O som das crianças ecoava pelo pátio da escola Santa Cecília como uma chuva de risadas, misturada com cheiro de bolo e papel colorido. O sol das 4 da tarde entrava pelas janelas altas, dourando os balões pendurados com fita adesiva e o suor tímido no rosto dos pais. Era dia da família, aquele dia em que todo mundo parecia ter alguém para mostrar.
Todo mundo, menos Pedro e Henrique. Lara ajeitava a gola da camisa deles, o coração batendo no mesmo ritmo das palmas e das vozes. Ela conhecia aqueles meninos como quem decora uma música de tanto ouvir. Sabia que Henrique mordia o lábio quando ficava nervoso e que Pedro piscava rápido quando tentava esconder o medo.
Os dois seguravam o cartaz do sistema solar. Um trabalho que ela mesma ajudou a pintar com guache e paciência depois que os dois adormeceram sobre o papel. “Tá lindo, meninos!”, ela sussurrou baixinho, tentando esconder a emoção, mas eles não responderam. Os olhos corriam pelo salão, procurando alguém que não estava. Pais tirando fotos, mães ajeitando cabelos, avós com flores nas mãos e eles sozinhos.
Pedro respirou fundo e cutucou o irmão. Henrique balançou a cabeça quase em segredo. Pedro insistiu. Henrique olhou para Lara e foi como se as palavras saíssem com o peso do mundo. Tia, você pode fingir que é nossa mãe hoje? A frase atravessou o barulho e o tempo parou. O som do microfone falhando, o grito de uma criança distante, tudo virou silêncio.
Lara piscou devagar, o coração batendo no pescoço. O que, meu amor? Henrique abaixou os olhos. Todo mundo aqui tem mãe, só a gente que não tem. O peito dela apertou. Ela tentou sorrir. Mas vocês têm o papai, não tem? Pedro respondeu com a rapidez de quem já desistiu da resposta. O papai nunca vem, sempre tem reunião, trabalho, essas coisas. A voz dele tremeu.
Henrique completou com um fio de voz que parecia pedir abrigo. Só você se importa de verdade. Lara se abaixou, ficando na altura dos dois. O cheiro do giz de cera, o barulho do ventilador girando lá no alto. Tudo pareceu se afastar. Por favor, tia Lari, só hoje. Ela respirou fundo, sentindo o nó subir pela garganta.
Depois sorriu, mesmo com os olhos marejando. Tá bom, meus amores. Hoje eu sou a mamãe de vocês. Eles se jogaram no colo dela, abraçando como se tivessem medo que o abraço acabasse. E naquele instante Lara percebeu: Não eram apenas eles que precisavam daquilo, ela também. A apresentação começou. Pedro e Henrique subiram no palco com o cartaz tremendo nas mãos.
Lara ficou logo na frente sorrindo, os olhos brilhando de orgulho. Quando Pedro falou o nome dos planetas, Lara fez sinal de positivo. Quando Henrique apontou pra Terra e disse: “É aqui que a gente mora!”, ela quase chorou. E então, no meio do aplauso das famílias, uma porta no fundo do salão se abriu com força. Um homem de terno entrou falando ao celular: “Não, Marcelo, a reunião é às 3, não às 4.”.
Era Bruno Azevedo, o pai deles. Rosto sério, terno, impecável, olhar cansado de quem carrega o mundo e esquece o essencial. Ele desligou o telefone quando viu os filhos no palco e viu Lara ajoelhada entre eles, dizendo com ternura: “Vamos, campeões, a mamãe tá orgulhosa.” O som do mundo se esvau de novo. O celular escorregou da mão dele.
O eco metálico fez todo mundo virar. Pedro olhou surpreso. “Pai!” Bruno tentou sorrir, mas a voz não saiu. Henrique se soltou de Lara, constrangido. O silêncio doeu. Lara se levantou devagar, o rosto queimando de vergonha. Bruno respirou fundo, se abaixou até ficar na altura dos meninos. Desculpa, gente, por nunca ter vindo.
Pedro baixou os olhos. Tá tudo bem, pai. Mas o jeito que ele disse denunciava o contrário. Bruno engoliu seco, olhou para Lara e pela primeira vez realmente viu. Viu a mulher que segurava o que ele deixava cair. Naquela noite, o carro preto de Bruno parou diante da mansão. O som do portão automático pareceu mais alto que o normal.
