A casa estava acordada, não porque alguém falasse, mas porque havia olhos em todos os cantos. Seis pequenas luzes azuis piscavam no celular de Caio Siqueira, refletidas no vidro da janela do escritório. Do lado de fora, São Paulo respirava em ruídos abafados. Um ônibus passando longe, um cachorro latindo no quarteirão de trás, a chuva fina, riscando o asfalto como unhas impacientes.
Dentro da casa, silêncio. Caio estava sentado na cadeira de couro, a perna esticada, a bengala encostada na mesa. O cheiro de café frio misturava-se ao de papel e poeira. Ele não piscava. Os olhos percorriam as imagens divididas na tela, sala, corredor, quarto da filha, garagem e a cozinha.
Na cozinha, Lúcia estava no chão, de joelhos, usando luvas amarelas, cercada por panelas viradas ao contrário. Ela batia uma tampa na outra, criando um ritmo torto, quase musical. Não havia pressa, não havia tensão, apenas aquele som metálico simples e o riso, o riso de Bia, alto, espontâneo, vivo.
Caio sentiu o peito se contrair como se alguém tivesse apertado um botão antigo, enferrujado. Aquele som, aquele tipo de gargalhada, ele não ouvia desde o dia em que Ana morreu na sala de parto. O dedo dele escorregou na tela. A imagem apagou escuro. Por um segundo, Caio ficou ali olhando para o próprio reflexo no celular desligado.
Um homem de 30 e poucos anos com olhos cansados demais para a idade, a gravata afrouxada, a barba por fazer, um empresário que comandava centenas de funcionários e mal conseguia sustentar o próprio peso emocional. Ele se levantou devagar. A bengala tocou o chão de madeira com um som seco. Cada degrau da escada rangia sob o peso de alguém que não tinha certeza se queria chegar lá embaixo.
Na cozinha, o cheiro de alho refogado começava a tomar o ar. Lúcia se levantou rápido ao vê-lo, limpando as mãos nas luvas amarelas. Os olhos dela se arregalaram como quem foi pego fazendo algo errado. Seu Caio, eu eu já estava indo preparar o almoço. Bia parou de rir. Sentada no cadeirão, a menina olhou para o pai com aquela expressão séria demais para alguém tão pequena, os olhos grandes, atentos, como se estivesse sempre esperando algo.
provação, reprovação ou simplesmente presença. Caio ergueu a mão, pedindo silêncio, não por autoridade, por necessidade. Ele puxou uma cadeira e se sentou. Ficou alguns segundos em silêncio, apenas observando. A tampa de panela no chão, as luvas amarelas, o fio de saliva no canto da boca da filha.
Há quanto tempo? A voz dele saiu rouca. Ah, você faz ela rir assim. Lúcia franziu a testa, confusa. Como assim, senhor? Isso. Ele apontou com o queixo para Bia, que agora batia a mãozinha no plástico do cadeirão. Brincar no chão, fazer barulho, virar tudo em jogo. Lúcia abaixou os olhos por um instante desde o primeiro dia. Disse baixo.
Ela chorava muito. Caio sentiu algo estranho. Não era raiva, não era alívio, era vergonha. Durante meses, ele tinha observado cada movimento daquela mulher pelas câmeras, procurado sinais de impaciência, de descuido, de erro. Ele chamava isso de proteção. Mas ali, sentado à mesa, percebeu que talvez fosse apenas medo disfarçado de controle.
Você não fez nada errado”, ele disse, passando a mão pelo rosto. O silêncio se espalhou pela cozinha como um pano pesado, até que Bia deixou escapar um resmungo impaciente. Lúcia não pensou, apenas agiu, abaixou-se, pegou a menina no colo e começou a fazer cóceegas na barriguinha dela. O riso voltou, mais forte, mais solto.
Bia agarrou o rosto de Lúcia com as mãozinhas pequenas, como se aquele fosse o lugar mais seguro do mundo. Caio observou tudo em silêncio. A forma como Lúcia segurava a filha dele, não como quem cumpre uma tarefa, mas como quem pertence à aquele gesto, a naturalidade, o cuidado, o carinho que não parecia ensaiado. “Você tem filhos?”, Ele perguntou de repente.
Lúcia congelou por meio segundo. Tive. A palavra caiu pesada no ar. Tive. Caio percebeu o tempo verbal. Não perguntou mais nada. Apenas a sentiu como quem entende sem precisar ouvir. Lúcia colocou Bia de volta no cadeirão e voltou ao fogão. Começou a cortar legumes com movimentos rápidos e precisos. De vez em quando olhava para a menina e sorria.
