O relógio do painel marcava 17:12, quando o avião tocou o chão, 30 minutos antes. Não era para ele estar ali e talvez no fundo ele soubesse disso, como se o próprio corpo tivesse aprendido a evitar aquela casa. Renato Sampaio saiu do desembarque com o palitó ainda quente da cabine, a mala rígida puxando no braço e uma pressão antiga no peito, dessas que não passam com remédio nem com dinheiro.
O aeroporto cheirava a café queimado e perfume caro, gente apressada, anúncios metálicos, rodas batendo no piso, mas dentro dele era silêncio, um silêncio pesado, de quem vive há dois anos falando baixo com a própria dor. Do lado de fora, o céu de São Paulo estava cor de chumbo, com um resto de sol tentando furar as nuvens. Aquela luz amarela que não aquece, só denuncia.
Renato entrou no carro por aplicativo porque o chófer nem tinha sido avisado. 30 minutos antes, muda tudo. 30 minutos antes é o tipo de detalhe que não aparece em contrato, mas decide destino. No caminho, a marginal parecia uma serpente de faróis. Ele olhava sem ver. Os olhos iam pro vidro e voltavam pro nada. No banco ao lado, o celular vibrava com mensagens de reuniões, números, urgências inventadas.
Renato nem desbloqueou a única urgência real. Ele fingia que não existia. Quando o carro subiu à ladeira do Morumbi, os portões da mansão apareceram como sempre, altos, pretos, um desenho de ferro que parecia feito mais para impedir do que para receber. Renato digitou o código com o polegar. O portão abriu devagar, rangendo.
Parecia uma boca se abrindo sem vontade. Ele pagou o motorista, pegou a mala e entrou. O hall cheirava a pedra polida e produto de limpeza. Um cheiro limpo demais, quase sem vida, mármore branco, vidro, um vaso enorme com flores que não tinham perfume, só aparência. A casa era bonita como uma vitrine e vazia como uma vitrine também.
Renato deixou a mala perto da escada, soltou o nó da gravata com dedos que não tremiam. Ele não tremia por fora nunca. A postura dele era uma armadura, ombros no lugar, respiração contida, olhar de quem sempre sabe o próximo passo. Só que por dentro havia um quarto escuro onde ele não entrava. dois anos desde o acidente, desde Vitória.
Ele atravessou o corredor devagar. O piso brilhava tanto que refletia o próprio rosto, meio cortado pela luz. Um rosto bonito, cansado, mais velho do que deveria. O homem mais respeitado no conselho de qualquer empresa, o homem que assinava cheques que mudavam vidas, o homem que quando chegava em casa não sabia onde colocar as mãos. A rotina era sempre igual.
Silêncio, serviço invisível, portas fechadas e no fim do corredor o quarto de Lívia. Lívia tinha 3 anos e um tipo de tristeza que não combina com criança. Não era choro, era ausência. Desde que Vitória se foi, a menina tinha virado uma ilha quieta. Renato tinha colocado psicóloga, pediatra, brinquedos importados, uma governanta com currículo europeu, Gertrudes, impecável e fria como um copo de água.
Ele tinha comprado tudo o que cabia num cartão, só não tinha comprado tempo e não tinha aprendido a ficar. Renato ia chamar alguém. qualquer alguém quando aconteceu. Primeiro foi como um estalo no ar, um som estranho, deslocado, como se alguém tivesse acendido uma vela dentro de uma sala escura.
Depois veio inteiro. Uma gargalhada. Não uma risadinha educada, não uma risada de desenho na TV. Uma gargalhada aberta, solta, sem medo, batendo nas paredes como música. Renato parou no meio do corredor com a mão ainda no colarinho. O peito dele travou. Os olhos se arregalaram como se tivessem visto um fantasma, porque aquela gargalhada ele reconhecia.
Era o mesmo jeito de Vitória rir quando tirava o sapato no fim do dia e fazia drama, fingindo que estava desmaiando de cansaço só para fazer o Renato, que já era sério naquela época, dar um sorriso. Era o mesmo som que enchia a cozinha. Antes de tudo virar silêncio, Renato engoliu em seco. Sentiu um gosto amargo, como metal na boca, e começou a andar, guiado pelo som, sem perceber que estava prendendo a respiração.
Cada passo parecia errado, como se ele estivesse invadindo uma cena que não era mais dele. A gargalhada vinha da cozinha principal, aquela cozinha grande demais, perfeita demais. onde as pessoas trabalhavam quietas e ele raramente entrava. A luz do fim de tarde atravessava o vidro enorme e desenhava retângulos dourados no chão. Renato chegou ao arco da porta e parou.
