Traficantes invadiram Bar na periferia de Salvador às 2h — Dono era ex-membro do Comando Vermelho

7 de outubro, 2h23 da madrugada. O bar do Neto estava a fechar quando três homens armados entraram pela porta dos fundos. Exigiram controle do ponto. O proprietário limpava copos atrás do balcão e não respondeu de imediato. Apenas olhou para cada um deles da esquerda para a direita, com uma calma que não combinava com canos de revólver apontados para o seu rosto.
Um dos invasores riu-se. Achou que era medo. Não era. O bar ficava numa ruela estreita da periferia de Salvador, um daqueles locais onde todos conhecem todo mundo, onde o movimento é maior depois da meia-noite e onde certas conversas acontecem longe dos ouvidos errados. Neto tinha comprado o ponto há 4 anos, pagou à vista.
Ninguém perguntou de onde vinha o dinheiro. Ninguém perguntava muita coisa sobre o Neto. Era um homem de 42 anos, magro, pele marcada pelo sol, cabelo começando a ralear. Usava t-shirt branca e chinelo. Falava pouco, trabalhava muito. O bar abria todos os dias às 7 da noite e fechava quando o último cliente saía, geralmente perto das 3 da manhã.
Cerveja gelada, petisco simples, som ambiente baixo, nada chamativo, nada que atraísse demasiada atenção, mas havia pequenos pormenores, quase invisíveis. A forma como segurava os objetos, sempre com a mão dominante livre, a postura erecta, mesmo depois de horas de pé, o forma como olhava para a rua antes de abrir e depois de fechar, verificando ângulos, identificando movimentos e a cicatriz fina que subia do pulso esquerdo até desaparecer sob a manga.
Uma cicatriz de faca, profunda, antiga. Os clientes não reparavam ou fingiam não reparar. Neto era boa gente, fiado para quem precisava, discreto com toda a gente, nunca se metia em confusões, nunca falava de política, de religião, de facção. Servia a cerveja, ouvia quando queriam falar, ficava em silêncio quando não queriam.
Perfeito para um bairro onde o silêncio é moeda de sobrevivência. A região era território disputado, sempre foi. Nos últimos meses, um grupo ligado ao BDM tinha começado a pressionar os comerciantes. Queriam taxas, queriam controlo, queriam deixar claro quem mandava. Neto nunca tinha pago. Quando vieram cobrar a primeira vez há três meses, disse que não.
Sem explicação, sem desculpa, apenas não. O cobrador era jovem, devia ter uns 20 anos. Já tinha o corpo tatuado e olhar duro de quem cresceu na violência. Ele encostou a mão ao cabo da pistola enfiada na cintura e perguntou se o Neto tinha a certeza. Neto não desviou o olhar, disse que tinha.
O cobrador saiu, voltou uma semana depois com mais dois. Neto repetiu a resposta. Eles foram-se embora de novo. Isso deveria ter sido um sinal. Nenhum comerciante daquela zona recusava a taxa duas vezes. Mas os traficantes interpretaram como teimosia, como orgulho burro de velho que não percebia como as coisas funcionavam.
decidiram que precisavam de deixar um exemplo. Por que, na madrugada de 7 de outubro, três homens entraram no bar do neto com armas em punho e ordem para não sair sem o dinheiro ou sem o respeito. O líder se chamava-se Diogo, de 24 anos. Já tinha duas passagens por tráfico e uma por homicídio.
Era considerado promissor na hierarquia local, agressivo, sem medo. Os outros dois eram soldados, um com uma pistola. Ponto 40, outro com 38. Diogo entrou à frente, arma apontada, voz alta. Fecha já essa porra. Neto estava sozinho. O último cliente tinha saído 10 minutos antes. Ele estava limpando copos, organizando o balcão, preparando para trancar.
Não correu, não gritou. Colocou o copo que segurava no balcão lentamente e olhou para o Diogo. Bar está a fechar, mano. Volta amanhã. Diogo deu dois passos em frente. Você não está entendendo? Aqui é o nosso ponto agora. Ou paga-se ou a gente leva. Neto respirou fundo, olhou para os outros dois que tinham-se posicionado perto da porta, bloqueando a saída.
Olhou para as armas, calculou distâncias, calculou ângulos, calculou o tempo. Tudo isto em menos de 3 segundos. Depois olhou de novo para Diogo. Não tenho nada para vocês. A resposta era simples, direta, mas o tom era errado. Não era medo, não era desafio, era apenas informação, como alguém a dizer que a cerveja acabou ou que o WC estava quebrado.
