O riso veio antes da imagem, veio antes da luz, antes do cheiro, antes do pensamento. Um riso infantil, claro, solto e impossível, atravessou o corredor de mármore e atingiu Augusto Valença como um golpe físico no exato segundo em que ele girou a chave na fechadura. Não foi um som alto, foi pior. Foi vivo demais para aquela casa.
Augusto congelou no limiar da porta. O terno escuro ainda guardava a umidade fina da garoa paulistana. O cheiro da rua, asfalto molhado, folhas esmagadas, gasolina distante. Entrou com ele. Mas o riso, o riso não vinha de fora, vinha de dentro. E aquela casa não produzia risos havia do anos.
Ele não se moveu, não tirou o casaco, não respirou fundo como costumava fazer antes de atravessar aquele espaço enorme e silencioso que aprendera a chamar de lar. O riso se repetiu, acompanhado de um som seco, algo batendo no chão, e de uma voz infantil que arriscava sílabas desajeitadas, como se estivesse reaprendendo a existir.
Augusto sentiu o estômago se contrair. Desde a morte de Helena, sua esposa, aquela casa funcionava como um organismo frio e eficiente. Nada fora do lugar, nada fora do horário, nada que lembrasse improviso, bagunça ou alegria. Ele pagava caro por isso. Pagava para que tudo funcionasse sem ser sentido. Pagava para que as pessoas fossem invisíveis.
Deixou a pasta de couro cair no chão do hall. O som foi abafado pelo carpete importado e ainda assim engolido pelo riso que vinha da sala principal. um riso que não lhe pertencia. Não desde a noite em que o monitor cardíaco se transformara numa linha contínua e o deixara viúvo. E seu filho, órfão de mãe, Augusto, avançou.
caminhou pelo corredor como quem invade um território que acreditava desabitado. Cada passo era calculado, silencioso, automático, o mesmo andar com que entrava em salas de reunião para encerrar negócios milionários. Mas algo estava errado. A luz da sala estava acesa, uma luz quente demais, amarela demais.
Quando chegou ao arco que dava acesso ao Living, ele parou. A cena o atingiu sem aviso. No centro da sala, sobre o tapete peça, que custava mais do que o salário anual de qualquer funcionário da casa, Lúcia estava de joelhos, as mãos apoiadas no chão, o corpo inclinado para a frente, não usava luvas. O uniforme simples estava amarrotado.
Havia algo de completamente fora de protocolo naquela postura. Sobre as costas dela, rindo com o corpo inteiro, estava Miguel, seu filho. Miguel, que mal olhava Augusto nos olhos havia meses. Miguel, que quase não falava desde a morte da mãe. Miguel, que agora jogava a cabeça para trás, soltando um riso aberto, cristalino, enquanto batia os calcanhares nas laterais do corpo da mulher.
“Anda, cavalo!”, a voz infantil saiu torta. Mas saiu. O mundo de Augusto inclinou alguns graus para a sanão esquerda. O ar pareceu raro efeito. O som do riso bateu dentro do peito dele como um veneno quente. Seu filho estava vivo. Vivo de um jeito que ele não via havia tanto tempo que doía reconhecer. Mas não era com ele, era com a empregada, com a mulher que ele pagava para limpar, cozinhar, vigiar.
A árvore de Natal, perfeita, simétrica, montada por uma equipe contratada, piscava ao fundo, projetando luzes douradas sobre a cena absurda. Havia presentes sob o pinheiro, caixas impecáveis, laços de seda, compras feitas por assistentes, seguindo listas frias. Miguel não olhava para nenhum deles. Toda a atenção dele estava ali nas costas de Lúcia, no jogo improvisado.
No momento, Lúcia virou o rosto e relinchou de brincadeira. Um som ridículo, exagerado. Miguel gritou de alegria. Foi então que a luz do abajur atingiu o rosto dela. Augusto percebeu algo que nunca tinha visto. Não havia ali a expressão neutra, submissa, quase apagada, que ela costumava exibir quando lhe servia café ou informava que o jantar estava pronto.
Os olhos de Lúcia brilhavam, as bochechas estavam coradas. O sorriso, o sorriso era verdadeiro, tão verdadeiro, que parecia indecente naquela casa de luto. Augusto deu um passo à frente. O salto do sapato bateu na madeira onde o tapete terminava. O som ecoou como um disparo. O efeito foi imediato.
