O carro parou antes mesmo de o portão terminar de abrir. Ricardo Azevedo desligou o motor e ficou ali por um segundo a mais do que o normal, com a mão apoiada no volante. O silêncio dentro do carro contrastava com o calor pesado do início da tarde paulistana. O ar cheirava a asfalto quente e a tempo perdido. Ele não deveria estar ali.
O voo de Londres só chegaria no dia seguinte. Ninguém o esperava. Talvez por isso, seu coração batesse daquele jeito, não de alegria, mas de uma ansiedade estranha, quase um aviso. Ricardo pegou a pasta de couro do banco do passageiro e entrou na casa sem fazer barulho. A porta se fechou atrás dele com um clique seco.
A mansão o recebeu como sempre. Grande demais, silenciosa demais, perfeita demais. O ar condicionado soprava um frio artificial que não aquecia nada por dentro. Nenhuma risada, nenhum passo apressado, nenhuma voz chamando papai. Ele afrouxou a gravata enquanto caminhava pelo corredor. O som dos próprios sapatos ecoava no mármore polido.
Era o som de um homem importante, voltando para um lugar que, no fundo, não sentia como seu. Então, antes de chegar à sala de jantar, algo mudou. Não foi um som alto, foi o contrário, um silêncio diferente. Vivo. Ricardo diminuiu o passo. O cheiro chegou antes da imagem. Tomate quente, manjericão fresco, algo simples, quase esquecido, um cheiro que não combinava com aquela casa, um cheiro que não vinha das refeições milimetricamente calculadas por nutricionistas caros.
Ele parou a sombra do batente da porta e viu. As três meninas estavam sentadas à mesa, Ana, Beatriz e Clara. Os vestidos eram simples, claros, nada rígidos. Os pés balançavam levemente, sem tocar o chão. As mãos pequenas estavam entrelaçadas, apoiadas perto do queixo. Elas estavam rezando. Não era uma reza ensaiada, não era algo bonito para foto.
Era baixa, verdadeira, e vinha acompanhada de algo que Ricardo não via havia muito tempo naquele espaço. Sorrisos. Ele sentiu um aperto seco no peito. À frente delas não estava Helena, era Lúcia, a empregada nova, a mulher que a agência havia mandado há poucas semanas. Uniforme simples, cabelo preso, mangas dobradas, as mãos ainda marcadas pelo trabalho.
Nada nela combinava com a sala de jantar elegante, com o lustre de cristal, com a mesa de madeira nobre, que parecia nunca ter sido feita para crianças. E ainda assim era ela quem estava ali. Lúcia mantinha a cabeça levemente baixa, respeitosa, mas o olhar atento. Não havia submissão exagerada em seu corpo.
Havia cuidado, presença e obrigada pela comida”, murmurou Clara, a menor, com a voz doce e insegura. Ricardo sentiu o estômago se contrair e Ana hesitou por um instante, como se estivesse escolhendo as palavras. Faz o papai voltar mais cedo um dia. O mundo de Ricardo parou. Ele se encostou discretamente na parede, sentindo o peso daquela frase, como se alguém tivesse colocado a mão em seu peito.
As meninas não sabiam que ele estava ali. Aquela oração não era um recado, era um desejo. Quando abriram os olhos, Lúcia sorriu, um sorriso pequeno, sem exagero, que iluminou o ambiente mais do que o lustre caro acima da mesa. Amém, meus amores, disse ela em voz baixa. Sobre a mesa não havia pratos sofisticados, não havia nada verde demais, nem arranjos perfeitos, apenas uma travessa de macarrão fumegante, vermelho vivo, simples.
Guardanapos de pano dobrados, sem perfeição, mas limpos. Um copo de suco para cada uma. Ricardo pensou, sem saber porquê, que aquela mesa parecia usada. Vivida, cuidado, está quente”, avisou Lúcia, servindo os pratos com calma. “Sopra primeiro.” As meninas obedeceram rindo. Um riso curto, infantil, real. Ricardo sentiu os olhos arderem e desviou o olhar por um segundo, como se alguém pudesse vê-lo ali, vulnerável.
