Riram de Pelé na Coletiva de Imprensa — Sua Resposta em Campo Foi IMPLACÁVEL 

Estávamos em 1969, uma sala cheia de jornalistas europeus. Pelé acabou de responder a uma pergunta sobre o Mundial e um repórter italiano ao fundo da sala gritou: “Você já é demasiado velho, brasileiro. Sua época acabou.” A gargalhada que veio depois encheu a sala inteira. O que fez Pelé 72 horas depois calou a Europa para sempre.

 Antes de eu contar-te o que aconteceu naquele campo em Milão, é preciso entender o contexto. 1969 não era um ano qualquer para o futebol brasileiro. Era o ano antes da Taça do México, o ano em que o mundo inteiro duvidava se o Brasil ainda era potência. O ano em que Pelé, aos 28 anos, era tratado por muitos europeus como um jogador em declínio.

 A Copa de 1966 em Inglaterra tinha sido um desastre. O O Brasil foi eliminado na primeira fase e Pelé saiu do torneio lesionado, acaçado por defesas que tinham ordem de destruí-lo. A imagem do rei a coxear para fora de campo, com lágrimas nos olhos, correu o mundo inteiro e os europeus adoraram. Para eles, aquela imagem era a prova de que o futebol sul-americano era inferior, que os brasileiros eram bons de bola, sim, mas não aguentavam a pressão do futebol de verdade.

 Que Pelé era um fenómeno de circo, bom para fazer embaixadinhas e golos bonitos contra equipas fracas, mas incapaz de brilhar quando o jogo ficava duro. Esta narrativa se espalhou pela Europa como fogo em palha seca. Os jornais italianos, espanhóis e ingleses repetiam a mesma história. Pelé estava acabado. O Brasil já não tinha hipóteses.

 A era do futebol sul-americano tinha terminado. E foi neste clima que o Santos embarcou para uma excursão pela Europa em outubro de 1969. A a excursão era uma tradição do clube. Todos os anos, o Santos deslocava-se a jogar partidas de exibição contra os melhores equipas europeias. Era uma forma de ganhar dinheiro, de mostrar o futebol brasileiro para o mundo e de manter os jogadores em ritmo de jogo.

 Mas em 1969, a excursão tinha um peso diferente. Era a última oportunidade de provar aos europeus que o Brasil era ainda grande. Era a última oportunidade de calar as bocas que diziam que o Pelé estava velho. E Pelé sabia disso. Ele embarcou naquele avião com uma missão. Não era só jogar futebol, era restaurar a honra, era mostrar ao mundo que o rei ainda reinava.

 O primeiro jogo da excursão era frente ao Milan no San Ciro. 70.000 Os adeptos italianos, a maioria torcendo contra, toda a imprensa europeia presente, esperando ver o Brasil falhar mais uma vez. Na véspera do jogo, a organização do evento marcou uma conferência de imprensa. Era para ser um evento simples, uma oportunidade pros jornalistas fazerem perguntas aos jogadores, tirarem fotografias, produzirem matérias.

 Mas não foi isso que aconteceu. A conferência de imprensa foi no hotel onde o Santos estava hospedado, um local elegante no centro de Milão. A sala de conferências estava lotada. Mais de 100 jornalistas, a maioria europeus, alguns brasileiros que tinham viajado juntamente com o time. Pelé entrou na sala acompanhado de Coutinho e do treinador Antoninho.

 Eles sentaram-se atrás de uma mesa comprida com microfones à frente. Flashes de câmaras dispararam assim que Pelé apareceu. As primeiras questões foram normais sobre a excursão, sobre a equipa, sobre as expectativas pro jogo contra o Milão. Pelé respondeu com educação, como sempre fazia.

 Mas depois há um jornalista italiano levantou a mão. Era um homem de meia idade, cabelo grisalho, óculos redondos. O seu nome era Marco Benedetti e ele trabalhava para a Corriere de Lacera, um dos maiores jornais da Itália. “Senor Pelé”, disse Benedete com um sorriso que não chegava aos olhos. O senhor tem 28 anos. No Mundial de 66, o senhor foi praticamente carregado para fora de campo.

 Os médicos disseram que os seus joelhos estão comprometidos. Como o senhor espera competir contra atletas europeus que estão no seu auge físico? A pergunta caiu como uma bomba. A sala ficou em silêncio. Os jornalistas brasileiros entreolharam-se indignados. Coutinho cerrou os punhos debaixo da mesa. Pelé manteve a compostura. Obrigado pela pergunta, disse a voz calma.

 Compreendo a preocupação, mas eu posso garantir que estou em excelente forma. Depois amanhã em campo vou mostrar isso. Benedet não se deu por satisfeito. Mostrar o quê exatamente? Que o Sr. ainda consegue fazer embaixadinhas. Isso já sabemos. O que queremos saber é se o senhor ainda consegue jogar futebol a sério, futebol europeu. A provocação era clara e toda a sala esperou pela reação de Pelé.

 Pelé respirou fundo, olhou diretamente para Benedete. “Futebol a sério”, repetiu como se estivesse a saborear as palavras. “O senhor acha que o futebol brasileiro não é futebol a sério? Eu acho que o futebol brasileiro é espetáculo”, disse Benedete. “Bonito de ver, mas sem substância. Quando o jogo aperta, quando a marcação é dura, vocês desaparecem.

Foi o que aconteceu em 66 e é o que vai acontecer outra vez.” E então aconteceu algo que ninguém esperava. Do fundo da sala, alguém começou a rir. Era uma gargalhada alta, debochada. E logo outros jornalistas se juntaram. A gargalhada espalhou-se pela sala como uma onda. Italianos, espanhóis, ingleses, todos a rir.