Diogo sentiu algo estranho, uma pontada de desconforto que não conseguiu identificar. Abanou a cabeça. Velho, quer morrer? Neto não respondeu. Ficou parado, mãos ao lado do corpo, respiração controlada, olhos fixos. Um dos soldados, o da Ponto 40, deu um passo para o lado nervoso. Havia algo na postura daquele homem que não fazia sentido.
Não era rigidez de quem está com medo, era imobilidade de quem está à espera. O Diogo apontou a arma diretamente para o rosto de Neto. Última hipótese, velho. Onde está o dinheiro? Não tem dinheiro aqui. Era mentira. Tinha um pequeno cofre no depósito dos fundos. Tinha o caixa da noite. Tinha talvez R$ 3.000 em espécie.
Mas Neto sabia que não era sobre dinheiro, era sobre controlo, tratava-se de deixar claro quem mandava. E sabia que se pagasse uma vez, pagaria sempre. E se pagasse sempre, mais cedo ou mais tarde, alguém começaria a fazer perguntas, a investigar, a descobrir quem tinha sido. O Diogo perdeu a paciência, avançou, pegou numa cadeira e atirou-a contra a parede. O barulho ecoou.
Virou a mesa mais próxima. As garrafas caíram e se quebraram. Neto não se mexeu, apenas observava. Isso deixou Diogo ainda mais irritado. Achas que eu tô brincando? Silêncio. Responde. Acho que vocês precisam de sair. A voz de Neto continuava calma, controlada, como se estivesse a pedir a alguém apagar um cigarro, não expulsando três homens armados.
O Diogo olhou para os dois soldados. Eles pareciam confusos. Aquilo não estava a correr como planeado. Está bom, quer do jeito difícil. Diogo avançou e agarrou o Neto pela gola da camisa. encostando o cano da arma debaixo do queixo dele. Esperava sentir o corpo tenso, a tremer. Esperava súplica. Esperava o momento em que o medo quebrasse a teimosia. Não veio.
O O corpo de Neto estava relaxado, quase solto, as mãos ao lado do corpo, olhos ainda fixos. E então o Diogo sentiu a pressão, subtil, quase imperceptível. Neto tinha-se inclinado ligeiramente para a frente, para dentro da arma. Não para longe. Era um movimento errado, um movimento que ninguém fazia, a não ser que soubesse exatamente o que estava fazendo. Diogo largou e recuou um passo.
Que porra é você? Neto não respondeu, apenas respirou devagar, fundo, como alguém que se está a preparar para algo ou controlando-se para não fazer algo. O Diogo deu ordem aos outros dois revirarem o bar. Começaram a abrir gavetas, atirar coisas para o chão, partir o que viam pela frente. Neto observava cada movimento, cada posição mapeando.
Encontraram o pequeno cofre embutido na parede do depósito. O Diogo ordenou que Neto abrisse. Neto disse que não. Diogo deu um tiro para o ar. O barulho explodiu no espaço fechado. Neto piscou uma vez. Só isso, nenhum outro sinal de reação. Isso estava a começar a assustar os soldados.
Um deles, o do 38, murmurou algo para o Diogo. Neto não ouviu o que foi, mas viu a hesitação. O Diogo estava preso. Se saísse sem nada, perderia respeito. Se matasse ali o velho, seria problema com os superiores. Matar comerciantes sem necessidade atraía a polícia. Decidiu levar o Neto. Ia torturar informação dele noutro lugar.
ordenou que os soldados amarrassem as mãos do dono do bar. Quando o primeiro se aproximou-se com um pedaço de corda, Neto falou pela primeira vez em minutos: “Não faz isso. Não foi ameaça, foi aviso.” A diferença era subtil, mas clara. O soldado hesitou, olhou para Diogo. Diogo gritou para ele continuar. O soldado avançou.
Neto não resistiu, deixou amarrar nas suas mãos à frente do corpo, corda apertada, mas não tanto. Ele manteve os pulsos ligeiramente separados enquanto amarravam. Técnica antiga: cria espaço. Arrastaram-no para fora do bar. A viela estava vazia. 2:40 da madrugada. Ninguém na rua. Uma moto esperava a 20 m. Iam levar o Neto para uma casa abandonada que o grupo utilizava.
