sobre mim. >> O silêncio no camarim era total. Daniela pousou o pincel na mesa com cuidado. Viviane olhou o seu próprio reflexo no espelho e completou num sussurro quase inaudível. Foi assim que ele me matou por dentro um bocadinho de cada vez.

>> Viviane levou a mão à cara, respirou fundo e durante alguns segundos apenas ficou parada perante aquele pequeno teste de gravidez. Os dois risquinhos vermelhos pareciam brilhar, como se gritassem uma verdade que ela ainda não sabia se queria ouvir. Sempre sonhara ser mãe. Sonhava com um lar cheio de gargalhadas, com uma criança correndo pelos corredores, mas não daquele jeito.

 Não naquela casa que já tornara-se um campo de medo. Não sabia o que sentir. Alegria, pavor. As duas coisas [música] misturavam-se num nó na garganta. Sabia que teria de contar ao marido. E só de imaginar a reação dele, as mãos começaram a suar. Naquela noite, quando Marrone chegou do trabalho, Viviane já o esperava.

 A casa estava impecável, o jantar à mesa e o pequeno teste repousava junto do prato dele. Ela tentou sorrir, mesmo com o coração batendo apressado. >> “Querido, tenho uma notícia importante para te contar”, >> disse nervosa. Marron olhou primeiro para o exame, depois para o rosto da esposa, sentou-se, observou a mesa posta e, para surpresa dela, sorriu.

 Uau, amor, que notícia maravilhosa. Finalmente teremos nosso próprio filho. Não faz ideia de como estou feliz, >> respondeu abrindo os braços. Viviane ficou imóvel, não esperava aquilo. Na mente dela, todas as possíveis reacções envolviam raiva, gritos ou desprezo, nunca alegria. E isso deixou-a ainda mais assustada.

 Porque se ele não estava furioso, significava que planeava mantê-la ainda mais presa e agora com um bebé. Fugir seria quase impossível. Enquanto Marrone a abraçava, ela lutava para não se encolher. Tentava parecer calma, mas o corpo tremia. Por dentro só pensava: >> “E agora? Como vou educar uma criança nesse lugar? O que vai acontecer se ele me bater e eu perder o bebé? Nos dias seguintes, algo inesperado aconteceu. Marron mudou.

 Parecia outro homem. Parou de gritar, começou a ajudar nas tarefas, sorria mais e, por um tempo, nem levantava a voz. Viviane se apanhou-o a pensar se tudo o que vivera até ali não tinha sido um pesadelo passageiro. Chegou a acreditar por alguns instantes que o bebé estava transformando o marido em alguém melhor. Mas esta ilusão não durou.

 Faltando dois meses para o parto, a realidade veio bater com a porta e desta vez com força. Era uma noite comum. Viviane arrumava a mesa do jantar a trautear baixinho, tentando acalmar o bebé que mexia na barriga. Ouviu o portão bater e o som dos seus passos no corredor, mas havia mais passos, leves, femininos. Quando Marron entrou na sala, ela percebeu o motivo.

 Ele não estava sozinho. Ao lado dele, agarrada ao seu braço, vinha uma mulher de vestido vermelho, decotado, com o cabelo loiro brilhando sob a luz da sala. Era linda, com um corpo escultural, a pele cheirosa de perfume caro e jóias reluzentes [música] que denunciavam o luxo que ela representava. Viviane paralisou.

 Por um instante, [música] acreditou estar a ver errado. >> Amor, quem é esta mulher? >> Perguntou tentando disfarçar o nervosismo. >> É alguma colega sua do trabalho, uma parente. >> Marron e a loira trocaram olhares e riram alto, o cheiro a álcools escapando à gargalhada debochada. Ele respondeu com escárnio: “Olha que és feia e inútil.

 Eu sempre soube, mas burra. Isso não imaginava. Você acha mesmo que uma amiga do trabalho ou uma parente minha chegaria agarrada assim em mim? >> Viviane sentiu o rosto arder. As as lágrimas começaram a cair, mas ela não teve força nem para as limpar. ficou ali parada, ouvindo cada palavra como quem apanha sem se defender.

 Ainda assim, conseguiu perguntar com a voz fraca: >> “Não estás a pensar em trazer essa mulher para dentro da nossa casa para ficar aqui à frente da sua esposa grávida, está bem?” >> O sorriso dele foi desaparecendo aos poucos. Marron deu um passo em frente, o olhar sombrio. Escuta aqui, Viviane, para ti, talvez a gente seja marido e mulher, mas sabe o que és para mim? Quer saber como toda a gente te enxerga? >> Viviane abanou a cabeça, pedindo em silêncio para ele parar.

 Mas Marron continuou cruel. >> Vem-te como uma gorda, feia, inútil. Você é igual a uma vaca leiteira. Serve para limpar, cozinhar e deitar naquela cama quando eu quiser. Eu só me casei consigo porque precisava de uma esposa para fazer o serviço de casa. Agora eu preciso de um filho, apenas isso. Ele se aproximou. O hálito alcoólico e quente.

Se for menina, até pode ficar. Não quero nem encostar um dedo. Mas se quiser continuar a viver aqui, é bom me obedecer. Entendeu? >> Viviane chorava silenciosamente, o corpo inteiro a tremer. Ele olhou para ela e completou com um tom gelado que fez-lhe gelar o sangue. >> É melhor limpar logo esse rosto. E lembra-se de uma coisa, a sua sorte é estar grávida do meu filho, porque se não fosse isso, já tinha arranjado um jeito nessa tua cara.

 Talvez assim você ficasse um pouco mais bonita. apontou para a mulher loira, que o observava sorrindo. Está a ver isto aqui? Isso é mulher. Já que gosta tanto de música, acho que vai perceber. Ela é um guitarra, és um tambor. Ele riu satisfeito com a própria crueldade. >> Agora deixa-te de dramas e coloca mais um prato na mesa.

 Ela vai jantar com o gente. >> Sem dizer mais nada, pegou na loira pela mão e levou-a para o quarto. A porta se fechou com força e o som da chave rodar foi o golpe final. Viviane ficou parada por um instante, atónita. Depois, como reflexo, colocou mais um prato na mesa, mesmo sem vontade. O jantar arrefecia e as lágrimas caíam uma atrás da outra.

 Caminhou até à lavandaria, o lugar mais distante da casa, e sentou-se no chão, no canto frio, abraçando a barriga. Começou a soluçar. >> Porque é que eu tenho que passar por tudo isso? chorava, apertando os joelhos contra o peito. >> O que fiz eu para merecer tanta humilhação? Eu sempre me esforcei tanto, sempre fiz tudo por ele e agora traz outra mulher para dentro da nossa casa enquanto eu estou grávida.

