AS FILHAS DO EMPRESÁRIO VIÚVO NÃO PARAVAM DE CHORAR NO ANIVERSÁRIO… ATÉ QUE A BABÁ FEZ O IMPOSSÍVEL 

O choro ecoou pela mansão, como um alarme que não conseguia ser desligado. Eram 2as da tarde de sábado, dia do aniversário dos três anos das gémeas Sofia e Valentina Monteiro, e elas choravam há mais de uma hora seguida. Marina Alves, de 23 anos, subia às escadas carregando materiais de limpeza quando parou para secar o suor da testa.

Três semanas a trabalhar naquela casa e nunca tinha visto algo assim. Meu Deus, estas crianças”, murmurou ela, ouvindo o desespero nas vozes das raparigas. No andar de cima, Rodrigo Monteiro caminhava de um lado para o outro como um homem perdido. Aos 35 anos, o empresário bem-sucedido parecia ter envelhecido uma década nas últimas horas.

 As olheiras eram profundas, o cabelo estava uma confusão e ele andava como um fantasma pela própria casa. “Carmen!”, chamou a governanta que veio a correr. Faz duas horas que elas não param de chorar. Os convidados chegam às 4 para a festa de aniversário. O que vou fazer? Carmen, uma senhora de 55 anos que trabalhava na família há 15 anos, abanou a cabeça com pena.

Patrão, desde que a patroa morreu, as as meninas ficam assim cada vez que tem festa ou data especial. É como se elas sentissem que a mãe deveria estar aqui. Como vou explicar a 50 convidados que a festa foi cancelada porque as minhas filhas não param de chorar? Rodrigo passou a mão pelo cabelo. Que pai eu sou, Carmen? A Marina deixou de subir à escada.

 A dor na voz daquele homem mexeu com algo profundo dentro dela. Ela também tinha perdido alguém importante. A sua irmã mais nova havia morrido num acidente há do anos. sabia bem o que era lidar com a dor de uma perda. Rodrigo pegou no telefone com as mãos a tremer. Doutora Patrícia, é o Rodrigo Monteiro de novo.

 Eu sei que já liguei hoje de manhã, mas as minhas filhas estão terríveis. Tem que haver alguma coisa que a senhora possa fazer. A voz do telefone disse alguma coisa que deixou o Rodrigo ainda mais nervoso. Como assim? Vocês já não sabem o que fazer. Já vieram pediatra, psicólogo infantil, especialista em trauma. Gastei uma fortuna e nada adianta.

 Ele desligou e bateu com o punho na parede. Rodrigo. Carmen correu para ele. Não pode magoar-se também. É inútil, Carmen. Sou um pai inútil mesmo. Nem consigo fazer as minhas próprias filhas pararem de chorar no aniversário delas. Marina observava tudo com o coração apertado. Nunca tinha visto um homem tão destruído como este.

A sua dor era real, crua, de doer na alma. O choro das gémeas ficou ainda mais forte lá do quarto. Sofia e Valentina, três anos de vida, a lutar contra uma dor que ninguém conseguia compreender ou curar. “Se elas não melhorarem logo para a festa, eu não aguento mais”, Rodrigo sussurrou a voz embargada.

 Às 15 horas, Rodrigo saiu correndo da casa, carregando as duas meninas ao colo. “Vou para o hospital de novo”, gritou para Carmen. “Elas têm febre de tanto chorar. O portão da mansão fechou-se e a casa finalmente ficou em silêncio. Marina suspirou aliviada. Não pelo trabalho, mas porque aquelas criancinhas tiveram um tempinho de paz.

 “Coitadinhas”, ela murmurou, acabando de subir para limpar o andar de cima. Quando chegou à porta do quarto das gémeas, Marina parou ali. O ambiente ainda cheirava a bebé misturado com medicamento para dormir. Duas pequenas camas decoradas com princesas, pequenos brinquedos espalhados que pareciam nunca ter sido realmente utilizados, porque as meninas passavam mais tempo a chorar do que a brincar.

 Marina sabia que não devia entrar ali. Rodrigo era bastante rígido sobre quem podia mexer no quarto das filhas, mas alguma coisa a puxou para dentro. Ela pegou numa roupinha pequena, cor-de-rosa, com desenho de borboletas, abraçou contra o peito e fechou os olhos. A lembrança da irmã que perdeu veio como uma facada.

 “A minha anginha”, sussurrou ela. “Se tu tivesse vivido, teria a mesma idade delas”. Uma hora e meia depois, o barulho do portão acordou-a do devaneio. O Rodrigo estava a voltar. A Marina correu para sair do quarto, mas bateu com o pé na cómoda e derrubou um porta-retratos com a fotografia da mãe das meninas. Ai, meu Deus.

Ela baixou-se para apanhar os cacos quando escutou passos na escada. Os os médicos já não sabem o que fazer, O Rodrigo gritou para a Carmen. Disseram que estão saudáveis ​​fisicamente, mas alguma coisa as está a perturbar emocionalmente. Ele entrou no quarto carregando Sofia ao colo. A menina estava vermelha de tanto chorar, o carinha inchada, os punhinhos fechados.

O papá já não sabe o que fazer, a minha filha”, sussurrou, balançando a menina com carinho. “O papá está perdido.” Valentina no carrinho também estava a chorar. Um som agudo que perfurava o ouvido. Foi aí que aconteceu uma coisa inexplicável. Marina, ainda agachada, juntando os cacos do porta-retratos, olhou para Sofia e, sem pensar, estendeu os braços.

 Posso pegar ela um bocadinho? Rodrigo, no limite do cansaço, nem pensou duas vezes. Colocou a menina nos braços de Marina. O silêncio foi imediato. A Sofia parou de chorar como se alguém tivesse apertado um botão. Os olhinhos inchados se abriram e fixaram no rosto de Marina. Um olhar curioso, tranquilo, que fez Rodrigo ficar de boca aberta.

 Valentina no carrinho também parou de chorar. Ela virou a cabecinha na direção da irmã e de Marina, como se entendesse que alguma coisa tinha mudado. “Calma, pequenina”, Marina, sussurrou, abanando Sofia devagar. “O que foi que estava a incomodá-lo?” A menina fechou os olhinhos e, pela primeira vez em horas adormeceu verdadeiramente.