Lá longe de testemunhas, fá-lo-iam falar e se não falasse, fá-lo-iam servir de exemplo. Caminharam pela travessa, o Diogo na frente, os dois soldados segurando Neto pelos braços. Não lutou, não tentou correr. Andava normalmente, olhando para o redor, reparando em cada detalhe. Beco à esquerda, muro baixo à direita, poste de luz quebrada criando sombra, cão ladrar três casas adiante, vento leve vindo do norte.
Ele estava a catalogar, preparando. Chegaram à moto. Diogo ligou. O roncar do motor partiu o silêncio. Um dos soldados ia colocar neto na garupa quando ouviram vozes. Dois homens vinham pela rua embriagados, rindo alto. O Diogo mandou todo mundo recuar para a sombra. Esperaram. Os homens passaram sem ver nada. Quando desapareceram, Diogo praguejou.
Estava nervoso agora. queria acabar logo com aquilo. Foi quando o Neto se mexeu. Não foi explosão, foi a precisão. Ele torceu os pulsos, criou espaço na corda, passou as mãos atadas por cima da cabeça do soldado à sua esquerda, puxou a corda contra o pescoço dele e rodou o corpo usando o homem como escudo. Tudo em menos de 2 segundos.
O soldado engasgou-se, tentou gritar, não conseguiu. Neto apertou, sustentou, contou mentalmente. 5 segundos. O corpo ficou mole. O outro militar reagiu tarde, levantou a arma. Neto já tinha pegado na pistola do homem que estava a cair. Disparou uma vez. Centro de massa. O soldado caiu. Diogo estava na moto a 5 m, tentou sacar.
Neto disparou de novo duas vezes. O Diogo caiu da moto baleado no ombro e na perna. A moto tombou. Silêncio. Neto ficou parado, arma na mão, respiração ainda controlada. Olhou em redor. Ninguém tinha saído das casas. Os tiros tinham sido rápidos, secos. Podiam ter sido rojão, motor a rebentar, qualquer coisa. Ninguém investigava barulho de tiros na periferia às 3 da madrugada.
Era questão de sobrevivência. O Diogo estava no chão, gemendo, sangrando. Neto caminhou até ele, pontapeou a arma para longe, agachou-se, olhou nos olhos o traficante. Você não devia ter voltado. O Diogo cuspiu sangue. Quem? Quem é você? Neto não respondeu, pegou no telemóvel do bolso de Diogo desbloqueado, rolaram os contactos, encontrou o que procurava, um número guardado como comando.
Discou, tocou três vezes. Voz do outro lado. Diogo, não. Silêncio. Então, a voz mudou, ficou tensa. Quem é alguém que vocês não deviam ter mexido. Você matou os meus homens. Um morto, um desmaiado, um baleado. E eu estou a mandar um recado. Que recado? Fica longe do meu bar. A voz do outro lado hesitou, depois perguntou mais devagar: “Como se chama?” Neto olhou para Diogo, que ainda sangrava no chão.
Olhou para a ruela vazia. Pensou na vida que tinha construído nos 4 anos de silêncio, no anonimato que comprou com distância e descrição. Pensou em quanto tempo ainda teria se respondesse àquela questão, mas já era tarde, já tinha começado. Podes chamar-me Neto? Neto não é nome, é o único que vai ter. desligou, atirou o telemóvel para o chão, quebrou com o pé, voltou a olhar para Diogo.
Você vai sobreviver se ficar quieto. Deixa o sangue coagular, fica parado. Em 20 minutos, alguém passa aqui. Por quê? Por que não me mata? Neto levantou-se. Porque já não faço isso. Caminhou de volta para o bar, as mãos ainda amarradas, mas frouxas agora. pegou a chave no bolso, abriu, entrou, fechou, acendeu a luz, olhou para a confusão, cadeiras viradas, garrafas partidas, o cheiro de pólvora ainda no ar, cortou a corda com uma faca da cozinha, massajou os pulsos, pegou num copo, serviu cachaça, bebeu de uma vez, depois começou a
limpar. Isto aconteceu numa segunda-feira. Na terça-feira, o bar não abriu, nem na quarta-feira. Começaram a circular rumores. O Diogo tinha sido encontrado baleado, levado para o hospital clandestino. Sobreviveu, mas estava falando sozinho, repetindo que tinha mexido com a pessoa errada. O soldado que desmaiou acordou horas depois, desorientado, com traumatismo no pescoço.