 Eu não aguento mais. >> A voz saía cortada pelo choro. >> Eu não quero viver mais assim. Preciso ir embora daqui. >> Foi a primeira vez em muito tempo que Viviane sentiu-se decidida. decidida a sobreviver. Com as mãos trémulas levantou-se, pegou a pequena bolsa em que guardavam os trocados e caminhou até à porta da frente. A casa estava silenciosa.

 Do quarto vinham risos abafados. Ela abriu a porta com cuidado, o coração disparado. O ar frio da noite bateu em o seu rosto como um murro de realidade. Sem olhar para trás, desceu os degraus e seguiu pela rua vazia. Com o pouco dinheiro que tinha, [a música] parou no primeiro ponto de táxi que encontrou. O motorista, um senhor grisalho, apercebeu-se [música] o desespero nos olhos dela.

>> Para onde, menina? >> Perguntou. Viviane respirou fundo e respondeu: >> “Para casa dos [música] meus pais”. O carro arrancou devagar e enquanto via o reflexo das luzes se [música] afastando pela janela, Viviane sabia que estava deixando para trás não só uma [música] casa, mas o inferno que quase a destruiu.

 Viviane chegou à frente da velha [música] casa dos pais com o coração apertado. Fazia meses, talvez mais de um ano que não via nenhum deles. As mãos tremiam, [música] o rosto ainda molhado de lágrimas. Mesmo assim, respirou [música] fundo e criou coragem. A noite estava fria, o vento batia forte e o silêncio da rua [música] parecia refletir o medo que ela sentia por dentro.

 Ainda hesitante, [música] levantou a mão e bateu à porta. Do outro lado, ouviu passos e logo em [música] seguida, a voz familiar que há tanto tempo não escutava. Espera um pouquinho, já tô indo”, >> gritou a mãe [música] lá de dentro. Aquela voz fez Viviane sorrir. Era quase como um abraço depois de tanto [música] tempo perdida.

 O sorriso cresceu quando a maçaneta girou e a porta se abriu, mas a alegria durou pouco. A mãe apareceu na soleira, olhou para ela e congelou. O olhar [música] que Viviane tanto esperava ser de carinho veio carregado de frieza. A mulher deu um passo para trás, o rosto endurecido, os olhos marejando de algo que não era emoção, era vergonha.

>> Mãe, >> chamou Viviane com a [música] voz trêmula. >> Sou eu, Viviane, sua filha. Por que tá com essa cara? Mas a mãe [música] não respondeu. Virou o rosto, começou a chorar e sem dizer nada saiu andando para dentro da casa. O barulho dos passos dela foi logo substituído [música] por outro.

 O pai de Viviane surgiu na porta, o semblante fechado, a voz firme e fria. [música] “O que você tá fazendo aqui?”, perguntou ele sem nenhuma expressão de afeto. Viviane [música] piscou confusa. >> “Como assim? O que eu tô fazendo aqui? Eu sou a filha de vocês. Eu vim ver vocês. Eu preciso de ajuda. >> Disse chorando.

 O pai deu um riso amargo. Ajuda. Você tá ficando louca? Respondeu cruzando [música] os braços. Depois de tudo que você disse sobre a gente, depois de todas as vezes que nos rejeitou, agora aparece aqui achando que pode simplesmente pedir ajuda? Viviane começou a tremer. As lágrimas escorriam. Mas eu não fiz nada disso que o senhor tá falando, >> implorou.

>> Faz meses que eu não consigo entrar em contato. Não é porque eu quis. >> O pai balançou a cabeça indignado. Ah, não consegue. Me faça o favor, né, Viviane? Disse com [música] ironia. Até o seu marido, o Marrone, que trabalha o dia todo, arruma tempo para vir visitar a gente, sempre traz presente, almoça aqui nos fins de semana. E você? Nenhuma ligação.

 Quer mesmo que eu acredite nisso? Aquelas palavras caíram como um golpe. Viviane arregalou os olhos sem [música] acreditar. Marrone indo à casa dos seus pais sozinho. Ela percebeu na mesma hora o que tinha acontecido. Ele tinha mentido para todos, mas o desespero não deixava nem pensar direito. >> “Eu juro que não sei do que o senhor tá falando”, >> gritou chorando.

>> “Por favor, pai, eu só preciso de um lugar para ficar. Eu não aguento mais viver com o Marron”. >> Por um breve instante, [música] o homem pareceu vacilar. Os olhos dele suavizaram, quase como se fosse [música] escutar, mas logo voltou a endurecer o rosto e respondeu: “Se aquele homem que te trata como uma rainha não é suficiente para você, então nós também não seremos”, disse seco.

“Procura outra pessoa para você ser ingrata”. Em seguida, bateu a porta com força. Viviane ficou parada do lado de fora, sozinha, [música] encarando a madeira fechada diante do rosto. O som do impacto ainda ecoava dentro dela. As pernas enfraqueceram e ela se ajoelhou na calçada, abraçando a própria barriga. >> Nem meus pais, >> murmurou entre [música] soluços.

>> Nem eles acreditam em mim. O vento frio cortava a pele. O mundo parecia ter virado as [música] costas. O que faria agora se nem os pais a queriam mais? O que poderia esperar dos amigos? Ficar ali já não fazia sentido. Voltar paraa casa de Marrone? Impossível. Foi então que tomou a [música] decisão mais importante da vida.

 Naquela noite, Viviane não voltou para casa, pegou o caminho mais longo e foi em direção a um abrigo para sem teto que conhecia de vista, no centro da [música] cidade. Lá foi recebida por uma voluntária que lhe ofereceu um cobertor, um prato de sopa e um lugar para deitar no chão frio. Deitou-se [música] exausta, o corpo doendo, a barriga pesada.

Pelo menos aqui ninguém vai me bater”, >> sussurrou para si mesma antes de adormecer. Os meses [música] seguintes foram uma luta diária. Sem dinheiro, sem documentos e com a barriga crescendo, [música] Viviane teve que aprender a sobreviver nas ruas. Tentou arrumar emprego como doméstica, fachineira, cozinheira, [música] mas ninguém contratava uma mulher grávida.

 As portas se fechavam uma [música] a uma. Sinto muito, menina, mas grávida deste tamanho não tem como. >> Ouviu de uma dona de um restaurante. >> Procura outra coisa, ok? >> Disseram noutro lugar. Sem opções, passou a pedir esmola nas esquinas. Muitas vezes só comia porque as igrejas e instituições de solidariedade distribuíam marmitas na rua.