Ele respirou fundo, fechou o laptop e tomou uma decisão simples, mas inédita. ficar em casa. Marcelo, desmarca tudo. Hoje eu vou jantar com meus filhos. Do outro lado da linha, o assistente silenciou. Bruno sorriu pela primeira vez em muito tempo. Tô virando o pai, Marcelo. Na cozinha, o cheiro de arroz e alho dourado no azeite.
Pedro e Henrique brigavam para ver quem mexia a panela. Lara ria tentando não deixar o feijão transbordar. Bruno entrou devagar. Observando a cena, a bagunça, o riso, a vida. Posso ajudar? Henrique respondeu: “Pode sim, pai. Pega o suco.” Ele obedeceu meio desajeitado, como um visitante tentando aprender o caminho de casa.
Durante o jantar, as vozes se misturaram como música. Pedro contou que aprendeu a multiplicar com feijão. Henrique explicou a diferença entre Vênus e Marte. Bruno ouvia encantado. Pai, amanhã você vai trabalhar? Vou, mas saio cedo para jantar com vocês. Todo dia? Bruno sorriu. Todo dia. Lara observava em silêncio. Aquela mesa antes fria e solitária, agora tinha som deinfância. Ela se deu conta.
Não era o dinheiro, nem o tamanho da casa. Era o som do garfo batendo no prato, a gargalhada fora de ritmo, o me passa o sal. Aquilo era o que sempre faltou ali. Mais tarde, quando os meninos dormiram, Bruno desceu para a cozinha. Lara lavava os pratos. A luz amarelada caía sobre o rosto dela e ele reparou.
Havia paz na forma como ela fazia tudo, até o que ninguém via. Obrigado. Por quê? por cuidar deles quando eu não cuidei. Ela secou as mãos, olhou para ele. Eu adoro esses meninos, Bruno. Eles são incríveis. Você os conhece melhor que eu. Você vai conhecer também. Só precisa estar presente. Bruno respirou fundo, se sentindo pequeno diante daquela verdade simples.
Posso te perguntar uma coisa? Claro. Por que você cuida tão bem deles? É só trabalho? Lara sorriu de leve. Eles viraram minha família. Quando perdi meus pais, achei que nunca mais ia ter isso. Até conhecer o Pedro e o Henrique. Bruno ficou em silêncio. Sentiu algo se mexendo dentro dele, algo que não sabia nomear.
Talvez fosse arrependimento, ou talvez fosse recomeço. O relógio marcava quase meia-noite quando Lara desligou a luz. Antes de sair, ela viu sobre a mesa um adesivo de estrela dourada, esquecido do trabalho da escola. Pegou o adesivo, ficou olhando por um instante e sorriu sozinha. Colou a estrela na palma da mão e sussurrou: “Prometi que ia brilhar por eles. Então vou.
” A casa estava em silêncio, mas pela primeira vez aquele silêncio não doía. Ele respirava como se a vida aos poucos estivesse voltando a morar ali. As manhãs voltaram a ter cheiro de café fresco e som de risada. Bruno cumpria a promessa de estar em casa. O trabalho agora começava depois do café com os filhos.
Lara percebia a mudança. Os gêmeos acordavam mais leves. O olhar deles tinha brilho de quem finalmente era visto. Mas nem todo o recomeço vem limpo. Às vezes o passado espera a hora certa para bater na porta. Foi numa terça-feira de céu limpo que Mônica Ferreira voltou a aparecer. A academia cheirava a perfume cítrico e ferro frio.
Bruno fazia esteira quando a voz dela cortou o som ambiente. Olha quem resolveu voltar paraa vida real. Bruno tirou os fones surpreso. Mônica estava ali. Corpo esculpido, sorriso polido, olhar que misturava charme e ameaça. Só vim treinar. Treinar ou fugir? Dos dois, talvez. Ela riu encostando na esteira ao lado. Fiquei sabendo que andou domesticado.
Dizem que até janta com os filhos. Bruno não respondeu. Mônica abaixou o tom, o olhar firme. Cuidado, Bruno. Gente que finge ser boa costuma esconder algo. A frase ficou ecoando depois que ele saiu da academia. Naquela noite, Bruno chegou em casa e encontrou Lara deitada no tapete, cercada de massinha colorida.