O outro estava morto. A facção local ficou em alerta. Queriam saber quem era o dono do bar. Mandaram gente investigar, descobriram pouco. Neto tinha comprado o ponto com dinheiro vivo, sem registo anterior em Salvador, sem família aparente, sem antecedentes criminais. Mas isso em si era suspeito. Todo mundo tinha histórico, toda a gente tinha passado.
Quando alguém não tinha, significava que tinha apagado. Começaram a perguntar discretamente para gente mais velha, gente que circulava, gente que tinha ligações fora da Bahia. E foi aí que surgiu um nome, não neto. Outro nome, um nome que não era dito em voz alta, um nome do rio de há anos, de quando o comando vermelho estava expandindo-se, de quando as guerras internas deixavam pilhas de corpos.
O nome era Roberto Carlos Santos, conhecido por Betão, ex-militar do CV, especialista em execuções, responsável por pelo menos 15 mortes confirmadas durante a guerra entre a CV e a ADA no Rio, nos anos 2010. Desapareceu em 2019, logo após uma chacina que matou três líderes rivais numa festa em Duque de Caxias.
Nunca foi preso, nunca foi encontrado, considerado morto ou foragido e agora talvez dono de um bar nos arredores de Salvador. A informação chegou ao comando do BDM local na quinta-feira, causou divisão. Uns queriam a guerra, queriam mostrar que não tinham medo do nome, do passado, de reputação.
Outros eram mais velhos, mais experientes. sabiam que mexer com alguém como Betão não era uma questão de coragem, era uma questão de custo. Quantos homens está disposto a perder? Quanto sangue quer derramar por um bar que nem sequer é ponto de venda? Enquanto discutiam, Neto reabriu o bar na seest, como se nada tivesse acontecido.
Mesmo horário, a mesma rotina, a mesma calma. Os os clientes voltaram aos poucos. Ninguém perguntou sobre a noite de segunda-feira, ninguém perguntou pelos tiros, ninguém perguntou por o bar tinha ficado fechado. Era a regra do bairro: ver, ouvir, calar. Mas toda a gente sabia. De alguma forma, a notícia tinha sido divulgada.
O dono do bar do neto não era quem parecia ser, e os traficantes tinham mexido com a pessoa errada. No sábado à noite, dois homens entraram no bar. mais velhos, um deles com quase 50 anos, tatuagem desbotada no braço, cicatriz atravessando o rosto. Ele pediu duas cervejas, neto serviu. Os homens beberam em silêncio.
Passados 10 minutos, o mais velho disse: “Betão, o Neto deixou de limpar o balcão, não olhou diretamente para o homem, ficou de lado, postura relaxada, mas pronta. Esse nome já não existe. Os nomes não morrem, apenas são esquecidos. Então deixa-o ser esquecido. O homem bebeu mais um gole. Mensagem do comando. Querem saber se é você.
E se for, portanto foi erro nosso e pagamos o erro. Neto olhou-o agora, reconheceu o tipo soldado antigo, alguém que tinha visto coisas, alguém que entendia a hierarquia e o respeito. Não era ameaça, era negociador. Que tipo de pagamento? Fica em paz. A gente não mexe no o seu bar, não mexe em si, não cobra taxa, não cobra nada. em troca de si.
Não mexe connosco, não interfere nas operações, não causa problema. Neto pensou. Era uma oferta demasiado boa, tinha que ter mais. E o homem sorriu. Sabia que o Neto ia buscar o detalhe. E se a gente necessitar de informação sobre certos assuntos, sobre certas pessoas, sobre certas coisas do passado, podemos vir conversar.
Agora ficou claro, queriam-no como consultor, alguém que entendia de guerra de facção, de hierarquia do CV, de como as coisas funcionavam no Rio. O conhecimento vale mais do que músculo e conhecimento de dentro do CV valia ouro para quem estava tentando expandir território. Neto serviu mais uma rodada de cervejas de graça. Já não me meto em nada disso.
A gente sabe. Mas o conhecimento não morre. O conhecimento é perigoso, por isso vale tanto. Ficaram em silêncio. Neto sabia que se recusasse a paz não duraria. Mais cedo ou mais tarde, alguém mais novo, mais impulsivo, ia querer testar, ia querer provar que não tinha medo. E aí seria a guerra.