 Cada refeição era uma [música] vitória, mas o medo era constante. O medo de adoecer, de desmaiar, de perder o bebé. As noites eram as piores. Deitada em [música] um canto de praça, coberta por cartão, sentia o filho mexer e tentava cantar baixinho para ele dormir. >> “Calma, meu amor, a mamã está aqui”, >> murmurava, [música] acariciando o barriga.

Vai correr tudo bem. >> E assim o tempo foi passando. Até que uma manhã nublada, o destino decidiu [música] testar a sua força pela última vez. Viviane estava na praça a pedir esmolas [música] com uma lata na mão e o olhar cansado. De repente, uma dor forte atravessou o corpo. A bolsa rebentou. >> Ai, meu Deus.

>> Gemeu, segurando a [música] barriga. As as pessoas ao redor se assustaram. Ela gritou. Por favor, alguém me ajuda. >> As contracções vinham [música] cada vez mais fortes e o desespero crescia. Alguns curiosos aproximaram-se, [música] outros ficaram só a observar de longe. Ninguém sabia o que fazer, ninguém se aproximava.

 Viviane ajoelhou-se no chão da praça, ofegante, [música] com o rosto banhado em suor. >> Por favor, preciso de ajuda! >> Gritou mais uma vez, mas os olhares eram frios. As pessoas murmuravam entre si, filmavam [música] com o telemóvel, mas ninguém estendia a mão. Depois de alguns minutos eternos, o som da sirene quebrou o silêncio. A ambulância chegou.

 Dois paramédicos desceram apressadamente. >> Ela está em trabalho de parto, >> gritou uma das enfermeiras. Tentaram colocá-la na maca, mas já não havia tempo. A Viviane já [música] estava a ter o bebé ali mesmo no meio da praça. Faz força, menina, faz força agora! >> Gritava a paramédica, ajoelhada ao lado dela.

 Viviane chorava de dor, mas também de medo. A única coisa que passava [música] pela mente era o futuro daquela criança. Um pai abusador que nem sabia que o filho nasceria. Uma [música] mãe sozinha, sem casa, sem dinheiro, um mundo [música] que virava as costas. Foi naquele instante, no meio da praça, com o grito do pequeno Anthony ecoando sob o céu cinzento, que algo partiu dentro de Viviane.

 Todo o medo que sentia de Marrone, toda a vergonha, o abandono, a solidão [música] que a sufocava, tudo se partiu como vidro. Quando a médica levantou o bebé, ainda coberto de sangue, [música] envolto em panos brancos, Viviane sentiu o peito a abrir num misto de dor e alívio. Ali, pela primeira vez, ela teve a certeza faria o impossível para dar uma vida digna àquele menino.

 Foi levada ao hospital, [música] exausta, mal conseguindo abrir os olhos. A ambulância cortava o trânsito, o choro do bebé se misturava-se ao som da sirene e ela só [música] conseguiu apertar os dedos, repetindo para si mesma: >> “Eu vou proteger-te, meu filho, eu juro.” >> Quando deu entrada no hospital, quase desmaiou.

 A equipa médica levou-a para um quarto [música] simples, deram banho no bebé e deixaram-na descansar. Viviane apagou. Dormiu como não dormia há meses. Horas depois, acordou com vozes sussurradas. [música] Abriu os olhos lentamente, ainda grogue. Mas o que viu fê-la perder o ar. Ali, diante dela estavam na rone e ao lado dele os seus pais.

 Por um [música] segundo achou que estava a sonhar. O coração disparou, juntou o pouco de força que tinha [música] e perguntou a voz fraca. mas carregada de espanto. >> O que fazem aqui os três? >> O pai foi o primeiro a responder. [música] Deu um passo em frente, o rosto sério, o tom duro e firme, como sempre. O hospital ligou-nos assim que você chegou, disse.

 Disseram que você tinha dado à luz. Nós lembramos que quando apareceu lá em casa estava grávida. Nunca imaginámos que pudesse estar viver na rua à espera [música] de um bebé. O que lhe passou pela cabeça para fazer uma loucura destas? Viviane encarou-o, sentindo o sangue ferver. Por um instante, [música] tentou manter a calma, mas foi impossível.

 Toda a dor guardada [música] saiu de uma só vez. >> O que me passou pela cabeça? >> Gritou a voz trémula. >> O que vos passou pela cabeça para estarem aqui agora? Eu fui a casa de vocês a pedir ajuda. Eu bati à porta grávida, desesperada, e vocês bateram ela na minha cara. >> O quarto ficou em silêncio. O bebé dormia no berço ao lado e Viviane [música] tremia.

>> Eu disse que precisava de ajuda, mãe. Eu disse, e vocês mandaram-me embora como se eu fosse uma estranha. >> A mãe, que até então chorava em silêncio, [música] finalmente falou: >> “Então, porque não voltou paraa casa do o seu marido?”, >> perguntou entre lágrimas. Ele ficou desesperado à tua procura. Passou semanas atrás de si em tudo quanto é canto.

 E tu a andar [música] por aí largada, sem pensar no seu filho. Tudo isto a troco de quê? Usar drogas? >> Viviane ficou imóvel. O choque foi tanto que demorou alguns segundos [música] para perceber o que tinha acabado de ouvir. >> O quê? >> Sussurrou incrédula. >> Do que é que vocês estão a falar? A voz dela endureceu. [música] >> De onde é que vocês tiraram isso? Quem disse que estou a usar este tipo de coisa? [música] >> O pai suspirou, desviando o olhar como quem tenta conter a vergonha.

 Como assim? De onde o tiramos? Respondeu sério. Foi o próprio Marrone quem nos contou. Ele aparecia sempre para conversar preocupado consigo. Dizia que te estavas a perder, que não largava o vício, que fazia de tudo para te ajudar. Mas tu não deixavas. Falava que se preocupava com o bebé, que rezava para que o bebé nascesse saudável.

Viviane olhou para [música] Marrone. Ele estava ali sentado, com o mesmo ar calmo e falso de sempre. Um leve sorriso cínico surgiu no seu rosto, mas logo se transformou-se numa expressão de falsa preocupação. >> Amor, disse ele, fingindo voz doce. Eu compreendo que tenha [música] passado por muita pressão, mas não devia ter-se rendido a isso.

 Mesmo depois de todos os meus pedidos, não parou. Eu só quero o [música] melhor para o nosso filho. >> Viviane sentiu o estômago revirar. >> És um cínico, Marron! >> Gritou, apontando para ele. >> Portanto, foi essa a mentira que contou para os meus pais. Foi isso que inventou para os afastar de mim. >> Ela respirou fundo [música] e continuou.