Quando foi a última vez que ouvira aquele som naquela casa? Ele se lembrou das refeições formais, das correções constantes, da tensão invisível, dos silêncios forçados, da postura rígida que Helena exigia. Educação, ela dizia, disciplina, mas aquilo, aquilo era outra coisa. Ricardo respirou fundo, preparando-se para entrar, para anunciar sua presença, para quebrar o momento. Então o som veio.
Tac, tac, tac. Saltos altos no mármore. O efeito foi imediato. As meninas pararam de rir. Os ombros se contraíram. Beatriz baixou os olhos. Clara levou o garfo à boca sem entusiasmo. Ana endireitou as costas como se estivesse se preparando para uma prova. Lúcia ergueu a cabeça. O sorriso desapareceu. Seu corpo se alinhou alerta como alguém que já conhecia aquele som.
Ricardo sentiu um frio subir pela espinha. O que é isso? A voz de Helena atravessou o espaço antes mesmo de ela aparecer. Ela entrou na sala como um vento duro, celular na mão, expressão fechada. O olhar percorreu a mesa em um segundo, avaliando, julgando. “Eu deixei instruções claras”, disse, sem olhar para as crianças, claras.
O cheiro de manjericão pareceu desaparecer. Ricardoficou imóvel. Algo dentro dele sussurrou para esperar, para ver, para entender. Helena deu mais um passo à frente. Seus olhos pousaram na travessa de macarrão. O desprezo foi imediato. Isso aqui ela fez um gesto vago com a mão. Não estava no combinado. As meninas não se mexeram.
Lúcia engoliu em seco. “As crianças não quiseram o peixe, senhora”, disse ela com cuidado. Estavam sem apetite. “Achei que você não acha”, cortou Helena. “Você executa.” Ricardo sentiu a mandíbula travar. Helena respirou fundo, como quem controla a própria irritação. Olhou para as crianças pela primeira vez.
Subam para o quarto depois”, disse fria. Agora as meninas hesitaram. Clara olhou para Lúcia. Ana apertou o guardanapo entre os dedos e então aconteceu. Helena estendeu a mão e empurrou a travessa com força. O prato escorregou, bateu na borda da mesa e caiu no chão. O som da porcelana quebrando ecoou pela sala.
O molho vermelho se espalhou pelo piso claro como uma ferida aberta. Clara soltou um soluço contido. Ricardo prendeu a respiração. O mundo dele ali começou a rachar. Lúcia deu um passo à frente instintivamente, ficando entre Helena e as meninas. Não falou nada, apenas ficou ali protegendo. Ricardo percebeu que suas mãos estavam fechadas em punhos.
O coração batia forte demais e ainda assim ele não saiu da sombra. Não, ainda sobre a mesa, um dos guardanapos de pano havia caído no chão. Metade dele tocava o molho vermelho, a outra metade permanecia limpa. Ricardo não sabia porquê, mas não conseguiu tirar os olhos daquela imagem. A casa continuava em silêncio, mas agora ele entendia.
Ela não respirava. O silêncio depois do prato quebrado não foi imediato. Ele veio em ondas. Primeiro o estalo seco da porcelana, depois o cheiro ácido do tomate quente no chão frio. Por fim, o silêncio pesado. Aquele que não acalma só avisa. Ricardo continuou escondido no corredor. A sombra o protegia e, ao mesmo tempo, o acusava.
Helena ficou imóvel por um segundo, olhando para o estrago como se tivesse sido o chão que ousara desobedecê-la. Em seguida, respirou fundo, ajeitou o cabelo e falou com a mesma voz que costumava usar em reuniões sociais, limpa, afiada, sem emoção. Isso é o que acontece quando se dá liberdade demais, disse sem olhar para as meninas.
ficam mimadas, acham que podem tudo. Ana manteve os olhos baixos. Beatriz apertou o guardanapo com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Clara não conseguiu segurar o choro. O som saiu pequeno, como se tivesse medo de ocupar espaço. Lúcia se abaixou devagar, não correu, não fez barulho.
