A chuva fina de São Paulo ainda não tinha decidido se ia cair de vez ou apenas ameaçar o dia inteiro. Pingos leves escorriam pelo vidro da janela, distorcendo as luzes amareladas do poste lá fora, dentro do pequeno apartamento da zona leste, o relógio da cozinha marcava 6:20 da manhã com um tic-tacistente, quase impaciente.
Luía estava de pé, descalça no chão frio, vestindo o uniforme azul, ainda um pouco úmido, do varal improvisado na sala. O cheiro de café fraco se misturava ao de sabão em pó barato. Ela segurava um grampo de cabelo entre os lábios enquanto tentava, pela terceira vez prender os cachos rebeldes de uma das filhas. “Fica quietinha”, Lia.
“Só um pouquinho”, murmurou, a voz baixa, “mais pedido do que ordem”. Lia riu e se esquivou, escapando para o outro lado da mesa. Luna veio atrás, descalça também, os pés fazendo tapis gasto. As duas giravam em círculos, rindo alto, como se aquele apartamento apertado fosse grande demais para a energia que carregavam. Luía fechou os olhos por um segundo, não de cansaço, ainda não, mas para respirar fundo.
Quando abriu de novo, o celular vibrou sobre a pia. Uma mensagem curta, fria. Creche fechada hoje. Problema no encanamento. Avisaremos. O mundo pareceu parar exatamente naquele segundo. O tic-tac do relógio ficou mais alto. O barulho distante de um ônibus freando na avenida entrou pela janela aberta. Luía leu a mensagem outra vez, como se as palavras pudessem mudar. Não sussurrou.
Ela apoiou as mãos na pia. Os dedos tremiam levemente, olhou para o calendário colado com íã na geladeira. aluguel vencendo em cinco dias, depois para o envelope da conta de luz, dobrado e guardado atrás do açúcar. Não podia faltar ao trabalho. Não hoje, não, nunca. Mamãe! Luna perguntou, a voz subitamente mais calma.
Luía se abaixou, ficando na altura das meninas. passou a mão pelo rosto das duas, sentindo o calor vivo da pele, aquele tipo de calor que só criança tem. “A gente vai fazer uma coisa diferente hoje”, disse, escolhendo as palavras com cuidado. “Vocês vão comigo trabalhar.” Os olhos das duas brilharam. “Trabalhar?” Lia repetiu curiosa.
“Mas tem uma promessa importante”, continuou Luía, séria agora. Muito importante. As meninas se aproximaram como se aquilo fosse um segredo. Mão dada. Luía levantou a própria mão. Olhar nos olhos. Tocou o queixo de Luna de leve. E se precisar de ajuda, chama a mamãe bem baixinho. Combinado. Combinado. Disseram juntas, sem entender tudo, mas sentindo o peso da palavra.
20 minutos depois, o ônibus chegou bufando, lotado como sempre. O cheiro de gente molhada, perfume forte e ferro molhado tomou o ar. Luía subiu com as meninas coladas a ela, uma de cada lado, protegendo-as como podia enquanto se equilibrava. O ônibus arrancou, o corpo de Luía balançou, mas ela firmou os pés. Do lado de fora, a cidade acordava cinza, apressada, indiferente.
Do lado de dentro, o barulho era constante. Conversas cortadas, celular tocando, o motor vibrando no peito. Ela olhava para a frente, mas a mente estava longe. Pensava no portão alto da casa onde trabalhava, naquele silêncio que parecia engolir qualquer som, no homem que quase nunca falava, sempre de terno impecável, sempre distante. Mateus Vasconcelos.
Quando desceu do ônibus, o contraste foi imediato. O asfalto limpo, as calçadas largas, as árvores bem cuidadas. O portão eletrônico se abriu com um bip seco. O segurança lançou um olhar rápido para as mochilas coloridas das meninas, depois para Luía. nada” disse. Dentro da casa, o silêncio era quase físico.
O chão de mármore refletia a luz branca como um espelho gelado. Não havia cheiro de comida nem de gente, apenas um leve aroma de produto de limpeza antigo e algo indefinido, quase estéril. Luía tirou os sapatos das meninas, pedindo silêncio com um gesto. Cada passo ecoava. O som parecia grande demais para aquele espaço vazio.
“Fiquem aqui”, disse abrindo a porta do quartinho de serviço. “Um sofá pequeno, uma televisão antiga, uma lâmpada fraca. Não saiam por nada. A mamãe vai limpar rápido e volta.” “Promessa, promessa?”, responderam mais uma vez. Luía fechou a porta com cuidado, como quem fecha um cofre. O coração ainda acelerado, ela subiu as escadas carregando o balde e os panos.
