“SENHOR… O SENHOR PODE CONSERTAR MEU BRINQUEDO? FOI O ÚLTIMO PRESENTE DO PAPAI.” 

Senhor, arranja o meu ursinho. Foi o último presente do papá. A menina estendeu o brinquedo rasgado. Gabriel parou. Fato impecável. Contrato de 8 milhões assinado. Aqueles olhos suplicantes mudaram tudo. Ele não sabia que aquele urso velho lhe salvaria a vida. Gabriel tirou fio ursinho das mãos dela. O tecido estava gasto, a costura do braço esquerdo completamente aberta, o enchimento a sair.

 Ele virou o brinquedo, à procura de alguma coisa que pudesse fazer ali mesmo à mesa de uma cafetaria barulhenta. Não havia nada. Ele não sabia costurar. Nunca tinha seguro uma agulha na vida. Mas aqueles olhos verdes da menina esperavam uma resposta que ele não conseguia dar. “Eu não sei consertar ursos”, disse. A voz saiu mais baixa do que pretendia.

“Mas eu conheço alguém que sabe.” Alice inclinou a cabeça. “Quem?” Gabriel hesitou. Não conhecia ninguém, mas não conseguia dizer não àquela criança. “Vou descobrir. Pode esperar um pouco?” Ela assentiu, sentou-se na cadeira ao lado dele, balançando as pernas que não chegavam ao chão. Gabriel olhou em redor.

 Ninguém parecia procurar uma criança, nenhum adulto desesperado, sem mãe a correr. “Onde está a tua mãe, Alice?” A menina apontou para a rua. Ela foi comprar medicamentos, disse para eu esperar aqui, mas eu vi o senhor e pensei que podia ajudar. Gabriel olhou pela janela. A farmácia ficava a três quarteirões dali. Ele não deveria estar envolvido nisso.

 Tinha uma reunião em 40 minutos, mas os seus dedos ainda seguravam o ursinho. “Como é que sabia que eu podia ajudar?” Alice encolheu os ombros. “O senhor parece com o meu papá. Ele usava fato também e arranjava sempre as coisas.” Gabriel sentiu algo apertar no peito. Ele não arranjava nada. Nos últimos dois anos, só tinha destruído.

 Afastou os amigos, ignorou a família, trabalhou até não sentir mais nada e agora estava sentado com uma criança desconhecida, segurando um urso rasgado, como se aquilo fosse a coisa mais importante do mundo. Como se chamava o seu pai? Alice sorriu. Vinícius. Ele era motorista de autocarro.

 A minha mãe disse que ele teve um acidente, que não doeu, que ele só dormiu. Gabriel fechou os olhos por um segundo. Marina tinha morrido num acidente também. Carro embateu de frente. Ela não sofreu, disseram os médicos. Mas sofreu todos os dias desde então. Sinto muito, Alice. Ela abanou a cabeça. Não precisa. Ele está no céu e um dia vou vê-lo de novo.

 A simplicidade daquilo magoou mais do que qualquer coisa. O Gabriel nunca acreditou no céu, nunca acreditou no reencontros. A Marina partiu e o mundo continuou a rodopiar, indiferente, cruel. Você acredita nisso? Alice olhou para -o com seriedade. A minha mãe disse que a gente sempre encontra quem ama, mesmo que demore.

Gabriel não respondeu. Olhou para o relógio. 35 minutos. Ele precisava de ir, mas não conseguia levantar-se. “Senhor, o senhor é casado?”, a pergunta pegou ele desprevenido. “Era?” Alice esperou. Ele continuou. A minha esposa morreu há dois anos. O senhor sente a falta dela? Gabriel engoliu em seco. Ninguém perguntava isso.

As pessoas evitavam o assunto, mudavam de conversa, apresentaram condolências vazias. Mas aquela menina de cinco ou se anos simplesmente perguntou: “Todos os dias.” Alice tocou-lhe na mão. A mão pequena, quente, viva. A minha mãe chora todos os dias. Ela pensa que eu não vejo, mas eu vejo. Chora na casa de banho e à noite quando pensa que eu estou a dormir.

Gabriel olhou para a menina. E você? Chora às vezes. Mas tento ser forte para não deixar a minha mãe mais triste. Sentiu os olhos arderem. Aquela criança carregava um peso que não deveria existir e ele estava ali afogado na própria dor, incapaz de ver o sofrimento em redor. Você é muito corajosa, Alice. Ela sorriu.

 O senhor também vai ser. Um dia, a porta da cafetaria se abriu. Uma mulher entrou correndo, cabelos apanhados num rabo de cavalo desalinhado, bolsa pendurada no ombro, saco de farmácia na mão. Ela procurou com os olhos até encontrar Alice. O rosto dela passou de pânico para alívio. Alice, eu disse-te para não sair da mesa. A menina levantou-se.

 Eu não saí, mamã. Eu só vim falar com o senhor. A mulher aproximou-se. Ela era jovem, talvez 30 anos, olhos cansados, roupas simples, mais limpas. Olhou para Gabriel com desconfiança. Desculpa, ela não devia ter incomodado. Gabriel levantou-se também. Não incomodou. Ela só pediu ajuda com o ursinho. A mulher olhou para o brinquedo que tinha na mão.

 Algo no rosto dela mudou. ficou mais suave, mais triste. Este urso o meu marido deu para ela uma semana antes de antes do acidente. O Gabriel estendeu o ursinho. Ela disse que quer arranjar, que foi o último presente dele. A mulher pegou no brinquedo, virou-se nas mãos. Eu não sei costurar direito.

 Tentei várias vezes, mas fica sempre pior. O Gabriel não pensou. As palavras saíram sozinhas. Posso tentar encontrar alguém, alguém que repare bem. Ela olhou para ele surpresa. O senhor não tem de fazer isso. Eu sei, mas eu quero. Houve silêncio. A mulher estudou-lhe o rosto como se tentasse perceber o motivo. Ela não ia encontrar porque nem ele sabia.

O meu nome é Beatriz”, disse finalmente. “E não posso pagar muito”. Gabriel abanou a cabeça. Não estou a pedir pagamento, só quero ajudar. Beatriz hesitou. A Alice puxou a mão da mãe. Mamã, ele é simpático, igual ao papá. Os olhos de Beatriz encheram-se de lágrimas. Ela piscou rapidamente, tentando esconder. Está bom.

 Se o senhor conseguir, eu agradeço. Gabriel pegou no telemóvel. Me dá o teu número, eu ligo quando tiver algo. A Beatriz ditou. Ele salvou como Beatriz ursinho. Soou estranho, mas fazia sentido. Vou ligar daqui a uns dias, disse. Beatriz agradeceu, pegou Alice pela mão e saiu. Antes de atravessar a porta, Alice virou-se e acenou. Gabriel acenou de volta.

 Ficou ali parado até desaparecerem na esquina. olhou para o relógio. 20 minutos perdeu a reunião. Não se importou, saiu da cafetaria e caminhou até ao escritório. Subiu os 15 andares de escadas, ignorando o elevador. Precisava de pensar, precisava compreender porque é que uma criança desconhecida tinha mexido tanto com ele.