Pegou o pano do balcão e começou a recolher os cacos com cuidado, protegendo os dedos. Um gesto simples, humilde, digno. Não encosta nisso Helena disparou. Vai se cortar e depois a culpa é minha. Lúcia levantou o olhar pela primeira vez. Não havia desafio. Havia pedido. Senhora, começou baixo. As meninas. Chega. Helena a interrompeu, a voz subindo um pouco.
Você não fala quando eu estou falando. Ricardo sentiu o sangue subir ao rosto. Aquele tom ele nunca tinha ouvido quando estava presente. Com ele, Helena era outra, suave, educada, quase doce. Ali, sem plateia, o rosto era outro. Subam, Helena repetiu, apontando para o corredor. Agora as meninas se levantaram.
Ana foi a primeira a dar um passo, obediente demais para a idade. Beatriz a seguiu, olhando rapidamente para Lúcia, como quem pede desculpa por algo que não fez. Clara ficou por último. Eu Clara fungou. Eu ainda tô com fome. O ar pareceu ficar mais frio. Helena se virou devagar, o sorriso fino, perigoso. Fome se educa, disse.
Vai para o quarto. Lúcia se colocou à frente sem perceber. Foi um reflexo, um corpo protegendo o outro menor. “Senhora, por favor”, disse ela, a voz tremendo, mas firme. “Elas não fizeram nada de errado. Se quiser brigar, brigue comigo.” Ricardo sentiu o estômago afundar. Helena soltou uma risada curta, seca. “Olha só”, disse cruzando os braços.
“Já está se sentindo parte da família.” Ela deu um passo à frente. Lúcia não recuou. Você está aqui para limpar? Helena continuou. Não para pensar, não para sentir, muito menos para interferir. Ricardo fechou os olhos por um segundo. Pensou em entrar, pensou em acabar com aquilo ali mesmo, mas algo o segurou. Ele precisava ver até onde ia.
Precisava saber quem tinha colocado dentro da sua casa. Meninas, Helena disse sem tirar os olhos de Lúcia. Quartos já. Clara correu. O som dos passinhos apressados na escada foi o que mais doeu. Não o grito, não o prato quebrado, aqueles passos. Quando as meninas desapareceram, Helena se inclinou levemente para a frente.
E você? disse quase num sussurro venenoso. Recolhe tudo. Quero esse chão brilhando antes que eu volte. Se eu ver uma mancha, você não pisa mais aqui. Lúcia assentiu. Não disse nada, ajoelhou-se outra vez. Ricardo sentiu uma raiva fria, controlada, subir pela espinha. Aquela não era a raiva que explode, eraa que calcula.
Helena saiu da sala com passos firmes, o som dos saltos ecoando como uma porta se fechando dentro dele. Ricardo ficou ali ainda escondido, observando. Lúcia terminou de limpar o chão, jogou os cacos no lixo, passou o pano mais uma vez, mesmo sem necessidade. Depois ficou parada, olhando para a escada. Ela respirou fundo, passou a mão no rosto rápido, como quem não se permite chorar.
Em seguida, tirou algo do bolso do avental, um pequeno papel dobrado. Ricardo não conseguiu ouvir o que ela sussurrou, mas viu os lábios se mexerem. Uma oração curta, não para ela, para as meninas. Naquela noite, Ricardo subiu às escadas em silêncio. Helena já dormia. Ele passou direto pelo quarto principal e seguiu até o corredor das crianças.
parou diante da porta, bateu de leve. “Sou eu”, disse baixo. “Papai, houve um segundo de silêncio, depois o som de lençóis se mexendo. A porta abriu só o suficiente para três rostinhos aparecerem. Ana foi a primeira a falar. “Você já vai viajar de novo?” A pergunta veio sem acusação, só medo. Ricardo se ajoelhou ali mesmo no corredor.
O chão frio atravessou o tecido da calça, mas ele não se importou. Não hoje, disse, hoje eu fico Clara se jogou no colo dele. Beatriz encostou a cabeça em seu ombro. Ana demorou um pouco mais, mas veio. Por que vocês estavam na cama tão cedo? perguntou, tentando soar leve. Ana olhou para o corredor antes de responder, depois se inclinou até o ouvido dele.
