💥Milionário chega sem avisar na hora do lanche… e fica em choque com o que vê

 

O som seco ecoou pela casa como um tiro. O sapato de couro italiano de Augusto Moreira parou no meio do corredor de mármore. Por um segundo, ele não entendeu o que estava vendo. Depois, o cheiro chegou antes da razão. Chocolate, doce, barato, quente demais para aquele ambiente frio. A luz branca calculada, projetada para valorizar obras de arte e superfícies impecáveis, refletia agora em manchas marrons espalhadas pelo chão da cozinha.

 O brilho perfeito do mármore estava quebrado, pegajoso, vivo, errado. Augusto ficou imóvel, a maleta ainda pendendo da mão direita. O relógio suíço em seu pulso marcava 17:42. Ele havia chegado 24 horas antes do previsto. Uma decisão de última hora. Não por saudade. Ele não usaria essa palavra, mas por controle. Sempre funcionava assim.

 Voltar antes, observar, confirmar que tudo seguia como planejado. A casa precisava funcionar, as filhas precisavam funcionar, a vida precisava funcionar. E no entanto, da cozinha vinha um som que ele não reconhecia de imediato. Não era choro, não era silêncio, não era música clássica tocando baixo, como sempre, era riso, riso alto, solto, desorganizado.

O peito de Augusto se contraiu num reflexo antigo, quase esquecido. Havia anos que ele não ouvia aquele som dentro daquela casa. anos suficientes para o cérebro classificá-lo como uma anomalia. Ele deu dois passos à frente e então viu quatro meninas idênticas de 5 anos com vestidos rosa claro de tecido caro.

Estavam irreconhecíveis. Os cabelos loiros grudavam na testa. As mãos pequenas estavam cobertas de creme e açúcar. O rosto de cada uma era uma mistura alegre de chocolate, farinha e algo que parecia glacê. Sofia, Helena, Clara e Maia, suas filhas. Elas estavam em volta da mesa da cozinha, como pequenos planetas, girando em caos perfeito.

 Uma delas subia na cadeira, outra batia palmas, a terceira ria com a boca cheia, a quarta, a quarta estava sentada nos ombros de alguém. Foi então que Augusto viu Lívia. A jovem empregada estava sentada meio torta, tentando manter o equilíbrio enquanto Maia se apoiava em seus ombros e passava creme em seu nariz, rindo sem controle. O uniforme preto de Lívia estava manchado, o avental branco perdido.

 As luvas amarelas de borracha, aquelas mesmas que Augusto exigia para qualquer atividade doméstica, estavam cobertas de chocolate. “Mais, mais”, gritavam as meninas em couro. Lívia ria também. Um riso nervoso, mas verdadeiro. Seus olhos brilhavam. Havia cansaço ali, mas também algo que Augusto não sabia nomear. calor, talvez presença.

 O mundo, até então silencioso e obediente parecia ter se permitido respirar e isso o enfureceu. O que está acontecendo aqui? A voz de Augusto cortou o ar como uma lâmina. O efeito foi imediato. O riso morreu no mesmo instante, como se alguém tivesse desligado a luz. Maia se enrijeceu sobre os ombros de Lívia. Clara levou a mão à boca.

 Helena deu um passo para trás. Sofia, a mais velha, por poucos minutos, ficou parada, os olhos arregalados. O silêncio que se seguiu foi pesado. Não era apenas a ausência de som, era medo. Lívia se levantou rápido demais, quase derrubando a menina. Suas mãos tremiam enquanto ajudava Maia a descer. Senhor Augusto”, começou ela, baixando o olhar.

 Nós eu posso explicar. Não te pago para explicar. A voz dele estava baixa, controlada, mais perigosa ainda. Augusto caminhou para dentro da cozinha. Seus sapatos fizeram um som seco ao esmagar restos de bolo no chão. “Olhe para isso”, disse ele, apontando para o piso, para as paredes marcadas por pequenas mãos.

 para as filhas cobertas de sujeira. Isso parece uma casa ou um circo. Ele olhou para as meninas. Elas não se aproximaram. Nenhuma correu para ele. Nenhuma o chamou de pai. Clara, a mais sensível, deu um passo atrás e esbarrou na perna de Lívia. Instintivamente agarrou o tecido sujo do avental da empregada. Esse gesto pequeno e silencioso, atingiu Augusto como um golpe direto no estômago.