Um sorriso contido, triste, familiar demais. Caio conhecia aquele sorriso. Via o mesmo reflexo no espelho todas as manhãs. “Obrigado”, ele disse. Lúcia piscou surpresa, balançou a cabeça e continuou trabalhando. Caio saiu da cozinha e foi para o escritório. Sentou-se diante da mesa cheia de contratos que não lia há semanas.
A empresa funcionava sozinha. Os sócios resolviam tudo. Ele apenas existia. Acordava, tomava banho, comia porque precisava, dormia quando o corpo desistia. Mas agora havia algo diferente. Curiosidade, quem era Lúcia de verdade? Porque alguém com aquele jeito com crianças estava ali limpando uma casa grande demais e silenciosa demais.
E o que ela tinha perdido parausar o passado ao falar de filhos? Caio pegou o celular novamente, abriu o aplicativo das câmeras. Dessa vez não para vigiar, para entender. Reviu gravações antigas. Lúcia chegando cedo, sempre com a mesma bolsa simples, cantando baixinho enquanto limpava, conversando com Bia como se ela entendesse cada palavra, preparando comidas diferentes, tentando, observando.
E todas as noites, antes de ir embora, o mesmo gesto, um beijo na testa da menina, um sussurro. Caio aumentou o volume, colocou o fone. Dorme em paz, meu amor. A tia volta amanhã. As lágrimas desceram sem aviso. Ele desligou o celular e ficou ali respirando fundo, como se tivesse acabado de descobrir algo que mudava tudo. Uma hora depois, voltou à cozinha.
Lúcia estava alimentando Bia. A menina abria a boca sem resistência, seguindo a colher com os olhos. Ela nunca come assim comigo”, Caio disse encostado na parede. Lúcia limpou o babador com cuidado. Criança sente quando o adulto está nervoso. Eu não fico nervoso. Ele respondeu automático. Ela o olhou com calma, sem acusação.
“Fica assim”, disse. “O senhor tem medo?” A palavra acertou em cheio. “Medo de quê?” de errar, respondeu ela. Medo de não saber cuidar, medo de não ser suficiente sem ela. Ana Caio ficou em silêncio. Lúcia pegou Bia no colo e saiu em direção ao quarto para a soneca da tarde. Caio ficou sozinho na cozinha. No chão, uma tampa de panela.
Ele se abaixou com dificuldade, pegou a tampa, bateu uma na outra. O som ecoou pela casa vazia, ridículo, estranho. Ele bateu de novo e, pela primeira vez em meses, sorriu. No corredor, a porta do quarto de Bia estava entreaberta. Um feixe de luz escapava por ali. Caio ficou olhando, como se aquela fresta fosse um aviso ou um convite.
Nos dias que vieram depois, a casa mudou de som. Ainda havia silêncio, aquele silêncio grande, de teto alto e corredores longos. Mas agora ele era atravessado por pequenos ruídos. Água batendo na banheira, uma música inventada na hora, o ploque macio de um brinquedo caindo no tapete, coisas mínimas, coisas vivas. Caio começou a observar sem perceber quando tinha começado.
Não era mais vigiar, não era caçar erro. Era ficar parado no batente da porta com a bengala apoiada no quadril e assistir. Lúcia transformava tudo em jogo. A fralda virava canção, o banho virava teatro. A escova de dentes virava missão secreta contra monstros invisíveis. Bia ria com o corpo inteiro, os pés batendo no ar, o tronco arqueando para trás, como se a felicidade fosse grande demais para caber.
Caio tentava copiar. No começo era duro. A voz saía engessada. O sorriso parecia emprestado. Bia o observava com desconfiança, como quem testa o chão antes de dar um passo. Ele errava o ritmo, derrubava água, cantava fora do tom. Lúcia não corrigia, só ficava perto, atenta, pronta para segurar o que caísse.
Encosta a cabeça dela aqui dizia baixo, quase um segredo. Isso, devagar. E Caio fazia. Aos poucos, algo nele começou a ceder, como um músculo esquecido que reaprende a função. Ele passou a antecipar o choro, a reconhecer o cansaço nos olhos da filha, a sentir quando a fome vinha antes do relógio. Descobriu que o tom da própria voz mudava o clima da casa.
