O som não foi alto, não houve grito nem música dramática. Foi apenas um pequeno impacto metálico contra o mármore frio. O anel rolou alguns centímetros, descrevendo um círculo imperfeito até parar ao lado da cama. Caio Monteverde não piscou. O quarto estava excessivamente silencioso. Aquele tipo de silêncio caro, abafado por cortinas grossas, tapetes importados e paredes que nunca ouviram uma discussão de verdade.
O ar tinha cheiro de antisséptico misturado com o perfume doce e agressivo de Valéria. Um cheiro que entrava no nariz como um aviso. Valéria estava de pé, impecável, vestido claro, salto alto, postura ereta, o cabelo loiro preso com precisão cirúrgica, o rosto bonito e vazio. “Chega, Caio.” A voz dela não tremeu. “Eu não vou viver assim.
” Ela apontou para ele com um gesto seco, como quem indica um móvel fora de lugar. Caio estava deitado, imóvel, as pernas cobertas por um lençol branco, o peito enfaixado, o rosto pálido, controlado, o acidente de helicóptero tinha sido há poucos dias, pelo menos era isso que todos acreditavam. Desde então, médicos, visitas, flores e agora aquilo.
Você virou um peso, continuou Valéria andando pelo quarto. O salto ecoava no chão, marcando o ritmo da sentença. Um risco para tudo o que eu construí ao seu lado. Ela se aproximou da cama, perto demais. Caio sentiu o cheiro do perfume com mais força, baunilha, algo cítrico e poder. Eu não me casei com um homem para empurrar uma cadeira de rodas em eventos beneficentes”, disse ela inclinando-se.
“A cidade observa, sempre observa”. Caio manteve os olhos nela. Por dentro, cada palavra era registrada, guardada, classificada. Ele não estava ouvindo como um marido ferido, estava ouvindo como alguém que avalia uma estrutura prestes a ruir. Valéria levou a mão ao dedo, puxou o anel sem hesitar. O diamante, grande demais, caro demais, brilhou uma última vez sob a luz amarelada do abajur antes de cair no chão. Clink, ti, isso acabou.
Ela respirou fundo, como se tivesse acabado de se livrar de um peso físico. Amanhã o advogado vem cedo. Quero sua assinatura. Contas, ações, tudo é só uma formalidade. Considerando sua condição. Caio engoliu em seco, fingiu o esforço. Valéria. A voz saiu rouca, frágil. Eu ainda estou me recuperando. Ela sorriu.
Não com os lábios, com algo mais duro. Recuperando de quê? Perguntou. De não ser mais útil? Antes que ele respondesse, a porta se abriu devagar. Não houve anúncio. Não houve permissão pedida em voz alta. Apenas o rangido discreto da maçaneta e passos cuidadosos. Lívia entrou. Vestia o uniforme simples de sempre.
Azul desbotado, manga longa, os cabelos presos de qualquer jeito, como quem não tem tempo para espelhos. Nos braços carregava um dos gêmeos. O outro caminhava agarrado à sua perna, ainda sonolento. “Desculpa, senhora”, disse ela, quase num sussurro. Eles ouviram barulho. Queriam ver o pai. Os olhos das crianças passearam pelo quarto, pelo chão, pelo rosto da mãe que não era mãe.
Valéria se virou lentamente. O olhar mudou. “Quem mandou você entrar aqui?”, perguntou Fria. “Quantas vezes eu disse que não quero essas crianças rondando meu quarto?” Lívia instintivamente ajustou o corpo, colocando-se um pouco à frente dos pequenos. “Eles se assustaram.” tentou explicar. Só queriam. Chega.
Valéria deu um passo à frente. Leva isso daqui agora. Ela olhou para as crianças como se fossem manchas. Esse lugar não é para elas. Caio sentiu algo apertar dentro do peito. Não era dor física, era outra coisa. Algo antigo, um tipo de raiva silenciosa. São meus filhos disse ele baixo. Valéria riu.