A cena lá dentro não cabia na lógica da casa. A nova funcionária, Jéssica. Foi isso que a agência disse. Jéssica estava de costas, lavando louça na ilha central. Luvas amarelas até o meio do antebraço, espuma subindo, água escorrendo. Ela cantava baixinho, uma melodia simples, antiga, que parecia de avó, um pedaço de samba canção misturado com cantiga de ninar.
A voz dela não era grande, mas tinha calor. E em cima dos ombros dela estava Lívia, Lívia, com as perninhas agarradas no pescoço da moça,os dedos pequenos enroscados no cabelo preso num rabo de cavalo. O rosto da menina estava aceso, como se alguém tivesse ligado a luz por trás. Ela se inclinava paraa frente, perigosa e gargalhava. Mais alto, avião, mais alto.
Lívia gritou clara, inteira, como se nunca tivesse esquecido como falar. Renato sentiu o chão mudar de lugar. A voz da filha, a voz que ele esperava em noites inteiras sentado na porta do quarto. A voz que não vinha. Agora estava ali atravessando a cozinha viva, e a frase mais alto explodiu dentro dele como uma alegria que machuca.
Jéssica fez um barulho com a boca, vum e levantou os ombros como se fosse decolar. De propósito, exagerou o movimento como uma atriz de palco pequeno. Um pouco de água com sabão salpicou no ar e brilhou na luz dourada. Lívia gritou rindo, os olhos apertados de felicidade. Renato não conseguia piscar.
A cena era bonita demais e, por isso mesmo, quase insuportável. Parecia uma fotografia que ele nunca teria direito de ter. E num segundo o que era milagre virou ameaça dentro da cabeça dele. Porque o cérebro de Renato era treinado para risco, para queda, para perda. O corpo dele reagiu com o medo mais primitivo. E se ela cai? E se ela escorrega? E se essa moça, essa desconhecida, machuca a única coisa que sobrou dele.
A alegria virou pânico. O pânico virou raiva. Renato apertou os punhos, as unhas marcando a palma. O coração dele batia alto, mas o rosto continuava duro. Ele era bom nisso, sentir por dentro, congelar por fora. Jéssica virou um pouco o rosto para colocar um prato no escorredor e sorriu. Um sorriso grande, sem defesa, como se estivesse num domingo qualquer.
E aquele sorriso irritou Renato de um jeito que ele não entendia, porque ela não estava só cuidando, ela estava amando. E isso, por uma razão torta, pareceu intrusão, como se alguém tivesse entrado num quarto que deveria estar trancado. Renato abriu a boca e a voz saiu como um tiro. Que diabos é isso? O som cortou o ar, a cozinha congelou.
Jéssica deu um pulo tão rápido que o tênis chiou no mármore. O prato escorregou das luvas molhadas e caiu. Estilçou no chão com um barulho longo, cruel, que parecia durar mais do que deveria. Lívia parou de rir, como se alguém tivesse arrancado o ar dela. A menina se encolheu em cima dos ombros de Jéssica, os dedos apertando o pescoço da moça com força demais.
O rosto de Lívia virou medo instantâneo. Ao ver o pai no arco da porta, terno escuro, olhos duros, a sombra dele cortando a luz do corredor, ela não viu proteção, viu perigo. “Senhor Sampaio, Jéssica conseguiu dizer pálida, olhos enormes. Ela levantou as mãos cheias de espuma para segurar as pernas de Lívia como escudo. Eu eu não sabia que Desse ela.
Renato rosnou uma palavra só fria. Agora s Ele entrou três passos na cozinha. As solas dos sapatos bateram no piso como martelo. Aquele som fez Lívia se agarrar mais. Jica, tremendo, tentou obedecer sem derrubar a menina. Desceu devagar, de joelhos, cuidando do corpo de Lívia, como se fosse vidro. Quando os pés de Lívia tocaram o chão, Renato fez o movimento automático, braços abertos, prontos para recolher a filha, mas Lívia não veio.
Ela virou e abraçou as pernas de Jéssica com um desespero que não combinava com três anos. Enterrou o rosto no avental molhado, como se aquele tecido fosse uma casa. Renato sentiu uma fisgada no estômago. Não. Lívia gritou num choro alto, rasgado. E então a frase que atravessou Renato como lâmina. Não grita papai mau. Papai mau.