 Rindo de Pelé, rindo do Brasil, rindo-se da ideia de que o futebol sul-americano pudesse ser levado a sério. Pelé ficou sentado em silêncio enquanto a gargalhada continuava. O rosto dele não mostrava nada, nenhuma emoção, nenhuma reação, apenas aqueles olhos escuros observando, registando. Coutinho levantou-se furioso. Isto é uma falta de respeito.

 Vocês não têm vergonha? Mas Pelé pôs a mão no braço de Coutinho, fazendo-o sentar-se de novo. Deixa, Coutinho, deixa-os rir. A gargalhada foi morrendo aos poucos. Benedete ainda tinha um sorriso no rosto quando fez a pergunta seguinte. Então, o senhor não está ofendido? Pelé olhou para ele e pela primeira vez algo mudou no rosto do rei.

 Um brilho apareceu nos olhos. Um brilho que quem conhecia Pelé sabia o que significava. Ofendido, não. Motivado. Pelé levantou-se da cadeira. Senhores, esta conferência está encerrada, mas eu Quero deixar uma coisa clara. Ele olhou para a sala inteira, para cada jornalista que se tinha rido. Amanhã, às 9 da noite, naquele estádio ali, apontou pela janela na direção do Saniro.

 Eu vou dar a minha resposta e garanto que ninguém vai estar a rir. E saiu da sala. O que aconteceu nas 24 horas seguintes ficou guardado apenas entre os jogadores dos Santos. Ninguém de fora soube. Ninguém de fora podia saber. Naquela noite, depois da conferência de imprensa, Pelé reuniu o equipa inteira no quarto dele.

 Não era uma reunião oficial, não havia técnico, não tinha dirigente. Oné era só os jogadores. Eles sentaram-se onde puderam, nas camas, nas cadeiras, no chão, e esperaram que Pelé falasse. Pelé ficou de pé, encostado à janela, olhando paraa cidade de Milão, iluminada ali embaixo. “Vocês ouviram o que aconteceu hoje?”, disse sem se virar.

 “Vocês viram como nos tratam?” Os jogadores concordaram em silêncio. “Isso não é sobre mim, não é sobre vocês, é sobre o Brasil, é sobre tudo o que nós representa.” Pelé virou-se para encarar os companheiros. Amanhã não vamos jogar uma partida de futebol. A gente vai entrar numa guerra e nós vamos vencer.

 Não por um golo, e não por dois. A gente vai humilhar eles da forma que tentaram humilhar a gente hoje. Coutinho levantou a mão. E como é que a gente faz isso? Pelé sorriu. Era um sorriso frio, calculado. Nós jogamos o nosso futebol. O futebol que dizem que não existe. A gente dribla, a gente toca, a gente marca golo de todo o jeito possível.

 A gente faz eles perceberem que tudo o que disseram era mentira. Zito, o capitão se levantou. Eu estou contigo, Pelé, e sei que toda a gente aqui tá também. Os jogadores concordaram. Nessa noite, no quarto de hotel em Milão, o Santos transformou-se em algo mais do que uma equipa de futebol. se transformou numa máquina de vingança.

Mas a história tem mais camadas, porque Marco Benedetti, o jornalista que tinha provocado Pelé, não era apenas um repórter arrogante. Ele tinha um passado com o futebol brasileiro, um passado que explicava todo aquele ódio. 10 anos antes, em 1959, Benedet era um jovem jornalista ambicioso. Tinha sido enviado pro Brasil para cobrir uma excursão da seleção italiana.

Era a sua primeira vez na América do Sul e ele estava cheio de preconceitos. O Brasil que encontrou era diferente do que ele esperava. Era vibrante, caótico, cheio de vida. E o futebol brasileiro era algo que nunca tinha visto antes. Benedet ficou fascinado, especialmente por um jogador jovem que começava a aparecer, um menino de 18 anos que jogava nos Santos e pela seleção, um menino chamado Pelé.

Nessa altura, Pelé ainda não era o rei. Era apenas um talento promissor, um miúdo pobre do interior de São Paulo que tinha chegado ao futebol profissional por pura habilidade. Benedet pediu uma entrevista. O Santos concordou e num fim de tarde soalheiro em Santos, o jornalista italiano se sentou-se com o jovem Pelé para uma conversa. A entrevista correu bem.

 Pelé era educado, articulado, a impressionante paraa idade dele. Benedet ficou genuinamente impressionado e no final da conversa fez uma proposta. Pelé, és demasiado talentoso para ficar aqui. A Europa é onde os grandes jogadores fazem história. Eu tenho contactos no Milan. Eu posso ajudá-lo a ir para lá.

 Pelé ou viu com atenção, pensou por um momento e depois respondeu com uma simplicidade que surpreendeu Benedete. Obrigado, senhor, mas não quero ir paraa Europa. O meu lugar é aqui, a minha família está aqui, o meu país está aqui e é aqui que vou fazer história. Benedet ficou desconcertado. Ele tinha oferecido o mundo ao miúdo e o miúdo tinha recusado.

 Isto não fazia sentido para ele. “Está a cometer um erro”, disse a Benedete. “Se ficar aqui, nunca vai ser reconhecido como deveria. O futebol a sério está na Europa.” Pelé sorriu. “Com todo o respeito, senhor, eu discordo. O verdadeiro futebol está onde o coração está e o meu coração está no Brasil.” A entrevista terminou. Benedet voltou paraa Itália e escreveu uma matéria sobre o jovem talento brasileiro que tinha recusado a Europa.

