POBRE GAROTA foi ABANDONADA na FLORESTA para MORRER, mas a EMPREGADA sabia algo que NINGUÉM…

POBRE GAROTA foi ABANDONADA na FLORESTA para MORRER, mas a EMPREGADA sabia algo que NINGUÉM… 

Por favor, alguém me ajude. A voz era tão fraca que mal se distinguia do farfalhar das folhas secas. A Marta sentia o cheiro da terra húmida contra o rosto, misturado com o sabor metálico do sangue na boca. Os seus dedos arranhavam o chão da floresta, procurando algo, qualquer coisa a que se agarrar, mas só encontravam ramos podres que esfarelavam-se sob a sua palma.

 O céu já estava tingido de laranja quando ele a trouxe até ali. Marta lembrava-se dos solavancos da carrinha na estrada de terra, do silêncio pesado de Fernando, da forma como apertava o volante. Ela tinha perguntado três vezes a para onde iam. Ele não respondeu nenhuma delas. Só disse quase num sussurro: “A tua mãe não aguenta mais.

 Eu também não. Agora, deitada entre raízes retorcidas e sombras que cresciam depressa demais, a Marta tentava lembrar-se do caminho de volta. Quantas curvas, quantos minutos dentro da floresta? A dor no tornozelo esquerdo latejava com tanta intensidade que ela não conseguia manter um pensamento inteiro.

 Tinha tropeçado quando tentou correr. Depois que percebeu que não estava a parar o carro para um passeio. Tinha apenas anos. Mas Marta já conhecia demasiado bem o peso de não ser querida. A sua mãe tinha aquela forma de olhar através dela, como se a Marta fosse feita de vidro transparente. Quando trouxe o Fernando para casa há seis meses, falou com uma excitação artificial: “Agora você tem um pai a sério”.

 Mas Marta via a verdade nas contas espalhadas na mesa, nas discussões em voz baixa sobre mais uma boca, na forma como a sua mãe se encolhia quando o dinheiro acabava antes do fim do mês. Ela sempre dormiu com fome, mesmo antes de Fernando. A barriga costumava doer tanto que a Marta enrolava um cinto velho à volta da cintura, bem apertado, para enganar o estômago.

 Na escola, quando ainda ia, ela guardava as cascas de laranja da merenda. Mastigava lentamente no caminho de regresso, fazendo durar. Tinha aprendido que a casca de laranja mastigada durante muito tempo solta um pouco de sabor doce. Era quase como comer de verdade. Mas fazia três semanas que ela não ia à escola.

 A professora tinha ligado para casa. Marta viu-o da porta do quarto. A sua mãe disse que ela estava doente. Fernando ficou quieto, mas a Marta viu a forma como ele olhou para ela depois, como se estivesse calculando algo. O som de um motor distante fê-la erguer a cabeça. Por um segundo terrível, Marta achou que ele tinha voltado.

 O seu coração disparou e ela encolheu-se contra o tronco mais próximo, ignorando a pontada aguda no tornozelo. Mas o motor continuou o seu caminho cada vez mais longe, até se tornar apenas um eco. A floresta começava a ganhar os seus sons noturnos, grilos, pássaros que ela não sabia nomear, o estalar de ramos secos sobas invisíveis.

 A Marta conhecia a história sobre a mata escura. Todos os meninos da rua conheciam. Diziam que as crianças sumiam ali. Ela nunca acreditou. Agora não tinha a certeza de nada. Os seus olhos começavam a pesar. O corpo implorava para desistir, para simplesmente fechar os olhos e deixar o frio levar à dor. Seria tão fácil, tão silencioso, mas algo dentro dela, algo teimoso e selvagem que nem a fome, nem os gritos, nem as noites em rua tinham conseguido matar, recusava-se a render completamente, porque a Marta tinha aprendido uma coisa cruel sobre o

mundo. Ninguém a ia salvar, nunca tinham salvo antes. Se ela ia sobreviver, teria de ser por conta própria. Sempre tinha sido. Letícia Monteiro tinha 47 anos e mãos que doíam no final de cada dia. Trabalhava a limpar casas desde os 14, quando a própria mãe a colocou num autocarro com um bilhete e um endereço rabiscado.