Começou pelo banheiro do andar de cima. O cheiro forte de desinfetante subiu pelo nariz. Ela esfregava o mármore com força, mas a cabeça estava embaixo, naquele quartinho. Silêncio demais. Ela parou, escutou. Nada. Melhor assim, murmurou para si mesma, tentando acreditar. Continuou. Outro banheiro, outro pano. O tempo parecia se esticar, então um som distante, muito leve, como pés pequenos deslizando.
Luía congelou do outro lado da casa. Mateus Vasconcelos estava sentado à mesa do escritório, olhando papéis sem realmente vê-los. O terno cinza impecável, a gravata alinhada, tudo no lugar, menos ele. Um som atravessou o corredor, tão fora de contexto, que ele levantou acabeça. Uma risada. Não fazia sentido. Aquela casa não tinha risadas, nunca teve.
Mateus se levantou devagar, seguindo o som, como quem segue um eco impossível. No alto da escada, Luía largou o pano no chão. O coração batia tão forte que parecia querer escapar pelo peito. Ela desceu correndo, os passos abafados pelo medo. O quartinho de serviço estava vazio. “Não, não”, sussurrou, a voz falhando. Então ouviu as risadinhas claras agora vindo do corredor principal.
Quando virou à esquina, viu a cena que mudaria tudo. As duas meninas, pequenas demais para aquele espaço enorme, paradas no meio do mármore brilhante, e diante delas o homem alto de terno cinza imóvel, como se tivesse encontrado um fantasma. Luía correu e se colocou na frente das filhas num gesto instintivo.
“Senhor Mateus, me desculpa”, disse rápido, a voz firme, apesar do tremor nas mãos. “A creche fechou hoje. Eu não tinha com quem deixar. Não vai acontecer de novo.” Ela esperou a sentença, a demissão, o fim. Mas Mateus não falou nada, apenas olhou por cima do ombro dela para as duas crianças, depois para o corredor atrás, longo e silencioso.
Foi então que Luía percebeu algo que nunca tinha notado antes. No fim do corredor, quase escondida pela luz branca, havia uma porta diferente das outras, branca, com desenhos de nuvens azuis pintadas à mão. Ela não sabia porquê, mas aquele detalhe fez um arrepio subir por suas costas. Algo naquela casa estava trancado há muito tempo e sem querer, suas filhas tinham acabado de bater.
Luía ficou imóvel por um segundo, que pareceu longo demais. O corredor era largo, comprido, branco demais. A luz fria refletia no mármore, como num espelho limpo demais para pés pequenos. Lia e Luna estavam paradas ali, uma de cada lado, as mãozinhas grudadas na barra do vestido simples, os olhos arregalados. À frente delas, Mateus Vasconcelos permanecia em silêncio, alto, rígido, o terno cinza perfeitamente alinhado, como se tivesse sido desenhado junto com a casa.
O coração de Luía batia tão forte que ela mal ouvia a própria voz. “Senor Mateus”, repetiu, “gora mais devagar. Eu sinto muito mesmo. A creche fechou hoje, sem aviso. Eu não tinha com quem deixar minhas filhas. Ela sentia o cheiro do produto de limpeza ainda grudado nas mãos. Sentia o suor frio escorrendo pelas costas, mas manteve o queixo erguido.
Não se curvou, não implorou. Falou como quem assume um erro sem se encolher. Mateus não respondeu. Ele apenas olhava. Luía seguiu o olhar dele e, por um instante estranho, teve a sensação de que ele não estava vendo crianças. parecia estar vendo algo que não pertencia àquela casa, como se o som daquelas risadas tivesse quebrado uma regra silenciosa que ele mesmo não lembrava ter criado.
Elas prometeram ficar quietas. Luía continuou, sentindo a necessidade de explicar. Eu pedi, sei que não foi certo trazê-las, mas eu precisava trabalhar hoje. Se o Senhor quiser que eu vá embora agora. Ela parou. Não queria dizer demitir. A palavra pesava demais. Lia pigarreou baixinho atrás dela. A gente ficou quieta disse num fio de voz sincera.
Só não ficou parada. Luía sentiu vontade de rir e chorar ao mesmo tempo. Não virou o rosto. Não era hora. Mateus finalmente se mexeu. Deu um passo à frente, depois outro. O som dos sapatos ecoou pelo corredor como um aviso. Ele se abaixou devagar, dobrando o joelho até ficar na altura das meninas.
O gesto foi tão inesperado que Luía piscou confusa. Não combinava com o homem que ela conhecia ou achava que conhecia. “Como vocês se chamam?”, ele perguntou a voz baixa, quase enferrujada. Lia e Luna se entreolharam. Procuraram a mãe com os olhos. “Pode falar”, Luía disse, sem entender porque aquilo estava acontecendo. “Lia”, respondeu uma.
