O som foi seco, metálico. As chaves de Ricardo Araújo bateram contra a pedra fria da bancada como um tiro dentro do silêncio. Ele parou, ficou ali imóvel, ainda com a mão suspensa no ar, sentindo o eco daquele ruído atravessar o vestíbulo enorme da casa. Eram 10:47 da manhã.
Um horário errado, um horário que não pertencia à aquele lugar. A casa parecia surpresa com a presença dele, como se tivesse sido pega em flagrante. O ar- condicionado soprava baixo, constante, sem alma. O cheiro era de limpeza recente, desinfetante e caro, misturado ao perfume neutro que Beatriz insistia que fosse usado em todos os ambientes.
Nada ali tinha cheiro de gente. Nada ali tinha cheiro de vida. Ricardo afrouchou o nó da gravata com dois dedos cansados. A cabeça latejava desde cedo. Uma dor surda, insistente, que nem os analgésicos importados costumavam vencer. Não era só cansaço, era outra coisa. Uma pressão no peito que ele não sabia nomear, mas reconhecia bem.
Era a mesma sensação de sempre quando pensava na filha. Ele deveria estar no escritório naquele momento, no 13 ao andar, discutindo fusões, números, prazos. Pessoas o esperavam. Milhões dependiam das decisões dele, mas algo o fizera dar meia volta no caminho. Um impulso sem lógica, um medo sem forma. Ninguém esperava o dono da casa àquela hora.
Ricardo caminhou alguns passos, os sapatos italianos afundando suavemente no tapete claro. Cada ambiente era amplo demais, limpo demais, silencioso demais. Uma casa pensada para impressionar, não para acolher. Vidro concreto, linhas retas, beleza sem calor. Bom dia, murmurou mais para si mesmo. Ninguém respondeu. Luna deveria estar no quarto.
Sempre estava no mesmo quarto silencioso, com as cortinas parcialmente fechadas, os brinquedos organizados por cor, desde o acidente. Desde que a mãe se foi, levando consigo o som da casa. Ricardo odiava o silêncio daquela mansão, porque ele não era paz, era ausência. Ele passou pelo corredor principal, sentindo o cheiro distante do jardim interno, terra úmida, planta regada há pouco.
Estranho, aquele espaço quase nunca era usado. Beatriz dizia que o jardim de inverno não combinava com as fotos da casa. Ricardo pensou em subir para o escritório, tomar outro remédio, apagar por algumas horas, mas então aconteceu. Primeiro ele achou que fosse imaginação, um erro do ouvido provocado pela dor de cabeça.
Depois o som se repetiu. Uma risada. Não a risada educada e ensaiada das reuniões. Não a gargalhada alta e afiada de Beatriz. Era uma risada pequena, clara, imperfeita, uma risada de criança. O corpo de Ricardo reagiu antes da mente. O coração bateu forte, descompassado, como se quisesse sair pelas costelas. A mão dele se fechou instintivamente, apertando o tecido da gravata.
Ele conhecia aquele som, não o ouvia. Havia mais de um ano. Luna, tentou dizer. A palavra morreu na garganta. O som vinha do fundo da casa, do jardim de inverno. Aquele espaço de vidro e luz que sua esposa adorava e que ele evitava desde o enterro. Memórias ali queimavam. Ricardo deu alguns passos. Os sapatos faziam barulho demais. Parou.
A risada continuava solta, livre, quase desobediente. Ele tirou os sapatos, segurando-os na mão, e seguiu de meias, como quem se aproxima de um milagre com medo de quebrá-lo. O cheiro de terra ficou mais forte, misturado ao perfume verde das folhas e ao calor suave do sol, atravessando o teto de vidro. As portas estavam entreabertas.
Ricardo empurrou uma delas devagar com a ponta dos dedos e viu. A luz do meio da manhã inundava o espaço, dourada, viva. As plantas altas projetavam sombras que dançavam no chão claro. E ali, no centro daquele pequeno mundo, estava Ana, a nova funcionária. Três semanas na casa, discreta, eficiente, quase invisível.