A palavra ficou suspensa, pesada, bem no meio da cozinha. Renato não sabia o que doía mais. ouvir a filha falar ouvir a filha falar isso. Ele ficou imóvel por um segundo, sem entender onde tinha perdido o lugar, como se alguém tivesse mudado os móveis do coração dele e ele não soubesse mais onde pisar. Jéssica também não se mexia.
Não ousava tocar em Lívia com medo dele, mas também não conseguia afastar a menina. O olhar dela implorava sem som. Não faz isso. Ela vai se quebrar. Renato tentou controlar a própria voz, mas ela saiu dura do mesmo jeito. Lívia, vem aqui. A menina negou com a cabeça frenética, agarrando mais forte. Renato sentiu o orgulho ferido subir como febre.
Sentiu a humilhação, sim, humilhação, de ser rejeitado dentro da própria casa. Ele deu mais um passo. Jéssica prendeu a respiração. Renato baixou o corpo, pegou Lívia com firmeza, firme demais, e puxou a menina dos braços dela. Lívia explodiu em choro, se debatendo, esticando as mãos pro avental. “Jé, Jé!”, ela soluçava, tentando alcançar.
Renato apertou a filha contra o peito, sentindo o corpinho quente, tremendo, o cheiro de shampoo infantil misturado com lágrimas, um cheiro que deveria ser conforto, mas só aumentava a culpa. Ele olhou Jéssica como se ela fosse culpada de algo invisível, algo que ele não conseguia nomear sem se envergonhar. Tira essas luvas.
A voz dele veio baixa, letal.Limpa essa espuma e vai pro meu escritório. Jéssica assentiu, os olhos cheios d’água. Renato já ia sair com Lívia nos braços quando parou no arco da porta sem virar o rosto. A frase saiu como ameaça e pedido ao mesmo tempo, porque até ele estava perdido. Reza para ter uma boa razão. Ele saiu.
O choro de Lívia foi ficando distante pelo corredor, ecoando na casa grande como se fosse acusação. Jéssica ficou sozinha na cozinha, respirando curto, com as mãos tremendo enquanto puxava as luvas amarelas. A espuma escorreu pelo pulso e pingou no chão. No meio dos cacos do prato, algo pequeno ficou preso na água com sabão.
Um guardanapo branco dobrado com perfeição, desses que Gertrudes exigia em cada canto, agora manchado por uma gota de café que ninguém tinha visto cair. Branco manchado como a casa, como a história que estava começando. O escritório de Renato Sampaio era a única parte da casa que parecia viva, viva no sentido errado.
A madeira escura tinha cheiro de verniz antigo e couro. A luz era sempre baixa, mesmo quando o sol batia lá fora. O ar- condicionado ficava frio demais, como se o cômodo precisasse manter tudo conservado. Ali Renato não lembrava um viúvo, lembrava um tribunal. Jéssica entrou sem fazer barulho. O uniforme simples parecia ainda mais frágil diante daquela sala de cauba.
Diplomas emoldurados e uma parede inteira de livros que ninguém abria. Ela parou no meio, mãos cruzadas no avental, cabeça levemente baixa, não por submissão, mas por instinto de sobrevivência. O silêncio esticou. Renato estava de costas, perto do vidro que dava para o jardim. impecável. Ele tinha servido um whisky, mesmo sendo cedo demais.
O gelo batia no copo com um som curto, repetido, como um relógio que não deixa esquecer. Lá em cima, no corredor, ainda ecoava o choro de Lívia, jamais distante, mas presente. Um choro que parecia ter ficado preso nas paredes. Renato tomou um gole e só então falou sem virar: “Você sabe quanto eu pago? para cuidarem da minha filha. A voz dele não era grito agora, era pior.
Era lisa, sem emoção aparente. Jéssica sentiu a garganta raspar. Não, senhor. Renato virou devagar. O olhar dele desceu nela como se estivesse avaliando um relatório. Uniforme, postura, mãos, rosto. Ele não olhava uma pessoa, olhava um risco, uma fortuna. psicóloga, pediatra, pedagogia. Ele fez um gesto breve com a mão, como quem lista despesas num balanço.
Eu trouxe a melhor governanta. Eu pago para essa casa funcionar e eu chego e encontro você, a moça da limpeza, com a minha filha em cima de uma pia de mármore. A frase moça da limpeza saiu com um corte. Ele não precisava dizer: “Você não pertence aqui”. O Tom dizia. Jéssica apertou os dedos um no outro, tentando impedir que tremessem.