“A gente não tá com sono, papai”, sussurrou. “A gente tá com fome. Ricardo sentiu algo quebrar por dentro. Não fez barulho, não caiu no chão, mas partiu. “Quem fez vocês subirem?”, perguntou, embora já soubesse. A Helena, disse Beatriz baixinho, ela ficou brava. Ricardo beijou as três cabeças, uma por uma. Eu tô aqui disse.
E amanhã eu também vou estar. Quando voltou para o quarto, ele não conseguiu dormir. Ficou sentado na cama, olhando para a escuridão, lembrando cada gesto, cada palavra, cada silêncio que ele tinha. Ignorado por meses, levantou-se antes do amanhecer, desceu até o escritório, acendeu apenas a luminária da mesa. A casa dormia, mas ele não abriu a gaveta inferior, tirou um tablet fino, conectou ao sistema interno.
As câmeras ele nunca tinha usado. Instalou por segurança, disseram, por precaução. Agora a tela mostrava a cozinha vazia, a sala limpa demais. O corredor longo. Ricardo respirou fundo. “Vamos ver quem você é quando ninguém está olhando”, murmurou para a tela apagada. No visor escuro por um instante, ele viu o próprio reflexo. Um homem cansado, um pai atrasado.
E pela primeira vez teve certeza de uma coisa: ausência dele tinha dado espaço para um rosto que não deveria existir dentro daquela casa. A casa acordou antes do sol, não com barulho, mas com um movimento contido, quase invisível. Ricardo estava de pé no escritório, a xícara de café esfriando na mão, os olhos fixos na tela.
As câmeras mostravam a cozinha vazia, o corredor longo, a sala de jantar limpa demais para ser de verdade. Ele respirou fundo. Não estava caçando erros, estava procurando algo simples, coerência. Às 6:15, Lúcia entrou na cozinha. O uniforme estava passado, o cabelo preso com cuidado. Antes de qualquer coisa, ela fez um gesto rápido, um sinal da cruz quase tímido, e abriu a janela.
A luz da manhã entrou em lâminas, tocando a bancada, o chão, o rosto cansado dela. Ricardo se inclinou para a frente. Lúcia colocou água para ferver, cortou frutas, mexeu a panela com movimentos econômicos. Não havia pressa, não havia teatro, apenas rotina. Em cada lancheira, ela colocou um bilhete dobrado, pequeno demais, para as câmeras lerem, mas ele sabia.
Palavras curtas, letras tortas, um carinho escondido. Às 7, Helena entrou, roupão de seda, celular na mão. Não olhou para Lúcia, foi direto à cafeteira. O café está fraco, disse, sem provar. faz outro. Lúcia desligou a cafeteira recém-feita e começou de novo. Nenhuma resposta, nenhum suspiro alto. No monitor da sala, as meninas desciam à escada arrastando as mochilas.
Pareciam menores naquele ângulo, mais quietas. “Bom dia”, disse Ana, educada demais. Helena emitiu um som curto, sem levantar os olhos do telefone. Quando Lúcia colocou os pratos na mesa, algo mudou. Não era grande, era sutil. Os ombros das meninas relaxaram. Beatriz sorriu de leve. Clara puxou a cadeira para mais perto de Lúcia.
“Você me penteia?”, pediu Clara tocando a trança torta. Helena respondeu sem olhar. Não temos tempo para isso. Lúcia olhou o relógio, depois olhou para Clara, tirou um pente pequeno do bolso do avental. Rapidinho, disse, quase num sussurro, magia de mãos rápidas. Ela segurou a raiz do cabelo para não doer, penteou com cuidado, amarrou um laço simples, um gesto pequeno que encheu a cozinha. Ricardo sentiu o peito apertar.
“A Helena disse que somos um peso”, murmurou Beatriz sem levantar os olhos do prato. Lúcia se abaixou até ficar naaltura dela. As mãos enluvadas seguraram as mãos pequenas. “Olha para mim”, disse, “Vocês são um presente sempre”. A frase ficou no ar. Não foi dita alto, não precisava. Helena saiu da cozinha com passos secos.