A matéria foi publicada, mas não teve grande repercussão. Mas Benedetti nunca esqueceu aquela recusa e à medida que Pelé foi crescendo, à medida que se foi tornando o maior jogador do mundo, a mágoa de Benedete foi crescendo também. Ele tinha oferecido ajuda, tinha estendido a mão e Pelé tinha rejeitado.

 Tinha escolhido o Brasil em vez da Europa. Tinha escolhido ficar em vez de ir. Para Benedet, este era uma afronta pessoal. Era como se Pelé tivesse dito que o futebol europeu não era suficientemente bom para ele. E essa afronta foi-se transformando em ressentimento. E o ressentimento foi se transformando-se em ódio.

 Quando a Taça de 66 aconteceu, quando Pelé foi caçado e o Brasil foi eliminado, Benedet sentiu uma satisfação amarga. Finalmente, o mundo estava a ver que ele tinha razão, que Pelé devia ter ido paraa Europa quando teve a oportunidade. que o futebol brasileiro era inferior. E quando soube que Pelé estaria em Milão para essa partida, Benedet viu a oportunidade perfeita, a oportunidade de humilhar o homem que tinha-o rejeitado 10 anos antes.

 A oportunidade de provar perante o mundo inteiro que ele sempre esteve certo. Por isso a provocação na coletiva, por isso o riso, por isso a crueldade. Não era só sobre futebol, era pessoal. Mas Benedet não sabia de uma coisa. Não sabia que Pelé se lembrava dessa entrevista em 1959. Não sabia que Pelé o tinha reconhecido na conferência de imprensa.

 A não sabia que naquele momento em que os olhos dele se cruzaram, Pelé compreendeu exatamente o que estava a acontecer e não sabia que, por causa disso, a vingança de Pelé seria ainda mais devastadora. O dia do jogo amanheceu cinzento em Milão. Nuvensadas cobriam o céu, ameaçando chuva. O Saniro estava a se preparando-se para receber 70.000 pessoas.

Pelé acordou cedo, tomou o pequeno-almoço sozinho em silêncio. Os companheiros de equipa perceberam que ele estava diferente, mais focado, mais intenso, como um animal que se prepara para a caça. Às 15 horas, a equipa fez uma caminhada leve pelos arredores do hotel. Era uma tradição antes de jogos importantes.

Ajudava a relaxar, a soltar as pernas, a preparar a mente. Pelé caminhou na frente sozinho, não conversou com ninguém, apenas andou a olhar para frente, perdido em pensamentos. Me Coutinho aproximou-se. Está tudo bem, Pelé? Pelé não respondeu de imediato. Continuou a caminhar por mais alguns passos e depois parou.

Coutinho, lembras-te daquele jornalista? O que fez a pergunta ontem? O italiano arrogante? Claro que me lembro. Conheci-o há 10 anos. Ele me ofereceu ajuda para ir para o Milan. Eu recusei. Coutinho franziu o sobrolho e por isso ele ficou zangado. Por isso ele odeia-me. 10 anos de ódio guardado. E ontem teve finalmente a chance de atirar-me tudo à cara.

E o que vai fazer? Pelé olhou para o Coutinho. Os olhos dele brilhavam com uma intensidade que Coutinho raramente via. Eu vou fazer com que ele se arrependa de cada palavra. Eu vou fazer com que ele se arrependa de se ter rido. Eu vou fazê-lo entender que recusar a Europa foi a melhor decisão da minha vida.

 Ah, porque eu não precisava deles. Eles é que precisavam de mim. Coutinho sorriu. Então vamos dar um concerto hoje à noite? Não, vamos dar uma aula. Às 8 da noite, o autocarro dos Santos chegou ao Saniro. O estádio já estava quase cheio. As luzes dos refletores iluminavam o relvado verde, perfeito. A A claque italiana cantava animada, esperando ver o seu Milan vencer os brasileiros.

No balneário, o ambiente era de concentração absoluta. Os jogadores vestiam-se em silêncio. Cada um sabia o peso daquele jogo. Cada um sabia o que estava em causa. Pelé foi o último a vestir-se. Ele pegou na camisa branca do Santos, olhou-a por um momento e depois vestiu-a devagar, como se estivesse a colocar uma armadura.

Antoninho, o técnico, fez um discurso curto antes de entrarem em campo. Vocês sabem o que fazer. Joguem o nosso futebol. Amostrem para essa gente quem a gente é. Os jogadores levantaram-se, formaram uma fila à porta do balneário e quando o árbitro chamou, saíram pro relvado. O barulho era ensurdecedor. 70.

000 1 italianos a vaiar, a praguejar, provocando. A equipa do Milan já estava em campo à espera. Pelé foi o último a sair do túnel. Quando ele apareceu, as vaias aumentaram ainda mais. Ele caminhou devagar, olhando para o estádio inteiro, absorvendo toda aquela hostilidade, transformando-a em combustível. E depois viu na tribuna de imprensa, com um bloco de notas na mão, estava Marco Benedetti.

o jornalista que tinha ido dele ontem, o homem que o tinha tentado humilhar. Os os olhos dele cruzaram-se por um segundo, apenas um segundo, o mundo parou. E então Pelé sorriu. Não era um sorriso de cordialidade, era um sorriso de promessa. Há um sorriso que dizia: “Tu vai arrepender-se”. Benedet desviou o olhar primeiro jogo começou.

 O Milan veio para cima nos primeiros minutos. Os adeptos empurravam, os jogadores italianos pressionavam. Era exatamente o futebol duro e intenso que Benedet tinha falado na conferência de imprensa. O futebol que, segundo ele, os brasileiros não sabiam jogar. Mas o Santos aguentou, aguentou os primeiros 10 minutos de pressão, aguentou as duras divididas, aguentou as provocações e depois aos poucos começou a jogar.