Lúcia congelou com um joelho suspenso no ar. O sorriso desapareceu do rosto dela, como se tivesse sido arrancado à força. Miguel sentiu a mudança no corpo que o sustentava. O riso morreu na garganta. A alegria foi sugada da sala, deixando um vazio pesado, quase palpável. O ar esfriou. Lúcia virou o rosto lentamente. Não precisava ver para saber quem estava ali. O medo chegou antes.
Quando seus olhos encontraram os de Augusto, o mundo dela pareceu encolher. Ele estava parado na entrada da sala, alto, imóvel, o terno azul marinho impecável, o rosto transformado numa máscara severa. Não havia ali nenhum traço de Natal, apenas um homem poderoso que sentia pela primeira vez que algo lhe fora tomado sem que percebesse.
Lúcia tentou se levantar. O movimento brusco fez Miguel escorregar. O menino caiu sentado notapete. Por um segundo, Augusto achou que ele correria em sua direção. Era o lógico, era o esperado. Miguel não correu. Miguel engatinhou para trás, rápido, instintivo, até alcançar as pernas de Lúcia. Agarrou-se ao tecido do uniforme dela, como se fosse uma âncora.
Enterrou o rosto ali, escondendo-se do pai. Algo se partiu dentro de Augusto. Não foi um som, não foi um pensamento claro, foi uma rachadura silenciosa, profunda, mais dolorosa do que qualquer grito. Seu filho tinha medo dele. Seu filho buscava proteção nos braços da mulher que limpava seus banheiros.
Lúcia tirou as mãos do chão com pressa. Tentava parecer pequena, inofensiva. Arrancou um guardanapo de pano da mesa lateral, usado para limpar restos de biscoito, e o apertou entre os dedos trêmulos, como se aquilo pudesse lhe dar algum controle. Senhor Augusto. A voz dela saiu baixa, quase um pedido de desculpas por existir.
Ele não respondeu, deixou o silêncio crescer. Um silêncio denso, torturante, que ocupava cada canto daquela sala decorada para parecer feliz. Seus olhos percorreram o chão, os brinquedos simples espalhados, brinquedos que ele não lembrava de ter comprado. Olhou o rosto do filho, ainda vermelho, do riso que não existia mais.
Depois fixou o olhar em Lúcia, na mulher que, sem autorização, sem contrato emocional, tinha ocupado o espaço que ele deixara vazio, como um monumento à própria dor. Miguel apertou ainda mais o uniforme dela. O tecido amarrotou sob. Augusto sentiu o peso daquele gesto como um aviso silencioso e naquele instante suspenso, com o guardanapo amassado nas mãos de Lúcia, a árvore piscando ao fundo e o filho escondido atrás de alguém que não era ele.
Augusto compreendeu mesmo sem admitir. Aquela casa tinha voltado a ouvir risos e ele não fazia parte deles. Augusto demorou alguns segundos para reagir. Não porque não soubesse o que dizer. Ele sempre soube o que dizer, mas porque pela primeira vez não sabia como dizer. Miguel continuava agarrado à perna de Lúcia, o rosto escondido, a respiração curta e regular, não chorava.
O silêncio do menino era pior do que qualquer grito. Augusto conhecia aquele silêncio. Tinha aprendido a aceitá-lo como parte do luto, como uma consequência inevitável da perda. Mas agora, agora aquele silêncio tinha endereço, tinha escolha. Ele pigarreou. Miguel chamou, a voz controlada demais, como se estivesse em uma sala de conselho. Venha aqui.
O menino não se moveu. Os dedos pequenos apertaram ainda mais o tecido do uniforme simples. Lúcia sentiu o puxão e, instintivamente flexionou um pouco os joelhos, baixando o centro do corpo, tentando proteger sem parecer que estava protegendo. Augusto percebeu o gesto e aquilo o irritou. Solta ele”, disse, olhando diretamente para ela.
Lúcia obedeceu pela metade, afrouchou o corpo, mas não empurrou o menino. Miguel continuou ali colado, como se o mundo fosse desabar se afastasse 1 cm. Augusto respirou fundo, olhou para o filho. Foi então que algo lhe chamou a atenção. O casaco. Miguel não vestia o conjunto de veludo azul marinho que ele mandara comprar, aquele da vitrine iluminada da loja italiana, escolhido por uma assistente seguindo instruções claras: elegante, discreto, adequado para a noite de Natal.