Ela vestia o uniforme azul simples, avental branco impecável. Nas mãos, luvas de borracha amarelas, ainda úmidas da rega, um detalhe quase fora de lugar naquele cenário sofisticado. Mas Ana não estava limpando. Ela girava lentamente, desviando dos vasos, fazendo um som baixo com a boca, como um avião imaginário.
E sobre os ombros dela, segurando-se com força nos cabelos escuros, estava Luna, a filha de Ricardo. A menina tinha a cabeça jogada para trás, a boca aberta numa gargalhada inteira, sem contenção. Os olhos, antes sempre apagados, brilhavam. As mãozinhas batiam nos ombros de Ana, sujando as luvas de terra enquanto tentava alcançar uma folha pendente.
“Mais alto, capitã”, dizia Ana em voz baixa, quente. “Vamos pegar aquela nuvem.” Ricardo levou a mão à boca. O mundo pareceu diminuir de tamanho. O som do ar condicionado sumiu. O tempo se esticou. Tudo o que existia era aquela imagem impossível. Sua filha rindo nos ombros de uma mulher que ele mal conhecia. As pernas dele tremeram.
Luna, a criança diagnosticada com mutismo seletivo, a menina que se encolhia quando ele tentava abraçá-la, a filha que não reagia aos presentescaros, aos médicos, aos especialistas. Ali ela ria. Ricardo sentiu algo se partir dentro do peito. Não era dor, era outra coisa. Uma mistura cruel de gratidão e ciúme, alívio e culpa.
Um pensamento atravessou sua mente com força brutal. Por que ela está assim com ela e não comigo? Ele deu um passo à frente sem perceber. O pé bateu em algo no chão. O barulho metálico da regadeira ecooua alto, agressivo, cortando o ar como um grito. A risada cessou. Luna se enrijeceu no mesmo instante.
Ana girou rápido, os olhos arregalados, o corpo tenso. Por um segundo, ninguém respirou. Ricardo estava ali, o dono da casa, o pai. Ana empalideceu. As mãos, ainda dentro das luvas amarelas começaram a tremer enquanto ela descia Luna com cuidado, protegendo a cabeça da menina antes de colocá-la no chão. “Senor Ricardo!” A voz dela saiu baixa, apressada. Eu eu posso explicar.
A menina estava chorando e eu só Luna não correu, ficou parada, depois deu um pequeno passo e com um gesto firme agarrou a barra do avental azul de Ana, fechando o punho no tecido como quem segura a única coisa estável do mundo. Ricardo sentiu o chão desaparecer sob. Ali, entre o silêncio quebrado, a luz ainda quente do jardim e o som distante de um carro passando na rua.
Ele entendeu algo que nunca aprendera em nenhuma sala de reunião. Aquela casa não respirava, mas por alguns segundos alguém ali tinha feito seu coração voltar a bater e agora alguém estava prestes a pagar por isso. O silêncio que caiu sobre o jardim de inverno não era o mesmo de antes. Não era vazio. Era tenso, denso, cheio de respirações contidas.
Ricardo permaneceu parado a alguns metros de distância, sentindo o frio do chão atravessar as meias. O barulho da regadeira ainda ecoava em sua cabeça como um erro impossível de desfazer. Diante dele, Ana mantinha o corpo levemente inclinado para a frente, numa postura instintiva de proteção. Luna estava ao lado dela, pequena, rígida, com os dedos enterrados no tecido azul do avental.
A menina não olhava para o pai, olhava para o chão. Senhor Ana tentou de novo, a voz baixa demais para aquele espaço amplo. Eu não estava brincando por descuido, eu só começou a chorar. E aqui tem luz. Ela gosta da luz. Ricardo abriu a boca para responder, mas nenhum som saiu. A garganta estava dura, como se palavras fossem um idioma distante demais naquele momento.