“Luna, completou a outra. Mateus a sentiu como se guardasse os nomes num lugar antigo da memória. “E vocês gostam de correr?” Luna sorriu, esquecendo o medo por um segundo. “Gosto muito”, disse. O chão escorrega. Mateus olhou para o mármore, depois para os pezinhos descalços. Um canto quase invisível da boca dele se moveu.
Não chegou a ser um sorriso, mas também não era mais indiferença. Ele se levantou. Termine seu trabalho, Luía disse simplesmente. Ela demorou um segundo para processar. Como? Como é? Termine o que veio fazer. Ele respirou fundo. As meninas não vão ficar naquele quartinho. Luía abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu.
A biblioteca tem espaço, continuou. Tem tapete? É mais adequada. Adequada. A palavra ecoou dentro dela como algo impossível. Senr. Mateus, eu obrigada. Conseguiu dizer, sentindo a garganta apertar. Eu prometo que não precisa prometer. Ele interrompeu já caminhando pelo corredor. Só sigam. Luía hesitou, olhou para as filhas, que pareciam ter esquecido completamente o perigo e já andavam atrás dele, curiosas.
Ela respirou fundo e foi também. A biblioteca era outro mundo. As estantes iam do chão ao teto, cheias delivros que pareciam nunca ter sido abertos. O tapete persa abafava os passos. A luz ali era amarela, mais suave. Pela primeira vez desde que entrara naquela casa, Luía sentiu calor. Aqui, Mateus disse, apontando para o centro da sala.
Podem brincar aqui, sem subir nas estantes, sem riscar livros. Prometemos, disseram as duas em couro. Luía observou enquanto ele se virava para sair. Antes de fechar a porta, ele lançou um último olhar para as meninas sentadas no tapete, tirando bonecas e carrinhos da mochila. Havia algo diferente naquele olhar.
Não era a alegria, mas também não era o vazio habitual. Quando ele se foi, Luía ficou ali mais um instante, como se a cena pudesse desaparecer se ela piscasse. “Vocês ficam aqui”, disse às filhas, agora com voz baixa. A mamãe vai terminar e já volta, tá bom, mamãe? Respondeu Lia, concentrada em alinhar os brinquedos.
Luía saiu, voltou para a limpeza, mas nada parecia igual. Cada passo dela era acompanhado de longe, por risadinhas contidas, não altas, quase cuidadosas, como se as meninas estivessem tentando respeitar uma promessa invisível. No escritório, Mateus tentou voltar aos papéis, não conseguiu. As letras se misturavam. O silêncio que sempre o confort agora parecia estranho, incompleto.
A cada risada abafada que escapava da biblioteca, algo dentro dele se movia inquieto. Depois de meia hora, ele se levantou, caminhou até a porta da biblioteca e ficou ali encostado no batente, observando sem ser visto. Lia explicava uma brincadeira complicada para Luna, usando gestos exagerados. Luna fingia entender.
Errando de propósito para fazer a irmã rir. Mateus percebeu surpreso que estava sorrindo de verdade. No andar de cima, Luía terminava o último quarto. Estava cansada, mas um cansaço diferente, mais leve. Quando desceu para buscar as meninas, abriu a porta da biblioteca e encontrou o cômodo vazio. O estômago dela afundou.
Não”, murmurou, sentindo o pânico voltar como uma onda. Ouviu passos pequenos no corredor, seguiu o som, o coração disparado. Foi então que viu. No fim do corredor, a porta branca com nuvens azuis estava entreaberta. Luía parou. Nunca tinha entrado ali. Nunca tinha visto aquela porta aberta. Havia algo naquele branco pintado à mão que não combinava com o resto da casa.
Algo infantil, algo guardado. Ela deu um passo à frente. Do outro lado da porta, risadinhas ecoaram, suaves, felizes. Luía sentiu um arrepio subir pela espinha, sem saber exatamente porquê, ela entendeu que não era apenas um quarto que estava sendo aberto. Algo naquele corredor de mármore frio estava começando a rachar.
Luía ficou parada no corredor, como se o corpo inteiro tivesse virado o ouvido. A porta branca, com nuvens azuis pintadas à mão, estava entreaberta. Não era uma porta comum, não combinava com a madeira escura, com o mármore frio, com o silêncio calculado daquela mansão. Parecia ter sido colocada ali por engano ou por alguém que um dia acreditou em alegria.
