O portão eletrônico deslizou devagar, soltando um gemido metálico que ecoou pelo pátio de mármore. Um carro preto entrou, faróis atravessando a neblina fina do entardecer. Quando o motor silenciou, só restou o som distante dos grilos e o farfalhar das palmeiras de Alpaville. Henrique Valença desceu do carro com o palitó pendendo do braço, o rosto duro, cansado, o olhar de quem já esqueceu como é chegar em casa e ser esperado.
Caminhou pelo corredor largo e cada passo fazia o salto do sapato ricochetear nas paredes lisas. O ar tinha cheiro de cera e vazio. A mansão parecia respirar um silêncio que doía. No hall, sobre o aparador de vidro, uma moldura de prata refletia a luz amarelada do teto. Lúcia, a mulher que ele amou e perdeu, sorria na foto com as três filhas no colo.
Trigémeas idênticas, cabelos castanhos, olhos curiosos, Luna, Lara e Helena. Henrique parou diante da imagem, passou o polegar sobre o rosto da esposa, um gesto rápido, quase automático, e, antes que o peito apertasse demais, virou o rosto. O relógio de parede marcava 6:40. Nenhum som vinha do andar de cima, nenhum chamado infantil, nenhum papai.
Ele subiu às escadas, abriu a porta do quarto das meninas, três camas em fila, edredons cor- de rosa, os brinquedos alinhados, as meninas sentadas no chão desenhavam em silêncio. Silêncio absoluto. Henrique tentou. Boa noite, amores. Nada, nenhum olhar. Era sempre assim. Havia dois anos que o som tinha ido embora daquela casa. Dois anos desde o acidente de Lúcia.
Naquela manhã, ele estava em uma reunião quando o telefone tocou, a voz do paramédico, os gritos, o barulho da chuva e depois o velório. Três pequenas de vestidos brancos olhando o caixão. E de repente o mundo calou. As três, ao mesmo tempo, como se alguém tivesse desligado um interruptor. Ele tentou de tudo.
Psicólogos infantis em São Paulo, no Rio. Um especialista americano. Viagens, brinquedos, um parque particular no quintal, cães, fadas, castelos, nada. Elas continuavam abraçadas, mudas, como se tivessem feito um pacto que nem elas mesmas compreendiam. Henrique mergulhou no trabalho.
Era mais fácil negociar milhões do que encarar o silêncio das próprias filhas. As reuniões o mantinham longe. Às vezes passava dias sem perceber que não tinha ouvido um riso sequer. A casa de 15 quartos, com piscina olímpica e cinema particular era o lugar mais vazio de São Paulo. No dia seguinte, enquanto ele tomava café sem olhar para ninguém, dona Beatriz, a governanta de cabelos grisalhos, se aproximou com a xícara de café nas mãos.
Seu Henrique, começou hesitante. Eu não tô dando conta sozinha. As meninas precisam de alguém perto, uma presença mais leve. Ele levantou os olhos do jornal, impaciente. Contrata quem a senhora quiser, Beatriz. E voltou à leitura. sem perceber o alívio no rosto dela. Três dias depois, quando voltou de uma reunião no centro, uma moça cruzou o corredor carregando um balde e um pano.
Júlia Santana, 24 anos, moradora de Osasco, estudante de pedagogia à noite. Tinha perdido a mãe cedo e cuidava dos dois irmãos menores. Henrique a viu só de relance. O coque mal feito, o uniforme simples, a pele marcada pelo sol. Ela o cumprimentou com um boa tarde, senhor baixinho, quase tímido. Ele respondeu com um aceno leve e desapareceu atrás da porta do escritório.
Para ele era apenas mais uma funcionária. Para casa, era o início de uma respiração nova. Naquela primeira semana, Júlia arrumava as camas enquanto as meninas observavam do canto caladas. Luna foi a primeira a segui-la com o olhar. No segundo dia, Helena também. Júlia trabalhava em silêncio, mas às vezes cantarolava baixinho, quase sem perceber. Canções antigas de roda da infância.
