O som dos saltos ecoava no mármore polido, como se marcasse o compasso de uma orquestra invisível. O ar cheirava a perfume caro, champanhe e ansiedade. Lustres de cristal derramavam luz sobre rostos sorridentes, políticos, empresários, celebridades, todos se cumprimentando com beijos calculados. Era a grande noite da Fundação do Arte, o evento mais esperado do ano.
Mas entre o brilho e as câmeras havia um silêncio escondido, um vazio que nem o ouro conseguia disfarçar. Isabela Duarte, 48 anos, atravessava o salão com postura impecável. O vestido azul de seda parecia feito para ela e era cada movimento era ensaiado, o olhar, o sorriso, até o levantar da taça. Mas por trás da maquiagem perfeita havia algo frio, uma saudade antiga que o tempo não apagou. De longe, todos viam poder.
De perto, se ouvissem com atenção, escutariam o som de um coração que não batia por ninguém há 25 anos. A orquestra tocava um jazz elegante. Garções passavam com bandejas prateadas e no meio do vai e vem, um gesto pequeno mudou o rumo da noite. Uma mulher simples atravessou o salão empurrando um carrinho de serviço.
Clara, 26 anos, uniforme preto, avental branco, o cabelo preso num coque apressado. tinha as mãos firmes, o olhar atento, mas um jeito de quem aprendeu cedo a não ocupar espaço demais. Passou perto de Isabela. O ar pareceu se mover devagar, como se algo puxasse o tempo para trás. Foi então que Isabela viu um reflexo, um brilho sutil bem no pescoço da jovem, um pingente em forma de estrela, pequeno, prateado, mas tão único, que fez o chão desaparecer sob seus pés. Não pode ser.
O copo escorregou dos dedos dela. O cristal se partiu com um estalo seco. Metade do salão virou o rosto. Clara se assustou, abaixou-se para limpar, murmurando: “Desculpe, senhora, eu limpo já.” Mas Isabela não ouvia. Os olhos dela estavam presos naquela estrela, como se o passado inteiro tivesse voltado num só golpe de luz.
O coração acelerou, a respiração ficou curta. Ela deu um passo, depois outro. As risadas à volta se calaram e a música pareceu distante. Quando ficou frente à frente com a moça, a voz simplesmente falhou. Mesmo assim, ela disse: “Esse colar pertence à minha filha. Silêncio absoluto. Os convidados se entreolharam sem entender.
O metre congelou com uma garrafa de espumante na mão e Clara, com os olhos arregalados, levou instintivamente a mão ao peito. “Senhora, esse colar é meu desde que eu me entendo por gente.” A voz dela saiu trêmula, mas honesta. Eu usava quando fui deixada num abrigo, ainda criança. As palavras bateram em Isabela como o eco de uma lembrança antiga, abrigo, criança, colar, tudo girava, o salão, as luzes, as pessoas. Nada fazia sentido.
Ela deu um passo para trás, tentando respirar. A mão procurou apoio na mesa mais próxima. O cheiro de flores brancas, as mesmas flores do batizado da filha, invadiu o ar. 25 anos e mesmo assim o cheiro ainda dói. Qual é o seu nome? Ela perguntou quase sem voz. Clara hesitou. Clara. Me chamam de Clara Rosa, senhora.
O nome caiu como uma flecha no peito de Isabela. Rosa. Era assim que ela chamava a filha quando a menina ainda cabia nos braços. Minha rosinha. Ela fechou os olhos. Por um instante viu o fogo, o incêndio, as chamas subindo pelas cortinas, a correria, o berço vazio. Depois o nada. Quando abriu os olhos, as lágrimas já estavam lá. Mas Isabela era uma mulher acostumada a não chorar na frente de ninguém.
segurou firme. Rosa sussurrou sem perceber. Senhora Clara perguntou confusa. Nada, só me lembrei de alguém. O silêncio pesava. As pessoas, desconfortáveis, voltavam a fingir normalidade. A orquestra recomeçou, tentando disfarçar o clima, mas o ar havia mudado. O salão dourado agora parecia frio, quase hostil. Clara ajeitou o avental.
envergonhada. Me desculpe, dona Isabela, eu não quis causar nada. Isabela piscou, voltando ao presente. Você trabalha aqui há quanto tempo? Três meses, senhora, na limpeza do salão principal. E esse colar alguém te deu? Não, senhora, eu já cheguei no abrigo com ele. A diretora dizia que talvez viesse dos meus pais.