Quando falava tenso, Bia endurecia. Quando respirava fundo, ela soltava o corpo. Não era mágica, era atenção. À noite, quando a casa dormia, Caio abria o aplicativo das câmeras, mas agora assistia como quem revisa um filme para aprender enquadramento. Revia Lúcia cantando enquanto varria, conversando com Bia como se fosse uma adulta, explicando o mundo em frases simples.
Revia a paciência, o tempo dado às coisas. E sempre no fim do dia, o mesmo gesto, o beijo na testa, o sussurro. Ele ainda não entendia tudo, mas começava a entender o essencial. Numa manhã de quinta-feira, Caio decidiu ficar mais tempo na cozinha. Sentou-se à mesa com um café que esfriou esquecido. Lúcia dava papinha à Bia, que comia sem drama, a colher entrando e saindo como um ritual. antigo.
Ela nunca comeu assim comigo”, Caio comentou sem acusação, só constatação. Lúcia limpou a boca da menina com o canto do babador. Criança sente quando a gente tá com pressa ou com medo. Medo? Caio repetiu. Ela o olhou. Não como quem julga, como quem reconhece. Medo de errar, disse, medo de fazer errado e perder tudo.
Caio sentiu a palavra perder vibrar no peito. Era isso. Desde que Ana morrera, tudo nele era prevenção. Cada gesto, um cálculo, cada carinho, uma contenção. A Mar tinha virado um risco alto demais. “Como você sabe disso?”, ele perguntou. Lúcia deu outra colherada em Bia antes de responder: “Porque eu já tive medo assim.” Ela não explicou, não precisou.
Naquela semana, Caio passou a chegar mais cedo do escritório improvisado. Sentava no chão da sala, mesmo com a perna reclamando para brincar. Bia ainda ria mais com Lúcia, mas agora ria com ele também. menor, mais tímido, mas ria. Na sexta, Caio chamou Lúcia paraconversar na sala. Ela entrou secando as mãos no avental, o corpo ligeiramente tenso.
Aconteceu alguma coisa, senhor? Senta ele disse, apontando o sofá. Ela sentou na ponta, as costas retas. Eu quero aumentar seu salário. Caio falou direto. Dobrar e queria que você dormisse aqui. Tem um quarto nos fundos completo. Lúcia arregalou os olhos e balançou a cabeça na mesma hora. Eu agradeço, mas não posso. Por quê? Ela baixou o olhar para as próprias mãos.
Eu preciso voltar para casa todo dia. Por quê? O silêncio caiu entre eles como um objeto pesado. “Porque eu passo no cemitério”, disse por fim. Todo dia. Caio sentiu a garganta fechar. Desculpa, eu não sabia. Ninguém sabe”, ela respondeu. “Eu não falo sobre isso.” Ela se levantou, pronta para sair, mas Caio segurou o braço dela. “Não com força, com cuidado.
Eu perdi minha esposa no dia em que minha filha nasceu.” Ele disse: “Eu sei o que é acordar, querendo que tudo seja só um pesadelo.” Lúcia o encarou, os olhos marejaram. “Então o senhor sabe?” Ela falou baixo, que não adianta fugir, a dor vai junto. E saiu. Naquela noite, Caio não dormiu.
Ficou olhando o teto, ouvindo a casa respirar. Pensou em Lúcia, pensou na dor dela, pensou em como alguém conseguia sorrir para uma criança carregando um peso daquele tamanho. Pegou o celular, abriu as gravações antigas, assistiu horas, viu Lúcia chegando cedo, sempre igual, sempre cansada. Viu uma vez em que ela entrou no banheiro e chorou em silêncio, secando o rosto rápido antes de voltar para a sala.
aumentou o volume, colocou o fone. Dorme em paz, meu amor. A tia volta amanhã. Caio chorou sem som, como quem pede desculpa por ter olhado sem entender. No dia seguinte, nada foi dito, mas tudo era diferente. Quando Caio pegava Bia no colo, Lúcia ficava perto, não se afastava mais, dava dicas baixas, apoia a cabeça, olha no olho dela, não precisa cantar bonito, só precisa ser você. E funcionava.
Bia começou a estender os bracinhos quando via o pai. Começou a dormir no colo dele e toda vez que isso acontecia, Lúcia sorria. Um sorriso inteiro, orgulhoso, como se fosse também um pouco dela. Uma tarde depois da soneca, Caio ficou sozinho na cozinha. No chão, perto do fogão, estavam as panelas usadas na brincadeira.