Na segunda semana, Helena parou perto da porta, ouvindo. As notas vinham simples, imperfeitas, mas vivas. E era isso que faltava ali, vida. Na terceira, Luna deixou sobre a pilha de lençóis limpos um papel dobrado, um desenho torto de borboleta colorida com giz de cera.
Júlia encontrou o papel, sorriu sozinha e pregou na parede da lavanderia com um imã em formato de coração. O som mais bonito daquele lugar passou a ser o bater das roupas no tanque e o cantar suave dela, perdido entre o vapor e o sabão. Henrique, por sua vez, mal notava. Passava as manhãs em ligações, à tardes em reuniões, à noites respondendo e-mails, a rotina de sempre. Até o dia em que o acaso quebrou o vidro da sua própria redoma.
Ele voltava de Brasília, cansado, terno amarrotado, mente cheia de números. O carro parou na garagem e ele entrou em casa com a mala na mão. Tudo parecia igual, até que um som o fez congelar. Risos. Primeiro um, depois três. Risos infantis, risos de verdade, altos, cheios, ecoando da parte de trás da casa.
O coração de Henrique disparou, largou a mala no chão e caminhou hesitante, seguindo o som como quem persegue um fantasma. O eco vinha da lavanderia. A cada passo, o riso parecia mais próximo, mais vivo. Quando abriu a porta, o tempo parou. Júlia estava no meio do cômodo com Luna sentada nos ombros. Lara e Helena sobre o tanque, rindo descontroladas.
Ela girava, fingindo ser um cavalo, cantando desafinada: “Ciranda, cirandinha, vamos todos!” Bolhas de sabão flutuavam no ar, refletindo o pôr do sol que entrava pela janela. As meninas gritavam: “Mais alto, tia Júlia! Vai, vai, vai! Tô voando, mamãe!” Henrique ficou imóvel. O som que ele sonhou ouvir por dois anos estava ali, vivo, imperfeito, real.
Por um instante que sorrir, correr até elas. Mas a alegria veio misturada com uma vertigem que ele não soube nomear. O peito apertou e, junto da emoção surgiu o velho reflexo, o medo de perder o controle. O som do riso atravessou esse medo e acendeu nele algo confuso, quase raiva.
A mesma raiva que sente quem não sabe como lidar com o que é maior que si mesmo. Ele respirou fundo, mas o ar saiu em forma de grito. A porta bateu contra a parede. O que é isso? O riso cessou como se alguém tivesse cortado o fio. Júlia virou assustada, quase derrubando Luna. Colocou a menina no chão devagar, o rosto branco de susto.
Henrique não percebeu as mãos dela tremendo, nem os olhos das filhas arregalados. Ele só via, o medo, e aquilo enfurecia. Mas o que ele faria, ou diria, ainda estava preso na garganta. Apenas o tictac do relógio da lavanderia preenchia o espaço entre eles. Júlia baixou o olhar. As meninas se entreolharam.
Henrique deu meio passo à frente e a borboleta desenhada por Luna, pregada na parede, balançou com o vento que entrou pela janela aberta. As asas coloridas tremiam sob a luz dourada. Henrique viu, mas não entendeu ainda não. Ele virou o rosto e a sombra dele cobriu o desenho. O som do riso já não existia, só o silêncio. Aquele mesmo silêncio que parecia nunca mais ir embora.
A noite anterior tinha sido como todas as outras. Henrique trabalhou até tarde, revisando contratos no notebook, enquanto o silêncio da casa se estendia pelas paredes como uma sombra viva. Às 3 da manhã, fechou o computador e ficou ali sentado na penumbra, com o copo de whisky intocado. O reflexo dele no vidro do escritório parecia o de um estranho, um homem que comprava prédios inteiros, mas não sabia como abrir a própria casa. Três dias fora.