Seus, repetiu, eles são um problema e problemas se resolvem. Ela se voltou para Lívia. Some antes que eu perca a paciência. Lívia respirou fundo. Caio percebeu. Foi rápido, mas viu um microssegundo de decisão passando pelos olhos dela. Com licença, senhora. disse ela firme, mas sem levantar a voz. O senhor Caio precisa de descanso. Se a senhora quiser discutir, pode ser depois ou fora daqui. O quarto congelou.
Valéria piscou incrédula. O quê? Lívia não recuou. Gritar assim não ajuda. Olhou para Caio, depois para as crianças. Só machuca. Caio sentiu algo estranho. Não alívio, não esperança, algo mais perigoso, respeito. Valéria soltou uma risada curta. Você esqueceu seu lugar, querida? Ela se aproximou, invadindo o espaço de Lívia.
Você está aqui para limpar, não para falar. Lívia baixou os olhos, mas não se moveu. Caio observava tudo, cada gesto, cada silêncio. Valéria se afastou irritada. Amanhã cedo, disse, olhando para Caio, eu quero sua assinatura. Se não, deu de ombros. Hospital público, remédios cortados e essa aí? Apontou para Lívia. Fora daqui no mesmo dia.
Ela saiu do quarto com passos duros. A porta se fechou. O silêncio voltou. Diferente agora, mais pesado. Lívia soltou o ar que prendia, ajoelhou-se para ajeitar as crianças. sussurrando algo para acalmá-las. “Me desculpa,senhor”, disse sem encará-lo. “Não devia ter falado. Caio” a observou. As mãos dela tremiam, não de medo, de controle.
“Obrigado”, disse ele com a voz ainda fraca. Ela ergueu o olhar, surpresa. “Só fiz o que achei certo.” Ela levou as crianças para fora. Antes de sair, voltou o rosto uma última vez. olhou para Caio. Um olhar rápido, profundo, como quem vê além da cama, além do lençol. A porta se fechou. Caio ficou sozinho.
O quarto parecia maior agora, mais vazio. Seus olhos deslizaram até o chão, até o anel esquecido, refletindo a luz artificial. Ele ficou aliento frio. Caio respirou devagar. Por baixo do lençol, seus dedos se fecharam com força, não de dor, de decisão. Do lado de fora, passos se afastavam e em algum lugar da casa, uma criança começou a cantar baixinho para espantar o medo.
Caio fechou os olhos. A prova havia começado. A madrugada em São Paulo tinha um som próprio. Não era silêncio. Era um ruído baixo, constante, o ar condicionado soprando como um suspiro cansado, o elevador da mansão gemendo lá longe e de vez em quando um carro passando na avenida, molhando o asfalto com aquela pressa de quem não tem nada a perder.
No quarto principal, Caio Monteverde ficava acordado com os olhos abertos. A luz do corredor entrava por uma fresta da porta, cortando a escuridão como uma lâmina fraca. Ele ouvia com atenção demais os pequenos sons da casa, o rangido do piso, o clique de uma chave, o choro distante de uma criança que acorda de susto e não sabe explicar.
Ele não podia se mexer, pelo menos. Era o que todos acreditavam. Caio respirou fundo, lento, deixou o corpo pesado na cama. O peito enfaixado coçava, a garganta ardia de propósito. Ele passava a língua no céu da boca, simulando sede, simulando fraqueza. Não era um teatro para o mundo, era uma armadilha. E a armadilha só funciona quando o predador acredita que você já está morto.
Na mesa de cabeceira, o copo vazio brilhava sob a luz amarelada do abajur. Ele esperou. Quando o relógio marcou 2,17, ouviu passos leves no corredor. Passos que não arrastavam, não batiam. Passos de alguém acostumado a andar sem incomodar. A porta se abriu devagar. Lívia entrou. Ela não usava maquiagem. O rosto limpo tinha marcas de cansaço que nenhum filtro apagaria.