 Não sono agitado de exaustão, mas um sono tranquilo. Não acredito. O Rodrigo pegou Valentina do carrinho. A menina se acalmou na mesma hora quando ele a aproximou-se de Marina. Como fez isso? – perguntou Rodrigo incrédulo. Eu não sei, senor Rodrigo. Só senti que precisava apanhá-la. A Carmen apareceu à porta e quase desmaiou.

 Meu Deus do céu, como conseguiu? Estas meninas não param de chorar nem a dormir direito desde que a mãe morreu. Mas Rodrigo já estava vendo o impossível acontecer à frente dos olhos dele. Marina, sussurrou. Há seis meses que procuro uma resposta. Gastei uma fortuna em médicos e você simplesmente Elas estão a dormir.

 Marina completou, os olhos marejados. a dormir de verdade. Os três ficaram ali em silêncio, vendo as gémeas dormir tranquilas pela primeira vez desde a morte da mãe. Sofia nos braços de Marina, Valentina ao colo do pai, mas colada à babá temporária. É quando escutaram passos decididos na escada. Passos que fizeram o sangue de todo o mundo gelar.

 Rodrigo! Uma voz feminina e autoritária ecoou pelo corredor. Cheguei para ajudar na festa das meninas. A Dra. Lívia Carvalho apareceu à porta do quarto como uma pessoa que impõe sempre a sua presença. Aos 40 anos, era do tipo que comandava qualquer ambiente só de entrar. Jaleco branco impecável, cabelo loiro apanhado num coque perfeito, postura ereta de quem nunca perde o controle.

 A Lívia era a pediatra particular das gémeas e também a melhor amiga da falecida mulher de Rodrigo. Nos últimos seis meses, ela vinha se aproximando-se cada vez mais da família, sempre com a desculpa de cuidar das meninas. Rodrigo, como estão as men? Ela parou a meio da frase quando viu a cena. As gémeas a dormir profundamente, Rodrigo a sorrir pela primeira vez em meses e uma qualquer funcionária segurando a Sofia como se fosse a coisa mais natural do mundo.

 Lívia! Rodrigo sussurrou, tentando não acordar as meninas. Você não vai acreditar. Elas finalmente dormiram. A Marina conseguiu fazê-las dormir. O sorriso de Lívia congelou no rosto. Fazia seis meses que ela cuidava desta família. seis meses construindo uma relação, esperando a altura certa para se aproximar de Rodrigo de um modo mais íntimo.

 E agora uma qualquer babá aparecia e fazia o que ela, médica formada, não conseguiu fazer. Rodrigo ela falou com a voz controlada. Posso falar contigo um minutinho ali no corredor? Mas, Lívia, vejam só como estão tranquilas. No corredor, por favor. O Rodrigo percebeu o tom sério e fez sinal a Marina para ficar com as meninas.

 Ele saiu do quarto atrás da médica. Rodrigo, tem noção do que acabou de acontecer? A Lívia falou baixinho, mas com uma raiva controlada. O quê? Ela fez as minhas filhas dormirem pela primeira vez em seis meses. E você sabe qual é a formação desta mulher? Sabe se ela não tem alguma doença? Sabe se ela não fez alguma coisa perigosa? Rodrigo franziu o sobrolho.

 Não tinha pensado nisso, Lívia. Ela só pegou a Sofia ao colo e o Rodrigo, sou pediatra há 18 anos. Sei como estas situações podem ser arriscadas. Crianças de 3 anos são muito frágeis emocionalmente. Qualquer influência errada pode causar problemas graves. Mas estão bem, Lívia. Olha como estão dormindo sossegadas por enquanto.

 Mas e se for algum efeito psicológico temporário? E se ela utilizou alguma técnica questionável? E se for alguma coisa que vai fazer mal depois? As palavras de Lívia plantaram uma semente de dúvida na mente cansada do Rodrigo. Ele sempre confiou no que ela dizia. A Lívia havia cuidado das gémeas quando nasceram prematuras.

 Era uma profissional respeitada, amiga da família há anos. Dentro do quarto, Marina embalava Sofia, que dormia profundamente. Carmen observava Valentina, que também estava a descansar, tranquila, no carrinho. “Menina”, Carmen sussurrou. “Como é que fez isso?” “Não sei, dona Carmen. Só senti que precisava ajudar.

 Em 15 anos a trabalhar aqui, nunca vi nada igual. Estas meninas não param de chorar nem quando estão a dormir desde que perderam a mãe. E agora, vejam só! Ela apontou para as meninas realmente a dormir. Respiração calma, rostos relaxados, mãozinhas abertas. É um milagre mesmo. Carmen completou. No corredor, Lívia continuava plantando dúvidas.

 Rodrigo, eu compreendo o seu desespero, mas como médica não posso deixar que uma pessoa sem formação tenha influência emocional tão forte sobre crianças tão pequenas. É uma questão de responsabilidade, mas Lívia, imagina se acontece alguma coisa com elas, imagina se desenvolve alguma dependência emocional não saudável.

 Nunca te ias perdoar e eu, como médica responsável, também não. Rodrigo passou a mão pelo cabelo. O cansaço não o deixava pensar direito. O que acha que devo fazer? Que ela não tenha mais contacto direto com as raparigas, pelo bem delas. Enquanto isso, Vou ajustar o tratamento psicológico. Talvez fosse isso que estava a faltar. Dentro do quarto, Marina sentia um arrepio. Alguma coisa não estava bem.

A Sofia mexeu-se um pouquinho nos braços dela, mas continuou a dormir. “Dona Carmen”, sussurrou ela, “a doutora cuida sempre das meninas quando elas ficam assim? Todos os dias, moça. Ela diz que é para ajudar com o trauma da perda da mãe, mas nunca funcionou corretamente. E hoje? Ela veio cá hoje? Ainda não tinha vindo. Chegou agora há pouco.

A Marina ficou a pensar. As gémeas dormiram sem tratamento nenhum, apenas com carinho, só com o toque dela. É quando Rodrigo voltou para o quarto, o rosto fechado. Marina, ele falou baixinho. Obrigado pela ajuda, mas a Dra. Lívia tem razão. É melhor não mexer mais com as meninas. O coração de Marina se despedaçou.

