Que medicação? Complemento vitamínico para ajudar na recuperação. O Rodrigo não respondeu, mas decidiu observar mais atentamente. Terça-feira, 8 horas da manhã. O Dr. Martins chamou Rodrigo com urgência. Senr. Monteiro, preciso de falar com o senhor. Aconteceu alguma coisa? Chegaram os resultados dos exames toxicológicos das suas filhas.

 O Rodrigo sentiu o estômago apertar e têm anfetamina no sangue. Anfetamina é um estimulante muito forte. Em crianças pode causar exatamente os sintomas que as suas filhas apresentaram. Doutor, de onde pode ter vindo isto? Só médicos têm acesso à anfetamina pura. E pelos níveis que encontramos, a aplicação tem vindo a ser feita regularmente a cerca de se meses.

 O Rodrigo sentiu as pernas bambas. Seis meses foi quando A Lívia começou a tratá-las intensivamente. Quem é a médica que acompanha as crianças? A Dra. Lívia Carvalho. O Dr. Martins ficou sério. Senhor Monteiro, preciso informá-lo que vamos comunicar isso às autoridades. Isso é envenenamento de menores. Nesse momento, A Lívia apareceu no corredor.

 Rodrigo, como estão as minhas pacientinhas hoje? Lívia? Falou com voz controlada. O doutor quer falar consigo. Comigo sobre o quê? O Dr. Martins apresentou-se. Doutora, sou o Dr. Martins, responsável pela UCI. Preciso de esclarecer alguns pontos sobre o tratamento que a senhora vinha dando às crianças. Claro, que pontos? Encontramos anfetamina no sangue delas.

 Lívia empalideceu, mas tentou disfarçar. Anfetamina? Impossível. Eu só dava sedativo natural. Senhora, tem a receita deste sedativo? Tenho, claro. Ela mexeu na mala, mas demorou mais do que o normal. Que estranho. Acho que me esqueci no consultório. Doutora Dr. Martins continuou. A quantidade de anfetamina indica aplicação regular durante se meses.

 A senhora consegue explicar isso? Deve ter sido a ama. Ela que estava a drogar as crianças, mas a ama está presa há uma semana e o nível de anfetamina no sangue indica a aplicação recente. A Lívia ficou sem resposta. Doutora, vou precisar que a senhora acompanhe a nossa investigação. Investigação? O envenenamento de menores é um crime grave.

A polícia vai querer falar com a senhora. É quando Lívia percebeu que o seu mundo estava a desabar, mas ainda não confessou, ainda tentou defender-se. Isso é um mal entendido. Eu sou médica respeitada há 18 anos. Justamente por isso é que é mais grave. Dr. Martins respondeu. Rodrigo, que escutou tudo em silêncio, finalmente falou: “Lívia, me olha nos olhos e diz-me a verdade.

 Você estava a dar anfetamina às minhas filhas. Rodrigo, eu nunca me olha nos olhos.” Lívia tentou sustentar o olhar, mas não conseguiu. Eu Eu posso explicar. Então explica. Mas em vez de confessar, ela tentou fugir. Preciso de ir buscar os documentos no meu consultório. Volto já. A senhora não vai a lado nenhum. O Dr.

Martins falou. A segurança do hospital já foi acionada. É quando Lívia compreendeu que já não tinha saída. Terça-feira, 2 da tarde. Na sala de segurança do hospital, Lívia estava sentada entre Rodrigo, Dr. Martins e dois investigadores da polícia. Ela ainda tentava negar tudo. Eu nunca dei anfetamina para estas crianças, ela insistia.

 Doutora, um dos investigadores falou, temos o relatório toxicológico, temos as declarações do pai e temos a sua presença constante na casa durante o período da intoxicação. Coincidência? A senhora tem alguma explicação para a anfetamina no sangue das crianças? Foi a ama. A ama não tem acesso à anfetamina médica. A senhora tem? Lívia ficou em silêncio.