Ele não estava bravo, mas Ana não tinha como saber disso. Ela respirou fundo, rápido, como quem se prepara para o impacto. Se o Senhor quiser me dispensar, eu entendo continuou, sem levantar os olhos. Só peço que não grite. A menina se assusta fácil. Aquilo atingiu Ricardo como um soco silencioso. Não grite. Ele nunca tinha gritado com ninguém naquela casa, mas ainda assim era isso que esperavam dele.
Medo, autoridade, consequência. Luna se mexeu. Um passo mínimo, o suficiente para ficar ainda mais próxima de Ana. A mão da menina apertou o avental com força, enrugando o tecido limpo. Ricardo viu, viu o gesto, viu a escolha. O coração dele bateu mais rápido, não de surpresa, mas de reconhecimento doloroso. Ele conhecia aquele movimento.
Era o mesmo que Luna fazia quando se escondia atrás da babá na escola, quando estranhos se aproximavam, quando o mundo parecia grande demais, mas nunca tinha feito aquilo com ele. Ricardo deu um passo à frente. Ana se encolheu quase imperceptivelmente. Um reflexo antigo aprendido antes daquela casa, antes daquele emprego.
Um corpo que já conhecia o peso da hierarquia. “Ana”, disse Ricardo finalmente. Ouvir o próprio nome naquela boca fez algo mudar no ar. Ela levantou o rosto devagar. Os olhos dela estavam molhados, mas firmes. Não havia desafio ali, nem submissão exagerada, apenas medo e uma atenção absoluta à criança ao seu lado.
Ricardo sentiu um aperto estranho no peito. Não era ciúme puro, era algo mais difícil de aceitar. Ele se agachou. Não foi um gesto calculado. O corpo simplesmente cedeu. Os joelhos tocaram o chão frio do jardim de inverno e de repente o homem que mandava em centenas de funcionários estava na mesma altura da filha, o mesmo nível, a mesma linha de olhar. Ana arregalou os olhos.
Luna também. Ricardo respirou fundo. O cheiro de terra molhada subiu, misturado ao perfume leve do sabonete usado no uniforme de Ana. Um cheiro simples, doméstico, humano. “Eu não vim brigar”, disse ele baixo. “Eu eu ouvi ela rir.” Luna levantou o rosto pela primeira vez. Não totalmente, apenas o suficiente para espiar por baixo dos cílios.
Os olhos encontraram os do pai por um segundo rápido e fugiram em seguida. Mas não houve recuo. Aquilo já era mais do que ele tinha em meses. Ela não ri assim comigo”, continuou Ricardo, a voz falhando levemente, apesar do esforço para mantê-la firme. Eu tentei com médicos, com brinquedos, com viagens, com tudo que eu sei fazer.
Ele parou, engoliu em seco. E hoje eu entro aqui e vejo isso. Não terminou a frase, nãoprecisava. Ana respirou fundo, como se escolhesse cada palavra com cuidado. Às vezes, começou ela, hesitante. Às vezes a criança só precisa sentir que não vai cair, que alguém segura de verdade. Ricardo sentiu a frase atravessá-lo por dentro, não como uma lição, mas como um espelho.
Ele olhou para a Luna, para a postura rígida, para os ombros sempre tensos, para o silêncio que não era birra nem teimosia, mas defesa. “Você estava segurando ela”, disse ele quase num sussurro. Ana assentiu sempre, respondeu, mesmo quando ela não fala, mesmo quando não ri, Ricardo percebeu algo. Então, Ana não estava se defendendo, não estava se justificando, não estava pedindo permissão.
Ela falava como alguém que assume uma responsabilidade que ninguém lhe deu oficialmente, mas que ela carregava mesmo assim. O som distante de um celular vibrando quebrou o momento. Ricardo levou a mão ao bolso do paletó esquecido sobre uma cadeira próxima. A tela acendeu com o nome que ele reconheceu antes mesmo de ler. Beatriz.