O cabelo estava preso alto, torto, com alguns fios caindo na testa. O uniforme azul tinha cheiro de sabão e água quente, aquele cheiro simples que dá vontade de confiar. Ela carregava uma bandeja pequena, um copo de água, uma toalhinha e um prato com duas bolachas. O senhor chamou? perguntou baixo com medo de acordar as crianças.
Caio fingiu o esforço para falar: “Água, por favor, minha garganta”. Lívia a sentiu rápido, aproximeou-se da cama com cuidado, como se o colchão fosse vidro. Pegou o copo, apoiou a mão na almofada e, sem tocar nele de forma invasiva, levantou levemente sua cabeça com a toalhinha dobrada. O gesto foi simples, mas Caio sentiu a diferença como um choque.
Valéria encostava nele como quem toca algo sujo. Lívia encostava como quem segura algo vivo. A água desceu fria, real, limpando a boca e, por um segundo, limpando também o gosto amargo do dia anterior. “Obrigado”, murmurou Caio. Lívia colocou o copo de volta e, antes de se afastar, olhou para o lençol, para as faixas.
para o rosto dele. “O senhor tá com dor?”, a pergunta veio sem drama, sem pena. Veio com uma preocupação quieta, quase prática. Caio engoliu seco, preparou a próxima peça do teste. Se ele fez uma pausa como se a frase fosse pesada. Se Valéria me tirar daqui, se eu perder tudo, o que você faria? Lívia piscou, ficou parada, a bandeja ainda nas mãos, como se o corpo tivesse entendido o risco da pergunta antes da mente.
Senhor, por que o senhor tá me perguntando isso? Caio deixou a voz cair, frágil. Eu preciso saber. Lívia respirou fundo. Os olhos dela, castanhos escuros, refletiam a luz do abajur lago à noite. Ela não respondeu de imediato. Olhou para o canto do quarto, como se procurasse coragem num ponto fixo, e então falou: “Eu fico”.
Caio sentiu o peito apertar. Como? Ele perguntou, fingindo não entender. Lívia deu um meio sorriso triste. Eu fico, ué, alguém tem que ficar. Ela falou com a naturalidade de quem diz: “Fecha a janela porque vai chover. O Senhor é o pai deles. Eles precisam do Senhor. Caio quis insistir, cutucar, procurar mentira. Mas se eu não puder pagar, ele baixou a voz. Se eu virar só um peso.
Lívia balançou a cabeça. Dinheiro vai e volta. Ela encolheu os ombros. Simples. Agora gente que fica, é raro. Ela olhou para a porta como se temesse que alguém escutasse. Depois voltou o olhar para ele. Minha avó falava uma coisa. Fez uma pausa curta, respirou. Riqueza de homem não tá no bolso, tá do lado, do lado? Quando o bolso esvazia, Caio segurou a respiração.
Aquilo bateu nele de um jeito que não era bonito. Era cru, era verdade. Do corredor, um som. Passinhos pequenos, apressados. Antes que Líviapudesse reagir, duas cabecinhas apareceram na porta. Olhos inchados de sono, cabelo bagunçado, pijaminha com desenho de dinossauro. Mateus e Lucas. Papai. O menor sussurrou como se dissesse um segredo.
Você tá acordado? Caio sentiu a garganta fechar de verdade. Não era parte do plano, não era atuação, era vergonha, talvez, de ter usado o amor deles como cenário de guerra. Lívia correu suave e tentou levar os dois de volta. O papai precisa descansar. Mas Lucas já tinha atravessado o quarto devagar. Subiu na ponta do pé, como se o chão fosse perigoso, e encostou a mãozinha no lençol. Tá frio. Caio travou.
O menino tinha razão. A mansão era enorme, cara. E ainda assim era fria. Lívia puxou uma manta fina do sofá do canto e veio cobrir melhor as pernas de Caio. O tecido roçou o lençol com um som leve, quase um sopro. Mateus bocejou e abraçou o braço do pai por cima do cobertor. A gente sonhou com trovão.