 Chegou na sala dele, a secretária Patrícia olhou surpresa. Senr. Andrade, a reunião cancela, mas são 8 milhões. Eu disse para cancelar. Patrícia arregalou os olhos. Em três anos a trabalhar com ele, nunca tinha visto Gabriel cancelar uma reunião. Ele trancou a porta do escritório, sentou-se na cadeira, olhou pela janela.

 A cidade estendia-se ali em baixo, movimentada, indiferente. Ele pegou no telemóvel, pesquisou concerto de brinquedos São Paulo. Apareceram lojas, atelier, pessoas que faziam restauro. Anotou três endereços, mas não era só isso. Ele sabia. Não era só sobre o urso, era sobre a Alice, sobre a Beatriz, sobre a forma como aquela mulher olhou para ele quando disse que queria ajudar.

como há muito tempo que ninguém oferecia nada sem querer algo em troca. Gabriel passou o resto do dia a pesquisar. Ligou para sete lugares. Quatro não atenderam. Dois disseram que não trabalhavam com ursos velhos. Um aceitou. Era uma senhora proprietária de um atelier no bairro da Liberdade.

 Ela disse que conseguia reparar qualquer coisa. Ele marcou para o dia seguinte. Saiu do escritório às 8 da noite. Normalmente ficava até às 11, mas nesse dia não conseguia se concentrar. Foi para casa, apartamento vazio, silencioso. Ele vivia num lugar demasiado grande para uma só pessoa. Quatro quartos, sala enorme, varanda com vista para o parque.

A Marina tinha escolhido. Ela queria espaço para os filhos. Eles nunca tiveram. Ela morreu antes. Gabriel aqueceu uma comida congelada, comeu sem sentir o gosto, tomou banho, deitou-se, ficou olhando para o tecto, pensou em Alice, no forma como ela lhe tocou na mão, no jeito que disse que ele ia ser corajoso um dia.

 Pensou na Beatriz, no cansaço nos olhos dela, na forma como tentou esconder as lágrimas. Ele não dormiu nessa noite. Ficou a virar de um lado para o outro, olhando o relógio a cada meia hora. Às 3 da manhã, levantou-se, foi até ao sala, sentou-se no sofá. Aquele apartamento sempre foi demasiado silencioso. Marina costumava encher a casa de música.

 Ela cantava no duche, dançava na cozinha, ria alto. Depois de ela se ir, Gabriel desligou tudo. Não ligava a rádio, não via televisão, não ouvia nada. O silêncio era mais fácil, doía menos. Mas nessa noite o silêncio era pesado demais. Pegou no telemóvel, olhou para o número da Beatriz, quase ligou, mas eram 3 da manhã, guardou o telefone, ficou ali até o sol nascer.

No dia seguinte foi diretamente para o atelier. A senhora chamava-se dona Amélia. Tinha uns 70 anos, cabelo brancos presos num carrapito, mãos firmes. Ela pegou no ursinho, examinou-o com cuidado, passou os dedos pelas costuras, olhou para o enchimento, virou-se de todos os lados.

 É um trabalho delicado, mas dá para fazer. Quanto tempo? Três dias, talvez quatro. Gabriel assentiu. Quanto custa? A Dona Amélia pensou. 150. Tirou a carta, deu 300. O resto é pelo capricho. Ela sorriu. Pode deixar, vai ficar novo. O Gabriel saiu de lá mais leve. Três dias. Ele ia ligar para Beatriz em três dias. Voltou ao escritório, trabalhou, mas a cabeça estava noutro lugar.

 A Patrícia entrou na sala a meio da tarde. Senr. Andrade, o cliente de ontem quer remarcar. Remarca. Ele está irritado. Disse que foi desrespeito. Gabriel olhou para ela. Tive um compromisso importante. A Patrícia não disse nada. Mas Gabriel viu a surpresa no rosto dela. Ele nunca não tinha chamado nada de mais importante que trabalho.

 Os três dias passaram devagar. O Gabriel verificava o telemóvel toda hora. Não sabia porque estava tão ansioso. Era apenas um urso, mas não era. Ele sabia disso. No terceiro dia, a dona A Amélia ligou. Está pronto? O Gabriel saiu do escritório a meio da reunião, foi até ao atelier. A Dona Amélia entregou o Lurcinho. Ele estava perfeito.

 Costura invisível, peluche limpo. Até o nariz tinha sido refeito. Parecia novo, mas mantinha a essência do brinquedo velho. Ficou incrível. A Dona Amélia sorriu. Essa menina vai ficar feliz. O Gabriel pegou no urso com cuidado, agradeceu, foi direto para o carro, pegou no telemóvel, olhou para o número da Beatriz, respirou fundo, ligou, tocou quatro vezes, ela atendeu.

 Olá, Beatriz, é o Gabriel da cafetaria. Silêncio. Depois. Ah, oi. Eu consegui arranjar o ursinho. A voz dela mudou. Sério? Sério. Ficou novo. Eu? Uau, obrigada. Gabriel hesitou. Está em casa? Eu posso levar agora se puder. Beatriz deu o endereço. Colocou no GPS: 25 minutos. Bairro Simples, periferia da zona oriental. O Gabriel dirigiu.

 Não ligou o rádio, só pensou no que estava a fazer, por estava a fazer. Chegou a um prédio pequeno, cinco andares, pintura descascada. Estacionou, subiu às escadas, terceiro andar, apartamento 306. Tocou a campainha. A Beatriz abriu. Ela vestia calças de ganga e camiseta branca, cabelos soltos, sem maquilhagem. Olhos ainda cansados, mas com um brilho diferente.

 Oi! Oi! Gabriel estendeu o ursinho. Ela pegou nele, olhou com atenção, passou os dedos pela costura, apertou o braço que estava rasgado. Está perfeito. A senhora que o arranjou é muito boa. Beatriz olhou para ele. Quanto eu te devo? Nada. Não, preciso de pagar. Gabriel abanou a cabeça. Já está pago. Mas Beatriz, deixa-me fazer isso.

 Ela ficou em silêncio, depois acenou para dentro. Quer entrar? A Alice vai querer-te ver. O Gabriel ia dizer que não. Ia agradecer e ir embora, mas entrou. O apartamento era pequeno, sala e cozinha juntas, dois quartos, casa de banho, tudo arrumado, limpo, mais velho, sofá com capa, mesa de plástico, televisão pequena, tinha fotos na parede. Beatriz e um homem sorridente.

Alice, bebé ao colo dele, uma família feliz por já não existir. A Alice saiu a correr do quarto. Senhor Gabriel, ela parou à sua frente, sorrindo. Você consertou? Ele entregou o urso. Alice abraçou o brinquedo com força, apertou contra o peito, cheirou, passou a mão no peluche. Está igual a novo. Obrigada. Obrigada.

A Beatriz sorriu. Gabriel sentiu algo estranho no peito, algo que não sentia há muito tempo. A Beatriz ofereceu café. Ele aceitou. Sentaram-se à mesa. Alice ficou no sofá, abraçada ao urso, assistindo ao desenho. Não precisava de ter feito isso, A Beatriz disse. Gabriel deu um gole no café. Estava forte, quente.