Uma mensagem curta, objetiva, gelada. Estou chegando em 20 minutos. Levo o fotógrafo. Espero a casa em ordem. Ricardo sentiu o estômago afundar. olhou ao redor, o chão com marcas de água, a regadeira caída, as folhas fora do lugar, Ana ajoelhada, Luna de roupa simples com terra nos dedos. Nada ali combinava com o que Beatriz chamava de ordem.
Ele guardou o celular sem responder. Ana, disse, levantando-se devagar. Você pode levar a Luna lá para cima? Dá um banho nela, coloca um vestido leve. Ana hesitou por um segundo. Ela não gosta de banho quando está assustada, disse com cuidado. Ricardo assentiu. Eu sei. Respirou fundo. Fala com ela do seu jeito.
Ana olhou para Luna, abaixou-se até a altura da menina. Disse algo baixinho, tão baixo, que Ricardo não ouviu. Luna não respondeu, mas soltou-o avental. Aos poucos. como quem solta um galho confiável para alcançar outro. Ana estendeu a mão. Luna segurou. Ricardo observou em silêncio, enquanto as duas se afastavam pelo corredor de vidro.
A luz acompanhava cada passo. O som das meias da menina no chão claro parecia um sussurro. Quando ficaram sozinhos, Ricardo voltou o olhar para o jardim de inverno. O espaço ainda estava quente, vivo, mas algo tinha mudado. A regadeira continuava caída no chão de lado, com um fio de água escorrendo lentamente, formando uma pequena poça que refletia o teto de vidro. Ricardo não a levantou.
ficou ali parado, olhando o reflexo distorcido da própria imagem na água. Pela primeira vez em muito tempo, ele não pensou em corrigir a bagunça. Pensou apenas no que, afinal mantinha uma criança de pé e no que talvez tivesse faltado até agora. Beatriz chegou como um comercial de perfume, barulho de motor importado na garagem, salto fino batendo no mármore e aquele cheiro doce demais que invadia o ar antes dela aparecer.
Ricardo desceu a escada principal com o palitó perfeitamente fechado, como se um botão pudesse segurar o que estava desmoronando por dentro. Ele ainda sentia nas mãos a terra úmida do jardim de inverno. Ainda ouvia a risada de Luna como se o som tivesse ficado preso no teto de vidro. Beatriz entrou sem pedir licença, tirou os óculos escuros com um gesto ensaiado, jogou a bolsa cara sobre uma mesa antiga, madeira centenária, risco novo, e reclamou do ar condicionado, como se a casa existisse para servi-la.
“Ricardo, amor”, ela disse, aproximando-se. “Você não estava fechando aquela reunião?” Ele sustentou um sorriso neutro, um sorriso de sala de reunião, mas por dentro o estômago revirava. Beatriz o olhou de cima a baixo, reparou na gravata, no cabelo, no menor detalhe. Essa gravata não favorece você e você está pálido.
Que feio. Hoje tem fotos, lembra? Antes que ele respondesse, um movimento discreto no corredor lateral puxou a atenção dela. Ana apareceu uniforme limpo, cabelo preso de novo num coque simples e Luna ao lado, segurando a mão dela como se fosse um fio de segurança, num lugar alto demais. A menina estava de vestido claro, arrumada, mas os olhos continuavam baixos, como se a luz ainda doesse.
O rosto de Beatriz mudou em segundos, do tédio elegante para um desprezo fino, quase prazeroso. “Ah, a princesa”, ela disse, forçando doçura. “Doçura com gosto de metal. E a, como é mesmo seu nome? Ana baixou o olhar. Ana, senhora. Beatriz inclinou a cabeça, avaliando como quem avalia um objeto. Ana, certo, olha meus sapatos. Ela levantou um pé, exibindo o salto com sola vermelha.
Pisei em alguma coisa na entrada. Deve ser do jardineiro. Limpa agora. Não vou espalhar bactéria nos tapetes. Ricardo sentiu o sangue subir no pescoço. Ele viu Ana soltar a mão de Luna devagar, obedecendo aquele reflexo de sobrevivência. Viu a mulher ajoelhar no mármore, como se o corpo já tivesse memorizado o lugar que o mundo lhe permitia ocupar.
