A chuva não caía, ela batia. Batidas grossas, pesadas, como dedos impacientes no telhado do mundo. Em São Paulo, naquela noite, o céu não parecia apenas nublado, parecia irritado. O vento empurrava a água de lado, fazendo as árvores gemerem, dobrando galhos antigos, como se quisesse arrancá-los do chão.
O asfalto brilhava sobes, transformado em espelho quebrado. O cheiro era de terra encharcada. ferro molhado e folhas apodrecendo, um cheiro que grudava na garganta debaixo de uma árvore velha, daquelas que ninguém mais repara durante o dia. Dois corpos estavam colados um ao outro. Não eram moradores de rua, mas naquela noite pareciam.
Seu Antônio mantinha as costas arqueadas, formando um abrigo improvisado. Os músculos, já cansados por décadas de trabalho, tremiam sem controle. Cada gota que escorria pelo tronco da árvore parecia encontrar exatamente a pele dele. O frio não vinha de fora apenas, vinha de dentro, subindo pelos ossos. Encostada ao peito dele, dona Rosa segurava dois pequenos embrulhos humanos, Caio e Lívia.
Um ano de vida, dois corações frágeis demais para aquela noite. Rosa sentia os braços dormentes. Não sabia dizer quando os dedos tinham parado de obedecer. O que ela sabia era outra coisa, muito mais urgente. O choro tinha mudado. Antes os bebês choravam alto, desesperados. Agora não, agora era diferente. Lívia estava quieta demais.
Rosa aproximou o rosto do rostinho da neta, sentindo o ar quente da própria respiração bater de volta no nariz. O barulho da chuva engolia quase tudo, mas ela encostou o ouvido pequeno no peito da criança, procurando um som que não podia faltar. Ali, fraco, mas ali, Antônio? A voz dela saiu baixa, quase quebrada. Ela tá fria.
Seu Antônio apertou mais o corpo, mesmo sabendo que isso significava receber ainda mais água nas costas. Ele não respondeu de imediato, apenas respirou fundo, tentando impedir que os dentes batessem. Aguenta, Rosa, aguenta só mais um pouco. Ele dizia aquilo não porque acreditava, mas porque precisava dizer.
Um carro passou pela rua à frente do parque, rápido demais. As rodas levantaram uma onda de água suja que respingou até perto da árvore. O farol iluminou os quatro por um segundo, só um, e depois sumiu, como se nada estivesse ali. Invisíveis. A cidade continuava, a vida continuava, mas ali debaixo da árvore, o tempo parecia ter parado.
Rosa puxou o casaco fino que usava e abriu um pouco mais a blusa, encostando a pele da neta diretamente no próprio peito. O choque do frio fez seu corpo estremecer, mas ela não reclamou. O que importava era manter aquele pequeno corpo vivo. “X”, ela murmurou. Mesmo sabendo que Lívia não chorava mais. A vovó tá aqui. Seu Antônio olhou para o rosto da esposa.
Mesmo na escuridão, mesmo com a chuva distorcendo tudo, ele reconhecia aquele olhar. Não era medo, era decisão. O mesmo olhar que ela tinha quando o filho era pequeno e ficava doente de madrugada. O mesmo olhar de quem não vai soltar. A água começava a se acumular ao redor dos pés deles.
O chão já não era terra firme, era lama. O frio subia rápido demais. Antônio sentia as pernas ficarem pesadas, como se pertencessem a outra pessoa. “Rosa”, ele disse a voz falhando. “Se eu parar de tremer, ela o interrompeu antes que ele terminasse. Não fala isso. Olha para mim. fica acordado. Ela beliscou o braço dele, forte o suficiente para doer.
Antônio respirou fundo, soltando um gemido baixo. Eu tô aqui. Tô aqui. Mas o corpo dizia outra coisa. Foi então que o som mudou. Não era mais o barulho indiferente de carros passando longe. Era um motor forçado, pneus escorregando, um som apressado demais para aquela rua alagada. Faróis cortaram a cortina de chuva, varrendo o parque como lâminas de luz.