Henrique fazia uma estrela verde. Pedro tentava um foguete. O som do riso deles encheu a sala. O celular de Lara estava em cima da estante, esquecido. Nenhum cheiro de cigarro, nenhuma distração, só presença. Bruno ficou parado na porta observando. O coração, por algum motivo, aliviou. Aquela cena era a resposta viva a qualquer dúvida, mas dúvida quando é plantada, não precisa de verdade para crescer.
Dois dias depois, o telefone tocou no meio da noite. Lara estava terminando de dobrar roupas dos meninos. Bruno atendeu sem olhar o número. Bruno, sou eu, Mônica. Ele suspirou cansado. O que foi agora? Descobriu uma coisa sobre a babá. Chega disso, Mônica. Você não entende. É sobre seus filhos. A voz dela suava urgente.
Me encontra amanhã na academia. É sério? Não vou. Se você ama seus filhos, vai. Bruno desligou irritado, mas o coração ficou inquieto. E inquietação às vezes parece cuidado, mas é só veneno disfarçado. De manhã, Mônica o esperava, toda produzida. Sorriso ensaiado. Sabe o que vi ontem? A Larissa no shopping com os meninos e no celular o tempo todo.
Um deles quase caiu da escada rolante. Bruno franziu o senho. Tem certeza? Tenho. E mais, minha amiga mora perto da sua casa. Disse que vê ela fumando toda a noite na varanda. Você sabe o mal que isso faz. Bruno ficou em silêncio. As palavras dela soaram absurdas. Mas uma parte dele, a parte que falhou tantas vezes, sentiu medo de errar de novo.
Obrigado pela preocupação, Mônica. Só abre os olhos, tá? Às vezes a gente confia demais em quem devia desconfiar. Ela tocou o braço dele antes de sair. O toque gelou mais que o ar condicionado. À tarde, Bruno voltou mais cedo. Encontrou Lara e os gêmeos no chão da sala, brincando de superheróis com lençóis amarrados nas costas.
O riso era tão espontâneo que ele duvidou de si mesmo por ter duvidado dela. “Lara, posso te perguntar uma coisa?” “Claro. Você fuma?” Ela franziu o nariz. Credo, odeio cigarro. E costuma ficar no celular quando tá com eles? Nunca. Quando tô com eles, o mundo lá fora pode esperar. Bruno assentiu devagar. Naquele momento, soube. Mônica mentiu, mas ainda não sabia o quanto ela podia ir longe. Naquela noite, Mônicaligou de novo.
Bruno, preciso te contar mais uma coisa. Não, acabou, Mônica. Ela não é quem você pensa. Chega. Eu te amo, Bruno. Não vou deixar uma oportunista destruir você. Ele desligou, a respiração pesada. Lara, que vinha da cozinha, percebeu o semblante dele. Tudo bem? Tudo. Mas os olhos não sabiam mentir e Mônica sabia disso. Dias depois, a casa recebeu uma visita inesperada.
Helena, mãe de Bruno, chegou de Brasília, entrou com aquele perfume de flores caras e o olhar clínico que julgava antes de perguntar: “Filho, soube que você anda envolvido com a babá. Mãe, por favor, você é um homem público, Bruno, viúvo, rico, alvo fácil. Essa moça pode estar se aproveitando. A Lara cuida dos meus filhos como ninguém, como mãe ou como mulher? Bruno suspirou.
Não adiantava discutir. Helena acreditava mais em classe social do que em caráter. Naquela mesma semana, Mônica foi até ela. Um café, um elogio falso, um plano nascendo. Helena tirou do pulso uma pulseira de ouro. Mônica sorriu perfeita. Sexta à noite, jantar na casa Azevedo. O cheiro de carne no forno, a mesa posta, as crianças contando piadas.
Helena, sorridente demais. Mônica, convidada por acaso, ajudando a servir vinho. Lara sentiu o ar diferente, pesado, educado demais. Entre um prato e outro, Mônica soltou o veneno com voz doce. Lara, você cozinha muito bem. Onde aprendeu? Com minha mãe. Ah, ela deve morrer de saudade. Morreu quando eu tinha 15.
Ah, então não tem família nenhuma. O silêncio caiu. Lara respirou fundo. Tenho sim. Pedro, Henrique e o pai deles. Bruno sorriu para ela orgulhoso. Mas Mônica e Helena trocaram um olhar rápido, o tipo de olhar que combina a próxima jogada. Durante a sobremesa, Helena levou a mão ao pulso. Estranho, minha pulseira sumiu. Todos olharam em volta.