 Eu sei, mas queria. Por quê? Ele olhou para ela. Olhos castanhos, diretos, honestos. Não sei. A Alice lembrou-me de algo que eu tinha esquecido. Do quê? que ainda há coisas boas, coisas simples. Beatriz baixou os olhos. Desculpa se ela incomodou. Ela é muito curiosa. Ela não incomodou. Ela ajudou-me. Beatriz olhou-o confusa.

 Gabriel continuou. Eu estava perdido. Ainda estou. Mas ela mostrou-me que ainda dá para fazer algo, mesmo que seja pequeno. A Beatriz não disse nada. só olhou para ele de um forma que fez Gabriel sentir que ela entendia. Eles ficaram a conversar sobre coisas pequenas, sobre a Alice, sobre o trabalho. A Beatriz era operadora de caixa de supermercado, trabalhava seis dias por semana.

 A mãe dela cuidava de Alice durante o dia. “É difícil sozinha”, admitiu, “mas a gente desenrasca-se”. Gabriel admirou aquilo, a força dela, a resiliência. Ele tinha dinheiro, conforto, mas não tinha nada parecido com o que ela tinha. A Alice está na escola. Beatriz assentiu. Está no primeiro ano. Ela adora.

 Diz que quer ser professora. Gabriel sorriu. Igual à mãe? Não, não sou professora, só caixa. Mas você ensina-a. Isso conta. Beatriz olhou-o surpreendida. Ninguém nunca tinha dito isso. Eu tento, mas é difícil. Eu trabalho o dia todo. Quando chego a casa, estou cansada. Às vezes sinto que não sou suficiente. O Gabriel entendeu aquilo.

 A sensação de não ser suficiente. Ele sentia todos os dias. Está a dar o seu melhor, isso é que importa. A Beatriz deu um pequeno sorriso. Obrigada. Eles continuaram a conversar sobre Vinícius, sobre como era. Beatriz contou que se conheceram no colegial. Namoraram 6 anos antes de casar. Era engraçado, carinhoso, trabalhador.

Sempre quis ser motorista de autocarro. Beatriz disse, desde criança. Dizia que gostava de levar as pessoas pros lugares, que era importante. Gabriel ouviu, tentou imaginar o homem que Beatriz descrevia. Um homem simples, feliz, satisfeito com a vida, tão diferente dele. E você? Beatriz perguntou.

 Como era a sua esposa? Gabriel hesitou. Fazia tempo que não falava sobre a Marina. Ela era intensa. Tudo nela era intenso. O jeito que ria, o jeito que amava, a forma como vivia, ela não não fazia nada pela metade. Vocês eram felizes? Éramos até não sermos mais. A Beatriz esperou. Gabriel continuou. Ela morreu ao regressar de uma festa.

 Eu estava a trabalhar como sempre. Ela ligou-me, disse que queria que eu fosse. Eu disse que não podia. Ela foi sozinha. Bateram no carro dela no regresso. A Beatriz tocou a mão dele. Não foi culpa sua. Gabriel olhou para a mão dela sobre a sua pequena, calejada, mas quente. Eu sei, mas não consigo parar de pensar.

 Se eu tivesse ido, se tivesse deixado de trabalhar só uma vez, não se podia saber, mas podia ter ido. Eu escolhi o trabalho e ela morreu sozinha. Beatriz apertou-lhe a mão. Ela amava-te. Ela sabia que trabalhava para ter uma boa vida com ela. Gabriel não respondeu porque não era verdade. Ele não trabalhava para ter uma boa vida com Marina.

 Trabalhava porque não sabia fazer outra coisa, porque era mais fácil trabalhar do que sentir. Alice correu para a mesa, saltou para o colo da Beatriz. Mamã, posso mostrar o meu quarto ao Senr. Gabriel? A Beatriz olhou para Gabriel. Ele assentiu. A Alice saltou e pegou-lhe na mão. Puxou-o até ao quarto. Era pequeno. Cama de solteiro, roupeiro, prateleira com brinquedos.

Tinha desenhos na parede, desenhos de família, pai, mãe, filha, todos sorrindo. “Fui eu que fiz”, disse Alice orgulhosa. O Gabriel olhou para os desenhos. Um deles mostrava um homem fardado segurando a mão de uma menina. “Este é o seu pai?” Alícia sentiu. Ele levava-me sempre no parque. A gente ia todos os domingos.

 Você sente falta? todos os dias, mas a minha mãe diz que está sempre comigo, que me vê lá de cima. Gabriel baixou-se, ficou à altura dela. Você acredita nisso? pensou Alice. Eu acho que sim, porque às vezes sinto-o perto quando estou triste ou com medo. Eu sinto que ele está aqui. Gabriel sentiu os olhos arderem de novo.

 Você é uma menina muito especial, a Alice. Ela sorriu, abraçou-o. O Gabriel ficou parou por um segundo, depois abraçou de volta. Quando voltou para a sala, A Beatriz estava a lavar as chávenas. Ela se virou. Desculpa, a Alice às vezes é intensa. Não precisa de pedir desculpa, ela é incrível. A Beatriz sorriu.

 Um sorriso genuíno, cansado, mas real. Gabriel olhou para o relógio. Já era tarde. Ele deveria ir, mas não queria. Eu tenho de ir, ele disse. Beatriz assentiu. Obrigada, de verdade, por tudo. Gabriel caminhou até a porta. Alice correu e abraçou a perna dele. Vai voltar? Gabriel olhou para Beatriz. Ela esperava a resposta também.

 Não com expectativa, não com esperança, apenas com curiosidade. Posso? Beatriz hesitou, depois assentiu. Pode. Gabriel saiu, desceu as escadas, entrou no carro, ficou ali parado, segurando o volante. Ele não compreendia o que estava a acontecer. Não entendia porque uma mulher desconhecida e uma criança tinham mexido tanto com ele, mas sabia uma coisa, ele queria voltar.

Nos dias seguintes, Gabriel não conseguiu deixar de pensar na Beatriz e Alice. Durante as reuniões, ele se apanhava a pensar na conversa deles, no forma como Beatriz falou sobre Vinícius, na forma como a Alice abraçou o ursinho. No sábado ligou. A Beatriz atendeu no segundo toque. Olá, Gabriel. Oi. Estava a pensar.

 A Alice já foi no jardim zoológico? Silêncio. Faz tempo. A última vez foi com o Vinícius. Por quê? Eu queria levar vocês, se quiser. Beatriz demorou para responder. Gabriel, tu não precisa de fazer isso. Eu sei, mas eu quero. Por quê? Ele não tinha uma boa resposta, só a verdade, porque eu me sinto-me melhor quando estou convosco.

Beatriz ficou em silêncio. O Gabriel ouviu a respiração dela do outro lado. Está bom, A Alice vai adorar. No domingo, Gabriel buscou-as. A Alice estava a usar um vestido amarelo, laço no cabelo. Beatriz estava de calças de ganga e blusa verde, simples, mas bonita. A Alice saltou no banco de trás. Vamos ver os macacos.