O carro não diminuiu, subiu na calçada, freou tarde demais. A porta se abriu antes mesmo de o veículo parar por completo. “Mãe, pai!” A voz rasgou à noite. Lucas Azevedo correu. O sapato caro afundou na lama. Logo no primeiro passo, ele tropeçou, quase caiu, mas não sentiu. A chuva batia no rosto, misturando-se as lágrimas que ele nem sabia quando tinham começado.
Quando chegou até eles, o mundo pareceu se estreitar. Seu Antônio estava pálido demais, os lábios arrocheados. Dona Rosa tremia sem controle, mas ainda segurava os bebês como se fossem feitos de vidro. Pelo amor de Deus. Lucas caiu de joelhos sem se importar com a água gelada que encharcou o terno. O que aconteceu? Ele tocou a testa de Caio, gelada, tocou-a de Lívia, mais fria ainda.
O pânico subiu como um golpe no estômago. Não, não. Lucas respirava rápido demais. Não faz isso comigo. Com uma força que não lembrava de ter, ele começou a agir. Tirou o próprio palitó, enrolou nos bebês, ajudou o pai a se levantar, pegou a mãe no colo. Rosa pesava pouco demais, leve demais.
O carro parecia um outro mundo. Couro quente, luz suave, o contraste doeu. Lucas ligou o aquecedor no máximo. As mãos tremiam tanto que elequase não conseguiu girar a chave. Enquanto o motor rugia, ele olhou pelo retrovisor. Estavam vivos. Mas por pouco, enquanto arrancava em direção ao hospital mais próximo, ignorando semáforos e buzinas, uma pergunta começou a queimar na cabeça dele.
Uma pergunta que não fazia sentido. Ele tinha deixado os pais em casa, em segurança, com comida, com aquecimento, com Helena. Lucas apertou o volante com força. Como vocês foram parar na rua? Dona Rosa tentou responder, mas só conseguiu fechar os olhos exausta demais. Seu Antônio engoliu em seco, juntando o resto de força que ainda tinha. Ela a voz saiu entrecortada.
Ela disse que a gente atrapalhava, que a casa não era lugar para velho, nem para criança. Lucas não respondeu, mas algo mudou dentro dele. Enquanto o carro avançava pela chuva, o vidro começou a embaçar por dentro. O ar quente encontrava o frio de fora e criava uma névoa fina, leitosa, que tornava tudo indistinto por um instante.
Lucas passou a mão no vidro, limpando um pequeno círculo. Do outro lado, só se via água, luzes distorcidas e a noite. Ele não sabia ainda como nem quando, mas naquele instante, com o coração disparado e o cheiro de chuva ainda grudado na pele, Lucas teve uma certeza silenciosa. Nada daquela noite terminaria ali. De manhã, a casa parecia outra.
A luz entrava larga pelas janelas altas, escorrendo pelo mármore claro, como se tudo estivesse limpo, organizado, em paz. O jardim cheirava a grama recém cortada. Um passarinho insistia em cantar perto da piscina, ignorando o silêncio tenso que só quem vive ali dentro conseguia sentir. Lucas desceu as escadas com a pasta de couro numa mão e o celular na outra.
O relógio marcava cedo demais para tanta pressa, mas o dia já começava pesado. Ele parou por um instante no último degrau, olhando a sala grande demais, perfeita demais, como um cenário pronto para fotos, não para gente. Filho, a voz veio da cozinha. Dona Rosa apareceu com cuidado, segurando uma marmita simples, ainda quente.
O vapor escapava pela tampa mal fechada. Arroz, feijão, frango refogado, cheiro de casa, cheiro de infância. Leva para viagem”, ela disse, oferecendo como quem oferece proteção. “Aeroporto só tem comida sem gosto.” Lucas sorriu daquele jeito torto, meio cansado. Pegou a marmita com as duas mãos, como se fosse algo frágil.
“Mãe, você não cansa de cuidar de mim, né?” Ela ajeitou a gola da camisa dele, gesto automático, antigo. Para mim, você sempre vai ser meu menino. Na sala, Helena Prado surgiu como se tivesse sido chamada pela luz. Vestido claro, cabelo impecável, sorriso ensaiado. Tudo nela combinava com a casa. Tudo nela parecia feito para ser visto.