“A senhora usou hoje?”, perguntou Lara tensa. Usei sim, no almoço ainda estava. Vamos procurar. Bruno se levantou confuso. Não precisa, mãe. Precisa sim. Subiram todos. O quarto de Lara, simples, limpo, cheiro de sabonete e livros infantis. Helena levantou o colchão e lá estava a pulseira. O tempo travou. Lara ficou branca.
Eu não sei como isso veio parar aqui. Claro que sabe. A voz de Helena era uma sentença. Dona Helena, eu juro, eu nunca. Chega. Bruno ficou no meio dos dois mundos, o sangue e a verdade. Olhou para Lara. Nos olhos dela desespero. Nos dele dúvida. Só um segundo de hesitação, mas foi o suficiente para quebrar algo que talvez nunca voltasse igual.
Lara respirou. fundo, segurou as lágrimas. Ou você confia em mim, Bruno, ou não confia. Eu confio, Lara. Então, olha para mim e diz isso. Ele tentou, mas a voz falhou. E no falhar da voz, ela entendeu tudo. Lara virou as costas devagar, desceu as escadas, pegou a bolsa. Os meninos apareceram na porta do quarto, confusos.
Tia Lari, você vai aonde? Ela se abaixou, beijou a testa dos dois. Já volto, meus amores. Mas o olhar dizia que não. Bruno desceu atrás dela, tentando falar. Lara, espera. Não, Bruno. Prometi que nunca ia deixar eles verem mentira, então não posso ficar. Ela abriu a porta. O vento da noite entrou, levando o cheiro do jantar. Antes de sair, largou sobre a mesa o pano de prato que segurava.
A pulseira de ouro que Helena tinha deixado cair propositalmente estava em cima, fria, solitária. Bruno ficou parado, olhando o objeto enquanto a porta se fechava atrás dela. A casa, que há poucos dias respirava vida, voltou a ficar muda. E dessa vez o silêncio não era paz, era culpa. Os dias seguintes pareceram um castigo lento.
A casa de Bruno Azevedo, que até semana passada tinha risadas, agora tinha ecos. Os brinquedos dos gêmeos ficaram espalhados no chão, como se esperassem que ela voltasse para guardá-los. O cheiro de sabão de coco que sempre anunciava o começo do dia sumiu. Pedro sentava na janela depois da escola, olhando o portão. Henrique, mais calado, escrevia num caderno o que não conseguia dizer.
Bruno passava por eles em silêncio, com o nó na garganta que só apertava. Ele ainda via Lara em cada canto, no pano de prato dobrado sobre a pia, no copo de suco que ela sempre deixava do lado direito do prato das crianças, no reflexo da TV apagada, onde o rosto dela parecia sempre prestes a aparecer. Mas Lara, Lara estava longe.
Na creche Jardim do Sol, o cheiro era outro, não de perfume caro, mas de tinta guache, arroz queimando e risada de criança. Lara trabalhava dobrando papéis coloridos com pequenos que chamavam todo o adulto de tia. Os dias passavam devagar, mas o corpo dela não reclamava, só o coração.
Às vezes, à tarde, ela parava por um instante e pensava: “Será que eles estão bem?” Mas logo espantava o pensamento. Prometeu para si mesma não olhar para trás. Até que uma manhã, a coordenadora avisou: “Tem um homem lá fora pedindo para falar com você”. Ela achou que fosse algum pai, mas quando abriu o portão, o ar parou.
Bruno estava lá. Camiseta simples, olheiras fundas,um buquê mal amarrado nas mãos. O que você tá fazendo aqui? Vim te buscar. Não tem nada para buscar. O silêncio ficou pesado. As crianças gritaram no pátio, brincando de roda, mas o mundo deles era outro. A casa tá um caos sem você. Os meninos nem comem direito.
Eles têm você. Eles precisam de você. Ela respirou fundo. Eles precisam de paz, Bruno. E comigo lá a paz não existe. Bruno abaixou o olhar sem argumento. Lara voltou para dentro da creche, mas o som da voz dele ficou ali preso na garganta dela o dia inteiro. Naquela noite, Bruno tentou fazer jantar sozinho.
