O PCC Parou Caminhão Frigorífico na BR-163 no MS — Motorista Era Sargento Aposentado do Exército

23 de agosto, 3:47 da madrugada, km 816 da BR163, divisa entre Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. Dois carros atravessados na pista, faróis apagados, cinco homens armados formando barreira. Um caminhão frigorífico Scania Vermelho diminui a velocidade, freios assobeiando no ar úmido da madrugada.
O motorista não acelera para furar o bloqueio, não tenta a manobra desesperada. Apenas para o veículo a 20 m da barricada, engata o neutro e mantém as mãos no volante. Visíveis, calculadas. Os homens avançam com armas em riste, gritando ordens que ecoam pela rodovia deserta. Nenhum deles percebe que o motorista já calculou distâncias, ângulos de tiro, rotas de fuga e probabilidade de sobrevivência.
Nenhum deles imagina que nos próximos 17 minutos três deles estarão mortos. Um estará fugindo pela mata e o último estará implorando para não ser entregue aos rivais. Tudo porque naquela noite o PCC parou o caminhão errado, ou melhor, o motorista errado. 12 horas antes, Terminal de Cargas de Dourados, Mato Grosso do Sul.
Roberto Mendes tinha 52 anos, 1,78 m de altura, 83 kg distribuídos em ombros largos e postura ereta demais para um caminhoneiro comum. Carregava carne bovina congelada com destino a Cuiabá, 690 km pela BR163, atravessando o trecho mais perigoso da rodovia no período noturno. Fazia aquela rota há s meses, desde que se aposentou do exército e comprou o caminhão com a indenização.
Sempre no mesmo horário, sempre pela mesma estrada, sempre sozinho. Os outros motoristas do terminal achavam aquilo estranho. Ninguém viajava sozinho pela BR163 de madrugada, mas Roberto nunca explicava, apenas checava a carga, conferia os documentos e partia. No vestiário da transportadora, enquanto trocava de roupa, um motorista mais jovem havia tentado conversa.
perguntou se Roberto não tinha medo de rodar sozinho naquele trecho. A rodovia era corredor de tráfego, controlada pelo PCC em vários pontos, com bloqueios frequentes para extorção ou roubo de cargas. Roberto amarrou as botas com movimentos precisos, mecânicos e respondeu que já tinha rodado estradas piores. O tom era neutro, mas havia algo no jeito que ele falou, algo que fez o outro motorista não insistir no assunto, algo na forma como Roberto verificava os espelhos retrovisores antes de entrar na cabine, como posicionava a mochila ao lado do
banco, como mantinha as mãos relaxadas, mas prontas. Pequenos detalhes que passavam despercebidos para quem não sabia o que procurar. Às 15:30, Roberto deixou dourados rumo ao norte. O Scania carregado pesava 42 toneladas, motor trabalhando em rotação constante, consumindo 1 L de diesel a cada 3,m5 k. Ele conhecia cada som daquele motor, cada vibração da cabine, cada resposta do câmbio, mas principalmente conhecia a estrada.
sabia onde a pista estreitava, onde havia acostamento largo, onde a mata fechava dos dois lados e onde havia fazendas próximas comteiras acessíveis. Conhecimento que ia além da experiência de sete meses rodando aquela rota. conhecimento de quem estava acostumado a planejar rotas de fuga, pontos de emboscada e zonas de extração. O sol se pôs às 18:40 e Roberto continuou em velocidade constante pela rodovia cada vez mais escura.
Passou por Carapó, depois Jut, pequenos municípios que marcavam a descida em direção à divisa com Mato Grosso. O tráfego ia rareando. Menos carros particulares, menos caminhões em comboio, mais trechos solitários. Às 22 horas, parou num posto para abastecer 170 L de diesel pagos em dinheiro. Enquanto o frentista operava a bomba, Roberto caminhou até os fundos do posto, verificou as saídas, observou os veículos estacionados e os outros motoristas.
Voltou para a cabine, comeu um sanduíche que havia trazido de casa e seguiu viagem sem conversar com ninguém. Meia-noite, qum 720. A rodovia agora era apenas asfalto negro, cortando mata densa dos dois lados, iluminada apenas pelos faróis do Scania. Roberto mantinha a velocidade de 80 km/h, abaixo do limite, mais seguro para aquele peso e aquelas condições.
O rádio do caminhão estava sintonizado na frequência dos caminhoneiros, mas havia 15 minutos que ninguém falava. Silêncio estranho. Geralmente havia conversa, avisos sobre radares, comentários sobre a estrada, mas naquela noite nada. Roberto diminuiu para 70 km/h. Aumentou a atenção nos retrovisores, verificou novamente a posição da mochila ao seu lado. 1:40.
Ele passou pela última cidade antes da divisa estadual, cidade pequena com nome que ele nem lembrava, apenas um posto de gasolina fechado e meia dúzia de casas às margens da pista. A partir dali, eram 80 km de mata fechada até a divisa, o trecho mais isolado da rota. Roberto ajustou a posição no banco, manteve as duas mãos no volante e acelerou levemente.
Agora estava fazendo 90 km por hora, empurrando o limite para atravessar aquele setor o mais rápido possível. O motor do Scania rugiu mais alto, diesel queimando em combustão controlada. 42 toneladas de metal e carne congelada avançando pela escuridão. 3:20 da madrugada, 10 km antes da divisa, foi quando Roberto viu as luzes.