A voz mais firme. >> Digam-me uma coisa, o que é que vocês estão fazendo aqui para começo de conversa? [música] Este filho é meu. Meu? Você não o qu, lembras-te? Quis aquela loira lá dentro da nossa casa, no lugar da sua esposa grávida. >> Olhou para [música] os pais, os olhos marejados, e perguntou com raiva contida: >> “Ele contou-vos sobre a mulher que levou para dentro da nossa casa?” >> Os pais entreolharam-se desconfortáveis.

A mãe limpou o rosto e respondeu com voz trémula: >> “Viviane, por amor de Deus, aquela mulher é irmã do seu marido.” >> Disse: >> “Não devia tê-la tratado com tanta grosseria”. [música] >> Viviane soltou uma gargalhada amarga, cansada, de puro desgosto. >> “Ah, já percebi,”, >> disse com ironia. >> “Foi essa a história que ele contou, não foi? que a loira era a irmã [música] dele.

Vocês acreditaram nisso? >> As lágrimas voltaram a escorrer, mas agora eram de raiva e desespero. [música] >> Mesmo vendo-me aqui deitada numa maca depois de dar à luz sozinha numa praça, ainda preferem acreditar nele. Tudo bem, então não preciso de vocês. Vou criar o meu filho sozinha. Marron levantou-se da cadeira lentamente, [música] ajeitou a camisola e falou com frieza: >> “Não, Viviane, não vais”, >> disse olhando-a nos olhos.

>> “Já [música] apresentei um pedido de guarda total do nosso filho. Você não vai poder vê-lo até ficar [música] limpo.” Aquelas palavras soaram como um disparo. Viviane sentiu [música] o chão desaparecer debaixo dos pés. O ar faltou-lhe. O coração acelerou tanto que mal conseguia respirar. >> O que é que está a dizer? >> Perguntou desesperada.

>> Já disse mil vezes que não uso nada disso. Podem fazer o exame que quiserem, não vai apontar nada. >> Mas o pai, com o olhar pesado, [música] respondeu num tom que cortava. Filha, já pedimos o exame”, disse. E o resultado deu positivo para vários tipos de estupefacientes. Eu sinto muito, mas não é seguro o bebé ficar consigo nesse estado. O mundo pareceu girar.

 Viviane [música] abriu a boca, mas nenhum palavra saiu. A dor era tanta que parecia física, uma pressão no peito, uma vontade de gritar [música] que não cabia dentro do corpo. Ela olhou para Marrone, que fingia a tristeza, mas não conseguia esconder o olhar vitorioso. Tudo o que ele queria estava a se cumprindo.

 Tinha-lhe tomado a casa, [música] os pais, e agora queria o filho. Viviane virou o rosto e olhou para o berço ao lado. António [música] dormia tranquilamente, alheio à tragédia que o cercava. As lágrimas voltaram com [música] força e ela murmurou com a voz embargada. >> Meu filho, que mais ainda vão tirar-me? Viviane olhou mais uma vez para Marrone.

 Mesmo tentando [música] disfarçar, o seu olhar entregava tudo. Era o olhar de quem já sabia [música] que tinha vencido. Aquela expressão de falso arrependimento se desmanchava num sorriso quase imperceptível, [música] cruel. Ela sentiu o sangue ferver. O o desespero tomou conta. >> Eu não vou ficar sem o meu filho! >> Gritou fora de si.

 Vocês não o vão tirar de mim. Saiam, saiam todos daqui. >> Os enfermeiros e uma médica correram até o quarto tentando contê-la. Viviane se debatia, chorava, implorava. >> Devolvam o meu filho, por favor, o meu filho! >> Gritava, tentando soltar-se. A médica aplicou um tranquilizante [música] em o seu braço e aos poucos o corpo dela foi ficando pesado.

 Os gritos se transformaram em soluços fracos, as pálpebras fecharam-se lentamente e a última imagem que viu antes de apagar foi Marrone, parado junto ao berço, com aquele mesmo sorriso vitorioso no rosto. Horas depois, quando acordou, o quarto estava vazio. Nem Marron, nem [música] os seus pais estavam mais lá. O berço também.

 O coração dela apertou-se e o silêncio em redor parecia gritar. Viviane percebeu que depois de [música] tudo o que passou, fome, rua, parto na praça, estavam a planear o pior, tirar dela o único motivo que ainda [música] a mantinha viva. >> “Não vão ficar com ele, não vão”, >> murmurou com os olhos marejados. >> “O meu filho é meu.” >> Mas era tarde demais.

 Poucos dias depois, o pequeno [música] Anthony foi levado para casa do pai, onde seria cuidado por Marrone e pela sua suposta [música] irmã, a mesma mulher de vestido vermelho. Viviane, entre a tristeza [música] e o ódio, tentou planear uma forma de reverter aquilo, mas antes que [música] podia fazer qualquer coisa, foi internada à força numa clínica de reabilitação, escolhida pessoalmente pelos pais, seguindo as recomendações do próprio Marrone.

 Ela chorou, implorou, [música] tentou resistir, mas ninguém a ouviu. Para todos era apenas uma mulher doente, desequilibrada, [música] viciada. O retrato das mentiras que ele havia espalhado. Ainda assim, quando entrou na clínica, viu ali uma hipótese. >> Se eu provar que estou limpa, eles vão ter que me devolver o meu filho. >> Pensou.

 determinada, prometeu a si mesma [música] que diria toda a verdade ao médico. Assim que chegou, foi levada [música] para uma sala branca, fria, com uma mesa de metal e duas cadeiras. [música] Um relógio fazia tic tac alto na parede, o som a ecoar no silêncio. A porta se abriu e entrou um homem [música] de bata, de barba feita e olhar calmo.

>> “Bom dia”, >> disse num tom [música] profissional. Sou o Dr. Santiago. Serei o responsável pelo seu tratamento aqui. Antes de começarmos, preciso de fazer algumas [música] perguntas. Viviane, ansiosa, não esperou. Assim que terminou a frase, começou a dizer [música] tudo de uma vez, sem sequer respirar. >> Doutor, tudo o que lhe disseram é mentira, >> disse com a [música] voz a tremer.

>> Não consumo drogas, nunca consumi nada. Se fizer já um exame, vai ver. O meu sangue está limpo. Isso é coisa do meu ex-marido. Ele inventou tudo para me afastar do meu filho. Ele bateu-me, me trancou em casa, trouxe outra mulher para dentro da minha casa e agora está tentando destruir-me. >> Falava depressa, desesperada, as palavras atropelando-se.

 O médico observava-a [música] em silêncio. Quando ela terminou, respirando ofegante, ele meteu a mão no bolso e tirou o telemóvel. Viviane franziu o senho. Santiago destravou o aparelho, mexeu durante alguns [música] segundos e depois virou o ecrã na direção dela. O que viu fez o seu estômago [música] congelar. Na foto, o Dr.