A cada palavra, o coração de Isabela se apertava mais. O colar era idêntico. Mesma forma, mesma marca discreta gravada atrás. Para sempre, mamãe. Ela levou a mão à boca para não deixar escapar o soluço. Meu Deus. Clara percebeu algo errado. A senhora está bem? Isabela apenas balançou a cabeça. Sim, sim, estou. Mas não estava.
O corpo pedia ar. O mundo inteiro parecia girar devagar, como se o tempo estivesse brincando com ela. O destino tem dessas crueldades. Faz a gente encontrar o que não tem coragem de procurar. A câmera se aproxima das duas, o fundo se desfoca. Só há duas figuras no quadro. Uma mulher vestida de luxo e outra, simples, com um brilho no pescoço que corta o escuro.
Senhora, por que está me olhando assim? Clara pergunta. Por quê? Acho que te conheço de algum lugar. Isabela respondequase sem perceber. E então o olhar dela se prende um instante longo demais para ser casual. Uma respiração compartilhada, um reconhecimento que não cabe em palavras. A tensão é quebrada por um garçom tropeçando mais ao fundo.
O som do copo quebrando volta a encher o ar. agora mais distante. Mas Isabela não desvia o olhar. Ela respira fundo, se recompõe e sussurra apenas. A gente ainda vai conversar, Clara. Clara a sente sem entender, mas sente um arrepio percorrer a pele. Algo nela diz que aquela noite não vai acabar como as outras.
A música volta a tocar, lenta, melancólica. Isabela caminha até a varanda sozinha. As luzes da cidade piscando lá fora. Abre a bolsa, procura uma foto antiga, uma menina de olhos grandes segurando o mesmo colar. A câmera se aproxima do retrato. Se o amor tem forma, a minha sempre foi uma estrela. Ela dobra a foto com cuidado, coloca no bolso e volta o olhar para o salão.
Lá dentro, Clara serve champanhe a outro convidado, sem perceber que está sendo observada. O brilho do colar balança com o movimento, refletindo uma luz no rosto de Isabela. Por um segundo, as duas se encaram de novo. O tempo suspende. “Cuidado, dona Isabela”, diz uma senhora ao lado em tom baixo. “Às vezes a luz que brilha demais queima”.
Isabela força um sorriso, mas os olhos continuam presos naquela estrela. O colar parece pulsar como um coração, refletindo a luz do salão, como se soubesse de um segredo que ninguém mais ali podia entender. E naquela noite, entre flores douradas e taças de cristal, a estrela começou a brilhar forte demais para ser ignorada.
A noite terminou, mas o silêncio ficou no corredor da mansão Duarte. O som dos passos de Isabela parecia bater junto com o coração. Cada eco era uma lembrança voltando. Cada sombra, uma dúvida que ela tentava esconder. O salão vazio ainda cheirava a flores e perfume caro. Cálices quebrados, guardanapos amarrotados, vestígios de uma noite que ela jamais esqueceria.
Mas o que realmente a assombrava não estava no chão, estava no olhar daquela moça, no colar que pulsava como uma memória viva. Isabela subiu às escadas com as mãos trêmulas. Ao passar pelo espelho do corredor, viu o próprio reflexo e mal se reconheceu. A mulher elegante da festa parecia uma estranha. Nos olhos dela havia algo que não se via há muito tempo. Medo, a conversa.