O que Miguel vestia agora era outra coisa. Um casaco de lã grossa, cor creme, com pontos irregulares. As mangas eram um pouco longas demais, dobradas com cuidado. Havia um pequeno defeito perto da gola, um ponto frouxo, quase invisível, mas que denunciava o feito à mão. Augusto franziu o senho. O que é isso? perguntou, apontando para o peito do filho.
Onde está a roupa que eu comprei? Lúcia baixou o olhar. Não imediatamente. Primeiro passou a mão de leve no ombro de Miguel, num gesto automático, quase inconsciente. Só depois respondeu: “Ele estava com frio, senhor.” A resposta foi simples, curta e, por isso mesmo, perigosa. Frio? Augusto soltou uma risada sem humor.
Esta casa tem calefação central, termostatos em todos os cômodos. Tem correntes de ar, disse ela, ainda baixa, sem confrontar. É uma casa muito grande. Augusto sentiu o sangue subir. Não era sobre a temperatura, era sobre decisão. Sobre alguém ter decidido algo no lugar dele. E por isso você achou que podia vestir meu filho com isso? Ele fez um gesto vago de desprezo em direção ao casaco.
Parece roupa de doação. Miguel se mexeu. Pela primeira vez desde que Augusto entrara na sala. O menino levantou o rosto, não olhou para o pai, olhou para o próprio casaco. As mãos pequenas subiram, cobrindo o peito, como se protegessem algo frágil. Lúcia respirou fundo. Elan virgem, senhor, disse. Eu que fiz.
As palavras caíram no ambiente como algo pesado demais para aquele silêncio. Augusto piscou. Ela tinha feito com as próprias mãos. Não tinha comprado, não tinha pedido autorização, não tinha passado pelo catálogo, pela lista, pelo preço, tinha simplesmente feito. Uma imagem rápida atravessou amente de Augusto. Lúcia sentada à noite, depois do expediente, tricotando em silêncio, não para ganhar mais, não para agradar, mas para aquecer uma criança que não era dela.
aquilo o expôs e ele odiava se sentir exposto. “Tire isso dele”, ordenou seco. Agora Miguel enrijeceu. Os dedos apertaram ainda mais o tecido. O corpo pequeno se encolheu. “Miguel”, insistiu Augusto, mais firme. “Solta!” O menino balançou a cabeça rápido, frenético. O ar entrou de forma irregular pelos lábios. “Não”, disse. A palavra saiu clara. inteira, audível.
O tempo parou. Augusto sentiu um impacto no peito, como se alguém tivesse empurrado o ar para fora dele. Aquela era a primeira palavra que Miguel lhe dizia em meses e era uma negação, um limite. O orgulho tentou reagir primeiro. A raiva veio logo atrás, quente, defensiva. Ele deu um passo à frente.
Lúcia sentiu atenção e, antes que pudesse pensar, colocou o corpo um pouco mais à frente do menino. Não de forma explícita, não como desafio, mas como quem se posiciona entre uma corrente fria e algo que não pode esfriar. Senhor, por favor. A voz dela tremeu, mas não recuou. Ele só quer ficar aquecido. Augusto olhou para a cena.
As mãos do filho agarradas à lã áspera, a pele clara, contrastando com o tecido simples. Pensou nos presentes sob a árvore. Pensou no preço de cada um, pensou no tempo que levara para escolher tudo aquilo e no pouco tempo que passara ali naquele chão, naquela altura. Suba com ele”, disse de repente. “Leve-o para o quarto, troque essa roupa, coloque o que eu mandei comprar.
Depois desça para a cozinha. As palavras saíram frias, organizadas. Um plano, um retorno à ordem. Não quero você na sala quando meus convidados chegarem, completou. Sirva o jantar e desapareça. Lúcia assentiu. Não discutiu. Não chorou. Apenas se abaixou e pegou o Miguel no colo. O menino se deixou levar, envolvendo as pernas na cintura dela, apoiando a cabeça no ombro, como se aquele fosse o único lugar seguro da casa.