Não eram faróis normais de veículos trafegando. Eram luzes paradas, posicionadas em ângulo que bloqueava parcialmente a pista. Ele tirou o pé do acelerador imediatamente. Deixou o caminhão perder velocidade naturalmente, sem frear bruscamente. Ganhou tempo para avaliar. Dois carros atravessados, provavelmente um Gol e um Corsa, formando barreira em V que deixava apenas estreita passagem lateral.
Silhuetas de pessoas movendo-se ao redor dos veículos, pelo menos quatro, talvez cinco, todas aparentemente armadas pela forma como seguravam os braços. Roberto tinha três opções. Primeira, acelerar e tentar furar o bloqueio pela passagem lateral. 42 toneladas a 90 km/h empurrariam os carros para o acostamento, mas havia risco de capotamento ou de tiros acertarem os pneus.
Segunda opção, frear bruscamente e fazer retorno, fugir de ré ou manobrar. Impossível com aquele peso e aquela velocidade. Terceira opção, parar e avaliar a situação, ganhar tempo, usar experiência e treinamento para controlar o cenário. Roberto escolheu a terceira, diminuiu ainda mais a velocidade, ligou o pisca alerta, freou suavemente até parar o Scania a 20 m da barreira.
Longe o suficiente para ter espaço de reação, perto o suficiente para não parecer que estava planejando fuga. Manteve as mãos no volante onde os homens pudessem ver através do para-brisa. Não fez movimentos bruscos esperou. 30 segundos depois, três homens começaram a avançar em direção ao caminhão, deixando outros dois para trás nos carros.
Caminhavam com armas visíveis, provavelmente pistolas 9 mm, padrão do crime organizado no Brasil. Um deles gritou para Roberto descer da cabine. A voz tinha sotaque paulista, tom de autoridade acostumada a ser obedecida. PCC, sem dúvida. controlavam aquele trecho há anos, cobrando pedágio de traficantes rivais ou estorquindo transportadoras que não pagavam proteção.
Mas Roberto não trabalhava para transportadora que pagava proteção. Era autônomo, desconhecido, alvo, perfeito. Roberto abriu a porta devagar e desceu, mantendo as mãos visíveis. Os três homens se aproximaram formando semicírculo. O líder aparente era magro, talvez 30 anos, tatuagens no pescoço e antebraços, corrente de ouro no pulso esquerdo.
Segurava uma pistola Taurus 9 mm com desenvoltura de quem já tinha usado aquela arma antes. Os outros dois eram mais jovens, 20 e poucos anos, nervosos, dedos nos gatilhos em posição perigosa para iniciantes. Roberto catalogou tudo em 3 segundos. Quem era o mais perigoso? Quem reagiria primeiro numa confrontação? Quem tinha treinamento real? E quem só tinha coragem emprestada da arma? O líder deu mais dois passos, parou a 3 m de distância, distância segura para ele, arriscada para Roberto, qualquer movimento brusco e levaria dois tiros antes de alcançar a arma. O homem mandou
Roberto abrir a carroceria do caminhão. Tom casual, como se estivesse pedindo as horas. Roberto perguntou o que estava acontecendo. Voz calma, sem tremor, sem desafio. Apenas pergunta. O líder sorriu. Disse que era simples. Só precisavam verificar a carga, procedimento padrão naquele trecho. Roberto sabia o que aquilo significava.
Ou queriam a carne para revender no mercado negro, ou queriam usar o caminhão para transportar drogas disfarçadas entre a carga legítima, ou simplesmente queriam estorquir dinheiro. Qualquer opção significava prejuízo, risco e complicação. Roberto concordou e caminhou devagar em direção à traseira do caminhão.
Os três homens o seguiram, mantendo distância. Quando chegou à porta da carroceria, Roberto parou e olhou para o líder. disse que precisava pegar a chave na cabine. O homem riu, mandou um dos mais jovens buscar a chave. Roberto descreveu onde estava. Bolso lateral da mochila preta no banco do carona. O jovem subiu na cabine, nervoso, procurando rápido demais.
Demorou 45 segundos. Quando desceu, trouxe não só a chave, mas a mochila inteira. O líder mandou ele jogar a mochila no chão e abrir. Queria ver o que mais tinha ali. O jovem abriu o zíper e virou a mochila. Caíram roupas, documentos, um estojo de primeiros socorros, garrafinha de água, um rádiocomunicador desligado e um livro surrado com capa marrom.
O líder pegou o livro, olhou a capa, manual de campanha do exército brasileiro, operações especiais em ambiente hostil. Ele olhou para Roberto com interesse novo. Perguntou se Roberto era militar. A forma como perguntou mudou. Menos casual, mais cuidado. Roberto respondeu que era aposentado. Havia 23 anos na ativa, agora só caminhoneiro.
Manteve o tom neutro, mas viu a mudança nos olhos do líder. O homem estava recalculando. Militar aposentado significava treinamento, disciplina, possível conexão com autoridades, mas estava velho, sozinho, sem arma visível e cercado por três homens armados em rodovia isolada. O líder decidiu que o risco era gerenciável.