De dentro vinham risadinhas pequenas, abafadas, como se as meninas estivessem tentando não fazer barulho e falhando do jeito mais bonito possível. Luía engoliu em seco. Lia, Luna chamou num sussurro rápido, a voz cortada pelo medo. Saiam daí agora. As risadas pararam por um segundo. Depois, um som de papelão rasgando, muito leve, como caixa sendo aberta.
Luía sentiu o sangue gelar. Ela avançou e empurrou a porta com cuidado, tentando não fazer aquele rangido que denunciaria tudo para a casa inteira. Mas a madeira reclamou mesmo assim, um baixinho, como um aviso. E então ela viu. O quarto era irreal. A luz ali dentro era diferente, mais quente, como se até o sol tivesse outro jeito de entrar.
Havia um berço branco com um docel de estrelinhas, paredes com ursinhos e nuvens, prateleiras cheias de brinquedos ainda na caixa, intactos, organizados com uma perfeição que dava tristeza. No meio do tapete macio, Lia e Luna estavam ajoelhadas, olhos brilhando, cercadas de caixas abertas. “Mamãe, olha”, Lia disse baixinho, como se estivesse numa igreja.
Tem brinquedo novo? Luía não respondeu. Ela só respirou e sentiu um aperto estranho no peito. Algo que não era só raiva de mãe, nem só pânico de funcionária. Era outra coisa, um tipo de respeito involuntário por um lugar que parecia ter sido deixado esperando. Meninas, fora agora. A voz dela saiu firme, mais alta do que queria. Luna se assustou.
O sorriso murchou. A gente só ia brincar um pouquinho? Ela tentou, levantando uma boneca ainda com etiqueta. Luía entrou rápido, ajoelhando-se no tapete. Começou a recolher as coisas com mãos trêmulas, enfiando o brinquedo de volta na caixa, como se estivesse apagando um incêndio. “Não é nosso”, disse, quase sem voz.
“Não pode”. Mas estava tudo guardado. Lia insistiu sem entender. Ninguém usa. Luía apertou os olhos por um instante. Aquilo era o pior. A verdade dentro da frase de criança. Ninguém usa. Tudo lindo, tudo parado, tudo esperando. Elanem sabia exatamente o que era aquele quarto. Só sabia o que sentia.
que ali dentro havia uma regra que não era escrita em papel, era escrita em dor. “Ajuda a mamãe”, ela pediu agora mais baixa. Rápido. As meninas obedeceram com aquele jeito desajeitado de criança, tentando consertar um erro que nem entende direito. Luna colocou carrinhos de volta em uma caixa. Lia empurrou blocos para dentro de outra.
Foi quando o som veio do corredor. Passos. Pesados, lentos, medidos. Luía congelou o brinquedo na mão. Lia e Luna também pararam. O ar mudou como se o quarto tivesse puxado o fôlego. E então Mateus apareceu na porta. Ele não entrou de imediato. Ficou ali parado, segurando o batente com uma mão, como se precisasse se apoiar para não cair.
O rosto estava pálido, os olhos presos no berço, na poltrona ao lado da janela, nas caixas abertas, nos brinquedos espalhados no chão. Luía levantou num salto. Senhor Mateus, eu A voz falhou. Ela tentou de novo, mais rápido, como se palavras pudessem salvar a situação. Elas não sabiam. Eu devia ter vigiado. A culpa é minha.
Se o Senhor quiser descontar, se quiser. Ela não terminou, porque Mateus não estava ouvindo. Ele deu um passo para dentro, outro. E Luía percebeu que pela primeira vez aquele homem parecia menor do que o terno que vestia, como se o próprio corpo tivesse ficado pesado demais. Mateus caminhou até o centro do quarto devagar, os olhos tocando cada coisa sem tocar.
Os dedos dele passaram pelo berço, depois pela poltrona, depois por uma caixa de carrinhos. Ele respirou fundo e aquele som, só aquele som já parecia quebrado. 5 anos. Ele disse quase sem voz. Luía não sabia o que responder. Ficou perto das filhas como um muro frágil. Mateus pegou um carrinho azul simples, pequeno.
Olhou para ele como se fosse uma lembrança viva. “Eu comprei isso pro meu filho”, falou a voz rouca. Eu decorei esse quarto sozinho. Ele levantou o olhar para o teto. As nuvens pintadas pareciam flutuar, delicadas, infantis demais para aquela mansão. Eu pintei essas nuvens com as minhas mãos. Luía sentiu os olhos arderem, não porque queria chorar, mas porque parecia impossível não sentir.
Mateus engoliu em seco. Eu achei que ela ia mudar de ideia. Ele não precisou dizer quem era ela. Luía entendeu pela forma como ele disse, pela vergonha misturada com dor. Minha esposa não queria filhos, nunca quis. E eu fiz esse quarto como se como se pudesse convencer. Um sorriso amargo atravessou o rosto dele e sumiu.