As meninas terminaram de comer em silêncio. Lúcia recolheu os pratos, beijou as três testas rapidamente. Um beijo de quem sabe que pode ser visto. E voltou a pia. Ricardo recostou na cadeira, fechou os olhos por um segundo. No meio da manhã, a câmera captou algo diferente. Helena voltou à cozinha. Não chamou, não falou, caminhou até a cadeira onde estava o bolso de pano de Lúcia.
Olhou ao redor, um segundo, dois. A mão entrou no bolso com um gesto treinado. Ricardo sentiu o estômago gelar. O brilho rápido de uma joia desapareceu dentro do tecido barato. Helena sorriu, um sorriso curto, satisfeito, chamou as meninas, pegou as chaves e saiu. Ricardo não se moveu, não gritou, não correu. Ele desligou as telas. Ainda não
murmurou. Ainda não. A noite chegou pesada, com o céu carregado e o ar abafado. A mesa estava posta com perfeição, guardanapos alinhados, talheres polidos, um centro de flores vermelhas que parecia exagerado. As meninas sentaram com cuidado. Lúcia servia água tentando existir. “O assado está seco,” disse Helena, provando sem paciência.
Normal quando o serviço não sabe o ponto. Ricardo pousou os talheres. Eu gostei, respondeu simples. Helena sorriu, um sorriso de vitrine. Você sempre foi assim. Bom demais. O silêncio cresceu. Helena tocou o pulso. Meu bracelete, disse alto demais. Não está aqui. As meninas pararam de mastigar. Lúcia congelou. Deve estar no quarto”, disse Ricardo sem pressa.
“Não.” Helena respondeu já se levantando. Eu estava com ele hoje o tempo todo. Ela olhou para Lúcia. Abre sua bolsa. O pedido caiu pesado. “Senhora” Lúcia balbuciou. Agora Helena virou a bolsa sobre a mesa. O som metálico foi alto. O bracelete rolou sobre o pano branco e parou no centro. As meninas começaram a chorar.
“Eu não fiz isso”, disse Lúcia, a voz quebrando. Eu juro. Helena cruzou os braços. A prova está aí. Ricardo se levantou, caminhou até a mesa, pegou o bracelete pesado, frio. “Você tem razão”, disse com a voz baixa. “Isso é sério?” Helena respirou aliviada, aproximou-se confiante. “Chama a polícia.” Ricardo não respondeu.
Tirou algo do bolso, um controle pequeno. Antes disse, eu quero mostrar uma coisa. A televisão da sala de jantar acendeu. A imagem era nítida. A cozinha, amanhã, o bolso aberto, a mão de Helena entrando no enquadramento, o bracelete caindo, o sorriso, o silêncio foi absoluto. Helena deu um passo para trás.
Isso, isso é Ricardo não elevou a voz, não precisou. A verdade não grita, ela só aparece na tela, a imagem congelou no exato momento em que o brilho desaparecia dentro da bolsa e ninguém naquela mesa conseguiu desviar o olhar. A porta da frente ficou aberta tempo demais. O vento entrou trazendo cheiro de chuva e rua. E por alguns segundos a casa, aquela casa silenciosa, perfeita, pareceu perder o ar, como se enfim lembrasse que era só parede, que lar é outra coisa.
Helena ficou no meio da sala de jantar, pálida, com os olhos grudados na tela congelada. O bracelete ainda brilhava sobre a toalha branca, obsceno, como uma prova que não precisava de palavras. Ricardo não gritou, não bateu na mesa. A voz dele veio baixa como uma lâmina. Você tem 5 minutos disse. Ah, pega suas coisas e vai embora.
Helena soltou uma risada curta, nervosa, tentando recuperar a máscara. Ricardo, amor, isso é um mal entendido. Não existe mal entendido em 4K. Ele respondeu sem olhar para ela. E não existe desculpa quando envolve as minhas filhas. As meninas estavam grudadas em Lúcia, não por educação, por instinto. Ana segurava o braço dela como se segurasse um poste no meio de um mar revolto. Beatriz tremia.