Mandou Roberto abrir a carroceria. Roberto destrancou a porta e a puxou. Ar gelado escapou, névoa branca descendo pelos batentes. Dentro, caixas de papelão empilhadas contendo carne bovina congelada, temperatura mantida a 18º negativos. O líder olhou para dentro, iluminou com uma lanterna, verificou algumas caixas. Nada de errado, carga legítima.
Ele fechou a porta e disse que Roberto teria que pagar taxa de passagem, R$ 5.000. Se não tivesse o dinheiro, teria que deixar o caminhão como garantia até conseguir o pagamento. Roberto perguntou quanto tempo teria. O líder deu de ombros. Disse que dependia. Se pagasse rápido, recuperava o caminhão em dois dias.
Se demorasse, talvez a carga estragasse. Talvez o caminhão fosse desmontado para peças. Talvez pior. Roberto ficou em silêncio por 5 segundos. Tempo longo demais. Os homens ficaram tensos. Um deles deu meio passo para trás, instintivamente sentindo algo errado. Roberto manteve as mãos visíveis, postura relaxada, mas havia mudança sutil na forma como distribuía o peso nas pernas, de vítima assustada para algo diferente, algo mais perigoso.
Ele disse que não tinha R$ 5.000. O líder perguntou quanto tinha. Roberto respondeu que tinha 1200 na carteira, mais uns 300 em moedas. O líder riu sem humor. Disse que 1500 não pagava nem o imposto do pedágio. Roberto teria que deixar o caminhão. Foi quando Roberto fez a pergunta que mudou tudo. Perguntou o nome do líder.
O tom era diferente. Agora não era medo, não era súplica, era comando disfarçado de curiosidade. O líder hesitou. Não estava acostumado a ser perguntado. Geralmente as vítimas só obedeciam. Ele respondeu que não importava o nome dele. Roberto insistiu. Disse que quando fosse explicar para os superiores do líder porque a carga atrasou, precisaria dar nome completo e localização.
O líder franziu a testa, perguntou como Roberto sabia que ele tinha superiores. Roberto respondeu que todo mundo na hierarquia do PCC tinha superiores, que ninguém controlava trecho de rodovia sem autorização de cima, que extorção não autorizada gerava problema interno e que se o líder estava ali era porque tinha permissão ou porque estava agindo por conta própria.
O silêncio que seguiu foi diferente. Os três homens se entreolharam. Roberto havia acertado algo. Havia tocado num ponto sensível. O líder deu um passo à frente, ergueu a arma e apontou direto para o rosto de Roberto. Mandou ele calar a boca. Disse que era melhor entregar o caminhão e sumir dali antes que a situação piorasse. Roberto não recuou.
Manteve o olhar fixo no líder, ignorando completamente a arma a meio metro do seu rosto. Respondeu que se entregasse o caminhão sem autorização da facção, tanto ele quanto o líder teria um problema. Mas se houvesse autorização, Roberto queria falar com quem autorizou. Queria negociar direto com a torre. Foi um erro calculado dos criminosos não perceber naquele momento que Roberto sabia demais.
sabia a terminologia interna da facção, sabia como funcionava a hierarquia, sabia que extorção em rodovias precisava ser autorizada pelos responsáveis pelo setor e, principalmente, sabia que mostrar esse conhecimento enquanto estava desarmado e cercado era suicídio, a menos que tivesse certeza absoluta de que podia controlar a situação de alguma forma.
O líder baixou a arma lentamente, olhou para Roberto com mistura de raiva e curiosidade, perguntou como um caminhoneiro aposentado do exército sabia tanto sobre o PCC. Roberto não respondeu diretamente, apenas disse que tinha rodado muitas estradas, conhecido muitas pessoas, visto muitas coisas. O líder tirou o celular do bolso e fez uma ligação.
Virou-se parcialmente, mas manteve a arma apontada para baixo em direção a Roberto. Falou rápido, voz baixa, explicando a situação para alguém do outro lado. Mencionou o caminhão frigorífico, a carga de carne, o motorista que dizia conhecer a organização. Ficou em silêncio ouvindo, depois perguntou se deveria liberar ou segurar. Mais silêncio.
Ele olhou para Roberto de forma estranha, perguntou no telefone como devia confirmar, desligou e guardou o celular. Caminhou até Roberto, parou a 1 metro de distância, perguntou onde Roberto serviu no exército. Roberto respondeu que em vários lugares. Quinto batalhão de infantaria de selva em São Gabriel da Cachoeira.
Depois destacamento de fronteira em Corumbá. Depois outros lugares que ele preferia não mencionar. O líder perguntou que outros lugares. Roberto disse que operações especiais, missões que não tinham registro oficial, trabalho que o exército não admitia fazer. O líder franziu a testa. perguntou que tipo de trabalho. Roberto respondeu que contra a inteligência, infiltração em grupos criminosos na fronteira, identificação de rotas de tráfico para interdição militar e, em alguns casos, ações diretas contra alvos de alto valor quando a Polícia Federal
não podia agir. O silêncio que seguiu foi absoluto. Até os grilos na mata pareceram parar de cantar. Os três homens olhavam para Roberto como se estivessem vendo outra pessoa, porque agora entendiam. O caminhoneiro não era só um militar aposentado, era alguém que tinha trabalhado ativamente contra o tráfico, alguém que conhecia os métodos deles porque havia caçado gente como eles.