 “Solta ela”, ordenou. Agora Lívia levantou as mãos devagar, como quem se rende. Seus olhos estavam marejados, mas ela não se afastou rápido o suficiente para o gosto dele. “Eu só queria animá-las um pouco, senhor. Hoje foi um dia difícil.” Difícil? Augusto soltou uma risada seca. Elas têm tudo. Professores, brinquedos, uma casa que muita gente nunca sonharia em ver por fora.

 Difícil é manter ordem com gente incompetente. Ele respirou fundo, sentia o controle escapar pelos dedos e isso para ele era intolerável. “Vá limpar isso”, disse, ajeitando o nó da gravata, mesmo ela não estando frouxa. 10 minutos. Depois vá ao meu escritório. Precisamos conversar sobre sua permanência aqui. A palavra ficou suspensa no ar. Permanência.

 As meninas não entendiam tudo, mas entendiam o tom. Helena começou a chorar baixinho. Maia fechou os punhos. Sofia deu um passo à frente, mas não disse nada. Lívia engoliu em seco. Por favor, senhor, murmurou as meninas. Chega. Ele virou-separa as filhas, às quatro, para o banho. Agora nenhuma se mexeu.

 O silêncio mudou de textura. Já não era apenas medo, era resistência. Augusto franziu a testa confuso. Vocês não ouviram? Sofia respirou fundo. Seu peito pequeno subia e descia rápido demais. Ela olhou para o pai sem baixar os olhos. Não. A palavra saiu como um sussurro. mas soou enorme dentro da cozinha.

 O chão pareceu ceder sob os pés de Augusto. O que você disse? Não! Gritou Maia e então tudo desabou. As quatro começaram a chorar ao mesmo tempo. Não era birra, era desespero. Elas correram e se agarraram às pernas de Lívia, formando um pequeno escudo humano em volta dela. Não manda ela embora, soluçou Helena. Ela brinca com a gente”, gritou Clara.

 “Ela fica”, disse Sofia, a voz quebrada. “Você nunca fica.” A frase atravessou Augusto como uma lâmina. Ele abriu a boca para responder, mas nada saiu. Lívia se ajoelhou no chão, abraçando as quatro, tentando acalmá-las, ignorando a sujeira, o uniforme arruinado, o próprio medo. Minhas meninas, sussurrou. Papai só se assustou.

 Augusto observou as mãos dela, mesmo com luvas de borracha, eram suaves, protetoras, mãos que sabiam estar ali. Ele sentiu algo estranho apertar seu peito, um incômodo antigo, um vazio que dinheiro nenhum havia conseguido preencher. Seus olhos caíram sobre a mesa. Ali, ao lado de um prato quebrado, havia um guardanapo de papel dobrado de qualquer jeito.

 estava manchado de chocolate. Em uma das pontas, alguém havia desenhado um coração torto com canetinha rosa. Augusto ficou olhando para aquilo por um segundo a mais do que pretendia. Algo naquela casa estava fora do lugar. E pela primeira vez ele teve a sensação incômoda de que o erro, talvez não fosse a bagunça. O silêncio não foi imediato.

Ele chegou em ondas. Primeiro, o choro contido de Helena, um som fino como ar escapando de um balão. Depois, o soluço irregular de Clara, que tentava não fazer barulho e falhava. Por fim, o choro aberto de Maia, alto demais para ser contido, como se o corpo pequeno dela estivesse explodindo por dentro. E Sofia, Sofia não chorava.

 Ela estava parada, o queixo erguido um pouco mais do que o normal, os olhos fixos no pai, atentos, tensos, como se estivesse decorando cada movimento dele. Augusto Moreira ainda mantinha o braço estendido, apontando para o corredor que levava aos quartos. O gesto parecia congelado no ar. Ele esperava obediência. Sempre vinha, sempre.

 Mas ninguém se mexeu. As quatro meninas estavam grudadas às pernas de Lívia, como se o corpo dela fosse um porto em meio à tempestade. Os dedinhos apertavam o tecido do avental sujo com força, uma força desesperada. Augusto sentiu o primeiro arranhão no orgulho. Eu mandei subir, repetiu agora mais baixo. Para o banho. Agora nada.

O silêncio mudou outra vez. Não era mais só medo. Havia algo novo ali, algo firme, uma decisão pequena, mas coletiva. Vocês estão me desafiando? Perguntou mais para si mesmo do que para elas. Sofia deu um passo à frente. Era um passo curto, quase imperceptível, mas foi suficiente para que Augusto prendesse a respiração.

