Quando Augusto Azevedo entrou na cozinha, o relógio ainda marcava 6:30 da manhã e o sol apenas se insinuava pelas fras das cortinas. Ele esperava encontrar o cheiro familiar do café passado na hora e o som das panelas se aquecendo no fogão. Mas naquele dia o aroma era outro, o de gelo derretendo sobre um rosto ferido.
No centro da cozinha, sobre o piso de mármore frio. Miguel, seu filho de 10 anos, estava ajoelhado num banquinho, segurando uma compressa de gelo contra a bochecha inchada de rosa, a nova faxineira da casa. Ela chorava, mas não de dor física. Era um choro contido, antigo, como se algo dentro dela finalmente tivesse rachado.
O silêncio que pairava ali era tão denso que parecia respirar por conta própria. Augusto parou na porta. A primeira reação não foi empatia, foi irritação. “O que está acontecendo aqui?”, perguntou sem elevar a voz, mas com aquele tom que deixava claro quem mandava. Rosa tentou se levantar. “Nada, senhor. Um, um acidente.
” A voz dela era fina, arranhada, o tipo de voz que aprendeu a se desculpar até quando apanha. Mas Miguel estendeu o braço, impedindo-a de se mover. Fica, Rosa, tá tudo bem. Eu prometo que vai ficar tudo bem. A delicadeza do gesto chocou o pai mais do que o hematoma. O menino não olhou para ele, continuou ali firme, como se soubesse que qualquer movimento brusco poderia quebrar algo invisível.
Augusto deu um passo à frente, o ar pesado. Rosa, quem fez isso com você? Ela abaixou os olhos. A vergonha parecia colada na pele. Foi um acidente, senhor. Eu tropecei no corredor, mas Miguel ergueu o rosto, os olhos marejados, a respiração trêmula. Pai, a Rosa não pode contar, mas eu sei o que aconteceu. O silêncio que veio depois foi quase um grito. Augusto tentou rir.
Você sabe? E desde quando criança se mete em assunto de adulto, o menino desceu do banquinho devagar. e ficou entre a funcionária e o pai. Um escudo humano, pequeno, mas inabalável, porque eu tava lá, eu vi tudo. Rosa balançou a cabeça, implorando em silêncio. Miguel apertou a mão dela sem soltar o gelo.
Augusto sentiu algo que há muito tempo não sentia. Medo, filho, o que você viu? Miguel mordeu o lábio inferior, hesitando. Não posso contar. Ainda não, mas se eu contar, talvez você fique bravo comigo também. Aquilo atravessou Augusto como uma lâmina. Bravo. Por quê? Porque não é só sobre a rosa, é sobre o que acontece aqui quando você não tá.
Aquelas palavras tiveram o peso de uma sentença. Rosa baixou a cabeça, as lágrimas caindo sem som. Augusto sentiu o estômago revirar. quis responder, mas não achou o idioma certo. Ele era fluente em negócios, não em sentimentos. Naquela manhã não houve café, só o gosto metálico da dúvida. O dia correu arrastado.
Na empresa, Augusto tentou se convencer de que fora tudo um mal entendido. Crianças inventam, funcionárias novas exageram, mas debaixo da mesa de reuniões, os dedos tamborilavam. Um tique de quem tenta abafar o próprio coração. A noite, quando voltou, encontrou Miguel calado à mesa de jantar, mexendo o pão sem comer. Filho, sobre o que aconteceu de manhã? Começou o pai. Eu falei a verdade.
Miguel cortou seco. Claro. Eu só quero entender melhor se você me disser. Se eu te contar tudo, você vai mandar ela embora. e levantou-se, deixando o prato intocado. Augusto ficou sozinho diante de uma mesa perfeita demais, limpa demais. A ordem da casa começava a aparecer uma ameaça. Na manhã seguinte, desceu mais cedo.
Esperava ver Rosa preparando o café, mas encontrou dona Eloía, a governanta, com o avental impecável e um sorriso burocrático. A Rosa pediu folga hoje, senhor. Não estava se sentindo bem. pediu folga. A quem? A mim, é claro, respondeu Eloía, ainda sorrindo. Algo no modo como ela disse aquilo o incomodou. Um sorriso educado que escondia a autoridade disfarçada de zelo.
