Como um Dono de Lava-Jato de Recife eliminou 4 assaltantes do CV, era Sniper do Exército em 2010

23 de agosto, 19h42. Quatro homens entraram no lava-jato da rua da Aurora, no Recife. Nenhum deles imaginou que sairia dali dentro de um saco de plástico preto. O estabelecimento fechava em 18 minutos. As luzes amareladas do poste na calçada já estavam acesas, refletindo-se nas poças de água e sabão que escorriam para o sarjeta.
Dois carros ainda esperavam na fila, um corça prata e um gol branco com o capô amolgado. O dono do lugar se chamava-se Marcelo Santos, 41 anos, 1,78 m de altura, 83 kg. Usava sempre a mesma camisola azul com o nome do lava-jato bordado no peito. Trabalhava ali há 7 anos. Nunca causou problema, nunca chamou a atenção.
Ninguém no bairro sabia que em 2010 Marcelo Santos tinha outro nome, outra vida, outra função. Os quatro homens desceram de um voiagem cinzento com matrícula adulterada. Três deles tinham entre 20 e 25 anos. O quarto era mais velho, talvez 38, com uma cicatriz grossa atravessando a sobrancelha esquerda.
Todos usavam bonés e t-shirts largas. Dois transportavam mochilas. O mais velho entrou primeiro. Os outros ficaram do lado de fora a observar a rua. Marcelo estava agachado ao lado do Corça, verificando a pressão dos pneus. Quando ouviu os passos, levantou-se sem pressa, limpou as mãos num pano velho que estava pendurado no cinto.
O homem da cicatriz parou a 3 m de distância, não disse nada durante alguns segundos, apenas observou. Avaliou. Marcelo manteve o olhar neutro. Esperou. Você é o dono? Sou. Quanto fatura por dia aqui? Marcelo inclinou a cabeça ligeiramente, um gesto quase imperceptível, como se estivesse a calcular algo que já sabia de cor. Depende do dia.
R$ 500, R$ 600. O homem sorriu. Não era um sorriso amigável? Mentira. Faturas no mínimo 10000. Já estamos de olho há duas semanas. Marcelo não respondeu. Os seus olhos se moveram-se rapidamente. Varreu o ambiente em menos de 2 segundos. posições, distâncias, saídas, obstáculos, ângulos de tiro.
Depois voltou a olhar para o homem. O que é que vocês querem? Proteção. Paga 400 por semana. Ninguém te incomoda. Ninguém parte nada. Ninguém assalta os seus clientes. O proprietário do Corsa e o dono do Gol tinham deixado de mexer nos telemóveis. Estavam a prestar atenção agora. Marcelo percebeu a tensão a mudar no ar. Já se não quiser pagar.
O homem da cicatriz deu um passo em frente, levantou a camisola apenas o suficiente para mostrar o cabo de uma pistola preta enfiada na cintura. Então vai acontecer o que aconteceu ao mercadinho da rua do sossego. Sabe qual, né? Aquele que pegou fogo na semana passada. Marcelo conhecia, toda a gente no bairro conhecia.
O dono tinha-se recusado a pagar. Três dias depois, alguém deitou gasolina na entrada e acendeu um fósforo às 4 da manhã. O prejuízo passou os 50.000. 400 por semana, repetiu o homem. Toda sexta-feira. Se atrasar, os juros são altos. Marcelo cruzou os braços. Seus músculos estavam relaxados, completamente relaxados.
Apenas alguém com formação específica reconheceria isto como um sinal de alerta. Eu preciso pensar. Não tenho nada que pensar. Amanhã eu volto. Dás-me a primeira parcela ou parto tudo aqui à frente dos os seus clientes. Simples assim. Os três homens lá fora riram-se. Um deles cuspiu no chão.
Outro mexeu no telemóvel gravando vídeo do estabelecimento. O homem da cicatriz virou-se para sair. Antes de chegar à porta, parou e olhou para trás. Ah, e só para saberes, nós representa o comando aqui na região. Se se pensar em chamar a polícia ou falar com alguém, vai ser pior. Muito pior. Eles saíram. O Voyage arrancou com o som no último volume.
Batida pesada, graves, a rebentar. O dono do Corsa saiu do carro nervoso. Pá, vais pagar? Marcelo não respondeu de imediato. Estava a olhar para a rua, para a direção que o carro tinha seguido, calculando rotas, possíveis bases, padrões de movimento. Não sei ainda, mano. Estes gajos não brincam.