O líder deu dois passos para trás, gritou para os outros dois ficarem atentos, levantou a arma novamente e disse que Roberto estava mentindo. Ninguém que tivesse esse tipo de passado seria burro de dirigir sozinho numa rodovia controlada pelo PCC. Roberto concordou. Disse que normalmente ninguém seria, mas ele não estava dirigindo sozinho, realmente estava sendo rastreado.
O caminhão tinha três GPS diferentes instalados, um oficial da transportadora, um particular escondido na cabine e um terceiro que só transmitia emergências. E nos últimos 10 minutos, desde que o bloqueio foi avistado, o GPS de emergência estava transmitindo localização exata e áudio de tudo que estava acontecendo. Foi mentira.
Não havia GPS de emergência, não havia rastreamento além do sistema comum do caminhão. Mas Roberto sabia que homens armados em situação de tensão tomam decisões ruins quando sentem que estão sendo observados. E a forma como o líder reagiu confirmou que funcionou. O homem olhou para os carros atravessados na pista, olhou para a mata escura dos dois lados, olhou para o céu como se esperasse ver drone ou helicóptero.
Xingou alto e mandou os outros dois verificarem o caminhão, procurarem qualquer dispositivo estranho. Os jovens subiram na cabine, procuraram embaixo dos bancos, no painel atrás do rádio. Nada. Desceram e foram para a parte de baixo do chassi com lanternas. Vasculharam entre as rodas próximo ao tanque de combustível na carroceria.
15 minutos depois, voltaram dizendo que não acharam nada além do rastreador comum. O líder não sabia se acreditava em Roberto ou não, mas agora estava numa situação complicada. Se deixasse Roberto ir embora, poderia estar liberando alguém que tinha conexões perigosas e que voltaria com reforço. Se matasse Roberto ali, poderia estar executando alguém que estava realmente sendo rastreado, o que traria a atenção indesejada para o setor.
E se mantivesse Roberto refém, teria que gerenciar um prisioneiro que claramente não tinha medo e que conhecia demais sobre como organizações criminosas operavam. Todas as opções eram ruins. Foi quando o líder cometeu o terceiro erro da noite. Decidiu levar Roberto para um ponto de apoio a 15 km dali, lugar isolado onde poderiam confirmar a história e decidir o que fazer longe da rodovia.
Roberto foi colocado no banco traseiro do Gol, espremido entre dois dos homens, cada um com arma pressionada contra suas costelas. O líder entrou no banco da frente ao lado do motorista. O Corsa seguiria atrás com os outros dois homens e um deles levaria o caminhão de Roberto. O líder jogou as chaves do Scania para o jovem que havia revirado a mochila, mandou ele dirigir com cuidado e seguir o comboio. Roberto não reagiu.
Deixou ser levado porque sabia que quanto mais longe da rodovia fossem, menos testemunhas haveria e mais liberdade ele teria para agir, se necessário. E principalmente porque viu que o jovem que pegou as chaves do caminhão não sabia dirigir veículos pesados. Viu pela forma como ele subiu na cabine, pela demora para achar a ignição, pelo barulho do motor quando deu partida em marcha errada.
O comboio seguiu pela BR163 por 10 minutos. Depois virou numa estrada de terra que adentrava a mata. 7 km de estrada irregular, buracos profundos, ponte de madeira sobre córrego estreito. Finalmente chegaram a uma clareira, onde havia duas construções de madeira, barracão maior, que servia como depósito, e casa menor, onde ficava o pessoal de plantão.
Tinha gerador de energia iluminando a área, antena de rádio comunicação, três motocicletas estacionadas e mais dois homens que saíram do barracão quando os carros chegaram. Total de sete homens armados agora. Roberto foi tirado do carro, empurrado para dentro da casa menor, obrigado a sentar numa cadeira de plástico branco no centro de uma sala vazia com chão de cimento.
O líder estava nervoso agora fez mais três ligações tentando confirmar com alguém da hierarquia se deveria segurar ou liberar o motorista. Mas era 4:30 da madrugada e aparentemente ninguém importante estava disponível para decidir. Ele mandou dois homens vigiar em Roberto enquanto os outros verificavam o caminhão novamente, dessa vez mais minucioso.
Desmontaram painéis da cabine, abriram compartimentos secretos que motoristas costumam usar para esconder documentos ou dinheiro. Vasculharam a carroceria inteira, moveram caixas de carne, procuraram por drogas escondidas ou dispositivos eletrônicos. 5:15 da manhã, nada. O caminhão era exatamente o que parecia, frigorífico comum, carregado de carne bovina congelada.
Roberto permaneceu sentado na cadeira, mãos livres, postura relaxada. Os dois guardas estavam a três metros dele, armas nas mãos, mas apontadas para baixo. Jovens cansados, visivelmente entediados. Um deles bocejava a cada dois minutos. O outro mexia no celular, verificando mensagens. Erro básico de segurança. Manter prisioneiro perigoso com guardas distraídos em ambiente sem reforço imediato. Roberto contou.
Havia sete homens no total. Dois ali com ele, três verificando o caminhão lá fora, o líder dentro do barracão ao telefone, mais um fazendo ronda externa. Se quisesse agir, teria janela pequena antes dos outros reagirem, mas ainda não era o momento. Ainda havia chance de sair dali sem violência. 5:40.