 Rodrigo não aguentou mais. Lívia, por amor de Deus. Pára com essa mentira. Minhas filhas quase morreram. Eu não queria que morressem. A frase saiu antes dela perceber. Era a primeira brecha na versão dela. Assim, a senhora admite que deu-lhes alguma coisa? O investigador perguntou. A Lívia percebeu o erro e tentou voltar atrás. Não.

 Eu quis dizer que ninguém queria que elas morressem. Não foi isso que a senhora disse. Rodrigo levantou-se nervoso. Lívia, você é médica. Você sabe que mentir numa investigação criminal é pior para si. Eu não estou a mentir. Então explica-me pelas minhas filhas só melhoraram quando deixaram de tomar o seu remédio? Elas não melhoraram.

 Melhoraram sim. Na quinta-feira, quando não dei o seu medicamento, elas foram dormir tranquilas. Foi coincidência? E aqui no hospital, sem medicamentos, estão melhorando cada dia. A Lívia estava encurralada, mas ainda resistia. Rodrigo, está muito stressado, não está a pensar direito. É quando o Dr. Martins intervém.

 Doutora, temos as câmaras de segurança do hospital. A senhora foi vista a aplicar algo nas crianças ontem à noite durante a troca de serviço. O sangue de Lívia gelou. Que câmaras? O hospital tem monitorização 24 horas. Queremos saber o que a senhora aplicou às 3 da madrugada. A Lívia tentou mais uma mentira. Era o Soro.

 Elas estavam desidratadas. O soro não precisa de ser escondido da enfermagem. Porque a senhora não comunicou? Lívia não tinha resposta. O investigador inclinou-se para a frente. Doutora, vamos facilitar-lhe as coisas. Sabemos que aplicou anfetamina. Temos provas. A única coisa que queremos saber agora é porquê.

 Lívia olhou em redor da sala. Rodrigo com ódio no olhar. O Dr. Martins abanando a cabeça. Investigadores a aguardar. Ela entendeu que acabou. Eu começou. A voz trémula. Fala, Lívia. – sussurrou Rodrigo. Pelo menos isso me deve. Eu fiz por porque as lágrimas começaram a escorrer. Porque te amo, Rodrigo. O silêncio na sala foi total.

 Eu amo-te há anos desde que a sua mulher morreu. E eu pensei, eu pensei que se cuidasse das meninas, se eu fosse indispensável para elas. Envenenou as minhas filhas por amor? – sussurrou Rodrigo incrédulo. Não era para magoar, era só para elas precisarem de mim. Para ver que eu era importante. Importante? Você quase matou-as.

 A dose era pequena, calculada. Eu sou médica. Eu sabia o que estava a fazer. E quando a Marina conseguiu acalmá-las, depois teve que aumentar um pouco. Ela ia estragar tudo. Aumentar? Aumentou a dose de droga nas minhas filhas por ciúme. Lívia estava agora a soluçar. Eu amo-te tanto. Há anos que espero por uma oportunidade.

 Rodrigo levantou-se tremendo de raiva. Isso não é amor, Lívia. Isso é uma loucura. É amor, sim. Tudo o que fiz foi por amor. O amor não magoa, criança inocente. Eu não queria magoar. Só queria que me amasse. O investigador fez sinal aos colegas. Doutora, a senhora está presa por tentativa de homicídio e exercício ilegal da medicina.

 Enquanto Lívia era levada, ainda gritando que amava Rodrigo, ficou na sala destruído. “Doutor”, falou para o Dr. Martins. “Preciso de ir buscar uma pessoa, um pessoa inocente que está presa por um crime que não cometeu. Vá, as suas filhas estão seguras agora.” E pela primeira vez em meses, Rodrigo sabia que era verdade.

 Quarta-feira, 10 horas da manhã, o Rodrigo estava na esquadra a lidar com papelada e burocracia. Mesmo com a confissão de Lívia, libertar alguém da prisão não era simples. “Senhor Monteiro”, o delegado explicou, “a senora Marina vai ser libertada hoje, mas o processo contra ela só vai ser arquivado oficialmente em algumas semanas.