 O primeiro golo surgiu aos 15 minutos. Pelé recebeu a bola a meio-campo de costas para a baliza. Tinha dois marcadores nele. Qualquer outro jogador teria passado, teria esperado apoio. Pelé girou. Num só movimento. Ele livrou-se dos dois marcadores, virou-se de frente para o golo e arrancou em velocidade. Mais um defensor veio. Pelé driblou.

 A outro veio. Pelé driblou também. O guarda-redes saiu. Pelé esperou. esperou e no último segundo tocou na bola por baixo do corpo dele. Golo! O Saniro ficou em silêncio. 70.000 pessoas mudas. Pelé não festejou de forma efusiva, apenas levantou o braço, apontou para a tribuna de imprensa e olhou diretamente para Benedet.

 A mensagem era clara. Isto é só o começo. O segundo golo surgiu aos 28 minutos. Foi um golo de equipa. Toque, toque, toque. A bola a passar de pé para pé, como se os jogadores do Santos estivessem a dançar. Os italianos corriam atrás, mas não conseguiam acompanhar. E no final da jogada, Pelé apareceu na área para cabecear para a baliza vazio. 2-0.

Agora o silêncio do estádio era quase opressivo. A claque italiana não conseguia acreditar no que estava a ver. A sua equipa, o poderoso Milan, a estava sendo humilhado por um bando de brasileiros e a humilhação estava só começando. O terceiro golo surgiu aos 35 minutos, o quarto aos 42. O primeiro tempo terminou 4-0 para o Santos com três golos de Pelé.

 Ao intervalo, o balneário dos Santos era uma festa silenciosa. Os jogadores sabiam que estavam a fazer história, mas também sabiam que o trabalho não estava terminado. Pelé se sentou-se num canto, bebendo água, recuperando o fôlego. Coutinho se aproximou. Três golos, Pelé. Acho que a mensagem já foi dada. Pelé abanou a cabeça. Não, ainda não.

 Eu quero que nunca se esqueçam dessa noite. Eu Quero que daqui a 50 anos as pessoas ainda falem deste jogo. E quantos golos precisa para isso? Pelé olhou para o Coutinho com aqueles olhos intensos. Ah, quantos conseguia? O segundo tempo começou com o Milan tentando reagir. Eles sabiam que precisavam de fazer alguma coisa, qualquer coisa, para salvar a honra, mas não tinha que fazer.

 O Santos era simplesmente melhor, muito melhor. E Pelé estava a jogar como se estivesse possuído por algo sobrenatural. O quinto golo surgiu aos 10 minutos do segundo tempo, o sexto aos 20, o sétimo aos 32. Cada golo era mais bonito que o anterior. Dribles impossíveis, toques de primeira, remates de todos os ângulos.

 Era uma exibição de futebol que ninguém no Saniro já o tinha visto antes. E em cada golo, Pelé olhava para a tribuna de imprensa. Em cada golo, lembrava Benedete do que tinha dito na conferência de imprensa. Em cada golo, a humilhação aumentava. O jogo terminou 8 a 2 para o Santos. Pelé marcou cinco golos e fez três assistências.

Era até àquele momento a maior goleada da história do Saniro. Quando o árbitro apitou o final, algo de extraordinário aconteceu. A claque italiana, a mesma que tinha vaiado Pelé no início do jogo, começou a aplaudir. Primeiro foram poucos, depois mais e cada vez mais. Em poucos segundos, 70.000 1 italianos estavam de pé a aplaudir o equipa brasileira, aplaudindo Pelé.

 Não era aplausos de derrota resignada, era aplausos de reconhecimento. Era o reconhecimento de que tinham acabado de assistir a algo histórico, algo que transcendia equipas e países. Pelé parou no meio do campo, olhando para o estádio inteiro. Os flashes das câmaras disparavam sem parar. Os companheiros vieram abraçá-lo e depois olhou mais uma vez paraa tribuna de imprensa.

Benedet já não estava lá, tinha saído antes do final do jogo, aí incapaz de assistir até ao fim. Pelé sorriu. A vingança estava completa, mas esta história tem mais camadas, porque o que aconteceu depois do jogo nos bastidores foi tão importante como o que aconteceu em campo. Depois das entrevistas, depois dos cumprimentos, depois de toda a rotina pós-ogo, Pelé pediu para ficar sozinho durante alguns minutos.

 Os companheiros respeitaram, saíram do balneário e foram para o autocarro. Pelé sentou-se num banco, ainda su ainda com o uniforme do jogo, e ficou ali em silêncio pensando. Pensou no pai Dondinho, que tinha sido jogador também, mas que nunca teve a hipótese de brilhar por causa de uma lesão. Pensou na mãe, a dona Celeste, que tinha trabalhado tanto para criar os filhos.

 Pensou em Bauru, a cidade pequena onde tinha crescido, jogando bola descalço nas ruas de terra batida. e pensou em todos os europeus que tinham ido dele em Benedet, nos jornalistas arrogantes, nos que achavam que o futebol brasileiro era inferior. Ele tinha provado todos eles errados, não com palavras, com bola, com golos, com futebol.

 E essa era a única resposta que importava. Houve uma pancada na porta do vestiário. Pelé olhou para cima. Pode entrar. A porta abriu-se e, para surpresa de Pelé, quem entrou foi Marco Benedete. O jornalista estava pálido. Os olhos dele estavam vermelhos, como se tivesse chorado. As mãos tremiam ligeiramente. Por um longo momento, os dois homens se olharam em silêncio.