“Senhor, eu Dá uma razão, uma só”. Renato se aproximou da mesa, apoiou os nós dos dedos na madeira com um som seco. Uma razão para eu não te demitir agora e fazer com que você nunca mais trabalhe nesta cidade. O ar ficou menor. Jéssica levantou o rosto pela primeira vez. Os olhos dela estavam molhados. Mas não era só medo, era outra coisa.
Uma coragem fraca, mas insistente, acendendo bem no meio do pânico. Ela respirou fundo por ela tava rindo. Renato piscou uma vez. Isso não te dá direito, senhor. A voz dela saiu baixa, mas não quebrou. Eu tô aqui tem três semanas. Eu limpo o quarto dela, eu separo as roupinhas, eu vejo ela sentada nos cantos olhando para nada.
Em três semanas, eu não ouvi a Lívia fazer um som que não fosse suspiro. Renato sentiu o estômago apertar. Ele odiava esse tipo de informação porque não dava para negociar com números, não dava para resolver com cheque. Existe regra, Jéssica, protocolo. Ele cuspiu a palavra como se fosse escudo. Segurança. Ela deu um passo mínimo à frente, como quem esquece por um segundo que está diante do dono da casa.
Com todo respeito, senhor Renato, protocolo não abraça. O silêncio bateu forte. Jéssica percebeu na hora que tinha ido longe demais. Baixou a cabeça rápido, a respiração curta. Desculpa, eu não quis. Renato não respondeu. O rosto dele não se mexeu, mas por dentro algo tinha sido cutucado. A palavra abraça abriu uma memória que ele não queria. Vitória abraçando Lívia.
A menina pequenininha molhando a blusa com baba e risada. A cozinha cheia de cheiro de pão de queijo. Ele chegando tarde, sempre tarde. E Vitória dizendo: “Vem, fica mais um pouco”. Renato fechou a mão. Me explica a voz saiu mais baixa. Porque ela estava pedindo aquilo? Jéssica engoliu seco. Ela veio na cozinha. Ela estava procurando alguém.
Eu perguntei: “O que foi, meu amor?” Ela só apontou paraa janela e disse. A voz dela falhou por um segundo, mas ela forçou a frase a sair inteira. “Quero ver se a mamãe está no céu, mais perto das nuvens”. Renato sentiu como se um peso tivesse caído dentro do peito dele, de uma altura enorme.
Ele se sentou na cadeira sem perceber. O couro rangeu.Por um instante, ele pareceu o menor. Não o empresário, um homem cansado. Ela disse isso? Disse. Jéssica a sentiu, olhos brilhando. E quando ela não viu, ela começou a chorar. Eu eu não aguentei deixar. Então eu fiz o avião só para ela esquecer por um minuto. Renato passou a mão no rosto devagar, como se estivesse tentando apagar a própria vida.
Ele não tinha ouvido aquilo da filha, não porque a filha não falava, mas porque ele não tinha estado perto o suficiente para ela tentar. Ele abriu a boca para dizer alguma coisa. Talvez obrigado, talvez desculpa, talvez nada. Quando Jéssica completou, quase como quem entrega sem querer a peça que muda o jogo.
E eu sei que a dona Gertrudes diz que é proibido o contato, que a gente não pode pegar a Lívia no colo, não pode abraçar. Renato levantou a cabeça num estalo. Como é? Jéssica franziu a testa confusa com a reação. A regra, senhor, a regra do sem contato afetivo. Ela fez a gente assinar semana passada. Disse que era ordem sua, que o senhor queria alívia forte independente, que colo mal acostuma.
A palavra assinar ficou martelando. Renato sentiu uma onda quente subir pelo pescoço. Não era tristeza agora. Era raiva, uma raiva limpa, direcionada. Eu nunca mandei ninguém proibir abraço na minha filha. Ele falou devagar, cada palavra virando pedra. Jéssica ficou parada, sem saber se devia falar mais. Foi nesse exato momento que a porta do escritório abriu sem bater.
O ar pareceu mudar de temperatura. Gertrudes entrou como se já tivesse o direito de estar ali. Uniforme cinza impecável, cabelo preso num coque tão apertado que puxava o rosto, deixando tudo mais duro. O perfume era discreto, caro, com um fundo de limpeza e controle. Ela não olhou para Jéssica, passou por ela como se fosse um móvel. Senr.
Renato a voz dela era educada, suave, treinada. Peço desculpas por interromper. Renato não respondeu, só encarou. Gertrudes continuou como se estivesse relatando uma falha técnica. Acalmei a Lívia. Foi necessário um sedativo leve, conforme orientação do médico. A crise estava exenuante. Crise? Renato repetiu. A palavra saiu áspera. Minha filha estava rindo.