Mas, senhor Rodrigo, elas estão bem. Eu sei, mas pode ser perigoso. Você não é médica. Pode ter sido sorte ou pode ter sido alguma coisa que vai fazer mal depois. A Marina colocou a Sofia delicadamente na caminha. A menina continuou a dormir. Compreendo, Sr. Rodrigo, mas os olhos dela diziam tudo. Ela não percebia nada.

 Ela sabia que tinha ajudado aquelas crianças e agora estava a ser afastada por isso. Lívia entrou no quarto com um sorriso que não chegava aos olhos. “Vou aplicar o tratamento das meninas agora”, ela anunciou tirando uma seringa da mala médica. “Um sedativo leve para elas dormirem ainda mais profundamente durante a festa.

Estão a dormir, doutora”, Carmen comentou. “Por isso mesmo, é o melhor momento para aplicar. Vão dormir ainda mais tranquilas”. Marina observava tudo, um malestar a crescer no peito. Alguma coisa naquela seringa não parecia certa. Com licença, ela falou baixinho e saiu do quarto. No corredor escutou Lívia a falar baixinho, mais para si mesma. Essa quase estragou tudo.

Segunda-feira, 6 da manhã. A Marina chegou para o trabalho com o coração apertado. O fim de semana inteiro, ela não conseguiu deixar de pensar nas gémeas. Será que a festa resultou? Será que ficaram bem? Quando entrou na mansão, escutou exatamente o que esperava e temia. O choro.

 A Sofia e a Valentina choravam no quarto, mais alto e mais desesperado que antes. Era como se tivessem voltado ao estado de antes, só que pior. Elas não não dormiram quase nada depois da festa. Carmen comentou quando viu Marina. O patrão está novamente destruído. E o tratamento da médica? Ela aumentou a dose. Disse que era necessário para compensar o que aconteceu no sábado.

Marina franziu o sobrolho. compensar? Por que precisaria de compensar o facto das gémeas terem dormido. Àsete em ponto, A Dra. Lívia chegou. Ela estava diferente hoje, mais determinada, mais séria. “Onde está a ama?”, perguntou ela para Carmen. “Está a limpar a sala, doutora?” “Chama-a aqui. Preciso de falar.

” Marina subiu as escadas com o coração acelerado. Lívia estava à espera no corredor, de braços cruzados, cara de poucos amigos. Marina, não é? Sim, doutora. Preciso de deixar uma coisa bem clara. Você não pode de maneira nenhuma tocar nas crianças desta casa. Elas são meninas frágeis que perderam a mãe.

 Qualquer contacto errado pode causar trauma emocional grave. Mas, doutora, eu só ajudei. Não ajudou coisa nenhuma. Criou um problema. As meninas passaram a festa toda agitadas porque O seu equilíbrio emocional foi alterado. Alterado como apego inadequado, confusão de laços, expectativas irreais. Você trabalha limpar casa, né? As suas mãos e a sua presença transportam energias que podem ser perturbadoras para as crianças em luto.

Cada palavra de Lívia era como uma bofetada na cara de Marina. A médica falava com uma autoridade que não dava espaço para questionamento. Percebeu bem? Não toca nas crianças, não entra no quarto delas sem autorização. Se eu descobrir que desobedeceu, Vou falar para o Senr. O Rodrigo mandar-te embora à mesma hora. Sim, doutora.

Ótimo. Agora vou cuidar das minhas doentes. A Lívia entrou no quarto das gémeas e fechou a porta. Marina ficou no corredor humilhada e confusa. Será que realmente tinha feito alguma coisa errada? Será que tinha magoado as meninas sem querer? Do lado de dentro do quarto, a Lívia tirou uma seringa da bolsa, mas não era a mesma que o Rodrigo tinha visto no sábado.

 Esta era diferente, com um líquido transparente que não tinha nada de sedativo. “Agora vamos resolver este probleminha”, ela sussurrou, aplicando o conteúdo na seringa em cada uma das meninas. O líquido era um estimulante suave que não tinha sabor, mas que deixava as crianças agitadas durante horas.

 A Lívia vinha usando doses pequenas há seis meses desde que a mãe das gémeas morreu. O plano dela era simples, manter as crianças dependentes do tratamento médico dela, tornar-se indispensável para Rodrigo e na hora certa descobrir a cura e casar com -lhe por gratidão. Mas no sábado, uma babá qualquer quase destruiu se meses de planeamento. Hoje, a Lívia duplicou a dose.

As gémeas iam passar uma semana terrível e quando ela ajustasse o tratamento de novo, Rodrigo ia atirar-se aos pés dela de gratidão. “Pronto, minhas pequenas”, – sussurrou ela para as meninas. “Papá vai ver que só a tia Lívia consegue cuidar de vocês.” Sofia e Valentina receberam as injeções sem saber o que estava a acontecer.

 Numa hora o efeito ia começar. Em duas horas iam estar gritando como nunca gritaram. Lá em baixo, no corredor, Marina limpava o chão, escutando os gemidos que já começavam a ficar mais fortes. O coração dela se apertava, mas ela não podia fazer nada. Foi proibida. Às 10 horas, O Rodrigo chegou do escritório e encontrou as filhas numa crise pior que todas as outras. Lívia, ele gritou ao telefone.

Elas estão terríveis. Que remédio lhe deu? Calma, Rodrigo. É normal. O sistema emocional delas estava alterado por causa do contacto de sábado. Agora estou corrigindo isso. Vai piorar antes de melhorar. Vai piorar? Infelizmente sim, mas confia em mim. Sou médica há 18 anos. Sei o que estou a fazer. Rodrigo desligou o telefone e atirou-se para a cadeirão do quarto.

 As gémeas choravam há 4 horas seguidas. Era segunda-feira e não dormiam em condições desde sábado. Vão morrer se continuar assim. Sussurrou para si mesmo a voz embargada de desespero. No corredor, A Marina ouvia tudo e sentia as lágrimas escorrerem pelo rosto. Ela sabia que podia ajudar. Sabia que as gémeas acalmariam nos braços dela, mas estava proibida de lhes tocar.

