“VOCÊ PODE SER MEU PAI?” FILHA DA FAXINEIRA FAZ PERGUNTA AO MILIONÁRIO — A RESPOSTA DELE MUDA TUDO 

Pode ser meu pai? A pergunta de Sofia ecoou na sala como um murro. Gustavo, sentado no sofá com um fato azul impecável, sentiu o ar faltar-lhe nos pulmões. A menina de 6 anos, t-shirt cor-de-rosa e calças de ganga, encarava-o com esperança pura. Atrás dela, Patrícia, a funcionária de farda preta e branca, ficou paralisada, o rosto pálido de susto.

 Aquela pergunta acabava de abrir uma porta para a qual ninguém estava preparado. O Gustavo não conseguiu responder imediatamente porque as palavras ficaram presas na garganta e Sofia continuava ali parada à espera enquanto ele tentava processar o que acabava de acontecer. E então a Patrícia moveu-se rapidamente, pegando na mão da filha com força e puxando-a para trás, enquanto dizia com voz trémula: “Sofia, desculpa, senor Gustavo, ela não sabe o que está falando. Vamos agora.

” E a menina resistiu um pouco, olhando para o homem de fato azul, com uma expressão que misturava confusão e tristeza, mas a Patrícia já estava arrastando-a em direção à porta. E Gustavo encontrou finalmente a sua voz e disse: “Espera”. E a palavra saiu mais elevado do que pretendia, fazendo as duas pararem no meio da sala.

 E Patrícia virou-lhe o rosto com os olhos arregalados, cheios de medo. E ele viu que ela tremia da cabeça aos pés e percebeu que ela pensava que ia ser despedida ali mesmo naquele instante. Gustavo respirou fundo, tentando controlar o turbilhão de emoções que explodia dentro do seu peito e disse com voz mais calma: “Não precisa de ir.

 Eu só quero perceber o que está acontecendo. E Patrícia baixou a cabeça, incapaz de olhar diretamente para ele. E Sofia aproveitou o momento de distração da mãe para se soltar e correr de volta para perto do sofá, parando a poucos centímetros de Gustavo e dizendo: “A minha mãe disse que tu és um homem bom e que cuida das pessoas que aqui trabalham.

 E eu pensei que talvez pudesse cuidar de nós também. E a sinceridade brutal daquelas palavras atingiu Gustavo como um murro no estômago. Patrícia cobriu o rosto com as mãos e começou a chorar baixinho. E O Gustavo olhou para ela e depois para a menina e sentiu algo estranho a acontecer dentro dele, algo que não sentia há muito tempo.

 E ele disse: “Sofia, senta-te aqui ao meu lado.” E apontou para o espaço ao lado dele no sofá. E a menina obedeceu imediatamente, subindo para o sofá com dificuldade, porque era demasiado alto para as perninhas dela. E quando finalmente se conseguiu sentar, ela ficou a balançar os pés no ar, porque não chegavam ao chão.

 E Gustavo olhou para aquela criança e viu a roupa simples, o cabelo que necessitava de um corte, os sapatos velhos e gastos. E perguntou: “Porque é que quer que eu ser o seu pai?” E Sofia pensou por um momento antes de responder, como se estivesse a escolher as palavras com muito cuidado. E então disse: “Porque pareces triste igual eu e a minha mãe diz que as pessoas tristes precisam de outras pessoas tristes para ficarem menos tristes juntas”.

 E Gustavo sentiu o peito apertar de uma forma que não conseguia explicar e olhou para Patrícia, que ainda estava parada perto da porta. chorando em silêncio. E ele disse: “Patrícia, anda cá, por favor.” E ela hesitou, mas obedeceu, caminhando lentamente até ficar perto deles. E Gustavo podia ver que ela estava mortificada de vergonha e terror.

 E ele disse: “Senta-te!” E apontou para a poltrona ao lado do sofá. E ela sentou-se na borda como se estivesse pronta para sair a correr a qualquer momento. E o Gustavo olhou para ela e disse: “Há quanto tempo é que trabalha aqui?” E a Patrícia limpou as lágrimas com as costas da mão e respondeu com voz baixa: “T anos, senhor”.

 E o Gustavo assentiu e disse: “E em todos estes três anos, você sempre fez o seu trabalho na perfeição, sempre foi pontual, foi sempre educada e discreta.” E Patrícia apenas abanou a cabeça sem saber para onde aquilo estava indo. E Gustavo continuou: “Então, me explica porque é que hoje trouxeste o teu filha para o trabalho?” E Patrícia respirou fundo e disse: “Eu não tinha escolha, senhor.

 A escola dela está fechou hoje por causa de uma reforma no prédio e à minha irmã, que sempre cuida dela. Quando isso acontece, está doente e não tenho mais ninguém. E eu tentei ligar para avisar. Mas o senhor não atendeu o telefone e eu não podia faltar porque preciso do dinheiro. E pensei que podia deixá-la quietinha num canto e que o senhor nem ia perceber que ela estava aqui.

 E o Gustavo observou o desespero no rosto daquela mulher e percebeu que ela não tinha realmente outra opção. E ele disse: “Quantos anos tem, Patrícia?” E ela pareceu surpreendida com a pergunta, mas respondeu: “28, senhor”. E Gustavo fez as contas mentalmente e percebeu que devia ter tido a Sofia muito nova. E perguntou: “E o pai dela?” E A Patrícia baixou os olhos e disse: “Não está na nossa vida, senhor, nunca esteve”.

 E a resposta veio carregada de uma dor antiga que Gustavo conseguiu sentir mesmo sem ela ter de explicar mais nada. E a Sofia, que tinha ficado quietinha a ouvir a conversa, de repente disse: “O meu pai foi-se embora antes de eu nascer e a minha mãe diz que ele não era um homem bom, então é melhor assim”. E Gustavo olhou para a menina e viu que ela dizia aquilo com uma naturalidade assustadora, como se tivesse aceitado aquela realidade há muito tempo.

 E ele sentiu uma pontada de algo que poderia ser raiva ou tristeza, ou uma mistura das duas coisas e disse: “Isto deve ser difícil para si”. E Sofia deu de ombros e respondeu: “Tenho a minha mãe e ela é melhor do que 10 pais.” E Patrícia deixou escapar um soluço e tapou a boca com a mão, tentando se controlar.