Ele se abaixou com cuidado, pegou uma tampa e bateu leve na outra. O som ecoou. Dessa vez não pareceu ridículo. No corredor, a porta do quarto de Bia estava fechada. Do outro lado, um suspiro calmo. Caio encostou a testa na madeira por um segundo, respirou fundo e entendeu, não com palavras, mas com o corpo, que ser pai não vinha com manual, mas deixava pistas.
O fim de semana chegava e a casa voltava a pesar. Na sexta-feira, quando Lúcia fechou a bolsa e disse até segunda, Caio sentiu a frase como se alguém tivesse apagado a luz por dentro. Não era só a falta de ajuda, era o jeito como o ar mudava quando ela saía, como se o silêncio ganhasse volume. No sábado cedo, Caio tentou fazer tudo do jeito certo.
Acordou com Bia chamando no berço, a voz ainda pequena, mas insistente. pegou a menina no colo com cuidado, preparou uma madeira, esquentou água para o banho, tentou cantar qualquer coisa, como Lúcia sugeria, mas a voz dele saía estranha, seca, sem melodia. Bia o encarou séria, depois começou a chorar. Não choro de dor, um choro de falta.
Caio balançou a filha no corredor, andando devagar com a bengala batendo no chão, tentando achar o ritmo. O som da casa era o som do esforço, o rangido do açoalho, a respiração dele, o soluço dela. No fim do dia, ele queimou o arroz, esqueceu a fralda por tempo demais, se atrapalhou com a pomada e a roupinha. E quando a noite caiu, Caio ficou sentado no tapete da sala com Bia no colo, exausto, como se tivesse corrido uma maratona sem sair do lugar.
Ele olhou para a tela preta da TV e pensou, sem coragem de dizer em voz alta: “Eu não dou conta sozinho.” Na segunda-feira, às 7 em ponto, o interfone tocou. “Dona Lúcia chegou, senhor”, disse Joca, o porteiro, com a voz sempre cordial. Caio abriu a porta antes mesmo de responder. Lúcia entrou com a bolsa simples no ombro e aquele cheiro de sabonete de erva doce que parecia limpar o ar por onde ela passava.
“Bom dia”, ela disse neutra. Bom dia, Caio respondeu e odiou o alívio que sentiu. Bia, no cadeirão, estendeu os braços na direção de Lúcia, como se o corpo tivesse reconhecido o lugar seguro antes da mente. Lúcia sorriu rápido e foi direto lavar as mãos. Não correu, não fez festa, mas o jeito como ela olhou para Bia já acalmou a menina.
Caio ficou observando, parado, como sempre. Só que agora havia outra coisa nos olhos dele. Fome, não de comida, de presença. A rotina voltou a funcionar como se alguém tivesse encaixado a última peça. Lúcia deu banho cantando baixinho, arrumou a casa sem barulho, preparou o almoço com movimentos certeiros.
Caio tentou trabalhar no escritório, mas se pegava escutando. O som da casa com ela eradiferente. Era uma casa que respirava. Na quarta-feira, ele percebeu que estava reparando em detalhes que antes passariam invisíveis. O jeito como Lúcia prendia o cabelo com um elástico gasto. A covinha que aparecia quando ela sorria de verdade, o modo como ela dizia o nome de Bia, como se fosse uma oração curta.
Ele tentou se convencer de que era gratidão, mas gratidão não apertava o peito daquele jeito. Na quinta, Caio fez algo que havia planejado e desplanejado 10 vezes dentro da cabeça. Pediu para Lúcia ficar para jantar. Só hoje, ele disse encostado no batente da varanda. Para conversar, eu queria te conhecer melhor. Lúcia hesitou.
O olhar correu para o corredor na direção do quarto de Bia. “A Bia dorme cedo. Eu coloco ela para dormir”, Caio disse antes que ela encontrasse uma desculpa. Ele pediu comida italiana, não fez nada extravagante, apenas arrumou a mesa na varanda com uma toalha simples. A cidade brilhava ao longe, um mar de luzes tremendo no horizonte.
Depois que Bia adormeceu, Caio voltou com passos cuidadosos. Lúcia estava sentada, as mãos no colo, como se o corpo não soubesse onde colocar o próprio peso. “Você não precisa ficar nervosa”, ele falou. Eu não tô nervosa ela respondeu rápida demais. Caio serviu a comida. Lúcia comeu devagar, quase sem levantar os olhos.