Caio olhou para Lívia. Ela desviou o rosto emocionada demais para sustentar aquele quadro. Ele viu uma coisa ali. Não era só cuidado, era presença. A casa inteira podia ser dele no papel, mas quem preenchia os espaços, quem aquecia o ar, era aquela mulher com uniforme barato e mãos cansadas. De repente, um barulho forte no andar de baixo, um claque seco, porta batendo, um som que não combinava com madrugada. Lívia ficou rígida na hora.
O olhar dela se acendeu alerta. A senora Valéria. Ela sussurrou como quem diz tempestade. Caio também ouviu os passos subindo à escada, firmes, impacientes. Valéria. Caio fechou um pouco os olhos e voltou ao papel. O corpo relaxou, o rosto amoleceu, a respiração ficou mais curta, o teatro encaixando de novo como uma máscara antiga.
A porta do quarto abriu com força. Valéria entrou já falando, como se o mundo tivesse obrigação de se organizar ao redor dela. Que cena linda! Ela disse com sarcasmo, o inválido e seus filhotinhos. Os olhos dela bateram em Lívia e a temperatura do quarto caiu. “Você ainda tá aqui”, rosnou. “Eu mandei sumir.” Lívia não respondeu.
Apenas colocou as mãos nos ombros dos gêmeos, puxando-os para trás, protegendo. Valéria apontou para Caio com desprezo. Amanhã cedo você assina e ela ela vai embora. Entendeu? A voz dela era doce demais para ser humana. Caio, com a voz fraca que ela esperava, murmurou: “Não, por favor, não agora.” Valéria sorriu. Vitória pronta.
Então, manda essas crianças pro quarto. Ela olhou para Lívia como se desse ordens a um objeto. E fecha a porta. Eu não suporto esse cheiro de família. Lívia engoliu seco, pegou a mão de Mateus, depois a de Lucas. Antes de sair, ela olhou para Caio, um olhar rápido, pequeno, mas carregado. Caio viu ali um pedido silencioso.
Eu tô aqui. Quando a porta se fechou e o quarto ficou apenas com os dois, Valéria se aproximou da cama como uma sombra perfumada. “Você tá vendo?”, sussurrou ela. Até a empregada tem pena de você. Caio não respondeu. Por dentro ele só repetia uma frase, como se fosse uma oração sem igreja. Quem fica é quem importa.
E lá fora no corredor, um som quase imperceptível se misturou aos passos de Valéria, o tecido de uma manta sendo ajustado no corpo de duas crianças. Uma manta fina, mas quente o suficiente para segurar uma casa inteira por mais uma noite. A chuva começou antes de escurecer de vez. Primeiro foi um barulho manso, pingos tímidos batendo no vidro.
Depois, como se São Paulo tivesse guardado raiva o dia inteiro, o céu abriu de verdade. Veio o vento, veio o trovão, veio aquela cortina densa que apaga a cidade e deixa tudo com cara de fim de mundo. Do lado de dentro da mansão Monteverde, as luzes continuavam quentes, perfeitas. Mas o ar, o ar tinha um gosto de coisa errada.
Caio estava no quarto, deitado, com o corpo pesado na cama e a cabeça trabalhando em silêncio. Ele já sabia. Valéria não ia esperar o amanhã cedo, como prometeu. Ela tinha pressa demais. Gente cruel sempre tem pressa, porque no fundo sabe que se parar para respirar pode escutar a própria consciência. Ele ouviu lá embaixo o barulho do interfone, um toque curto, seco, urgente e então passos no corredor.
Só que dessa vez não era só o salto de Valéria, eram passos de homem, passos firmes, barulhentos, confiantes demais para uma casa onde o dono estava doente. A porta abriu sem bater. Valéria entrou primeiro, sorrindo. Uma alegria que não combinava com nada. Parecia que ela tinha bebido alguma coisa, ou talvez fosse só a embriaguez do poder.