 E o Gustavo percebeu que aquela mulher estava no limite das suas forças. E ficou em silêncio por um momento, observando as duas e pensando na sua própria vida e em como tinha tudo que o dinheiro podia comprar, mas nada que realmente importava. E ele vivia sozinho naquela mansão enorme com seis quartos e cinco casas de banho.

 e uma piscina que nunca utilizava, e um jardim que mal olhava. E acordava todas as manhãs e ia trabalhar e regressava todas as noites e comia sozinho e dormia sozinho. E nos fins de semana ficava sentado naquele mesmo sofá, a ver televisão, sem prestar atenção ao que passava no ecrã. E a sua vida tornara-se uma rotina vazia e sem sentido.

 E ele nem sabia mais quando isso tinha acontecido. E o Gustavo tinha 36 anos e tinha construiu um império no ramo imobiliário, começando do zero e trabalhando 16 horas por dia durante anos, até finalmente conseguir o sucesso que sempre quis. E agora tinha dinheiro suficiente para viver confortavelmente para o resto da vida, sem necessidade de trabalhar mais um único dia.

Mas continuava a trabalhar porque não sabia fazer outra coisa e porque parar significaria ter de encarar o vazio gigantesco que a sua vida se tinha tornado. E nunca tinha casado e nunca tinha tido filhos e dizia sempre que era porque não tinha tempo. Mas a verdade era que tinha medo de se aproximar das pessoas reais, porque todas as pessoas que amou na vida o deixaram de uma forma ou de outra.

 E a sua mãe tinha morrido quando ele tinha 15 anos de um cancro que os médicos descobriram tarde demais. e o seu pai tinha-se afundado no álcool depois disso e morreu três anos depois num acidente de carro que todos sabiam que não tinha sido exactamente um acidente. E O Gustavo tinha ficado sozinho no mundo aos 18 anos e tinha jurado a si próprio que nunca mais ia depender de ninguém e que nunca mais ia deixar que ninguém tivesse o poder de o magoar.

 E ele tinha cumprido essa promessa durante 18 anos, construindo muros altos em redor do coração dele, até que esses muros se tornaram uma prisão. E agora estava ali sentado, olhando para aquela menina de 6 anos, que tinha feito uma pergunta simples e sincera, e ele percebia que aqueles muros estavam a começar a rachar.

 O Gustavo olhou para a Sofia e viu que ela estava a observar um quadro na parede com curiosidade genuína e ele perguntou: “Gosta de pintura?” E ela olhou para ele e disse: “Não sei o que é isto.” E Gustavo apontou para o quadro e explicou: “Aquilo ali na parede é uma pintura, um tipo de arte”. E Sofia voltou a olhar para o quadro e disse: “É bonito, quem é que fez?” E Gustavo respondeu: “Um artista famoso de muito há tempo”.

 E a Sofia pensou por um momento e disse: “Deve ser bom fazer coisas bonitas assim”. E o Gustavo sorriu pela primeira vez desde que aquela conversa toda tinha começado e disse: “Sim, deve ser muito bom”. E então ele olhou para a Patrícia e disse: “Já almoçou?” E pareceu confusa com a mudança súbita de assunto e respondeu: “Não, senhor.

 Eu ia comer depois de terminar a limpeza”. E o Gustavo olhou para a Sofia e perguntou: “E você?” E a menina abanou a cabeça e disse: “Comi um pão com margarina antes de sair de casa.” E O Gustavo levantou-se do sofá e disse: “Vamos todos comer alguma coisa então”. E A Patrícia levantou-se rapidamente e disse: “Senhor, não posso. Preciso terminar o trabalho”.

 E o Gustavo disse: “O trabalho pode esperar, a comida não pode”. E caminhou em direção à cozinha, e as duas seguiram-no hesitantes, sem saber se deviam ou não. E na enorme cozinha, com bancadas de mármore branco e eletrodomésticos de última geração, Gustavo abriu a frigorífico e olhou para o conteúdo do mesmo e percebeu que não havia ali basicamente nada, para além de algumas coisas prontas que ele comprava no supermercado e nunca tinha tempo de comer.

 E ele disse: “Eu não sou muito bom a cozinhar, mas posso fazer sanduíches. Gostam de sanduíches?” E a Sofia disse animada: “Adoro sanduíches”. E Gustavo voltou a sorrir e começou a tirar coisas do frigorífico. E A Patrícia disse: “Senhor, deixa que eu faço”. E o Gustavo disse: “Hoje não. Hoje és minha convidada”. E Patrícia não soube o que dizer e ficou ali parada observando.

 Enquanto o patrão milionário dela fazia-lhe sandes e paraa e filha dela. E enquanto Gustavo trabalhava na preparação das sandes, Sofia subiu para um dos bancos altos da bancada e começou a fazer perguntas sobre tudo o que via na cozinha. E Gustavo respondia pacientemente, e a Patrícia observava aquela cena surreal. com uma mistura de incredulidade e alívio, e ela não conseguia perceber o que estava a acontecer, mas estava grata por não ter sido ainda despedida.

 E Gustavo terminou as sandes e colocou tudo em pratos bonitos, e serviu sumo de laranja em copos de vidro. E os três sentaram-se à mesa da cozinha e comeram em silêncio inicialmente. Mas depois a Sofia começou a falar sobre a escola e sobre as amigas dela e sobre o desenho que tinha feito na semana passada, que a professora tinha elogiado muito.

 E O Gustavo escutava tudo com atenção genuína e fazia perguntas. E Sofia respondia animada. E Patrícia observava tudo aquilo sem conseguir acreditar que estava a acontecer de verdade. E quando terminaram de comer, o Gustavo recolheu os loiça e colocou na pia. E Patrícia tentou levantar-se para lavar, mas ele disse: “Deixa isso para mais tarde.

” E então olhou para a Sofia e disse: “Queres ver uma coisa gira?” E a menina sentiu-a entusiasmada e O Gustavo disse: “Vem comigo”. E ele saiu da cozinha e as duas seguiram-no e ele as levou para uma divisão no segundo andar, que tinha a porta sempre fechada. E quando abriu a porta e acendeu a luz, Patrícia e Sofia ficaram boque abertas, porque aquele era um quarto infantil completo, com uma cama em formato de carro de corrida e prateleiras cheias de brinquedos e uma estante com livros e desenhos nas paredes e um tapete colorido no chão. E

tudo estava impecavelmente limpo, mas claramente nunca tinha sido usado. E A Sofia entrou devagar no quarto, como se estivesse a entrar num lugar mágico, e os seus olhos brilhavam de encantamento. E ela olhou para o Gustavo e perguntou: “De quem é este quarto?” E o Gustavo ficou em silêncio por um momento e depois disse: “Era para ser do meu filho”.