Amor, disse, aproximando-se para um beijo rápido, quase no ar. O motorista já está esperando. O olhar dela passou pela marmita um segundo. Rápido demais para virar comentário. Lento demais para ser só acaso. A boca sorriu, mas os olhos não acompanharam. Que cuidado, dona Rosa. Helena comentou com uma doçura fina. Mas o Lucas vai comer no launde VIP, não vai? Lucas balançou a cabeça. Nem pensar.
Comida da minha mãe ganha de qualquer chefe. Ele colocou a marmita dentro da pasta, fechou o zíper com decisão. Helena riu. Um riso leve estudado. Você é impossível. Lucas segurou as mãos das duas, a da mãe e a de Helena. unindo-as por um instante. Vou ficar fora só dois dias. Cuida deles para mim, dos meus pais e e das crianças.
Helena apertou os dedos de Lucas com firmeza, olhando direto nos olhos dele. Pode ir tranquilo. Aqui todo mundo vai ser tratado como rei. Seu Antônio entrou na sala carregando Caio e Lívia, um em cada braço. Os bebês riam, puxando o bigode branco do avô. Olha só esses dois”, ele disse orgulhoso.
Campeões Lucas beijou os filhos, respirou fundo, guardando o cheiro deles no peito, como quem guarda ar antes de mergulhar. A despedida foi rápida, afetuosa, convincente. O portão se abriu, o carro saiu, dobrou a esquina e então algo mudou. Foi como se alguém tivesse apagado uma luz invisível. Helena soltou as mãos, deu um passo para trás e passou os dedos na própria palma, como quem limpa sujeira.
O sorriso morreu sem esforço. “Bom”, ela disse seca. “Acabou o teatro?” Dona Rosa piscou confusa. “Como assim, minha filha?” Helena virou-se devagar. O olhar agora era outro, frio, avaliador. “Estou cansada de fingir que isso aqui é uma casa de família feliz. Não é, é a minha casa agora. E vocês? Ela fez um gesto vago com a mão.
Estão ocupando espaço demais. Seu Antônio sentiu o sangue subir ao rosto, mas apertou os braços ao redor dos bebês. Helena, nós somos os pais do Lucas. Exatamente. Pais, avós, velhos. As palavras saíram sem peso na voz, mas com lâminas escondidas. Cheiro de gordura de coisa antiga e essas crianças, barulho, sujeira, bagunça. Dona Rosa deu um passo à frente, ofendida, mas firme.
Essa casa é do meu filho. Helena avançou um passo também,invadindo o espaço dela. Ele não está. E enquanto não estiver, quem manda aqui sou eu. Ela estalou os dedos. Marcos. O segurança apareceu hesitante. Leva eles pro quarto dos fundos, o da ferramenta, e tranca a porta da cozinha. Não quero ninguém mexendo nas minhas coisas.
Marcos abriu a boca para falar, fechou de novo, olhou para seu Antônio, depois para os bebês. Senhorita tentou, ou faz o que eu mandei ou vai procurar outro emprego. O silêncio pesou. Seu Antônio respirou fundo. Vamos, Rosa. O quarto dos fundos não era um quarto. Era um depósito úmido, com cheiro de mofo e produto de jardinagem, uma cama estreita, um colchão torto, uma janela pequena, alta demais para ver o céu.
O choro dos bebês começou ali, primeiro baixo, depois insistente. Enquanto isso, na sala principal, Helena abriu uma garrafa de vinho caro, chamou duas amigas, rio alto, ligou a música. Finalmente, disse, brindando: “Paz!” Quando o choro atravessou o jardim e chegou abafado até a sala, o rosto dela se fechou. Eu disse silêncio.
No quarto dos fundos, Lívia começou a torcir aquela tosse seca, perigosa, que dona Rosa conhecia bem demais. Antônio, a menina precisa do remédio. Não vai lá, ele sussurrou. Você viu o jeito dela? Rosa olhou para a neta, vermelha, suada, respirando com dificuldade. É minha neta ela saiu na cozinha, encheu a mamadeira com água filtrada.