 Santiago aparecia abraçado a Marrone. Os dois sorridente, segurando copos de cerveja [música] num bar. Por um instante, Viviane achou que estava a delirar, mas não era alucinação, era real. >> [música] >> O médico olhou para ela, ainda com aquele mesmo tom calmo e controlado, e disse: “Eu compreendo [música] que em algumas situações o uso destes substâncias possa causar confusão e por que talvez não consiga distinguir [música] o que é real do que é imaginação, mas aqui vamos ajudá-lo com [música] isso, está bem?” Viviane

sentiu o chão desaparecer até ali, naquele lugar onde [a música] deveria estar protegida. Marron já tinha chegado primeiro. Ele era como uma sombra, sempre à frente, manipulando tudo e todos. Ninguém via [música] o monstro por detrás do sorriso dele. Os dias se tornaram longos. O tempo ali parecia não passar.

 Viviane foi obrigada a seguir a rotina da clínica. [música] Medicamentos, consultas, terapias forçadas. chorava escondido, sozinha, nas madrugadas frias, [música] repetindo o nome do filho como quem fazia uma oração. Anthony, meu amor, espera por mim. >> Mesmo trancada, não desistiu. Planeou com calma cada passo da fuga. E um ano [música] depois, quando a dor e a saudade já se tinham tornado cicatrizes, decidiu que estava na hora.

 Era meia-noite, chovia torrencialmente lá fora. Viviane esperou pelo momento certo, quando as enfermeiras se recolheram e o corredor ficou vazio. Levantou-se da cama, foi até à janela do quarto e forçou a tranca. O vidro cedeu [música] com um estalido grave. Saltou com cuidado, mesmo fraca, e caiu sobre a relva molhada.

 correu pela lateral do edifício, entrou na zona de descanso dos [música] funcionários e apanhou algumas roupa limpa que estavam num estendal. Vestiu-se depressa, respirou fundo e, sem olhar para [música] trás, desapareceu na escuridão. Depois de um ano inteiro de inferno, fingindo ser uma viciada em recuperação, ela finalmente [música] estava livre.

 Agora só restava uma missão, recuperar. António. Andou [música] durante horas, descalça, molhada, o vento a cortar a pele. Os pés sangravam, mas ela não parava. >> Só mais um bocadinho, só mais um bocadinho >> repetia para si mesma, tropeçando pela estrada escura. Ao amanhecer, avistou a rua onde ficava a sua antiga casa. As pernas tremiam, [música] o corpo pedia cair, mas o coração empurrava-a paraa frente.

 Ela precisava de ver o filho, precisava de saber se ele estava bem. Quando chegou, as luzes da casa [música] estavam acesas. Era tarde da noite, mas a televisão ligada fazia ecoar um barulho forte pela janela. A Viviane achou [música] estranho. Marron nunca deixava a TV ligada àquela hora. Aproximou-se devagar, ofegante, e depois ouviu um choro, um choro de criança.

 O seu coração quase parou. Era o Anthony, mas o som era fraco, arrastado, [música] diferente do choro de um bebé saudável. Parecia um pedido de ajuda. >> “Meu Deus, meu filho”, >> murmurou com a voz embargada. Sem pensar, começou a correr [música] ao redor da casa, olhando por cada janela, tentando encontrar o quarto.

 Até que parou de repente pela vidraça do quarto principal, ela viu. Marron estava de pé, em frente [música] ao berço, segurando uma garrafa de cerveja. O seu olhar era frio, fixava os olhos no bebé, que chorava fraco, sem força. Viviane encostou as [música] mãos no vidro. O coração disparado, as lágrimas desceram como chuva e pela primeira vez ela teve medo do que aquele homem seria capaz de fazer.

 O olhar de Marron parecia de pedra, frio, sombrio, perigoso. Viviane sentiu um arrepio [música] subir pelas costas. O coração acelerou. Por um segundo, pensou que ia desmaiar. A cena diante dela era aterrorizante. Marrone, com uma [música] garrafa de cerveja na mão, abanava o braço em direção ao berço, como se fosse dar um bofetada na criança.

 O instinto falou mais alto. Antes que ele fizesse qualquer coisa, Viviane bateu com força no janela. >> Marron, não! >> Gritou desesperada, [música] o som ecoando pela rua silenciosa. O barulho fez Marrone assustar-se. Ele se virou-se bruscamente, [música] os olhos arregalados, como se tivesse visto um fantasma.

 Por um instante, [música] ficou imóvel, respirando pesadamente. Parecia não acreditar no que via, mas logo a expressão [música] de espanto deu lugar à outra, um misto de alívio e frieza. Deixou a garrafa cair no chão, [música] o líquido a espalhar-se. Depois aproximou-se do berço, pegou no pequeno Anthony com cuidado [música] e caminhou até à janela.

 Viviane não sabia o que pensar. Ficou parada, o coração disparado, imaginando o que ele faria. Até que Marrone abriu a janela com força, o vento frio a bater no rosto dele, olhou-a nos olhos [música] e, com um tom de desprezo que cortava como faca, disse: >> “Não era isto que queria? Aquele miúdo nojento” >> cuspiu as palavras.

 [música] >> “Então toma, fica com ele, desaparece da minha frente e nunca mais volta”. >> A Viviane gelou. Por um instante, [música] achou que aquilo era uma armadilha, mas bastou olhar-lhe nos olhos para entender. Não era fingimento, era ódio. Aquele homem nunca quis ser [música] pai.

 O bebé não passava de um símbolo do controlo que ele perdeu. Ela recebeu Anthony nos braços, o corpo a tremer. [música] O menino chorava fraco e ela o apertou-o contra o peito, como se quisesse protegê-lo do mundo inteiro. Marron virou costas e desapareceu dentro da [música] casa, batendo a porta com força. Viviane olhou em redor, a rua vazia, a noite escura, [música] a chuva miudinha a começar a cair.

 Sem pensar, envolveu o filho na manta e [música] correu, desaparecendo na escuridão. Foram meses a deambular pelas ruas, sem [música] destino certo. Dormia em abrigos, em praças, debaixo de marquises. [música] fazia pequenos bicos, lavava a loiça, transportava caixas, limpava o chão, mas ninguém [música] queria contratar uma mãe com um bebé ao colo.

>> “Desculpe, menina, mas aqui não dá.” >> Ouvia a toda a hora. A rejeição era constante e a fome, uma velha [música] companheira. Certa tarde, já sem forças, andava com o Anthony nos braços [música] quando sentiu o cheiro de comida a vir de um restaurante. O estômago dela roncou alto, parou no passeio e olhou para dentro.