 É quando se apercebeu de uma coisa que a deixou ainda mais intrigada. Na lixeira do casa de banho viu um frasco vazio de sedativo infantil, o mesmo medicamento que a doutora disse ter dado às meninas. Se ela deu o sedativo, pensou Marina, porque o frasco está no lixo vazio e as meninas estão piores? A semente da suspeita começou a nascer no coração de Marina.

Alguma coisa não estava bem. E se a pessoa que deveria cuidar das gémeas estava na verdade a fazer-lhes mal? O choro das meninas euava pela mansão como um grito de socorro, um grito que só Marina parecia compreender, mas que estava proibida de responder. “Elas vão morrer se continuar assim”, Rodrigo gritou ao telefone para Lívia e pela primeira vez Marina questionou-se: “Será que é exatamente essa a intenção?” Quarta-feira, meio-dia.

 Marina trabalhava no andar de baixo da mansão, ouvindo o choro das gémeas, que não parava há 8 horas seguidas. Era um som que lhe trespassava a alma, principalmente porque sabia que podia ajudar. A Carmen apareceu na cozinha com o pequeno caderno na mão e uma expressão preocupada. Menina, posso conversar contigo? Claro, dona Carmen.

 Estou achando muito estranho o que está rolando. As raparigas só melhoraram quando cuidou delas no sábado. Aí, depois da festa, ficaram piores que nunca. A Marina parou de limpar e olhou para o governanta. A senhora também achou esquisito. E há outra coisa. Carmen olhou em redor para ter a certeza de que ninguém estava a ouvir.

 Faz 15 anos que trabalho aqui. Nunca vi uma criança chorar tanto assim depois da morte da mãe. No início é normal, mas seis meses depois deveria estar a melhorar. Então não é normal. Normal, não é? Não. E outra coisa que me chamou a atenção, a doutora vem sempre aqui todos os dias agora, mas antes da patroa morrer, só aparecia quando o patrão chamava.

 Marina sentiu o coração acelerar. Ela não estava louca, havia alguma coisa errada mesmo. Dona Carmen, a senhora anota tudo neste caderninho, não é? Anoto sim. É costume antigo meu. Anoto quem vem, quem sai, a que horas. A senhora pode dizer-me a que horas chega a médica e a que horas as as meninas começam a chorar pior? Carmen abriu o caderno e foliou as páginas.

Olha aqui. Segunda-feira. Doutora chegou à sete RS, aplicou o tratamento às 7h30. Meninas começaram a gritar como loucas às 8:30. E ontem, terça-feira, a doutora chegou às 7, aplicou o tratamento às 7:15. As meninas começaram a passar-se às 8:15. Sempre uma hora depois do tratamento. Sempre.

 Mas isso deve ser normal, certo? Às vezes medicamento demora a fazer efeito. Marina franziu o sobrolho. Se o medicamento é para acalmar, porque as gémeas ficam piores depois? A Dona Carmen, a senhora viu que medicamento a doutora deita no lixo? Como assim? Eu vi uns frascos de sedativo infantil no lixo da casa de banho. Se ela está a dar sedativo para as meninas, porque é que os frascos estão vazios no lixo? A Carmen ficou pensativa.

 Agora que disseste é meio estranho mesmo. Porque deitar fora medicamento que não usou? É quando escutaram passos rápidos na escada. Rodrigo desceu a correr, o cabelo despenteado, a camisa amarrotada. Carmen, onde está a Lívia? Liguei para ela, mas não atende. Ainda não chegou hoje, patrão.

 As meninas estão a gritar Há 8 horas. 8 horas, Carmen? Elas vão ter convulsão se continuar assim. Marina sentiu o peito apertar vendo o desespero dele. Senr. Rodrigo, ela falou baixinho. Posso sugerir uma coisa? O quê? E se o senhor tentasse não dar o medicamento hoje só para ver se faz diferença? Rodrigo olhou para ela como se ela tivesse sugerido alguma loucura.

 Marina, elas estão assim precisamente porque precisam do medicamento. Lívia explicou que o sistema emocional delas está alterado. Mas e se não for isso? E se for o medicamento que está a fazer mal? Marina. Rodrigo levantou a voz. A Lívia é médica formada. Ela sabe o que está a fazer. Marina baixou a cabeça, mas a suspeita na mente dela só crescia.

 O telefone tocou e O Rodrigo correu para atender. Lívia, graças a Deus, precisa de vir aqui urgente. As meninas estão terríveis. Calma, Rodrigo. Chego aí em meia hora. Entretanto, pode dar mais uma dose do tratamento. Está no frigorífico. Rodrigo foi para a cozinha e abriu o frigorífico. Pegou num frasco com líquido transparente.

 Carmen, vem ajudar-me a aplicar o medicamento nas meninas. Marina observava tudo e tomou uma decisão. Precisava de descobrir o que realmente estava a acontecer. Às 2 da tarde, ela posicionou-se na janela da sala, fingindo limpar os vidros. Dali conseguia ver o quarto das gémeas no andar de cima. 15 minutos depois, Lívia chegou.

 Marina notou que ela não parecia preocupada como deveria. Na verdade, parecia até aliviada. Da janela, Marina conseguia ver Lívia a entrar no quarto das gémeas. Ela ficou a observar e o que viu deixou-a gelada. A Lívia não examinava as meninas, não verificava a temperatura, não escutava o coração, nada. Ela simplesmente tirava algo da bolsa médica e aplicava nas crianças com seringas.

 A Dona Carmen Marina chamou baixinho. Anda ver uma coisa. A Carmen se aproximou-se da janela. O que é? Olha lá em cima. A médica não está a examinar as meninas, só está a aplicar injecções. Carmen observou e franziu o sobrolho. Que estranho. Médico não deve examinar antes de dar medicamentos. Nesse momento, viram a Lívia a sair do quarto e a conversar com Rodrigo no corredor.

 Não conseguiam escutar, mas pela expressão dele, ela estava a tranquilizar sobre alguma coisa. A Dona Carmen, quando a doutora se for embora, a senhora pode-me mostrar que medicamento ela deixou? Posso sim. Uma hora depois, Lívia saiu da casa. A Carmen e a Marina subiram para o quarto das gémeas. Olha aqui.