Pouco depois, Miguel desceu, olhos baixos, empurrando o pão. “Bom dia, filho.” O menino não respondeu. Augusto tentou de novo. “Você tá bravo comigo?” Miguel balançou a cabeça, mas a tristeza era visível. Era um olhar de quem carrega culpa sem saber o nome dela. Mais tarde, no escritório, Augusto ligou para Rosa. A ligação demorou a ser atendida. Rosa, é o Senr.
Augusto, tá tudo bem? A voz do outro lado era frágil, longe. Estou sim, senhor. Só achei melhor me afastar um pouco. Por quê? Silêncio. Depois um sussurro. Às vezes ficar em silêncio é mais seguro. O som seco da linha cortando foi como um tapa. No fim da tarde, Augusto mandou chamar dona Eloía. Ela entrou no escritório com a compostura de quem sabia que nada a atingiria.
A senhora agrediu a Rosa? Perguntou ele direto. Eloía arfou ofendida. Senhor Augusto, depois de tantos anos, eu jamais. O que aconteceu então? O menino deve ter fantasiado, sabe como é? A Rosa tem um passado confuso. Confuso? Já houve histórias parecidas em outras casas. Posso lhe mostrar um relatório? Augusto ficoumudo.
O tom dela era impecável, como se estivesse prestando contas a um acionista. relatório. A palavra soou absurda, fria. Ele despediu Eloía com um aceno curto, mas algo o corroía por dentro. Aquela mulher sabia manipular a forma da verdade. Naquela noite, ao passar pelo corredor, Augusto ouviu um choro abafado vindo do quarto do filho. Encostou a mão na porta, mas não entrou.
Covardia, tem o som de uma respiração contida. Ele recuou, como sempre fazia. De madrugada, sonhou com o mesmo corredor, as luzes piscando, uma sombra parada à porta de Miguel. Acordou suando, o coração em disparada. O dia seguinte amanheceu cinza. Miguel desceu de pijama, o olhar cansado. “Dormiu bem?”, perguntou o pai. “Não, pesadelo.
” Miguel hesitou. Eu ouvi vozes, gente falando no corredor. E o que diziam? que ela não devia contar, que se contasse ia ser pior. Augusto ficou gelado. Quem, filho? Quem disse isso? Eu não sei, mas ela chorava. Rosa. O menino assentiu devagar. Augusto sentou exausto. O cheiro do café queimado, tomou a cozinha outra vez.
Ele bebeu um gole amargo, intragável, e sentiu que aquela amargura não vinha do pó, mas daquilo que vinha se escondendo dentro de casa. Naquela noite, decidiu ficar acordado. O relógio marcava 2as da manhã, quando ouviu o ranger suave do açoalho do corredor. Caminhou até a porta do quarto de Miguel e ficou parado ali, observando pela fresta.
O menino dormia ou fingia dormir. A luz do abajur tremia. Por um instante, Augusto sentiu algo passar atrás dele. Um sopro gelado, um arrepio. Quando se virou, não havia nada. Ainda assim, teve certeza de que não estava sozinho. Entrou no quarto devagar, sentou-se ao lado da cama do filho. “Eu tô aqui, Miguel”, murmurou. O menino abriu os olhos, sonolento.
Promete que não vai deixar ninguém me machucar. Prometo, respondeu o pai. Mas por dentro sabia. Promessas não adiantam quando a verdade dorme na casa errada. Na manhã seguinte, o sol voltou a entrar pela janela, mas a cozinha estava muda. Nem café, nem panelas. O silêncio era absoluto. Augusto percebeu finalmente que a casa toda o observava.
e que talvez pela primeira vez em anos, ele não tinha a menor ideia do que realmente acontecia dentro do próprio lar. A casa acordou fria naquela manhã. Nenhum som de louça, nenhum perfume de café, apenas o eco dos próprios passos de Augusto pelos corredores longos demais para um homem que de repente começou a se sentir pequeno dentro da própria vida.
Na mesa da cozinha, o pão amanhecido, o jornal dobrado e sobre a cadeira vazia o avental de rosa, pendurado como se ela tivesse apenas saído por um instante. Mas ela não voltou. Dona Eloía serviu o café sem ser chamada, o olhar complacente e distante. Rosa não está bem, senhor, pediu folga. Disse que precisava de um tempo.