 E ela pode ficar em casa entretanto?” Pode sim. “E sobre indemnização por danos morais?” Vou tratar disso depois. Agora só quero tirá-la daqui. Às 11:30, Marina finalmente saiu da cela. Seis dias que pareceram 6 anos. Ela transportava uma saco de plástico com os poucos pertences que tinha quando foi detida. Quando viu Rodrigo no corredor, parou e encarou-o.

Não sorriu, não demonstrou alívio, apenas cansaço e uma mágoa profunda. “Marina, Senr. Rodrigo, estás livre.” Lívia confessou tudo. Eu sei. O delegado me contou. Ela que estava a envenenar as meninas. Você tinha razão desde o começo. A Marina riu-se, mas não teve graça nenhuma. Pois, eu tinha razão. Mas o senhor acreditou nela durante meses e em mim nenhum dia.

 A frase cortou Rodrigo como uma lâmina. Marina, eu sei que errei. Errou. Ela abanou a cabeça. Senhor Rodrigo, o senhor destruiu a minha vida. A minha própria mãe disse que eu morri para ela. Passou na TV que eu sou envenenadora de crianças. Eu vou arranjar isso tudo. Como? Como vai consertar seis dias de inferno? Como vai fazer com que a minha mãe volte a amar-me? Rodrigo não tinha resposta. Senr.

Rodrigo, obrigada por me tirares da cadeia, mas agora só quero ir para casa e tentar juntar os pedaços da minha vida. E as meninas, estão a sentir a sua falta. Marina parou à porta da esquadra. Como estão? Melhorando a cada dia. Sem o veneno da Lívia, elas estão a ficar saudáveis. Que bom.

 Marina, regressa para cuidar delas, por favor. Não posso. Por quê? porque já não confio no Senhor. E ela foi-se embora, deixando Rodrigo sozinho na calçada, entendendo que ia ser muito mais difícil reconquistar a confiança dela do que imaginava. Primeiro mês. Depois de uma semana a insistir, Marina finalmente aceitou regressar, mas com condições rígidas.

 Eu volto, ela falou para Rodrigo à porta da casa dela, mas não como ama, como quer que queira. Tomo conta das meninas de dia e volto para minha casa à noite, todos os dias. Tudo bem. Quero o dobro do que ganhava antes. Pode ser o triplo. E o senhor para de tentar falar comigo sobre assunto pessoal. Somos patrão e empregada.

 Só isso. Nos primeiros dias, a relação entre eles era gelada. A Marina chegava pontualmente às 7, cuidava das gémeas com todo o amor do mundo, mas tratava Rodrigo como se fosse invisível. Bom dia. Bom dia. As meninas dormiram bem? Sim, mamaram às 5. Obrigado. E só as gémeas, por outro lado, floresciam com Marina de volta.

 Era como se a vida tivesse voltado ao normal para elas. Dormiam melhor, comiam melhor, sorriam mais, mas a Marina não estava bem. Rodrigo percebeu que ela tinha pesadelos. Às vezes gritava a dormir no sofá da sala durante o período de descanso das meninas. Outras vezes, ficava paralisada quando ouvia sirene de polícia. Marina, está bem? Estou ótima.

Parece que não dormiu. As minhas noites não são problema do senhor. Uma tarde, um repórter apareceu à porta da mansão. Posso falar com a Marina Silva? Marina ficou branca como papel. Não vou falar com a imprensa. Ela sussurrou para Rodrigo. Pode deixar comigo. Rodrigo saiu e falou com o jornalista. Quando regressou, encontrou Marina a tremer na casa de banho. Eles foram-se embora.

 E se descobrirem onde moro? E se voltarem a aparecer em casa da minha mãe? Rodrigo viu que ela estava a ter uma crise de ansiedade. Respira devagar. Ninguém te vai incomodar. Como o Sr. pode garantir? Porque vou contratar segurança para si. Não preciso de caridade. Não é caridade. É responsabilidade minha.