O silêncio entre os dois tinha som. O garfo raspando no prato, o vento batendo nos vasos da varanda, o trânsito distante. Caio respirou fundo. Qual era o nome dele? Lúcia parou com o garfo no ar. Não perguntou de quem? Não precisava. Rafael, ela disse. A voz falhou no fá. Nome de anjo. Eu achava que ia proteger. Caio sentiu o estômago revirar. Quantos anos? 2 e silêncio.
Lúcia mordeu o lábio, segurando alguma coisa dentro do peito, como quem segura a água com as mãos. Foi leucemia, ela falou. E a palavra saiu seca, sem poesia. O meses de luta, eu vendi tudo, tudo. E não adiantou. Caio apertou o guardanapo que estava ao lado do prato, um guardanapo branco dobrado, que agora amassava e desamassava entre os dedos dele sem que ele percebesse.
“E o pai?” Ele perguntou já sabendo a resposta. Lúcia deu um sorriso sem humor. Sumiu quando soube. Nunca mais vi. Caio engoliu em seco. O guardanapo ficou menor na mão dele. Eu sinto muito. Eu também. Lúcia sussurrou como se dissesse aquilo para si mesma há um ano inteiro. Caio esticou a mão por cima da mesa, tocou os dedos dela.
Lúcia não puxou, ficou imóvel, olhando para as mãos encostadas, como se aquilo fosse um erro e um conforto ao mesmo tempo. “Você não tem que viver sozinha nessa dor”, Caio disse. Lúcia puxou a mão de volta, abrupta. Eu preciso ir. Fica! Ele pediu baixo. Ela balançou a cabeça. Se eu ficar, eu vou fazer algo que a gente vai se arrepender. E levantou.
Caio ficou sentado ouvindo os passos dela dentro da casa. A porta da frente fechou com um som pequeno, mas definitivo. Quando a casa voltou a ficar em silêncio, parecia que ela tinha levado junto o ar. No dia seguinte, Lúcia chegou mais cedo e entrou como se nada tivesse acontecido. Não olhou nos olhos dele, falou o mínimo.
Trabalhou impecável, foi embora no horário, no outro dia igual e no outro. Era como se Lúcia tivesse voltado a ser empregada por sobrevivência, como se ela precisasse vestir aquela distância para não cair. Caio sentiu falta dela de um jeito físico, como falta de água, como febre. Na segunda semana desse gelo, ele não aguentou. Ligou para Renata, a irmã.
“Fica com a Bia hoje”, ele pediu. Só por umas horas. Renata percebeu a urgência na voz dele, não perguntou muito. Vai, Caio, mas não faz besteira. Ele pegou o endereço da ficha de contratação. O papel estava numa pasta no escritório amarelado de tanto tempo parado. O bairro era distante, um prédio velho, três lances de escada, cada degrau doeu, não só na perna.
Quando chegou no andar certo, o corredor cheirava a comida requentada e detergente barato. As paredes tinham manchas de umidade. O número na porta era um retângulo metálico gasto 43. Caio levantou a mão e bateu. Uma, duas, três. Do lado de dentro passos. A trava girou. A porta abriu só um palmo. Lúcia apareceu com os olhos arregalados. Seu Caio, o que você tá fazendo aqui? Caio sentiu a garganta secar.
O corredor parecia estreito demais para aquilo. Eu precisava te ver. Lúcia olhou para os lados, nervosa, como se temesse que alguém aparecesse e entendesse. Como você conseguiu meu endereço? Ficha de funcionária. Ela fechou os olhos por um segundo, depois abriu a porta. O apartamento era pequeno, limpo, organizado com uma precisão que parecia segurar o mundo no lugar.
Uma sala que também era quarto, uma cozinha americana, um ventilador girando devagar, fazendo um som constante e na parede um porta-retratos. Um menino sorrindo, loiro claro, olhos vivos. Rafael Caio parou diante da foto como se tivesse levado um golpe silencioso. O sorriso do menino era tão aberto que doía. Lúcia cruzou os braços seprotegendo. Era ele.
Caio olhou para ela. Viu ali pela primeira vez não a mulher que limpava sua casa, mas a mãe que tinha sobrevivido a pior coisa possível. Ele respirou fundo. A voz saiu baixa, sem pose. Eu vim porque eu não consigo mais fingir. Lúcia balançou a cabeça já com lágrimas nos olhos. Não faz isso, por favor. Eu fiz coisa errada, Lúcia.