Horas depois, já de madrugada, Isabela mandou chamar Clara discretamente. Queria falar longe dos olhares curiosos, sem testemunhas, sem máscaras. Elas se encontraram num salão menor, o da ala antiga da mansão. Teto alto, cortinas pesadas, cheiro de madeira e passado. A luz amarela das arandelas criava sombras nas paredes, como se as lembranças estivessem prestes a ganhar forma.
Sente-se”, disse Isabela, tentando soar firme, mas a voz falhou. “Quero que me conte tudo o que lembra da sua infância”. Clara sentou-se na ponta da cadeira. Os dedos apertavam o pano do avental. Por um instante, pareceu não saber se devia falar. Mas algo no olhar de Isabela, um misto de autoridade e dor, a fez respirar fundo.
Eu lembro de fogo, de uma casa grande e uma mulher loira cantando. Depois só escuro e medo. Isabela ficou imóvel. O ar ficou pesado, quase sólido. Que música ela cantava? perguntou baixinho. Clara franziu a testa, tentando puxar da memória. Então, sem perceber, começou a murmurar: “Dormesinha, minha flor, o céu te guarda o amor”.
Isabela fechou os olhos, a mesma melodia, a canção de Ninar que ela mesma compôs para a filha. As lágrimas vieram antes que ela pudesse impedi-las. Continue, por favor. Depois do fogo, acordei num abrigo. Me disseram que ninguém veio me buscar. Só me deixaram esse colar. Às vezes o destino deixa provas pequenas, só para ver se a gente ainda tem coragem de acreditar.
O silêncio entre as duas era cortante. Só se ouvia o som distante da chuva batendo nos vitrais. Isabela se levantou devagar, deu a volta na mesa, parou atrás de Clara, colocou as mãos nos ombros dela. “Você nasceu em junho?” Clara pensou um pouco. 24 de junho, o mundo parou. A respiração de Isabela travou no meio.
Era o mesmo dia, o mesmo. Ela se afastou como se o chão tivesse desaparecido. Encostou-se na parede, tentando se recompor. Meu Deus! Clara levantou-se assustada. A senhora tá bem? Eu preciso de uma confirmação, um exame, um teste de DNA. Clara demorou alguns segundos para entender. DNA? Repetiu incrédula.
A senhora acha que eu sou eu não sei o que pensar. Isabela a interrompeu. Mas meu coração tá gritando que é você. A moça abaixou a cabeça. Eu sou só uma fachineira, dona Isabela. A senhora é tudo isso aqui. Eu não pertenço a esse mundo. Isabela segurou o rosto dela com as duas mãos, com ternura e desespero. Você pertence ao meu coração, e isso é o que importa agora.
As duas ficaram ali em silêncio. Só o som da chuva preenchia o espaço. A câmera se afastava devagar, revelando a cena de duas mulheres diferentes demais,unidas por algo que nem elas sabiam explicar, o peso da dúvida. Nos dias seguintes, a casa inteira parecia andar em pontas de pés. Os funcionários coxixavam, os passos eram cuidadosos.
Isabela tentava seguir a rotina, mas cada gesto simples, um copo de café, um retrato na parede, parecia esconder uma lembrança. No escritório, ela abriu uma gaveta trancada há anos. De lá, tirou uma pequena caixa de madeira. Dentro, uma foto antiga, uma bebê de olhos grandes com o mesmo pingente de estrela.
Atrás da foto, uma dedicatória desbotada para minha rosa, amor eterno, mamãe. Isabela fechou os olhos, encostou a foto no peito. O tempo é cruel, mas a memória ela nunca desiste. Enquanto isso, do outro lado da casa, Clara varria o corredor. Mas o pensamento estava longe. Desde aquela noite, as palavras da patroa ecoavam na cabeça: “Você pertence ao meu coração! E pela primeira vez ela não soube o que sentir.