A Beatriz entrou na frente. Obrigada por isso. Gabriel encolheu os ombros. Eu também queria sair um pouco. O jardim zoológico estava cheio. Famílias, casais, crianças correndo. O Gabriel não ia a um lugar assim há anos. Eles caminharam. A Alice corria à frente, apontando para cada animal. Ela gritou quando viu os macacos, riu-se quando viu os pinguins, ficou séria quando viu os leões.

 Porque estão presos. Gabriel olhou para Beatriz. Ela baixou-se para ficar seguros, para nós poder vê-los. Mas não preferiam estar livres? Beatriz pensou, talvez. Mas às vezes ficamos mesmo presos quando não quer e tem de aprender a viver assim. Gabriel entendeu a mensagem. Eles continuaram a andar, pararam para comer sandes, batatas frita, sumo.

 A Alice comeu rápido e saiu correndo de novo. Beatriz e Gabriel ficaram sozinhos. Ela gosta de si, A Beatriz disse. Eu também gosto dela. Você é bom com ela, natural. Gabriel olhou para Alice, brincando perto do coreto. Nunca tive filhos. Marina queria, mas nós sempre adiámos. trabalho, dinheiro, tempo, tinha sempre uma desculpa.

 Você arrepende-se? Todo dia. Beatriz ficou em silêncio, depois falou: “O Vinícius queria mais filhos, mas não tínhamos dinheiro. Eu trabalhava, trabalhava, mal dava para a Alice. Dizia sempre que um dia íamos ter, mas esse dia nunca veio.” Gabriel olhou para ela. Os também se arrepende de não ter mais filhos às vezes, mas de ter tido a Alice? Nunca.

Gabriel admirou aquilo, a certeza dela, a paz com as escolhas, algo que ele nunca teve. Ficaram o dia todo. Quando o sol começou a pôr-se, voltaram pro carro. A Alice dormiu no banco de trás. Beatriz olhou pela janela. “Obrigada por hoje”, disse ela. “Foi bom. Fazia tempo que não saíamos assim. Para mim também.

” Gabriel dirigiu em silêncio, parou em frente ao edifício, ajudou a Beatriz a carregar a Alice, subiu com elas. Beatriz deitou Alice na cama, voltou para a sala. “Quer um café?”, O Gabriel ia dizer: “Não, mas disse que sim”. Sentaram-se de novo, na mesma mesa, com as mesmas chávenas, mas algo era diferente. Algo tinha mudado.

 “Gabriel, Beatriz começou: “Porque é que estás fazendo isso? a fazer o quê? Isso. Vindo aqui, levando-nos ao jardim zoológico, sendo amável. Gabriel pensou: “Porque eu preciso, porque há dois anos que eu estou sozinho e esqueci-me como é se sentir-se vivo?” Beatriz olhou para ele. “E sente-se vivo aqui?” “Sim.” Ela baixou os olhos.

 “Eu também estava sozinha, mesmo com Alice. Eu estava só. E então apareceu? Eu não sou nada especial, Beatriz. Você é, não vê, mas você é. O Gabriel não sabia o que dizer. Ficaram em silêncio. Um silêncio confortável, diferente do silêncio pesado do seu apartamento. Quando ele levantou-se para ir embora, Beatriz segurou a mão dele. Volta quando quiseres.

 A porta está sempre aberta. Gabriel apertou a mão dela. Eu volto. Gabriel voltou no fim de semana seguinte e no outro e no outro tornou-se rotina. Todos os sábados ele procurava a Beatriz e a Alice. Iam ao parque, ao cinema, à praia. A Alice corria sempre à frente, rindo, brincando. Beatriz caminhava sempre ao lado dele, falar sobre coisas pequenas.

 E Gabriel, pela primeira vez em dois anos, sentia que fazia parte de algo. No trabalho, as coisas mudaram. Patrícia notou, os sócios notaram. O Gabriel saía mais cedo, não trabalhava aos fins de semana, recusava viagens. Numa reunião, Roberto, o sócio principal, chamou-lhe na sala. Gabriel, estás bem? Ele assentiu. Estou.

 Você está diferente, menos. Presente. Gabriel olhou para ele. Roberto tinha 60 anos, três casamentos falhados, dois filhos que não falavam com ele. Vivia no escritório, dormia no escritório, morria no escritório. “Eu Estou mais presente do que nunca”, Gabriel disse. Roberto franziu o sobrolho. “Cancelou três viagens este mês. Isto não é normal.

 Eu tinha compromissos mais importantes que a empresa Gabriel pensou. Há três meses a resposta seria não. Mas agora sim. Roberto ficou em silêncio, depois suspirou. Está com alguém? Gabriel hesitou. Estou a conhecer uma pessoa. Sério? O Roberto pareceu surpreendido. Eu pensei que nunca ias superar a Marina.

 Eu não superei, mas aprendi a viver com a falta dela. Roberto acenou com a cabeça. Fico feliz por si. Só não deixa que isso atrapalhe o trabalho. Gabriel saiu da sala, mas as palavras de Roberto ficaram na cabeça. Estava a deixar o trabalho de lado. Sim, ele importava-se? Não. Num sábado de chuva, o Gabriel chegou ao apartamento da Beatriz. A Alice abriu a porta.

 Senhor Gabriel, a mamã não está bem. Gabriel entrou rapidamente. A Beatriz estava no sofá, coberta com um cobertor, rosto pálido. O que aconteceu? Não é nada, Beatriz disse. A voz saiu fraca. Apenas uma gripe. Gabriel baixou-se, tocou-lhe na testa. Estava quente. Está com febre? Eu sei, mas vai passar.

 Foi ao médico? Beatriz abanou a cabeça. Não tenho tempo e o posto está sempre cheio. Gabriel olhou para Alice. Ela estava preocupada. Tomou algum remédio? Paracetamol, mas acabou. Gabriel levantou. Vou buscar. Gabriel, tu não precisa. Eu volto já. Ele saiu, foi até a farmácia, comprou paracetamol, vitamina C, sopa pronta, sumo.

 Voltou em 15 minutos. A Beatriz estava deitada, olhos fechados, Alice sentada ao lado dela, segurando a mão. Gabriel aqueceu a sopa, serviu a Beatriz. Ela comeu devagar. Ele deu o medicamento, cobriu-a direito. Precisa de descansar. Tenho que trabalhar amanhã. Você não vai trabalhar doente, Gabriel. Eu preciso do dinheiro. Eu pago.

 Beatriz olhou para ele. Não, Beatriz, não. Eu não aceito. Gabriel suspirou. Então descansa hoje. Amanhã vê como está. Beatriz fechou os olhos. Adormeceu em poucos minutos. O Gabriel ficou, cuidou de Alice, fez comida, brincou, colocou-a para dormir, ficou na sala a ver Beatriz dormir. Ela respirava devagar, rosto tranquilo.

 Era bonita, não jeito das mulheres que Gabriel conhecia antes. Ela era bonita de uma forma real, cansado, honesto. Às 10 da noite, Beatriz acordou, olhou em redor, viu Gabriel sentado na poltrona. Você ainda está aqui? Estou, Gabriel. Você não precisa. Eu sei. Ela sentou-se devagar. Por quê? Por que razão o faz? Gabriel olhou para ela. Porque eu quero.