 Aprendeu cedo que pessoas como ela era móvel da paisagem, útil, mas invisível. Por isso, via coisas que não deveria ver. Naquela tarde de quinta-feira, estava a passar pano no corredor da casa do Fernando e da Júlia quando ouviu a discussão na cozinha. A voz de Júlia estava cansada, não irritada. Você prometeu que ia resolver. Não aguento mais olhar para ela e recordar.

Vou resolver hoje, respondeu Fernando definitivo. A Letícia conhecia aquele tom. Já tinha ouvido antes, noutras casas, noutras vidas. Era o tom de homem que tomou uma decisão e não vai voltar atrás. Ela continuou a esfregar o chão, invisível como sempre. Quando Fernando chamou a Marta e disse-lhe para entrar na carrinha, a menina hesitou à porta, olhou para a mãe.

 A Júlia estava de costas, a lavar a loiça, os ombros tensos. Não se virou nem quando a Marta sussurrou. Mãe! A Letícia viu tudo do corredor. Viu Fernando segurar o braço da menina com mais força do que o necessário. Viu a Marta entrar na carrinha com aquele jeito de animal que sabe que está a ser levado para o abate, mas não tem escolha.

 Ela devia ter ficado quieta. Deveria ter terminado a limpeza, pegou nos seus R$ 50 e ido embora, como sempre fez. Mas tinha uma coisa que a Letícia não contava para ninguém. Teve uma filha, Camila, de 8 anos. O padrasto fazia coisas quando A Letícia trabalhava à noite. Demorou meses até ela se aperceber.

 A menina tinha deixou de falar, de comer, de ser. Quando finalmente descobriu, já era tarde. A Camila tomou um copo inteiro de medicamentos da avó. Tinha 9 anos, fazia 6 anos. A Letícia ainda acordava de noite, ouvindo o silêncio onde deveria haver respiração. Assim, quando Fernando regressou sozinho duas horas depois, com terra nas calças e mãos a tremer enquanto lavava a cara no lavatório, Letícia tomou uma decisão.

 Esperou que ele se trancar no quarto, pegou na sua mala, não não disse nada à Júlia, que estava no sofá a ver novela com volume alto demais. Foi até ao carro velho que mal funcionava. ligou o motor na terceira tentativa e seguiu pela mesma estrada de terra que viu a carrinha pegar. Não tinha plano, não tinha a certeza, só tinha uma urgência a arder no peito que dizia: “Não, outra vez, não desta vez”.

 A estrada era longa e cheia de bifurcações. A Letícia parou em cada uma, apagou o motor, não ouviu nada. Continuou. A cada minuto que passava, a luz ficava mais fraca. O seu telemóvel tinha 23% de bateria. Quando já estava a pensar em desistir, em voltar e tentar chamar alguém, a polícia, o Conselho Tutelar, qualquer um, ela ouviu fraco, quase inaudível, mas era uma voz.

 A Letícia saiu do carro a tropeçar, ligou a lanterna do telemóvel, seguiu o som. Galhos arranhavam o seu rosto, o seu ténis afundava-se na terra húmida. E então a luz encontrou um par de olhos arregalados entre as raízes. Uma menina demasiado pequena, demasiado suja, assustada demais. A Marta não disse nada, só olhou para a Letícia com aquela expressão que Letícia conhecia bem.

 A expressão de quem já aprendeu que adultos mentem, que promessas se quebram, que confiar dói mais do que suspeitar. Vim buscar-te, Letícia disse, estendendo a mão. Mas não precisa confiar em mim agora. Só precisa de me deixar tirar-te daqui. Se essa história está a mexer consigo, inscreva-se no canal.