Augusto observou a cena com o maxilar travado. Enquanto subiam à escada, o casaco de lance destacava como uma mancha clara no meio da arquitetura impecável, uma imperfeição visível, uma afronta silenciosa. Miguel levou a mão ao próprio peito, segurando o tecido, como quem segura um segredo. Antes de virar no corredor do andar de cima, o menino olhou para trás, não diretamente para o pai.
Olhou para a sala, para a árvore, para o espaço onde tinha ido minutos antes. Augusto percebeu algo tarde demais. Não era o casaco que ele queria proteger, era o que vinha junto com ele. A casa voltou ao silêncio depois que a porta do quarto de Miguel se fechou no andar de cima. Mas não era o mesmo silêncio de antes. Augusto ficou parado no meio da sala por alguns segundos, olhando para o espaço vazio onde o riso tinha existido.
As luzes da árvore de Natal piscavam num ritmo lento, quase cansado. Os presentes continuavam intactos, alinhados demais, perfeitos demais. Nenhuma fita rasgada, nenhuma caixa fora do lugar. Ele afroux o nó da gravata com um movimento brusco. O ar parecia pesado, como se a casa tivesse diminuído alguns centímetros sem avisar.
Precisava de algo concreto, um gesto automático, qualquer coisa que o tirasse daquele desconforto estranho. Caminhou até o bar e serviu um whisky duplo sem gelo. O líquido desceu queimando, mas não aqueceu nada por dentro. apenas confirmou o frio. Do andar de cima nenhum som, nem passos, nem choro. Miguel sempre fora assim, silencioso demais.
Augusto costumava chamar aquilo de fase, de processo, palavras limpas para esconder a ausência. Ele passou pela sala e seguiu para a cozinha. Não sabia exatamente porquê. Talvez porque ali o silêncio fosse diferente, menos solene, menos acusador. A cozinha estava impecável, bancadas limpas, louça guardada, um leve cheiro de comida caseira ainda pairava no ar, cebola refogada, massa assada, algo simples. Augusto franziu o nariz.
Não lembrava de ter pedido nada daquilo. Apoiou o copo na ilha central. Foi então que notou algo fora do padrão. A lixeira pequena, a de recicláveis, estava quase vazia, mas algo colorido despontava por cima da borda. Não era plástico, nem papel comum. Era mais grosso, mais rígido. Augusto hesitou por um segundo.
Não tinha o hábito de vasculhar lixo. Pagava para não precisar fazer isso. Ainda assim, algo o puxou para a frente, abaixou-se, retirou a bola de papel amassada. Estava úmida em alguns pontos, como se tivesse sido apertada com força demais. Ele a levou até a bancada e começou a desdobrá-la com cuidado, alisando as marcas com a palma da mão.
Era um desenho. Traços infantis feitos com cera colorida, pressionados com intensidade. Não havia preocupação com proporção, nem com espaço. Havia urgência. Augusto sentiu o impacto antes de entender. No centro do papel, uma figura grande, azul, com algo amarelo sobre a cabeça, um sorriso enorme, exagerado, ocupando metade do rosto.
Braços longos envolvendo uma figura menor ao lado, Miguel. O menino estava desenhado com um casaco claro, cheio de linhas, em forma de oito, o mesmo casaco, os mesmos detalhes, pequenos corações e sóis espalhados ao redor dos dois. E então havia a terceira figura. No canto superior esquerdo da folha, quase fora do papel, uma mancha escura, cinza, preta, um corpo alto, reto, sem braços abertos, sem sorriso, sem rosto.
Abaixo, escrito com letras tortas e invertidas, alguém, Miguel, ou talvez com ajuda de Lúcia, tinha colocado uma palavra simples: papai. O som do mundo desapareceu. Augusto ficou imóvel, olhando para o desenho como se fosse algo vivo. Aquilo não era apenas um rabisco, era um mapa, uma fotografia brutal da vida do filho, um retrato feito sem intenção de ferir e, por isso mesmo, impossível de ignorar.
Ele era a sombra, o espaço vazio, o canto distante. O desenho tinha sido jogado fora. Por quem? Ele não sabia. Talvez Miguel, frustrado, talvez Lúcia, com medo de que ele visse. A dúvida doeu menos do que a certeza estampada no papel. Augusto dobrou o desenho com cuidado. Não amassou de novo. Guardou-o no bolso interno do palitó perto do peito.