O líder entrou na casa, celular na mão, expressão frustrada. disse que falou com o responsável pelo setor, homem chamado Davi, codome Torre 6, e que a orientação era clara. Se Roberto não pudesse pagar os 5.000 e se não havia nada de errado com o caminhão, deveriam liberá-lo com aviso. Nunca mais passar por aquele trecho sem pagar, ou haveria consequências piores, mas antes de liberar, precisavam ter certeza absoluta que Roberto não era problema.
O líder se aproximou, parou a meio metro da cadeira, perguntou novamente sobre o GPS de emergência. Roberto manteve a história. Disse que o dispositivo estava escondido no caminhão, em lugar que eles não achariam porque era camuflado dentro de componente que parecia original. O líder hesitou, olhou para Roberto por tempo longo, tentando ler verdade ou mentira.
Roberto sustentou o olhar sem piscar, sem desviar, sem demonstrar tensão, técnica de interrogatório que ele havia aprendido décadas atrás. Quanto mais calmo você permanece, mais nervosa a outra pessoa fica. O líder xingou baixo, disse que ia deixar Roberto ir embora, mas que colocaria pessoas seguindo ele até Cuiabá. Se houvesse qualquer sinal de polícia, de operação, de armadilha, voltariam e matariam Roberto na estrada.
E se descobrissem que não havia GPS nenhum e que Roberto estava mentindo, também voltariam. Roberto concordou com aceno de cabeça, disse que era justo. Mas foi quando aconteceu o evento que mudou tudo. O jovem que estava dirigindo o Scania apareceu na porta da casa, rosto pálido, voz trêmula.
Disse que precisava falar com o líder urgente. Eles saíram. Roberto ouviu vozes abafadas lá fora, tom de discussão acalorada. Três minutos depois, o líder voltou sozinho, fechou a porta, parou na frente de Roberto, perguntou por havia um distintivo da Polícia Federal escondido no forro do teto da cabine. Pequeno distintivo dourado, número de série gravado, autêntico.
O jovem havia encontrado ao verificar um barulho que o distintivo fazia ao balançar durante a direção. Roberto fechou os olhos brevemente. Aquele distintivo tinha 15 anos. era de uma operação conjunta entre exército e PF na fronteira com Paraguai, operação que havia terminado com 23 presos e cinco mortos. Roberto tinha guardado como lembrança, escondido na cabine do caminhão, porque aquele Scania era novo e ele ainda não havia removido tudo do veículo anterior. Pequeno erro.
Erro fatal, porque agora o líder do PCC acreditava que Roberto era policial infiltrado ou informante. E informantes não eram apenas mortos. Eram torturados primeiro para revelar o que sabiam, quem mais estava envolvido, onde havia outras operações. O líder gritou para os outros entrarem.
Quatro homens invadiram a sala, rodearam Roberto ainda sentado na cadeira. O líder mostrou o distintivo, explicou onde foi encontrado. Disse que agora entendiam tudo. O motorista não era aposentado coisa nenhuma. Era policial disfarçado rodando aquele trecho para mapear operações da facção. Por isso, conhecia tanto sobre hierarquia. Por isso, não tinha medo.
Por isso, inventou história sobre GPS. Um dos homens chutou a cadeira de Roberto, que tombou para trás, batendo com força no chão de cimento. Costas doeram. cabeça girou, mas Roberto manteve controle, não reagiu ainda. Esperou. Eles levantaram a cadeira com Roberto ainda sentado. O líder se aproximou, pressionou o cano da pistola contra a testa de Roberto, disse que agora ia fazer perguntas e que Roberto ia responder todas.
E se mentisse de novo, ia perder um dedo para cada mentira. Depois orelha, depois dentes, até falar tudo. Roberto sabia que havia chegado no ponto sem retorno. Se falasse, morreria como informante. Se não falasse, seria torturado e depois morreria. Só havia uma opção agora. A opção que ele havia tentado evitar, mas que sempre soube que poderia ser necessária desde o momento que aceitou rodar sozinho naquele trecho de madrugada.
Roberto olhou para o líder com expressão vazia, disse uma única frase. Disse que eles não tinham ideia de quem haviam parado na estrada. O líder riu. Respondeu que sabia exatamente quem Roberto era. Um policial aposentado que se achava esperto. Roberto balançou a cabeça devagar. Disse que não era policial, nunca foi. O distintivo era troféu de uma operação onde ele havia matado 13 homens do PCC num depósito em Ponta Porã.
havia pego o distintivo de um dos investigadores mortos no tiroteio, guardado como lembrança dos 13 que ele pessoalmente executou. Mentira absoluta, mas mentira calculada para gerar reação específica. O líder hesitou, olhou para os outros homens, de volta para Roberto. Perguntou em que ano foi essa operação. Roberto respondeu que foi em 2007, 17 de junho.
Falou detalhes: nome do depósito, rua, número de mortos de cada lado, líder da operação que foi morto. Detalhes que só alguém que esteve lá saberia, ou alguém que leu relatórios internos muito detalhados. O líder ficou pálido porque ele conhecia aquela operação. Era lenda dentro da facção, o massacre de Ponta Porã, como era chamado.
Ninguém sabia exatamente quem tinha executado, se foi militar ou policial ou grupo de extermínio. Mas tinha acontecido. E se Roberto estava falando verdade, significava que ele não era apenas perigoso, era letal. Mas o líder ainda não acreditava totalmente. Mandou um dos homens verificar no celular, procurar notícias sobre Ponta Porã 2007.