 Porque quando estou aqui esqueço-me de tudo o que dói. Beatriz ficou em silêncio, depois levantou-se, caminhou até ele, sentou-se no braço da poltrona. És uma boa pessoa, Gabriel. Não sou. É sim, só não acredita. Gabriel olhou para ela. Olhos castanhos, cansados, mas cheios de algo que ele não via há muito tempo. Esperança.

Levantou a mão, tocou-lhe no rosto. A Beatriz não se afastou. Eu tenho medo. Ele disse. Do quê? De estragar isso, de estragar-te? Beatriz segurou a mão dele. Não vai estragar nada. Ele aproximou-se, ela também. Eles se beijaram devagar, com cuidado, como se o mundo pudesse quebrar. Quando se afastaram, Beatriz estava a sorrir.

 Faz tempo que não o fazia. Gabriel sorriu também. Eu também. Eles ficaram assim, juntos, silenciosos, completos. Nos meses seguintes, Gabriel passou cada vez mais tempo com Beatriz e Alice. Jantares, filmes, passeios. Alice começou a chamar-lhe tio Gabriel. A Beatriz começou a sorrir mais e o Gabriel começou a viver de novo.

 Mas nem tudo era fácil. Houve um dia em que a Alice chorou. Ela estava a brincar no parque quando viu um pai a carregar a filha nos ombros. Ela correu para a Beatriz. Eu quero meu papá. A Beatriz abraçou-a. Eu sei, amor. Eu também quero. Gabriel ficou ao lado, impotente, sem saber o que fazer. Alice olhou para ele. Podes ser o meu papai.

Gabriel sentiu o coração apertar, olhou paraa Beatriz. Ela estava a chorar também. Alice, começou a Beatriz. O tio Gabriel. Eu posso Gabriel disse. Beatriz olhou para ele surpreendida. Ele continuou. Eu não sou o teu pai, nunca serei, mas posso estar aqui se quiser. Alice abraçou-o. Eu quero. Gabriel abraçou de volta, olhou paraa Beatriz.

Ela estava a sorrir, lágrimas escorrendo. Nessa noite, depois de deitar a Alice, a Beatriz e Gabriel conversaram. Tem a certeza?”, perguntou a Beatriz. “De quê?” “Disso?” “De nós, da Alice.” Gabriel pegou na mão dela. “Nunca tive tanta certeza de nada.” Beatriz encostou a cabeça no ombro dele.

 “Tenho medo de quê?” “De tu ires embora, de Alice se apegar e tu desapareceres.” Gabriel virou-a para ele, olhou-a nos olhos. “Eu não vou a lugar nenhum. Como sabe? Porque eu estive dois anos sozinho, dois anos morto e vocês trouxeram-me de volta. Eu não vou deitar isso fora. A Beatriz beijou ele, diferente da primeira vez. Esse beijo era urgente, desesperado, cheio de medo e esperança.

 Quando se afastaram, ela sussurrou: “Amo-te!” Gabriel congelou. Fazia tanto tempo que ele não ouvia estas palavras. Tanto tempo que ele não sentia isso. Desculpa. Beatriz disse: “Não devia ter. Eu também te amo.” Gabriel interrompeu. Beatriz olhou para ele. Sério? Sério? Voltaram a beijar-se e pela primeira vez Gabriel sentiu que estava no lugar certo.

 Meses depois, Gabriel conheceu a mãe da Beatriz. Dona Lúcia era uma mulher de 50 e poucos anos, cabelos grisalhos, olhos iguais aos de Beatriz. Ela olhou Gabriel de cima a baixo quando ele chegou. Então, você é o tal Gabriel. Sou. Ela cruzou os braços. É rico? Gabriel piscou. Desculpa. A minha filha disse que você é empresário. Isso significa rico.

 Mãe, Beatriz reclamou. A Dona Lúcia ignorou. Eu não me importo com dinheiro, mas importo-me com a minha filha e com a minha neta. Então vou perguntar de novo. Você é a sério? Gabriel olhou para ela. Sou. Você vai embora quando se cansar? Não. Como eu sei que posso confiar? Não sabe, mas vou provar. A Dona Lúcia estudou ele, depois assentiu. Está bom.

 Mas se se as magoar, vai ter que lidar comigo. Gabriel sorriu. Eu aceito. Ao jantar, a dona Lúcia relaxou. Ela contou histórias de Beatriz Criança, de Vinícius, de Alice bebé. O Gabriel ouviu tudo e percebeu que estava a ser aceite numa família. Numa noite de Dezembro, O Gabriel levou a Beatriz e a Alice para conhecer o apartamento dele.

 A Alice ficou boquin aberta. é tão grande. Ela correu pelos quartos, explorando tudo. Beatriz ficou na sala, a olhar à vista. É lindo. Gabriel ficou ao lado dela. Era vazio até agora. Beatriz olhou para ele. Gabriel, é verdade. Aquele lugar nunca foi um lar, mas convosco pode ser. Beatriz sorriu.

 Estás a pedir-me para morar aqui? Não, ainda não. Mas um dia, quando estiver pronta. A Beatriz beijou-o. Eu já estou. Dois meses depois, Beatriz e Alice mudaram. Foi estranho no início. O apartamento demasiado grande, a rotina diferente, mas aos poucos tornou-se natural. A Alice tinha um quarto só dela. Beatriz e Gabriel partilhavam o quarto principal.

Tornaram-se uma família. Gabriel começou a ir buscar a Alice à escola. ajudava com os trabalhos de casa, ia às reuniões de pais e pela primeira vez ele percebia o que a Marina queria. Ele percebia porque ela queria filhos, porque aquilo era real, aquilo importava. Numa tarde, Gabriel estava ajudando a Alice com a matemática.

 Ela estava frustrada. Eu não consigo. Consegue sim. Olha ela aqui. Ele explicou de novo. Ela tentou, acertou. Eu consegui. Gabriel sorriu. Conseguiu. Alice abraçou-o. Obrigada, papá. Gabriel gelou. Alice percebeu. Desculpa, não devia ter. Não Gabriel disse. A voz saiu trémula. Pode me chamar assim se quiser.

 Posso? Pode. Alice sorriu. Abraçou-o de novo. Gabriel abraçou-o de volta. Sentiu os olhos arderem. olhou paraa porta. A Beatriz estava ali a observar. Ela estava a chorar também. Naquela noite, O Gabriel não conseguiu dormir. Ficou olhando para o teto. Beatriz virou-se. Você está bem? Estou.

 É só? Ela chamou-me de papá. A Beatriz sorriu. Eu sei. Eu ouvi. Você importa-se? Não, o Vinícius vai ser sempre o pai dela. Mas você, você está aqui, você está presente. Isso é que importa. Gabriel olhou para ela. Eu nunca imaginei isso, voltar a ter uma família. E agora? Agora não consigo imaginar a minha vida sem vocês. A Beatriz beijou-o.