Brasília, reuniões, fotos, aplausos. Três dias fingindo que tudo estava sob controle. Quando voltou, o céu de São Paulo estava pesado, ameaçando chuva. O portão se abriu e ele entrou com a mala na mão. O eco dos passos soou familiar, até que algo diferente atravessou o ar. Um som suave, inesperado, um som que ele não ouvia há dois anos.
Primeiro, pensou que fosse o rádio de algum funcionário, mas o som cresceu. Risos, risos de criança. Henrique parou no meio do corredor, o corpo inteiro arrepiado. A mala escorregou da mão, tombando no chão com um baque seco. Ele prendeu a respiração. Não podia ser. Seguiu o som, como quem persegue um sonho antes que ele desapareça.
Passou pela cozinha, sentiu cheiro de sabão, ouviu um canto fraco misturado às risadas. O som vinha da lavanderia ao fundo da casa. A cada passo, o coração dele batia mais rápido. Por um instante pensou em parar. E se fosse imaginação? E se a mente estivesse pregando peças? Mas o canto ficou mais nítido, uma voz feminina, doce, desafinada, entoando uma canção antiga, Ciranda. Cirandinha.
Henrique encostou a mão na parede como quem precisa se apoiar para não cair. Empurrou a porta e ali estava o milagre. Júlia, de cócoras girava devagar com Luna nos ombros. Lara e Helena riam sobre o tanque, batendo palmas, acompanhando a música. A luz da tarde atravessava o vapor do sabão e pintava o ar de dourado.
Bolhas subiam, estourando no ar, como pequenas notas de riso. “Mais alto, tia Júlia!”, gritou Luna, o rosto aceso. “Vai, vai!” Completou Lara entre gargalhadas. Helena, a menor, cantava junto com a voz fina, trêmula, linda. Henrique ficou imóvel. Dois anos de silêncio desmoronaram em segundos. As filhas dele estavam falando, cantando. A garganta dele se fechou, o peito doeu.
Por um segundo, a alegria foi tão grande que quase o fez chorar. Mas então veio outra sensação, uma pontada funda, antiga, que ele não soube nomear. confusão, descontrole e por baixo de tudo medo. Medo de não entender, medo de perceber que alguém, uma estranha, tinha conseguido o que ele não pôde. O rosto dele endureceu. O olhar, antes molhado de emoção, se fechou como uma porta.
Ele deu dois passos para dentro, a voz saindo mais alta do que devia. O que está acontecendo aqui? O grito cortou o ar. As bolhas estouraram todas de uma vez, as meninas congelaram, o sorriso de Luna desapareceu. Júlia virou-se rápido, o susto estampado no rosto. Tirou Luna dos ombros com cuidado, mas a mão tremia tanto que quase a deixou cair.
Colocou a menina no chão e deu um passo atrás, sem saber onde esconder o medo. Henrique respirava pesado. O som das filhas falando ainda vibrava na cabeça dele, misturado à raiva que crescia. O senhor Júlia tentou falar, mas a voz falhou. Eu só estava brincando com elas. Brincando? Ele repetiu com ironia seca.
Você foi contratada para limpar, não para brincar. Ela engoliu em seco. As mãos se enroscaram no avental. Elas queriam. Eu só. Você acha que pode fazer o que quiser na minha casa, subir nas minhas filhas? Quer matar uma delas? Cada palavra dele era um golpe. As trigmeas se encolheram. Luna começou a chorar, mas sem som, só o corpo sacudindo. Lara abraçou a irmã.
Helena apertou as mãos nos ouvidos. O silêncio voltou como uma onda fria. Júlia abaixou a cabeça, os olhos marejados. Me desculpe, senhor. Henrique não percebeu. Não viu o medo nas crianças, nem a dor na mulher à frente dele. Só via o próprio descontrole. Saia daqui agora e não se aproxime mais das minhas filhas. Ela deu um passo hesitante, olhou de relance para as meninas, um olhar cheio de culpa, carinho e despedida. Depois saiu.