O homem digitou, procurou, encontrou. Reportagens antigas sobre confronto que deixou 13 mortos, investigação que nunca foi concluída, suspeitas de execução sumária. As datas batiam, os detalhes batiam. O homem mostrou a tela do celular para o líder que olhou, que leu, que ficou em silêncio processando e então cometeu o erro final.
Em vez de atirar em Roberto imediatamente, decidiu ligar de novo para a torre, para Davi, para confirmar se havia registro de alguém chamado Roberto Mendes nas listas de alvos prioritários da organização. Foram 45 segundos de telefonema, tempo suficiente. Roberto contou nos primeiros 5 segundos quantos homens estavam dentro da sala.
quatro mais o líder ao telefone. Nos próximos 5 segundos, identificou quem estava mais perto. Dois à sua esquerda, dois à sua direita, líder a 3 m na frente. Nos 5 segundos seguintes, calculou sequência de neutralização. Primeiro, o da esquerda mais próximo, porque tinha arma apontada para cima. Depois o da direita porque estava distraído olhando o celular.
Depois os outros dois. líder por último, porque estava ao telefone e demoraria meio segundo a mais para reagir. Nos 30 segundos restantes do telefonema, Roberto ajustou respiração, relaxou músculos e esperou o momento exato. O líder desligou, virou-se para Roberto, disse que não havia registro nenhum de Roberto Mendes, que a história era mentira, que iam começar a tortura.
Foi quando Roberto se moveu. Movimento explosivo, treinado em milhares de horas de combate corpo a corpo, décadas atrás e mantido através de rotina que ninguém mais sabia que ele praticava. Levantou-se da cadeira num único impulso. Usou o próprio movimento para girar e acertar um soco na garganta do homem mais próximo à sua esquerda.
O homem caiu sufocado antes de apertar o gatilho. Roberto pegou a arma dele em movimento fluido, virou e atirou duas vezes no homem da direita que mexia no celular. Tiros no peito a menos de 2 m, morto antes de cair. Os outros três finalmente reagiram. Tarde demais. Roberto já estava se movendo para trás, usando a cadeira como cobertura parcial.
O terceiro homem conseguiu sacar a arma e atirar, mas estava nervoso. Mira trêmula. Tiro pegou a parede três cm à esquerda de Roberto, que respondeu com três tiros rápidos. Um pegou o ombro, outro o pescoço. O homem caiu. O quarto estava recuando em direção à porta. Quando Roberto avançou, bloqueou o caminho e acertou dois tiros no abdômen.
O homem tombou, gritando. 7 segundos desde o primeiro movimento, quatro homens neutralizados. Só faltava o líder, que estava em pânico absoluto. Segurava a pistola, mas a mão tremia tanto que não conseguia mirar. Roberto caminhou em direção a ele devagar, arma apontada, mas não atirando ainda. Disse para o líder largar a arma.
O homem não obedeceu, tentou atirar. Roberto desviou mais rápido do que qualquer pessoa de 52 anos deveria ser capaz e acertou um tiro no braço do líder. A pistola voou. O líder caiu de joelhos, gritando. Roberto se aproximou, pegou a arma caída, guardou no cinto, apontou a que segurava para a cabeça do líder, perguntou onde estavam os outros três homens.
O líder disse que estavam no barracão, verificando a carga do caminhão. Roberto mandou o líder ficar quieto. Saiu da casa lentamente, verificou o perímetro. A clareia estava silenciosa. Luzes do gerador iluminavam o barracão grande a 30 m, porta aberta, vultos movendo-se lá dentro. Os tiros tinham sido abafados pelas paredes da casa e pelo barulho do gerador.
Os outros três não sabiam ainda o que tinha acontecido. Roberto precisava decidir. Podia fugir agora, pegar o caminhão e sair dali antes que descobrissem. ou podia neutralizar os últimos três para ter certeza que não o seguiriam e não conseguiriam dar alarme imediato. Decisão difícil, porque fugir significava deixar testemunhas que poderiam alertar toda a organização, mas neutralizar significava entrar em combate aberto contra três homens armados em posição defensiva.
Roberto escolheu a terceira opção. Voltou para dentro da casa, pegou o celular do líder caído, mandou ele ligar para um dos homens no barracão e dizer que precisavam voltar rápido para a casa, que havia problema com o prisioneiro. O líder hesitou. Roberto pressionou o cano da arma contra a cabeça dele. O líder ligou, disse que o motorista tinha passado mal, que estava tendo convulsão, que precisavam de ajuda para segurar ele. Desligou. Roberto esperou.
Dois minutos depois, os três homens saíram do barracão correndo em direção à casa. Roberto estava posicionado ao lado da porta, fora do ângulo de visão. Quando o primeiro entrou, Roberto acertou a coronhada na nuca. O homem caiu inconsciente. Os outros dois perceberam a armadilha e recuaram. Ficaram do lado de fora gritando, ameaçando, exigindo que Roberto se rendesse.
Mas não entravam. Tinham medo agora. Haviam visto o companheiro cair, haviam percebido que o motorista não era vítima em defesa. Roberto analisou a situação. Dois homens armados lá fora com cobertura do barracão. Ele dentro da casa com quatro mortos ou feridos, um inconsciente e um líder refém em passe. Se ficasse ali, eventualmente mais reforços chegariam.