Gertrudes inclinou a cabeça. Um gesto pequeno, quase dócil. Riso histérico pode ser sinal de superestimulação em crianças traumáticas, senhor. Ela finalmente olhou para Jéssica com um desprezo rápido, preciso. Esta funcionária alterou completamente a rotina, deu açúcar, tirou a criança do horário, esposa menor a risco físico.
Jéssica abriu a boca, mas o olhar de Gertrudes a cortou. Renato apontou sem perceber que estava defendendo Jéssica ou defendendo a própria culpa. Ela diz que a Lívia queria ver se a mãe estava no céu. Gertrudes não piscou. suspirou como quem tem paciência com alguém lento. Imaginação conveniente. Ela se aproximou da mesa, baixando um pouco a voz, como se Jéssica não estivesse ali. Senr.
Renato, eu trabalho com famílias como a sua há décadas. Eu reconheço certos padrões. Meninas jovens, origem humilde, entram na casa de um viúvo rico. E Jéssica soltou um som indignado, quase um não. Gertrudes ergueu a mão sem olhar. Silêncio e voltou a Renato com a mesma doçura venenosa. Elas não querem limpar poeira, senhor. Querem se tornar indispensáveis.
Primeiro conquistam a criança, se colocam no lugar da mãe e depois ela deixou-o depois no ar, como se fosse óbvio e sujo. Depois miram no pai. A sala ficou sufocante. Renato sentiu uma coisa horrível acontecer dentro dele. A ideia fez sentido rápido demais, porque ele era um homem treinado para desconfiar.
negócio, concorrência, golpe. Ele conhecia o mundo por esse lado e a dor dele era terreno fértil para qualquer veneno que parecesse lógica. Ele olhou para Jéssica e por um segundo a imagem da cozinha, a luz dourada, o riso, a canção ficou manchada por aquela frase padrão. Jéssica percebeu e aquilo doeu mais que ameaça de demissão.
Eu não sou isso? Ela sussurrou, a lágrima caindo sem força. Eu não quero nada dele, eu só. Em três semanas, você ama a criança? Gertrudes cortou, fria. Isso é crível ou é mais crível que você esteja construindo dependência? Renato fechou os olhos por um instante. Não porque acreditava totalmente, mas porque ele não aguentava a dúvida. Dúvida dói mais que certeza.
Gertrudes aproveitou o silêncio como quem aproveita uma brecha. E sobre a regra, senhor, ela abriu um sorriso mínimo. Eu só segui o que o senhor sempre demonstrou preferir. Disciplina, estrutura. Uma criança forte, não uma menina carente, criando apego por funcionárias temporárias. Jéssica deu um passo atrás, como se tivesse levado um tapa. Renato abriu os olhos.
O rosto dele endureceu de novo, a armadura voltando ao lugar. “Chega”, ele falou curto. Gertrudes desesperou, como quem já sabia o final. Renato respirou fundo. A garganta dele ainda tinha o gosto da frase: “Mamãe no céu”. E ao mesmo tempo,a cabeça gritava: “Controle! Eu deveria te demitir agora, Jéssica”.
Jéssica prendeu o ar. Os ombros dela tremeram. Senhor, por favor, a voz veio quebrada, mas verdadeira. Eu preciso desse trabalho. Minha mãe tá doente. O convênio, eu não vou encostar na Lívia se o senhor não quiser. Eu fico invisível. Só não me tira isso. Renato olhou para ela, viu desespero. Viu também algo que ele não estava acostumado a ver em funcionários.
Vergonha sem sinismo, um medo limpo. Ele pensou na gargalhada, na palavra avião, no som da filha viva, e então tomou a decisão mais covarde e mais humana ao mesmo tempo. “Você fica”, ele disse sem olhar para Gertrudes, mas com uma condição. Gertrudes prendeu a mandíbula, quase imperceptível. Renato continuou.
Cada palavra como um contrato. Você não chega perto da Lívia. Seu trabalho é limpeza e cozinha quando ela não estiver presente. Se eu vir você tentando se aproximar, se eu achar que você tá manipulando, você sai daqui sem referência. Entendeu? Jéssica assentiu rápido, lágrimas escorrendo. Sim, senhor. Obrigada.