 Ainda tem muito por vir e você vai querer ver até onde vai. Marta segurou a mão de Letícia, mas o seu corpo estava rígido, cada músculo preparado para correr, mesmo com o tornozelo gritando de dor. Letícia percebeu era o tipo de tensão que ela reconhecia, de quem já foi magoada por quem deveria proteger. “Pode bater-me se eu fizer algo de errado”, disse Letícia baixinho, ajudando Martha a levantar-se.

 “A sério, você tem todo o direito de não confiar.” Era uma coisa estranha de dizer. Mas funcionou. A Marta relaxou 1 mil aceitar apoio no caminho de regresso ao carro. O gol velho cheirava a desinfetante e pão amanhecido. A Letícia tinha uma garrafa de água morna na bolsa, metade de uma sanduíche de presunto embrulhado em guardanapo. Ofereceu os dois.

 Marta comeu com uma voracidade que doía de ver, mas a Letícia não comentou, apenas dirigiu. Para onde vamos? Marta perguntou depois de um longo silêncio, a voz ainda desconfiada. Longe daqui primeiro, depois decidimos. Letícia olhou pelo retrovisor pela terceira vez. Tenho uma prima minha em Valparaíso. Ela trabalha com crianças em situação de rua, conhece pessoas, certo? Promotores, assistentes sociais que realmente fazem o trabalho.

 Por que não a polícia? Letícia hesitou. podia mentir, dar uma resposta fácil, mas decidiu que esta menina já tinha ouvido mentiras suficientes. Por que razão o seu padrasto toma cerveja com o delegado todos os sábados? Vi os dois a rir feito amigos no mercado semana passada. Ela apertou o volante. Se aparecemos na delegacia agora, sem provas, sem testemunhas para além de mim, ele inventa que tu fugiste, que é problemática e acreditam nele, não em você.

 Marta não pareceu surpreendida, só a sentiu como se já soubesse que o mundo funcionava assim. “Não me vai levar de volta?”, a pergunta saiu pequena, testando. “Não.” A Letícia olhou para ela direto. Mesmo que o peça. Algo passou pelo rosto de Marta, alívio misturado com confusão, como se não soubesse o que fazer com bondade, que não pedia nada em troca.

 Conduziram por 20 minutos em silêncio. A estrada de terra batida tinha dado lugar ao asfalto velho e esburacado. Marta começava a acreditar que talvez estivesse em segurança quando Letícia pisou o travão de repente. Havia um carro parado na estrada à frente, não uma viatura, um corço cinzento. Mas o homem que dela saiu vestia farda da PM.

Merda. A Letícia não conseguiu segurar o palavrão. Era o mesmo polícia que Marta tinha visto na churrasqueira de Fernando, bebendo e rindo alto. Ela se encolheu no banco instintivamente. Caminhou até ao carro devagar, com aquela postura de quem sabe que tem poder. Bateu na janela. A Letícia baixou com mão a tremer. Licença, Dona Letícia.

Ele sorriu, mas não havia ali calor. Recebi uma chamada do Fernando. Disse que a senhora lhe levou a entiada sem autorização. Isto é crime, a senhora sabe? Estava abandonada na mata. Ele diz que ela fugiu outra vez. O policial olhou para Marta com aquele mesmo sorriso morto. Criança difícil esta, certo? A mãe não aguenta mais.

Letícia abriu a boca para responder, mas levantou a mão. A senhora tem duas opções. Volta com a menina agora sem escândalo. E a gente esquece-se que isso aconteceu. Ou levo-vos as duas pra esquadra e depois torna-se um caso de tentativa de sequestro. Ele debruçou-se na janela. Aí a senhora sabe como é que estas coisas terminam para nós como a senhora, não é? O silêncio que se seguiu era pesado.

 Letícia sentiu as mãos a suar no volante. Seis anos de culpa de acordar a ouvir gritos que já não existiam, de carregar o peso de não ter salvo a Camila h tempo. Ela podia desistir agora. Seria mais fácil, mais seguro. Mas depois sentiu algo pequeno e quente segurar a sua mão. Olhou para o lado.