 Carmen mostrou o frasco no frigorífico do quarto. É isso que ela deixa sempre. Marina pegou no frasco e leu o rótulo sedativo infantil natural. Ela leu em voz alta. Mas olhe para isto, dona Carmen. Ela mostrou a parte de trás do frasco. Está com a tampa violada. Alguém abriu e fechou de novo.

 Como sabe? Trabalho limpando casas há anos. Aprendi a reparar nessas coisas. Alguém mexeu neste frasco. Carmen olhou mais atentamente. Você tem razão. A tampa está meio torta. É quando escutaram um choro diferente vindo dos berços. A Sofia e a Valentina começaram a voltar a ficar agitadas. Uma hora depois do medicamento, Marina sussurrou, exatamente como a senhora anotou. Meu Deus, sussurrou Carmen.

 Será que dona Carmen, a senhora pode fazer uma coisa para mim? O quê? Amanhã, quando a médica vier, finja que esqueceu-se de algo no quarto e fique observando-a mexer no medicamento, mas sem ela perceber. E se ela descobrir, então vamos saber que realmente tem alguma coisa de errado. Quinta-feira, 6:30 da manhã.

 A Marina chegou para o trabalho ansiosa para saber como é que as gémeas passaram a noite. Carmen recebeu-a na porta com uma expressão aliviada. Moça, que bom que chegaste. Como foi à noite? O patrão não deu o medicamento ontem à noite. E sabe o que aconteceu? O quê? As meninas dormiram cinco horas seguidas. 5 horas. Primeira vez em meses.

 Marina sentiu uma mistura de alívio e confirmação das suas suspeitas. E hoje de manhã ainda estão a dormir. Mas a médica chegou há meia hora. Está lá em cima. A senhora conseguiu observar ela? Consegui. E não vai acreditar no que vi. Carmen puxou Marina para um canto da cozinha e sussurrou. Ela tirou uma seringa da mala. e aplicou algo no frasco do medicamento.

 Algo que ela trouxe de fora. Tem a certeza absoluta? Vi ela furando a tampa do frasco com a seringa e injetando um líquido transparente. Meu Deus! E há mais. Depois de ela o aplicar, testou uma gota na língua dela própria. Testou para ver se tinha sabor. Vi-a fazer cara de aprovação, como se estivesse a conferir se não dava para perceber.

 A Marina sentiu o sangue gelar. Uma médica não precisaria de testar medicamento na língua a menos que estivesse a misturar algo que não deveria estar ali. Dona Carmen, precisamos de falar com o Senr. Rodrigo. Ele não vai acreditar em nós. Então, precisamos de mais provas. É quando escutaram passos a descer à escada. A Lívia apareceu na cozinha com um sorriso que não chegava aos olhos.

 Bom dia, pessoal. As meninas estão hoje ótimas, dormindo como anjos. Que bom, doutora. Carmen respondeu tentando disfarçar. Vou deixar o medicamento normal de sempre. Podem aplicar de quatro em 4 horas. A Lívia saiu da casa, mas desta vez Marina prestou atenção em algo que não tinha reparado antes.

 A médica transportava duas bolsas, a médica oficial e uma bolsa térmica pequena. A Dona Carmen viu aquela bolsa térmica? Vi sim. Médico leva bolsa térmica para casa de um doente? Não que eu saiba, o medicamento normal não precisa de refrigeração especial. O Rodrigo apareceu na cozinha com um aspeto muito melhor que nos últimos dias.

 Carmen, não acredito que as meninas tenham dormido de noite toda. Pois é, patrão, que bom, não é? Lívia disse que é porque o novo tratamento está a funcionar. Marina e Cármen trocaram olhares. Elas sabiam que não foi o tratamento que resultou, foi a ausência dele. O Senhor Rodrigo Marina se arriscou.

 O senhor não acha estranho que só melhoraram quando não tomaram o remédio da noite? Mas tomaram sim. A Lívia ajustou a fórmula, mas o senhor mesmo disse que não deu o medicamento ontem à noite. O Rodrigo parou e pensou: “É verdade, não dei. Esqueci-me completamente, estava tão cansado. E melhoraram. Coincidência? Senr. Rodrigo?” A Carmen meteu-se na conversa.

“Posso dizer uma coisa?” “Claro. Em 15 anos a trabalhar aqui, aprendi a observar. E há umas coisas que me estão a chamando a atenção. Que coisas? A médica mexe sempre no medicamento antes de deixar aqui e as meninas sempre agravam-se exatamente uma hora depois de tomar. Rodrigo franziu o sobrolho. Carmen, está a insinuar que Não estou insinuando nada, patrão.

 Só estou falando o que vejo. Nesse momento, o choro das gémeas recomeçou lá de cima. A Sofia e a Valentina acordaram e já estavam ficando agitadas. Pronto, o Rodrigo suspirou. Vou dar o remédio para elas. Senr. Rodrigo. Marina falou rapidamente. E se a gente experimentasse mais uma vez sem dar? Só para ter a certeza? Marina, por favor, só hoje. Se piorarem muito, o Sr.

dá o medicamento na hora. O Rodrigo ficou dividido. De um lado, a orientação médica da Lívia. Do outro, a evidência dos próprios olhos. Está bem, mas se elas ficarem muito mal, dou o remédio. Marina sentiu uma esperança crescer no peito. Talvez hoje eles descobrissem a verdade. Às 10 horas da manhã, algo de extraordinário aconteceu.

 As gémeas, que acordaram a chorar, gradualmente acalmaram sozinhas, sem medicamento, sem intervenção, apenas com o carinho do pai e os cuidados normais. Não acredito. Rodrigo sussurrou, olhando para as filhas tranquilas. Acredita agora que tem alguma coisa errada com aquele medicamento? Marina perguntou.

 Rodrigo estava prestes a responder quando o telefone tocou. Rodrigo, é a Alívia. Como estão as meninas? Estão bem? Ótimo. Você deu o medicamento no horário certo? O Rodrigo olhou para a Marina e a Carmen, que fizeram não com a cabeça. Dei sim. Perfeito. Chego aí à tarde para ver como estão reagindo ao novo tratamento. Quando Rodrigo desligou, Marina percebeu que mentiu a Lívia. Por que razão o Sr.

mentiu? Porque quero ter a certeza de uma coisa antes de acusar uma médica do que estão a pensar. E como vamos ter certeza? Rodrigo ficou em silêncio durante um momento. Vamos testar o medicamento. Quinta-feira, 2 da tarde. Rodrigo, A Marina e a Carmen estavam na cozinha, olhando para o frasco de medicamento que A Lívia deixou.