Mas antes que Ana tocasse no sapato, Luna se mexeu. Foi rápido, instintivo. A menina deu um passo e se colocou entre Ana eBeatriz, os braços pequenos abertos como um escudo. Não saiu som nenhum, não houve palavra. Mesmo assim, o gesto gritou. Beatriz recuou um meio passo, surpresa com a ousadia. Depois riu nervosa.
O que é isso? Ela olhou para Ricardo indignada. Sua filha está ficando estranha. Ricardo não respondeu. Luna, em vez de correr para o pai, fez o oposto. Virou e se escondeu atrás das pernas de Ana, apertando o tecido azul da saia, como se fosse a única parede segura daquela casa. E Ricardo viu de novo a escolha. Três semanas. Era isso que doía.
Não, o amor de Ana, a falta do dele. Beatriz apontou um dedo para Ana e a máscara de doçura rachou. Está vendo? Essa mulher está manipulando a criança. Gente, assim faz isso. Ganha a criança, depois ganha o pai. Você devia vigiar. Ricardo fechou a mão dentro do bolso. As unhas marcaram a palma. Ele queria explodir, mas aprendeu cedo que em guerra quem grita primeiro perde.
“Beatriz”, ele disse com uma calma tão gelada que até ela percebeu. “deixa os sapatos, depois limpam.” Ela piscou, ofendida por ser contrariada. Ricardo respirou fundo. “Hoje eu não vou para o escritório. Vou ficar em casa.” Beatriz congelou com o copo de água na mão. O sorriso dela tremeu por um segundo.
Como assim? Mas você sempre diz que trabalho vem primeiro. Não hoje. Ricardo observou o microssegundo de incômodo no rosto dela. Não era preocupação com ele, era irritação por perder o controle. A presença dele naquela casa em horário errado era como uma câmera ligada quando alguém não quer ser visto. Ele se virou para subir. Atrás dele ouviu Beatriz estalar os dedos. Ana leva a menina e sem barulho.
Minha cabeça está explodindo e traz um café gelado, leite de amêndoas. Se vier leite normal, eu jogo em você. Entendeu? Ricardo não se virou, mas a mandíbula dele travou. Ele entrou no escritório e fechou a porta. Trancou. O clique da chave não suou como proteção, soou como o início de uma investigação. O escritório era uma fortaleza de couro e madeira escura, feito para intimidar.
Naquela manhã virou bunker. Ricardo foi direto até um quadro abstrato na parede, puxou a moldura e revelou o painel escondido. Digitou o código. Uma tela subiu do móvel silenciosa, brilhando em alta definição. O sistema de segurança da casa, câmeras e microfones em tudo instalado depois que a esposa morreu por medo e culpa.
Ele quase nunca usava até hoje. Ricardo sentou afrouxando a gravata e escolheu um dia aleatório. Dois dias antes, meio da tarde, uma casa sem o rei, como Beatriz gostava de chamar quando pensava que ninguém ouvia. A imagem mostrou a sala principal, Luna no tapete, cercada de brinquedos caros que não tocava. Beatriz no sofá, pé sobre a mesa de centro falando ao telefone.
Ricardo aumentou o volume e ouviu. Amiga, eu juro. A voz de Beatriz saiu clara pelos alofalantes, rindo. O Ricardo é chato demais, mas o anel vale tudo. Quando a gente casar e ele tiver um treco de estresse, eu viro a viúva mais rica de São Paulo. Ricardo sentiu o estômago virar. Na tela, Luna se levantou devagar, caminhou até Beatriz, puxou a manga dela, apontou para a cozinha. Fome, um pedido mudo.
Beatriz nem olhou. “Sai daqui”, ela disse, empurrando a menina com o pé, como se afastasse um cachorro. “Que nojo, você é grudenta. A porta abriu. Ana entrou apressada. Leva ela pro quarto. Beatriz ordenou sem tirar o olho do celular. E ela não desce mais hoje. Se der comida, você está demitida. Ricardo pausou o vídeo. As mãos tremiam.