Dois dias depois que eu terminei, ela foi embora. Luía levou a mão à boca sem perceber. Mateus se virou lentamente. Os olhos encontraram-os das meninas. Lia e Luna estavam agarradas uma na outra, tentando chorar. Elas não entendiam as palavras, mas entendiam o clima. Criança sente quando um adulto está desmoronando. Mateus ficou olhando para elas e Luía teve medo do que viria, medo de raiva, de expulsão, de um grito, mas não veio.
Os joelhos dele cederam. Foi rápido, como se o corpo tivesse guardado aquele peso por tempo demais. Mateus caiu no tapete no meio dos brinquedos e o carrinho azul escorregou da mão dele, rodando pelo chão até parar perto da ponta do sapato de Luía. E então ele chorou. Não foi um choro bonito, discreto, de filme, foi um choro real, autos o suficiente para preencher o quarto.
Um choro de adulto que ficou tempo demais sem ser visto. Luía ficou paralisada. O som das lágrimas dele batia nas paredes com nuvens como chuva num telhado. Eu só queria ser pai. Ele soltou entre soluços, cobrindo o rosto. Era só isso. Só isso. Lia apertou a mão da mãe. Luna se encolheu. Luía sentiu o impulso de puxar as filhas e sair correndo. Mas as pernas não obedeceram.
Não por medo, por algo mais profundo, por entender de repente que aquele quarto não era um lugar proibido, era um túmulo. E sem querer, suas filhas tinham aberto a tampa. Foi Luna quem soltou a mão da mãe. Luía tentou segurar, mas a menina já tinha dado dois passos pequenos, firmes, em direção ao homem no chão. O coração de Luía disparou.
Luna! Ela sussurrou. A menina não olhou para trás. Chegou perto de Mateus e tocou o ombro dele com a ponta dos dedos, como quem testa se um animal machucado morde. “Não chora”, ela disse baixinho. “A gente, a gente pode brincar com você”. Mateus levantou o rosto, os olhos vermelhos, o olhar perdido. Ele olhou para aquela criança como se não soubesse mais falar a língua do mundo.
Luna pegou o carrinho azul que estava no chão e colocou na mão dele com cuidado, como se fosse uma coisa valiosa. Agora veio. Ela completou simples. E ali, naquele instante Luía viu, viu o choro dele mudar. como se tivesse sido atingido por uma verdade que não machuca. Só abre. Mateus puxou Luna para um abraço apertado, desajeitado, como quem segura algo que tem medo de perder.
Luna a abraçou de volta, pequenininha, inteira. Lia olhou para a mãe, pedindo permissão sem palavras. Luía assentiu com lágrimasdescendo, sem que ela percebesse quando começaram. Lia correu e entrou no abraço também. Os três ficaram no chão do quarto das nuvens, um homem quebrado, duas meninas impossíveis e uma mãe que não sabia se estava presenciando um desastre ou um milagre.
Alguns minutos depois, Mateus respirou fundo, limpou o rosto com a manga do terno, envergonhado como um garoto. “Desculpa”, ele murmurou. “Eu não devia. O senhor é humano. Luía disse a voz suave, surpreendendo até a si mesma. Mateus olhou para ela de verdade, como se pela primeira vez enxergasse a mulher por trás do uniforme.
Ele ainda estava no chão, o carrinho azul preso na mão. E Luía percebeu que aquele quarto, que por 5 anos tinha sido silêncio e poeira, agora tinha uma coisa que não dá para comprar. Respiração. Um riso pequeno escapou de Luna, ainda abraçada nele. Mateus fechou os olhos por um segundo, como se guardasse aquele som dentro do peito.
Quando abriu de novo, havia algo novo ali, frágil, vivo. E do lado de fora do quarto, no corredor de mármore frio, o eco das risadas não parecia mais uma invasão, parecia o começo. A casa tinha mudado, não por fora. Os mesmos portões altos, o mesmo mármore que brilhava como gelo, as mesmas paredes brancas sem retrato nenhum.
Mas Luía sentia no ar uma coisa diferente, como se o silêncio tivesse perdido a autoridade. Agora o silêncio tinha memória. Às vezes, enquanto esfregava o balcão da cozinha, ela ainda ouvia como um eco preso no peito. A risada de Luna no quarto das nuvens, o abraço desajeitado de Mateus, o som do carrinho azul rolando no tapete.
aquilo devia ter acontecido e ainda assim tinha acontecido. Real, quase perigoso de tão real. Nos dias seguintes, Mateus tentou fingir que era só um dia, mas não era. Na quinta-feira, quando Luía chegou para trabalhar, ele mesmo abriu a porta. Ela não esperava. Ele sempre mandava a governança ou o porteiro anunciar. E quando ele apareceu ali de terno, mas com o rosto menos duro, Luía percebeu que ele também não sabia como se comportar depois daquele milagre.