Atrás dela veio o Marcelo, terno escuro, relógio caro, gosto de colônia forte e álcool, o tipo de homem que sabe rir alto em restaurante caro e chamar garçom de amigo sem olhar nos olhos. Ele parou na frente da cama e olhou o Caio como se olhasse um objeto. E aí, Marcelo soltou um riso curto.
Esse é o famoso Caio Monteverde. O tubarão virou peixinho de aquário. Valéria deu uma risada baixa. Cúmplice. Não fala assim, amor. Eladisse com doçura, envenenada. Ele tá sensível. Caio manteve o rosto vazio, os olhos semicerrados, a respiração curta. Por dentro, porém, ele anotava tudo. O cheiro do álcool, a certeza na postura dos dois, o jeito como Valéria entrou, como dona do mundo.
Cadê a empregada? Marcelo perguntou, olhando em volta, como quem procura diversão. Aquela morena, a que fica com as crianças. Valéria fez um gesto com a mão, despreocupada. Deve estar escondida com os fedelhos. Mas já já ela aparece. Quero ela de testemunha. Caio sentiu uma fisgada no estômago. Testemunha. Valéria se sentou na beirada da cama perto demais.
Passou os dedos pelo lençol, como se aquilo já fosse propriedade dela. “Mudança de plano”, ela sussurrou. “O notário vem agora. Noite. Assina e dorme. Prático. Marcelo se jogou no sofá do canto, abrindo as pernas à vontade. Pegou uma garrafa que trouxe sem pedir e serviu em dois copos. O tilintar do vidro no quarto soou alto demais. A gente vai brindar, Caio. Marcelo disse.
Você sempre foi difícil, sempre mandando, sempre controlando. Hoje, hoje é a nossa vez. Caio virou o rosto, fingindo cansaço, mas a tensão dentro dele crescia como um motor aquecendo. A porta se abriu de novo. Lívia entrou com um pano dobrado e um prato pequeno, sopa simples. O cheiro subiu no ar como uma lembrança de casa de verdade.
Ela parou assim que viu Marcelo. O rosto dela mudou. A boca entreabriu. Os olhos buscaram Caio num reflexo. Senhora, ela começou sem saber como entrar naquele quadro. Valéria levantou num pulo. Ah, olha ela disse teatral. Chegou bem na hora. Lívia deu um passo, hesitou. O senhor precisava comer um pouco. Marcelo riu. Bonitinha.
Corajosa também, né? Já ouvi falar. defende o patrão como se fosse. Ele caminhou até ela, lento, predatório. Lívia recuou. Com licença, ela falou firme. O senor Caio precisa descansar. Isso não é hora de visita. Valéria arrancou o prato da mão dela e jogou no chão. A cerâmica estourou. A sopa espalhou pelo tapete caro, um amarelo quente manchando o luxo como uma acusação.
“Você não manda em nada aqui”, Valéria gritou, os olhos brilhando de ódio. “Limpa agora!” Lívia ficou imóvel por um segundo. Aquele tipo de segundo em que o mundo decide quem você é. E então ela se abaixou, não por submissão, mas porque a sopa quente poderia queimar alguém. E porque as crianças, sempre as crianças podiam aparecer a qualquer momento.
Ela começou a recolher os pedaços com as mãos tremendo. Marcelo se aproximou de Valéria, sussurrando algo no ouvido dela. Caio viu o sorriso dela crescer. Lívia, ajoelhada, falou sem levantar a cabeça: “E os meninos, o que vocês vão fazer com o Mateus e o Lucas?” O quarto ficou quieto por meio segundo e então Marcelo respondeu: “Como quem fala de um negócio qualquer?” “Criança dá trabalho”, ele disse dando um gole.
“Mas criança também vale dinheiro”. Valéria completou com um riso curto, nervoso. Tem gente que paga, principalmente se forem loirinhos, bonitinhos, saudáveis. O chão sumiu sob Caio por dentro. O peito dele apertou de verdade. Não era mais teste, não era mais prova, era abismo. Ele sentiu o sangue correr quente, apesar do frio da chuva lá fora.