Ao olhar o reflexo no vidro da janela, enxergou o próprio rosto e, por um segundo, achou ver o rosto de Isabela ali misturado. Assustada, recuou. Eu tô ficando louca”, murmurou. Mas o colar brilhava diferente. O pingente parecia captar cada raio da manhã, projetando pequenas estrelas no chão de mármore. Ela se agachou, tocou o reflexo com a ponta dos dedos.
Tem coisas que a gente reconhece antes de entender, como se o coração lembrasse e a razão chegasse atrasada, o fio da lembrança. No fim do dia, Isabela pediu que Clara fosse ao jardim com ela. O solha devagar, pintando o céu de laranja. As árvores antigas balançavam e o som das folhas parecia uma canção distante.
“Eu costumava cantar aqui”, disse Isabela, olhando o horizonte com minha filha. Ela dizia que o vento levava as notas pro céu. Clara sorriu tímido. Eu sonhava com um jardim assim quando era pequena, sempre o mesmo. Tinha flores amarelas e uma mulher me chamava de rosa. Isabela virou o rosto lentamente. O que você disse? Que ela me chamava de rosa? respondeu sem perceber o peso daquilo. A voz de Isabela tremeu.
Era assim que eu chamava minha filha. Clara ficou em silêncio, os olhos marejados. As duas se olharam e, por um instante o tempo pareceu se curvar. Não havia patroa nem funcionária, apenas duas almas tentando se reconhecer no espelho do destino, a virada simbólica. Quando o sol desapareceu por completo, o jardim ficou coberto por um brilho leve.
As primeiras estrelas da noite. Clara ergueu o rosto. Gosto das estrelas. Elas me acalmam. Isabela respondeu com um sorriso contido. Talvez porque uma delas sempre te seguiu. O vento soprou forte, levantando folhas secas e fazendo o colar balançar. O pingente de estrela refletiu um feixe de luz direto no rosto de Isabela.
Por um instante, ela fechou os olhos como se o passado estivesse a um passo de ser tocado. Mas quando abriu novamente, Clara já caminhava de volta para casa. O avental balançando na brisa, o brilho do colar se afastando na penumbra. Às vezes a verdade se aproxima devagar, como uma lembrança que tem medo de doer de novo.
A câmera sobe, revelando o jardim iluminado pela lua, a mesma árvore que um dia abrigou a infância perdida. Agora observa em silêncio o reencontro que o tempo começou a costurar. E o eco daquela velha canção de Ninar volta a soar, misturado ao som das cigarras. Dormezinha, minha flor. O céu te guarda, o amor. O amanhecer chegou cinza.
O céu de São Paulo parecia feito de ferro, pesado, suspenso. Dentro da mansão Duarte, ninguém dormiu direito. Nem Isabela, nem Clara. Ambas sabiam. Aquele dia ia mudar tudo. O relógio marcava 6:40 da manhã. O som da chuva fina, batendo nas janelas preenchia os corredores. O cheiro de café se misturava ao de terra molhada, mas nenhum aroma, nenhum som trazia paz.
Quando o destino decide falar, até o tempo segura o fôlego. As horas que não passam, Isabela estava na biblioteca, olhando a lareira apagada. O fogo que um dia levou a filha embora parecia agora vivo dentro dela, queimando de novo sobre a mesa o retrato antigo, o mesmo colar, o mesmo olhar. Ela passava os dedos sobre o vidro, como se pudesse sentir a pele da criança.
O assessor entrou em silêncio, deixando um envelope pardo sobre a mesa. “Chegou, senhora.” Ela olhou o papel como quem encara uma arma. Ainda não murmurou. Espere. Respirou fundo. Precisava de Clara ali. Precisava olhar nos olhos dela quando a verdade viesse. No andar de cima, Clara também não conseguia ficar parada. Estava sentada na beira da cama, segurando o colar com as duas mãos.