Bom dia, senor Mateus”, ela disse, segurando as mochilas das meninas, mas logo se corrigiu. “Quer dizer, hoje não. Elas ficaram na creche.” Ela falou isso rápido porque viu por um segundo a expectativa no olhar dele, a mesma expectativa que uma criança faz quando pergunta se vai ter parque. Mateus piscou como se tivesse levado um pequeno soco. Ah, claro.
Ele respondeu, tentando disfarçar. Tudo normal. Luía entrou. A casa parecia ainda maior sem as meninas. E, pela primeira vez, ela notou: Aquela mansão não era silenciosa porque era elegante, era silenciosa porque era solitária. Ela começou a limpar o andar de cima. O som da vassoura era o único movimento no mundo. Foi quando a campainha tocou.
Luía olhou para o relógio ainda cedo, e a campainha naquele lugar tinha um som metálico, seco, que parecia sempre anunciar coisa ruim. Mateus desceu às escadas. Luía ouviu o clique da fechadura. Depois um toque toque no mármore, saltos. Ela sentiu antes de ver. O cheiro de perfume forte subiu pelo corredor, doce e agressivo como um tapa.
Carolina Amaral entrou como se ainda fosse dona da casa. Ela era alta, bonita, de um jeito calculado, com um conjunto azul marinho que parecia caro demais até para existir. O cabelo loiro liso caía perfeito. O sorriso não. O sorriso parecia uma faca guardada na bolsa. Luía parou no meio do corredor com o pano na mão. O corpo inteiro travou.
Carolina olhou para ela de cima a baixo, sem pressa. Como quem avalia um móvel velho. Então é você, ela disse a voz fina e limpa. Ah, empregadinha. Luía respirou devagar, sentiu o sangue subir no rosto, mas não baixou a cabeça. Faxineira, corrigiu, simples, sem agressão, sem medo. Carolina deu uma risadinha curta, falsa. Tanto faz.
Mateus surgiu atrás dela, o rosto duro de novo. O que você quer, Carolina? Nossa, ela fingiu ofensa. Que frio. Eu vim resolver umas pendências, assinaturas, coisas chatas. Luía tentou voltar ao trabalho, virar invisível. Era isso que ela sabia fazer. Só que naquela casa ela não era mais invisível. Não depois do quarto das nuvens.
Carolina caminhou pelo hall perto da janela que dava para o jardim. Ela viu algo no gramado, um potinho de bolhas de sabão esquecido, um carrinho pequeno perto da porta de vidro, pequenos sinais de vida. Os olhos dela estreitaram. “Você teve visitas?”, perguntou lenta. Mateus não respondeu, mas o silêncio respondeu por ele. Carolina virou o rosto e o olhar dela caiu na escada.
No segundo andar, ao fundo do corredor, dava para ver a porta branca com nuvens, só um pedaço, mas era suficiente. Você abriu aquele quarto? A voz dela mudou. Pela primeira vez, o sarcasmo perdeu o equilíbrio e virou espanto. Mateus ficou parado, não negou. Carolina sorriu, um sorriso feio. Depois de 5 anos, você finalmente desistiu da sua fantasia ridícula.
Não desisti de nada”, ele disse baixo. Carolina deu doispassos em direção a Luía, como se Luía fosse parte da explicação. “Então, foi por causa dela?”, perguntou a ponta do veneno brilhando. “Você está diferente.” Luía apertou o pano com força. As unhas quase cortaram o tecido. Mateus se aproximou, a voz fria. “Não fala com ela.” Carolina levantou as mãos.
fingindo inocência. Eu só estou curiosa, você sabe. Homens sozinhos ficam carentes, arrumam qualquer coisa para preencher o vazio. Luía sentiu o golpe. Não em si. Ela já estava acostumada com desprezo. O golpe foi pensar nas meninas, pensar nelas sendo qualquer coisa para alguém. Ela ia responder, mas antes disso, um grito infantil cortou o ar lá fora.
Mamãe! Luía correu até a janela e viu. Lia e Luna vinham correndo pelo jardim, acompanhadas da vizinha que sempre a ajudava. A creche tinha ligado: “Febre”. Busquei as duas. Luía sentiu o mundo balançar. Era preocupação, mas também alívio, porque as meninas estavam ali e porque ela já sabia que Mateus gostava delas.