A porta fechou-se devagar, com um rangido fino. O som dos passos dela se perdeu no corredor e o que restou foi um vazio cortante. As trêmeas ficaram imóveis. A espuma das roupas escorria do tanque. Elas se olharam, depois se abraçaram mudas, como dois anos atrás. Henrique tentou falar, mas nada saiu.
O silêncio da lavanderia parecia maior que o próprio ar. Ele olhou ao redor, confuso, como se buscasse algo que acabara de escapar. A raiva se dissolveu e no lugar veio o peso da culpa, silenciosa, esmagadora. As meninas, ainda abraçadas, saíram devagar, uma atrás da outra, de mãos dadas rumo aos quartos. O chão molhado deixava pequenas pegadas de sabão. Henrique ficou parado até não ouvir mais nada.
Depois desabou num banco, passando as mãos pelo rosto. O som do riso ainda ecoava, como se zombasse dele. Aquele som ele sempre quis. Lá fora, o sol já tinha se posto. A lavanderia mergulhou em penumbra. O ar cheirava a sabão e arrependimento. No tanque, uma bolha solitária se formou. Flutuou leve, refletindo o rosto cansado dele.
Por um instante, pareceu que o próprio Henrique estava preso dentro daquela bolha, distorcido, prestes a estourar. E quando ela estourou, o som foi mínimo, mas nele cabia todo o estrondo de um erro que ainda seria difícil consertar. Naquela noite, Henrique não dormiu. Ficou no escritório, as luzes apagadas, apenas a tela do notebook refletindo o rosto dele. O rosto de um homem que não reconhecia mais o próprio reflexo.
Lá fora chovia fino. As gotas batiam nos vidros como se pedissem para entrar. Na instante, uma foto antiga. Lúcia sorrindo, segurando as trigêmeas ainda bebês. Henrique pegou o porta-retrato, encostou a testa no vidro frio. Eu gritei com a única pessoa que fez elas falarem. Amor, sussurrou com a voz embargada. O que eu fiz? Um leve toque na porta o fez levantar os olhos.
Dona Beatriz entrou devagar, carregando uma xícara de chá. Posso? Ele assentiu sem forças para responder. Ela colocou o chá na mesa e se sentou na cadeira da frente, olhando direto para ele. Senr. Henrique começou com calma. Eu preciso lhe contar uma coisa. Henrique levantou o rosto tenso. Beatriz respirou fundo.
As meninas já estavam falando. Ele franziu a testa. Como assim? Falaram com a Júlia duas semanas atrás. Às 3. O ar sumiu. Henrique encostou-se na cadeira, o olhar perdido. Duas semanas, murmurou. Beatriz assentiu. O silêncio pesou. Ele levou as mãos ao rosto. Dois anos, Beatriz. Dois anos sem uma palavra.
E quando elas falam, eu destruo tudo. A governanta observou, os olhos marejados, e então disse o que ele mais precisava e menos queria ouvir. O senhor não sabia, Henrique. Eu deveria saber. Sou o pai delas. Beatriz abaixou a voz. O senhor não sabia porque o senhor não estava aqui.
A frase ficou no ar como uma lâmina. Henrique não respondeu, apenas assentiu devagar, aceitando o golpe. Beatriz se levantou. O senhor quer demitir a Júlia? Ele olhou para ela cansado. Eu falei isso? Não, mas vai pensar. Henrique respirou fundo, tentando negar. Não, eu não vou demitir. Mas ele sabia. estava mentindo. Na manhã seguinte, chamou Júlia ao escritório.
Ela entrou devagar, os olhos baixos, as mãos entrelaçadas, o som dos próprios passos pareceu ecoar demais no carpete. “Senta, por favor”, disse Henrique. Ela sentou na beirada da cadeira tensa. Júlia. Ele começou escolhendo as palavras como quem pisa em vidro sobre ontem. Eu queria te pedir desculpas. Ela levantou o olhar surpresa. Desculpas. Eu exagerei. Eu não sabia que as meninas tinham voltado a falar.