 Eu que coloquei -lo nessa situação. Era a primeira vez que Rodrigo assumia a culpa real pelo que aconteceu. Segundo mês. A rotina continuava tensa, mas Rodrigo percebeu pequenas mudanças. A Marina ainda era fria com ele, mas por vezes esquecia-se e respondia a alguma questão de forma mais natural.

 Como foi o fim de semana das meninas? A Sofia está a querer andar. Fica tentando levantar-se no berço. Sério? Ela não é muito nova. Cada criança tem o seu tempo. Ela é determinada igual a você. Marina percebeu que a conversa saiu do profissional e voltou a ser fria. Vou preparar a papinha delas. Um dia, o Rodrigo chegou a casa e encontrou Marina a chorar no jardim enquanto as gémeas dormiam.

 Aconteceu alguma coisa? Nada que o senhor precise de saber. Marina, está chorando. Alguma coisa aconteceu. Fui ao mercado de manhã e toda a gente ficou me olhando. Uma senhora disse ao neto dela que eu era a mulher que envenenou uma criança. Rodrigo sentiu o peito apertar. Sinto muito. Não adianta sentir. O mal está feito. Vou dar uma entrevista à TV.

 Vou explicar tudo. E o senhor acha que vai adiantar que as pessoas vão deixar de me olhar como se eu fosse um monstro? O Rodrigo não sabia o que responder. Marina, deixa-me ajudar. Já ajudou demais. Nessa noite, o Rodrigo ligou para um jornalista conhecido e agendou uma entrevista para a semana seguinte. Se ele causou o problema, ia tentar resolver. Terceiro mês.

 A entrevista de O Rodrigo repercutiu bem. Ele contou a história toda, assumiu a culpa por ter acreditado nas mentiras de Lívia e pediu desculpas públicas à Marina. Marina Silva é uma mulher honesta e trabalhadora que foi vítima de uma médica criminosa. Cometi o erro de duvidar dela quando deveria ter confiado. Peço perdão publicamente por isso.

 Alguns jornais fizeram uma matéria sobre o caso, mostrando o outro lado da história. Aos poucos, a opinião pública começou a mudar, mas em casa, Marina continuava distante. “Vi sua entrevista”, comentou ela certa manhã. E foi bonita, mas ainda não muda o que aconteceu. Eu sei, mas é um começo. Nesse mesmo mês, algo importante aconteceu.

 A Dona Márcia apareceu na mansão. Quero falar com a minha filha. Rodrigo chamou Marina, que ficou tensa ao ver a mãe. “Mãe, vim pedir perdão.” A Marina não respondeu. Vi a entrevista dele na televisão. Entendi que você estava a dizer a verdade desde o início. A senhora não acreditou em mim quando eu mais precisei. Eu sei.

 E estou muito arrependida. Arrependida não traz de volta os dias que passei sozinha na cadeia. Marina, por favor, és minha filha. Eu te amo. A senhora disse que eu tinha falecido para a senhora. Dona Márcia começou a chorar. Falei asneira. Estava zangado, com vergonha. Mas você sempre vai ser minha filha. A Marina também chorou, mas ainda não conseguiu perdoar.

Preciso de tempo, mãe. Quanto tempo? Não sei. Só sei que não é fácil confiar em ninguém agora. Quarto mês. Marina finalmente aceitou almoçar em casa da mãe num domingo. Era o primeiro passo para a reconciliação familiar. “Como estão as meninas?”, dona Márcia perguntou. Lindas. A Sofia já anda e A Valentina está a tentar.

 E o patrão? Trata-o bem? Trata? Não tenho de que reclamar. Marina, posso dizer uma coisa? Pode. Vejo no seu olho que gosta dele. Mãe, não há nada de mal nisso. É um homem bom e solteiro. Ele é o meu patrão e eu sou empregada. E daí? Você é uma mulher honesta, trabalhadora, carinhosa. Qualquer homem teria sorte de te ter. Marina ficou em silêncio.