Mateus abriu a porta antes mesmo de Luía terminar de descer. Lia e Luna viram ele e explodiram de alegria. “Tio Mateus!”, gritaram. Elas pularam nos braços dele sem medo, sem cerimônia. Mateus girou com as duas, rindo, rindo alto, um som que Luía nunca tinha imaginado ouvir naquela mansão. Carolina ficou paralisada no hall, olhando a cena como se fosse um insulto pessoal.
“Quem são essas crianças?”, ela perguntou com nojo aberto. Luía chegou perto, pegando a bolsa. A voz dela saiu firme. Minhas filhas. Carolina deu um passo, bloqueando a passagem. Você deixa isso entrar aqui? Apontou para as meninas como se apontasse para a sujeira. Lia e Luna pararam de rir. Lia se encolheu um pouco no ombro de Mateus. Luna apertou o braço dele com força, como se aquilo pudesse segurá-la no lugar.
Luía sentiu um calor subindo pelo corpo, um tipo de raiva que não é grito, é fogo. “Elas são limpas”, disse cada palavra bem colocada. “E são crianças, crianças de faxineira.” Carolina cuspiu, provavelmente cheias de Chega. Mateus cortou a voz mais alta do que nunca. Carolina virou para ele surpresa. Ela não estava acostumada a ser interrompida.
“Você vai defender isso?”, ela apontou de novo. Mateus desceu as meninas devagar no chão, como quem guarda algo frágil. Ficou na frente delas. O corpo dele virou parede. “Eu vou defender elas”, ele disse devagar e cada sílaba parecia uma porta batendo. “E vou defender a Luía também. O nome dela na boca dele fez Luía prender o ar. Não era a faxineira, era ela. Pessoa.
Carolina riu nervosa. Patético. Você brincando de família com você quer saber o que é patético? Mateus deu um passo à frente. Os olhos dele ardiam. Você entrar aqui só para ver se eu ainda sou seu. Carolina ficou branca, tentou manter o sorriso. Eu não te quero de volta. Eu só não aceito te ver feliz com isso.
Luía sentiu um frio na barriga, porque era verdade. Carolina não amava Mateus. Ela amava o controle e o controle estava escorregando. Dois dias depois, a armadilha começou. Na terça-feira seguinte, Luía voltou à mansão com as meninas de novo. Encanamento na creche, reforma emergencial, a vida empurrando de novo. Mateus recebeu a notícia com um brilho que ele tentou esconder e não conseguiu.
Cancelou reuniões. Mandou instalar um balanço no jardim como se tivesse pressa de recuperar anos. Luía limpava por dentro, ouvindo as gargalhadas lá fora. E pela primeira vez em muito tempo, ela se pegou sorrindo sozinha. Foi quando a campainha tocou. Mateus foi atender. Abriu, ninguém, só um envelope no chão com o nome dele.
Ele pegou, abriu, franziu a testa. Cobrança resmungou, voltando pro jardim. Luía não viu o que ele não viu, uma sombra escorregando pela porta lateral. Carolina. Ela entrou usando uma chave. Passou pelo hall sem fazer barulho, como um animal caçando. Os saltos dessa vez não tocaram no mármore. Ela tirou os sapatos na mão para não ser ouvida.
No hall de entrada havia uma escultura moderna de vidro, alta, cara, fria como a casa. Carolina encostou a ponta dos dedos nela. Primeiro de leve, depois com força. A escultura tombou e explodiu no chão com um som que parecia um tiro abafado. Vidros se espalharam como chuva. Carolina sorriu, pegou alguns pedaços maiores, embrulhou num pano e abriu a mochila pequena de Luna que estava jogada perto do sofá.
Colocou os cacos lá dentro com cuidado, como quem planta veneno. Depois saiu pela mesma porta, silenciosa, satisfeita. Meia hora depois, Mateus entrou com as meninas para pegar água. Parou na hora. O chão do hall brilhava de novo, mas agora com pontas perigosas. O que foi isso? Ele disse confuso. Luía desceu correndo.
Quebrou como? Mateus olhou ao redor tentando entender. Chamou alguém para limpar. Não fez drama. Era só uma escultura. Tinha seguro. Mas a armadilha não era sobre a escultura, era sobre a confiança. No fim da tarde, Luía já ia embora. As meninas estavam cansadas,cabelo bagunçado, rosto suado de brincar. Luía ajeitava os casacos quando a campainha tocou de novo.