 “Como vamos testar isto?”, perguntou o Rodrigo. “O meu irmão é técnico em farmácia”, falou Carmen. Ele pode analisar sem ninguém saber, mas isso vai demorar. Há outro jeito, Marina interrompeu. A gente pode ver como as as meninas reagem com e sem o medicamento ao longo do dia. Como assim? Simples. Dividimos o dia em dois períodos.

 De manhã, ficam sem medicação. À tarde, quando a doutora chegar, damos o medicamento e vemos a diferença. Rodrigo considerou a proposta. E se ficarem mal? Aí parámos logo e chamamos outro médico. Está bem, vamos tentar. Durante toda a manhã, as gémeas ficaram tranquilas, fizeram as necessidades normalmente, brincaram um pouco, comeram sem problemas, dormiram quando deviam dormir.

 Comportamento das crianças saudáveis. Às 2:30, a Lívia chegou para a visita da tarde. Como estão as minhas pacientinhas? Bem, Rodrigo respondeu, observando-a atentamente. Ótimo, o medicamento está a funcionar perfeitamente. Então, a Lívia subiu para o quarto das gêmeas. O Rodrigo, a Marina e a Carmen ficaram no andar de baixo aguardando.

 Meia hora depois, a Lívia desceu. Pronto, apliquei a dose da tarde. Elas vão ficar bem calminhas agora. Assim que Lívia saiu da casa, os três subiram a correr para o quarto. As gémeas estavam nos berços, aparentemente normais. Mas Rodrigo reparou em algo. Olhem os olhos delas. A Sofia e a Valentina estavam com os olhos mais abertos do que o habitual, meio vidrados, como se estivessem a ver coisas que não existiam.

 Isto é normal? perguntou o Rodrigo. Não, Marina respondeu. Criança normal não fica com esse olhar. 15 minutos depois, como um relógio, o choro começou. Mas não era um choro normal de criança, era um choro desesperado de quem estava a sentir alguma coisa má. Agora tenho certeza Rodrigo falou a voz trémula de raiva.

 Ela está a envenenar as minhas filhas. O que vamos fazer? Carmen perguntou. Vamos provar. O Rodrigo pegou no telefone e ligou para um médico particular que conhecia. O Dr. Augusto é o Rodrigo Monteiro. Preciso que venha à minha casa urgente para examinar as minhas filhas. Não, não é uma emergência, mas é importante. Pode vir ainda hoje. Enquanto Rodrigo falava ao telefone, A Marina escutou um barulho estranho no jardim.

 Olhou pela janela e viu Lívia parada atrás da árvore, observando o casa. “Dona Carmen”, sussurrou. “Olha ali para fora.” A Carmen olhou e ficou pálida. Ela está a espiar-nos. Por quê? Porque sabe que descobrimos alguma coisa. Nesse momento, Rodrigo desligou o telefone. Dr. Augusto, vem cá às 4 horas. Vamos saber exatamente o que tem no sangue das raparigas.

 Mas não sabiam que a Lívia tinha escutado tudo da janela aberta e que ela já estava planeando o próximo movimento. Às 3:45, 15 minutos antes do Dr. Augusto chegar, o telefone tocou. Rodrigo, aqui é a esquadra do bairro. Recebemos uma denúncia grave sobre a sua casa. Que tipo de denúncia? Alguém relatou que uma funcionária sua está a dar medicamentos controlados para as suas filhas, sem prescrição médica. O Rodrigo ficou gelado.

Isso é mentira, senhor. Precisamos de ir aí verificar. É protocolo. Estamos a caminho. Rodrigo desligou o telefone e olhou para Marina e Carmen desesperado. Alguém nos denunciou? Quem? Marina perguntou, mas no fundo já sabia a resposta. 20 minutos depois, duas viaturas pararam em frente da mansão. Quatro polícias subiram para o quarto das gémeas, onde encontraram Rodrigo, A Marina e a Carmen a cuidar das meninas que choravam.

 “Quem é a funcionária responsável pelos cuidados médicos das crianças?”, perguntou o sargento. Ninguém. Respondeu o Rodrigo. Elas são cuidadas por uma médica. Temos informação de que esta senhora, ele apontou para a Marina, tem vindo a aplicar medicamentos sem autorização. Isso é mentira. É quando Lívia apareceu à porta acompanhada de outro agente policial.

Sargento, como relatei telefonicamente, encontrei evidências de que esta funcionária tem vindo a drogar as crianças. Ela abriu a bolsa médica e retirou um frasco de medicamento sujeito a receita médica. Encontrei isto escondido na casa dela. Marina ficou em choque. Isto não é meu. Nunca vi este frasco na vida.

 E também encontrei isto. A Lívia mostrou um papel. Notas dela sobre dosagens de medicamentos. O Rodrigo pegou no papel das mãos do agente policial. Era uma receita médica falsificada com tratamentos para Sofia e Valentina. Assinada por Marina Silva. Marina. – sussurrou Rodrigo. Como você pode, senhor Rodrigo? Eu juro que nunca escrevi isso.

 Eu nem sei escrever receita. Eu nem sequer sou médica. Senhora, o sargento falou, precisa de vir connosco para prestar esclarecimentos. Não, sou inocente. Foi ela que plantou essas coisas. Mas enquanto Marina era levada, Lívia aproximou-se de Rodrigo. Desculpe, Rodrigo. Sei que confiava nela, mas não podia deixar que as suas filhas correm em risco.

 O Rodrigo olhou para as gémeas, que continuavam chorando, e para Lívia, que agora parecia ser a única pessoa em quem podia confiar. Ele não reparou no sorriso discreto de satisfação no rosto da médica. Sexta-feira, 8 horas da manhã. Marina acordou numa cela fria da esquadra depois de uma noite que parecia não ter fim.

