O PCC Cobrou Piso de Fazendeiro de Gado em Goiás — Ele Era Tenente Aposentado do GATE

17 de agosto, 17h40. Três camionetas entraram na quinta Santa Rita, interior de Goiás. Oito homens desceram, todos armados. O dono da quinta estava perto do curral, verificando o gado. Não correu, não gritou, apenas olhou para os veículos, calculou distâncias e continuou o que estava fazendo, como se tivesse visto que antes, como se soubesse exatamente o que vinha a seguir.
O líder do grupo caminhou na sua direção, confiante, sem pressa. Estava habituado a ver medo. Esperava ver medo, mas o lavrador apenas fechou a porteira do curral. tirou as luvas de cabedal e esperou. Mãos visíveis, postura neutra, olhar direto. O líder sorriu, pensou que estava no controlo, achou que aquele homem de 52 anos, boné sujo de pó e camisa xadrez desbotada, seria mais um pagador, mais um que compreenderia como as coisas funcionavam agora naquela região.
Ele estava errado, muito errado, e levaria menos de 48 horas para descobrir o tamanho do erro que tinha cometido ao escolher aquela quinta, aquele homem, aquele alvo. A quinta de Santa Rita existia há 23 anos. 640 haares de pastagem, 100 cabeças de gado nelore, cinco funcionários fixos. ficava a 18 km da cidade mais próxima, numa estrada de terra que se transformava em lama na época das chuvas.
O proprietário era conhecido como um homem quieto, trabalhador, que acordava às 5 da manhã todos os dias e dormia cedo. Não bebia, não jogava, não causava problemas. pagava aos funcionários em dia, tratava bem os animais, cumpria com as obrigações. Ninguém na região sabia muito sobre o passado dele. Tinha chegado ali duas décadas atrás, comprou a terra com dinheiro guardado, construído tudo do zero. Falava pouco sobre de onde vinha.
quando perguntavam, dizia que era de São Paulo e mudava de assunto. Os vizinhos respeitavam o silêncio. No interior, cada um cuida da sua vida, mas havia detalhes. Pequenos detalhes que não combinavam com a imagem de lavrador comum. A forma como caminhava, observando sempre o meio envolvente, nunca de costas para portas ou janelas.
A postura demasiado ereta, ombros para trás, mesmo depois de um dia inteiro de trabalho pesado. As cicatrizes, uma no braço esquerdo, outra no abdómen, que ele nunca explicava bem quando alguém perguntava. Dizia que eram de acidentes de trabalho. Possível, mas as marcas não pareciam de arame farpado ou chifrada de boi.
Tinha também o barracão nos fundos da casa principal. trancado, sempre trancado. Os funcionários sabiam que não deviam aproximar-se. Ele guardava ferramentas ali, diziam, equipamentos caros, normal em explorações grandes. Mas uma vez o caseiro mais velho tinha visto por uma frincha da porta. Não eram só ferramentas. Havia caixas empilhadas, equipamentos que não soube identificar, coisas que não faziam sentido numa propriedade rural.
Ele não comentou com ninguém. Aprendeu a não fazer perguntas. O lavrador tinha rotina militar. Acordava no mesmo horário. Fazia a ronda pela propriedade antes do café. Verificava cercas, porteiras, pontos de acesso. Conhecia cada canto daquelas terras. Sabia onde o terreno era firme, onde havia um buraco, onde se podia passar com o veículo e onde não dava.
conhecimento que levava anos para construir ou formação específico. Aos fins de semana, ele desaparecia por algumas horas, pegava na carrinha e ia para um terreno abandonado a 12 km dali. Dizia que ia caçar, regressava sem caça, mas os os funcionários ouviam barulhos, tiros, sempre tiros, distantes, mas constantes. Estranho para quem ia caçar.
Caçador dispara pouco, faz pontaria, certo? Aqueles tiros eram diferentes, sequências longas, ritmo controlado, como se estivesse praticando, como se estivesse a manter algo afiado. Mas ninguém perguntava, ninguém investigava. Era só o lavrador quieto, trabalhador, que preferia ficar sozinho.
Até ao dia em que três carrinhas entraram na propriedade sem pedir licença, o PCC tinha chegado à região se meses antes. Começou devagar. Conversa aqui, aproximação ali, oferecendo proteção, garantindo que nada de mau aconteceria com quem colaborasse e cobrando por essa proteção. 5.000 por mês para pequenas explorações. 10.000 para as médias, 20.000 para as grandes.