Ele disse, e a palavra errada parecia pequena diante do que ele queria dizer. Eu te reduzi. Eu te coloquei num lugar que não era você. Ela engoliu seco, sem responder. Caio deu um passo, depois outro. Ficou perto o suficiente para que o arre dois mudasse. Eu te vigiei ele confessou. E a vergonha finalmente teve som. Eu coloquei câmera como se isso fosse proteção, como se controle fosse amor.
Eu me odeio por isso. Lúcia apertou os braços contra o corpo. Eu só fiz meu trabalho. Não. Caio interrompeu firme, mas sem agressividade. Você fez mais do que isso. Você fez minha filha rir e me ensinou a ficar. O silêncio encheu o apartamento. Só o ventilador continuava insistente. Lúcia deixou as lágrimas caírem.
“Eu sou quebrada”, ela disse. “Eu acordo todo dia com vontade de desistir. A única coisa que me mantém de pé é cuidar da Bia. Se eu sentir algo por você e der errado, eu não aguento.” Caio sentiu a frase como se fosse dele também. Ele levantou a mão devagar. sem tocar, como quem pede permissão com o gesto. “Eu também tô com medo”, ele disse.
“Mas eu não vim aqui prometer conto de fadas. Eu vim pedir perdão e pedir uma chance do jeito certo.” Um dia por vez, Lúcia ficou olhando para ele por um tempo longo, como se medisse cada palavra. O rosto dela estava molhado, mas havia algo novo no olhar. Ela deu um passo, mais um. ficou tão perto que Caio sentiu o calor da respiração dela.
“Se der errado,” ela sussurrou. “Eu vou te odiar. Caio não desviou. Eu aceito o risco.” Lúcia levantou a mão e tocou o rosto dele devagar, como quem testa se aquilo é real. E então, como se a porta 43 tivesse aberto não só um apartamento, mas um lugar dentro dela. Lúcia encostou a testa na dele. Caio fechou os olhos.
Do lado de fora, no corredor, alguém fechou outra porta, um som distante, mas ali, naquele pequeno espaço, o mundo inteiro parecia suspenso. A mão dela ficou no rosto dele, tremendo. E Caio percebeu que, pela primeira vez, desde que Ana morreu, ele não estava olhando para uma câmera, ele estava olhando para alguém de verdade.
A primeira coisa que mudou não foi o amor, foi o jeito de respirar dentro da casa. Na segunda-feira seguinte, àquela noite, no apartamento 43, Lúcia entrou pela porta principal, como sempre, mas Caio já estava no corredor esperando. Não com pressa, não com aquela ansiedade dura que costumava morar nele, apenas presente. Ela parou um segundo ao vê-lo.
Os olhos dela desceram para a bengala. Depois subiram para o rosto dele. Havia medo ali. Havia também algo que parecia uma pergunta silenciosa. E agora Caio respondeu sem falar, só abriu o espaço. Bom dia ele disse baixo. Bom dia. Ela devolveu a voz ainda cautelosa. Bia veio correndo da sala com os bracinhos abertos, tropeçando nas próprias pernas.
Lúcia se ajoelhou automaticamente, antes mesmo de perceber, e a menina se jogou no colo dela como se estivesse voltando para casa. Caio viu a cena e sentiu duas coisas ao mesmo tempo. Gratidão e um aperto antigo, um tipo de culpa que vinha com o nome de Ana. Lúcia levantou o rosto e encontrou os olhos dele por meio segundo.
Foi rápido, mas Caio o entendeu. Ela também carregava culpa, a culpa de ocupar um lugar que não era dela. Naquela semana, Caio fez algo que nunca tinha feito desde que a esposa morreu. Chamou a casa para uma conversa. Não era uma reunião formal, era uma frase dita na cozinha com cheiro de arroz no fogo e o sol fraco entrando pela janela.
Lúcia, ele começou sem saber onde colocar as mãos. Eu quero que você se sinta segura aqui. De verdade. Ela ficou parada com a colher no ar. Segura como seu Caio. Ele engoliu o seu. Ainda doía ouvir. Caio. Só Caio. Ele corrigiu e pareceu pequeno, mas era um mundo. Lúcia hesitou, a palavra não saiu.
Então ele continuou como quem abre uma porta devagar. Eu não vou mais olhar câmera por câmera. Eu não quero mais isso. Eu sei que eu errei. Lúcia baixou os olhos para as luvas amarelas na pia. Aquelas luvas que tinham virado o símbolo de tudo. Trabalho, sobrevivência, cuidado. E agora? Um amor que assustava. “Eu não tô brava”, ela disse.