 Passou horas tentando explicar aos investigadores que foi vítima de uma armação, mas ninguém acreditava nela. “Silva, visita!”, gritou o polícia. Ela levantou-se esperando ver Rodrigo ou talvez o Dr. Augusto, que poderia confirmar a sua inocência, mas era a sua mãe, a D. Márcia Santos, com o rosto vermelho de vergonha e raiva. “Mãe”, Marina, sussurrou.

 “Não chama-me mãe.” A Dona Márcia explodiu. “Como é que pode fazer uma coisa destas? Drogar criança pequena?” “Mãe, eu não não fiz nada. Foi a médica que armou para mim. Deixa de mentir. Saiu no jornal, passou na televisão. Todos na nossa rua sabe que falsificou receita médica. Marina sentiu o mundo desabar. Se a própria mãe não acreditava nela, quem ia acreditar? Mãe, por favor, faz-me ouve só um minutinho.

 Não quero escutar nada. Você envergonhou a nossa família. Os seus irmãos não conseguem nem sair de casa. Mas juro que para mim você morreu. Não quero mais ver a sua cara. A Dona Márcia saiu batendo com a porta. Marina atirou-se para o chão da cela e chorou como nunca tinha chorado na vida. No meio da tarde, o advogado oficioso chegou para conversar com ela.

 Era um homem cansado que parecia ter visto muitos casos iguais. Marina, vou ser direto contigo. A situação está complicada, mas eu sou inocente. Têm evidências físicas contra si. Receita médica falsificada é um crime grave. pode dar dois a 8 anos de cadeia. Alguém plantou estas coisas. A médica armou tudo. Tem como provar? Marina ficou em silêncio.

 Como provar alguma coisa de dentro de uma cela? E as crianças? Ela perguntou. Como estão? Isso não é da minha área. O meu trabalho é defender-te do crime que que supostamente cometeu. Supostamente. Bem, tecnicamente ainda é inocente até ser julgada. Mas as provas, ele não teve de terminar a frase. Marina entendeu que até o próprio advogado não acreditava nela.

 À noite, uma reclusa mais velha aproximou-se dela na cela. Primeira vez aqui? Espero que seja a última. Todo o mundo fala isso. Que crime? Dizem que falsifiquei receita médica para drogar crianças. A mulher fez uma cara de nojo. Mexer com crianças é coisa séria aqui dentro. Se realmente fez isso, não fiz. Eu amo aquelas crianças mais do que a própria vida.

 Então, alguém te lixou bem e lixou bem feito. Marina passou mais uma noite sem dormir, pensando na Sofia e na Valentina. Será que estavam outra vez a chorar? Será que a Lívia voltou a dar os estimulantes? Será que o Rodrigo se apercebeu de alguma coisa? Sábado de manhã, a notícia que ela mais temia chegou através de uma guarda.

Aquelas crianças que envenenou foram internadas de madrugada. O coração da Marina parou. O quê? Estão na UCI pediátrica, convulsões, febre muito elevada. Os médicos acham que foi sobredosagem dos medicamentos que deu. A Marina gritou e correu para as grades da cela. Não, eu não dei remédio nenhum. Deixe-me sair.

Preciso de falar com alguém. Fica aí quieta, não vais a lugar nenhum. Elas vão morrer. Vocês não entendem? É a médica que está a matar elas. Mas ninguém ouvia. Para todos ali, era apenas mais uma criminosa tentando escapar à responsabilidade. Marina atirou-se para o chão da cela, soluçando.

 A Sofia e a Valentina estavam moribundas e a pessoa que as podia salvar estava fechada numa cadeia. Do lado de fora, nos corredores do hospital, Rodrigo caminhava de um lado para o outro como um louco. As suas filhas estavam ligadas a aparelhos, lutando pela vida. “Como é que isto aconteceu, Lívia?”, ele perguntou pela décima vez.

 “Rodrigo, eu avisei. A ama estava a drogá-las há semanas. O organismo delas acumulou a substância e está agora a ter uma reação.” Mas estavam a melhorar. Era o efeito da droga. Agora que parámos de dar, o corpo delas está a entrar em abstinência. Rodrigo aceitou a explicação porque não tinha outra opção. A Lívia era médica.

 Ela sabia do que estava a falar. O que ele não sabia é que, neste preciso momento, Lívia estava aplicando doses ainda mais elevadas de estimulantes nas gémeas. O seu plano era simples, fazer com que as meninas ficassem tão mal que ele se casasse com ela por desespero e gratidão quando ela finalmente as curasse.

 Na prisão, Marina recebeu mais uma notícia devastadora. Silva, o seu caso tornou-se nacional. Você é a mulher mais odiada do Brasil agora. E era verdade. A história da ama que envenenou gémeas de empresário estava passando em todos os canais de TV. Sua foto estava em todos os jornais e sites. Protestos formaram-se em frente à esquadra, pedindo justiça.

 Assassina de crianças! Alguém gritou da rua. Cadeia nela. Marina encolheu-se no canto da cela. A sua vida tornou-se um inferno público, enquanto a verdadeira culpada era tratada como heroína por tentar salvar as crianças. Mas o pior de tudo era saber que, enquanto ela apodrecia numa cela, Sofia e Valentina estavam a morrer nos braços de quem realmente as envenenava.

 Deus, ela sussurrou no escuro da cela. Se o Senhor existe mesmo, protege estas crianças. Elas não merecem isso. E por algum milagre, do outro lado da cidade, alguém estava começando a fazer perguntas que Lívia não esperava. Domingo, 6 horas da manhã. No Hospital de São José, Rodrigo não saía ao lado das filhas há 48 horas.

 Sofia e Valentina estavam na UCI pediátrica com monitores que mostravam sinais preocupantes, febre que não baixava e pequenas convulsões que vinham em ondas. “Como estão, doutor?” Rodrigo perguntou ao Dr. Martins, o pediatra responsável. “Estáveis, mas ainda preocupantes. Vamos ter os resultados dos exames toxicológicos amanhã de manhã.

 E até lá. Vamos mantê-las hidratadas e monitorizadas. O organismo delas precisa de eliminar o que quer que seja naturalmente. Rodrigo passou a mão pelo rosto. Três dias sem dormir descansado, sem comer, sem conseguir pensar em mais nada. A Lívia chegou com uma chávena de café. Rodrigo, tu precisa de descansar um pouco. Não consigo.