 Ela era a mais velha por minutos, não por tamanho. Ainda assim, havia algo no jeito como se colocava diante dele, que não combinava com seus 5 anos. “Não manda nela”, disse Sofia. A frase saiu baixa, clara, direta, sem tremor. Augusto piscou. O quê? Maia levantou o rosto molhado de lágrimas. Não manda nela repetiu gritando agora. Ela não fez nada.

Augusto sentiu o sangue subir. Aquilo estava saindo do controle rápido demais. Ele não estava acostumado a negociar com crianças, muito menos a ser confrontado por elas. Lívia, afaste-se, ordenou agora. Lívia respirou fundo. O ar entrou difícil. Seus olhos estavam vermelhos, mas ela não se mexeu.

 Apenas colocou as mãos com cuidado sobre os ombros das meninas, num gesto instintivo, quase maternal. Senhor, começou, a voz baixa. Por favor, as meninas estão assustadas. Assustadas? Augusto soltou uma risada curta, sem humor. Elas estão aprendendo limites. Clara se encolheu ao ouvir a palavra. Helena levou as mãos aos ouvidos.

 Maia apertou ainda mais o avental. Sofia não desviou o olhar. Você grita disse ela. A gente fica com medo. A frase não tinha acusação, não tinha drama. Era apenas um fato. Augusto sentiu algo estranho atravessar o peito, um incômodo rápido que ele tentou ignorar. “Eu não estou gritando”, respondeu, embora soubesse que estava. “Eu estou falando como um pai deve falar”.

 Maia balançou a cabeça, negando com força. “Pai, brinca”, disse ela. “Pai, fica!” Essa foi a primeira rachadura real. Augusto abriu a boca, mas nenhuma resposta veio. A imagem das filhas cobertas de chocolate rindo poucos minutos antes, atravessou sua mente como um flash. Aquela luz nos olhos delas, algo que ele não via havia anos. Lívia aproveitou o silêncio.

 Senor Augusto disse com cuidado. Hoje, hoje é um dia especial. Ele virou o rosto para ela devagar.Especial?”, perguntou. Especial é manter essa casa em ordem. Lívia engoliu em seco. Por um instante pareceu reconsiderar. Depois respirou fundo outra vez, como quem decide atravessar uma ponte sem saber se ela aguenta.

“Hoje é o seu aniversário, senhor. O mundo pareceu dar um pequeno tranco.” “O quê?” Augusto franziu a testa. Sofia puxou algo de trás da mesa, um pedaço de cartolina rosa dobrado torto. O papel estava manchado de chocolate nas bordas. Havia adesivos colados de qualquer jeito. Estrelas, corações.

 Ela estendeu o cartão com as duas mãos. A gente fez para você, disse Sofia, mais baixo agora. Faz dois dias. Augusto não se moveu de imediato. Lívia continuou, a voz embargada. Elas queriam esperar o senhor acordadas até meia-noite. Eu disse que talvez o senhor chegasse tarde ou nem chegasse. Então pediram para fazer um bolo.

 Um bolo do jeito que a mãe fazia. O nome não foi dito. Não precisava. Augusto sentiu o ar faltar. Ele pegou o cartão com cuidado excessivo, como se pudesse quebrar. As letras tortas, escritas com giz de cera colorido, diziam: “Feliz aniversário, papai. Volta para casa. Nada mais. Nada de pedidos, nada de exigências. Apenas isso.

 O barulho distante da cidade entrou pela janela, um carro passando, uma buzina longe, a vida acontecendo fora daquela casa impecável e sufocante. Elas ficaram esperando, continuou Lívia. Quando começou a escurecer, ficaram tristes. Achei que um pouco de bagunça, de riso podia ajudar. Augusto sentiu algo apertar atrás dos olhos.

 Ele piscou rápido, tentando manter o controle. Isso não justifica, disse, mas sua voz já não tinha a mesma firmeza. Hum. Não justifica essa essa anarquia, Maia fungou. Não é bagunça murmurou. É aniversário. Helena levantou o rosto, os olhos grandes e molhados. Você não sabia? Perguntou. A pergunta não era acusatória, era curiosa.

 Doeu mais por isso. Augusto desviou o olhar. Ele sabia a data, claro que sabia. Estava no passaporte, nos documentos, em agendas antigas, mas nunca no presente. Ele caminhou até a pia, apoiou as mãos na borda fria. O mármore gelado contrastava com o calor que subia pelo peito. “Subam”, disse por fim. “Vão se lavar!”, as meninas hesitaram.