“Mas a voz falhou como se estivesse mentindo para si mesma. Eu só tenho medo. Caio assentiu. Eu também. O silêncio que veio depois não foi pesado. Foi um silêncio que cabia. Nos dias seguintes, a rotina se reorganizou. Não porque Caio mandou, porque ele começou a participar. Ficou na sala enquanto Lúcia dava banho em Bia. ajudou a preparar comida, errou o ponto do macarrão.
Lúcia riu, cobrindo a boca com a mão. Um riso curto, quase proibido.Bia olhou para os dois e riu também, sem entender nada, entendendo tudo. À noite, Caio colocava a filha para dormir, sentava ao lado do berço e repetia o que Lúcia tinha ensinado. voz baixa, olhar presente, uma canção qualquer, não era bonito, era dele. E Bia começou a aceitar aquilo como parte do mundo.
Numa dessas noites, quando Caio saiu do quarto, Lúcia estava no corredor, encostada na parede, como se tivesse ficado ali esperando, sem assumir que esperava. Ela dormiu rápido, Caio disse. Cansou de brincar. Lúcia respondeu. Os dois ficaram imóveis por um segundo e Caio sentiu o impulso velho de avançar, de agarrar aquilo com pressa, como se pudesse perder. Mas ele ficou, só ficou.
Obrigado”, ele disse. Lúcia piscou forte, segurando lágrimas que não sabiam mais se eram de dor ou de alívio. O primeiro conflito veio do jeito mais simples. Numa tarde, Bia caiu e bateu o joelho na sala. Chorou alto, desesperada. Caio correu, pegou a menina no colo, tentou acalmar. “Tá tudo bem, meu amor, tá tudo bem.
” Bia empurrou o peito dele e estendeu os braços para Lúcia, que estava perto. O pedido foi instantâneo, instintivo. Lúcia se aproximou, pegou a criança com cuidado, embalou. Passou, passou. E então Bia soluçou uma última vez e disse: “Claro, como se fosse a palavra mais natural do mundo. Mamãe”. A casa parou. Caio sentiu o corpo inteiro travar, como se o passado tivesse entrado pela porta sem bater.
O nome de Ana passou pela mente dele como um raio e por um segundo ele odiou a própria felicidade. Lúcia ficou rígida, olhando para Caio como quem pede perdão por existir. Bia no colo, só encostou a cabeça no ombro dela, tranquila, como se tivesse encontrado o que precisava. Caio respirou fundo, fez a coisa mais difícil, não corrigiu a filha, não arrancou aquela palavra da boca dela, não transformou o momento em culpa.
Ele se aproximou devagar. Se doer, a gente conversa. Ele disse para Lúcia baixo para ninguém mais ouvir, mas não empurra ela para longe. Lúcia abriu a boca para falar alguma coisa e não conseguiu. Apenas a sentiu com os olhos cheios. Naquela noite, Caio ligou para Renata, a irmã, e pediu para ela vir no fim de semana.
Renata chegou com pão de queijo na bolsa e um olhar que sempre dizia: “Eu sei, mas eu não vou te deixar cair”. Quando Bia dormiu, Caio contou o que tinha acontecido. Renata o viu em silêncio e, no fim, apenas colocou a mão no ombro dele. “A Ana não perde lugar”, ela disse. “Ninguém rouba amor de ninguém. Amor só cresce”. Caio não respondeu, só sentiu as lágrimas virem silenciosas e não lutou contra elas.
Duas semanas depois, Caio fez o pedido. Não foi com música, nem com luxo. Foi numa manhã de domingo na varanda, com o sol batendo fraco e Bia brincando no tapete com um carrinho. Lúcia estava de moletom simples, o cabelo preso de qualquer jeito, segurando uma caneca de café que tremia um pouco na mão.
Caio se ajoelhou com cuidado, mais pela perna do que pela emoção. e tirou do bolso uma caixinha pequena. Um anel simples, prata, sem espetáculo. “Eu não tô te pedindo isso para cuidar da Bia”, ele disse com a voz firme, apesar do medo. “Eu tô te pedindo porque eu quero dividir a vida com você, porque eu te amo e porque eu não quero mais viver como se fosse proibido ser feliz”.
Lúcia ficou olhando para o anel como se fosse uma coisa impossível. A garganta dela subiu e desceu. “Eu tenho medo”, ela sussurrou. “Eu também”, Caio respondeu. “A diferença é que agora eu não quero ter medo sozinho.” Lúcia baixou a caneca devagar no chão, levou a mão ao rosto, apertou os olhos como se tentasse segurar uma maré.