Clara fungava com o rosto enfiado na cintura de Lúcia. Helena viu aquilo e o veneno voltou. Olha só, ela cuspiu. Você virou o quê? A santinha? A mãe substituta. É isso que você quer, Ricardo? Trocar a sua noiva por uma empregada? Ricardo caminhou até a porta principal e abriu de vez. A chuva veio em rajadas, batendo no mármore do hall. Sai agora.
Helena hesitou. O orgulho não queria ceder, mas o medo sim. Tá bom. Ela rosnou. Eu vou, mas isso não vai acabar assim. Ela subiu as escadas com pressa, os saltos batendo como tiros. Ricardo foi atrás, não para implorar, para garantir que ela não deixasse mais uma ferida no caminho. No quarto, Helena não arrumou mala.
Ela espalhou roupa como quem destrói um palco antes de ser expulsa. “Você acha que ganhou?”, Ela disse, o rímel começando a escorrer. Você não faz ideia do que eu posso fazer com a sua vida. Ricardo ficou na porta, braços cruzados, o corpo inteiro duro. Eu faço ideia do que você fez com a vida das minhas filhas? Ele respondeu.
E isso é suficiente. Helena parou, respirou fundo e trocou de tática. O olhar dela ficoufrio, calculado. “A imprensa adora um escândalo”, ela sussurrou. “O magnata abandona a noiva por uma doméstica. Acha que seus sócios vão gostar. Acha que os jornais vão ser gentis. Ricardo sentiu o golpe, não ego, mas no estômago.
Helena se aproximou mais e o conselho tutelar.” Ela disse baixinho como uma cobra. Você vive viajando. Eu posso dizer que você não é um pai presente que deixa as meninas com uma mulher sem estudo, sem referência, sem nada. Você quer correr o risco de alguém bater aqui e tirar suas filhas de você? O ar ficou pesado.
Por um segundo, Ricardo viu a sombra do pior cenário. Ana, Beatriz e Clara em um abrigo, chorando, sem entender porquê. Só porque ele deixou uma pessoa errada entrar e falar mais alto. Ele não respondeu, só apontou para amá-la. Some daqui antes que eu perca o resto de paciência que eu tenho”, disse. Helena pegou a bolsa, fechou a mala com raiva e passou por ele com um ombro roçando no braço dele. Isso não acabou.
Ela sebilou. Ricardo a viu descer. As meninas se esconderam atrás do sofá quando ela passou. Lúcia ficou de pé, quieta, olhando sem desafiar, mas sem abaixar a cabeça. Quando a porta bateu lá embaixo, o som ecoou pela casa inteira, um capítulo fechando. Ricardo desceu correndo, abraçou as filhas com força, como se o corpo dele pudesse virar escudo.
Ela foi embora, disse: “Não volta mais.” Promessa de sangue? Beatriz pediu estendendo o mindinho. Ricardo entrelaçou o dedo grande no dela, promessa de sangue. Só então ele olhou para Lúcia. Ela estava pálida, as mãos tremiam, não de alívio, de medo. Ela tinha ouvido a palavra conselho tutelar, tinha ouvido tirar as meninas e aquilo entrou nela como sentença. Lúcia.
Ricardo se aproximou. a voz mais suave. Você está segura aqui. Ela a sentiu, mas não olhou nos olhos dele. Sim, senhor. Ela respondeu automático. Eu só quero fazer as coisas certas. Aquela frase ficou presa no peito dele o resto da noite. A casa dormiu tarde. As meninas custaram a pegar no sono. Ricardo ficou sentado entre as três camas até ouvir a respiração delas ficar funda.
Quando saiu do quarto, viu Luz na cozinha. Lúcia estava sentada à mesa sozinha, não comendo, só encarando as próprias mãos, como se estivesse pesando cada decisão. Ricardo parou na porta sem entrar. Ela enxugou uma lágrima rápida com o dorso da mão, como se fosse proibido chorar ali. Depois levantou, foi até o armário, pegou uma mala velha, daquelas que já viram muita estrada.
O coração dele apertou. Lúcia, ele chamou baixo. Ela se virou assustada. O rosto dela estava aberto, frágil. Eu ouvi o que ela disse. Lúcia falou sobre tirar as meninas. Ricardo deu um passo à frente. Ela falou por maldade. Eu tenho provas. Ela não chega perto de vocês. Lúcia balançou a cabeça. Um não, que vinha de dentro. Senhor Ricardo.