O barulho do salto veio antes da voz. Quem deixou a porta aberta? Rosa tentou se esconder, mas Lívia chorou alto. Helena entrou como um vem daaval. Eu mandei você ficar no fundo. Por favor, Rosa implorou. É só água. A menina está passando mal, não me interessa. Helena avançou. Rosa recuou instintivamente e esbarrou numa mesa lateral. O vaso de porcelana caiu.
O som seco do impacto cortou o ar. Por 3 segundos ninguém respirou. Helena olhou para os cacos no chão, depois para Rosa. Você sabe quanto isso custava? Foi sem querer. Rosa chorava. O Lucas paga. Eu pago. Lucas não está aqui. Helena agarrou o braço dela com força. Chega, eu estou farta. Minutos depois, os guardas abriram a porta do depósito.
Ordem da senhora disse Marcos com os olhos baixos. Vocês têm que sair. Sair para onde? Rosa perguntou. A voz já cansada demais para gritar. Helena apareceu à porta para fora da minha casa. O céu do lado de fora começava a escurecer de um jeito estranho. O vento levantava folhas secas. Um trovão distante fez o chão vibrar.
Seu Antônio olhou para ela pela última vez. Vai chover forte. Helena deu de ombros. Não é problema meu. O portão começou a se abrir lento, pesado, e naquele exato momento, a primeira gota caiu. O lounge vip do aeroporto parecia um mundo à parte. Ar gelado, cheiro de café recém-passado, o murmúrio controlado de conversas baixas.
Telas exibiam números verdes e vermelhos, gráficos subindo, promessas de crescimento. Homens de terno falavam de milhões, como quem comenta o clima. Lucas estava sentado, mas não estava ali. O copo d’água à sua frente permanecia. A perna balançava sem parar. Ele tentou se concentrar nas palavras do sócio, tentou ouvir, tentou responder com a cabeça, mas algo apertava por dentro.
Um aperto estranho, sem nome, sem lógica. Se fecharmos hoje, isso muda tudo”, dizia o sócio animado. “É o negócio do ano.” Lucas assentiu automaticamente tudo, menos aquilo dentro do peito. Ele passou a mão pelo pescoço. Estava suando frio, não fazia sentido. O ar estava climatizado, confortável demais. Ainda assim, sentia como se tivesse acabado de sair da chuva.
A imagem veio sem aviso, Lívia. O rosto pequeno, os olhos grandes, o jeito que ela franzia a testa quando não conseguia respirar direito. Lucas piscou, tentando afastar aquilo. “Tá tudo bem?”, o sócio perguntou, finalmente percebendo. “Você ficou pálido.” “Tô.” Lucas respondeu, mas a palavra saiu fraca, só um cansaço. Ele olhou o relógio, 7 da noite.
A essa hora, sua mãe normalmente estava dando banho nas crianças. Seu pai ligava a TV baixa, reclamando das notícias. A casa tinha som, movimento, vida. Lucas puxou o celular, discou o telefone fixo, chamou, chamou. Nada. Franziu a testa. Tentou o celular da mãe. Caixa postal. O estômago afundou. Tentou de novo. Nada. Estranho.
Murmurou. Relaxa. O sócio disse rindo. Deve estar no quintal sem sinal ou com a Helena. Você anda muito tenso. Lucas engoliu em seco e discou o número de Helena. Chamou uma vez, duas. Caiu na caixa postal. Ele tentou outra vez direto na caixa. Lucas se levantou devagar. O coração agora batia rápido demais.
“Ninguém atende”, disse mais alto do que pretendia. Algumas pessoas olharam. Amor exagerado, hein? O sócio brincou. A noiva, os pais, você não desgruda nunca. Lucas caminhou até a janela do lounge. Do outro lado do vidro grosso, a pista brilhava sob uma tempestade violenta. Relâmpagos riscavam o céu. A chuva caía torta, empurrada pelo vento. São Paulo desabava.
Ele pensou nas articulações do pai, quesempre doíam com a humidade. Pensou na tosse de Lívia. Pensou no aquecedor da casa, que às vezes falhava. O aperto virou dor. Eu não vou, disse de repente. Como assim não vai? O sócio arregalou os olhos. O voo sai em meia hora. Lucas virou-se.