Queimaram o mercadinho, espancaram o dono da farmácia. Se você não pagar, vão voltar com mais gente. Marcelo assentiu lentamente, pegou no mangueira e começou a enxaguar o corço. Os seus movimentos eram precisos, sempre na mesma sequência, sempre com a mesma pressão na água, mecânico, como alguém que tinha feito aquilo 10.
000 vezes, mas não estava a pensar em lavar carros, estava a pensar noutras coisas, distâncias, ângulos, tempo de reação, padrões de cobertura. O dono do Gol pagou e saiu rapidamente. Não queria estar ali quando os criminosos regressassem. O dono do Corsa ficou mais uns minutos tentando convencer Marcelo a pagar. R$ 400 por semana é melhor que perder tudo, cara. Faz as contas. Eu já fiz.
O cliente desistiu, entrou no carro e foi embora. Marcelo ficou sozinho, fechou o portão de metal, trancou com um cadeado, apagou as luzes exteriores. Antes de entrar no pequeno escritório das traseiras, olhou mais uma vez para a rua. Silêncio. Apenas o som longínquo das motos e da música alta vinda de algum bar próximo.
Ele entrou no escritório. Era um quarto de 3 m por4, uma mesa velha, duas cadeiras avariadas, um armário de ferro enferrujado. Na parede, um calendário de 2023 que ninguém tinha virado desde junho. Marcelo sentou-se, ficou ali imóvel durante quase 10 minutos, não mexeu no telemóvel, não acendeu a televisão, apenas ficou ali a pensar.
Então se levantou-se, foi até ao armário, abriu a porta de baixo, empurrou algumas caixas de cartão para o lado, pressionou uma tábua solta no fundo. A tábua moveu-se, revelou um espaço escondido. Dentro havia uma caixa de metal. Marcelo a pegou nele, colocou-o sobre a mesa, abriu com uma chave que trazia no bolso.
Dentro da caixa tinha um passaporte antigo, um documento militar desbotado, três medalhas enroladas em pano preto e fotografias, muitas fotografias. Homens em fardamento, equipamentos táticos, cenários áridos com edifícios destruídos. Marcelo aparecia em algumas, mais jovem, mais magro, com o olhar mais duro.
Numa das fotos, estava deitado no chão atrás de uma espingarda longa com mira telescópica. Ao lado, outro soldado segurava uns binóculos. Atrás deles, uma bandeira brasileira tremulava num mastro improvisado. Haiti, 2010. Missão de paz da ONU. Mas Marcelo não estava ali para manter a paz.
estava lá para eliminar ameaças antes que se tornassem problemas. Tinha feito 47 disparos confirmados durante 18 meses de missão, 47 alvos neutralizados, distâncias entre 200 e 860 m, condições variadas: vento, chuva, movimento de civis, interferência urbana. Zero erros, zero baixas colaterais. Quando regressou ao Brasil em 2012, recebeu honras, elogios, promoção e a sugestão velada de que talvez fosse melhor ele encontrar outra ocupação.
Os snipers de elite não se reformam bem. A taxa de suicídio era demasiado elevada, o trauma demasiado profundo. Marcelo aceitou a baixa, recebeu a indemnização, desapareceu, mudou de cidade, mudou de nome nos documentos informais, abriu o Lava-Jato com dinheiro emprestado por um primo. Viveu 7 anos em paz até àquela noite.
Olhou para as fotografias por mais alguns minutos, depois guardou-as de volta, fechou a caixa, recolocou-a no esconderijo, ajeitou a tábua. Antes de sair, abriu a gaveta da secretária. Dentro tinha um revólver calibre 38, cinco balas no tambor. Registo legal comprado Há 3 anos para defesa do estabelecimento.
Ele pegou na arma, verificou as balas, guardou-as no cos da calças, coberto pela camisa. Não era a arma que ele queria, mas era a arma que tinha. Saiu pela porta das traseiras, trancou tudo, andou três quarteirões até um velho prédio de seis andares, subiu até ao terceiro, entrou num apartamento pequeno, um quarto, uma sala, cozinha americana.
Nas paredes nada, nenhuma foto, nenhum quadro, nenhuma decoração, apenas um sofá surrado, uma televisão antiga e uma estante com 12 livros, todos sobre história militar. Marcelo tomou banho, comeu um prato de arroz com ovo, deitou-se na cama, não conseguiu dormir, ficou a olhar para o teto, calculando possibilidades. Se pagasse, teria de pagar para sempre.