Obrigada. Renato apontou pra porta. Vai. Ela saiu quase correndo, como se o corredor pudesse engolir a vergonha dela e devolver só o ar. Quando a porta fechou, o escritório pareceu ainda mais frio. Gertrudes ficou de pé, mãos cruzadas na frente do corpo, rosto controlado. A voz veio baixa, suave, quase carinhosa, mas com uma ponta de ameaça que só Renato percebeu porque agora estava atento demais.
O senhor vai se arrepender. Renato a encarou. Saia. Gertrude saiu sem discutir. O salto dela fez um som seco no corredor, como um metrônomo. Renato ficou sozinho. O whisk ainda estava na mesa. O gelo já tinha derretido um pouco, boiando como um pequeno corpo. Ele se virou pro computador, digitou a senha do sistema de segurança.
As telas acenderam numa luz azul que deixou o rosto dele pálido. Câmera da cozinha. Ele rebobinou. A imagem voltou ao momento do riso. Lívia em cima, Jéssica cantando. Renato aumentou o volume. No áudio bem baixinho, antes do grito dele, dava para ouvir algo que ele não tinha ouvido ao vivo.
Uma frase pequena, quase um sopro. Jéssica, com a voz cantada tinha dito pra Lívia: “Capitã, cuidado com as nuvens.” Renato congelou o vídeo no instante em que Lívia ria. O dedo dele parou no mouse travado. O peito apertou de novo, mas diferente. Não era só medo, era um começo de vergonha, porque a frase era simples demais para ser plano e bonita demais para ser golpe.
A luz azul do monitor iluminou o guardanapo branco amassado que alguém tinha deixado ali no canto da mesa do escritório. Um guardanapo que vinha da cozinha, talvez trazido sem pensar, com uma pequena mancha de café já seca. Renato encarou a mancha como se fosse um aviso e pela primeira vez em dois anos ele teve uma sensação estranha, quase perigosa.
E se a única pessoa dizendo a verdade for a que eu acabei de esmagar, Renato Sampaio parou de dormir. Não era insônia comum, era vigília, como se o corpo dele tivesse entendido que naquela casa o perigo não fazia barulho e, por isso, precisava ser caçado em silêncio. Por três noites seguidas, o escritório virou bunker.
As telas azuis dos monitores eram a única luz, o resto era sombra. No copo, o gelo derretia sem ninguém tocar. E no canto da mesa, o guardanapo manchado de café parecia um lembrete quieto. Você já estragou alguma coisa? Ele assistia as câmeras como quem assiste a própria falha. Na tela do comedor, Lívia sentada na ponta de uma mesa enorme, os pezinhos balançando no ar sem alcançar o chão.
Gertrudes em pé, reta. Cronômetro no pulso. Postura, senhorita. mastiga 20 vezes. A voz dela saía metálica pelos alofalantes, sem pressa, sem calor, só comando. Lívia obedecia com o olhar vazio, mastigando como boneca. A colher caía torpeza. Gertrude estirava o prato como se retirasse afeto também. Renato apertava os punhos até ficar branco.
Na outra tela, o corredor de serviço. Jéssica esfregando o chão, cantando baixinho. A porta do quarto de brinquedo se abria e Lívia aparecia correndo e então parava. Lembrava da regra, lembrava do grito e ficava a 2 m as mãos atrás das costas, como se a própria vontade fosse proibida. Jéssica olhava para ela, não corria, não abraçava, não comprava carinho, só sorria.
Um sorriso pequeno, cúmplice, e fazia um gesto bobo com o dedo em cima do lábio, como bigode. Lívia segurava a risada com as duas mãos na boca e voltava correndo pro quarto, leve, como se alguém tivesse colocado o ar dentro dela de novo. Renato sentia um nó, porque ninguém atuava assim quando achava que ninguém importante estava vendo.
O que Jéssica fazia não era teatro, era instinto. Na terceira madrugada, ele tomou a decisão. Ia demitir Gertrudes. Não naquele dia, não ainda. A casa estava prestes a receber a gala da Fundação Sampaio, um evento anual. prefeito, empresários, fotógrafos, gente que colecionava apertos de mão e faziadoações como quem compra perdão.
Renato não queria escândalo. Ele disse para si mesmo que era estratégia, mas no fundo era medo. Medo de romper a fachada, porque a fachada era tudo que ainda parecia sob controle. E foi aí que ele cometeu o erro fatal. Subestimou o veneno com voz educada. Gertrudes percebeu não por ouvir conversa, por ler corpo.
Ela viu Renato com olheiras, vidrado nas telas, olhando Jéssica com uma expressão que não era mais desconfiança, era algo que parecia gratidão. Ela fechou a porta do escritório sem fazer barulho, e o rosto dela, por um segundo, perdeu a máscara. Um ódio puro, seco, adulto. Então você escolheu a empregada.