O rosto estava decidido, duro de um jeito que não deixava espaço para a discussão. Algo está errado. Lucas, isso é paranoia. Estamos falando de milhões. Dinheiro volta. Ele respondeu já pegando a pasta. Minha família não. O sócio tentou segurá-lo pelo braço. Você vai se arrepender disso. Lucas soltou o braço com calma.
Eu me arrependeria muito mais se ignorasse isso. Ele saiu do lounge sem olhar para trás. O aeroporto parecia um labirinto. Escadas, corredores, vozes ecoando. Lucas corria desviando de gente, sentindo o coração bater nos ouvidos. Quando chegou ao estacionamento, a chuva já parecia uma parede sólida. Entrou no carro e ligou o motor. O rádio acendeu automaticamente.
Alerta vermelho dizia a voz do locutor. Tempestade severa na zona oeste, alaramentos em Alto de Pinheiros, Morumbi, o bairro dele. Lucas acelerou. O trânsito estava parado. Faróis imóveis, buzinas nervosas. Cada segundo parecia uma traição. “Anda!”, ele gritou, socando o volante. Tentou ligar de novo. Casa, nada. Mãe, nada.
Pai, caixa postal. Helena, caixa postal. O silêncio do outro lado da linha começou a cheirar mal, cheirar a coisa errada. Quando finalmente conseguiu entrar na via expressa, dirigia como se o carro fosse parte do corpo. Água subia pelos lados da pista, galhos caídos, a visibilidade quase zero. “Deus”, ele murmurou, “algo que não fazia há anos.
Cuida deles”. A imagem da mãe lhe entregando a marmita naquela manhã voltou inteira, nítida demais. Para mim, você sempre vai ser meu menino. O nó na garganta apertou. Ao dobrar a esquina da rua de casa, um alívio curto atravessou seu peito. As luzes estavam acesas. A casa estava ali, mas algo estava errado.
A guarita estava vazia. Lucas abriu o portão com o controle e entrou rápido demais, estacionando em qualquer lugar. Saiu do carro sem guarda-chuva. A chuva o atingiu como um tapa. A porta principal estava trancada. Ele deixou as chaves caírem na água, xingou baixo, pegou de novo e entrou. Lá dentro, o contraste doe eu.
Ar condicionado ligado, música baixa, cheiro de incenso caro, tudo limpo, tudo calmo demais. Mãe, ele chamou. Nada, pai. Silêncio. Lucas caminhou pela sala, deixando um rastro de água e lama no mármore branco. Então viu Helena deitada no sofá, uma taça de vinho na mão, revista aberta no colo. Ela se assustou ao vê-lo.
Lucas, disse, forçando um sorriso. O que você está fazendo aqui? Ele não respondeu de imediato. Os olhos dele percorriam a casa, procurando sinais de vida. Onde eles estão? Amor, calma. Helena se levantou. Eles saíram. Saíram para onde? Ela suspirou, ensaiando um ar de cansaço. Seus pais ficaram nervosos.
Disseram que iam embora, que não se sentiam bem aqui. Lucas sentiu algo gelar por dentro. Com as crianças nessa chuva? Eu tentei impedir. Ela mentiu rápido demais, mas sua mãe ficou agressiva. Olha, mostrou um arranhão pequeno no braço. Eles levaram tudo e foram. Lucas subiu as escadas sem dizer mais nada. O quarto dos bebês estava escuro, as cunas vazias, arrumadas demais.
O cheiro de limpeza era forte. Ele abriu a gaveta da cômoda. Algumas roupas faltavam. A bolsa de fraldas não estava. Então seus olhos pararam na mesinha ao lado da poltrona. Ali intacto, o nebulizador de Lívia e a caixa de remédios cheia. Lucas segurou o aparelho com as duas mãos. Os dedos começaram a tremer.
“Minha mãe nunca sairia sem isso”, sussurrou. Ele virou-se devagar. Helena estava parada na porta, pálida. Você mentiu, Lucas? Você está exagerando. Onde eles estão? O tom não era alto, era baixo, perigoso. Helena respirou fundo, derrotada. Eu mandei eles saírem. Só isso. Não aguentava mais. Lucas passou por ela sem tocá-la, desceu as escadas correndo e saiu para a chuva outra vez.