A dona Beatriz me contou. Silêncio. Ela desviou o olhar, apertando as mãos. Henrique tentou se aproximar. Você não estava colocando elas em risco. Estava cuidando delas do jeito que eu não soube cuidar. Júlia ficou em silêncio por alguns segundos. Depois se levantou. Com licença, Senhor. Espera, por favor.
O Senhor gritou comigo na frente delas. O Senhor me humilhou e agora quer que eu aceite um pedido de desculpas e finja que tá tudo bem. Henrique não soube o que responder. Ela respirou fundo, a voz firme, o olhar ferido, mas digno. Eu sei o meu lugar. Eu limpo, passo, lavo. Mas aquelas meninas, elas viraram minhas amigas. E o senhor destruiu isso.
Um silêncio cortante se instalou. Henrique tentou baixinho. Júlia. Ela balançou a cabeça. Eu vou embora. Não, espera. Mas ela já tinha saído. A porta se fechou com um som seco que pareceu atravessar o peito dele. Beatriz entrou logo depois, braços cruzados, o olhar carregado de decepção. Eu avisei o senhor.
Henrique passou a mão no cabelo, exausto. Eu sei, Beatriz. Eu sei que estraguei tudo. Ela o encarou em silêncio, depois falou devagar: “Então vai atrás dela”. Como? Do mesmo jeito que o senhor vai atrás dos seus negócios com humildade e rápido. Três dias depois, Henrique estava em Osasco, sem motorista, sem terno.
Camisa simples, mangas dobradas, o trânsito caótico, o calor grudando na pele. Ele parou diante de uma viela estreita, casas pequenas, muros descascados. Bateu numa porta azul. Um menino de uns 12 anos apareceu. Que foi? Tô procurando a Júlia Santana. Ela morava aqui. O garoto ergueu o queixo desconfiado.
E o senhor é quem? Henrique hesitou. Um amigo. O menino cruzou os braços. Ela se mudou. Para onde? O garoto arqueou a sobrancelha. E se eu souber? Henrique entendeu. Tirou uma nota do bolso. R$ 50. O menino pegou rápido, foi paraa casa da tia em Itaquera, rua 14, número 27. Henrique agradeceu, voltou pro carro. Itaquera, o portão de ferro rangia, a pintura descascada.
Uma mulher de 40 e poucos anos, com um bebê no colo abriu a porta. Pois não. Eu sou o Henrique Valença. Era o patrão da Júlia. Ela estreitou os olhos. Ah, o ricaço que gritou com ela. Henrique baixou o olhar. Esse mesmo? Eu preciso falar com ela, por favor. A mulher ficou em dúvida, depois gritou: “Júlia, tem um homem aqui.” O som de passos veio do fundo.
Quando Júlia apareceu, o coração dele apertou. Ela parecia diferente, cansada, mas firme. “O que o senhor quer?”, perguntou sem rodeios. conversar. Não tem nada para conversar. Ela começou a fechar a porta, mas ele colocou a mão. Minhas filhas não falam mais. Ela parou. Como assim? Desde o dia que você saiu, voltaram pro silêncio.
Elas chamam por você no olhar. Júlia desviou o rosto. Não é problema meu. Eu sei, mas tô pedindo. Não como patrão, como pai. Ele tirou um envelope do bolso e estendeu para ela. Por favor, abre. Ela abriu. Dentro, três desenhos de borboletas, cada uma de uma cor. Embaixo, escrito com letra infantil, tia Júlia. Os olhos dela se encheram d’água. Ela cobriu a boca com a mão. Henrique baixou o tom.
Elas fizeram para você. A dona Beatriz achou nos quartos. Ela segurou os papéis com força, os dedos manchados de gis de cera. Henrique continuou. Eu errei. Eu estraguei tudo, mas elas não merecem pagar pelo meu erro. Um silêncio. O bebê da mulher chorou ao fundo. Júlia respirou fundo, os olhos ainda marejados.
Eu vou pensar, disse e fechou a porta. Henrique ficou parado por um instante, olhando a madeira. O vento passou pela rua, levantando poeira e um pedaço de papel que se prendeu na grade. No papel, um desenho infantil meio apagado, uma borboleta colorida, trêmula, viva.