“Vim pedir desculpa”, disse Benedete. “Finalmente”. A voz dele estava rouca. Pelé não respondeu, apenas continuou a olhar. O que fiz ontem foi errado. O que eu disse foi mentira. Ai, e eu sabia que era mentira quando disse. Por que razão o fez então? Benedete suspirou. Porque estava zangado. Há 10 anos oferecia-te ajuda para vires paraa Europa.

 Você recusou e eu nunca consegui aceitar isso. Você guardou rancor durante 10 anos por causa de uma recusa? Parece ridículo agora, eu sei. Mas na altura vi como uma rejeição pessoal, como se estivesse a dizer que a A Europa não era suficientemente boa para você. Pelé levantou-se do banco, caminhou até Benedete. Eu nunca disse isso.

 Eu disse que o meu lugar era no Brasil, que a minha família estava lá, que era onde eu queria construir a minha história. Eu sei, eu compreendo agora, mas na altura eu era jovem. arrogante. Eu pensava que sabia o que era melhor para todos. E hoje, o que pensa hoje? Benedet baixou os olhos. Ah, hoje acho que és o maior jogador que eu já vi e que eu passei 10 anos da minha vida a odiar um homem que não merecia ódio.

 Pelé ficou em silêncio por um momento e depois fez algo que surpreendeu Benedete. Ele estendeu a mão. Desculpas aceites. Benedet olhou para a mão estendida sem acreditar. Depois de tudo o que fiz, depois de ontem, perdoas-me assim, simplesmente? Eu não guardo rancor, Benedete. Isto não faz bem a ninguém, nem para quem guarda, nem para quem é guardado.

 Benedete apertou a mão a Pelé e quando o fez, as lágrimas que ele tinha segurado finalmente começaram a cair. “Obrigado”, sussurrou. “Obrigado, Pelé”. sorriu. Agora vai lá e escreve a matéria de verdade. Conta pro mundo o que aconteceu aqui hoje. Não como o jornalista que me odiava, como o jornalista que viu futebol a sério. Benedet assentiu, largou a mão de Pelé e saiu do balneário ainda a chorar.

No dia seguinte, o Corriere de Laciera publicou a matéria mais honesta da carreira de Marco Benedet. O título era simples, o verdadeiro rei. A matéria contava tudo, a provocação na conferência de imprensa, o riso, a arrogância e depois a humilhação em campo, os oito golos, o espectáculo de futebol que ninguém no Saniro tinha visto antes, mas a parte mais importante da matéria era o final.

“Passei 10 anos a duvidar de Pelé”, escreveu Benedet. 10 anos a dizer que ele era super valorizado, que o futebol brasileiro era inferior. Ontem à noite, ele mostrou-me como eu estava errado, não com palavras, com bola, com a linguagem que ele conhece melhor do que qualquer pessoa viva. Pelé é o maior jogador da história e tive o privilégio de ver isso de perto, mesmo que tenha demorado 10 anos a admitir.

matéria tornou-se viral, foi traduzida pro inglês, pro espanhol, pro português. Foi republicada em dezenas de jornais ao redor do mundo. E, de repente, a narrativa mudou. Os mesmos europeus que tinham ido de Pelé elogiavam-no agora. Os mesmos jornalistas que tinham duvidado agora o exaltavam.

 A história de 1966 foi esquecida. A nova história era a de Milão, a dos oito golos, a do rei que se tinha calado seus críticos. Tranquilo, porque o Pelé tinha vencido. Mas a história não termina aí, porque Marco Benedet não foi o único afetado por aquela noite. O impacto foi muito maior, muito mais profundo do que qualquer um poderia imaginar. Entre os 70.

000 1 adeptos que estavam no Saniro nessa noite, mas havia um rapaz de 12 anos chamado Paolo Maldini. Paolo era filho de César Maldini, um ex-jogador do Milan que nessa altura era técnico das camadas jovens do clube. Paolo tinha crescido a amar o Milan, sonhando em vestir a camisola vermelha negra.

 Mas nessa noite viu algo que mudou a sua vida. Ele viu o Pelé jogar não na televisão, não em fotografias. ao vivo a poucos metros de distância. E o que viu foi algo que nunca esqueceu. Anos mais tarde, quando Paolo se tornou um dos maiores defesas da história do futebol, deu uma entrevista sobre as suas influências. “Lembro-me de uma noite em 1969”, disse o Paolo.

 “O Santos veio jogar contra o Milan. Tinha 12 anos e estava no estádio com o meu pai. Pelé fez cinco golos. Cinco contra a equipa que eu amava. O entrevistador perguntou como é que ele se sentiu. Ah, fiquei triste porque o O Milan perdeu, mas ao mesmo tempo fiquei fascinado. Eu nunca tinha visto alguém jogar daquela maneira.

 Era como se o Pelé fosse de outro planeta. Naquela noite eu Compreendi o que significava ser um génio do futebol. E prometi a mim mesmo que um dia ia jogar àquele nível. Talvez não como avançado, mas no meu nível mais elevado possível. Maldini não era o único. Vários jogadores que depois tornaram-se lendas do futebol mundial estavam naquele estádio nessa noite.

Ouviram as repetições na televisão ou leram sobre o jogo nos jornais e todos foram influenciados de alguma forma. Franco Baresi, outro lendário defesa do Milan, tinha 9 anos em 1969. Não estava no estádio, mas ouviu sobre o jogo pela rádio. “O meu pai estava ouvindo a transmissão”, disse Baresi numa entrevista anos mais tarde.