 Então não imagine, Gabriel riu-se. Não vou. Num sábado, o Gabriel levou a Beatriz e a Alice de regressa à cafetaria, a mesma onde tudo começou. Sentaram-se na mesma mesa. A Alice pediu chocolate quente. Beatriz pediu café. O Gabriel também. Por que razão a gente veio aqui? perguntou a Beatriz. Gabriel olhou em redor.

 Foi aqui que tudo mudou. Foi aqui que a Alice me pediu ajuda e nunca mais fui o mesmo. Alice sorriu. Eu sabia que o senhor ia ajudar. Como? Porque o senhor parecia triste, igual à mamã. E pessoas tristes compreendem as pessoas tristes. Gabriel olhou paraa Beatriz. Ela estava a sorrir. Ela está certa, está sempre.

 Eles terminaram o café, saíram, caminharam pela rua. A Alice ia à frente a saltar. Beatriz segurava a mão de Gabriel. Obrigada, ela disse. Por quê? Por não desistir, por ficar, por nos amar. Gabriel apertou a mão dela. Obrigada por me deixarem entrar. Um ano depois do dia na cafetaria, O Gabriel organizou uma festa.

 Chamou a família dele que tinha ignorado por dois anos. Chamou amigos, chamou a dona Lúcia. Todos se reuniram no apartamento. Alice corria de um lado para o outro, animada. A Beatriz estava na cozinha a arrumar a comida. Gabriel ficou a observar. O seu irmão André se aproximou. Você está diferente. Gabriel olhou para ele. Estou. Está.

 mais leve, mais feliz. Gabriel sorriu. Eu estou. O André bateu-lhe no ombro. Fico feliz por si. Depois da Marina, achei que que nunca mais ias voltar. Eu também achei. O que mudou? Gabriel olhou paraa Beatriz, para Alice. Elas. A festa foi boa. Toda a gente comeu, bebeu, conversou. No final da noite, depois de todos os foram embora, o Gabriel sentou-se com a Beatriz na varanda.

 O céu estava cheio de estrelas. Foi uma boa noite Beatriz disse. Foi. Eles ficaram em silêncio. Então Gabriel pegou-lhe na mão. Beatriz, eu tenho uma pergunta. Ela olhou para ele. Ele tirou uma pequena caixa do bolso. Abriu um anel simples, prateado, com uma pequena pedra. Eu não sou perfeito. Eu ainda tenho dias maus, dias que me lembro da Marina e dói.

 Mas mostraste-me que dá para viver com a dor, que dá para ser feliz de novo. Tu e a Alice são a melhor coisa que já me aconteceu e quero passar o resto da vida convosco. Então, casa comigo. A Beatriz estava a chorar. Sim, sim, sim. Gabriel colocou-lhe o anel. Eles beijaram-se. A Alice apareceu na porta da varanda. Vocês vão casar? Gabriel olhou para ela. Vamos.

 Se você concordar. Alice correu e abraçou os dois. Eu concordo. Eles ficaram assim, abraçados, uma verdadeira família. Nos meses seguintes, os preparativos do casamento começaram. A Beatriz queria algo simples. O Gabriel concordou, mas ele fazia questão de alguns pormenores. Queria que fosse especial.

 Queria que a Beatriz se sentisse amada. Uma tarde, a Beatriz regressou do trabalho cansada. Gabriel tinha preparado o jantar. A Alice já estava sobre a mesa. O que é? Beatriz perguntou. Jantar? Gabriel disse. Você trabalhou todo o dia. Deixa-me cuidar. A Beatriz sentou-se. comeu era massa com molho, simples, mas saboroso.

 Ficou bom, disse ela. Aprendi no YouTube. Beatriz riu. Sério? Sério. Tem que se começar de algum lugar. Alice também se ria. Gabriel olhou para as duas. A sua família, o seu mundo. Numa manhã de domingo, Gabriel acordou antes de todos, foi até ao cozinha, preparou o pequeno-almoço, panquecas, fruta, sumo, levou na tabuleiro para o quarto.

 A Beatriz ainda dormia. Encostou a bandeja à cama, sentou-se ao lado dela. Beatriz. Ela abriu os olhos lentamente, viu o tabuleiro, sorriu. O que é? Pequeno-almoço. Por quê? Porque eu quis. Ela sentou-se, comeu uma panqueca. Está delicioso. Gabriel sorriu. Bom, eles ficaram ali a comer, conversando. Alice apareceu à porta.

Posso comer também? Gabriel acenou. Ela saltou para a cama. Os três ficaram ali comendo panquecas, rindo, sendo uma família. Três meses depois, Gabriel e A Beatriz casaram. Foi uma cerimónia simples, igreja pequena, poucos convidados. A Alice foi a daminha. Ela levou as alianças, séria, concentrada. Quando Gabriel viu Beatriz a entrar, ele sentiu os olhos arderem.

 Ela estava bonito, vestido branco, simples, flores no cabelo. Ela chegou até ele, sorriu. O padre começou. Gabriel mal ouviu. Só olhava para Beatriz. Só pensava em como tinha sorte. Quando chegou a hora dos votos, a Beatriz falou primeiro: “Gabriel, quando o Vinícius morreu, eu pensei que tinha acabado, que nunca mais ia ser feliz, mas tu apareceste e mostrou-me que se pode recomeçar, que se dá para amar de novo.

 Eu amo-te e eu prometo estar ao teu lado sempre.” Gabriel engoliu em seco. Beatriz, passei dois anos morto, dois anos a pensar que a vida tinha acabado, mas tu e a Alice me trouxeram de volta. Vocês deram-me um motivo para viver e prometo cuidar de vós, amar-vos, estar presente sempre. Eles trocaram alianças. O padre declarou eles marido e mulher.

 Eles se beijaram. Todo o mundo aplaudiu. Alice correu para eles. Agora a gente é uma família de verdade. O Gabriel pegou nela no colo. Sempre fomos. A festa foi pequena, mas foi feliz. O Gabriel dançou com A Beatriz, depois dançou com a Alice. Dona A Lúcia chorou o tempo todo. O André fez um discurso. Pensei que tinha perdido o meu irmão, mas ele voltou.

 E agradeço à Beatriz e à Alice por isso. Bem-vindas à família. No final da noite, o Gabriel, a Beatriz e o A Alice voltaram para casa. Alice adormeceu no carro. O Gabriel carregou-a até ao quarto, cobriu-a, beijou a testa. Boa noite, filha. Voltou ao quarto. A Beatriz estava à espera. Oi, marido. Gabriel sorriu. Olá, esposa.

 Eles deitaram-se, ficaram abraçados. Você é feliz?”, perguntou Beatriz. Gabriel pensou, “Há dois anos a resposta seria não. Há um ano seria, talvez, mas agora sim, sou.” Beatriz sorriu. Eu também. Adormeceram assim, juntos, completos. Meses se passaram, a vida continuou. Gabriel ainda trabalhava, mas agora saía cedo.

 Jantava em família, brincava com a Alice, dormia abraçado com Beatriz e todos os dias ele agradecia. Agradecia por aquela tarde na cafetaria, por uma menina com um urso rasgado, por uma mãe cansada, mas forte, por ter tido coragem de não ir embora. Numa tarde de terça-feira, Gabriel estava no escritório quando o telefone tocou.