Os dedos se fecharam sob o lençol, unha contra palma, até doer. Lívia levantou num salto, ainda com um pedaço de cerâmica na mão, sem perceber. Vocês não vão encostar neles”, ela disse. A voz mais grossa, mais alta. Não vão. Marcelo riu como se ela tivesse contado uma piada. “Vai fazer o quê?”, ele perguntou.
Morder? Valéria girou o rosto irritada. “Lívia, cala a boca.” Ela rosnou. “Você só tá aqui até ele assinar”. Depois, rua. Caio sentiu o impulso de levantar, de acabar ali, mas uma parte fria dele, a parte que sobreviveu construindo o império, gritou dentro da cabeça: “Agora não, ainda não. Protege as crianças, protege ela.” Ele olhou para Lívia e, com a voz fraca que ela já conhecia, soltou uma ordem disfarçada de pedido.
“Lívia”, Caio falou baixo com ênfase. “Leva os meninos pro quarto”. Fecha, tranca agora. Lívia hesitou. Os olhos dela enchiam de lágrimas, mas ela entendeu o olhar dele, entendeu o peso, engoliu o choro. Ela saiu correndo. Valéria riu. Viu? Ela disse para Marcelo. Até a fielzinha sabe quando perdeu.
O interfone tocou lá embaixo de novo. Valéria endireitou o corpo, ajeitou o cabelo como se fosse receber visita importante. Chegou o notário. Caio ouviu os passos no corredor. Viu Marcelo se levantar animado. Viu Valéria abrir aquele sorriso de quem já se acha dona de tudo. Só que naquele exato momento, um som veio de longe, fraco, abafado, mas claro, um soluço, não de Caio, de Lívia, algum lugar no andar de cima ou talvez no corredor.
O choro dela escapou como um pedaço de alma que o corpo não segurou. Caio fechou os olhos por um segundo e quando abriu já não havia mais dúvida dentro dele. A chuva lá fora rugia. Dentro do quarto, o arera faca. Ele percebeu que aquela noite não ia terminar com assinatura, ia terminar com algo quebrando e não era mais cerâmica no tapete.
O notário entrou e Caio, ainda deitado, sentiu o peso do próprio nome como uma arma silenciosa, prestes a ser usada. Mas antes ele pensou nos meninos e pensou em Lívia, em como ela tinha ficado, em como ela tinha dito: “Eu fico”. como quem escolhe morrer de pé. E do lado de fora, a chuva bateu mais forte na janela, como se o mundo inteiro finalmente estivesse prestando atenção.
O primeiro empurrão aconteceu rápido, foi feio, foi frio, foi como se o corpo de Caio não fosse um corpo, fosse só um pacote. Os seguranças evitaram olhar nos olhos dele. Dois deles seguraram pelos braços. Um terceiro puxou o lençol e Caio deixou o peso cair, mole, doente, obedecendo ao próprio plano, enquanto cada músculo gritava para reagir.
Valéria, de pé na porta do quarto, apontava como uma rainha irritada. Leva agora e tira essa cadeira elétrica daqui. Essa fica. Marcelo riu encostado na parede com o copo na mão. O rei caiu do trono em Lívia entrou correndo no corredor, o rosto vermelho, a respiração descompassada. Os olhos dela foram direto para os gêmeos, que choravam no quarto das crianças, assustados com o barulho, com o caos, com a casa virando inimiga.
“Não, por favor!”, ela tentou sem voz. “Cala a boca, empregada.” Valéria cuspiu. Você vai junto para aprender. O notário pálido, segurava a pasta contra o peito. Ele não dizia mais nada. A coragem dele era de papel, molhava fácil. Caio percebeu o exato instante em que tudo saiu do golpe e virou violência real. Quando um dos seguranças puxou uma cadeira de rodas velha, enferrujada do depósito, a roda chiou, um som triste, metálico.