 “Eu lembro-me dele cada vez mais quieto à medida que os golos iam acontecendo.” Quando o jogo terminou, desligou o rádio e ficou a olhar para o nada. “Eu perguntei o que tinha acontecido.” Ele disse: “Acabámos de perder de 8 a do”. E depois disse algo que eu nunca esqueci-me, mas o jogador que fez isso é o melhor do mundo.

 Aprenda com os melhores mesmo quando jogam contra si. Esta lição ficou com Barez pela vida inteira. Ele tornou-se um dos maiores defesas da história e sempre que perguntavam sobre as suas influências, ele mencionava aquela noite de 1969. A digressão do Santos continuou depois do jogo contra o Milan. A equipa jogou contra o Real Madrid, contra o Barcelona, contra outras grandes equipas europeias.

 E em todos os jogos, Pelé brilhou. Mas nenhum jogo foi tão marcante como o de Milão. Nenhum jogo teve a mesma carga emocional, a mesma vingança pessoal, o mesmo significado. Quando o Santos regressou ao Brasil, a recepção foi de heróis. Milhares de pessoas esperavam no aeroporto. Os jornais brasileiros celebravam a goleada como uma vitória nacional e Pelé, Pelé voltou ao trabalho.

 Treinou, jogou, marcou golos, como sempre o fazia. Mas algo tinha mudado. A narrativa mundial sobre ele tinha mudado. Depois de Milão, mais ninguém duvidava, já ninguém se ria. Ninguém mais dizia que ele estava acabado. 8 meses depois, no Mundial do México, Pelé e o Brasil conquistaram o tricampeonato. Foi a maior seleção da história, jogando o futebol mais bonito que o mundo já tinha visto.

 E muitos historiadores do futebol acreditam que a semente daquela conquista foi plantada nessa noite em Milão, até quando Pelé decidiu que não ia mais aceitar ser desrespeitado, quando decidiu que ia calar o mundo inteiro. Marco Benedet continuou trabalhando como jornalista durante mais 20 anos depois daquela noite, mas nunca mais escreveu nada de negativo sobre Pelé.

Pelo contrário, ele tornou-se um dos maiores defensores do rei na imprensa europeia. Em 1990, quando o Campeonato do Mundo foi realizado na Itália, Benedet já estava reformado, mas ele abriu uma exceção para aquele torneio. Pediu uma credencial especial e foi cobrir como freelancer, não para escrever sobre os jogos, para escrever sobre uma história.

 A história de Uma noite em 1969. A história de como tinha ido de Pelé numa conferência de imprensa e de como 72 horas depois Pelé tinha dado a melhor resposta possível. A matéria foi publicado num suplemento especial do Corriere de La Cera durante a Taça de 90. Era longa, detalhada, emocionante. Benedet não escondeu nada.

 contou sobre a sua arrogância, sobre o seu preconceito, sobre o seu ódio infundado, e no final escreveu: “Passei a maior parte da a minha carreira tentando redimir-me dessa noite, tentando compensar os 10 anos que desperdicei, odiando um homem que não merecia ódio.” Pelé deu-me uma lição que nunca esqueci, não com palavras, não com discursos, com a bola nos pés, com cinco golos numa noite, com a maior exibição de futebol que já vi na vida.

E quando tudo terminou, quando eu esperava que ele me humilhasse de volta, fez o contrário. Ele perdoou-me, estendeu a mão, tratou-me com dignidade, a mesmo depois de eu ter sido tão indigno com ele. Pelé não é apenas o maior jogador da história. É um dos maiores seres humanos que já conheci e tive o privilégio de o testemunhar de perto.

Benedet morreu em 1997, aos 73 anos. Entre os seus pertences, a família encontrou uma caixa especial. Dentro da caixa havia recortes de jornais, fotografias e uma camisa branca dos Santos. Era uma camisola autografada por Pelé. Na dedicatória manuscrita, dizia ao Marco que tinha a coragem de mudar, Pelé. Ninguém sabe exatamente quando Pelé deu esta camisola para Benedete.

 Provavelmente foi em algum encontro posterior, em algum acontecimento, em alguma entrevista. Mas o facto de Benedet a ter guardado por todos estes anos mostra o quanto aquela noite em Milão significou para ele. A a família de Benedete do camisa pró Museu do Futebol Italiano. Ela está lá até hoje juntamente com uma placa que conta a história resumida daquela noite de 1969.

Mas a verdadeira história, a história completa, é a que eu estou a contar aqui. O Mundial do México em 1970 foi o auge da carreira de Pelé. O Brasil praticou um futebol que nunca mais foi igualado. Cada jogo era uma obra de arte, cada golo era um momento de poesia e Pelé era o maestro de tudo. Ele marcou golos em todas as fases do torneio, fez assistências brilhantes, liderou a equipa dentro e fora de campo e na final contra a Itália, abriu o marcador com aquele cabeceamento perfeito que se tornou símbolo do

futebol brasileiro. Mas poucos sabem o que aconteceu antes dessa final. Na noite anterior ao jogo, Pelé não conseguia dormir. Ele estava deitado na cama do hotel, amor, olhar para o teto, pensando. Coutinho, que partilhava o quarto com ele, percebeu. Está nervoso? Não é nervosismo, é outra coisa.

 O quê? Pelé ficou em silêncio por um momento. Eu tô pensando em todas as pessoas que duvidaram de mim. Todos os europeus que disseram que eu estava acabado, todos os jornalistas que se riram na minha cara. Eu Estou a pensar naquela noite em Milão. Coutinho sentou-se na cama. Você ainda pensa naquilo? Eu penso todos os dias.

 Aquela noite deu-me ensinou algo importante. Ensinou-me que a única resposta que importa é a que a gente dá em campo. As palavras não não significam nada. Os golos, as vitórias, os títulos. Isso é que conta. E amanhã, O Pelé olhou para o Coutinho. Amanhã a gente vai dar a resposta definitiva. A gente vai ganhar esta Taça.