Na guarita a luz estava acesa. Marcos estava lá dentro sentado, cabeça entre as mãos. Marcos. Lucas bateu no vidro. O segurança levantou o rosto, os olhos vermelhos. Senhor, a voz saiu falha. Eles foram pro parque, pro outro lado da rua, debaixo da árvore grande. Eu vi, mas não pude fazer nada. Lucas não respondeu. Ele já estava correndo.
A chuva apagava tudo à frente, mas agora ele sabia para onde e isso mudava tudo. O parque em frente à mansão não era grande, mas naquela noite parecia não ter fim. A chuva caía tão densa que virava parede. O vento empurrava a água de lado, como se quisesse arrancar tudo do lugar. As árvores vistas de longe, eram sombras retorcidas, monstros balançando os braços e a rua entre a casa e o parque era um rio raso e sujo.
Lucas atravessou correndo. A água batia no tornozelo, subia em ondas pequenas, geladas. Ele gritava os nomes como se a voz pudesse acender luz no escuro. Mãe,pai, a garganta ardia, a chuva entrava nos olhos, queimava. Ele limpava com a mão, enxergava por um segundo e perdia tudo de novo.
Atrás dele, Marcos vinha com uma lanterna potente. O feixe tremia, cortando a noite, batendo nas folhas, nas raízes, no chão transformado em lama. Ali o segurança gritou perto do Jequitibá. O raio de luz acertou uma árvore velha, enorme, com raízes que pareciam dedos saindo da terra. Lucas viu um volume escuro colado no tronco. Não entendeu de primeira, até que um relâmpago estourou no céu e o mundo dele parou.
Não era um volume, eram corpos encolhidos, grudados uns nos outros, como se tentassem virar um só. A posição era impossível, desesperada. E o pior, o pior era o silêncio. Lucas caiu de joelhos na água fria, nem sentiu o impacto. A lama sujou o terno, grudou na pele. Ele não ligou, só queria chegar. Pai, mãe. A voz saiu quebrada, quase infantil.
Seu Antônio estava com os olhos fechados, pálido demais, os lábios roxos, o peito mal se mexia, os braços rígidos protegiam embrulho pequeno. Caio. Dona Rosa estava caída contra ele, a cabeça tombada no ombro, cabelo grisalho solto, colado no rosto e nos braços dela, Lívia. Nenhum dos bebês chorava. Lucas estendeu as mãos tremendo inteiro. E não era só o frio.
Ele tocou a bochecha de Caio, fria, fria demais. Não, não, por favor. Ele sacudiu o pai com cuidado, desesperado. Pai, sou eu. Eu tô aqui. Seu Antônio não reagiu. Lucas levou os dedos ao pescoço do velho, tentou achar pulso. A pele escorregava molhada, os dedos dele falhavam de pânico. Nada. O coração dele deu um salto como se tivesse caído num buraco.
“Marcos!”, ele gritou, girando a cabeça. “Me ajuda! Eles não, eles não estão reagindo. Marcos ficou imóvel por um segundo, como se a cena tivesse quebrado alguma coisa dentro dele. Um homem grande, acostumado a segurar porta e segurar medo, mas não aquilo, não. O patrão de joelhos chorando como um filho perdido. O grito de Lucas o puxou de volta.
Pega a menina, doutor. Marcos disse engasgado, como se chamasse Lucas de qualquer coisa que desse força. Eu levo a dona Rosa. Lucas tomou Caio no colo e sentiu o peso estranho do corpo pequeno. Leve demais, mole demais. Caio soltou um gemido fraco, quase inaudível. Aquele som mínimo fez Lucas respirar de novo. Isso, isso, meu filho.
Ele sussurrou, cobrindo o bebê com o próprio palitó molhado, como se aquilo fosse escudo. Papai tá aqui. Marcos pegou Lívia com cuidado, encostou no peito, tentando aquecer com o próprio corpo. Corre pro carro. Lucas ordenou. liga a calefação no máximo. Ele tentou levantar o pai e a criança ao mesmo tempo.