400 por semana, 1600 por mês, 19.200 por ano, sem fim. Se não pagasse, voltariam e não volariam sozinhos. Existia uma terceira opção, mas era uma opção que tinha jurado nunca mais considerar. Às 5h30 da manhã, levantou-se, fez café, vestiu a mesma roupa do dia anterior, desceu, caminhou até ao lavagem de carros, abriu o portão às 6 horas, ligou as máquinas, começou a trabalhar.
O primeiro cliente chegou às 6h15, um táxi velho que precisava de lavagem completa. Marcelo trabalhou em silêncio. O taxista tentou meter conversa sobre os equipas de futebol. Marcelo respondeu com monossílabus. Às 9 da manhã, sete carros já tinham passado. O movimento estava normal, nada fora do comum, até que o voia de cinzento apareceu de novo.
Desta vez, vieram cinco homens, o da cicatriz e quatro outros. Dois deles não estavam no dia anterior. Eram maiores, mais velhos. tinham tatuagens nos braços e no pescoço. Um deles tinha uma corrente grossa de ouro. Marcelo estava a lavar um palá vermelho. Quando viu o carro, não parou. Continuou a trabalhar, enxaguando o capô com movimentos circulares precisos.
Os cinco desceram, caminharam em formação, o da cicatriz à frente, o outros dois passos atrás. E aí, já pensou? Marcelo desligou a mangueira, enrolou-se com calma, pendurou-se no suporte. Pensei e não vou pagar. O silêncio durou 3 segundos. Depois o homem da cicatriz riu-se. Os outros riram juntos, mas era uma gargalhada forçada, calculada.
Estás de brincadeira, né? Não. O homem com a corrente de ouro deu um passo à frente. Era o maior do grupo, quase 1,90 m, 100 kg, braços grossos, mãos grandes. Escuta aqui, velho. Você não entendeu como as coisas funcionam. Não é pedido, é ordem. Marcelo não se mexeu. As suas mãos estavam ao lado do corpo, relaxadas, os pés ligeiramente afastados, peso distribuído.
Eu percebi, mas a resposta continua sendo não. O homem da corrente olhou para o da cicatriz, aguardando permissão. O da cicatriz acenou com a cabeça. O grandão avançou rápido, mas previsível. Tentou agarrar Marcelo pela camisola. O que aconteceu a seguir durou menos de 4 segundos.
Marcelo deu um passo para o lado. O movimento foi mínimo, mas suficiente. O homem passou direto. Marcelo rodou a anca, usou o impulso do próprio atacante e, com a palma da mão aberta acertou um golpe seco na lateral do pescoço. O grandalhão tropeçou, caiu de joelhos, levou a mão ao pescoço, tentando respirar. Os outros quatro paralisaram. Não esperavam aquilo.
Marcelo voltou à posição original. como se nada tivesse acontecido. Saiam daqui. O homem da cicatriz levou a mão para trás das costas. Ia levantar a arma, mas Marcelo já estava dois passos mais perto, a mão direita dentro do camisa sobre o punho do revólver. Não faça isso. O tom era diferente. Agora não era ameaça, era constatação.
Frio, preciso. O homem hesitou. Algo no olhar de Marcelo fê-lo parar. Não era medo, não era raiva, era vazio. O tipo de vazio que vem de quem já matou antes, muitas vezes. E não tem problema em matar de novo. Não sabe com quem tá mexendo, disse o da cicatriz. Mas a voz saiu menos firme do que ele desejava. Sei exatamente com quem me estou a meter, vocês que não sabem.
O grandalhão finalmente conseguiu levantar-se. Estava vermelho, suando de raiva, mas o da cicatriz fez um gesto para que não atacasse de novo. Isto não vai ficar assim. Eu sei. Os cinco entraram no Voyage, mas antes de ligar o carro, o da cicatriz abriu a janela. Amanhã voltamos com mais gente e aí vai pagar tudo o que está a dever, mais os juros e mais uma taxa extra pelo que fizeste com o meu homem.
Prepara R$ 10.000. Eles saíram. Marcelo ficou ali parado, a ver o carro desaparecer na esquina. Dois clientes que tinham assistido a todos os saíram a correr. Não quiseram pagar, apenas entraram nos carros e aceleraram. Marcelo fechou o lava-Jato. Meioia: 15, muito cedo, mas precisava de tempo. Voltou para o apartamento, sentou-se no sofá, pegou no telemóvel, marcou um número que não usava há 4 anos, tocou seis vezes.