Ela pediu a senhora? Claro, respondeu com um sorriso curto. Eu cuido de tudo aqui. Aquela frase ecoou como uma sentença. Eu cuido de tudo aqui. Mas o que tudo significava? Augusto a sentiu engolindo seco. Ao levar a xícara aos lábios, sentiu o gosto amargo e metálico, como se a casa tivesse temperado o café com culpa.
Mais tarde, o telefone tocou em seu escritório. Era rosa. A voz vinha distante, trêmula, como se atravessasse quilômetros de medo. Senr. Augusto, eu estou bem. Só achei melhor me afastar. Por quê? O que está acontecendo? Silêncio. Depois um sussurro. Às vezes ficar calada é mais seguro. Antes que ele pudesse responder, a ligação caiu. Ficou apenas o som seco da linha morta e um nó apertando a garganta.
Naquela noite, Miguel dormiu cedo ou fingiu dormir. Augusto tentou se distrair com relatórios, mas as letras embaralhavam. Às 2:45 levantou-se, guiado por um impulso sem nome, passou diante do quarto do filho e, por instinto, encostou o ouvido na porta. ouviu algo. Um sussurro de duas vozes, uma infantil e outra mais grave, mais distante, quase um eco.
Abriu a porta com cuidado. O quarto estava vazio, só Miguel na cama, os olhos abertos no escuro. Pai, ela tá aqui. Quem, filho? A mulher que fala comigo quando a casa dorme. Augusto gelou. O que ela diz? que eu não devo contar o que ouço, que ela também ficou presa aqui. Por um instante, ele quis rir, racionalizar, dizer: “Foi só um sonho.
” Mas o olhar do menino era sério demais, antigo demais. Saiu sem dizer nada, mas o coração martelava no peito como se pedisse socorro. No dia seguinte, o sol apareceu fraco. Miguel desceu com olheiras profundas. Filho, você ouviu de novo? perguntou o pai. Ela não fala de dia, só à noite.
E você acredita que é real? Eu não acredito. Eu sei. A resposta o atravessou. Augusto terminou o café sem perceber que o líquido estava frio. Horas depois, pegou o carro e dirigiu sem rumo até um bairro simples. Encontrou o endereço de rosa no arquivo da empresa doméstica e bateu a porta. Quem o atendeu foi uma senhora de voz doce, a mãe dela.
Boa tarde, eu sou Augusto Azevedo. Vim falar com suafilha. A Rosa tá aqui, sim. Um minuto. Ela surgiu na varanda abatida, com os olhos inchados. O senhor não devia ter vindo. Eu precisava ouvir de você. O que aconteceu naquela casa? Rosa olhou para o chão. Eu pedi para ele não contar. Para quem? Pro Miguel. Por quê? Porque ninguém acredita em criança, nem em mulher pobre.
Ela respirou fundo, mas o que ele disse é verdade. Tem algo naquela casa, algo que não dorme. Augusto tentou conter o impulso de negar. Isso é superstição. Não, senhor. Ela ergueu o rosto. É dor. Dor quando não é escutada, fica morando nas paredes. Ele ficou mudo. As palavras dela o feriram de um jeito novo. O tipo de ferida que não sangra, mas arde por dentro.
À noite, Augusto voltou para casa com a cabeça cheia. encontrou Eloía na sala, impecável, como uma estátua viva. “Pode preparar suas coisas, vai tirar uma licença.” “Por quê?”, perguntou, o sorriso nunca se desfazendo. “Porque eu quero.” Ela se inclinou. Cortez. Se quiser brincar de acreditar em contos de fadas, fique à vontade, senhor.
As palavras tinham perfume de veneno, mas ele não respondeu. Apenas subiu as escadas e, por um instante teve a sensação de que as paredes o observavam. No jantar, o clima era estranho. Miguel estava calado, mas menos tenso. “A Eloía vai voltar?”, perguntou. “Não.” “Por quê?” Porque eu escolhi acreditar em você. O menino o encarou desconfiado.
Você acredita mesmo? Eu estou tentando. Miguel suspirou. Ela disse que é tarde. Quem? A mulher. Disse que quando a gente começa a acreditar, ela já tá dentro. O garfo caiu da mão de Augusto. Pela primeira vez, ele sentiu que a razão era uma casa vazia. De madrugada, ele ouviu o barulho do sistema de câmeras que instalara há meses depois da morte de Lívia, sua esposa.