Se tentasse sair, os dois a atirariam. precisava mudar o cenário. Roberto olhou ao redor, viu o galão de gasolina no canto da sala, combustível para o gerador. Pegou o galão, jogou gasolina nas paredes de madeira da casa, no chão, nos corpos, por todo lado. Mandou o líder sair primeiro, mãos na cabeça, Roberto atrás dele usando como escudo.
Os dois homens lá fora viram, gritaram para Roberto largar o chefe. Roberto ignorou. caminhou devagar em direção ao caminhão estacionado a 20 m. Os homens seguiram pelo lado de fora do perímetro iluminado, mantendo distância, armas apontadas, mas sem atirar, porque arriscariam acertar o líder. Roberto chegou no Scania, abriu a porta do carona, empurrou o líder ferido para dentro, subiu atrás dele, deu a volta por dentro da cabine até o banco do motorista, deu partida no motor.
O Scania rugiu acordando. Os dois homens perceberam que iam perder o prisioneiro e o líder. Avançaram atirando. Tiros acertaram a lataria do caminhão. Quebraram o vidro da porta do passageiro. Roberto engatou primeira, acelerou. O caminhão pesado saiu em velocidade baixa, mas imparável. Um dos homens tentou bloquear a frente.
Roberto não desviou, acelerou mais. O homem pulou para o lado no último segundo. O Scania passou por cima do Gol estacionado, amassando capô e teto, e seguiu pela estrada de terra. Atrás, os dois homens correram para as motocicletas. Roberto olhou pelo retrovisor, viu eles ligando as motos, pegou o isqueiro do painel, acendeu um pedaço de papel do livro que estava no chão e jogou pela janela quebrada em direção à casa de madeira encharcada de gasolina.
O fogo pegou em 5 segundos, labaredas enormes consumindo paredes secas. Em 30 segundos, a casa inteira estava em chamas. Os homens nas motocicletas hesitaram, olharam para o fogo, olharam para o caminhão se afastando, decidiram seguir o caminhão, ligaram as motos e aceleraram pela estrada de terra. Roberto dirigia rápido demais para a estrada irregular.
O Scania balançava violento, caixas de carne deslocando na carroceria, suspensão sofrendo, mas ele manteve velocidade. Precisava chegar na rodovia antes das motos o alcançarem. olhou para o líder caído no banco ao lado, ferido no braço, sangrando consciente, mas em choque. Roberto perguntou onde ficava a saída mais próxima daquela estrada.
O líder não respondeu. Roberto repetiu a pergunta mais alto. O homem disse que tinha encruzilhada a 3 km. Podia seguir para a direita e sair na BR ou esquerda e voltar para depósito. Roberto acelerou mais. As motos estavam ganhando terreno. Via pelos retrovisores, dois faróis cortando a escuridão atrás dele, aproximando rápido.
Menos de 200 m agora. Ele checou à estrada à frente, ponte de madeira velha sobre córrego aparecendo nas luzes altas do caminhão. Roberto calculou 42 toneladas a 60 km/h, sobre ponte projetada para no máximo 10 toneladas, possibilidade alta de colapso, mas era a única forma de ganhar tempo. Manteve velocidade. O Scania atingiu a ponte.
Madeira gemeu alto, tábuas rachando, mas estrutura aguentou tempo suficiente. Caminhão atravessou. Roberto olhou o retrovisor. As motos chegaram na ponte 10 segundos depois. A primeira atravessou rápido. A segunda começou a atravessar quando o centro da ponte cedeu. Madeira quebrou com estrondo. A moto e o piloto caíram no córrego. 3 m de queda.
O homem sobreviveu, mas a moto estava destruída na água. Agora era só uma moto seguindo. Roberto alcançou-a encruzilhada, virou direita sem diminuir velocidade. O caminhão derrapou na terra, quase tombou, recuperou. Mais 500 m até a rodovia. A moto ainda vinha atrás. 100 m de distância. O piloto acelerou mais, tentando alcançar antes do asfalto, onde o caminhão ganharia vantagem.
Roberto viu a rodovia aparecer à frente. BR163 vazia na madrugada. Ele virou na pista, sentiu os pneus finalmente pegarem aderência no asfalto. Acelerou forte. O Scania ganhou velocidade rapidamente, 70 km/h, 80 90. A moto saiu da estrada de terra e entrou na rodovia também, mas agora estava claro que não alcançaria.
Caminhão pesado em velocidade máxima numa reta. Impossível de ultrapassar. O piloto da moto tentou atirar enquanto dirigia. Tiros sem mira acertaram a carroceria. Um perfurou o pneu traseiro. O Scania puxou para a direita. Roberto controlou. Continuou acelerando. A moto ia ficando para trás. 500 m, 800, 1000.
Finalmente desistiu e parou no acostamento. Roberto manteve velocidade por mais 10 km, só então diminuiu para 80. Verificou danos. Vidro quebrado, lataria perfurada, um pneu furado, mas ainda rodando. Líder do PCC ferido e inconsciente no banco ao lado e ele próprio, ileso. Olhou o relógio no painel.