Depois uma voz masculina, rouca, cansada. Olá, Ribeiro. Sou eu, Marcelo. Pausa comprida do outro lado. Santos. Caralho, mano. Pensei que tivesse morrido quase. Escuta, preciso de informação. Sobre o Comando Vermelho, operação em Recife, quem controla a região da Aurora. Porra, Santos, estás metido em quê? Só me diz. Ribeiro suspirou. Marcelo ouviu o som de teclas de computador.
A região de vocês é controlado por uma célula ligada ao pessoal de Jaboatão. O líder local é um rapaz chamado Fabrício Vulgo Cicatriz. Tem cadastro sujo desde os 15. Já matou pelo menos seis pessoas. Três delas por dívida de proteção. Perigoso para caralho. Quantos homens tem? Direto uns 10, 12, mas se precisar consegue mais 20 em 2 horas.
Porquê Santos? O que fez? Nada ainda. Obrigado, Ribeiro. Desligou antes que o amigo pudesse perguntar mais. Ficou sentado pensando: 10 a 12 homens diretos, mais 20 de reforço, se necessário, armados, organizados, dispostos a matar contra ele, sozinho, com um revólver de cinco tiros. As probabilidades não eram boas, mas Marcelo já tinha enfrentado chances piores no Haiti, em 2010, ele e mais três soldados tinham sido cercados por quase 40 milicianos armados.
Ficaram entrincheirados num edifício durante 8 horas. Marcelo neutralizou 17 alvos, salvou a vida dos companheiros, recebeu uma medalha por isso, mas isso foi há 15 anos. Ele estava mais novo, mais rápido, mais preparado. Agora tinha 41 anos, estava fora de forma, não disparava há 7 anos. Será que ainda conseguia? Ele se levantou-se, foi até à casa de banho, olhou no espelho, viu um homem cansado, rugas ao redor dos olhos, alguns fios brancos no cabelo, barriga pequena começando a aparecer, mas quando olhou para os próprios
olhos, viu outra coisa. viu o sniper, o homem que tinha morto 47 pessoas sem hesitar, o homem que tinha adormecido em trincheiras, que tinha comido ração fria, que tinha estado imóvel durante 12 horas à espera que o alvo apareça. Esse homem ainda lá estava, apenas adormecido. Marcelo saiu do apartamento, caminhou até um ferro velho na periferia da cidade.
Conhecia o dono, um velho chamado Zé Carlos, que tinha servido no exército nos anos 80. Marcelo, há quanto tempo, rapaz. E aí, o seu Zé? Preciso de um favor. Fala, o Sr. ainda tem aqueles canos de metal que separou o mês passado? Tenho. Por quê? Preciso de dois, um de mais ou menos 1 m e outro de 20 cm. Os mais direitos que tiver.
O Zé Carlos olhou-o com desconfiança. Para quê, miúdo? Encanamento. Fugas no lava-jato. Sei. O velho não acreditou. mas também não perguntou mais. Foi até ao barracão, voltou com dois canos. Marcelo pagou, agradeceu, foi-se embora. Passou numa loja de ferramentas, comprou um berbequim, brocas, fita isoladora preta, quatro parafusos longos e uma lima metálica.
De regressa ao apartamento, trancou a porta, fechou as janelas, ligou a televisão no volume máximo, depois começou a trabalhar, fixou o cano longo numa morça improvisada. começou a limar as arestas internas, remover irregularidades, criar um tubo perfeitamente liso. Isto levou 3 horas.
Depois pegou no cano mais pequeno, fez dois furos precisos nas laterais, encaixou parafusos, criou um mecanismo de trava simples, pegou numa madeira velha que tinha no armário, cortou, lixou, moldou até ter uma coronha improvisada, juntou tudo, usou fita isolante para fixar as peças, testou o equilíbrio, ajustou, testou de novo. Às 22 horas tinha terminado.