 “Com alívia”, acrescentou ele depois de uma pausa curta demais. As quatro soltaram o avental devagar. como se ainda não confiassem. Lívia ajudou Helena a se levantar. Sofia olhou para o pai uma última vez antes de sair. Não havia medo naquele olhar agora. Havia dúvida. Quando ficaram sozinhos na cozinha, Augusto percebeu algo no chão, perto de seus sapatos.

 Um guardanapo de papel dobrado às pressas, sujo de chocolate. No centro, um coração torto feito com canetinha rosa. Ele se agachou e o pegou. Por um instante, o homem que controlava milhões de reais por dia ficou ali parado, segurando um pedaço de papel sujo, sentindo algo que não conseguia nomear. E pela primeira vez, a casa perfeita pareceu pequena demais para conter o silêncio que crescia dentro dele.

 A casa não voltou a rir naquela noite. Depois que as meninas subiram com Lívia, o silêncio se espalhou pelos corredores como um lençol frio. Augusto Moreira ficou sozinho na cozinha por alguns segundos a mais do que o necessário. Observando as manchas no chão, o bolo torto sobre a mesa, o cartão rosa esquecido perto da fruteira.

 Ele sabia que algo tinha saído do lugar, mas ainda não sabia o quê. Foi quando o interfone da porta principal quebrou o silêncio com um som agudo, impaciente. Augusto franziu a testa. Eram quase 10 da noite. Ninguém chegava aquela hora sem avisar. Ele tocou no painel, na tela em preto e branco, sob a chuva fina que começava a cair, uma mulher loira, impecável, mesmo molhada, aguardava diante do portão com duas malas grandes ao lado.

 O táxi já se afastava. Beatriz Vasconcelos. O estômago de Augusto se contraiu. Beatriz odiava imprevistos. Odiava crianças barulhentas. Odiava qualquer coisa que fugisse do controle. Especialmente quando não partia dela, a porta se abriu com força. Isso é um absurdo disse Beatriz antes mesmo de tirar o casaco.

 Esperei 40 minutos no aeroporto. Ninguém atendeu. Tive que vir de táxi. Ela largou a bolsa cara sobre o aparador, sem olhar ao redor. O olhar dela era afiado demais para aquela hora da noite. Você chegou cedo”, respondeu Augusto, tentando manter a voz baixa. “Asim como você”, rebateu ela, estreitando os olhos. E, pelo visto, a casa virou um playground.

 O olhar de Beatriz percorreu o ambiente rápido demais. Nada escapava. O chão limpo às pressas, o cheiro doce ainda no ar. Algo ali a incomodou. As meninas já estão dormindo, espero”, disse ela. “Tive um dia longo. Nesse momento, um leve movimento no topo da escada chamou sua atenção. Lívia estava ali parada na penumbra, sem o avental.

 Tinha o cabelo preso, o rosto cansado, mas composto. Ela havia escutado a voz alta e viera verificar se as crianças estavam seguras. Beatriz a encarou como se fosseuma mancha. Quem é essa?”, perguntou sem tirar os olhos dela. “E o que faz no andar de cima?” Augusto respirou fundo. É Alívia. Ela ficou até mais tarde.

 Está chovendo. Eu mandei que usasse um quarto de hóspedes hoje. O silêncio que se seguiu foi denso. Beatriz sorriu. Um sorriso fino, sem calor. “Interessante”, murmurou. Conversamos amanhã, mas o amanhã de Beatriz nunca era neutro. Na manhã seguinte, o sol apareceu cedo, brilhante demais para a atenção que se acumulava dentro da casa.

 Na cozinha, Lívia preparava o café em silêncio, cortava frutas com cuidado, organizava tudo com precisão. As meninas comeram pouco, quietas demais. Augusto observava de longe, sentindo uma culpa surda crescer. Beatriz entrou minutos depois, usando um hobby claro, óculos escuros, mesmo dentro de casa. “Que cheiro é esse?”, perguntou.

 Açúcar logo cedo? Ela pegou uma panqueca do prato de Maia, analisou como se fosse algo suspeito e a largou de volta. “Isso não é café da manhã”, disse, olhando para Lívia. “Criança precisa de disciplina, não de indulgência”. Maia abaixou a cabeça. Sofia apertou os lábios. Beatriz, começou Augusto. Depois cortou ela. Agora quero meu chá.

 Lívia obedeceu. Sempre obedecia. Mas Beatriz observava cada gesto, cada aproximação entre ela e as meninas. Algo se movia por trás daqueles olhos claros. Ela precisava de uma razão, um erro visível, um crime imperdoável. e encontrou no quarto diante do espelho, Beatriz abriu o cofre embutido. Seus olhos pararam sobre um broche antigo de pedras verdes e metal escuro, uma herança da família de Augusto, um símbolo. Ela sorriu.