 Lá dentro, o dono do lugar discutia com um homem que guardava instrumentos num automóvel. >> “Nunca mais piso esse buraco”, >> gritava o músico, batendo com a porta do carro e a ir embora. Viviane observou [música] a cena. O palco estava vazio, o microfone ali parado, brilhando sob as luzes. Um desejo profundo nasceu dentro dela.

 O desejo de cantar, de sentir, por um [música] instante que fosse, que ainda era ela própria. Sem pensar [música] duas vezes, entrou, subiu para o pequeno palco, ainda segurando o filho nos braços. O público olhou confuso. Viviane respirou fundo, ajeitou Anthony contra o [música] peito e segurou o microfone. Mas antes que conseguisse soltar a primeira nota, ouviu o grito [música] do proprietário do restaurante.

>> Ei, tu aí, sua mendiga, desce do meu palco neste momento? >> Gritou furioso, vindo [música] em direção a ela. >> Estás a pensar que aqui é ON de caridade? Se quer cantar, vai cantar para a praça. Leva este bebé imundo e desaparece daqui. >> Viviane recuou, [música] mas não desistiu. >> Mas, senhor, o seu cantor foi-se embora.

>> Tentou argumentar. >> Eu só quero uma oportunidade. >> O homem parou, bufou e olhou para ela de cima a baixo. Pensou [música] em responder, mas preferiu virar costas e ir embora. Viviane, no entanto, não se calou. Pode não parecer, mas eu sei cantar. >> Disse com firmeza. >> Se o senhor me deixar subir ao palco, eu canto em troca de um prato de comida.

 Só isso para mim e para o meu filho. >> O dono parou de novo, ficou a olhar para ela durante alguns segundos. O olhar dele suavizou um pouco. Viu uma mulher magra, exausta, com um bebé [música] ao colo, mas com os olhos cheios de verdade. >> Escuta, menina, >> disse mais calmo. >> Não duvido que saiba cantar, mas este aqui não é o sítio certo.

 As as pessoas que aqui vêm não querem só ouvir música. Elas pagam caro para se sentirem especiais, para serem servidas. Não vão gostar de ver uma mulher da rua no palco. Viviane baixou a cabeça envergonhada, mas o homem suspirou [música] e completou. >> Olha, se estás tão determinada assim, sobe essa rua.

 Há uns três quarteirões tem um clube. Lá deixam qualquer um cantar, mesmo em troca de migaria. [música] Talvez o deixem apresentar-se em troca de um prato de comida. O dono costuma ser boa gente. É o máximo que posso fazer. Viviane sorriu com [música] gratidão. >> Obrigada, moço. >> Disse apertando Anthony contra o peito e seguiu caminhando.

 Os pés doíam, o corpo cansado, mas algo dentro dela tinha renascido, a vontade de cantar. Quando chegou ao tal clube, ficou surpreendida com o movimento. Carros, risos, [música] gente bem vestida. O som da música ecoava pela calçada. Ela hesitou por um [música] instante. >> Se lá no restaurante já me trataram mal, imagina aqui. >> Pensou, mas olhou para o filho, a dormir tranquilo no colo, e criou coragem.

Respirou fundo, caminhou até ao homem que segurava uma prancheta à entrada e disse: >> “Vim cantar em troca de um prato de comida”. O homem ergueu as sobrancelhas [música] surpreendido. E foi exatamente assim que tudo começou. Foi assim que conheceu Daniel, o cantor que a [música] defenderia, e Daniela, a figurinista que tornar-se-ia sua amiga.

 Agora, sentada no [música] camarim, com o rosto maquilhado e o coração aberto, Viviane terminava de contar a sua [música] história. Daniel e Daniela ouviam em silêncio. Os olhos deles [música] estavam marejados. Daniela, que tentava passar o eyeliner, tremia [música] tanto que quase borrava a maquilhagem. Daniel respirou fundo e disse com a voz embargada: >> “Não fazia ideia de que tinhas passado por tudo isto, Viviane”.

 Viviane deu um [música] leve sorriso, cansado, mas sincero. >> “Está bem”, >> respondeu. >> “Eu sei como isto soa. Se serve de consolo, nem eu sei bem como me encontrou”. A Daniela ainda tentava [música] conter o choro quando se virou para o irmão e perguntou com a voz trémula: >> “Isso é verdade, irmão? De onde é que conhece-a?” >> Daniel respirou fundo, recompôs-se e respondeu, [música] tentando parecer calmo.

>> Na verdade, nem sabia se era ela mesmo. Só achei que se parecia com uma rapariga que vi cantar uma vez num casamento. Tinha uma voz lindíssima, daquelas que a gente não esquece. Então pensei, e se for ela? Eu precisava de dar uma oportunidade. Vai que ela surpreende toda a gente? Ele fez uma pausa, [música] o olhar distante.

>> Até porque se ninguém me tivesse dado uma oportunidade lá atrás, eu também nunca teria chegado onde cheguei. >> A Daniela ficou a olhar para ele emocionada. Viviane, sentada na cadeira em frente ao espelho, segurava Anthony ao colo em silêncio. O quarto ficou sossegado por [música] alguns segundos.

 Só se ouvia o som ligeiro da respiração do bebé e o barulho [música] da maquilhagem a ser guardada. De repente, uma voz ecuou do altifalante. >> Viviane, por favor dirija-se ao palco para a sua audição. >> Daniel e Daniela entreolharam-se. Foi [música] então que perceberam. Viviane ainda usava a mesma roupa suja de antes.

A maquilhagem [música] tinha disfarçado um pouco o cansaço, mas o cabelo continuava desarrumado e ela ainda não tinha tomado banho. Daniela levou as mãos à cabeça, [música] desesperada. >> Oh, não acredito. Eu ouvi-te tanto. Me emocionei [música] tanto com a sua história que me esqueci completamente de te arranjar para apresentação.

>> Disse aflita. Daquele jeito, aqueles idiotas lá fora vão tratar-te igual te trataram naquele restaurante. >> O Daniel também ficou nervoso, levantando-se [música] de repente. >> Eu vou lá falar com eles, >> disse decidido. >> Vou pedir mais 5 minutos, só cinco para você arranjar-se direito. >> Mas antes de ele sair, [música] Viviane segurou-lhe o braço.

 O olhar dela estava firme. >> Não precisa, >> disse calmamente. Se realmente me forem escolher, vai ser pelo meu talento, não pela aparência. Eu vou subir àquele palco do maneira que eu estou e o meu filho vai comigo. >> Daniel ficou em silêncio, admirando o coragem dela. Daniela tentou argumentar, mas a Viviane já tinha [música] se levantado.