 E Patrícia olhou-o surpreendida e Gustavo continuou. Há 5 anos estava noivo. Íamos casar e ter filhos. E eu preparei este quarto para quando este acontecesse, comprei tudo o que achei que uma criança podia querer. E ele parou e respirou fundo e disse: “Mas três semanas antes do casamento, ela disse-me que tinha conhecido outra pessoa e que já não me amava e que tinha cometido um erro ao aceitar casar comigo e ela foi-se embora e nunca mais a vi de novo.

” E Patrícia tapou a boca com a mão chocada e o Gustavo disse: “Eu tranquei este quarto no dia em que ela se foi embora e nunca mais aqui entrei até agora. E A Sofia olhou para ele e disse: “Deves ter ficado muito triste”. E Gustavo assentiu e disse: “Sim, fiquei muito triste”. E Sofia aproximou-se dele e pegou-lhe na mão com as duas mãozinhas pequenas dela e disse: “Fico triste também às vezes, sobretudo quando vejo outras crianças com os pais.

E eu só tenho a minha mãe, mas a minha mãe diz que a tristeza passa se deixarmos ela passar”. E o Gustavo olhou para aquele menina de 6 anos que falava com uma sabedoria. que não combinava com a idade dela. E sentiu algo a quebrar dentro do peito dele, como se uma parede que tinha construído há anos estivesse a começar a rachar.

 E ele apertou a mão de Sofia gentilmente e disse: “A tua mãe é muito sábia”. E Sofia sorriu e disse: “Eu sei. Ela é a pessoa mais inteligente que conheço.” E então ela largou a mão dele e correu para a estante dos brinquedos e começou a olhar para tudo com fascínio. E o Gustavo olhou para a Patrícia e viu que ela estava com os olhos novamente cheios de lágrimas.

 E ele disse: “Desculpa, não queria deixá-lo desconfortável.” E ela abanou a cabeça e disse: “Não é isso, senhor. É que eu nunca imaginei que o senhor tivesse passado por algo do género. O senhor parece sempre tão forte e controlado.” E Gustavo deu uma gargalhada sem humor e disse: “Isto é só aparência. por dentro sou uma confusão igual a todo o mundo.

 E a Patrícia olhou para ele e pela primeira vez, desde que começou a trabalhar ali há três anos, ela realmente o via como um ser humano e não apenas como o patrão rico e distante. E ela percebeu que havia algo nele que ela nunca tinha notado antes, uma tristeza profunda nos olhos dele que espelhava a tristeza que ela havia no espelho todas as manhãs.

 E a Sofia pegou num ursinho de peluche da prateleira e abraçou-o com força e disse: “Posso brincar com ele?” E o Gustavo disse: “Pode brincar com o que quiseres”. E Sofia sentou-se no tapete e começou a brincar, fazendo vozes diferentes para o ursinho. E o Gustavo e a Patrícia ficaram parados na porta, observando.

 E a Patrícia disse baixinho: “Senhor, o senhor não precisa fazer isso. Eu sei que a Sofia falou aquela coisa sem pensar e vou falar com ela e explicar que não foi apropriado.” E Gustavo olhou para ela e disse: “Ela não disse nada de errado. Ela apenas disse o que sente. E a Patrícia disse, mas ela não pode estar a pedir para as pessoas serem o pai dela.

 Isto não é normal. E o Gustavo disse: “O que não é normal é uma criança de se anos ter de crescer sem pai, porque o pai dela decidiu que não queria essa responsabilidade. E Patrícia ficou em silêncio, porque não tinha o que responder a isso. E os minutos passaram, e a Sofia continuou a brincar. E Gustavo sentou-se na beira da cama em formato de carro e ficou a observar.

 E Patrícia sentou-se ao lado dele, mantendo uma respeitosa distância, e ela disse: “Eu preciso de contar uma coisa ao senhor”. E o Gustavo olhou para ela e disse: “Pode falar.” E Patrícia respirou fundo e disse: “Quando a Sofia nasceu, eu tinha 22 anos e estava sozinha e sem dinheiro e sem ajuda de ninguém.

 E pensei em dá-la para adoção, porque achei que não conseguiria criá-la sozinha. E Gustavo continuou a olhá-la em silêncio. E Patrícia continuou. Mas quando a colocaram nos meus braços pela primeira vez no hospital, eu Olhei para aquele pequeno rosto e soube que não o conseguiria fazer, que preferia morrer de fome do que deixá-la ir.

 E as lágrimas escorreram pelo seu rosto e ela disse: “E criei ela da forma que pude, trabalhando em três empregos diferentes durante anos até conseguir este emprego aqui que paga melhor e permite-me trabalhar só num lugar e ter mais tempo com ela.” E Gustavo disse: “És uma mãe incrível, Patrícia”. E ela abanou a cabeça e disse: “Não sei se sou.

 Só faço o melhor que posso, mas às vezes sinto que não é suficiente. E o Gustavo disse: “Olha para ela, olha como é feliz e inteligente e doce. Isto é tudo por sua causa.” E Patrícia olhou para a filha brincando no chão e sorriu através das lágrimas. E o Gustavo ficou a observar A Sofia brincar e percebeu que tinha uma imaginação incrível, porque estava criando histórias elaboradas com os brinquedos.

 e fazendo diálogos entre eles. E ele disse: “Ela é muito criativa.” E a Patrícia disse com orgulho: “Ela adora inventar histórias. Toda a noite antes de dormir ela faz-me contar uma história diferente. E se eu repetir alguma história que já contei antes, ela reclama.” E o Gustavo sorriu e disse: “Isso é um bom sinal.

 significa que ela é inteligente. E a Patrícia disse, a A sua professora diz que ela é uma das melhores alunas da turma. E Gustavo disse: “Deve estar muito orgulhosa.” E a Patrícia disse: “Estou. Ela é a razão de eu acordar todos os dias e continuar a lutar”. E Gustavo sentiu uma pontada de inveja, porque não tinha nada nem ninguém que fosse a sua razão acordar todos os dias.