E a guerra era atenção. E a atenção era investigação. E investigação era risco de polícia descobrir quem ele era realmente. Uma vez por mês, no máximo, apenas informação. Nada operacional. O homem estendeu a mão. Neto apertou. Acordo feito. Os dois saíram. Neto ficou sozinho, olhou para o redor do bar, o seu refúgio, o seu anonimato, agora contaminado, mas ainda de pé, ainda funcional, ainda dele.
Serviu cachaça para si próprio. Bebeu devagar desta vez, pensando. Ele tinha morto pela primeira vez aos 18 anos. Defesa de um amigo numa luta de boca que se tornou uma briga de facas. descobriu que era bom nisso, frio, preciso, sem hesitação. O CV notou, recrutou, treinou, usou. Durante 12 anos, Betão foi a ferramenta que usaram quando precisavam de algo limpo, rápido, definitivo.
Nunca gostou, mas também nunca recusou, porque dentro do crime recusar é morrer. Até que em 2019, depois da chacina de Caxias, viu a acaso: caos interno, disputa de poder. Atenção da polícia dirigida aos líderes. Pegou no dinheiro que tinha guardado, apagou vestígios, desapareceu, foi para Minas primeiro, depois Goiás, depois finalmente Bahia, Salvador, longe do Rio, longe da guerra, longe do CV.
Comprou o bar, construiu a vida de Neto. Homem simples, trabalhador, invisível, funcionou durante 4 anos. Até que os Os traficantes locais decidiram expandir controlo, até que escolheram o bar errado, até que obrigaram Betão a regressar, mesmo que apenas por 3 minutos naquela travessa escura.
E agora todos sabiam, não o público, não a polícia, mas o submundo sabia. E no submundo circula informação. Mais cedo ou mais tarde, alguém no rio ia ouvir, ia perguntar, ia investigar. E aí Neto teria de decidir se corria de novo ou se ficava e enfrentava. Mas isso seria problema de amanhã. Hoje o bar estava aberto, os clientes estavam a chegar, a cerveja estava gelada e o Neto estava vivo.
Por enquanto era suficiente. Passaram três semanas. O acordo com o BDM funcionou. Ninguém mexeu no bar, ninguém cobrou taxa. Alguns traficantes jovens passavam pela frente, olhavam com curiosidade, misturada com medo, mas não entravam. A lenda estava a crescer. Diziam que Neto tinha morto 50 homens no rio. Diziam que tinha sobrevivido a três atentados.
Diziam que tinha formação militar. 90% era um exagero, mas o núcleo era verdade e a verdade é perigosa. Neto recebia visitas ocasionais dos negociadores do BDM, questões sobre estrutura do CV, sobre como detetar infiltrados, sobre estratégia de guerra urbana. Ele respondia de forma vaga, geral, nada que pudesse ser utilizado diretamente.
Informação suficiente para manter o acordo, mas não o suficiente para causar um dano real. Foi no meio da quarta semana que o problema chegou. Um carro parou em frente ao bar. Domingo, 10 da noite. Quatro homens desceram. Não eram da Baía. Sotaque carioca. Tatuagens conhecidas, roupas caras, pistolas visíveis por baixo das camisas. Entraram. O bar estava cheio.
Todos os clientes olharam. Reconheceram o tipo mesmo sem conhecer os rostos. Gente de fora, gente pesada. Neto estava atrás do balcão, viu os homens. O seu estômago apertou. Não era medo, era reconhecimento. Um deles ele conhecia. Rosto mais velho, mas os olhos eram os mesmos. Paulinho, ex-sooldado do CV, tinha trabalhado juntamente com a Betão em duas operações anos atrás.
Se o Paulinho estava ali, não era coincidência. Os quatro sentaram-se numa mesa ao canto, pediram cerveja. Neto serviu. Paulinho olhou-o nos olhos, esperou. Neto não reagiu. Terminou de servir e voltou para o balcão. Continuou trabalhando. Os homens beberam, conversaram baixo, ficaram uma hora, depois levantaram-se e saíram sem pagar.
Neto sabia o que aquilo significava: reconhecimento, confirmação, mensagem. Nós sabemos quem é. Nós sabemos onde está e vamos voltar. Fechou o bar mais cedo nessa noite. Pela primeira vez em 4 anos. trancou as portas antes da meia-noite. Foi para o pequeno apartamento que alugava três ruas acima: quarto, uma cozinha, um casa de banho, mobília mínima, sempre pronto para sair rápido, se necessário.