 Era a escola de Alice. Senhor Andrade. Sim. A Alice passou mal. Pode vir buscar. Gabriel levantou na hora. Já vou. Ele saiu a correr. A Patrícia olhou surpreendida. Ele nem explicou. Foi logo para o carro. Chegou na escola em 20 minutos. A Alice estava na enfermaria, pálida, quieta. O que aconteceu? Perguntou o Gabriel. A enfermeira explicou.

 Ela estava a brincar e desmaiou. Acordou logo depois, mas achámos melhor ligar. Gabriel baixou-se. Alice, estás bem? Ela assentiu. Só fiquei tonta. Vamos ao médico. Não precisa, papá. Precisa sim. Ele levou-a para o hospital, ligou paraa Beatriz. Ela saiu do trabalho a correr. Encontraram no pronto socorro.

 O médico examinou Alice, pediu exames. Pode ser apenas cansaço, mas vamos investigar. Eles esperaram. Duas horas depois, o médico voltou. Os exames estão normais. Foi só cansaço mesmo. Ela precisa de descansar mais. Gabriel respirou aliviado. A Beatriz também. A Alice ficou sossegada no colo da mãe. Eles voltaram para casa. O Gabriel preparou sopa.

 Alice comeu devagar, depois foi dormir. O Gabriel e a Beatriz ficaram na sala. Eu Fiquei com tanto medo Beatriz disse. Gabriel abraçou-a. Eu também. Se acontecer alguma coisa com ela, não vai acontecer. Mas e se, Beatriz? Olha para mim. Ela olhou. Não vai acontecer nada. Ela está bem. Foi só cansaço. Beatriz encostou a cabeça no peito dele.

Desculpa, eu só depois de ter perdido o Vinícius, tenho medo de perder mais alguém. Gabriel beijou-lhe a cabeça. Eu compreendo, mas estamos aqui juntos e vamos cuidar dela. Promete? Prometo. Ficaram abraçados em silêncio juntos. Num sábado, Gabriel decidiu fazer um piquenique. Acordou cedo, preparou sandes, fruta, sumo, colocou tudo num cesto.

 Acordou a Beatriz e Alice. Vamos sair. Para onde? Beatriz perguntou. Você vai ver. Eles entraram no carro. Gabriel conduziu até um parque grande. Tinha um lago, árvores, relva. Ele escolheu um lugar debaixo de uma árvore, estendeu a toalha, colocou a comida. Alice correu até ao lago, viu patos, riu-se. Beatriz sentou-se ao lado de Gabriel.

 Foi foi você que preparou tudo isto? Foi por quê? Porque eu quis. Porque vocês merecem. A Beatriz beijou-o. Obrigada. Ficaram ali o dia todo a comer, brincando, conversando. Quando o sol começou a pôr-se, deitaram-se na toalha, os três a olhar para o céu. “Olha, uma estrela”, apontou Alice. “Ainda não é noite”, disse Gabriel, “mas quando for, vemos várias.

” Alice pensou: “O papá Vinícius está numa estrela?” A Beatriz olhou para ela. “Está. E a A Marina também?”, Gabriel engoliu em seco também. Então estão juntos cuidando da gente. Beatriz olhou para Gabriel. Tinha os olhos marejados. É, disse ele. Estão a cuidar? Alice sorriu. Que bom. Assim temos quatro pais, dois aqui e dois no céu.

Gabriel abraçou-a. A Beatriz abraçou os dois. Ficaram assim até escurecer, observando as estrelas a aparecer, uma por uma, iluminando o céu. Numa noite de sexta-feira, o Gabriel chegou a casa e encontrou Beatriz a chorar na cozinha. O que aconteceu? Ela olhou para ele. Nada. É uma parvoíce, Beatriz. Ela suspirou.

 Faz hoje três anos que o Vinícius morreu. Gabriel sentou-se ao lado dela. Desculpa, não sabia. Não é culpa sua. Eu só eu estava lembrando-se de tudo. Quer conversar? Beatriz abanou a cabeça. Não, eu só queria que soubesses que eu ainda penso nele, que ainda sinto falta. Gabriel pegou-lhe na mão. Eu sei. E tudo bem.

 Não precisa de esquecer dele para amar-nos. Beatriz olhou para ele. Não se importa? Não. Ele fez-lhe ser quem é. Ele deu-te a Alice. Eu nunca vou competir com isso. Beatriz chorou mais, mas eram lágrimas diferentes, de alívio, de gratidão. Obrigada. Gabriel abraçou-a. Sempre. Numa tarde de domingo, Gabriel estava arrumar o quarto de Alice quando encontrou uma caixa debaixo da cama.

Lá dentro tinha fotos, fotos de Vinícius, dele com a Beatriz, dele com a Alice Bebé, dele sozinho. Gabriel olhou para cada uma. Vinícius era bonito, sorriso rasgado, olhos gentis, parecia ser um bom homem. O que está a fazer? O Gabriel se virou. A Alice estava à porta. Desculpa, encontrei esta caixa. Alice entrou, sentou-se ao lado dele.

 São fotos do meu papá. Eu vi. Ele era bonito. A Alice pegou numa foto. Vinícius segurando ela. Não me lembro muito dele, só algumas coisas. O cheiro, o abraço, a voz. Gabriel sentiu o peito apertar. Queres que te conte sobre ele? Alice olhou para ele. Você não conheceu ele? Não, mas a sua mãe conheceu e ela pode contar e pode lembrar-se.

 Alice pensou. Não fica com ciúme do seu pai? É. Gabriel abanou a cabeça. Não, era o seu pai. Nada vai mudar isso. Eu só quero estar aqui agora contigo. Alice abraçou-o. Você é um bom pai também. Gabriel abraçou-o de volta. Obrigado, filha. Nessa noite, Gabriel contou à Beatriz sobre a caixa. “Você não ficou chateado?”, perguntou Beatriz.

“Não, porque é que eu ficaria?” “Porque, sei lá, ele estava aqui em nossa casa. Gabriel pegou-lhe na mão. Beatriz, ele vai estar sempre aqui. Ele está na Alice. Ele está em si. E está tudo bem. Eu não o quero apagar. Eu só quero somar.” A Beatriz chorou. Como és tão perfeito, Gabriel Rio. Não estou longe disso, mas aprendi consigo, com Alice, que o amor não acaba, só se transforma. A Beatriz beijou-o.

 Eu te amo tanto. Eu também te amo. No aniversário da Alice, o Gabriel organizou uma festa, chamou os amigos da escola dela, chamou a família, fez bolo, decoração, brincadeiras. A Alice estava radiante, corria de um lado para o outro. Quando chegou a altura de cantar os parabéns, todos se reuniram.

 A Alice apagou as velas. Todo o mundo aplaudiu. “Faz um pedido”, gritou alguém. Alice fechou os olhos, depois abriu. “Já fiz.” “O que pediste?”, perguntou Beatriz. Não posso falar, senão não se realiza. Mais tarde, quando a festa terminou e todo o mundo se foi embora, Gabriel perguntou: “Pode contar-me o pedido agora?” Alice pensou: “Nunca te vais rir.