 E ele olhou para Patrícia e pela primeira vez realmente a viu. Não como a funcionária que limpava sua casa, mas como uma mulher que tinha vivido uma vida inteira de lutas e sacrifícios e que ainda assim conseguia sorrir e ser amável. E ele percebeu que era bonita, de uma forma simples e natural, com o cabelo castanho apanhado em um carrapito baixo e olhos escuros que carregavam tanto cansaço como determinação.

E ela usava o uniforme de trabalho que nem sabia de onde tinha vindo porque nunca tinha prestado atenção a este tipo de detalhe. E agora perguntava-se quantas outras coisas tinha deixado passar despercebidas ao longo destes tr anos. E passado um tempo, Sofia começou a bocejar e a esfregar os olhos. E Patrícia disse: “Acho que está na altura de irmos embora, senhor.

 Eu já tomei muito do seu tempo.” E Gustavo olhou para o relógio e viu que já eram quase 3 da tarde. E ele disse: “Acabaste o trabalho?” E a Patrícia disse: “Ainda falta limpar o escritório e aspirar a sala.” E o Gustavo disse: “Deixa isso para amanhã.” E a Patrícia disse: “Mas, senhor”. E Gustavo interrompeu. Não é pedido, Patrícia, é ordem.

 Você vai para casa agora e vai descansar e amanhã termina o trabalho. E Patrícia não soube que dizer e apenas assentiu. E Sofia levantou-se do chão e foi ter com Gustavo e disse: “Obrigada por me deixares brincar”. E o Gustavo disse: “Podes vir brincar aqui sempre que quiser”. E a Sofia olhou para ele com os olhos arregalados e disse: “A sério?” E o Gustavo olhou para Patrícia, que parecia tão surpreendida quanto à filha, e ele disse: “A sério, na verdade, tenho uma proposta para fazer.” E a Patrícia disse: “Que proposta,

senhor?” E o Gustavo respirou fundo e disse: “A a partir de agora, pode trazer a Sofia consigo sempre que precisar. Ela pode ficar aqui a brincar enquanto você trabalha e eu posso ficar de olho nela.” E a Patrícia disse: “Senhor, não posso pedir isso.” E o Gustavo disse: “Tu não está a pedir, eu estou a oferecer.

” E A Patrícia disse: “Mas porquê?” E o Gustavo olhou para a Sofia e depois para Patrícia e disse: “Porque esta casa é demasiado grande para uma pessoa só e porque eu acho que todos nós nos podemos beneficiar de um pouco de companhia. E porque quando a sua filha me perguntou se podia ser pai dela, percebi que eu Quero ser alguém importante na vida de alguém novamente.

E a Patrícia ficou sem palavras, olhando para ele com uma expressão que misturava gratidão e descrença. E ela disse: “Eu não sei o que dizer, senhor.” E Gustavo disse: “Não precisa de dizer nada, só aceita”. E Patrícia olhou para Sofia, que estava praticamente a saltar de alegria, e ela disse: “Está bem, senhor, Eu aceito”.

 E a Sofia gritou: “A sério, mamã!” E a Patrícia assentiu. E a Sofia correu e abraçou as pernas de Gustavo com tanta força que quase perdeu o equilíbrio. E ela disse: “Obrigada, obrigada, obrigada”. E Gustavo sentiu algo quente a espalhar-se pelo peito dele e este colocou a mão no topo da cabeça de Sofia gentilmente e disse: “De nada, pequena”.

 E quando olhou para cima, viu que a Patrícia estava a chorar novamente, mas desta vez eram lágrimas de alívio e felicidade. E ele percebeu que tinha acabado de tomar uma decisão que ia mudar a vida de todos eles de formas que ele ainda nem conseguia imaginar completamente. E nos dias seguintes, a rotina da casa alterou-se completamente, porque a Sofia começou a ir com a mãe todos os dias.

 E enquanto Patrícia trabalhava, a menina ficava a brincar no quarto infantil ou fazendo desenhos na mesa da cozinha ou ajudando o Gustavo com pequenas tarefas que inventava só para a manter ocupada. E ele descobriu que gostava de a ter por perto, porque a presença dela trazia vida àquela casa que tinha sido silenciosa e vazia durante tanto tempo.

 E a Sofia fazia perguntas sobre tudo e contava histórias intermináveis ​​sobre a escola e as amigas. E o Gustavo escutava tudo com uma paciência que não sabia que tinha. E por vezes a Patrícia parava o que estava fazendo e observava-os conversando e sentia o coração apertar, porque via a filha dela tendo finalmente a atenção de uma figura masculina que era gentil e atenciosa.

 E ela começou a ver o Gustavo de uma forma diferente, não apenas como o patrão, mas como um homem solitário que estava tão carente de ligação humana quanto ela. E as semanas passaram e viraram meses, e a dinâmica entre os três aprofundou-se. E o Gustavo começou a chegar a casa mais cedo do trabalho, porque sabia que a Sofia estaria ali à espera para mostrar o desenho que tinha feito ou para contar sobre algo que tinha acontecido na escola.

 E ele começou a comprar livros infantis e a ler para ela antes de a Patrícia a levar embora. E às vezes convidava as duas para jantar e a Patrícia hesitava sempre, mas acabava por aceitar e eles comiam juntos na mesa grande da sala de jantar que Gustavo sempre tinha usado sozinho. E as conversas fluíam naturalmente, e O Gustavo descobria coisas sobre a Patrícia que o surpreendiam, como o facto de tinha estudado para ser professora, mas tinha abandonado a faculdade quando ficou grávida e nunca tinha conseguido voltar. E ela falava sobre isso com uma

tristeza resignada que fazia Gustavo querer encontrar uma forma de ajudar. E um dia perguntou: “Ainda queres ser professora?” E a Patrícia olhou para ele surpreendida e disse: “Nunca pensei sobre isso, Sr. Essa parte da minha vida ficou no passado.” E o Gustavo disse: “Mas se pudesse, gostaria de voltar a estudar?” E a Patrícia ficou em silêncio por um momento e depois disse: “Adorava, senhor, mas não é possível.

 Preciso trabalhar e cuidar da Sofia e não tenho tempo nem dinheiro para voltar à faculdade. E Gustavo assentiu, mas não disse mais nada sobre o assunto naquele momento. Porém, a ideia ficou-lhe plantada na cabeça e começou a pensar em formas de tornar aquilo possível. E, entretanto, a relação entre ele e Patrícia começou a mudar de uma forma subtil, mas significativa, e começou a notar pequenos detalhes sobre a mesma, como a forma como ela prendia o cabelo quando estava concentrada, ou como ela cantarolava baixinho enquanto limpava, ou como os seus olhos brilhavam quando ela

sorria. e percebeu que estava começando a sentir algo por ela, algo que ia para além da simpatia ou admiração. E isso assustou-o porque ele tinha passado tanto tempo a evitar ligações emocionais que já não sabia como lidar com estes sentimentos. E a Patrícia também estava mudando.