Sentou-se na cama, pensou: “Se o CV tinha mandado Paulinho, significava que queriam alguma coisa.” “Dinheiro que o Betão devia? Improvável. Nunca tinha roubado da facção. Vingança por ter desaparecido? Possível, mas demasiado demorado. 5 anos depois, a guerra interna do CV tinha mudado tanto que já ninguém ligava a um soldado sumido.
Então, o que era? A resposta chegou no dia seguinte, segunda-feira, 15 horas. Neto estava no armazém do bar quando ouviu a porta da frente abrir. Estranho, fechado naquele horário. Pegou na faca que mantinha escondida atrás de uma caixa de bebidas. Saiu devagar. Paulinho estava sozinho em frente do balcão. Calma, Betão. Só quero conversar.
Neto não largou a faca, ficou a 5 m de distância. Como me encontrou? Sabe como informação circula. Alguém ouviu falar do tiroteio, descreveu-o. Alguém mais velho ligou os pontos. Mandaram eu confirmar. E confirmou. Sim. E agora? O Paulinho sentou-se num banquinho. Agora o comando quer saber se está com a gente ou contra a gente.
Eu não estou em lado nenhum. Saí. Acabou. Ninguém sai, Betão. Você sabe disso. Eu saí há 5 anos e ninguém te caçou porque não estava a causar problema. Mas agora voltou ao jogo. Matou o soldado, fez um acordo com facção rival. Está a usar o conhecimento do CV para ajudar o BDM. Neto apertou o cabo da faca.
Eu não ajudei ninguém, só dei informação geral para manter a paz. E acha que faz diferença? ficaram em silêncio. Neto sabia que O Paulinho tinha razão. Dentro da lógica do crime organizado, tinha tomado lado no momento em que não matou os traficantes do BDM nessa noite. Deveria ter desaparecido. Deveria ter corrido. Ficou.
E ao ficar tornou-se peça no tabuleiro de novo. O que pretende o comando? Quer-te de volta? Não como soldado, como consultor. Mesma coisa que tu estás fazendo para o BDM, mas para o CV. Estratégia na Baía. expansão do território, guerra contra facções locais. E se recusar? Paulinho suspirou. Então vira-se problema e os problemas são resolvidos.
Veio ameaçar-me? Eu vim dar-te opção. Diferença importante. Neto largou a faca sobre o balcão, sentou-se, esfregou o rosto com as mãos. estava cansado. 5 anos a tentar construir algo diferente, 5 anos a fugir do que tinha sido e agora estava a ser puxado de volta, não por escolha, por consequência, porque tinha defendido o seu bar, porque não tinha deixado três traficantes tomarem o que era dele. Preciso de pensar.
Você tem 48 horas. Paulinho levantou-se, caminhou até à porta, parou. Betão, eu sei que queres paz, mas a paz não existe paraa gente como nós. Só existe tréguas e tréguas acaba. Saiu Neto ficou sozinho, olhou em redor do bar tudo o que tinha construído, tudo o que tinha protegido. E agora a ironia, proteger tinha destruído.
Se tivesse deixado os traficantes levar o dinheiro, nada disso teria acontecido. Estaria invisível ainda. Mas aí já não seria ele. Seria apenas alguém à espera para ser vítima de novo. Passou a segunda-feira pensando, passou à terça-feira pensar, 48 horas. Na quarta-feira de manhã, tomou a decisão. Não ia voltar para o CV, não ia ajudar ninguém, ia desaparecer de novo.
Mas desta vez, de verdade, sem bar, sem vida construída, só movimento. Talvez outro Estado, talvez outro país. Começar do zero de novo. Começou a fazer as malas, pouca coisa. sempre teve pouca coisa. Roupa, dinheiro que tinha guardado, documentos falsos que mantinha escondidos, arma pequena, faca, o essencial. Ia deixar o bar, deixar tudo.
Melhor perder património que perder vida. Era meio-dia quando bateram à porta do apartamento. Três batidas. Pausa. Duas batidas. Código que não ouvia há anos. Código do CV. pegou na arma, foi até à porta. Quem é? Paulinho sozinho. Precisamos de conversar. Neto abriu. O Paulinho entrou rápido, olhou em redor, viu as malas. Vai correr? Vou recomeçar.