O monitor piscava, uma interferência breve, quase imperceptível. Na tela, o corredor, luzes fracas, a sombra de uma figura branca parada diante do quarto de Miguel. Augusto congelou. A imagem travou por um segundo e voltou ao normal, o corredor vazio. Ele correu escada acima, abriu a porta. Miguel estava acordado, sentado na cama.
“Você viu, né?”, perguntou o menino. O pai não conseguiu responder, só se aproximou e o abraçou forte. Era um gesto que misturava perdão e pavor. Na manhã seguinte, Rosa apareceu sem avisar. Estava pálida, os olhos fundos, mas determinada. Nas mãos, um caderno infantil encapado com adesivos e rabiscos.
Ele me entregou, disse para eu guardar até o senhor estar pronto para ver. Augusto abriu. As páginas estavam cheias de desenhos sombrios, corredores, portas, rostos sem olhos, símbolos circulares e frases escritas com letra trêmula. Ela me protege. Ela mente. A casa escuta quando a gente cala. O pai fechou o caderno, as mãos suando.
Desde quando ele desenha isso? Desde que a mãe dele morreu, respondeu Rosa. Disse que às vezes ouvia a voz dela e às vezes outra. Augusto engoliu em seco. Que outra? Uma voz fria, que chamava por ele e pedia para abrir a porta. A frase o atravessou como uma lâmina de gelo. Nunca soube de nada disso.
Nunca soube o que o filho guardava. Nunca soube o que Lívia suportou em silêncio. Naquela noite, ele finalmente abriu a caixa de recordações da esposa. Dentro, diários encapados de azul, fotos antigas e um envelope lacrado com cera vermelha. Na caligrafia de Lívia, se algo me acontecer, não abra sozinho. Ele hesitou, mas o coração não obedeceu.
Rasgou o selo. Dentro uma única folha. Desde que Miguel nasceu, sinto que algo nos observa. Não sei se é loucura ou castigo, mas é real. Se um dia ele falar de vozes, acredite nele, porque eu também as ouvi. Augusto deixou o papel cair no chão. O quarto girou, o ar faltou. Por um instante, teve certeza de que Lívia estava ali em algum ponto do silêncio, dizendo: “Eu te avisei”.
Quando amanheceu, a luz atravessava as janelas como uma promessa quebrada. Miguel dormia tranquilo, mas o pai ficou parado à porta, olhando. O menino respirava em paz e isso o apavorava ainda mais, porque agora ele sabia que a paz naquela casa era só a forma mais calma do medo. O amanhecer seguinte trouxe um silêncio que não era paz, era espera.
Augusto sentia no corpo um cansaço que não vinha do sono, vinha de algo mais profundo, de um medo que começava a ter forma. Na cozinha, Rosa colocava água para ferver. O som das bolhas era o único ruído vivo naquela casa. Miguel desenhava em silêncio na ponta da mesa. Quando o pai se aproximou, o menino tampou o papel como se escondesse um segredo.
O que está desenhando o filho? A mulher que vem de noite”, respondeu sem levantar o olhar. “Mas hoje ela tá diferente. Diferente como? Tá com raiva?” O lápis riscou o papel com força. Rosa olhou para o pai inquieta. “Senhor Augusto, a gente precisa sair dessa casa.” “Sair para onde? Para onde tudo começou?” Augusto demorou um instante para entender.
O senhor lembra do colégio que apareceu no diário da dona Lívia? Ela continuou.Colégio Santa Luzia. Ele assentiu, lembrando-se das páginas em que a esposa falava dos pesadelos do dormitório. Rosa respirou fundo. Eu já ouvi esse nome antes. Minha avó estudou lá. Sempre dizia que o lugar era amaldiçoado. A frase ficou pairando no ar.
como uma sentença antiga. Naquela mesma noite, Augusto decidiu ir. Santa Luzia o chamava e ele já não podia fingir que não ouvia. A estrada saíram de madrugada. Miguel dormia no banco de trás, o rosto pálido, e Rosa o observava como quem vigia um presságio. Enquanto dirigia, Augusto pensava em Lívia. As palavras do diário voltavam como uma oração invertida.