 E ela começou a sentir-se mais confortável na presença dele e, por vezes, dava por si a olhar para ele quando achava que não estava a prestar atenção. E ela via a bondade genuína nos gestos dele com Sofia e a solidão nos olhos dele quando achava que ninguém estava olhando. E ela começou a sentir uma atração que tentava ignorar, porque ele era o seu patrão e ela era apenas a funcionária e que nunca poderia dar certo.

 Mas quanto mais tempo passavam juntos, mais difícil se tornava negar o que estava a sentir. E depois chegou o aniversário da Sofia e da Patrícia tinha planeou fazer uma festinha simples em casa, apenas com algumas amigas da escola. Mas quando ela contou isto a Gustavo, ele disse: “Porque é que não faz a festa aqui?” E a Patrícia disse: “Senhor, eu não posso pedir isso.

” E o Gustavo disse: “Não está a pedir. Eu estou oferecendo. A casa tem espaço de sobra e posso contratar alguém para preparar tudo.” E Patrícia tentou protestar, mas A Sofia, que tinha ouvido a conversa, começou a implorar. “Por favor, mamã, por favor.” E a Patrícia olhou para os olhos suplicantes da filha e depois para Gustavo, que sorria de uma forma que fazia-lhe o coração acelerar.

 E ela disse: “Está bem.” E a Sofia gritou de alegria e abraçou os dois ao mesmo tempo. E o Gustavo começou a organizar tudo e contratou um buffet e decoradores. E comprou um presente caro demais que a Patrícia tentou recusar. Mas insistiu e no dia da festa, a casa estava cheia de crianças a correr e gritando e rindo.

 E o Gustavo descobriu que gostava daquela energia caótica. E ele ajudou a organizar jogos e servir bolo e tirar fotografias. E Patrícia observava tudo com lágrimas nos olhos, porque a sua filha nunca tinha tido uma festa assim. E quando a festa terminou, e todas as crianças foram embora e a Sofia estava exausta e feliz a dormir no sofá.

O Gustavo e a Patrícia ficaram sozinhos na sala, arrumando a confusão, e Patrícia disse: “Obrigada por tudo isto, senhor. Não imagina o quanto significa para mim e para ela.” E Gustavo parou o que estava a fazer e olhou para ela e disse: “Deixa de me chamar Senhor Patrícia. O meu nome é Gustavo.

” E ela olhou para ele surpreendida e disse: “Não posso fazer isso.” E ele perguntou: “Porquê?” E ela disse: “Porque o Senhor é meu patrão”. E Gustavo deu um passo em direção a ela e disse: “E se eu não quiser mais ser apenas o seu patrão?” E A Patrícia sentiu o coração acelerar e perguntou: “O que quer dizer?” E o Gustavo respirou fundo e disse: “Eu Quero dizer que nos últimos meses você e a Sofia tornaram-se as pessoas mais importantes na minha vida e não me consigo mais fingir que o que sinto por si é apenas respeito profissional”.

E a Patrícia ficou paralisada, olhando para ele, sem conseguir acreditar no que estava a ouvir. E ela disse com voz trémula: “Gustavo, sabes que isso não pode acontecer. Eu trabalho para você. Eu sou apenas a sua funcionária.” E o Gustavo abanou a cabeça e disse: “Nunca foste apenas minha funcionária, Patrícia.

 Desde o primeiro dia em que trouxeste a Sofia aqui, tu tornou-se muito mais do que isso. E ele deu mais um passo em direção a ela. E agora estavam tão pertos que Patrícia conseguia sentir o calor do corpo dele. E ela disse: “E se isto der errado? E se se cansar de mim? Eu vou perder o meu emprego e não vou ter como sustentar a minha filha.

” E o Gustavo disse: “Nunca me vou cansar de si, Patrícia, e isso não vai dar errado, porque pela primeira vez em anos, tenho a certeza de algo que estou sentindo.” E levantou a mão lentamente e tocou-lhe no rosto gentilmente. E A Patrícia fechou os olhos, sentindo as lágrimas escorrerem. E ela disse: “Eu tenho medo.

” E o Gustavo disse: “Eu também estou, mas tenho mais medo de deixá-lo ir embora, sem nunca saber o que poderíamos ter sido”. E então ele tornou-se inclinou-se e beijou-a suavemente, e A Patrícia sentiu como se o mundo inteiro tivesse parado de rodar. E ela retribuiu o beijo, colocando toda a emoção que tinha guardado durante meses.

 E quando finalmente se separaram, os dois estavam ofegante e Gustavo encostou a testa à dela e disse: “Fica comigo, Patrícia, tu e a Sofia. Vocês as duas pertencem a este lugar, pertencem comigo?” E a Patrícia abriu os olhos e olhou para ele e viu tanta sinceridade e vulnerabilidade naquele olhar que ela sentiu o coração derreter e ela disse: “Eu quero ficar, mas preciso de saber que isto é real, que não é apenas um impulso do momento.

” Gustavo segurou o rosto de Patrícia com as duas mãos e olhou para os olhos dela com uma intensidade que fazia com que o corpo dela todo tremer. E ele disse: “Isto é a coisa mais real que eu já senti em toda a minha vida, Patrícia. Eu passei anos a construir paredes ao meu redor para não sentir nada. E você e a Sofia derrubaram todas estas paredes sem sequer tentar.

 Vocês entraram na minha vida e mudaram tudo e eu não quero voltar a viver da forma que vivia antes. E Patrícia sentiu as lágrimas escorrerem mais. Rápido. E ela disse: “Eu também não quero voltar, mas tenho medo de acreditar que este pode dar certo. Eu já fui abandonada antes e não sei se conseguiria sobreviver se este voltasse a acontecer.

” E Gustavo puxou-a para um abraço apertado e disse: “Eu não Sou o pai da Sofia. Eu não sou os homens que conheceu antes. Eu sei o que é ser abandonado, Patrícia. Eu sei como dói, e eu nunca te faria isso. E ficaram ali abraçados por um longo tempo, até que a Sofia se mexeu no sofá e murmurou qualquer coisa, a dormir.