Havia meses que não pensava em si como mulher, apenas como cuidadora das gêmeas. Na mansão, Rodrigo também estava mudando. Passou a observar mais Marina, não só como ama das filhas, mas como pessoa. Via como era carinhosa, dedicada, inteligente. Uma tarde ele a encontrou a ensinar Sofia a bater palmas. Anda, pequena, bate palminha.

A Sofia ria e tentava imitar, mas as mãozinhas não se encontravam direito. Ela está a aprender rápido, Rodrigo comentou. São muito inteligentes”, Marina respondeu. As duas igual à mãe. Marina deixou de brincar com a Sofia. Elas não são minhas filhas, mas cuidas como se fossem. É o meu trabalho. É só trabalho.

Marina olhou-o nos olhos pela primeira vez em meses. O que é que o senhor quer dizer? Que eu vejo como tu olhas para elas, como cuida, como sorriem quando lhe vem. Isto não é só trabalho, Sr. Rodrigo. E vejo como elas olham para você. Para elas, é mãe. Não posso ser mãe de filhos que não são meus. Pode sim.

 Mãe é quem cuida, quem ama, quem está presente. A Marina ficou a mexer nervosa no brinquedo da Sofia. Por que está a dizer-me isso? Porque quero que saiba que o admiro muito. Era a primeira vez que Rodrigo demonstrava interesse romântico, mas de forma subtil, quinto e sexto mês. A relação entre eles foi aquecendo aos poucos. Conversas que começavam sobre as gémeas e acabavam em assuntos pessoais.

 Marina, posso perguntar uma coisa? Pode. Por que razão você tem assim tanto jeito com uma criança? Marina ficou em silêncio por um momento. Porque perdi uma? Como assim? Há três anos eu estava grávida. Perdi o bebé no quinto mês. Rodrigo sentiu um aperto no peito. Sinto muito. Por isso me identifico tanto com as suas filhas.

 Têm a idade que a minha criança teria. Era menina? Era. Ia chamar a Ana. Pela primeira vez desde que voltou, Marina olhou diretamente nos olhos dele. Por isso, doeu tanto quando o Senhor pensou que eu faria mal a elas. Depois de perder minha própria filha, jamais magoaria o filho de outra pessoa. Rodrigo ficou em silêncio, compreendendo pela primeira vez a dimensão real da dor que causou.

 Em junho, no 4º aniversário das gémeas, Rodrigo organizou uma festinha pequena. convidou a dona Márcia, a Carmen e alguns amigos mais próximos. “Obrigada por me incluir”, Marina falou quando ele entregou o convite. “Claro, faz-se parte da família delas”. Durante a festa, Rodrigo observou Marina a brincar com Sofia e Valentina.

 Ela sorriu de verdade pela primeira vez em meses e ele deu-se conta de que estava apaixonado. No final da festa, quando Marina ia embora, acompanhou-a até ao portão. “Obrigada pela festa”. As meninas adoraram. Marina, o quê? Você está bonita hoje a sorrir. Ela ficou sem graça. Obrigada. Fazia tempo que não te via sorrindo assim.

 É que as meninas me fazem feliz. Ah, só elas? Marina o olhou, compreendendo a pergunta que não fez. Boa noite, Rodrigo. Era a primeira vez em seis meses que ela o chamava pelo nome sem Senhor. Sétimo mês. As coisas mudaram definitivamente entre eles. Marina continuava a voltar para casa todos os dias, mas as conversas tornaram-se mais longas, mais íntimas.

 Rodrigo, posso perguntar uma coisa? Claro. Você amava a a sua esposa? Por que razão quer saber? Curiosidade, Rodrigo pensou antes de responder. Aprendi a amá-la, mas não foi amor à primeira vista. Como assim? O casamento foi arranjado pelas famílias, mas com o tempo criei carinho, respeito, e quando ela morreu, pensei que nunca mais ia sentir nada por ninguém.

 E agora? Agora descobri que estava enganado. O coração de Marina acelerou. Rodrigo, posso terminar? Ela fez que sim com a cabeça. Descobri que é possível amar de verdade, amar alguém pela pessoa que ela é, pela forma como cuida dos outros, pela força que tem. Não sei onde quer chegar.