E a palavra Senhor doeu mais do que qualquer coisa. O Senhor é grande, o Senhor tem nome. Eu sou um ponto fraco. Se alguém quiser machucar o Senhor, vão mirar em mim. E por tabela nelas, Ricardo tentou responder, mas ela continuou mais rápido, como se parasse, não tivesse coragem. Elas me amam. Eu amo elas.
Mas amor não é só abraço. Amor também é não virar motivo para alguém arrancar essas meninas do pai. Ela apertou a mala velha. Eu não posso ficar. Ricardo ficou parado. A garganta fechou. Você está me dizendo isso, olhando para mim. Ele disse, a voz falhando. Ou é para convencer você mesma. Lúcia engoliu seco, olhou para baixo, é para proteger elas.
E naquela madrugada a casa voltou a respirar frio, porque Lúcia esperou o silêncio completo. Subiu devagar, entrou no quarto das meninas, beijou as três testas, uma por uma, sem acordar. Depois deixou uma carta na cozinha, ao lado as chaves, e, dobrados com cuidado, os luvas amarelas. Quando a porta dos fundos fechou, foi um som menor do que a porta da frente, um clique discreto, mas foi o som mais cruel da casa inteira.
De manhã, o sol entrou bonito, cruelmente bonito. Ricardo desceu com uma leveza que não combinava com o que estava por vir. O corpo dele ainda acreditava que o pior tinha acabado. Lúcia chamou, indo para a cozinha. Silêncio. A cozinha estava limpa demais, fria demais, sem cheiro de café, sem som de panela, sem bilhete dobrado nas lancheiras, na ilha de mármore, uma folha de caderno dobrada, as chaves e as luvas amarelas, como se fossem duas mãos abandonadas.
Ricardo sentiu o chão sair, pegou a carta com dedos trêmulos. Senhor Ricardo, obrigada por me tratar como gente, mas eu não posso ficar. Se eu ficar, vou trazer problema e eu prefiro ir embora do que ser a causa de alguém tirar as meninas do Senhor. Diga a elas que eu amo muito a Deus. Ele leu uma vez. Duas, três. Não ele sussurrou.
E o som saiu como alguém perdendo o ar. As meninas apareceram na porta de pijama. Papai, cadê a Lúcia? Clara perguntou. Ricardo tentou sorrir, não conseguiu. Ela precisou ir, ele disse ajoelhando,mas ela volta no almoço. Beatriz disse com certeza infantil. Ricardo balançou a cabeça e o choro das três não foi birra, foi luto, foi perda.
A casa tremeu de um jeito que dinheiro nenhum conserta. Horas depois, no quarto, Ana apertava um ursinho velho contra o peito. “Um desses que grava som. “Eu quero ouvir ela”, Clara, murmurou. Ricardo pegou o brinquedo sem entender porquê, apertou o botão chiado e então a voz. Não era Lúcia, era Helena. Escutem bem, pirralhas.
Se vocês falarem pro seu pai que eu não dei comida, eu jogo esse urso no lixo. Seu pai não ama vocês. Ele só aparece por pena. Ricardo soltou o urso como se queimasse. As meninas ficaram imóveis, como se a bruxa tivesse voltado pela boca do brinquedo. Naquele instante, o rosto de Ricardo mudou. O mesmo homem controlado, racional, virou outra coisa. Não, raiva descontrolada.
Determinação. Ele pegou o celular, discou um número. Quero o melhor investigador que você tiver, disse a voz firme. Agora e prepara o carro. Eu vou buscar a Lúcia. Ele olhou para as filhas, ajoelhado no chão com elas. Ficar é um ato de coragem, ele falou baixo. E eu fui covarde, tempo demais. Agora eu vou trazer ela de volta, eu prometo.
Lá embaixo, na cozinha vazia, as luvas amarelas ficaram sobre o mármore e móveis, como se a casa estivesse esperando as mãos certas voltarem a tocar nela. M.