O pingente de estrela balançava devagar, refletindo a luz cinzenta do céu. Por favor, que Deus me mostre o que eu sou. Ela levantou-se e foi até a janela. Lá fora, o jardim encharcado parecia um espelho borrado, as árvores curvadas, o vento gelado, tudo parecia suspenso, como ela.
Tem dias que o mundo para só para ouvir o barulho do coração da gente. O encontro. Quando o relógio bateu 8 horas, Isabela mandou chamá-la. Elas se encontraram na sala principal.Nenhum convidado, nenhum funcionário, só o som da chuva caindo firme sobre o telhado de vidro. Isabela segurava o envelope ainda lacrado, os olhos marejados, mas firmes.
Clara, antes de abrir, eu quero que você saiba uma coisa. Seja qual for o resultado, você já tem um lugar aqui e aqui. Ela tocou o próprio peito no meu coração. Clara sentiu as pernas fraquejarem. Senhora, eu não sei o que fazer com tudo isso. Ontem eu limpava o chão. Hoje o chão é que tá me engolindo. Isabela sorriu com doçura triste.
Às vezes o destino troca os papéis da vida. A gente acha que serve e descobre que é quem sempre mereceu ser servido com amor. O silêncio depois dessas palavras parecia ter peso. O som do relógio marcava segundos longos demais. Isabela respirou fundo. Vamos acabar com essa dúvida. Ela passou o dedo pelo lacre.
O som do papel rasgando ecoou pela sala como um trovão pequeno. Clara apertou as mãos no colo. Os olhos de Isabela desceram lentamente pelas linhas do documento. Então ela parou. Os ombros tremiam. As lágrimas caíram antes das palavras. É você, Clara. É você, minha filha. O tempo parou. Clara recuou um passo incrédula. Não, não pode ser.
Mas Isabela já a abraçava com força, com desespero, com todos os anos que faltaram naquele abraço. Você voltou para mim 25 anos depois, mas voltou. As duas choravam sem som. A câmera girava devagar ao redor delas, captando o abraço. A chuva caindo lá fora, o pingente brilhando entre as lágrimas. Há verdades que o tempo não apaga.
Só a dia, até o coração estar pronto. O abraço e o colapso. O choro virou riso nervoso. Isabela beijava o rosto da filha, o cabelo, as mãos. Clara não sabia o que fazer. Ra, chorava, tremia. Eu passei a vida procurando um lugar e o lugar era você, disse soluçando. Isabela encostou a testa na dela e eu passei a vida inteira fingindo que o luxo curava.
Mas era só saudade. Do lado de fora, a chuva aumentou. Raios cortaram o céu. O som do trovão invadiu o salão. E naquele instante, como se o universo quisesse testemunhar, a luz piscou. Por um segundo, tudo escureceu, mas o colar de clara brilhou forte no escuro, um ponto de luz entre mãe e filha.
O amor, quando é verdadeiro, acende o que nem a escuridão consegue apagar. A energia voltou. As duas ainda se abraçavam, chorando como quem lava a alma. A câmera se aproximou do colar. O pingente refletia o rosto de Isabela e no reflexo o declara: “Fundidos, inseparáveis, o peso do passado.” Depois do primeiro choque, vieram as perguntas: o incêndio, o abrigo, o desaparecimento, como ninguém nunca soube, como a vida teve coragem de separar as duas.
Isabela contou o que lembrava. A noite do fogo, a fumaça, o desespero, o bebê levado por uma babá que nunca mais voltou, um pedaço da história que ficou perdido nas manchetes e nas culpas. Clara ouviu tudo em silêncio, as mãos no colar, o olhar perdido. Quando Isabela terminou, ela respirou fundo e perguntou: “E agora? O que eu faço, mãe?” A palavra mãe saiu leve, quase um sopro, mas foi o som mais forte que Isabela ouviu em 25 anos.
Ela fechou os olhos, sorriu entre lágrimas. Agora a gente recomeça. O som da chuva diminuiu. O sol começou a rasgar o céu, tímido entre as nuvens. A luz bateu direto no rosto delas, fazendo o colar brilhar de novo. Agora com cor de ouro. A inversão simbólica. Horas depois, Isabela chamou os funcionários. Todos se reuniram no mesmo salão da noite da gala.