 Pegou em Anthony, ajeitou o pano que o cobria, respirou fundo e saiu do camarim. O corredor parecia interminável. O som da [música] plateia vinha de longe, risos. Vozes, aplausos. Cada passo ecuava dentro da cabeça [música] dela como um lembrete, agora ou nunca. Quando [música] atravessou a cortina e pisou o palco, o murmúrio do público cessou por um instante.

 As pessoas olharam-na com espanto. Estava de trapos, o vestido rasgado, [música] os pés descalços e o cabelo solto, desgrenhado. Nos braços, o pequeno Anthony enrolado [música] num pano gasto e sujo. O Daniel do outro lado correu até o painel de jurados, sentou-se apressado e olhou para Carla, que [música] já observava a cena, com um sorriso debochado.

“Mas o que é que está a acontecer?”, perguntou tenso. “Ela não devia ser a última pessoa a cantar?” Carla deu uma gargalhada amarga e respondeu sem desviar os olhos do palco. >> Pois, devia, mas achei que o público se animaria se ela fosse a primeira. Uma espécie de alívio cómico, sabe? >> Disse sarcástica.

 [música] >> Um número para fazer rir o povo antes dos verdadeiros artistas entrarem. Se o espetáculo terminasse com ela, seria um final demasiado amargo. Daniel franziu o rosto, desgostoso com o que ouviu, mas conteve-se. Tudo o que podia fazer era torcer por que Viviane calasse [música] todos ali com a sua voz.

 Mas o público não esperou ela cantar. Assim que a mulher [música] segurou o microfone, uma onda de coxichos e risos começou. Alguns olhares de nojo, outros de pena. Até que uma voz gritou da plateia: >> “O que estás aí a fazer? vais usar o bebé como chantagem para ganhar o prémio. >> Gozou um homem. >> Esta criança nem parece bem cuidada.

Deveriam chamar o conselho tutelar para esta louca. >> O riso espalhou-se. [música] Logótipo começaram as vaias, outros gritos. >> Sai daí. Isto aqui não é circo. >> Mãe irresponsável. >> Viviane sentiu o rosto arder. O som da multidão parecia ensurdecedor. [música] Ela olhou para baixo, tentando manter-se firme, mas as lágrimas começaram a cair.

De repente, alguém atirou uma latinha para sua [música] direção. Ela virou-se rápido, protegendo o bebé com o corpo, e a lata atingiu-a nas costas. O impacto a fez cambalear. Caiu de joelhos, chorando. Daniel levantou-se num salto. “Vocês estão loucos?”, gritou encarando o público. >> Estão a atirar coisas a uma mãe com um bebé ao colo.

 Imaginem se acertam a criança. É isso que vocês querem? Magoar um bebé para se sentirem melhor? >> O silêncio foi imediato. Alguns desviaram o olhar constrangidos. Outros continuaram frios, indiferentes, [música] mas pelo menos deixaram de jogar coisas. Viviane permaneceu ajoelhada durante alguns segundos [música] com Anthony agarrado ao peito.

 Pensou em desistir. As lágrimas escorriam [música] sem parar e o público ainda murmurava palavras de desprezo. Por um momento, achou que não conseguiria, mas depois olhou para o rosto do filho. O pequeno, mesmo tão [música] fraco e cansado, olhava-a com um sorrisinho suave, inocente. Aquela expressão bastou.

 O mundo podia estar inteiro contra ela, mas ele, o seu menino, acreditava. Viviane enxugou [música] as lágrimas com as costas da mão, levantou-se lentamente, respirou fundo e caminhou até ao microfone. A plateia voltou a calar-se, curiosa. Ela ajustou o microfone, olhou para Daniel, [música] que lhe fez um ligeiro aceno de apoio, e disse com voz firme: >> “Esta é a música que descreve a minha jornada. Espero que gostem.

” Um silêncio pesado tomou conta do salão. Ele gritou e a porta fechou-se. Fiquei na rua com o coração na mão. Nenhum manta, nenhum olhar, apenas o frio da solidão. [música] Corri para casa dos meus pais, mas nem lá pude entrar. Você escolheu o seu caminho. Foi [música] tudo o que ouvi no ar. E o mundo virou as costas.

 O meu [música] chão virou papel. Mais um pequeno choro no colo lembrou-me que ainda havia céu. A minha voz voltou no meio da escuridão. Enquanto [música] o meu filho chorava, cantei para enganar a fome e a solidão. [música] Não precisei de palco, nem de luz. Bastou o amor [música] que ainda conduz. Mas a minha voz voltou, ferida e verdadeira proveniente da dor mais passageira.

A rua [música] fez de mim uma mãe guerreira. Meu corpo tremia de frio. Cada passo um pedido [música] de ajuda. Cada nota um desafio. Os olhos do meu menino eram estrelas [música] em contramão. Quando o leite secou de vez, cantei para acalmar o coração. [música] E mesmo com fome cansada, continuei a cantar sem entender.

que quando o mundo te [música] cala, a alma começa a responder. A minha voz voltou, rasgando o silêncio cruel entre o choro e o papelão, [música] encontrei o meu pedaço de céu. E quem me [música] chamava-lhe louca hoje chora, ouvindo refrão. A minha [música] voz voltou. Sem dono, sem chão, mas cheia de razão.

Um dia [canção] disseram: “Não tens valor, mas o valor é nascer outra vez”. [música] Quando a vergonha virou coragem, a dor ensinou-me a vez. Cantei no meio da multidão [música] com o meu filho ao colo a dormir. E quando troçaram de mim, [música] foi Deus que me fez. prosseguir. [música] Disseram que eu não podia cantar, mas aqui estou.

Agora canto que vivi, a mulher que o mundo [música] quase não viu. Do asfalto brotou o meu som, da miséria nasceu o meu tom. Não há grito que me faça parar, nem mentira que me faça calar. Minha [música] voz voltou e o vento levou. Tudo o que um dia me magoou passou. >> [música] >> O meu filho dorme e ainda canto porque a vida me [música] devolveu voz.

[música] Quando Viviane acabou de cantar, o silêncio que tomou conta do salão era quase sagrado. As luzes do palco pareciam mais suaves e o eco da última nota ainda flutuava no ar. Durante alguns segundos, [música] ninguém se mexeu. Depois, uma coisa incrível aconteceu. As pessoas começaram a chorar.

 Não era um choro tímido ou contido, eram lágrimas verdadeiras nascidas de dentro, como se cada pessoa naquele auditório tivesse sentido o peso e a dor que aquela mulher carregava na voz. Homens e mulheres [música] enxgavam os olhos, alguns segurando as mãos de lado, tentando conter a emoção. Daniela, lá atrás [música] estava com a cara molhada de lágrimas, o delineado esbatido.