 A gente vai mostrar ao mundo inteiro que o Brasil é o melhor. Ó, e depois disso ninguém mais vai poder duvidar. Coutinho sorriu. Então descansa, Pelé. Amanhã vais necessitar de energia. Pelé fechou os olhos, mas antes de dormir fez uma última promessa para si mesmo. Essa é pro Marco Benedet e para todos os outros que riram.

 O jogo contra o Itati ou contra o a Itália foi histórico. 4 a 1 pró Brasil. Com um futebol que deixou o mundo boque aberto, Pelé fez o primeiro golo e fez assistência para o quarto. Quando o árbitro apitou para o final, quando a taça foi levantada, quando os jogadores se abraçavam em celebração, Pelé olhou para cima, olhou para o céu azul do México, fechou os olhos e sorriu.

 Ele tinha ganhou não só aquele jogo, não só aquela Taça, tinha vencido todos os que duvidaram dele. Todos os que se riram, todos os que disseram que ele estava acabado. E a melhor parte, ele tinha feito isto sem ter de dizer uma palavra. Tinha-o feito com a bola nos pés, com golos, com títulos, com futebol. Essa é a lição desta história.

 Não é sobre vingança, não é sobre ódio, é sobre como responder às provocações. Pelé podia ter brigado com Benedet naquela conferência de imprensa, poderia ter xingado, poderia ter ameaçado, poderia ter causado um escândalo e talvez naquele momento se tivesse sentido bem, mas não teria mudado nada. Em vez disso, ele guardou a raiva, canalizou-a, transformou-a em combustível e usou este combustível para dar a melhor resposta possível.

 Cinco golos numa noite, uma matéria de desculpas, uma amizade improvável e, no final, o respeito de todos. Porque é assim que os os grandes homens respondem, não com palavras, com ações, não com raiva, com excelência. Pelé compreendeu isso desde muito jovem e aplicou este princípio durante toda a carreira dele.

 Quando os defesas tentavam magoá-lo, ele respondia com dribles. Quando os árbitros eram injustos, respondia com golos. Quando os jornalistas duvidavam, ele respondia com títulos. Nunca com violência, nunca com palavras ofensivas, sempre com futebol. E por isso, décadas depois, a as pessoas ainda estão aqui a falar dele, não só dos golos e das conquistas, mas da forma como conduzia a vida, da dignidade, da classe, da capacidade de transformar a diversidade em motivação.

Marco Benedet aprendeu esta lição nessa noite em Milão e passou o resto da vida tentando estar à altura dela. Paulo Maldini aprendeu assistindo do estádio aos 12 anos e tornou-se um dos maiores defensores da história. Franco Baresi aprendeu ouvindo pela rádio aos 9 anos e transportou a lição por toda a carreira.

E nós que ouvimos estas histórias também podemos aprender. A próxima vez que alguém se rir de si, a próxima vez que alguém duvidar, da próxima vez que alguém disser que não consegue. Lembra-se de Pelé em Milão, recorda os cinco golos, recorda a forma como ele calou os críticos e dá a sua resposta, não com palavras, com ações, com excelência, porque no fundo é isso que separa os grandes dos medianos.

 Não é o talento, não é a sorte, é a capacidade de transformar a dor em combustível, de transformar a dúvida em motivação, de transformar risos em aplausos. Pelé fazia-o melhor do que qualquer um e, por isso ele é eterno. A carreira de Pelé continuou por mais anos depois daquela noite em Milão. Ele jogou no Santos até 1974. Depois teve uma passagem pelo cosmos de Nova Iorque, mas aposentou-se definitivamente em 1977 numa partida de despedida emotiva.

Mas aquela noite de 1969 ficou marcado como um dos momentos definidores da sua carreira. O momento em que provou de uma vez por todas que era o maior, o momento em que calou a Europa inteira. E 50 anos depois, a história ainda é contada. Os jovens perguntam: “É verdade que Pelé marcou cinco golos contra o Milão? É verdade que havia um jornalista que se ria dele antes do jogo? É verdade que o estádio inteiro o aplaudiu no final? E os mais velhos, os que viram ouviram sobre essa noite, confirmam: “Sim, é verdade. Tudo é verdade, porque quando

tu és Pelé, a verdade é mais impressionante do que qualquer ficção. O futebol de hoje é diferente. Aar, há câmaras em todos os ângulos, a tecnologia que não existia nos anos 60 e 70.º Mal os jogadores são mais protegidos, os árbitros são mais vigiados, as polémicas são resolvidas de forma mais precisa, mas algo se perdeu também.

 Aquela crueza, aquela intensidade, aquela sensação de que cada jogo era uma batalha, cada golo era uma conquista, cada vitória era uma redenção. O futebol da época de Pelé era assim: era mais duro, mais perigoso, mais imprevisível. E era exatamente por isto que os grandes eram realmente grandes, porque não bastava ter talento, era preciso ter coragem, era preciso aguentar pancada, era necessário manter a compostura quando o mundo inteiro estava contra si.

 Pelé tinha tudo isso e mais, tinha a capacidade de se reinventar, de se superar, de provar que, não importa o que os outros dissessem, podia sempre fazer mais. Naquela noite em Milão, provou que de forma definitiva, mas a história tem ainda mais pormenores que merecem ser contados. Durante a excursão de 1969, o Santos disputou outros 10 jogos para além do Milan e em todos eles, Pelé foi brilhante, mas nenhum teve a mesma carga emocional daquela noite.