Não era bonito, não era eficiente, mas era funcional. Um fuzil artesanal, calibre improvisado para aceitar munições de revólver, alcance efetivo de, no máximo, 50 m, precisão questionável, mas era melhor que nada. Marcelo desmontou a arma, guardou as peças numa mochila preta, colocou o revólver no cos da calças, vestiu um moletom escuro com capuz, saiu do apartamento às 23 horas, caminhou até ao lava-jato, não entrou, passou direto, seguiu mais dois quarteirões, virou à esquerda, subiu uma escadaria de betão que levava até um terreno
baldio. Do alto tinha uma visão completa da rua, do lava-carros, das entradas e saídas. Era o ponto perfeito. Marcelo se posicionou-se atrás de um muro baixo, montou a espingarda, ajustou a coronha no ombro, testou a mira, não tinha mira, teria de atirar com mira de ferro improvisada e depois esperou.
Uma hora passou, duas, três. Às 2h40 da manhã, o voia de cinzento apareceu, mas não estava sozinho. Tinha mais dois carros, um gol preto e um corço prateado. Nove homens ao todo, todos armados, pistolas. Um deles transportava uma espingarda. Marcelo observou, não se mexeu. Os homens desceram. O da cicatriz deu ordens.
Quatro foram até à porta do lava-jato. Tentaram arrombar. A porta era de metal reforçado. Não cedeu facilmente. Um deles tirou um pé de cabra do porta-bagagens, começou a forçar. Foi quando Marcelo percebeu o erro deles. Estavam todos concentrados na porta, de costas para o rua, sem ninguém a fazer segurança de perímetro. Erro básico, erro fatal.
Marcelo respirou fundo. Três inspirações longas. Quatro expirações controladas. Técnica antiga: acalmar os batimentos, estabilizar o corpo. Mirou. O primeiro alvo estava a 42 m de distância, de costas parado. Marcelo premiu o gatilho improvisado. O disparo ecoou. Seco, forte, o homem caiu. Os outros demoraram do segundos para processar. Tempo a mais.
Marcelo já estava a reposicionar. Segundo alvo, 45 m virado de lado. Segundo disparo. Segundo corpo no chão. Agora eles entenderam. Começaram a gritar, a procurar cobertura, mas estavam expostos no meio da rua, sem proteção adequada. Marcelo visou o terceiro, mas este se moveu-se rápido. Se atirou atrás do Voyage, o tiro falhou.
Acertou no vidro traseiro do carro. Estilhaços voaram. Os homens começaram a disparar de volta, mas não sabiam de onde vinham os disparos. Disparavam para todos os lados. Algumas balas atingiram postes, muros, janelas de casas. Marcelo baixou-se, esperou, contou até 10, voltou a levantar-se, procurou alvos, viu um homem a correr, tentando chegar à baliza preta, 53 m.
Terceiro disparo. O homem tropeçou, caiu, não se levantou mais. O da cicatriz estava a gritar ordens, mandando os outros recuarem, entrarem nos carros, saírem dali. Cinco homens entraram no voyage, dois na baliza, um ficou para trás. Marcelo não conseguiu ver qual. Os carros arrancaram. Pneus cantaram no asfalto.
Fumo, cheiro a borracha queimada. Marcelo observou até eles desaparecerem na esquina. Depois desceu do terreno rápido, desmontou a espingarda, guardou-a na mochila, começou a andar. Não correu, não chamou atenção, apenas caminhou, como qualquer pessoa que regressa a casa à tarde da noite.
As sirenes começaram a suar, distantes, mas aproximando. Marcelo virou numa rua transversal, depois em outra, mais outra. fez um caminho longo, indireto. Chegou ao apartamento às 3:15, entrou, trancou, foi direito ao casa de banho, lavou a cara, as mãos, tirou a roupa, colocou tudo num saco de plástico negro, sentou-se na cama, as mãos tremiam, não de medo, de adrenalina, do corpo reagindo ao que acabara de fazer.
Três homens mortos, talvez quatro, dependendo de onde acertou o primeiro tiro. por ele, por causa dele. Depois de sete anos sem disparar sobre ninguém, tinha voltado. Marcelo não sentiu remorsos, não sentiu culpa, sentiu apenas vazio, o mesmo vazio de sempre, o vazio de 2010, de 2011, de todas as vezes que tinha premido o gatilho e visto alguém cair, deitou-se, fechou os olhos e adormeceu.
acordou às 6 da manhã com o telemóvel tocando, número desconhecido. Atendeu sem dizer nada. Do outro lado, uma voz que não conhecia, grave, calma, perigosa. Matou três dos meus homens ontem. Marcelo não respondeu. Eu sei quem tu é. Sei onde vive, sei onde trabalha e sei que estás sozinho. Silêncio. Acha que resolveu alguma coisa? Acha que isso acabou? Eu sei que não acabou. A voz riu sem humor.