Henrique olhou, tocou o papel com a ponta dos dedos. Pela primeira vez em muito tempo, ele não tentou segurar o ar, deixou o vento levar. Cinco dias se passaram desde que Henrique bateu aquela porta. Cinco dias em que o tempo parecia empacado, a mansão, enorme, fria, cheia de ecos, voltou a ser o mesmo deserto de antes.
As trigêmeas já não cantavam, já não sorriam. Dormiam juntas no mesmo quarto, abraçadas como se quisessem proteger umas as outras do vazio. Luna parou de desenhar. Lara deixou de ler as historinhas e Helena, a mais quieta, passava as tardes inteiras olhando pela janela, esperando alguma coisa que nem ela sabia o que era.
Henrique tentava preencher o silêncio, contava histórias sem voz, mostrava fotos antigas, levava brinquedos novos. Nada funcionava. As meninas o olhavam com ternura, mas não respondiam. Na quarta noite, ele se sentou no chão do quarto delas. O abajur lançava uma luz suave, quase triste. Ele ficou observando as filhas dormindo.
Três corpos pequenos, três respirações idênticas. Passou a mão no cabelo de cada uma e, pela primeira vez deixou as lágrimas caírem sem se esconder. “Me desculpem, minhas filhas”, sussurrou. “Eu tô tentando, mas parece que tudo o que eu toco quebra”. A voz saiu rouca, arranhada.
Apenas o tic tac do relógio respondeu. Na manhã de quinta-feira, dona Beatriz entrou no quarto dele com um olhar diferente. Senhor Henrique, tem alguém aqui? Quem? Perguntou ainda sonolento. Ela apenas sorriu. O senhor precisa ver com os próprios olhos. Henrique desceu as escadas, o coração acelerado. Quando virou o corredor que levava à lavanderia, parou.
Júlia estava lá de pé, parada no mesmo lugar, onde tudo tinha desmoronado semanas antes, mas agora havia uma serenidade nela. Usava o mesmo avental, o cabelo preso do mesmo jeito simples, mas o olhar, o olhar era outro. As triêmeas estavam no chão, cada uma com uma boneca de pano nas mãos. Bonecas que Júlia havia costurado antes de ir embora.
Elas ainda não a tinham visto. Júlia respirou fundo, deu um passo. A voz dela saiu baixa, mas firme. Oi, meninas. O tempo parou. Luna foi a primeira a levantar a cabeça. Os olhos dela se arregalaram. Depois, num sussurro quase tímido, escapou. Tia Júlia. Lara virou ao mesmo tempo. Tia Júlia. Helena deixou a boneca cair e correu.
Em segundos, as três estavam nos braços dela. O choro veio primeiro. Depois as palavras desordenadas, atropeladas, mas cheias de vida. A gente te procurou. O papai brigou com você? Não vai embora de novo, né? Júlia riu e chorou junto. Não, meus amores, não vou embora nunca mais. Atrás da parede escondido, Henrique assistia tudo.
O som das vozes das filhas, aquele somria, atravessou o peito dele como uma faca e, ao mesmo tempo, como um abraço. Ele escorregou até o chão, encostando as costas na parede, e chorou. Chorou como não chorava desde o velório de Lúcia. chorou até o corpo amolecer. Dona Beatriz chegou silenciosa e pousou a mão no ombro dele. Viu? Murmurou. Deu certo.
Henrique apenas assentiu sem conseguir falar. Lá dentro, uma borboleta branca entrou pela janela, rodopeando devagar no ar até pousar no ombro de Júlia. As meninas riram. “Olha, tia! Uma borboleta? É a mamãe”, disse Luna baixinho. “Ela veio ver você”, completou Lara. Helena tocou as asas delicadas com o dedo. “Ela gostou de você, tia”.