Se um dia ele falar de vozes, acredite, o horizonte amanhecia quando chegaram à estrada de terra. No portão enferrujado lia-se: Colégio Santa Luzia, fundado em 1926. O mato cobria as paredes, as janelas eram buracos escuros, o vento soava como suspiro. “Eu já me arrependi”, disse Rosa trêmula. É tarde para voltar”, respondeu ele, sem tirar os olhos do portão.
O arquivo lá dentro, o ar cheirava mofo e ferrugem, as madeiras rangiam sob os passos. Na antiga sala da diretoria havia caixas e pastas empilhadas, cobertas de pó. “Miguel se agarrou à mão do pai.” “Pai, eu não gosto daqui”, sussurrou. Já vai acabar, meu filho. Entre os papéis amarelados, Augusto encontrou uma ficha com o nome Lívia Duarte Azevedo, turma de 1998.
Nos relatórios médicos, a aluna relata visões noturnas, mulher vestida de branco dentro do dormitório. Recomendado acompanhamento psiquiátrico. O coração dele acelerou. Lívia tinha só 16 anos. Ninguém nunca contou isso. Rosa, foliando outra pasta, encontrou uma fotografia de turma. As alunas posavam no pátio, sorrisos congelados.
No canto, uma garota isolada, olhar vazio. No verso da foto, uma frase escrita à mão. Ela escolhe as mais sozinhas. Rosa empalideceu. Eu conheço essa menina. Como assim conhece? Ela era da minha infância, chamava Isadora. Eu me lembro dos desenhos que ela fazia. Círculos com três pontos, igual ao símbolo dos diários da dona Lívia.
Ela segurou a foto com as mãos trêmulas. Diziam que ela era estranha, que conversava com o espelho. Um dia simplesmente desapareceu. O nome revelado Augusto encontrou um recorte de jornal empoeirado. Desaparecimento de aluna do colégio Santa Luzia em 1998, ainda sem solução. Isadora Corte Real, 17 anos, foi vista pela última vez durante a madrugada.
Rumores indicam práticas de rituais e isolamento emocional. O mesmo sobrenome soou familiar demais. Corte real. Rosa largou a foto chocada. Esse é o sobrenome da minha avó. Os dois se entreolharam. O ar pareceu encolher dentro da sala. Rosa. O que isso significa? Que talvez a mulher de branco não seja só da sua família, seja da minha também. O quarto de Lívia.
De volta à casa, o clima era outro. O silêncio agora respirava por baixo das portas. Naquela noite, Miguel desapareceu do quarto. Augusto e Rosa correram pelos corredores até o antigo quarto de Lívia. A porta estava entreaberta. No centro, o menino estava de pé, parado diante do espelho da penteadeira, os olhos abertos, mas vazios.
Quando o pai o tocou, Miguel falou com uma voz que não era dele. Aqui ela morreu por dentro. Aqui eu nasci. O espelho tremeu. A moldura rachou de alto a baixo. O menino caiu desmaiado. Rosa gritou. Augusto o carregou no colo, o coração disparado. O som do vidro quebrado ecoava pela casa como um chamado. O convento, dois dias depois, seguiram para o convento das irmãs do Sagrado Coração, onde a antiga diretora de Santa Luzia vivia em reclusão.
Madre Beatriz era pequena, idosa, mas os olhos ainda guardavam fogo. Augusto mostrou a foto de Isadora e Lívia. A mulher suspirou cansada. Então é verdade, o ciclo recomeçou. Que ciclo? Perguntou Rosa. Isadora era especial, sozinha demais. Encontrou um livro antigo na capela, um manuscrito sobre rituais de companhia eterna.
Achava que podia invocar uma presença que nunca a abandonasse, mas algo deu errado. Ela desapareceu e dias depois, Lívia começou a dizer que via uma mulher de branco. “A próxima casa”, murmurou a madre, fechando os olhos. “O que a senhora quis dizer com isso?”, insistiu Augusto. “É sempre assim.
Cada geração precisa escolher, silenciar ou ouvir. Quando se cala, a casa vira abrigo daquilo que foi esquecido. Lívia tentou fugir. Agora a casa voltou a chamá-la por meio do menino, as raízes do sangue. No caminho de volta, o carro seguiu mudo. Rosa tremia. Minha voz se chamava Rita Corte Real. Estudou aqui também. Dizia que o mal não entra pela porta, mas pelo reflexo.