A força veio de um lugar que não era músculo, era desespero, era culpa, era amor tardio. Ele carregou seu Antônio como se fosse pluma. O velho sempre pareceu grande na vida dele. Grande, firme, impossível de cair. Ali nos braços parecia uma coisa frágil demais. No caminho, Lucas escorregou, quase caiu. A lama puxava os pés, a chuva batia no rosto como pedra.
Ele apertava o pai contra si e repetia, sem saber para quem. Aguenta, aguenta, por favor, aguenta. O carro estava a poucos metros, mas parecia longe como outra cidade. Quando chegou, chutou a porta traseira, abriu com violência, colocou o pai no banco, ajeitou o Caio no peito do avô, tentando que o calor passasse.
Marcos entrou com Lívia, tremendo. A calefação soprou ar quente. O som daquele ar parecia vida. Mas o frio da morte ainda estava ali grudado no corpo de todos. Marcos voltou correndo para buscar dona Rosa. Lucas ficou um segundo olhando para Caio. Os olhos do bebê abriram uma fresta. Um sopro de voz, um barulhinho de quem tenta respirar.
Lucas sentiu as pernas amolecerem. Obrigado. Obrigado. Ele não sabia se falava com Deus, com o universo, com a própria chance que tinha acabado de ganhar. Marcos apareceu de novo, carregando dona Rosa como uma boneca de pano. Ela estava inconsciente, o rosto pálido, os lábios trêmulos.
Eles a colocaram no banco da frente, reclinaram o assento. Marcos prendeu o cinto com mãos que não paravam de tremer. Lucas sentou no volante, fechou a porta. De repente, o barulho da tempestade ficou lá fora, abafado, distante, dentro do carro, só o zumbido quente e o bip imaginário do próprio coração gritando. Lucas olhou pelo retrovisor, o pai, os filhos, a mãe, todos destruídos por horas de frio, por minutos de crueldade e por anos de cegueira dele.
Ele apertou o volante até o couro ranger. A raiva subiu quente, como se queimasse por dentro. Uma raiva que não era só contra Helena, era contra ele mesmo. “Vai pagar”, ele disse baixo, quase sem voz. “Eu juro que vai pagar”. O carro arrancou, as rodas patinaram na água. O motor rugiu. A mansão ficou para trás, iluminada, bonita, indiferente, como se nada tivesse acontecido, como se aquela casa ainda tivesse direito de se chamar Lar.
O hospital apareceu como um farol. Lucas não procurou vaga, subiu narampa de emergência, freou com violência, saiu gritando antes mesmo de desligar o motor. Ajuda, agora tem criança, tem idoso em choque. Enfermeiros correram, macas surgiram, mantas térmicas, oxigênio. O mundo virou uma coreografia urgente. Lucas viu o pai ser colocado numa maca.
Viu Caio e Lívia receberem máscaras pequenas no rosto, tão pequenas que doía. Viu a mãe ser empurrada para dentro como se fosse vidro prestes a quebrar. E então a porta fechou. Lucas ficou do lado de fora, sozinho no corredor branco, com a camisa colada no corpo, tremendo, não mais de frio, mas de medo do que vinha. Marcos sentou no banco ao lado e chorou sem som, olhando para o chão.
“Eu devia ter feito alguma coisa”, ele murmurou. Lucas não respondeu. Ele só olhou para as mãos sujas de lama e naquele silêncio entendeu uma coisa que nunca tinha entendido de verdade. Dinheiro compra teto. Mas quem transforma teto em abrigo é quem fica. Horas depois, quando finalmente o médico saiu para falar, Lucas não pediu status de contrato, não pediu previsão, não pediu desculpa.
Ele pediu só uma coisa, com a voz quebrada, como alguém que reaprende a ser humano. Eles vão voltar para mim. O médico respirou fundo, como quem escolhe palavras. chegaram no limite”, disse ele, “ma 20 minutos e não estaríamos conversando.” Lucas fechou os olhos. 20 minutos. Era tudo o que separava a vida do vazio.
E quando abriu os olhos de novo, não havia mais o homem do lounge vip, nem o noivo confiante, nem o dono da casa. Havia só um filho, um pai, e uma decisão silenciosa feita ali no cheiro forte de hospital e chuva. Ele ia ficar.