Quando abriu de novo, havia uma entrega ali. Não, euforia. Não conto de fadas. Uma decisão. Sim. Ela disse quase sem som. Eu fico Caio levantou devagar e a abraçou. Lúcia se prendeu a ele como se o corpo finalmente pudesse descansar. Bia olhou para os dois e bateu palma, sem entender o símbolo, entendendo a alegria.
O casamento foi pequeno, num sítio simples perto da cidade. Algumas cadeiras de plástico, flores do campo, uma árvore grande fazendo sombra no lugar do altar. Lúcia entrou de mãos dadas com Bia, que carregava uma cestinha com pétalas e derrubava metade no caminho. Caio esperava de terno azul escuro, a bengala ao lado, mas em pé, firme, como quem reaprendeu a existir.
Quando o celebrante falou: “Pode beijar a noiva”, Caio não correu, não apressou, apenas encostou a testa na dela primeiro, um gesto de promessa silenciosa. e então beijou. Bia correu e abraçou as pernas de Lúcia, gritando: “Mamãe!” E dessa vez Caio sorriu sem culpa, só com uma tristeza mansa, respeitosa lá no fundo.
Uma tristeza que não destruía. Depois do casamento, Caio insistiu em uma coisa: “Você vai voltar a estudar?” Lúcia riu sem acreditar. Caio, eu mal tenho cabeça para Tem sim. Ele cortou sem dureza. Você sempre quis e eu não vou deixar você virar só a mulher que cuida da nossa casa. Você émais do que isso.
Ela resistiu, chorou, disse que não merecia. Caio não discutiu. Só ficou ao lado dia após dia até ela aceitar. As noites viraram rotina nova. Lúcia ia para o curso técnico de enfermagem. Caio ficava com Bia. No começo, a menina chorava pedindo a mãe. Caio errava, se desesperava, depois respirava, lembrava do manual invisível e tentava de novo.
Uma noite, Lúcia chegou e encontrou os dois dormindo abraçados no sofá, a TV ainda ligada. Ela ficou parada na porta, olhando como se estivesse vendo uma cena que tinha sonhado e nunca tinha ousado querer. Um ano depois, Lúcia se formou. Bia desenhou a mãe com uma roupa branca e um coração enorme no peito. Caio pendurou o desenho na geladeira com um imã vermelho e toda vez que passava, Lúcia tocava o papel como se fosse real.
A felicidade chegou assim, sem barulho, mas ficando. Até que dois anos depois do casamento, Lúcia começou a passar mal, enjoos, tontura, um cansaço que não combinava com a rotina. Caio insistiu que ela fosse ao médico. Lúcia voltou pálida, com os olhos arregalados, segurando um papel na mão, como se fosse um bilhete para outro mundo.
“O que foi?”, Caio perguntou, já levantando. Lúcia olhou para ele e o medo dela era o medo antigo, cru, sem defesa. “Eu tô grávida.” A frase ficou suspensa no ar. Caio piscou como se o cérebro tivesse travado. Depois, um sorriso abriu, grande, incrédulo, e as lágrimas vieram junto. Ele abraçou Lúcia com cuidado, como se ela fosse vidro.
A gente vai ter um bebê”, ele disse sem conseguir parar de sorrir. Lúcia começou a chorar, não de alegria pura, de pavor também. “Eu tô com tanto medo, Caio.” Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, firme, presente. “Então a gente vai ter medo junto”, ele respondeu. “Mas eu fico, eu fico”. Naquela noite, depois que Bia dormiu, Caio foi até a cozinha sozinho.
A casa estava silenciosa, mas não era um silêncio morto. Na pia, as luvas amarelas de Lúcia estavam penduradas, ainda úmidas, brilhando sob a luz fraca do abajur. Caio ficou olhando para elas como se enxergasse finalmente o que sempre esteve ali. Ele abriu o celular. O aplicativo das câmeras ainda estava instalado, mas o ícone não estava mais na primeira tela.
Ele ficou alguns segundos com o dedo sobre ele e, sem pressa, arrastou o aplicativo para uma pasta escondida no canto. Não apagou por raiva, apagou por escolha. Depois apagou a luz da cozinha e deixou apenas a claridade da manhã que começava a nascer. Entrando devagar pela janela, tocando as luvas amarelas como se fossem ouro.