Augusto sentiu um arrepio. Corte real, o mesmo sangue. Ela nunca falava disso. Só cantava uma música de Ninar. Rosa murmurou baixinho a melodia. Miguel, ainda febril, mexeu-se no banco de trás, como se reconhecesse o som. Essa é a canção que ele canta dormindo”, sussurrou Augusto. O medo virou certeza, o pacto. Naquela noite, Rosa acordou com um sussurro.
Nosonho ou no que parecia sonho, uma menina de branco a chamava num corredor sem fim. “Você prometeu não me deixar sozinha.” Rosa chorava. Eu era criança. Eu não sabia o que prometia. Agora você sabe, respondeu a voz. Se quiser que o menino viva, me dá o seu corpo. Rosa acordou gritando, o coração aos pulos. Augusto correu até o quarto. Ela contou o que ouvira e ele, pálido, balançou a cabeça.
Isso não pode ser a única saída. Talvez seja, disse Rosa, as lágrimas secando. Eu sou o Elo. O sangue dela corre em mim. O silêncio entre eles era mais pesado do que qualquer resposta. A teoria da casa aberta. No dia seguinte, o sol nasceu sem brilho. Augusto olhou ao redor e disse: “Essa mulher não é um fantasma, é um espaço, um buraco entre culpa e abandono.
” Rosa concordou. E nós alimentamos esse buraco cada vez que calamos. Lívia abriu a porta quando fugiu do passado. Eu deixei aberta quando neguei o meu. O Senhor quando escolheu o silêncio. As palavras ficaram suspensas. Miguel dormia febril, com o rosto tranquilo demais. Do lado de fora, o vento soprou pela janela e fez as cortinas dançarem como véus brancos.
Augusto fechou os olhos. Então é isso. A casa está aberta e só a verdade pode fechá-la. Completou Rosa. A partir dali sabiam que não havia mais volta. Para salvar o menino, teriam de enfrentar o que a casa guardava e o que cada um escondia dentro de si. A noite chegou sem pedir licença. Do lado de fora, o vento soprava forte, fazendo os giraçóis do jardim se curvarem como se orassem.
Dentro da casa, o ar parecia pesado demais para ser respirado. Era como se cada parede guardasse um grito. Rosa olhava para Miguel adormecido no sofá. O menino respirava irregular, o corpo coberto por um suor frio. Augusto andava em círculos, o rosto cansado, as mãos tremendo. “Não adianta fugir”, disse Rosa com a voz firme.
“A casa quer ser ouvida. E se ouvir custar caro demais?”, perguntou ele sem encará-la. Pior é fingir que nada aconteceu. Foi assim que ela cresceu dentro da gente. O relógio marcou três da madrugada. O mesmo horário em que tudo começava, o mesmo horário em que o silêncio acordava, o início do ritual. Rosa colocou o menino no centro da sala, sobre uma manta branca.
Em volta, velas acesas formavam um círculo irregular. Sobre a mesa, espalhou o diário de Lívia, as cartas da avó e os desenhos de Miguel. “O que vamos fazer?”, perguntou Augusto com voz rouca. O que nunca fizemos falar. Ela acendeu a última vela e começou a recitar palavras antigas que lembrava da infância, misto de oração e lembrança. Se você está aqui, fale pela verdade.
Se quer ser vista, que seja pela luz. As chamas oscilaram, uma se apagou. O ar da sala ficou denso, frio. Augusto segurou a mão do filho. “Eu sou o pai dele”, disse com a voz embargada. Eu falhei, fugi, calei, ignorei, mas agora eu tô aqui e você não vai levá-lo por causa do que eu escondi.
O corpo de Miguel se moveu, os lábios tremiam e então uma voz saiu dele, mas não era dele. Ele me chamou primeiro. Augusto recuou, o coração disparando. Quem? Quem te chamou? A que ficou sozinha. A que prometeu companhia eterna. Rosa abriu um dos diários de Lívia e folhou com desespero. Aqui, olha, apontou. Aos quatro anos, Miguel começou a falar com uma mulher invisível.
Ela dizia: “Seu filho me pertence. Você abriu a porta quando tentou fugir.” O silêncio que se seguiu foi cortado por um som seco, o estalar das janelas se abrindo sozinhas. As cortinas balançaram como véus vivos. O fogo das velas tremia em todas as direções, a aparição. E então ela apareceu, a mulher de branco, não como um vulto, mas como uma presença sólida, serena, triste.