Dessa vez, Mateus abriu e encontrou Carolina sorrindo como se fosse visita normal. Esqueci uma coisa aqui. Ela mentiu. Antes que ele respondesse, ela entrou rápida, direto onde sabia que a mochila estava. Mateus, ela gritou teatral. O que é isso? pegou a mochila e virou de cabeça para baixo. Os pedaços de vidro caíram no mármore com um som seco, cruel. Luía congelou.
O mundo ficou mudo por um segundo. Até as meninas pararam. Carolina apontou, o olhar brilhando. Isso é vidro da sua escultura. E então, como quem dá o golpe final, olhou para Luna. Parece que alguém quebrou e tentou esconder. Luna começou a chorar. na hora sem entender. Lia também não foi. Lia soluçou. A gente não fez.
Luía sentiu uma dor absurda, como se alguém tivesse apertado o peito dela com as duas mãos. Isso é mentira, ela disse. A voz tremendo, mas firme. Minhas filhas não tocaram em nada. Carolina abriu um sorriso pequeno. Então, como isso foi parar na mochila? Perguntou o doce. Você quer acusar quem? Luía olhou para Mateus e ali veio o pior segundo de todos.
Um segundo em que o olhar dele hesitou. Foi rápido, quase invisível, mas Luía viu, porque mãe vê tudo e aquela hesitação doeu mais do que a acusação. Mateus encarou o vidro, encarou a mochila, encarou as meninas chorando. Então, como se uma peça encaixasse dentro dele, ele levantou o rosto lentamente e olhou para Carolina.
“Como você sabe que foi a escultura?”, perguntou. Carolina piscou. Ué, porque ela se atrapalhou? Você deve ter me contado. Eu não te contei. Mateus respondeu calmo demais. E esse calmo era perigoso. O silêncio caiu pesado. Carolina abriu a boca, tentou inventar. Ah, Regina comentou comigo. Mateus nem precisou levantar a voz. Regina não trabalha aqui há dois anos.
Carolina empalideceu e pela primeira vez o controle escapou do rosto dela. Mateus deu um passo, os olhos fixos nela. Você entrou aqui, quebrou aquilo, colocou na mochila de uma criança de 4 anos. Luna chorava agarrada na perna de Luía. Lia tremia. Luía segurou as duas contra o corpo, como se pudesse proteger do mundo inteiro. Carolina tentou atacar.
Você está louco. Você vai escolher isso? Uma faxineira e duas crianças. Você vai destruir sua vida. Mateus respirou fundo, olhou para as meninas, depois olhou para Luía, e dessa vez não houve dúvida. A voz dele saiu firme, clara, como se fosse a primeira verdade em anos. Eu escolho elas. Carolina ficou imóvel, como se tivesse levado um tapa.
Ah, entendeu. Mateus continuou e o tom dele agora era de sentença. Eu escolho elas. Eu escolho a chance de ter uma família. E se você chegar perto delas de novo, eu acabo com você. Carolina deu um passo para trás. O sorriso sumiu. Ela não acreditava no que estava ouvindo. Luía não conseguiu respirar direito.
Ela olhava para Mateus, como se estivesse vendo um homem novo nascer ali na frente dela. Carolina virou e saiu derrotada, batendo a porta. Oll ficou cheio de cacos no chão, lágrimas de criança e uma verdade no ar. Mateus se virou para Luía. Ela ainda tremia. Ainda doía, ainda havia medo. Mas agora havia também outra coisa, um tipo de calor que ela não tinha coragem de nomear.
“Eu sinto muito”, ele disse baixo. “Eu devia ter te protegido antes.” Luía apertou as filhas, sentindo o cheiro delas. Suor, shampoo barato, vida. “Você protegeu agora?”, ela respondeu a voz quebrada. Mateus deu um passo, como se quisesse dizer mais, mas parou. Respeitou a distância. Lia levantou o rosto molhado de choro e olhou para ele.
“Você, você ainda gosta da gente?”, perguntou pequena, com medo de perder aquilo. Mateus se agachou na frente dela devagar. “Eu gosto”, respondeu. “Eu gosto muito.” Luna enxugou o nariz na manga e sussurrou. Então, a gente é família. Mateus olhou para Luía, não pediu permissão com palavras, pediu com o olhar. Luía sentiu o peito apertar.
Tudo era rápido demais, grande demais. Mas naquele instante ela percebeu: “Família não era um lugar perfeito. Era um lugar onde alguém escolhe ficar, mesmo quando dá medo.” Ela não disse sim ainda, não com a boca. Mas quando Mateus estendeu a mão e Luna segurou, Luía não puxou de volta.
E pela primeira vez, o corredor de mármore frio pareceu ouvir um som diferente. Não risada, não choro, uma respiração calma, como se a casa finalmente tivesse encontrado o ritmo de um coração.