Sentiu o peso ali estranho e quente. Não conseguiu voltar para a sala. mudou de direção, seguiu pelo corredor até o escritório. A porta se fechou atrás dele com um clique seco. As cortinas estavam fechadas. Apenas a luz azulada das telas de segurança iluminava o ambiente. Augusto nunca gostara daquele sistema.
Câmeras demais, olhos demais. Ainda assim, naquela noite, sentou-se diante dos monitores, como quem busca uma confissão. Digitou a senha, as imagens começaram a correr para trás, horas, dias, semanas. Procurava falhas, procurava algo errado, qualquer coisa que justificasse o desconforto que sentia, algo que o fizesse recuperar o controle.
Na tela da sala dois dias antes, a casa estava vazia. Augusto estava no escritório. Lúcia aparecia limpando a estante. De repente, ela parou, olhou ao redor, como quem pede permissão ao ar. Caminhou até o aparelho de som. Augusto prendeu a respiração. Ela apertou um botão. A música encheu a sala e segundos depois o escritório.
Um som antigo, um piano suave, um ritmo que ele conhecia bem demais. Era o valsa favorita de Helena. Augusto sentiu o estômago revirar. Ele tinha proibido aquela música, era dolorosa demais. Mas Lúcia, Lúcia estendeu a mão para Miguel, que brincava no chão com blocos de madeira. Vem, meu amor. A voz dela atravessou os altofalantes.
Vamos dançar como a mamãe danceva. Miguel se levantou, um sorriso tímido. Lúcia o pegou no colo e começou a girar, desajeitada, sem técnica, apenas sentindo o ritmo. O menino riu. Não riso alto, um riso íntimo. Sua mamãe era uma princesa sussurrou Lúcia. E esse som é ela te abraçando? Augusto levou a mão à boca. Os olhos arderam.
Ele tinha tentado apagar aquela memória para não doer. Lúcia tinha mantido viva para que Miguel sobrevivesse a ela. A imagem mudou. Agora era a manhã seguinte. O corredor do andar de cima. Lúcia e Miguel pararam diante do retrato de Helena. É Natal, disse ela. O que a gente diz? Miguel levantou a mão, tocou o ar. Os lábios se moveram com esforço.
Má, mamãe completou mais firme. Augusto desligou o monitor com força. O escritório mergulhou na escuridão, mas a palavra continuou ecoando. Mamãe! Ele se deixou cair na cadeira, sentindo algo ceder por dentro. Não era raiva, era vergonha. Vergonha de ter acreditado que o silêncio protegia. vergonha de ter confundido a ausência com respeito.
Levantou-se de repente. Precisava ir até o quarto do filho. Precisava tentar qualquer coisa, mas antes que alcançasse a porta, o interfone tocou. Augusto olhou para o relógio. Era cedo, Natal. Ninguém deveria estar ali. Atendeu. Na tela apareceu o rosto impecável de Renata Moreira. Maquiagem perfeita, casaco caro, o sorriso treinado de quem nunca espera.
Augusto sentiu um aperto estranho no peito. Atrás dele, no bolso do palitó, o desenho dobrado pressionava contra o coração. E, pela primeira vez, ele teve medo do que ainda estava por vir. Renata entrou como se a casa lhe pertencesse. O salto fino ecoou no piso com a mesma precisão de sempre. O casaco claro, perfeitamente ajustado, contrastava com o clima úmido da noite.
Ela sorriu antes mesmo de falar, um sorriso treinado, desses que não pedem permissão para ocupar o espaço. “Cheguei cedo”, disse, estendendo os braços para um abraço que Augusto não devolveu. Ele permaneceu imóvel. O corpo ainda estava preso ao que tinha visto minutos antes nas telas do escritório. A música, a palavra que Miguel tinha conseguido dizer, a verdade que agora queimava por dentro.
Renata percebeu a rigidez, não comentou. Apenas caminhou pela sala, avaliando a decoração, os presentes, a árvore. Parou ao notar um brinquedo simples esquecido perto do sofá. Isso não combina com o resto, observou, empurrando o objeto com a ponta do pé.Augusto respirou fundo. “Onde está o Miguel?”, perguntou ela finalmente, dormindo.