“Senta ele aí”, Valéria ordenou que ele aprenda a ser humilde. Caio engoliu o orgulho como se engolisse cacos. Deixou que o sentassem. O assento era duro, as laterais apertavam. Aquele ferro frio parecia ter sido usado por alguém esquecido e agora era o lugar dele. Lívia correu e tentou cobrir o peito dele com uma manta de lã da cama.
Valéria arrancou da mão dela. Essa é de Cashmir, não vai? Lívia ficou parada um segundo, os olhos cheios d’água e então, sem pensar, tirou o próprio suéter simples, fino, gasto, e colocou nos ombros de Caio, cobrindo as faixas úmidas. Caio sentiu o tecido cheirar a sabão barato e trabalho, um cheiro que não mentia.
“Eu tô aqui”, Lívia sussurrou perto do ouvido dele, como se fosse uma promessa. Os meninos foram trazidos às pressas. Mateus agarrado à mão dela, Lucas chorando e chamando o papai num fio de voz. E então a procissão desceu à escada principal. A mansão parecia assistir tudo em silêncio, como se as paredes finalmente tivessem vergonha.
No alto, Valéria e Marcelo observavam como quem assiste espetáculo. Lá embaixo, a porta de madeira maciça se abriu e a noite entrou. A chuva bateu com força, o vento rasgou o ar. Um trovão estourou tão perto que o peito das crianças tremeu para fora. Valéria gritou do alto da escada. E nem pensem em voltar. Se pisarem aqui, eu chamo a polícia por invasão.
O chefe de segurança, Rui, hesitou na porta. Caio reconheceu o rosto dele. Anos, bônus, confiança. Um homem que apertava sua mão nas festas chamava de doutor. Rui olhou o dinheiro no próprio bolso, olhou Caio na cadeira, olhou os gêmeos e baixou a cabeça. “Desculpa, patrão”, ele murmurou quase sem som. “Eu tenho família”. Caio encarou Rui, sem ódio aparente.
Só uma calma que doía. Eu também tenho, respondeu baixo. Rui deu um empurrão na cadeira. A roda velha travou na rampa. Lívia correu por trás e empurrou com força, o pé escorregando no piso molhado. Caio manteve o corpo morto, mas sentiu a mão dela tremendo no guidão, não de medo, de raiva contida. A porta se fechou com um estrondo, bum, um som final.
E ali na rua, a mansão ficou lá em cima como um castelo escuro, grande, iluminado, mas vazio. A água começou a encharcar tudo em segundos. A calça de Caio colou na pele. As faixas do peito ficaram pesadas, frias. Os meninos choraram mais alto. Lucas soluçava sem ar. Mateus agarrava o braço do pai desesperado. Lívia não correu, não procurou abrigo primeiro.
Ela se abaixou e abraçou os três, Caio e os dois pequenos, como se o corpo dela pudesse virar telhado. “Respira, respira comigo”, ela sussurrou. Mais para ela do que para eles. Tá tudo bem. Tá tudo bem. Mas não estava. E ainda assim ela ficou. A rua era inclinada, a água descia como rio, a cadeira velha rangia, a roda agarrava em cada buraco do asfalto.
Lívia empurrou, o cabelo dela encharcou, a roupa colou no corpo, o suéter que ela tinha colocado em Caio já estava pesado de água. Mesmo assim, ela empurrava como se a vida dependesse disso, porque dependia. Tem um ponto de ônibus lá embaixo. Ela gritou para vencer o vento. A gente vai para lá.
Caio manteve a cabeça baixa, fingindo o tremor,enquanto por dentro o mundo dele desmoronava e nascia ao mesmo tempo. Naquele esforço, ele viu quem ela era. Não uma empregada, uma muralha. Chegaram ao ponto de ônibus como se chegassem a uma ilha. O teto de metal fazia um som ensurdecedor com a chuva. Tac, tac, tac, como mil dedos batendo em desespero.