 E até Carla, a cantora arrogante, que passou [música] o tempo todo desprezando Viviane, chorava. A mulher que antes troçava, agora parecia quebrada, de olhos vermelhos e expressão [música] sincera. Ela mal conseguia aplaudir, tamanha era a emoção. Sussurrou baixinho para si própria. Meu Deus, nunca ouvi nada tão lindo.

>> Parecia que tinha cantado um anjo. A voz de Viviane tinha atravessado os corações e limpou tudo o que havia de amargo neles. Era mais do que talento, era pureza, era força. Cada palavra que ela cantava era uma cicatriza [música] transformada em arte. Quando a música acabou completamente, Viviane ficou parada com Anthony a dormir no colo, respirando fundo.

 O silêncio durou mais alguns segundos e depois [música] o todo o teatro explodiu em aplausos. As palmas ecoaram como trovões, gritos, assubios, [música] lágrimas, todos de pé. As pessoas batiam palmas de forma arritmada, como se quisessem que ela entendesse que ali mais ninguém a julgava, que naquele momento ela tinha provado ser muito mais do que a mulher da rua.

 Daniel, sentado na bancada dos jurados, estava de pé, batendo palmas como um fã. Os olhos dele brilhavam e sorria de orelha a orelha. Carla, ao lado tentava recompor-se, mas quando chegou a altura de dar a opinião, ela não conseguiu dizer uma única palavra. Olhou para Viviane, [música] respirou fundo e apenas se levantou, aplaudindo juntamente com a plateia.

 Daniel fez o mesmo. Não havia nada a ser dito. [música] Nenhuma palavra seria capaz de descrever o que tinham acabado de ouvir. Viviane olhava tudo aquilo atónita, como se ainda não acreditasse por um instante, pareceu voltar a ser aquele mulher sentada no passeio pedindo um prato de comida. Mas agora, perante centenas de pessoas a aplaudir de pé, compreendeu que tinha ganho [música] e pela primeira vez sorriu.

 Nos dias seguintes, o vídeo da sua audição viralizou. [música] As redes sociais não falavam de outra coisa. a cantora de rua que emocionou o país. [música] Em pouco tempo, o programa exibiu a sua história completa. Viviane contou cada pormenor: o casamento, as agressões, o parto na praça, a luta para sobreviver. A mulher que chegou a pedir comida se tornou um símbolo de superação.

 A cada episódio, [música] a sua popularidade crescia e quando a grande final do reality chegou, o resultado já era previsível. Viviane ganhou. [música] Foi coroada campeã perante milhões de pessoas assistindo ao vivo. O público aplaudia de pé, gritando o seu nome, enquanto ela subia para o palco com Anthony nos braços.

 Daniel chorava nos bastidores, orgulhoso. Daniela sorria como quem via um milagre acontecer diante dos olhos. E até a Carla, que era agora uma das suas maiores apoiantes, subiu ao palco para [música] abraçá-la. A cena correu o país. Uma mulher simples, vestida de branco, com o filho ao colo, [música] a ser aplaudida de pé. Era o recomeço.

 Poucos dias depois, as consequências começaram a surgir à tona. O programa exibiu uma reportagem contando toda a história de Viviane em detalhes [música] e o público exigiu justiça. As denúncias de abuso foram reabertas. Os vizinhos começaram a falar. As provas apareceram. E a farça de Marron desmoronou-se. A polícia deteve o homem por agressão e maus [música] tratos.

 As mentiras sobre o suposto vício caíram por terra quando exames oficiais comprovaram que Viviane nunca tinha usado nada. A verdade veio ao tona e pela primeira vez todo o país soube o nome do monstro que tentou destruir uma mulher por orgulho. Marron foi levado algemado perante as câmaras. >> [música] >> Entretanto, Viviane recebia mensagens de apoio de todos os cantos.

 Milhares de pessoas escreviam dizendo que a história dela tinha mudado [a música] as suas vidas e que depois de a ouvirem cantar, começaram a acreditar em recomeços. Os pais de Viviane também assistiram a tudo pela televisão. [música] Choraram ao ver o filha em palco com o bebé nos braços. Tomados pela culpa, tentaram entrar em contacto.

 Primeiro foi a mãe a ligar e deixando recados. Filha, perdoa-me, eu não sabia. Depois o pai a escrever uma carta longa [música] dizendo que se arrependia de tudo. Viviane não atendeu, não por ódio, mas porque [música] o coração ainda não estava pronto. Disse apenas que necessitaria de tempo [música] e que um dia talvez conseguisse perdoar.

 E quanto a Daniel, o cantor que acreditou nela quando mais ninguém acreditava, não se afastou, continuou ao lado dela em todas as fases do programa, produziu as suas músicas, divulgou os seus vídeos e, aos poucos, o carinho entre os dois transformou-se em algo maior. Depois do final do reality show, gravaram juntos uma canção chamada O som da rua, inspirada na história de Viviane.

 música rebentou em todo o país [música] e logo começaram a fazer digressões juntos. Com o tempo, nasceu o amor, um amor sereno, puro, nascido do respeito [música] e da admiração. Viviane, que um dia acreditou estar sozinha no mundo, tinha agora alguém que olhava-a, como ela sempre mereceu ser olhada.

 Anos mais tarde, [música] os dois tornaram-se casaram numa cerimónia simples, rodeados de amigos. e fãs. E no altar, ao lado do pequeno Anthony, agora sorridente e cheio de vida, e carregando no ventre o seu segundo filho, [música] Viviane cantou novamente. Aquela voz que um dia foi silenciada pela dor, agora enchia o ar de esperança. O público a chamava a mulher que cantava para sobreviver, mas ela sabia que era mais do que isso.

 Viviane era a prova viva de que mesmo quando o mundo vira as costas, a fé, o amor e a coragem podem mudar qualquer destino. [música] E enquanto o pequeno Anthony aplaudia, Viviane olhou para o Daniel e sorriu, dizendo baixinho: >> “Já te disse, cantar podia salvar a minha vida”. Comente a voz da Viviane para eu saber que chegou até ao final deste vídeo e marcar o seu comentário com um lindo coração.

 E assim como a história de Viviane, a cantora humilhada que ganhou o mundo, tenho outra narrativa emocionante para partilhar consigo. Para assistir é fácil. >> [música] >> Basta clicar agora no vídeo que está aparecendo no seu ecrã e embarcar em mais uma história emocionante. Um grande beijinho e até à próxima. Yeah.