 E os dois se separaram, e o Gustavo disse: “É tarde. Vou chamar um carro para vos levar para casa.” E a Patrícia disse: “Obrigada”. E ele disse: “Pára de me agradecer. não precisa de me agradecer por nada. E ele pegou no telefone e chamou o carro. E enquanto esperavam, pegou na Sofia ao colo com cuidado para não acordá-la.

 E a menina instintivamente aconchegou-se no peito dele. E a Patrícia observou aquela cena e sentiu o coração apertar de uma forma boa, porque a sua filha estava tão em paz nos braços daquele homem. E quando o carro chegou, o Gustavo levou a Sofia até lá e colocou-a no banco de trás com delicadeza.

 E a Patrícia entrou ao lado da filha e Gustavo inclinou-se pela janela e disse: “Pensa no que eu disse, por favor.” E a Patrícia assentiu e disse: “Eu vou pensar.” E o carro arrancou e o Gustavo ficou parado no passeio, observando até as luzes do carro desaparecerem. E então voltou para dentro da casa vazia, que de repente parecia ainda mais vazia do que antes.

 E olhou em redor e percebeu que cada divisão estava cheia de recordações das últimas semanas e ele não conseguia mais imaginar aquela casa sem a presença de Patrícia e Sofia. E aquela noite não conseguiu dormir descansado, porque ficou a pensar em tudo o que tinha acontecido e no que tinha dito e no que aquilo significava para o seu futuro.

 E na manhã seguinte, quando Patrícia chegou para trabalhar, ela estava nervosa e evitou olhar diretamente para ele. E o Gustavo percebeu que ela também não tinha dormido porque tinha olheiras escuras sobre os olhos. E ele disse, “Precisamos de falar.” E ela disse: “Eu sei.” E sentaram-se na cozinha e ficaram em silêncio por um momento, até que Patrícia disse: “Pensei muito sobre o que disse ontem e quero tentar.

 Eu quero ver onde é que isso nos pode levar, mas preciso de ir devagar, porque Tenho a Sofia para pensar e não posso arriscar a estabilidade dela. E Gustavo assentiu e disse: “Percebo completamente e vamos a seu tempo. Não é preciso ter pressa.” E Patrícia sorriu pela primeira vez nessa manhã e disse: “Obrigada por compreender.” E Gustavo pegou-lhe na mão por cima da mesa e disse: “Vou provar-lhe que pode confiar em mim”.

 E ela apertou a mão dele e disse: “Eu acredito em você.” E a partir desse dia, a relação entre eles mudou oficialmente e eles começaram a passar ainda mais tempo juntos, mas sempre com cuidado e descrição, principalmente por causa da Sofia e Gustavo, começou a participar cada vez mais da vida das duas e ele ia ir buscar a Sofia à escola quando a Patrícia não podia e levava as duas a jantar em restaurantes bonitos e comprava presentes que a Patrícia dizia que eram demais, mas que Ela aceitava porque via a alegria que aquilo trazia à filha

dela e para o Gustavo também. E os meses passaram e a ligação entre eles só tornava-se mais forte. E o Gustavo percebeu que estava completamente apaixonado por Patrícia. E não era só atração física, era tudo nela. A forma como ela cuidava da filha com tanto amor e dedicação. A forma como ela trabalhava arduamente sem reclamar.

 E a forma como ela sorria quando pensava que ninguém estava olhando, a forma como ela via sempre o lado bom das coisas, mesmo quando a vida era difícil. E nunca tinha sentido nada parecido com aquilo antes. E uma noite depois de a Sofia ter ido dormir no quarto, que agora era praticamente dela, O Gustavo, e a Patrícia estavam sentados no sofá a conversar e ele disse: “Eu te amo, Patrícia”.

 E ela parou de falar e olhou para ele surpreendida. E ele continuou: “Eu sei que pode parecer cedo demais para dizer isso, mas eu não aguento mais guardar. Eu amo-te e amo a Sofia e quero que façam parte da a minha vida para sempre”. E Patrícia sentiu as lágrimas encherem-lhe os olhos e ela disse: “Eu também te amo, Gustavo. Eu tentei não me apaixonar por ti porque tinha medo, mas não consegui evitar. E beijaram-se.

 E desta vez o beijo foi diferente. Foi mais profundo, mais intenso, cheio de promessas. E quando se separaram, O Gustavo disse: “Eu quero que vocês se mudem para cá. Quero acordar todos os dias e ver-vos aqui. Quero que esta casa seja finalmente um lar de verdade.” E A Patrícia disse: “Tem a certeza? Isso é uma decisão muito grande”.

 E Gustavo disse: “Nunca tive tanta certeza de nada na minha vida”. E a Patrícia pensou por um momento e depois disse: “Eu preciso de falar com a Sofia primeiro. Ela precisa de estar confortável com isso.” E o Gustavo concordou. E no dia seguinte, A Patrícia sentou-se com a filha e explicou a situação.

 E a Sofia ouviu tudo com atenção. E quando a mãe acabou de falar, ela disse: “O Gustavo vai ser o meu pai a sério, então?” E Patrícia disse: “Se quiser que ele seja assim”. E a Sofia pensou por um segundo e disse: “Eu quero, mamã, eu quero muito”. E Patrícia abraçou a filha e disse: “Então vamos viver com ele?” E A Sofia gritou de felicidade e começou a saltar pela casa.

 E na semana seguinte mudaram-se e Gustavo contratou pessoas para ajudar na mudança. E quando tudo estava arrumado, olhou à volta e viu as coisas da Patrícia e Sofia espalhados pela casa e sentiu uma felicidade que não cabia no peito. E nessa noite jantaram juntos, os três, como uma verdadeira família. E Sofia tagarelava sem parar, animada com tudo.

 E Gustavo e Patrícia trocavam olhares apaixonados por cima da mesa e depois do jantar. Quando a Sofia foi dormir, os dois ficaram sentados no sofá abraçados e a Patrícia disse: “Obrigada por nos dar isso, por nos dar uma família”. E o Gustavo disse: “Obrigado por deixarem-me fazer parte da família de vós”. E os dias transformaram-se em semanas e as semanas em meses, e a vida dos pre se entrelaçou de uma forma tão natural que parecia que tinha sempre sido assim.