“Ainda tão difícil?” Renata suspirou, tirando as luvas. “Essas crianças sentem demais. Falta estrutura.” A palavra caiu pesada, estrutura. Do andar de cima, um barulho seco, um passo pequeno, depois outro. Augusto levantou a cabeça no mesmo instante. Miguel apareceu no topo da escada. O casaco de lã ainda envolvia o corpo pequeno.
Os olhos estavam atentos, cautelosos. Ele segurava algo nas mãos, um carrinho de madeira, gasto nas bordas. Renata franziu a testa. Ele não devia estar acordado”, disse sem suavizar o tom. Miguel desceu alguns degraus, parou, olhou para Augusto, depois olhou para Renata. A mão pequena apertou o brinquedo. “Miguel”, chamou ela, abrindo um sorriso exagerado.
“Venha dar um beijo.” O menino não se moveu. Renata deu um passo à frente. O salto bateu mais forte. Miguel recuou instintivamente, tropeçando no próprio pé. O carrinho caiu no chão, deslizando até parar perto da mesa. Renata perdeu a paciência. Augusto, isso não é saudável, disse seca.
Ele precisa aprender limites. Abaixou-se, pegou o carrinho e estendeu para o menino com brusquidão. Pegue, mas pareiguo. No meio do gesto, Renata puxou o brinquedo de volta, rápida demais. O movimento acertou os dedos dele, um estalo seco, pequeno, mas suficiente. Miguel puxou a mão e o rosto se contraiu.
Não chorou, apenas emitiu um som curto, preso no peito. Lúcia apareceu no corredor da cozinha no mesmo instante. Ela correu, não gritou, não pediu permissão, apenas se colocou à frente de Miguel, ajoelhando-se para ficar da mesma altura. “Ei”, disse, tocando de leve os dedos do menino. “Já passou”. Renata se levantou de um salto. “Você viu isso?”, virou-se para Augusto, indignada.
“Essa mulher está interferindo demais. está confundindo seu filho. “Não toque nele assim”, disse Lúcia com a voz baixa, firme. Não olhou para Renata, olhou para Miguel. O silêncio caiu pesado. Renata riu sem humor. “Está vendo?”, apontou. Ela não sabe o lugar dela. Augusto sentiu algo mudar. Não foi rápido, não foi explosivo, foi como um eixo interno que girou alguns graus e de repente tudo ficou desalinhado.
“Solte o carrinho”, disse ele. Renata o encarou. “O quê?” “Solte”, repetiu. Ela obedeceu, irritada. O brinquedo caiu no chão. Miguel o pegou. Etai, em vez de se afastar, deu dois passos na direção de Augusto, parou ali, levantou o objeto. “Pai”, disse quase sussurrando. “O mundo pareceu respirar junto. Renata arregalou os olhos”. “Isso, isso é manipulação”, disse rindo nervosa.
“Ele só está repetindo o que essa mulher ensina.” “Chega.” Augusto respondeu finalmente elevando a voz. Ele se abaixou. Não para confrontar Renata, para alcançar o filho. Sentou-se no chão, no mesmo nível, ignorando o terno caro, o tapete importado, tudo. Desculpa disse simples, sem ensaio. Eu fiquei longe. Miguel observou o rosto do pai.
Procurou algo ali, demorou. Depois estendeu o carrinho e o colocou nas mãos de Augusto. Não era um presente, era um teste. Augusto segurou o brinquedo com cuidado, como se pudesse quebrar. Renata disse, levantando-se devagar. Isso não vai funcionar. Ela ficou pálida. Você está brincando comigo? Amanhã temos uma reunião, um contrato.
Eu sei, interrompeu. E vou perder. O silêncio que se seguiu foi diferente, mais limpo, mais honesto. Renata pegou a bolsa com força. Você está escolhendo errado. Estou escolhendo ficar, respondeu ele. Ela saiu sem olhar para trás. A casa respirou. Lúcia permaneceu imóvel, sem saber o que fazer com o próprio corpo. Augusto virou-se para ela.
“Obrigado”, disse. “Nada mais.” Ela a sentiu, os olhos marejados. Miguel segurou a barra da calça do pai. Mais tarde, a chuva voltou a cair sobre São Paulo. Augusto ficou sentado no chão da sala com o filho. O carrinho entre eles, a árvore piscando silenciosa. Miguel encostou a cabeça no ombro dele. Augusto ficou.