 A cozinha estava silenciosa quando Beatriz voltou. Lívia chamou com a voz mais suave do que antes. Queria me desculpar pelo tom de hoje cedo. Estou estressada com o casamento. Lívia piscou surpresa. Não precisa, senhora. Beatriz deu alguns passos. Fingiu um desequilíbrio leve. Ai Lívia reagiu no instinto. Segurou o braço dela para evitar a queda.

 Foi rápido, preciso, invisível. Quando se afastaram, Beatriz sorriu agradecida. Obrigada, você é muito prestativa. E saiu. Lívia não percebeu o peso novo no bolso do avental. O grito veio minutos depois. Sumiu. O som ecoou pela casa. Augusto correu. Beatriz desceu as escadas com o porta-oias aberto, as mãos tremendo, lágrimas perfeitamente calculadas.

 O broche da sua avó desapareceu. O rosto de Augusto empalideceu. “Ninguém sai”, ordenou ninguém. O ar ficou pesado. Os funcionários alinharam-se, bolsos vazios, nada. Então, Augusto parou diante de Lívia. “Você viu o broche?”, perguntou a voz mais baixa. “Não, senhor”, respondeu ela sem hesitar. pode revistar tudo. Eu não peguei nada.

Beatriz aproximou-se devagar. Ela esteve comigo na cozinha, disse muito perto. O olhar de Augusto desceu. O bolso do avental estava levemente estufado. O que é isso? Perguntou. Lívia levou a mão ao bolso e sentiu o frio do metal. Ela empalideceu. Não sussurrou. A joia brilhou na palma da mão sob a luz do lustre.

 O silêncio caiu como um peso morto. Isso não é meu disse ela, a voz falhando. Eu não sabia que isso estava aí. Augusto sentiu algo se apagar dentro dele. Não foi raiva, foi decepção. Pior. Chega, disse Ricardo. Traga a mala dela. As meninas surgiram na escada, atraídas pelo barulho. Não! Gritou Helena. Ela não fez nada”, chorou Sofia.

 “Mas Augusto já havia decidido.” “Vá”, disse a Lívia. “Agora”. A chuva começava a cair forte quando a porta se abriu. Lívia saiu sem guarda-chuva, sem olhar para trás. As meninas bateram na porta, chorando, chamando por ela. Augusto ficou imóvel. A porta se fechou e com ela algo dentro da casa também se fechou.

 Naquela noite, ninguém jantou e o silêncio finalmente venceu. A casa ficou muda. Não era o silêncio organizado de antes, feito de superfícies limpas e portas fechadas. Era um silêncio doente, pesado, como se cada cômodo estivesse prendendo a respiração. Os dias passaram sem deixar marcas visíveis, mas por dentro tudo apodrecia devagar.

 As meninas não corriam mais pelos corredores. Os brinquedos continuavam no lugar exato onde sempre estiveram, mas ninguém os tocava. A mesa, os pratos voltavam quase cheios. Augusto Moreira observava em silêncio, sentado na cabeceira, sem saber o que dizer, sem saber como consertar algo que ele mesmo havia quebrado. Beatriz falava demais.

 Falava sobre decoração, sobre viagens, sobre disciplina. Falava para preencher o vazio que crescia entre aquelas paredes, mas nenhuma palavra alcançava as meninas. Elas olhavam para baixo sempre. Na terceira noite, Clara vomitou de nervoso. Na quinta, Helena acordou chorando, chamando por um nome que não estava mais ali.

 Na sétima, Maia parou de falar com o pai e Sofia. Sofia observa. Ela via tudo. Foi numa manhã cinza, quando Augusto estava sozinho no escritório, que Sofia apareceu à porta. Usava pijama, apesar do horário. Tinha os cabelos embaraçados e segurava algo contra o peito. Papai, chamou baixo.Augusto virou a cadeira de couro devagar.

 O rosto da filha estava sério demais para seus 5 anos. O que foi, filha? Ela entrou, fechou a porta com cuidado e colocou o objeto sobre a mesa. Era um caneta grossa, rosa, com adesivos brilhantes. Um brinquedo. Alívia me deu, disse Sofia, para escrever segredos. Augusto franziu a testa. E por que você trouxe isso agora? Sofia respirou fundo.