Pelo menos não é burro. Escuta bem, eu vou-te dar uma oportunidade, uma só. Você desaparece dessa cidade hoje, agora. Pega nas suas coisas e vai para bem longe. Se eu te vir de novo, se voltar, mato-o. E antes de matar, mato toda a gente que conhece, toda a gente que já falou, toda a gente que já viu a sua cara. Você não vai fazer isso.
Por que não? Porque eu sei quem tu és, Fabrício. Sei onde opera, sei quantos homens lhe tem. E sei que se realmente me quisesse matar, já teria vindo. Mas não veio, porque agora está com medo. Pausa longa. Medo de si? Não. De quem eu era, porque pesquisou, descobriu e agora sabe que eu não sou apenas um dono de Lava-Jato.
Mais silêncio. Depois a voz voltou. Mais baixa, mais controlada. Você era sniper. Haiti, 2010, 47 confirmados. Recebeu duas medalhas, baixa um rosa em 2012. desapareceu depois disso. Pensei que tivesse virado alcólatra ou se matado, como a maioria de vós. Desculpa desiludir. Não me assustas, velho.
Já matei gente mais perigosa do que tu. Duvido. A ligação caiu. Marcelo levantou-se, tomou banho, vestiu roupa lavada, foi até ao cozinha, fez café. Enquanto bebia, pensou nas opções. Podia fugir, apanhar o dinheiro que tinha guardado, ir para outra cidade, recomeçar ou podia ficar e terminar o que começou.
Sabia qual seria a escolha? Sempre soube. Às 7 horas, desceu, dirigiu-se ao Lava-Jato. A polícia ainda lá estava. Isolaram a área com fita amarela. Três corpos cobertos com lona preta, manchas de sangue no asfalto, peritos a trabalhar. Marcelo se aproximou-se, um polícia parou-o. Local isolado, não pode passar. Eu sou o proprietário desse Lava-Jato.
O polícia olhou para ele com mais atenção, chamou um investigador. O investigador era um homem de 50 anos, barriga grande, cara de cansado. O senhor é Marcelo Santos? Sou. Sabe o que aconteceu aqui? Vi nas notícias. Tiroteio. O senhor estava aqui na hora? Não. Encerra às 19 horas. Eu já estava em casa.
Alguém pode confirmar? Não, vivo sozinho. O investigador anotou tudo num caderno velho. Fez mais algumas perguntas. Marcelo respondeu com calma, sem mentir demais, sem falar demais. Vou precisar que o senhor vá à esquadra prestar hoje depoimento formal, se possível. Tudo bem. Marcelo passou o resto da manhã na esquadra, respondeu as mesmas perguntas três vezes para três pessoas diferentes.
Manteve a história consistente, simples. Liberaram-no às 14 horas, sem acusação, sem suspeita aparente. Voltou para casa, ligou a televisão. Os noticiários estavam cobrindo. Tiroteio faz três mortos em Recife. Polícia investiga possível guerra entre facções. Eles não mencionaram o Lava-Jato especificamente, apenas a região.
Bom, o Marcelo preparou comida, arroz, feijão, um bife pequeno, comeu devagar, sem pressa. Depois foi até ao armário, pegou na caixa de metal de novo, olhou para as fotos, as medalhas, o passaporte antigo. Lembrou-se de cada disparo, de cada alvo, de cada momento em que tinha de escolher apertar o gatilho ou não.
Nunca tinha hesitado, nunca tinha errado e não ia começar agora. Guardou tudo de volta, pegou no revólver, verificou as balas. Duas tinham sido usadas na noite anterior, improvisadas na espingarda. Sobravam três, não era suficiente. Precisava de mais munições, mais armas, mais tempo. Mas tempo era exatamente o que ele não tinha.
Às 18 horas, o telemóvel tocou de novo. Número desconhecido diferente. Não era o Fabrício desta vez. Era outra voz, mais nova, mais nervosa. Você tem uma hora para aparecer na rua 15, altura do número 208, sozinho, sem arma. Se não vier, queimamos o seu apartamento com você dentro. Como sabem onde eu moro? A gente sabe tudo, velho. Uma hora. Não se atrase. Marcelo desligou.
olhou pela janela, não viu ninguém vigiando, mas sabia que estavam ali. Pegou no revólver, guardou-o à cintura, vestiu o moletom escuro, saiu. Rua X ficava a sete quarteirões de distância, região comercial, lojas fechadas, pouca iluminação. Marcelo chegou às 19 horas em ponto.