Olha para elas, Lívia. Eu sei que é difícil, mas elas vão ficar bem. Confia em mim. Como tem tanta certeza? Porque conheço este tipo de intoxicação? Já vi casos semelhantes. E o que Rodrigo não sabia é que a Lívia estava a mentir. Ela nunca tinha visto o caso semelhante porque ela própria tinha criado essa situação.

 A Carmen chegou para visitar as gêmeas. Como funcionária da família há 15 anos, conseguiu autorização. Como é que elas passaram a noite, patrão? Mal, Carmen. Muito mal. E a Marina, o Sr. ainda não foi visitá-la? O Rodrigo ficou desconfortável. Depois do que ela fez, patrão. Carmen falou baixinho. Posso dizer uma coisa? Como alguém que conhece a família há tanto tempo? Fala.

 Eu vi a Marina com estas meninas. Vi a forma como ela cuidava, o carinho que ela tinha. Aquela rapariga jamais faria mal a uma criança. Mas as evidências? A evidência pode ser inventada, patrão, mas coração não. E o coração dela com as meninas era puro. O Rodrigo ficou pensativo. No fundo, também tinha dúvidas. Carmen, achas que eu devia ir falar com ela? Acho que o senhor devia pelo menos escutar o lado dela.

 Lívia, que estava a mexer no telemóvel, escutou a conversa e ficou alerta. Rodrigo, ela interrompeu. Não acha melhor se concentrar nas meninas agora? Essa mulher só o vai deixar mais angustiado. Talvez tenha razão, mas a Carmen não desistiu. Patrão, permite-me fazer uma pergunta? Claro. Desde que a Marina foi presa, as raparigas melhoraram ou pioraram? A pergunta caiu como uma bomba.

 O Rodrigo nunca tinha pensado nisso dessa forma. Pioraram. Então, não é estranho? Se ela estava realmente envenenando, não deviam melhorar sem ela? Lívia sentiu o coração acelerar. A pergunta da Carmen era perigosa. Carmen, ela respondeu com autoridade médica. A intoxicação não funciona assim. O corpo demora a eliminar as substâncias.

 É normal piorarem antes de melhorar. T Percebi. Mas Carmen não percebeu nada. Na verdade ficou ainda mais desconfiada. “Patrão”, sussurrou ela quando Lívia se afastou. “O senhor não acha que deva pelo menos falar com a Marina só para ter a certeza?” Rodrigo olhou para as filhas ligadas aos aparelhos. “Está bem, mas só para esclarecer esta história de uma vez.

” O que eles não sabiam é que esta decisão ia começar a desmontar se meses de mentiras. Segunda-feira, 10 horas da manhã. Rodrigo sentou-se na sala de visitas da esquadra, nervoso e revoltado, mas também curioso. Quando Marina apareceu, ele chocou com a mudança dela. Em quatro dias, ela parecia ter envelhecido anos. Magra, pálida, com olheiras que falavam por si só. Senr. Rodrigo, ela falou baixinho.

Marina, como estão as meninas? Por que preocupa-se depois do que do que dizem que fez? Porque eu adoro-as mais do que qualquer coisa neste mundo. Rodrigo estudou-lhe o rosto. Não viu maldade, não viu mentira, viu dor real. Marina, explique-me uma coisa. Se você realmente ama as minhas filhas, por que faria aquilo? Porque não o fiz, Senr.

Rodrigo. Juro pela alma da minha irmã que nunca faria mal a essas crianças. Mas encontraram evidências que foram plantadas pela Dra. Lívia Marina. Isso é uma acusação muito grave. Eu sei, mas é a verdade. A Marina contou tudo. Os padrões que ela e Carmen descobriram, os frascos violados, a forma como as gémeas pioravam sempre depois dos medicamentos.

Senr. Rodrigo, as suas filhas só ficavam agitadas depois de ela dar a medicação. O senhor próprio viu isso na quinta-feira. O Rodrigo lembrou. Era verdade. Quando não deu o medicamento, as meninas melhoraram. Mas porque é que a Lívia faria uma coisa dessas? Não sei. Só sei que ela está a fazer. Tem como provar.

 De dentro de uma cela. Como? Rodrigo saiu da esquadra com a cabeça a fervilhar. As palavras de Marina faziam sentido, mas eram tão graves que parte dele não queria acreditar. De volta ao hospital, ele encontrou o Dr. Martinho a sair do quarto das gémeas. Doutor, como estão? Curiosamente, estão um pouco melhor hoje. A febre baixou um grau.

 Sério? Sim, se continuar assim, talvez possamos retirar alguns monitores amanhã. Rodrigo ficou pensativo. As meninas estavam melhorando no hospital, longe de qualquer medicação da Lívia. Doutor, posso fazer uma pergunta técnica? Claro. Se alguém estivesse a dar alguma substância para manter as crianças agitadas, melhorariam quando deixassem de receber essa substância. O Dr.

Martins franziu o sobrolho. Dependeria da substância, mas sim. Se fosse um estimulante, por exemplo, acalmariam gradualmente quando deixassem de receber. E quanto tempo levaria? Uns dois, três dias. Por quê? Só curiosidade. Mas não era curiosidade. O Rodrigo estava começando a juntar as peças. Nesse momento, a Lívia apareceu no corredor.

Rodrigo, como estão as meninas? Melhor. O médico disse que a febre baixou. Que bom”, respondeu ela, mas a sua expressão não condizia com o alívio. “Lívia, posso fazer-te uma pergunta?” “Claro. Que tipo de medicação estava a dar para as meninas em casa?” “Sedivo natural. Por quê? O médico disse que podem estar melhorando porque deixaram de receber alguma substância.

 Não seria o contrário?” Lívia ficou nervosa. “Cada caso é um caso, Rodrigo. Não dá para generalizar. Mas acabou de dizer que conhecia este tipo de intoxicação. Conheço, mas cada organismo reage diferente. Rodrigo percebeu que as respostas dela não estavam a bater certo. Lívia, trouxeste alguma medicação para aplicar hoje? Trouxe, mas vou falar com o Dr. Martins antes.

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