O ar do escritório ficou pesado. A luz parecia mais fria. O silêncio agora tinha som. O som da culpa batendo por dentro do peito. Ele avançou o vídeo uma hora. Quarto de brinquedos. Luna encolhida num canto, chorando sem voz. Ana entrou olhando para os lados, fechou a porta devagar, tirou debaixo do avental um pote simples, plástico, barato.
Meu amor, a voz de Ana era baixa, urgente. Come rápido, é nosso segredo. Ela ofereceu colheradas pequenas, soprou cada uma. Luna comeu com desespero, depois encostou a testa no ombro de Ana como quem desaba. Ricardo não percebeu quando as lágrimas começaram a cair. Só percebeu quando uma gota bateu no tampo da mesa, fazendo um círculo escuro na madeira. Ele trocou de dia.
Entrada de serviço. Ana chegando com uma sacola. Ricardo deu zoom. Não era comida, eram coisas pequenas. Massinha. livro de colorir, quebra-cabeça de madeira. Não, os brinquedos eletrônicos que ele comprava. Ele abriu a folha de pagamento no computador. Salário mínimo. Ricardo encarou o número como se fosse um insulto ao que via na tela.
A mulher gastava o pouco que tinha com a filha dele. No vídeo, Ana sentou no chão com Luna e moldou um jardinzinho de massinha. Essa flor é você, ela dizia. Essa maior é o papai. Luna mexeu a massinha com cuidado e então, quase imperceptível, saiu um som. Papá. Ricardo congelou o vídeo. O som foi baixo, rouco, mas era real a primeira palavra e ele não estava lá.
Ricardofechou os olhos e a culpa veio como onda. Não precisava de julgamento. O próprio coração era tribunal suficiente. Ele abriu os olhos de novo e devagar fechou a mão. Não de raiva cega, de decisão. Até seguia ali, mostrando Ana abraçando Luna. Duas figuras pequenas num quarto grande demais. Ricardo desligou o monitor. O escritório ficou escuro por um segundo, refletindo o rosto dele no preto do vidro.
E naquele reflexo, ele não viu um magnata, viu um pai atrasado, finalmente enxergando que dinheiro nenhum tinha mostrado antes. O almoço parecia uma cena montada para uma revista. Mesa longa demais, pratos brancos demais, talheres de prata brilhando sob o lustre, como se nada ali pudesse ser humano.
Mas Ricardo sentiu o corpo inteiro em guerra. Ele entrou no salão de jantar e viu Beatriz já sentada, ajeitando o brinco diante do reflexo de uma faca, como se a própria imagem fosse mais importante do que qualquer pessoa ao redor. O mordomo, seu Ernesto, esperava de mãos cruzadas, parado como uma sombra treinada. Ricardo não disse nada, só olhou para a cadeira vazia do outro lado e num impulso frio e calculado, falou: “Coloca mais um lugar.
” Beatriz ergueu a cabeça num estalo. Mais um? Quem vem? Seu advogado? Ricardo virou o rosto devagar, olhando para a porta da cozinha. Lá, Ana estava parada com Luna no colo, pronta para o ritual que Beatriz havia imposto desde sempre, alimentar a menina escondida longe da mesa principal, como se a fome de uma criança fosse um defeito de etiqueta.
Ricardo sentiu o peso do que tinha visto nas câmeras queimando por dentro. Ana, chamou ele sem levantar a voz, mas a voz dele não aceitava. Não, senta aqui com a gente. O silêncio foi tão absoluto que o relógio na parede pareceu fazer barulho demais. Ana ficou imóvel, como se alguém tivesse puxado o chão. Luna, no colo, prendeu a respiração.
Senhor, Ana sussurrou com pânico nos olhos. Eu não posso. Ricardo caminhou até uma cadeira, puxou ele mesmo, arrastando a madeira no chão com um som áspero. Seu lugar é onde estiver minha filha. Beatriz riu. Mas não foi uma risada real, foi um corte. Você está brincando? Ela olhou Ana como quem olha um erro no tecido.