 A Marta estava a olhar para ela, não com medo, mas com algo pior, com expectativa, como se estivesse à espera de mais uma decepção. Você já se sentiu-se assim, presa entre o certo e o seguro? Conta aqui nos comentários o que faria. A Letícia olhou para o polícia, depois para Marta, depois para as suas próprias mãos no volante.

 Mãos que limpavam sujidade alheia há 33 anos, mãos que nunca tinham segurado nada próprio. Mãos que tremiam, mas ainda funcionavam. “Não”, disse ela. O polícia franziu a testa. “Como é?” Eu disse que não. Letícia sentiu algo endurecer dentro de si. Não vou entregá-la. Ele deu um passo para trás, a mão indo para o cacetete.

 A senhora está a cometer um erro muito grande. Já cometi um grande erro na vida. A voz de Letícia saiu mais firme que esperava. Foi não ter protegido minha filha quando tive oportunidade. Não vou cometer o mesmo duas vezes. O policial abriu a boca, mas foi Marta quem falou. Deixou-me na floresta para morrer.

 A a voz dela era baixa, mas clara. Disse que a minha mãe já não me queria, que eu era um problema que precisava de ser resolvido. Criançamente. O polícia respondeu automático, principalmente quando quer atenção. Então, por que razão as minhas roupas estão rasgadas? Marta levantou o braço, apresentando arranhões profundos.

 Por que o meu tornozelo está assim? Eu fugi sozinha paraa floresta só para conseguir atenção. Hesitou por um segundo. Apenas um. Mas foi o suficiente para mostrar que até ele sabia que a história não fechava. Olha, disse ele, mudando de tática. Eu entendo que vocês estão assustadas, mas há uma forma certa de fazer essas coisas.

 Tem protocolo, não é fugindo na estrada. Qual o protocolo? Letícia interrompeu. Aquele onde a assistente social faz visita avisada, onde tudo parece bem porque a casa está limpo e a criança foi ensinada a sorrir, onde depois de todos irem embora, a situação continua. O silêncio dele foi resposta suficiente. “Eu trabalho em casas há mais de 30 anos”, Letícia continuou.

 “Já vi assistente social aceitar café enquanto a criança tem marca de cinto nas costas. Já vi conselheiro tutelar ser compadre do agressor. Já vi pessoas como o Sr. olhar para o outro lado porque é mais fácil. Cuidado com o que diz. Ou quê? Algo se rompera em Letícia. Todas sendo aquelas décadas invisível, todas aquelas vezes que viu e não disse nada.

Vai prender-me? Vai inventar que resistia à detenção em frente de uma criança ferida que acabei de tirar da floresta? O polícia olhou em volta. A estrada estava, era a sua palavra contra a de uma empregada doméstica e uma criança. Ele sabia como estas histórias terminavam. Estava prestes a dar um passo em frente quando Marta abriu a porta do carro e saiu.

 Cambaleou no tornozelo magoado, mas ficou de pé. “Eu sei onde ele me deixou”, disse ela, olhando diretamente para o polícia. “Sei voltar lá. Sei mostrar onde caí, onde há sangue meu nas pedras.” A sua voz tremeu, mas não partiu. E se o Sr. levar-me de volta, eu vou contar para todos os que encontrar, na escola, na rua, para qualquer adulto que olhe para mim.

 Vou fazer tanto barulho que vocês não me vão conseguir calar. Por um momento longo, ninguém se mexeu. Então, o polícia cuspiu para o chão, abanou a cabeça e voltou para o carro. “Vocês não sabem a merda que acabaram de fazer”, disse antes de entrar. Mas vão descobrir. O corça-cinzenta arrancou levantando poeira. Letícia e Marta ficaram paradas no meio da estrada, o motor do gol ainda ligado, o céu começando a clarear no horizonte.

 Ele vai ligar ao Fernando, disse a Marta. Eu sei. Precisamos de ir rápido. Eu sei. Mas por um segundo nenhuma das duas se mexeu. Só ficaram ali duas pessoas invisíveis que tinham acabado de se fazer ver. Se esta viragem te pegou de surpresa, deixa já o teu like. Histórias destas precisam de chegar em mais gente.