Júlia sorriu com os olhos marejados. Henrique fechou os olhos, sentiu como se Lúcia estivesse ali, não para julgá-lo, mas para testemunhar. No dia seguinte, o sol nasceu mais leve. Júlia voltou a trabalhar na casa. mas impôs suas condições. “Eu aceito voltar”, disse ela firme.
“Mas quero continuar estudando pedagogia e preciso cuidar dos meus irmãos nos fins de semana.” Henrique respondeu sem hesitar: “Eu pago a sua faculdade e se precisar trazer seus irmãos, pode trazer.” Ela sorriu surpresa. “Obrigada, senhor.” Ele a interrompeu gentil. Me chama de Henrique. A palavra saiu como um novo começo. Ela repetiu devagar, quase sorrindo. Tá bom, Henrique.
Dois dias depois, ele reuniu todos os funcionários na sala principal. Beatriz, o jardineiro, a cozinheira, o motorista, todos em volta, curiosos. Henrique respirou fundo. A voz dele saiu firme, mas emocionada. Eu queria pedir desculpas à Júlia. Fez uma pausa. Gritei com ela, humilhei e quase destruí a única pessoa que conseguiu devolver a voz das minhas filhas. O silêncio tomou conta da sala.
Júlia abaixou a cabeça corando. Henrique continuou. A partir de hoje ela não é mais só uma funcionária. Ela faz parte da nossa família. Beatriz começou a aplaudir. O resto acompanhou. Júlia levantou o olhar e, pela primeira vez não parecia uma empregada pedindo permissão, parecia alguém que finalmente pertencia.
Nos meses seguintes, a casa se transformou. Luna voltou a desenhar. Agora, as borboletas tinham asas completas, coloridas, livres. Lara começou a escrever um caderno inteiro de histórias sobre o céu, os pássaros, as nuvens e Helena, a mais pequena, compôs uma música desafinada, mas linda. Chamava-se Minha tia Júlia. No quintal, Júlia levou as meninas para plantar flores.
Três lírios brancos, um para cada uma. Cada uma escolhe um nome”, disse ela, ajoelhada na terra. Luna pensou um pouco. O meu é amor. Lara sorriu. O meu é esperança. Helena levantou o rosto decidida. O meu é coragem. Júlia pegou mais uma muda, um lírio vermelho. E esse aqui é o nosso de todos nós. Ela sorriu. Se chama Recomeço. As meninas riram.
Uma borboleta branca pousou justamente sobre o lírio vermelho. Luna apontou. A mamãe gostou. Henrique observava de longe, com um nó na garganta. Não quis interromper, apenas ficou ali de pé, sentindo o vento balançar as pétalas, o som mais bonito que já ouviu. Tr anos depois, a Fundação Lúcia Júlia já existia.
Atendia crianças em luto e famílias que precisavam recomeçar. No jardim da sede havia um espaço especial, o jardim dos lírios. Lá, cada criança plantava uma flor em homenagem a alguém que perdeu. Luna, Lara e Helena eram as guias dos visitantes. Mostravam orgulhosas os três lírios brancos, amor, esperança e coragem, e o lírio vermelho, recomeço, no centro.
Um dia, uma menininha perguntou: “Vocês têm duas mães?” Luna sorriu. Temos. A primeira nos deu a vida, a segunda nos ensinou a vivê-la. De longe, Henrique e Júlia observavam. Ela segurava um bebê no colo, Miguel, o filho deles. Os irmãos de Júlia brincavam com as meninas, rindo. Henrique passou o braço pelos ombros dela. Eu nunca vou esquecer o dia em que quase te perdi.
Ela respondeu com ternura. E eu nunca vou esquecer o dia em que você voltou. O vento soprou. As pétalas dos lírios balançaram. Uma borboleta branca pousou sobre o lírio vermelho. Luna acenou sorrindo. Oi, mamãe. Henrique fechou os olhos e um sorriso leve nasceu. Não era o sorriso de um homem rico, era o de um homem inteiro, o de alguém que, enfim, aprendeu a ouvir.