Sentar a empregada aqui na minha mesa. Ricardo não olhou para ela. Luna, não come se não for com você, não é? Perguntou a Ana. Ana engoliu em seco e a sentiu quase imperceptível. Então pronto. Ricardo virou o rosto para o mordomo. Sirva. Ana avançou com passos pequenos, tremendo. Colocou Luna na cadeirinha alta e sentou na beirada da cadeira, como se o estofado fosse fogo.
A comida começou e milagrosamente Luna comeu. Ana cortava pedacinhos, soprava, inventava o avião e Luna abria a boca. uma vitória pequena que parecia um terremoto no corpo de Ricardo. Ele assistia como se fosse um pai vendo a filha nascer de novo. Beatriz, porém, não encostou no prato. O olhar dela era uma coisa viva, ro para com esses barulhos ridículos, ela disparou de repente e o som bateu no ar como tapa.
Luna se sobressaltou. O garfo caiu tinindo. Os olhos da menina desceram de novo, assustados. Ana tentou sorrir baixinho, recuperar o clima. Desculpa, senhora, eu só você faz tudo errado. Beatriz inclinou o rosto e ainda acha bonito. Ricardo sentiu a raiva subir, mas segurou porque agora ele sabia. Antes de agir, precisava deixar Beatriz se mostrar inteira.
Ela aproximou a taça de vinho e sorriu com doçura falsa. Ricardo, sério, isso é degradante. Tem cheiro de água sanitária. Ricardo cortou a carne sem olhar para ela. A comida mais agradável que tivemos em anos disse apenas. Porque minha filha está feliz. A frase foi o gatilho. Beatriz decidiu marcar território.
Ai, Ana, disse ela, inclinando-se com um sorriso. Você está com uma mancha no uniforme, querida. Deixa eu ajudar. O movimento foi rápido, preciso. Uma mão desajeitada que, por coincidência perfeita, esbarrou na própria taça. O vinho voou escuro, pesado, e explodiu no peito de Ana como sangue. O avental branco ficou vermelho em segundos.
A saia azul encharcou. Gotas frias escorreram pelas pernas dela e um respingo atingiu o braço de Luna. Luna começou a chorar. Ana se levantou num salto ofegante, tentando limpar com as mãos, piorando a mancha, sem saber onde enfiar o corpo. Beatriz levou a mão à boca em uma atuação impecável, mas os olhos dela brilhavam de satisfação.
“Que horror!”, disse com voz alta. “Vai trocar antes de estragar a cadeira. É seda importada. Vale mais que seu salário. Ricardo levantou tão rápido que a cadeira bateu no chão. O som foi seco. O mordomo deu um passo involuntário. Ricardo olhou o vinho em Ana. Depois olhou Beatriz e viu o gesto que a câmera tinha mostrado, só que ao vivo.
Não foi acidente, foi ataque. Você está bem? perguntou Ricardo a Ana, ignorando Beatriz como se ela não existisse. Ana segurava as lágrimas com o orgulho nos dentes. Estou sim, senhor. Desculpa. Eu Você não tem nada para pedir desculpa. Ana saiu apressada,cabeça baixa, o tecido colando no corpo e Luna, vendo Ana ir embora, entrou em desespero, gritou, se debateu, estendeu os braços para a porta e então aconteceu.
A palavra saiu rasgada, infantil, confusa. Mamãe, mamãe! O salão inteiro congelou. Beatriz ficou branca. Ricardo sentiu um arrepio atravessar a espinha. Não era a mãe que morreu, era Ana. Beatriz bateu a mão na mesa. Ouviu isso? Cuspiu com veneno. Essa mulher está lavando o cérebro da sua filha. Demite ela hoje.