 E Gustavo oficializou a adoção de Sofia. E no dia em que o juiz bateu com o martelo e declarou que ela era legalmente sua filha, Sofia chorou de alegria e abraçou-o com tanta força que mal conseguia respirar. E A Patrícia também chorava, e o Gustavo chorava e todos os três choravam juntos naquela sala de audiências. E quando saíram de lá, Sofia segurava a mão de Gustavo de um lado e a mão de Patrícia do outro.

 E ela disse: “Agora tenho um verdadeiro pai e uma mãe.” E Gustavo ajoelhou-se à frente dela e disse: “E tenho uma filha de verdade e sou o homem mais sortudo do mundo por isso.” E A Sofia abraçou-o e disse: “Amo-te, papá.” E aquela foi a primeira vez que ela chamou-lhe assim. E o Gustavo sentiu como se o coração fosse explodir de felicidade.

 E ele disse: “Eu também te amo, minha filha”. E quando voltaram para casa, tinha uma surpresa, à espera porque o Gustavo tinha organizado uma pequena festa com alguns amigos e próximos e a irmã de Patrícia, que tinha recuperado da doença, e todos os celebraram juntos. E foi um dos dias mais felizes da vida do Gustavo. E algumas semanas depois, estava nervoso o dia inteiro e a Patrícia apercebeu-se, mas não disse nada.

 E quando a noite chegou e a Sofia estava a dormir, O Gustavo pediu à Patrícia para ir com ele até ao jardim e ela foi sem compreender o que estava a acontecer. E quando lá chegaram, ela viu que o jardim estava decorado com luzes e flores e tinha velas acesas por todo o lado. E ela tapou a boca com a mão surpreendida e O Gustavo pegou-lhe nas duas mãos e disse: “Patrícia, há um ano atrás eu era um homem vazio e solitário que não acreditava mais no amor e não acreditava mais em felicidade.

Eu vivia em piloto automático, só trabalhando e existindo, mas não vivendo de verdade. E depois apareceu na a minha vida com a Sofia e mudou absolutamente tudo. Você mostrou-me que eu ainda era capaz de sentir e de amar e de ser feliz. E já não consigo imaginar a minha vida sem vocês. E duas. E A Patrícia estava a chorar.

 E Gustavo soltou-lhe uma das mãos e tirou-lhe uma caixinha do bolso e ajoelhou-se e abriu a caixinha revelando um anel lindíssimo. E ele disse: “Patrícia, aceitas se casar comigo? Aceita-me fazer o homem mais feliz do mundo? aceita construir uma vida comigo para sempre?” E Patrícia não conseguia falar porque estava chorando muito.

 E ela apenas acenou com a cabeça freneticamente e conseguiu dizer: “Sim, sim, aceito”. E Gustavo colocou o anel no dedo dela e se levantou-se e beijou-a, e os dois ficaram ali abraçados, chorando e rindo ao mesmo tempo. E quando finalmente se separaram, Patrícia disse: “Nunca imaginei que pudesse ser tão feliz.

” E o Gustavo disse: “Eu também não”. E voltaram para para dentro e foram até ao quarto da Sofia e acordaram-na gentilmente. E quando ela abriu os olhos sonolenta, o Gustavo disse: “A tua mãe e eu temos uma novidade para você”. E a Sofia sentou-se na cama, esfregando os olhos, e disse: “Que novidade!”.

 E Patrícia mostrou a mão com o anel e disse: “O Gustavo pediu-me para casar com ele”. E eu disse: “Sim”. E A Sofia demorou alguns segundos para processar a informação e depois gritou: “Vocês vão casar a sério?” E os dois assentiram. E a Sofia saltou da cama e abraçou os dois e disse: “Isto é o melhor dia da minha vida”. E os três ficaram ali abraçados.

 E o Gustavo pensou em como a vida podia mudar completamente em tão pouco tempo e em como uma simples pergunta de uma criança tinha sido o início de tudo. E nos meses seguintes planearam o casamento e decidiram fazer algo pequeno e íntimo, só com as pessoas mais próximas. E a Sofia foi a daminha e estava linda com um vestido branco com detalhes em rosa.

 E quando Patrícia entrou na sala onde a cerimónia ia acontecer, usando um vestido simples, mas elegante, Gustavo sentiu as lágrimas encherem os olhos, porque ela estava radiante. E quando ela chegou perto dele e pegou-lhe na mão, o celebrante começou a cerimónia. E quando chegou a hora dos votos, Gustavo disse: “Patrícia, tu entrou na minha vida quando eu mais precisava e mostrou-me que ainda havia esperança e o amor no mundo.

 Você deu-me uma família e deu-me um propósito, e eu prometo passar o resto da minha vida a te fazendo-o feliz e cuidando de si e da a nossa filha”. E a Patrícia disse com a voz embargada: “Gustavo, apareceste na minha vida como um presente inesperado. Você acolheu-nos quando estávamos sozinhas e deu-nos segurança e amor.

Tornaste-te o pai que a minha filha sempre quis e o companheiro que eu sempre sonhei ter e prometo-te amar para sempre”. E quando o celebrante declarou-os marido e mulher e disse que Gustavo podia beijar a noiva, todos aplaudiram e a Sofia gritou: “Isto!” E todos riram. E depois da cerimónia houve uma pequena recepção.

 E todos comeram e dançaram e divertiram-se. E Gustavo dançou com a Patrícia e depois dançou com Sofia. E quando a música lenta tocou e rodopiava com a filha nos braços, ela disse: “Obrigada por seres meu pai”. E Gustavo disse: “Obrigado por me deixarem ser.” E Sofia encostou a cabeça ao peito dele e disse: “Achas que lá do céu há alguém a olhar para nós e ficando feliz?” E o Gustavo pensou nos pais dele, que tinha perdido tão cedo, e disse: “Eu acho que sim.

 Acho que a minha mãe e o meu pai estão a olhar e estão muito felizes de ver que finalmente encontrei a minha família.” E a Sofia disse: “Eu acho que o meu verdadeiro pai também está a olhar e está a ver que já não preciso dele, porque eu tenho-te agora”. E Gustavo apertou-a com mais força e disse: “Você haverá sempre eu, pequena, sempre.

” E quando a festa terminou e todos foram embora e a Sofia estivesse a dormir no quarto dela, o Gustavo e a Patrícia subiram para o quarto deles e ficaram deitados na cama, falando sobre tudo o que tinha acontecido e sobre como a vida tinha mudado. E a Patrícia disse: “Tu se lembras-te quando a Sofia te perguntou se podias ser o pai dela?” E o Gustavo disse: “Como poderia eu esquecer? Aquele foi o dia que mudou a minha vida.