Mas agora não havia taças, nem flores, nem luxo. Havia verdade. De mãos dadas com Clara, Isabela anunciou: “Esta é minha filha e ninguém aqui deve tratá-la como menos do que isso”. O murmúrio se espalhou. Alguns choraram, outros apenas abaixaram a cabeça, envergonhados de antes tê-la chamado de a faxineira, clara, tímida, não sabia onde olhar.
Mas Isabela a ergueu pela mão e disse: “Levante o queixo. O destino nunca se curva para ninguém. Às vezes o poder não é ter, é se permitir sentir. A câmera subiu lentamente. O salão inteiro parecia outro, o mesmo lugar, mas com uma luz diferente. A música suave começou, piano e violino, misturados ao som da chuva parando. Isabela olhou pra filha.
Sabe o que eu percebi? A noite do incêndio me tirou o que o fogo destrói. Hoje Deus me devolveu o que o amor reconstrói. Clara sorriu. Eu achava que não tinha passado, mas descobri que meu futuro sempre teve o seu nome. A mãe a puxou para um abraço e naquele instante as janelas se abriram com o vento. A cortina dançou.
Um raio de luz atravessou o salão e bateu direto no colar, que projetou no chão a forma perfeita de uma estrela. O reflexo da estrela unindo as sombras das duas no chão, mãe e filha. Agora uma só figura de luz. O dia da verdade não é quando o papel confirma, é quando o coração entende e finalmente se reconhece. O tempo passou, mas naquela casa parecia que a luz tinha mudado de lugar, o mesmo mármore, os mesmos corredores.
Só que agora o brilho vinha de dentro. Oescândalo que todos esperavam nunca veio, nem manchetes, nem curiosos. A verdade se espalhou apenas onde devia, no coração das duas. Quando o amor reencontra o que perdeu, ele não faz barulho, ele acende. O novo começo. Era amanhã. O sol atravessava as janelas e Clara, agora Clara Duarte, descia as escadas com um caderno nas mãos.
Usava roupas simples, mas o andar era outro, firme, leve. Isabela a esperava na cozinha, sorrindo. Café pronto, igual quando você era pequena. Quer dizer, quando eu imaginava que ainda era, as duas riram. O som das risadas preencheu o espaço como se a casa estivesse respirando outra vez. Na mesa entre as duas, o colar da estrela.
Clara o limpava com cuidado, enquanto Isabela a observava encantada. Eu achava que esse colar era o que me restava de você, mas percebi que era você que guardava ele para me encontrar. Do lado de fora, os jardins floriam de novo. Parecia que até as plantas sentiam o recomeço. A missão dias depois, Isabela reuniu a equipe da fundação.
O salão, o mesmo da antiga gala, agora tinha mesas de madeira simples, crianças rindo, professores, voluntários. A partir de hoje, anunciou, a fundação não é mais sobre eventos de luxo, é sobre reencontros. Vamos procurar famílias separadas, ajudar quem foi deixado para trás. Clara estava ao lado dela, segurando uma prancheta. Os funcionários a olhavam com respeito, alguns ainda com culpa nos olhos.
Ela respirou fundo e disse: “Eu cresci num abrigo. Sei como é olhar o teto à noite e se perguntar quem é você. Se eu encontrei minha mãe, talvez outros também possam”. As palmas vieram suaves, emocionadas. Algumas pessoas choraram e pela primeira vez Isabela não falou nada, apenas olhou para a filha e deixou que ela conduzisse.
Há perdões que não se pedem, se provam em cada gesto. A câmera passeia pelo salão, crianças desenhando estrelas, risadas ecoando, o colar pendurado no pescoço de Clara, refletindo luz nas paredes, o peso da culpa. Mesmo com o novo propósito, Isabela carregava algo que a impedia de dormir. Certa noite, entrou no antigo quarto da filha, o mesmo que ficou fechado por 25 anos. Abriu a janela.