Queimou o arroz. Os gêmeos olharam o prato, depois olharam para ele. Pedro perguntou: “Pai, a tia Lari vai voltar?” Bruno tentou sorrir. Talvez. Henrique retrucou direto. “Talvez não é sim. Os dois se calaram. Bruno também. E foi naquele silêncio que ele entendeu o tamanho do estrago. No dia seguinte, ele começou a passar na frente da creche, de longe, só para ver se ela estava lá.
Às vezes via de relance, ela agachada, ajudando uma criança a amarrar o tênis. Outras vezes nem via, mas parava mesmo assim. Semanas se passaram. Aos poucos, o rosto de Bruno apareceu de novo no portão. Ele não falava nada. Deixava brinquedos, cestas de comida, às vezes um bilhete pra turma da tia Lara. Ela fingia não ver, mas o coração via tudo.
Um dia, o filho de uma das funcionárias mostrou um desenho. Quatro bonequinhos de mãos dadas, a palavra mãe escrita torta no meio. Lara engoliu seco. Não era dela, mas parecia. No final do expediente, ficou sozinha na sala, pegou uma das cartinhas que as crianças tinham feito para ela e escreveu atrás. Não é que eu não queira voltar, é que eu não sei se aguento mais uma vez, mas não entregou.
Guardou no bolso do avental. Na mansão, Helena também sentia o peso da ausência. Os gêmeos evitavam o olhar dela. Pedro perguntou um dia sem rodeio: “Vovó, foi você que fez a tia Lari ir embora?” Helena engoliu o ar. Não, filho, eu só se foi, a senhora estragou tudo. A frase dita por uma criança atravessou o peito dela mais do que qualquer crítica.
Naquela noite, Helena abriu a gaveta e pegou o que restava da pulseira, que causou o desastre. Segurou entre os dedos e chorou. Não era choro de remorço leve. Era o de quem entende tarde demais, que o amor não cabe dentro do controle. Dias depois, Helena ligou pro filho. Bruno, a gente precisa conversar. Ele foi até o hotel onde ela estava.
O olhar cansado de ambos dizia o resto. Helena falou baixo. Aquela pulseira eu plantei. Bruno ficou mudo e também liguei pra escola inventando que ela tinha bebido. Mônica me convenceu. Disse que era pro seu bem. Bruno passou a mão no rosto tentando respirar. Mãe, o que a senhora fez destruiu tudo. Helena chorou. Eu sei e quero consertar.
Bruno levantou. Então vai lá e pede perdão para ela, mas dessa vez sozinha. A creche cheirava a chuva e sabão em pó. Quando Helena apareceu. Lara estava limpando uma mesa. Quando viu a mulher parada na porta, ficou imóvel. O que a senhora quer? Helena tirou um envelope da bolsa. As mãos tremiam. Isso.
Dentro dezenas de folhas coloridas rabiscadas em letras infantis. Cartas. Lara abriu uma. Tia Lari, volta para casa. O papai chora. A vovó pediu desculpa. A gente te ama. Assinado. Pedro e Henrique. Lara leu outra com a letra torta do Henrique. Sem você a gente não ri. Volta, mãe. As lágrimas vieram sem pedir licença.
Helena, chorando também, sussurrou: “Eu sei que não mereço, mas vim pedir perdão. Eu perdi o meu filho pro trabalho e quase perdi os netos pro orgulho. Não quero perder a chance de fazer certo.” Lara respirou fundo. O que passou, passou, mas feriu. Eu sei e não tem desculpa, mas posso costurar o que eu rasguei.
Helena abriu a bolsa de novo e tirou um pequeno macacão de bebê costurado à mão. Fiz para doar, mas acho que é para você. Me disseram que seu sonho era abrir uma creche. Lara segurou o tecido emocionada. Era simples, mas carregava arrependimento e afeto na mesma medida. Volta para casa, Lara. A família tá quebrada sem você. Ela não respondeu, mas quando Helena foi embora, ficou parada na porta.
O macacão nas mãos, o som distante das crianças correndo ao fundo. E naquele instante o orgulho cedeu lugar a uma saudade que não cabia mais dentro dela. No dia seguinte, o telefone tocou na casa de Bruno. Alô, sou eu, Lara. Quero conversar. Bruno quase deixou o telefone cair. Onde? Aqui na creche, ele chegou ofegante, como quem tinha medo que o tempo mudasse de ideia.