 Quero chegar ao facto de que me apaixonei-me por ti. Marina ficou em silêncio durante muito tempo. Não pode falar isso. Por quê? Porque tenho medo do quê? de acreditar e depois descobrir que está a mentir. Eu nunca mentiria sobre isso. Já mentiu sobre outras coisas? Nunca menti. Só me enganei e aprendi a lição. Que lição? Que confiar em alguém é apostar na pessoa mesmo quando tudo parece estar contra ela.

Marina sentiu os olhos mariarem. Rodrigo, também me apaixonei por ti, mas tenho muito medo. Do quê? de ser feliz e depois perder tudo outra vez. Não vai perder. Como sabe? Porque desta vez vou lutar por ti, por nós. Oitavo mês. Em agosto, quando as gémeas faziam 4 anos e 5 meses, Rodrigo finalmente se declarou de verdade.

 Eles estavam no jardim a ver a Sofia e a Valentina a brincar na piscina infantil. “Elas estão crescendo rapidamente”, comentou Marina. E falando também, a Sofia falou mamã ontem. Foi para si, não foi? Olhando para ti, a Marina sorriu. Deve ter sido coincidência. Não foi, não. Ela reconhece-te como mãe. Nesse momento, a Valentina gritou: “Mamã, vem cá!” Olhando diretamente para Marina. Ass duas. – sussurrou Rodrigo.

A Marina não conseguiu segurar as lágrimas. Rodrigo, e se correr mal? E se não der certo? E se correr bem? Ela o olhou nos olhos. Você ama-me mesmo? Amo mais do que tudo. Mesmo eu sendo pobre. O dinheiro não faz ninguém melhor ou pior. Tem algo que o dinheiro não compra. O quê? Um coração bom. E é isso que importa.

 E a sua família, os seus amigos, o que vão falar? Vão dizer que sou o homem mais sortudo do mundo. Marina finalmente sorriu. Está bem. Está bem. O quê? Está bem. Eu aceito tentar. Aceito ver se pode dar certo entre nós. Rodrigo a puxou para um abraço cuidadoso. Eu te adoro, Marina. Eu também te amo. Um ano depois, no jardim da mesma mansão, onde tudo começou, Rodrigo e Marina se casaram numa cerimónia pequena e emocionante.

Sofia e Valentina, agora com 5 anos e 5 meses, corriam pelo jardim nos seus vestidos de damas de honor. Dona A Márcia estava na primeira fila, orgulhosa da filha. Carmen foi promovida à governanta chefe e ganhou um aumento. A família de Rodrigo aceitou Marina depois de a conhecer melhor. Durante a cerimónia, as gémeas fizeram todos rir quando gritaram a mamã no meio dos votos.

 Acho que elas aprovam, o padre comentou sorrindo. Depois da festa, quando os convidados se foram embora, a nova família reuniu-se no quarto das meninas. Elas cresceram tanto”, Marina sussurrou vendo as gémeas a dormir tranquilas. “E vão crescer, sabendo que foram amadas desde pequeninas por uma mulher que escolheu ser mãe delas.” “Escolheu? Porque uma mãe não é só quem dá a luz, é quem escolhe amar”.

 Marina sorriu e aconchegou-se no marido. “Obrigada. Por quê? Por me ter dado a hipótese de ser mãe e de ser feliz. Obrigado por me ter ensinado o que é amor verdadeiro. E longe dali, numa penitenciária feminina, Lívia assistia ao noticiário que mostrava o casamento. Ela perdeu tudo o que queria, o Rodrigo, a profissão, a liberdade, mas a justiça foi feita.

 Na mansão, Sofia e Valentina dormiam sabendo que eram amadas. E Marina compreendeu finalmente que às vezes a família que escolhemos é mais forte que a família do sangue. O amor venceu e desta vez para sempre. Gostou desta história? A Lívia teve o que mereceu ou foi pouco? Conta-me nos comentários. M.

 

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