 Conduziram duas horas sem parar. Letícia mantinha os olhos no retrovisor, esperando ver luzes de viatura a qualquer momento. A Marta estava encolhida no banco, segurando a garrafa de água vazia, como se fosse a única coisa sólida no mundo. “Tem fome de verdade?”, perguntou Letícia quando passaram por um posto de abastecimento de combustível iluminado. Marta assentiu.

 Letícia estacionou, contou as moedas que tinha na carteira, R$ 17 e alguns cêntimos, o dinheiro do autocarro da semana. Gastou 15 num pão de queijo e um sumo de pacote. A Marta comeu devagar desta vez, como se finalmente permitisse acreditar que a comida não ia desaparecer. Quando terminou, limpou a boca com as costas da mão e olhou para Letícia.

 Por que é que disse aquilo sobre a sua filha? A Letícia ficou um tempo sem responder, passou a mão pelo rosto cansado. Porque era verdade, ela disse finalmente, e porque merecia saber que eu entendo que não é uma pena, não é caridade. É porque sei exatamente o que acontece quando ninguém faz nada. Ela morreu? Sim.

 A palavra saiu simples, mas a Letícia sentiu o seu peso. Sempre sentia. há se anos tinha oito. Foi o padrasto? Não diretamente, mas sim. A Letícia olhou pela janela. O corpo aguenta muita coisa, mas há alturas em que o espírito desiste primeiro. A Marta ficou quieta, processando. Depois você se culpa todos os dias. Não foi culpa sua.

A Letícia soltou um som que era meio riso, meio choro. Como sabe? Porque a minha mãe também trabalha o dia inteiro, limpa a casa dos outros, chega tarde, sai cedo. Marta encolheu os ombros. Ela não abandona-me porque é má. Abandona porque está demasiado cansada para ser boa. Tem diferença.

 Era uma sabedoria velha demasiado para 9 anos. A Letícia sentiu algo apertar no peito. Isso não torna certo, disse ela baixinho. Não, mas torna-o humano. Marta olhou para as suas próprias mãos. O que não dá é para fingir que não vê, como o polícia, como os vizinhos, como todo o mundo que olha para o outro lado, porque é mais fácil.

 Elas ficaram ali sentadas no estacionamento do posto, com o motor desligado e a noite fria a entrar pelas frestas das janelas. Dois seres humanos carregando pesos que não deveriam ter que carregar. “A sua prima vai realmente ajudar?”, perguntou a Marta. “Vai.” Sandra é teimosa como uma mula. Se ela pegar seu caso, já não larga.

 A Letícia ligou o motor de novo. Mas preciso que me saiba uma coisa. Vai ser difícil, vai demorar e tem hipótese de não dar em nada. Eu sei. E mesmo que der certo, não se vai voltar para a sua mãe. Não depois disso. A Marta não respondeu imediatamente. A Letícia viu algo passar pelo seu rosto. Dor, alívio, culpa, tudo misturado. Está tudo bem.

 A Marta disse finalmente, “Não sei se queria voltar mesmo. Era a coisa mais triste que A Letícia já o tinha ouvido há muito tempo. E ela tinha ouvido muitas coisas tristes. Elas voltaram para a estrada. O céu estava a começar a clarear de verdade agora, já não aquele cinzento de madrugada, mas um azul pálido de manhã chegando.

 Quando finalmente viram a placa indicando Valparaíso, Letícia sentiu os ombros relaxarem pela primeira vez em horas. Letícia. Sim, se não der certo, se me mandarem voltar. Marta engoliu em seco. Vais me buscar de novo? A Letícia olhou para ela, para aquela criança demasiado pequena, magoada demais, demasiado corajosa, e sentiu algo reorganizar-se dentro do peito.