Lara o esperava na varanda com o macacão nas mãos. Decidi te dar uma chance. Ele sorriu, o alívio quase transformando a voz em choro, com condições. Quais? Primeira, sua mãe me respeita. Segunda, se duvidar de mim de novo, acabou. Terceira, quero saber o que vai fazer com a Mônica. Bruno assentiu firme. Vou resolver isso legalmente. Então, talvez eu volte.
Ele a abraçou forte, como quem segura algo que custou caro para recuperar. MasLara, mesmo nos braços dele, olhou pro céu cinza que começava a clarear. Sabia que recomeços não são contos de fada, são reconstruções, tijolo por tijolo, confiança por confiança. O vento soprou leve, levantando uma folha caída perto dos pés deles.
No verso, uma das cartas das crianças voou, parou no chão aberto, com a palavra escrita grande e torta. Família. Lara sorriu. Era isso. Talvez o caminho de volta não fosse um retorno, fosse o verdadeiro começo. A vida parecia ter voltado ao eixo, pelo menos na superfície. Lara estava de volta à casa Azevedo. Os gêmeos corriam pelo jardim e Bruno tentava reconstruir o que a dúvida destruiu.
Mas mesmo quando a luz retorna, as sombras que se recusam a partir. Foi numa noite de terça, de céu pesado, que o pressentimento chegou. Primeiro o cachorro latiu, depois o portão bateu sozinho. E por fim, um dos seguranças chamou Bruno na varanda. Tem uma mulher parada lá fora. Disse que te conhece. Bruno saiu com o coração disparado.
Lá estava Mônica, de vestido preto, parada sob a luz fraca do poste. O rosto calmo demais, o olhar cortante. Não era para você estar a 100 m daqui. Eu só vim olhar. Olhar o quê? O que era para ser meu? Bruno respirou fundo. Vai embora, Mônica. Isso acabou. Acabou para você. Eu ainda tô aqui. Ela deu um passo à frente e o segurança interveio.
Bruno chamou a polícia. Quando a viatura chegou, Mônica sorriu, um sorriso torto, quase infantil. Você acha que uma lei me assusta? Foi levada, mas o olhar dela ficou. Lara assistiu da janela tremendo. Bruno subiu e a encontrou sentada na beira da cama, as mãos frias. Vai dar tudo certo. Ela respondeu num fio de voz: “Promete?” Prometo, mas promessas não afastam o medo, nem o som do vento arranhando a janela durante a madrugada.
Dois dias depois, às 6 da manhã, Lara desceu para fazer café. A cozinha estava como sempre, até reparar na janela de serviço aberta. Sobre a mesa, uma faca de cozinha e um bilhete preso por baixo dela. Eu chego quando quiser. Da próxima não serei gentil. M O chão pareceu sumir sob os pés de Lara.
Ela subiu correndo, mostrou o bilhete para Bruno. Ele ligou pro delegado imediatamente. A perícia veio, tirou fotos, recolheu a faca. O delegado explicou. Ela tá fugida. Vai ser difícil achar rápido, mas vamos pedir medida protetiva imediata. Lara segurava o bilhete com luvas, mas sentia como se o papel queimasse. Ela vai voltar, Bruno? Não vai.
A gente vai proteger você. Não é só eu, é a casa toda. Bruno contratou segurança 24 horas. Mesmo assim, Lara dormia mal. Qualquer estalo, qualquer sombra no corredor fazia o coração disparar. Certa tarde, depois de buscar os meninos na escola, ela ouviu passos atrás de si. Virou nada, mas no chão, perto do carro, um pequeno broche dourado em forma de flor, o mesmo que Mônica usava na academia.
Lara guardou o objeto num saco plástico e levou direto pro delegado. Era a prova de que ela ainda rondava. Naquela noite, Bruno tentou distraí-la. Jantaram todos juntos. Pedro fez piada com o arroz salgado. Henrique inventou um rap sobre o feijão. Lara riu, mas o riso saiu trêmulo. Bruno segurou a mão dela por baixo da mesa, firme. Duas mãos, uma reza muda.
Ela não vai vencer o que a gente construiu? Ele disse. Lara só respondeu. Então constrói rápido, porque ela tá por perto. Na semana seguinte, Bruno recebeu uma ligação anônima. voz feminina. Quer saber onde Mônica está? Ele hesitou. Quem é? Uma vizinha dela, rua Jacarandá, número 8, hoje às 8. Bruno chamou o delegado. Armaram a operação, mas quando chegaram, o apartamento estava vazio na parede, escrita com batom.