 Os olhos começaram a brilhar porque ela estava ligada. O coração de Augusto deu um salto ligada. Sofia apontou para um pequeno botão na lateral. Eu apertei sem querer. Caiu no bolso dela quando abracei a Lívia. No dia, no dia que você mandou ela embora. O ar ficou pesado demais para entrar nos pulmões.

 Augusto pegou a caneta com mãos trêmulas. Apertou o botão. Primeiro ruído, tecido se movendo, passos. Depois vozes. A voz de Beatriz, doce demais, falsa demais. Queria pedir desculpa pelo meu comportamento. A voz de Lívia, suave, respeitosa. Não precisa, senhora. Um som metálico curto, seco, e, então, quase um sussurro, claro, como um tiro dentro do peito de Augusto. Adeus, Cinderela.

Augusto desligou. O mundo parou. Não havia mais dúvida, não havia espaço para a interpretação. Tudo que ele quisera negar agora estava ali, nu, cruel, innegável. Ele fechou os olhos. Por um segundo viu a cena de novo. Lívia ajoelhada, as meninas chorando, a porta se fechando sob a chuva. Quando abriu os olhos, Sofia ainda estava ali esperando.

“Você vai trazer ela de volta?”, perguntou com a voz quebrada. Augusto se levantou de uma vez. O movimento foi rápido, decidido. Ele se inclinou diante da filha, segurou seu rosto com cuidado. “Eu vou buscar ela”, disse, “E volto sem.” Sofia o abraçou com força. Foi o primeiro abraço verdadeiro em muito tempo.

 A discussão com Beatriz não foi longa. Augusto não gritou, não discutiu, apenas mostrou a gravação. O silêncio dela foi mais alto que qualquer escândalo. Minutos depois, malas sendo arrastadas, palavras vazias, promessas ocas. A porta se fechou mais uma vez naquela casa, mas desta vez algo errado estava saindo. Augusto não perdeu tempo, pegou as chaves do carro e dirigiu para um lugar onde nunca havia estado.

 Ruas estreitas, casas simples, gente sentada na calçada, crianças brincando com bola velha. O endereço o levou a um refeitório comunitário ligado a uma igreja pequena. Lá dentro, o cheiro era de sopa quente e pão simples. E atrás do balcão, servindo comida com um sorriso cansado, estava Lívia. Augusto parou. Ela o viu, o sorriso desapareceu.

O corpo se armou. “O que o senhor quer agora?”, perguntou firme. As pessoas ao redor observaram desconfiadas. Augusto deu um passo à frente, depois outro, e então fez algo que nunca havia feito diante de ninguém. Ele se ajoelhou. O som dos joelhos no chão ecoou pelo salão. Um murmúrio percorreu o lugar.

 “Eu errei”, disse ele, a voz baixa, mas clara. “Erei como homem, como pai, como ser humano.” Lívia levou a mão à boca. Levanta”, pediu ela nervosa. “Por favor, não”, respondeu ele. “Não até você me ouvir.” Ele contou tudo. A gravação, a mentira, a vergonha, as meninas que não comiam, o vazio. “Eu não sei ser o pai que elas precisam”, confessou, “mas sei que sem você eu falhei completamente.

” Lívia sentiu as pernas tremerem. Eu não quero seu dinheiro”, disse ela chorando. “Nunca quis.” “Eu sei”, respondeu ele. “Por isso estou aqui.” Silêncio. Então, Lívia respirou fundo. “Eu volto”, disse enfim, “mas não como empregada. Volto para cuidar delas e só se o senhor estiver presente de verdade.” Augusto assentiu sem hesitar. Eu prometo.

 Quando chegaram a casa, a noite já havia caído. As meninas estavam no quarto, acordadas, fingindo dormir. Lívia entrou primeiro. Eu trouxe um beijo de sobremesa, disse sorrindo. O quarto explodiu em movimento. Quatro corpos pequenos correram, abraçaram, choraram, riram ao mesmo tempo. Lívia caiu de joelhos, cercada por braços, cabelos, soluços.

Augusto observava da porta, os olhos marejados. Papai, chamou Sofia, olhando para ele. Augusto entrou devagar, se ajoelhou outra vez. “Eu estou aqui”, disse, “ou ficar”. As meninas hesitaram. Depois, uma a uma, se aproximaram. O abraço foi torto, apertado, imperfeito, mas era real. Na cozinha mais tarde, Augusto abriu o forno.

 O cheiro de bolo voltou a preencher o ar. Chocolate simples. A casa, pela primeira vez em muito tempo, voltou a respirar. M.