” Eu pedi para ter um irmãozinho. Gabriel olhou paraa Beatriz, ela estava vermelha. Alice, começou a Beatriz. Por quê? Gabriel perguntou. Porque queria ter alguém para brincar e porque queria que tu e a mamã tivessem um bebé de vocês. Gabriel baixou-se. Alice, sabe que és minha filha, certo? Não precisa de sangue para isso.

 Eu sei, mas eu queria mesmo assim. Gabriel olhou paraa Beatriz, ela encolheu os ombros. Naquela noite, depois de colocar Alice a dormir, conversaram. “Você já pensou nisso?”, perguntou Gabriel. em ter outro filho. Às vezes, e você, O Gabriel pensou, nunca pensei que ia ter filhos. Depois de a Marina morrer, desisti dessa ideia, mas agora com ti, penso eu.

 E o que pensa? Que eu queria, se tu quiseres. Beatriz sorriu. Eu quero. Sério? Sério. Gabriel beijou-a e naquela noite eles começaram a tentar. Meses depois, A Beatriz descobriu que estava grávida. Ela contou primeiro ao Gabriel. Eu estou grávida. Gabriel gelou. Sério? Sério? Fiz três testes todos positivos. Gabriel abraçou-a, rodopiou-a no ar.

 A gente vai ter um bebé. A Beatriz riu. Vamos. Contaram a Alice no jantar. Alice, temos uma novidade. A Beatriz disse. O quê? Vai ter um irmãozinho. Alice arregalou os olhos. Sério? Sério? Gabriel confirmou. Alice levantou-se e abraçou os dois. Meu pedido se realizou. Os meses passaram. A barriga da Beatriz cresceu.

 Alice conversava com a barriga todos os dias. Oi, bebé. Eu sou sua irmã. Eu vou cuidar de si. O Gabriel também conversava. Oi, bebé. Eu sou o teu pai e já te amo. A Beatriz só sorria feliz. Completa. Num dia de março, a Beatriz entrou em trabalho de parto. O Gabriel levou-a pro hospital. A Alice ficou com a dona Lúcia.

Foram 12 horas de trabalho de parto. O Gabriel esteve o tempo todo ao lado de Beatriz, segurando-lhe a mão, encorajando. Você consegue? Eu não consigo. Consegue sim. Você é a pessoa mais forte que eu conheço. Beatriz apertou a mão dele. Não me larga nunca. Quando o bebé nasceu, era um rapaz.

 Gabriel cortou o cordão. O médico colocou o bebé no peito da Beatriz. Ela chorou. O Gabriel chorou. Ele é perfeito. A Beatriz disse. É. O Gabriel concordou. Eles escolheram o nome juntos. Henrique. Quando a Alice conheceu o irmão, ficou encantada. Ele é tão pequeno. Era assim que se era. A Beatriz disse. Alice tocou na mão dele. Henrique agarrou-lhe o dedo.

 Ele gosta de mim. Gabriel olhou para a sua família. Beatriz na cama, cansada, mas feliz. Alice encantada com o irmão. Henrique a dormir. Ele nunca imaginou isso. Nunca imaginou que depois de perder tudo, ia ganhar tudo outra vez. Nessa noite, Gabriel ficou no hospital. Sentou-se na poltrona, olhou Beatriz e Henrique a dormir, pensou em Marina, em como o queria, em como ela nunca teve oportunidade.

 E ele sentiu uma paz estranha, como se ela estivesse ali, dizendo que estava tudo bem, que ele merecia isso, que podia ser feliz. Dias depois, voltaram a casa. A vida mudou outra vez. Biberões, fraldas, noite sem dormir. Mas Gabriel não reclamou. Acordava com a Beatriz, ajudava, cuidava de Henrique enquanto ela descansava.

 A Alice ajudava também, pegava numa fralda, pegava numa toalha, cantava pró irmão. “És uma irmã incrível”, Gabriel disse. Alice sorriu. “Eu aprendi consigo”. Gabriel abraçou-a. Numa madrugada, Gabriel estava com Henrique no colo. O bebé chorava. Ele andava de um lado para o outro, cantando baixinho. A Beatriz apareceu à porta.

 Eu posso ficar com ele? Gabriel abanou a cabeça. Eu fico. Precisa de descansar. Você também. Eu estou bem. A Beatriz se aproximou-se, ficou ao lado dele, olhando Henrique. A gente fez isso. Ela disse. Fizemos. A gente fez uma família. Gabriel olhou para ela. Fizemos. Eles se beijaram. O Henrique parou de chorar, dormiu.

 Gabriel colocou-o no berço, voltou para o quarto com a Beatriz. Eles se deitaram-se, abraçados. “Obrigada”, Beatriz, sussurrou. “Porquê?” “Por tudo. Por não ter ido embora naquele dia, por ter arranjado o ursinho, por ter ficado.” Gabriel apertou-a. “Obrigada por me ter deixado ficar.” Adormeceram juntos, completos, felizes.

 Meses depois, num sábado de sol, Gabriel, Beatriz, Alice e Henrique voltaram à cafetaria, a mesma onde tudo começou. Sentaram-se na mesma mesa. A Alice pediu chocolate quente. Beatriz pediu café. O Gabriel também. Henrique dormia no carrinho. Por que a gente volta sempre aqui? – perguntou Alice. O Gabriel olhou em redor porque foi aqui que tudo começou.

 Foi aqui que me pediu ajuda com o ursinho e mudou tudo. pensou Alice. E se eu não tivesse pedido? Então eu teria continuado perdido. Mas já não está perdido. Gabriel olhou paraa Beatriz. Pró Henrique, paraa Alice. Não, estou em casa. Alice sorriu. Que bom. Eles ficaram ali conversando, rindo, sendo uma família. Quando se levantaram para ir embora, Gabriel olhou para trás, para a mesa onde tudo tinha começado, onde uma menina com um urso rasgado tinha mudado tudo.

 Ele sorriu. Beatriz pegou-lhe na mão. No que está pensando? Em como a vida é estranha? Como nunca sabemos o que vai acontecer? Como um momento pode mudar tudo? Beatriz apertou-lhe a mão. E você se arrepende? Gabriel olhou para ela, pros olhos castanhos que amava. De nada, nem de um segundo saíram. Alice saltava à frente, segurando o carrinho de Henrique.

 Beatriz caminhava ao lado de Gabriel. O sol estava alto, o dia estava bonito, e Gabriel Andrade, que tinha passado do anos morto, finalmente estava vivo. Finalmente tinha encontrado o que procurava, não solidão, não trabalho, mas numa cafetaria barulhenta, com uma menina que pediu ajuda, com uma mulher que aceitou ser amada, com uma família que nunca imaginou ter.

 E quando Alice se virou e gritou: “Papá, vamos ao parque!” Gabriel sorriu porque aquela palavra, aquela simples palavra era tudo. Era o motivo de ter acordado nesse dia na cafetaria. Era o motivo de não ter ido embora. Era o motivo de ter ficado. E ele respondeu com o coração cheio, com a alma em paz: “Vamos sim, meu amor. Vamos todos juntos.

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