 Dois dias depois do jogo em Milão, o Santos defrontou a Juventus em Turim. A imprensa italiana, ainda abalada pela goleada no Saniro, esperava que a A Juventus vingasse a derrota do Milan. Não foi o que aconteceu. O Santos venceu por 4-1 com dois golos de Pelé e dessa vez não houve vaias. Desde o início, a adeptos da Juventus aplaudiam cada jogada bonita da equipa brasileira.

 Depois do jogo, o treinador da Juventus, um homem chamado Armando Pique, deu uma declaração que virou manchete. Eu passei 30 anos no futebol como jogador, como técnico. Eu pensava que já tinha visto tudo, mas hoje vi o Pelé de perto pela primeira vez e percebi que não tinha visto nada. Ele é de outro nível, outro planeta, outro futebol.

Esta declaração resumia o sentimento de toda a Europa nessa excursão. Depois de Milão, já ninguém duvidava, ninguém mais ria. O Santos terminou a digressão com 11 vitórias em 11 jogos. Pelé marcou 23 golos. Era um domínio absoluto. E quando a equipa voltou pro Brasil, a recepção foi apoteótica. Mas Pelé não festejou muito porque ele sabia que o verdadeiro trabalho ainda estava para vir.

 O Campeonato do Mundo de 1970 era dali há 8 meses e ele tinha uma missão, conquistar o tricampeonato. Os meses de preparação foram intensos. A seleção brasileira reunia-se regularmente, treinava pesado, se preparava para o desafio que viria. Pelé era o líder natural do grupo, mas ele não liderava com gritos ou cobranças, liderava pelo exemplo.

 Era sempre o primeiro a chegar ao treino, o último a sair. Era sempre o que mais se dedicava, o que mais se esforçava. E quando os companheiros tinham dúvidas, quando o peso da expectativa parecia demasiado, Pelé estava lá para apoiar. Tostão, um dos grandes jogadores daquela seleção, contou uma história anos mais tarde.

Antes do Mundial de 70, tive um problema nos olhos, uma lesão que quase acabou com a minha carreira. Eu fiz uma cirurgia arriscada e não sabia se ia poder jogar. O Pelé ligou-me todos os dias durante a recuperação. Todos os dias. Perguntava como estava, se precisava de alguma coisa, se os médicos estavam otimistas.

Ele não tinha de fazer isso. Ele era o maior jogador do mundo com milhares de compromissos. Mas fazia questão de estar presente. Quando finalmente tive alta e voltei a treinar, o Pelé foi o primeiro a me receber. abraçou-me e disse: “Agora a gente vai ganhar esta taça junto”. E foi exatamente o que aconteceu.

Esta era a essência de Pelé. Não era só o talento, era o ser humano. Era a forma como tratava as pessoas ao redor, era a capacidade de fazer com que cada um se sentir importante. O Mundial de 70 foi o coroamento de tudo isto. Cada jogo era uma demonstração de futebol total. Cada golo era uma obra de arte, cada vitória era uma celebração.

 E quando acabou, quando a taça foi levantada, quando o O Brasil sagrou-se tricampeão, Pelé pôde finalmente descansar. Ele tinha respondido a todas as dúvidas, tinha calado todos os críticos, tinha provado que era, sem sombra de dúvida, o maior jogador da história. A Marco Benedetti assistiu à final de 70 pela televisão em Itália.

 Quando o jogo terminou, escreveu uma nota no caderno dele. Pelé conquistou o mundo de novo e eu, que uma vez duvidei dele, só posso aplaudir. Esta nota foi encontrada entre os pertences de Benedet depois da morte dele. A família doou-a ao Museu do Futebol Italiano juntamente com a camisola autografada. E assim as histórias se ligam.

 Uma conferência de imprensa em Milão. Uma gargalhada debochada. Uma promessa de vingança, cinco golos numa noite. Uma amizade improvável, um tricampeonato mundial. Tudo ligado, tudo parte da mesma história. A história do maior jogador que já existiu. Se chegou até aqui, se esta história te tocou, deixa um comentário a contar.

 Você lembra-se daquela excursão de 69? Você lembra-se dos jogos dos Santos pela Europa? Lembra-se de onde estava quando o O Brasil ganhou o Mundial de 70? Conta para gente. Divide essas memórias, porque histórias como esta precisam de ser contadas e recontadas, passadas de geração em geração.

 E se ainda não está inscrito no canal, subscreve. Aqui a gente conta as histórias que importam. As histórias de um tempo em que o futebol era mais do que negócio, era paixão, era vida, era tudo. Subscreve se és fã do Pelé. Inscreve-te se acreditas que o futebol antigo tinha algo especial. Se inscreve se quer continuar a ouvir essas histórias.

 Pelé não era apenas um jogador, era um símbolo. Era a prova de que um rapaz pobre do interior do Brasil podia tornar-se o maior do mundo. Era a prova de que o talento, o trabalho e a dignidade podiam ultrapassar qualquer obstáculo. E mais do do que isso, era a prova de que a melhor resposta aos críticos não são palavras, são ações.

Nessa noite, em Milão, Pelé deu uma aula que vai para além do futebol. Uma aula sobre como enfrentar as adversidades, sobre como transformar a dor em motivação, sobre como responder à altura. E 50 anos depois, esta aula ainda é válida. A próxima vez que alguém se rir de você, lembra-se de Pelé.

 Lembra-se dos cinco golos? Recorda o silêncio que tomou conta do Saniro quando o maior jogador do mundo mostrou quem era e dá a sua resposta no campo, na vida, no que quer que faça, porque é assim que os grandes respondem e é assim que se também pode responder. Até à próxima história.