” E Patrícia disse: “Ela contou-me depois que estava tão nervosa que quase não perguntou mais. Ela tinha visto como olhavas para mim e achavas que tu era amável. E o Gustavo sorriu e disse: “Ela foi sempre muito observadora”. E a Patrícia disse: “Ela sempre soube que eras especial desde o primeiro dia”. E o Gustavo disse: “Eu também soube que vocês eram especiais.

 Só levei um tempo para aceitar”. E ficaram em silêncio por um momento. E então a Patrícia disse: “O que acha de termos mais filhos?” E O Gustavo olhou para ela surpreendido e disse: “Quer ter mais filhos?” E ela disse: “Eu quero, quero que a Sofia ter irmãos e quero ter um filho teu”. E o Gustavo sentiu uma emoção enorme e disse: “Eu também quero isso”.

 E eles se beijaram e começaram a planear o futuro. E poucos meses depois, Patrícia descobriu que estava grávida. E quando ela contou ao Gustavo, ele apanhou-a no colo e rodopiou-a pela cozinha, rindo e chorando ao mesmo tempo. E quando contaram à Sofia, ela ficou animadíssima com a ideia de ser irmã mais velha.

 E os nove meses de gravidez passaram a voar, e o Gustavo estava presente em todas as consultas e comprou tudo o que o bebé ia precisar e transformou o outro quarto da casa num quarto de bebé. E quando finalmente chegou o dia do parto, estava mais nervoso do que a Patrícia e ele segurou a mão dela durante todo o trabalho de parto.

 E quando o bebé nasceu e o médico disse: “É um rapaz”. O Gustavo chorou de alegria e quando colocaram o bebé nos braços dele pela primeira vez, olhou para aquele rostinho pequeno e vermelho e se apaixonou-se instantaneamente. E ele disse: “Olá, filho. Eu sou o teu pai e prometo que te vou amar e cuidar de ti para sempre”.

 E Patrícia observava da cama exausta, mas feliz. E quando a Sofia entrou no quarto para conhecer o irmão, ficou encantada e disse: “Ele é tão pequeno”. E o Gustavo disse: “Tu também era assim quando nasceu”. E Sofia tocou a mãozinha do bebé com cuidado e disse: “Olá, irmãozinho. Eu sou a tua irmã mais velha e vou proteger-te sempre”.

 E O Gustavo olhou para a sua família e percebeu que tinha tudo o que sempre quis, mas nunca pensou que fosse e ter. E quando regressaram a casa com o bebé, a rotina mudou completamente, porque agora tinham um recém-nascido para cuidar e as as noites eram longas e cansativas. Mas O Gustavo não se importava, porque ele adorava acordar de madrugada e apanhar o filho a chorar e acalmá-lo e dar biberão e mudar fraldas e fazer todas as aquelas coisas que ele nunca tinha feito antes.

 E a Patrícia observava-o com o bebé e apaixonava-se por ele ainda mais. E a Sofia era uma irmã mais velha, incrível, sempre a querer ajudar e sempre preocupada com o irmãozinho. E os meses passaram e o bebé cresceu e começou a sorrir e a emitir sons. E O Gustavo registava tudo em fotos e vídeos porque não queria esquecer nenhum momento.

 E um dia estava sentado no jardim segurando o filho ao colo enquanto a Sofia brincava por perto e A Patrícia estava ao lado dele a ler um livro. E olhou em redor e pensou em como há 5 anos estava sozinho e miserável nessa mesma casa e agora estava rodeado de amor e de família. E ele disse em voz: “Alta, eu sou o homem mais sortudo do mundo.

” E Patrícia largou o livro e olhou para ele e disse: “Nós somos os sortudos por te ter”. E Sofia parou de brincar e correu para eles e se atirou-o para o colo de Gustavo com cuidado para não magoar o bebé e disse: “Grupo de abraço”. E todos se abraçaram e o bebé deu uma risadinha. E todos se riram também.

 E nesse momento, o Gustavo percebeu que aquilo era o que a felicidade de verdade significava. E mais alguns anos se passaram e a Sofia cresceu e entrou na adolescência. E o menino cresceu e começou a andar e a falar. E a casa estava sempre cheia de vida e barulho e amor. E o Gustavo tinha diminuído drasticamente as horas de trabalho porque queria passar o máximo de tempo possível com a família.

 E ele e Patrícia tinham conversas longas toda a noite depois de as crianças dormirem e falavam sobre tudo e nunca se cansavam-se de estar juntos. E um dia A Sofia, que tinha agora 13 anos, estava sentada com o Gustavo na varanda e ela disse: “Pai, posso perguntar-te uma coisa?” E ele disse: “Claro, pode perguntar qualquer coisa.

” E ela disse: “Lembras-te do dia que eu te perguntei-lhe se podia ser meu pai?” E O Gustavo sorriu e disse: “Como é que eu poderia esquecer?” E a Sofia disse: “Estava tão desesperada nesse dia. Eu via todas as as minhas amigas com os pais delas e eu só tinha a minha mãe e eu amava-a muito, mas sentia que faltava alguma coisa.

 E quando te vi pela primeira vez, eu não sei explicar, mas senti que o podia ser essa pessoa que faltava. E Gustavo sentiu os olhos encherem-se de lágrimas e disse: “E tinhas razão. Eu era a pessoa que faltava, assim como você e a sua mãe eram as pessoas que faltavam na minha vida.” E a Sofia disse: “Amo-te, pai.

 Obrigada por teres dito sim”. E Gustavo puxou-a para um abraço e disse: “Eu também te amo, filha, e obrigado por ter tido a coragem de fazer aquela pergunta”. E ficaram ali abraçados, observando o pôr do sol. E Gustavo pensou em como uma única pergunta inocente de uma criança tinha mudou completamente o rumo da sua vida e tinha-o transformado numa pessoa melhor e mais feliz.

 E ele percebeu que por vezes as maiores mudanças da vida vêm dos lugares mais inesperados e das formas mais simples, e que o amor de verdade não tem de ser complicado, só precisa de ser sincero. E quando a Patrícia saiu para a varanda com o filho ao colo e juntou-se a eles, Gustavo olhou para a sua família e disse: “Vocês são tudo para mim”.

 E Patrícia beijou o topo da cabeça dele e disse: “E tu és tudo para nós”.