O vento trouxe o cheiro de madeira e lembranças. As bonecas ainda estavam lá. A parede com marcas de fumaça. Ela passou a mão sobre um ursinho queimado nas pontas. Não existe pior prisão do que a culpa que a gente mesmo constrói. As lágrimas vieram silenciosas. Ela sentou na beira da cama, segurando o brinquedo.
Eu devia terte protegido, minha filha. Clara apareceu na porta sem fazer barulho. E eu devia ter procurado antes. Mas talvez a gente só se encontrasse quando estivesse pronta para se perdoar. Isabela levantou os olhos surpresa. Você ouviu? Desde o corredor. Clara sorriu com ternura e eu vim te devolver o que era seu. Ela estendeu o colar.
Agora, mãe, é você quem precisa usar, porque o amor que me trouxe até aqui foi o seu. Isabela hesitou, mas colocou o colar no pescoço. O pingente de estrela caiu bem sobre o coração. Estranho. Eu sinto que ela tá quente. Clara segurou as mãos da mãe porque ela encontrou o lugar certo para brilhar. As duas se abraçaram.
O vento entrou pela janela, apagando a luz do abajur, mas o pingente continuava iluminado. A nova gala. Meses depois, outra noite, outro salão, o mesmo palco, mas uma história diferente. Nada de ouro, nem champanhe. As mesas tinham flores simples e velas. Na parede, uma foto, mãe e filha sorrindo. Isabela subiu ao palco emocionada.
Eu já tive tudo o que o dinheiro pode comprar e nada disso me curou. Hoje eu tenho o que o tempo quase me tirou, a chance de recomeçar. Clara se aproximou e eu tenho a prova de que o amor sempre encontra o caminho de volta. Os convidados aplaudiram de pé. O som das palmas misturava-se a música suave de piano.
A câmera captava o brilho das lágrimas, o reflexo da estrela no microfone. Há noites que não precisam de luxo para serem eternas. Basta uma verdade e um abraço para sustentá-la. A dança. Depois do discurso, Isabela pegou a mão da filha. Posso ter essa dança? Clara riu. Achei que a senhora não dançava. Não dançava. Agora aprendi. A vida é mais leve quando a gente para de ter medo do chão.
As duas começaram a dançar devagar. O salão inteiro observava. Alguns sorrindo, outros chorando, todos sentindo que estavam vendo algo raro. O perdão em forma de movimento. A música cresceu. O piano se misturou a violinos. O colar balançava entre elas, refletindo pequenas estrelas no teto. Por um instante, parecia que o universo inteiro dançava junto.
Isabela encostou o rosto no ombro da filha e sussurrou: “Obrigada por me devolver o que eu nem sabia mais que tinha. Fé”, Clara respondeu baixinho. Eu que agradeço por me mostrar que eu nunca estive sozinha. A música terminou, mas as duas continuaram abraçadas e móveis, respirando no mesmo compasso. Epílogo. Mais tarde já em casa, Isabela passou pelo quarto da filha.
Clara dormia,abraçada ao velho ursinho que reencontraram na caixa de lembranças. O abajur projetava no teto a sombra da estrela. Isabela cobriu a filha com o lençol, devagar, como quem protege o tempo, beijou-lhe a testa. “Boa noite, minha menina”, Clara, murmurou sonolenta. “Boa noite, mãe”. Isabela saiu do quarto, fechando a porta com cuidado. No corredor, respirou fundo.
O vento da noite entrou pela janela aberta e balançou as cortinas. Ela olhou para o céu. Milhares de estrelas, mas uma brilhava mais forte. a mesma que iluminava o colar. Algumas luzes não vem do céu, vem de dentro. E quando acendem, nem o tempo consegue apagar. M.