Os pés flutuavam levemente sobre o chão e os olhos, agora visíveis, eram olhos humanos cheios de cansaço. “Você voltou”, murmurou Rosa, lágrimas escorrendo. Você prometeu não me deixar sozinha. Eu era criança, Isadora. Eu não sabia o que prometia. Agora sabe. Augusto se colocou entre as duas, a respiração curta. Se quiser alguém, leva a mim.
A mulher sorriu com uma dor antiga. Você acha que isso é uma troca? Não é sobre corpo, é sobre silêncio. Você se escondeu no luto, ela na vergonha e o menino no medo. Eu sou o que restou de tudo isso. Rosa chorava. Então, o que você quer que me escutem? Que alguém finalmente me escute sem medo. O espelho da culpa.
De repente, o espelho da sala começou a trincar. Cada rachadura refletia uma lembrança. Lívia chorando sozinha. Augusto gritando calado, rosa pequena, escondida num colégio, ouvindo promessas que não entendia. O menino abriu os olhos. Eles estavam escuros, sem cor, mas dentro deles algo pedia ajuda. “Pai, ela quer ficar”, murmurou Miguel.
Ela disse que o amor dói, mas o silêncio mata. Augusto o abraçou. Então, que doa, mas não te leve. Nesse momento, Rosa se ajoelhou diante da mulher. Eu lembro agora. Eu estava lá. Você me chamou, pediu para eu ficar e eu fugi. Eu te deixei sozinha. Amulher a tocou no rosto. Eu só queria parar de doer.
Rosa tirou do pescoço um pequeno relicário. Dentro uma foto antiga. Duas meninas de mãos dadas. Ela e Isadora. Eu nunca te esqueci, mesmo sem lembrar. A mulher sorriu, um sorriso humano, cansado, bonito. Então lembra de mim assim, não como sombra, mas como menina. E lentamente começou a desaparecer. Primeiro os pés, depois o corpo, por fim os olhos.
A última vela se apagou sozinha, a luz interior. Miguel desabou nos braços do pai. Por um instante, o silêncio foi absoluto. Então, uma claridade suave começou a nascer do peito do menino, uma luz que não vinha de fora, mas de dentro. Ela se espalhou pela sala, tocando as paredes, os retratos, as rachaduras. Era a própria casa respirando alívio.
Rosa caiu sentada chorando e rindo ao mesmo tempo. Augusto fechou os olhos, deixando as lágrimas caírem. Não havia medo, apenas exaustão e um tipo estranho de paz. O depois, quando amanheceu, a casa cheirava a vida. O sol atravessava as janelas com leveza. Miguel dormia tranquilo, um leve sorriso no rosto. Rosa cuidava do café e Augusto ficou olhando para a janela, como quem finalmente aprendeu a ver.
“Sabe o que ela me disse antes de ir?”, murmurou Rosa, que a culpa não precisa ser enterrada, só abraçada. Augusto sorriu cansado, mas inteiro. Então é isso que vamos fazer, abraçar o que ficou. Dois anos depois, o jardim da casa era outro, cheio de vida, cores e vozes. Miguel agora tinha 12 anos e cuidava dos giraçóis com rosa, que se tornara parte da família.
Augusto o levava à escola todos os dias. preparava café e pela primeira vez ouvia mais do que falava. Numa tarde de outono, o menino voltou correndo da horta. Pai, adivinha o quê? Plantei no lugar certo. Com quem? Miguel sorriu com a moça do vestido branco. Rosa que estava na varanda, gelou por dentro. Você viu ela, Miguel? Vi. Mas não como antes.
Ela não assusta mais, só observa. Augusto se aproximou. E o que ela te disse? Que o amor, quando é ouvido, fecha todas as portas. O pai e Rosa trocaram um olhar longo, carregado de ternura e respeito. A casa que escuta. À noite, quando todos dormiam, o vento voltou a soprar. A cortina do quarto se moveu e, por um instante, o espelho refletiu uma mulher sentada à beira da cama de Miguel, sorrindo com serenidade. Não havia sombra, só luz.
Na mesa de cabeceira, um bilhete escrito à mão por Augusto. Nem toda dor precisa virar fantasma. Algumas, quando escutadas com amor, viram casa. E foi assim que o silêncio finalmente aprendeu a escutar. M.