Ela sussurrou para ninguém. Muito bem. Na noite da gala, o céu despencou em cima de São Paulo. Relâmpagos riscavam o vidro da mansão como arranhões. A chuva batia forte, grossa, fazendo um som de tambor sobre o telhado. Lá dentro, tudo parecia o oposto. Luz quente, piano, risos polidos, taças. Renato vestiu o terno escuro como armadura, a gravata apertada, o relógio caro brilhando no pulso. Ele sorria no time incerto.
Abraçava com a mão certa, respondia com frases curtas. Um homem treinado para parecer inteiro, mas o peito dele estava numa corda bamba. Jéssica tinha sido escalada pro guarda-roupa e apoio na cozinha. Gertrudes fez questão de deixar claro: “Você não entra no salão, você não fala com ninguém, você fica invisível”.
Jéssica a sentiu com uniforme impecável, a cabeça baixa. Ela aprendeu rápido como sobreviver naquela casa, não ser notada. No andar de cima, longe da música, Gertrudes executava um plano como quem arruma uma mesa. Ela entrou no quarto principal, o quarto de Renato e Vitória, como se ainda fosse dona.
Aquele lugar tinha cheiro de madeira fechada, perfume antigo e algo que sempre lembrava despedida. Na mesinha de cabeceira havia uma caixa de veludo azul. Gertrudes abriu com dedos calmos. O anel de vitória apareceu sob a luz do abajur. Uma safira cercada de diamantes. Não era só joia, era um pedaço da história. Era a única coisa que Renato tocava com reverência.
Gertrudes colocou luvas de látex, pegou o anel como quem pega uma arma, guardou no bolso e desceu pela escada de serviço. No vestiário dos empregados, vazio por causa da festa, as mochilas ficavam jogadas num banco. A de Jéssica era a mais simples. Tecido barato, surrada nos cantos. Gertrudes abriu o zíper lateral, sem pressa, sem tremor.
Deixou o anel cair lá dentro, entre moedas e um gloss. Sacudiu levemente para afundar no fundo, como se enterrasse uma prova. Fechou o zíper e sorriu. Não foi sorriso de vitória discreta, foi uma moeca cruel, como quem finalmente coloca a ordem no lugar. Meia hora depois, o piano parou. Renato estava no meio de um brinde com o prefeito quando percebeu um movimento no arco da porta.
Gertrudes apareceu no salão, mas não com uniforme cinza. Estava de preto, sóbria, com uma expressão de sofrimento cuidadosamente ensaiada. Ela ergueu a voz o suficiente para atravessar o murmúrio. Senr. Renato, aconteceu algo terrível. A música morreu, as conversas viraram sussurro, copos pousaram na mesa com um som tímido, como se o próprio vidro tivesse medo.
Renato sentiu o corpo gelar antes de ouvir. O que foi, Gertrudes? Ela engoliu seco, teatral, olhou pro chão. Eu fui preparar o seu quarto e a caixa de veludo azul está vazia. O anel da senora Vitória desapareceu. Renato parou de respirar. A palavra desapareceu não combinava com aquela casa, não combinava com o mundo dele.
Coisas não desapareciam no mundo de Renato. Coisas eram compradas, guardadas, controladas. A garganta dele travou. Você tem certeza? absoluta. Gertrudes fez uma pausa, uma pausa feita para que todos olhassem, para que todos esperassem, para que a história já fosse escrita antes do nome. Ela levantou os olhos como se doesse dizer: “E eu temo que eu saiba quem foi.
” O salão inteiro se inclinou pra frente. Não fisicamente, mas por dentro. Sim. A curiosidade da elite tem cheiro. É um perfume de julgamento. Renato sentiu um zumbido no ouvido. Quem? Gertrudes apontou com delicadeza. Uma delicadeza que machucava mais. A nova funcionária, Jéssica. O nome caiu como um prato quebrando. Renato sentiu uma punhalada de traição que nem era lógica, era instinto.
A mente dele começou a correr. Eu estava confiando. Eu estava abrindo uma fresta. Eu fui burro. Ele levantou o queixo duro. Tragam ela agora. Dois seguranças foram até o corredor dos fundos. Em minutos puxaram Jéssica pro centro do salão. Ela vinha com a mochila grudada no peito, como se aquilo fosse escudo. Os olhos dela estavam arregalados.