Não vai resultar. Por que não? Paulinho fechou a porta. Porque tem uma operação a rolar agora. Polícia e Ministério Público, investigação de grande dimensão. Estão quebrando o sigilo de tudo. Telefone, banco, documento, ligando pontos. E apareceu o seu nome. Neto sentiu o chão sumir.
Como? O cobrador que não matou, Diogo. Ele está preso. Levou três meses, mas fecharam-no numa operação de lavagem. Tentou fazer delação. Falou de tudo, incluindo o tiroteio, incluindo te, incluindo o nome Betão. Mas não tem prova. Não precisa de prova para investigar. Eles vão atrás. Vão revirar a sua vida.
Vão descobrir que o Neto não existe antes de há 4 anos. vão conectar com Roberto Carlos Santos, com os assassinatos, com as chassinas e vão te prender ou matar, dependendo de quem te encontrar primeiro. Neto sentou-se na cama, estava preso. Se ficasse, polícia pegava. Se corresse, o CV pegava. Não tinha boa saída. Tem saída disse Paulinho.
Qual? Você vem ao comando oficialmente sob proteção. A gente tem advogados, tem estrutura. Tem jeito para fazer desaparecer mesmo debaixo de investigação, mas tem de ser útil, tem de dar retorno. Era chantagem disfarçada de ajuda, mas era a única opção. Neto sabia disso. Paulinho sabia que ele sabia. Que tipo de retorno? Planeamento de operações na Bahia.
Informação sobre a estrutura policial, contactos, estratégia. Torna-se parte da expansão do CV aqui e o meu bar continua sendo seu, mas torna-se ponto nosso. Lavagem, encontro, depósito. Você administra, mas serve o comando. Neto olhou pela janela, via a parte da rua, via o movimento normal, as pessoas a irem trabalhar, crianças a ir para a escola.
Vida simples, vida que ele tinha tentado ter. e falhou. Sempre tinha falhado, porque homens como ele não têm direito à vida simples, tem direito à sobrevivência. E a sobrevivência tem preço. Está bom. Paulinho estendeu a mão. Neto apertou de novo. Sempre de novo. Acordo feito. Liberdade trocada por serviço. Anonimato trocado por proteção.
A roda continuava a girar. E tudo por numa madrugada de Outubro três traficantes decidiram invadir um bar. o bar errado. Mexeram com a pessoa errada. Não sabiam quem era o proprietário. Não sabiam do passado. Não sabiam que aquele homem de chinelos e t-shirt branca tinha matou 15 pessoas e sobreviveu a uma guerra.
Acharam que era apenas um comerciante teimoso. Acharam que podiam pressionar, ameaçar, controlar. Erraram. E o erro deles destruiu a vida que Neto tinha construído. Arrastou-o de volta para o mundo que tentou deixar e acendeu uma faísca que ia virar guerra. Porque agora o CV tinha uma forte presença em Salvador, tinha um consultor experiente, tinha conhecimento interno e ia utilizar tudo isto para expandir e o BDM ia resistir e o sangue ia jorrar.
E tudo por causa de três homens que entraram no bar errado na altura errada. Neto voltou a trabalhar no bar da quinta-feira, mesmo horário, mesma rotina, mas diferente agora, porque ele já não era apenas o dono, era a ponte entre o crime carioca e o crime baiano, entre o passado e o presente, entre quem tinha sido e quem nunca conseguiria deixar de o ser.
Os clientes não notaram diferença. Cerveja ainda gelada, atendimento ainda cort, neto ainda calmo, ainda discreto, mas alguns olhares eram diferentes. Agora, alguns homens entravam, pediam bebida, saíam rápido, mensageiros, informadores, conectores. O bar tinha-se tornado outra coisa e todos no bairro sabiam, mas ninguém falava, porque falar sobre o bar do neto era falar do Betão.
E falar sobre Betão era comprar problema que ninguém queria. E assim a vida continuou. Neto a servir cerveja de dia, planeando operações de noite. Homem dividido entre duas existências, preso numa armadilha que ele próprio tinha criado ao defender o que era seu. Porque no final a verdadeira ironia era essa. Ele não tinha errado ao lutar.
Os traficantes tinham errado ao invadir. Mas no mundo onde viviam, o erro e o acerto não faziam diferença. Só faziam vítimas. E todos eles, criminosos ou não, estavam presos na mesma engrenagem, moendo, sempre a moer, até não sobrar