6:23 da manhã, solçando a clarear o horizonte. Toda a sequência, desde o bloqueio inicial até a fuga, tinha durado 2:36. Roberto dirigiu por mais 80 km até Rondonópolis, primeira cidade grande na rota. Parou num posto de gasolina, estacionou longe das bombas, pegou o celular do líder que estava no chão da cabine, ligou para o número que aparecia como Davi torre 6.
Atenderam no terceiro toque, voz rouca de quem acabou de acordar. Roberto se identificou. Disse que era o motorista do caminhão frigorífico que tinha sido parado na BR. disse que estava com o líder do grupo que fez o bloqueio, homem ferido, e precisando de atendimento médico. Disse que ia deixar ele num hospital em Rondonópolis e que depois disso não queria mais problemas, que deixasse ele rodar em paz.
O homem do outro lado ficou em silêncio por 10 segundos. Depois perguntou o que aconteceu. Roberto contou resumido. Bloqueio leva para depósito. Descoberta do distintivo. Confronto fuga. omitiu apenas os detalhes de como neutralizou quatro homens. Davi Torre ouviu tudo. Depois perguntou quantos morreram. Roberto respondeu que não tinha certeza, talvez três ou quatro mais feridos.
Davi xingou baixo, perguntou se Roberto era realmente militar aposentado ou se era operação policial. Roberto respondeu que era exatamente o que parecia. caminhoneiro que só queria trabalhar em paz, mas que tinha passado 23 anos sendo treinado para matar quando necessário, e que esperava nunca mais precisar usar esse treinamento.
Davi perguntou se Roberto ia entregar o líder para a polícia. Roberto disse que não, que ia deixar ele no hospital e sumir, que não tinha interesse em chamar atenção de autoridades, que só queria a garantia de livre passagem dali em diante. Davi pensou depois disse que ia considerar o caso como erro de operação não autorizada, que o bloqueio não tinha permissão oficial, que o líder tinha agido por conta própria, tentando estorquir motoristas, que a organização não tinha responsabilidade pelo que aconteceu e que se Roberto mantivesse
boca fechada, não haveria retaliação. Mas se falasse com polícia, envolvesse a organização em investigação ou causasse mais problemas, haveria consequências. Roberto concordou, desligou, dirigiu até o hospital público de Rondonópolis, parou na porta da emergência, desceu, abriu porta do passageiro, tirou o líder inconsciente da cabine.
Homem estava pálido, perdido muito sangue. Roberto o carregou até a entrada do hospital, deixou sentado numa cadeira do lado de fora, tocou campainha de emergência e voltou correndo para o caminhão. saiu dali antes de alguém fazer perguntas, dirigiu até a oficina mecânica que conhecia, trocou o vidro quebrado, arrumou lataria perfurada, substituiu o pneu furado.
Mecânico perguntou o que aconteceu. Roberto disse que foi tentativa de assalto na estrada. Mecânico não fez mais perguntas. Meioia e 15. Roberto saiu de Rondonópolis em direção a Cuiabá. Chegou no destino às 15 horas. entregou a carga com 6 horas de atraso. Gerbedora reclamou. Roberto disse que teve problema mecânico na estrada.
Assinou papéis, pegou o comprovante de entrega, foi embora. Voltou para Dourados pela mesma rota. Passou pelo mesmo trecho onde havia sido parado. Nada. Rodovia vazia. Nenhum carro estranho, nenhum bloqueio. Passou pelo desvio que levava ao depósito na mata. viu fumaça subindo ao longe.
Alguém havia chamado bombeiros ou fazendeiros vizinhos tinham visto incêndio e foram apagar. Não era problema dele mais. Duas semanas depois, Roberto rodava a mesma rota novamente. Dourados para Cuiabá, carga de carne, partida de madrugada. Passou pelo qum 816. Nada. Três semanas depois, mesma coisa. Um mês depois, rodando de madrugada, viu o carro na beira da pista.
parou para ver se precisava de ajuda. Eram dois homens trocando pneu. Olharam para Roberto, reconheceram o caminhão. Um deles acenou respeitoso e disse que estava tudo certo. Não precisavam de nada. Roberto seguiu viagem. A partir dali, sempre que passava por aquele trecho, via sinais discretos. Carros encostando para deixar passar, motos diminuindo velocidade.
Ninguém o parava mais. Ninguém tentava extorção. Roberto nunca soube exatamente o que aconteceu com os homens do bloqueio. Não procurou saber. Seguiu trabalhando, rodando estradas, entregando cargas. Aposentou-se definitivamente dois anos depois. Vendeu o caminhão. Comprou casa pequena em cidade do interior. Morreu de causas naturais aos 71 anos.
No funeral compareceram ex-colegas do exército, vizinhos, família e três homens que ninguém conhecia. Ficaram ao fundo, não falaram com ninguém. foram embora discretamente. Um deles deixou o envelope com R$ 5.000 na coroa de flores, sem nome, sem mensagem, apenas o dinheiro exato que tinha sido exigido naquela madrugada na BR163, 19 anos antes.
Pedágio pago, respeito reconhecido, erro admitido. que às vezes quando você para o caminhão errado na estrada errada, descobre tarde demais que não era a profissão do motorista que importava, mas quem aquele motorista tinha sido a vida inteira antes de sentar atrás daquele volante. C.