Ela procurava Renato com o olhar, não como empregada procurando chefe, como alguém procurando a única pessoa que poderia impedir uma injustiça. Eu não fiz nada, senhor. Por favor. A voz dela tremeu alta demais. E isso só piorou tudo. Renato olhou e por um instante ele quis acreditar nela.
Por umsegundo, a imagem da filha rindo atravessou a cabeça como flash, mas o salão estava olhando. E Renato era um homem acostumado a não perder o controle em público. Revistem a mochila. Jéssica recuou um passo. Um dos seguranças arrancou a mochila das mãos dela. O zíper abriu com um som longo, cruel. Mão entra, remexe, nada. O outro bolso. O segurança enfiou os dedos e tirou lentamente o anel de safira, levantando no ar como troféu.
O brilho da joia sob o lustre pareceu gritar culpada. Um murmúrio atravessou o salão. Ladra, sempre igual. Que absurdo. Jéssica ficou imóvel. O rosto dela perdeu cor. Ela olhou pro anel como se fosse uma cobra. Depois olhou para Gertrudes e entendeu. O corpo dela desabou por dentro, mas ela ainda tentou ficar de pé.
Eu eu juro, isso não é meu. Alguém colocou. Ela engasgou. Eu nunca nunca faria isso. Não, não. Com isso. Renato caminhou até ela, pegou o anel da mão do segurança. A safira encostou na pele dele e gelou. Tudo que ele tinha visto nas câmeras virou cinza, rápido demais. A dúvida plantada por Gertrudes começou a florescer como veneno.
E se tudo foi teatro? E se ela usou minha filha? Renato se inclinou e falou baixo, só para ela ouvir. Você me enganou. Jéssica arregalou os olhos ferida. Não, senhor, por favor. É armadilha. Ela me odeia. Renato recuou como se a voz dela queimasse. Tirem ela daqui agora, da minha casa, da minha vista. A frase foi uma sentença.
Os seguranças pegaram Jéssica pelos braços. Ela se debateu. Chorava sem respirar direito, chamando um nome que não devia dizer ali, não na frente daquela gente. Lívia. Lívia. Renato virou o rosto, como se não ouvir fosse diminuir. A porta principal abriu. A chuva entrou com força, soprando frio e cheiro de terra molhada para dentro do luxo.
Jogaram Jéssica nos degraus de pedra, o uniforme encharcando na hora. A mochila caiu em cima dela. O portão fechou com um baque surdo. Final. Renato ficou no salão segurando o anel cercado por gente, mas por dentro estava sozinho como nunca. Gertrude se aproximou e colocou a mão no ombro dele. Falsa compaixão. Eu sinto muito, senhor, eu avisei. Renato a sentiu quebrado.
A mão dele fechou no anel, como se apertar pudesse arrancar o sentimento. E foi nesse instante que ele sentiu antes de ver que havia alguém na escada, um som pequeno, um soluço. Lá em cima, entre as grades douradas, uma figura de pijama rosa tremia, olhos enormes, úmidos, fixos na porta que tinha acabado de engolir Jéssica, Lívia.
Ela tinha visto tudo. O salão inteiro ficou suspenso quando a menina abriu a boca e soltou um grito que não saía há dois anos. Um grito que não era de birra, era de perda. Mãe! A palavra explodiu na casa como um trovão. Renato levantou a cabeça com o coração falhando um compasso. A garganta dele secou Lívia, mas já era tarde.
A criança desceu um degrau chorando, a voz rasgando. Você, você tirou minha mamãe? Ela apontou pro pai com o dedo tremendo. Você é mal. O salão começou a se esvaziar num pânico educado. Gente pegando o casaco, gente fingindo que não ouviu, gente fugindo da dor alheia. Renato subiu correndo, dois degraus por vez, estendendo os braços paraa filha, como quem tenta impedir uma queda.
Quando chegou, Lívia recuou, como se ele fosse um estranho perigoso, e bateu nele com os punhos pequenos, com uma força que não vinha do corpo, vinha do desespero. Você é o monstro. A palavra ecoou pelo hallu porta, onde a chuva ainda batia do lado de fora. Renato parou sem ar, olhando a própria filha como se estivesse vendo pela primeira vez o que ele tinha se tornado nos olhos dela.
Na mão dele, o anel de safira brilhou frio, por trás da beleza parecia apenas isso, uma pedra perfeita, segurada por um homem quebrado, enquanto a casa inteira aprendia tarde demais, que existe coisa que o dinheiro não compra de volta. M.