Havia um barracão abandonado no número 208. Porta de ferro entreaberta, luz fraca vindo de dentro. Ele entrou. Seis homens esperavam-no, todos armados. Dois com pistolas, três com revólveres, um com uma faca grande. Ao centro, sentado numa cadeira velha, estava o Fabrício. A cicatriz na sobrancelha brilhava sob a luz amarela de uma lâmpada pendurada no teto.
Você veio? Que surpresa! Marcelo parou a 5 m de distância, mãos ao lado do corpo, postura relaxada. Você mandou chamar. Fabrício levantou-se, caminhou em redor de Marcelo, analisando, procurando fraquezas. Eu pesquisei sobre você. Li o seu dossier militar. Impressionante, 47 confirmados, zero erros, medalhas, honras e depois nada. desapareceu, tornou-se dono de Lava-Jato.
Por quê? Já não era a vida que eu queria, mas ontem, quando matou três dos meus homens, voltou a ser, não é? Vocês me forçaram. Fabrício riu-se, parou à frente de Marcelo, olhou-o diretamente nos olhos. Você pensa que é fodido, né? Acha que porque foi sniper pode meter bala em quem quiser? Não acho nada.
Eu sei o que posso fazer. O homem com a faca aproximou-se por trás. Marcelo sentiu a presença, calculou a distância, a velocidade necessário para reagir. Fabrício levantou a mão. O homem parou. Eu podia matar-te agora. Aqui mesmo? Fácil. Podia, mas não vai. Por quê? Porque você não é burro. Se me matar aqui, vira guerra. A polícia vai atrás de si.
Os seus rivais vão usar isso como desculpa para invadir o seu território e vai perder tudo. Fabrício ficou em silêncio durante alguns segundos, depois sorriu. Você é esperto, vou-te dar isso, mas esperto não basta. Ouve bem, tens 24 horas para sair do Recife. Se ficar, mato si e todos os que conhece. E não me interessa se vir a guerra ou não.
Eu prefiro morrer a matar-te do que deixá-lo vivo a desrespeitar-me. Entendido? Vai-se embora agora. Marcelo se virou-se, caminhou até à porta. Ninguém o impediu. Saiu do barracão. A rua estava vazia, silenciosa. Começou a andar devagar, sem olhar para trás. Quando dobrou a esquina, acelerou. Correu, não de medo, mas de urgência.
tinha 24 horas e sabia exatamente como o ia usar. Voltou ao apartamento, levou tudo o que precisava: A caixa de metal, roupa, documentos, dinheiro, a espingarda improvisado, desmontado, colocou tudo numa mochila grande. Depois fez algo que não o fazia há 7 anos. ligou para o exército, pediu para falar com o departamento de veteranos, explicou quem era, disse que precisava de ajuda urgente.
Transferiram a ligação três vezes, até que uma voz conhecida atendeu. Tenente-Coronel Barros. Coronel, sou o ex-sargento Marcelo Santos. Servimos juntos no Haiti. Pausa. Santos. Caramba, rapaz, há quanto tempo. O que aconteceu? Eu preciso de um favor urgente, vida ou morte? Fala. Eu estou numa situação com o Comando Vermelho aqui no Recife.
Matei três deles ontem. Agora tão a dar-me 24 horas para sair da cidade. Puta que pariu, Santos. Que merda fizeste? Defesa. Eles tentaram estorquir-me. Não aceitei. Vieram armados. Reagi. E quer o quê? Que eu mande tropas para te proteger? Não, apenas preciso de informação. Quem pode ajudar-me dentro da polícia aqui? Alguém fiável. Que não seja corrupto.
Barro suspirou. Marcelo ouviu papéis a serem mexidos. Tem um delegado na divisão de homicídios. Chama-se Renato Figueira, ex-militar também, capitão na reserva, sério, limpo. Fala com ele. Diz que eu indiquei. Obrigado, coronel Santos. Cuidado, estes tipos não brincam. Eu sei. Marcelo anotou o nome Renato Figueira. Esperou até às 22 horas.
Então ligou para a esquadra. Pediu para falar com o delegado. Disseram que ele não estava, insistiu. Disse que era urgente. Relacionado com os homicídios da noite anterior. Transferiram a chamada. Uma voz cansada atendeu-a. Delegado Figueira. Delegado. O meu nome é Marcelo Santos. O tenente coronel Barros me passou o seu contacto.