 Não era redenção, não reparava o passado, mas era algo. Sim, disse ela, quantas vezes for preciso? E pela primeira vez desde que entraram no carro, Marta deixou as lágrimas caírem. Se essa parte tocou você de verdade, considere apoiar o canal com um super thanks. Histórias assim precisam de continuar a ser contadas e o seu apoio faz uma diferença real.

 O abrigo de Sandra ficava numa casa antiga renovado, com paredes pintadas de amarelo desbotado e um quintal cheio de brinquedos partidos que as crianças tinham arranjado. Cheirava a comida caseira e sabão de coco. Havia vozes de crianças vindas de dentro, algumas rindo, outras a discutir sobre alguma coisa boba. Sons normais, sons de gente viva.

A Sandra era parecida com a Letícia. mesmos olhos cansados, a mesma postura de quem trabalha arduamente. Ela ouviu a história inteiro sem interromper, sentada à mesa da cozinha, enquanto a Marta comia arroz com feijão, como se nunca tivesse visto comida antes. “Vai demorar”, Sandra disse quando Letícia terminou.

 “O processo é lento e o Fernando vai inventar história. Vai dizer que a menina é mentirosa, que tem problemas, que a influenciou. Eu sei, mas a gente já lidou com pior e ganhámos algumas. A Sandra olhou para a Marta. Você vai ficar aqui entretanto. Tem escola, tem comida, tem cama, tem regras também.

 Nada de mentiras, nada de sair sem aviso, nada de violência. Consegue lidar com isso? Marta assentiu com a boca cheia de comida. E se não resultar? Ela perguntou depois de engolir. Se eles mandarem voltar. Sandra e Letícia trocaram um olhar. Aí lutamos mais um pouco, disse a Sandra. E mais um até dar certo ou cairmos, mas enquanto a gente tiver fôlego, não se volta para lá.

Não era uma promessa absoluta, não era um final feliz garantido, era só honestidade. E de alguma forma isso era mais reconfortante do que qualquer mentira bonita. Três meses depois, Marta ainda estava no abrigo. O processo seguia devagar, encravado em burocracia e ausências de testemunhas que não podiam comparecer.

 Fernando tinha contratado o advogado. A Júlia tinha dado uma entrevista dizendo que a Marta sempre foi problemática, que fugia de casa, que ela tinha tentado de tudo, mas havia uma assistente social nova, neste caso, uma mulher jovem chamada Beatriz, que realmente lia os relatórios, que realmente falava com a Marta sem julgar, que realmente investigava em vez de só marcar protocolos.

 E a Letícia aparecia todos os sábados. Não adoptou a Marta, nem podia legalmente ainda, mas trazia bolo, ajudava com a lição, ficava, simplesmente ficava. A Marta não lhe chamava mãe, não precisava. Alguns vínculos não cabem em palavras. No abrigo, ela partilhou o quarto com mais três meninas. Uma delas, Júlia, por coincidência com o mesmo nome da mãe de Marta, também guardava cascas de laranja.

 Elas fizeram uma coleção em conjunto, secando as cascas ao sol e usando-o para fazer chá. A Marta ainda tinha pesadelos. Acordava a suar, pensando que estava outra vez na floresta. Mas agora havia gente no corredor. Gente que acendia a luz, que trazia água, que ficava até ela voltar a adormecer. Não era perfeito, ainda doía.

 Algumas feridas não cicatrizam por completo, apenas aprendem a doer menos. Mas ela estava viva e estava vista. Sabe qual é a verdade que ninguém quer admitir? A maioria das histórias, como a da Marta, não tem final feliz. A maioria acaba com uma criança devolvida, processo arquivado, adultos demasiado cansados ​​para lutar.

 Mas algumas, apenas algumas, encontram uma Letícia, uma Sandra, uma Beatriz, que estas algumas fazem com que valha a pena continuar tentando. Não lhe estou a pedir salvar o mundo. Não estou a pedir para você se tornar herói. Só estou a pedir para não olhar para o outro lado. Porque entre a criança que sobrevive e a que desaparece, por vezes a diferença é uma pessoa que decidiu ver.

 Só uma e pode ser você. M.