Lívia colocou os meninos no banco de concreto e tirou do bolso dois chocolates amassados, embrulhados. “Come, come aqui”, ela disse, sorrindo com a boca tremendo. “É uma aventura, tá? A gente tá num filme. Lucas fungou, mordeu o chocolate. Mateus encostou a cabeça no ombro dela. Lívia voltou para Caio e se ajoelhou no chão molhado bem na frente dele.
As mãos dela pegaram as mãos dele, quentes, apesar do frio. foi ali, na luz fraca do poste, com a chuva lavando o mundo e a cidade distante virando o borrão, que ela olhou nos olhos dele como nunca tinha olhado. “Senhor Caio,” ela começou com a voz falhando. “Eu preciso te falar uma coisa.” Caio fingiu confusão. “O que foi?” Lívia respirou fundo como quem decide atravessar um abismo.
Eu sei que o senhor não tá paralítico. O mundo de Caio parou por um segundo. O trovão ao longe virou nada. Como ele sussurrou sem conseguir atuar dessa vez. Lívia piscou rápido, segurando o choro. Eu vi. Ela falou depressa, como se parasse, não conseguisse mais. Na primeira noite que o senhor voltou, eu entrei para limpar, achei que o senhor estava dormindo.
O senhor mexeu as pernas, esticou e depois ficou olhando uma foto dela com uma cara de cálculo. Caio engoliu em seco. Sentiu um nó subir. Não era medo, era reconhecimento. Lívia continuou. Eu entendi que era um teste. Eu entendi, senhor, por isso eu não falei nada. Eu joguei fora os comprimidos que o senhor cuspia na guardanapo.
Eu cuidei para ninguém perceber. Eu só só queria proteger os meninos. Caio ficou mudo. A chuva martelava. As crianças, por um instante, estavam quietas, abraçadas uma na outra, exaustas. Lívia tirou algo de dentro da blusa, bem junto ao corpo, protegido num saquinho plástico, um envelope. E tem mais. Ela abriu com dedos trêmulos.
Eu guardei isso porque eu sabia que ela um dia ia fazer mal. Caio pegou o envelope, abriu ali mesmo na luz pobre do poste. Papel molhado nas bordas. Carimbo, assinatura. Resultado. Ele leu e o rosto dele mudou, não com barulho, mas com uma sombra pesada descendo. Lívia, com a voz baixa, falou a verdade que cortava.
Ela odeia os meninos porque eles lembram o que ela fez. Ela ela teve um bebê escondido e abandonou para manter a pose. Caio fechou os olhos por um segundo. O plano original era esperar o momento perfeito. Mas o momento perfeito era agora. Ele levantou a cabeça devagar. A respiração mudou. O corpo pareceu ocupar mais espaço.
Lívia percebeu. Senhor Caio tirou a manta do colo, colocou os pés no chão molhado do ponto de ônibus e pela primeira vez na frente dela, sem máscara, sem teatro, ele se ergueu de pé, alto, forte, vivo. Lívia levou a mão à boca, mesmo já sabendo, porque saber é uma coisa, ver é outra.
Caio pegou a própria jaqueta seca por dentro. e colocou nos ombros dela. “Você ficou”, ele disse, “a voz agora inteira, grave.” Quando ninguém ficou, ele olhou para os meninos e depois para a colina, onde a mansão brilhava. “Agora eu vou voltar.” Lívia tremia. “Vai ser perigoso.” Caio deu um passo à frente, firme, como se a chuva fosse só cenário.
Perigoso é deixar eles acharem que ganharam. Ele segurou o envelope com força. O papel amassado e úmido, parecia pequeno, mas era uma bomba. E enquanto a chuva continuava caindo como se quisesse lavar o mundo, os quatro, dois meninos, uma mulher e um homem, que fingiu cair para descobrir quem ficava, ficaram ali sob o teto do ponto, não como expulsos, mas como alguém que finalmente tinha encontrado a verdade.
E a luz do poste piscou uma vez, como se a noite estivesse dizendo: “Agora é a vez de vocês”.