Barros, como ele tá? Bem, senhor, preciso de falar com o senhor pessoalmente. É sobre os três homicídios de ontem na rua da Aurora. Pausa longa. Tem informações? Tenho, mas não posso falar por telefone. Onde se quer encontrar? Cafetaria na Avenida Boa Viagem. Amanhã, 7 da manhã. Estarei lá. No dia seguinte, O Marcelo chegou primeiro, pediu café preto, sentou-se num canto de costas para o parede, vista completa da entrada.
Figueira chegou às 7:5, 50 e tal anos, cabelo grisalho, postura ereta, militar mesmo reformado. Sentou-se na frente de Marcelo. Fala. Marcelo contou tudo desde o início. A extorção, a recusa, o confronto, os disparos, a ligação de Fabrício. O prazo de 24 horas. Figueira ouviu em silêncio. Não interrompeu, não julgou.
Quando Marcelo terminou, o delegado bebeu o café, pensou, depois disse: “Tecnicamente foi legítima defesa. Eles invadiram, ameaçaram, reagiu, mas vai ser difícil de provar. Não tem testemunhas, não tem câmaras e tem três corpos. Eu sei. E mesmo que eu te proteja agora, daqui a um mês, dois, voltam a tentar. Você vai passar a vida a olhar para trás.
Também sei. Figueira cruzou os braços. Assim, o que quer? Tempo 48 horas para eu resolver isto do meu jeito. Do seu jeito significa o quê? Significa que depois de 48 horas, o Fabrício e a sua célula não vão ser mais problema. O delegado não perguntou como. Não queria saber. Eu posso dar-te 24.
Mais do que isso, o meu chefe vai começar a fazer perguntas. Suficiente? Figueira levantou-se. Santos, não faça besteira. Se matar pessoas inocentes, eu mesmo te prendo. Não vou matar ninguém que não mereça. O delegado foi-se embora. Marcelo ficou mais uns minutos, terminou o café, saiu, tinha agora um plano.
Passou o dia inteiro a observar, seguiu o Voyage cinzento, viu os locais que Fabrício frequentava, as pessoas com quem falava, os padrões de movimento. Descobriu que todas as noites, às 23 horas, o Fabrício ia a uma casa na periferia. Ficava lá uma hora. levava sempre apenas um homem consigo, sempre o mesmo. Era a brecha. Às 22:45, Marcelo estava posicionado num telhado a A 60 m da casa.
Espingarda improvisada montada, três balas no revólver como reserva. 23:12. O Voyage chegou. O Fabrício desceu. O outro homem ficou no carro. Marcelo apontou, respirou fundo, acalmou os batimentos. Esperou que Fabrício entrasse na casa, pelo que visou o motorista. Primeiro disparo. O vidro do carro estilhaçou. O homem caiu para o lado.
Marcelo recarregou improvisadamente. Ação manual. Demorado, mas funcional. Fabrício saiu a correr da casa. Arma na mão, procurando o atirador. Marcelo apontou, ajustou para a distância, para o movimento, para o vento ligeiro vindo da esquerda. Segundo disparo. Fabrício rodou, caiu. Marcelo esperou, observou. O homem não se levantou.
Desceu do telhado. Rápido, guardou o espingarda. Começou a andar. Sirenes ao longe, aproximando. Marcelo virou-se numa rua, depois outra. desapareceu, chegou ao apartamento, pegou na mochila que tinha preparado, saiu pela porta das traseiras, foi à rodoviária, comprou bilhete para São Paulo.
Primeira viagem da manhã, 6 horas. Esperou num canto escuro, sem dormir, apenas a observar. Às 5:50 embarcou, sentou-se na última fileira, janela. O autocarro saiu às 6:15. O Marcelo olhou pela janela. Vi o Recife a ficar para trás, as luzes, os edifícios, a vida que tinha construído, tudo perdido de novo, mas estava vivo, e os que o tinham tentado matar não estavam.
No fundo, era tudo o que importava. 7 anos a tentar ser outra pessoa, 7 anos a tentar esquecer o sniper. 7 anos de falsa paz. Até que os criminosos cometeram o erro, escolheram o alvo errado, subestimaram o homem comum, ignoraram os sinais, insistiram na violência e pagaram com a vida. Marcelo fechou os olhos, encostou a cabeça à janela e, pela primeira vez em semanas, dormiu sem sonhar.
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