Ricardo olhou para Beatriz como se a estivesse vendo pela primeira vez. E, por um segundo, o ódio dele quase falou. Mas naquele mesmo instante um som distante veio do jardim, um grito agudo cortando o ar como faca. Lu Una era a voz de Ana, pura, desesperada. Ricardo virou o rosto para as portas de vidro e viu. Luna tinha escapado da cadeira no caos do choro e atraída por alguma coisa no jardim, tinha ido para o pátio.
O portão estava aberto. A piscina, reluzindo no sol parecia um espelho bonito demais para uma criança. O mundo desacelerou. Ricardo saiu correndo, tropeçando na cadeira. O coração dele parou dentro do peito quando viu o vestido claro perto da borda, um escorregão, um som de água e depois silêncio. Não. O grito de Ricardo saiu rouco, animal.
Ele correu como nunca correu por nada na vida, mas Ana estava mais perto. Ela surgiu na porta já sem o uniforme, jeans e camiseta simples. E quando viu a água se mexer, não pensou, não hesitou, não tirou o sapato. Ela se lançou. Um salto perfeito, o corpo cortando a água fria com violência, um barulho surdo de impacto.
Ricardo chegou na beira quando Ana emergiu, tcindo, com Luna nos braços, levantando a menina acima da água, como se segurasse o próprio céu. Luna chorava, engasgando, mas viva. Me dá. Ricardo se jogou de joelhos, esticando os braços. Ana nadou com dificuldade, o jeans pesando como pedra, encostou na borda, entregou Luna. Ricardo puxou a filha, apertou contra o peito, encharcou o terno, não se importou com nada, beijou a cabeça dela repetidas vezes, tremendo.
“Tá aqui, tá aqui”, sussurrou, como se dissesse para si mesmo. Ela não foi embora. Ana tentou sair. O corpo dela tremia. Cansado, pesado. Ricardo estendeu a mão e a puxou para fora. Ela caiu na grama, tcindo água, o rosto pálido, os cabelos grudados na testa. Foi aí que Beatriz apareceu devagar, cuidando para o salto não afundar.
parou a uns metros, olhando como quem olha um problema molhado no chão. “Que susto”, disse ela. “Ainda bem que a empregada estava perto. Ricardo, cuidado com seu terno.” E ela apontou para Ana. Não vai entrar assim na casa. Vai molhar os tapetes. Ana, tremendo, ignorou Beatriz. Olhou só para a Luna. “Senhor, ela engoliu água.
Precisa ver o pulmão. Chama o médico. A diferença era brutal. Ana, encharcada, só via a menina. Beatriz, seca, só viaco. Ricardo se levantou com Luna nos braços e olhou para Ana, ainda no chão. “Levanta”, ele disse a voz baixa, firme. “Você vai entrar pela porta da frente, vai tomar banho no banheiro de hóspedes agora”. Ana piscou assustada, mas os tapetes.
Ricardo virou o rosto para Beatriz. Os olhos dele estavam calmos e isso era o mais perigoso. “Dane-se os tapetes”, disse ele. Beatriz abriu a boca indignada. “Não fala assim comigo. Eu estou em choque e além disso, eu não pulei porque essa água é gelada e meu vestido é Ricardo não deixou ela terminar. Ele não gritou, só olhou.
E nesse olhar, Beatriz entendeu que algo tinha quebrado para sempre. Ricardo caminhou em direção à casa, Luna grudada no pescoço e estendeu a mão livre para Ana. Ela pegou, ainda tremendo, e levantou. Os três seguiram juntos, molhados, bagunçados, vivos, atravessando o jardim como se atravessassem uma fronteira.
E atrás deles, Beatriz ficou parada no sol, perfeita e inútil, vendo o controle escapar pelos dedos. Na soleira da porta principal, Ricardo parou por um instante, olhou para dentro da casa, aquele lugar que nunca respirava. A água pingava do cabelo de Ana no chão de mármore, marcando pequenas gotas que pareciam um caminho.
Ricardo entrou e, pela primeira vez, não tentou limpar as marcas. M.