Você nunca vai me apagar. O delegado olhou para Bruno. Ela quer jogo psicológico, mas a gente vai achar. E acharam. Dois dias depois, uma denúncia levou a polícia a uma pensão na Lapa. Mônica foi presa tentando sair pela janela com a mala aberta. Dentro dela, uma arma pequena, fotos da família Azevedo e uma carta de despedida.
Bruno recebeu a notícia enquanto estava com Lara na varanda. Ele desligou o celular devagar. pegaram ela. Lara não reagiu de imediato. Depois o corpo todo relaxou como se o ar voltasse aos pulmões. Ela encostou a cabeça no ombro dele e chorou. Mas o choro não era só de alívio. Era também pelo susto acumulado, pelas noites sem sono, pelas vezes que teve que ser forte quando queria só cair. Dois meses depois, o julgamento.
O tribunal cheio, câmeras na porta. Mônica sentada no banco dos réus, o mesmo sorriso frio. Quando Lara entrou com Bruno, ela sussurrou algo, mas ninguém ouviu. Talvez um te vejo em breve ou um Nunca acabou. O juiz leu a sentença pelos crimes de perseguição, ameaça e violação de medida protetiva, condenada a 4 anos de reclusão, com acompanhamento psiquiátrico obrigatório. Silêncio.
Mônica baixou a cabeça pela primeira vez. Lara sentiu uma compaixão estranha, não por quem ela foi, mas por quem nunca soube ser. Piedade e firmeza podemcoexistir, pensou. Mas perdão, esse viria com o tempo. Quando saíram do tribunal, o sol estava forte. Os repórteres gritavam perguntas. Bruno protegeu Lara com o braço, abrindo o caminho até o carro.
Ela respirou fundo, como se inalasse o primeiro ar limpo em meses. Meses se passaram. A rotina voltou a ter cheiro de bolo e som de vida. Bruno, Lara, Pedro e Henrique aprenderam a ser uma família de verdade, com bagunça, risadas e pequenos pedidos de desculpa espalhados no dia a dia. Num domingo, enquanto os meninos faziam guerra de travesseiro, Bruno ajoelhou no jardim, tirou do bolso uma caixinha simples de madeira. Lara olhou surpresa.
O que é isso? Nada de grandioso, só o que sobrou de mim quando você me ensinou a ser homem. Ele abriu a caixinha, um anel simples, dourado. Quer casar comigo? Lara respirou fundo. O mundo ficou pequeno, do tamanho daquele momento. Quero com condições. Quais? Respeito, verdade? E café às 6 da manhã com os meninos.
Bruno Riu, o riso de quem sobreviveu, fechado. O casamento foi pequeno, jardim botânico, flores brancas, sol leve. Pedro e Henrique entraram de terno, segurando as alianças. O padre perguntou: “Quem entrega essa mulher ao noivo?” E os dois responderam juntos com as vozes cheias de orgulho. Nós. Lara chorou sem vergonha. Bruno também.
Helena a assistia da primeira fila. Emocionada, quando os noivos se beijaram, o vento soprou forte, levantando pétalas e risadas. Dois anos depois, uma nova cena. Quarto rosa, parede com desenhos infantis. O nome Sofia, pendurado em feltro. Lara, grávida, deitada ao lado dos meninos. Bruno entrou com uma bandeja de café.
Tá tudo bem aí dentro? Ela riu. Tá. Ela chuta cada vez que te ouve. Helena entrou trazendo um pequeno macacão costurado à mão, o mesmo modelo que dera antes. Colocou nas mãos de Lara e sorriu para minha neta. Lara segurou o tecido emocionada. Bruno se aproximou, encostou a testa na dela. Os meninos riram ao fundo, brincando de construir castelos de almofadas.
A janela aberta deixava entrar o vento da manhã. As cortinas dançavam devagar e, por um instante, tudo parecia respirar junto, o amor, o perdão, a casa. Lara olhou pro jardim e pensou: “Agora sim, a vida voltou a pulsar, e o som que preencheu o silêncio foi o mais bonito de todos. O riso sincero de uma família que aprendeu entre dor e coragem, que o amor só é inteiro quando sobrevive ao medo.