A quinta de Santa Rita era grande. Os primeiros agricultores pagaram sem resistir. Medo, conheciam as histórias, sabiam o que acontecia a quem recusava. Melhor pagar e continuar tocando a vida. O PCC consolidou o controlo rápido. Em quatro meses dominava 15 propriedades rurais, três postos de abastecimento de combustível, dois mercados na cidade próxima, expansão territorial, nova fonte de rendimento.
Longe dos grandes centros, longe da pressão policial intensa, mas perto de rotas de escoamento. A quinta de Santa Rita era o próximo alvo lógico, grande, rentável, isolada, perfeita. E o dono, um velho agricultor quieto, sem histórico de violência, sem ligações perigosas aparentes, alvo fácil. No dia 17 às 5:40 da tarde, o grupo entrou.
O líder se chamava-se Juliano. Tinha 34 anos, sete deles dentro da facção. Batizado no sistema, promovido pela lealdade e violência, comandava a expansão rural da região. 12 homens sob o seu comando direto, três viaturas, armamento pesado. Não esperava resistência, nunca tinha encontrado. O agricultor estava no curral quando chegaram.
Juliano desceu da carrinha, ajustou a pistola à cintura, caminhou sem pressa. Dois homens acompanharam-no, armados com fuzis. Os outros ficaram espalhados posições estratégicas, cobrindo as saídas. Procedimento padrão, funcionava sempre. “Boa tarde”, disse Juliano sorrindo. Falso. É o dono? O fazendeiro terminou de fechar a porteira, tirou as luvas lentamente, olhou para o homem.
não respondeu imediatamente. Avaliou, contou quantos eram, verificou o posicionamento, identificou as armas, tudo em 3 segundos, depois assentiu. Sou. Beleza. Vim aqui para uma conversa rápida. Juliano deu dois passos para a frente. Invasão de espaço pessoal, intimidação básica. Você conhece como funcionam as coisas aqui agora, não é? A região tem nova administração.
A gente garante que nada de mal acontece com quem colabora, percebe? O agricultor não desviou o olhar, manteve as mãos visíveis, postura relaxada, mas pronta. Anos de treino não desaparecem, ficam adormecidos à espera. Entendo. Portanto, sabe que tem uma taxa mensal, 20.000, todos os dias 15. Transferência ou dinheiro, a sua escolha.
Juliano sorriu mais. Primeira prestação vence amanhã, mas como é a primeira vez, aceitamos até ao dia 20. Cortesia. Silêncio. O lavrador olhou para os homens espalhados, para os carros, para as armas, calculou cenários, avaliou riscos. Depois voltou o olhar para Juliano. E se não pagar? A pergunta pegou Juliano de surpresa. Não era comum.
A maioria só perguntava para onde transferir. Ele perdeu o sorriso. Deu mais um passo. Não é uma questão inteligente, velho. Você não quer descobrir a resposta. Só quero perceber como funciona. A voz do lavrador era calma, baixa, demasiado controlada. Vocês voltam aqui se não pagar? A gente volta e não vai ser conversa.
Juliano colocou a mão na pistola. Não sacou, só tocou. Ameaça visual. Mas você parece inteligente, homem trabalhador, propriedade bonita, não vai querer problema, não é? O lavrador ficou em silêncio durante 5 segundos, depois assentiu. Vou pensar. Não tem o que pensar. Ou paga ou tem um problema. Juliano virou-se de costas, começou a caminhar de volta para a carrinha, depois parou, olhou por cima do ombro.
Ah, e não adianta chamar a polícia, temos contacto dentro. vai saber antes de eles chegarem aqui, percebe? O fazendeiro não respondeu, apenas observou os três veículos saírem pela estrada de terra batida, levantando poeira. Ficou ali parado por 2 minutos depois de terem desaparecido. Então caminhou até à casa.
Não correu, não pareceu nervoso, apenas mudou o planeamento do dia. Entrou no barracão trancado nas traseiras, acendeu a luz. Duas mesas de metal, prateleiras nas paredes, caixas empilhadas. Ele abriu a primeira caixa. No interior, envolto em pano oleado, uma pistola Taurus calibre 40. Verificou o estado. Limpa, lubrificada, pronta.
Abriu a segunda caixa. Carregadores extras, munições suficientes para situações prolongadas. Terceira caixa, um colete balístico nível três, antigo, mas funcional. Quarta caixa. Equipamento de comunicação. Rádio de longo alcance. Binóculos militares. Os mapas da propriedade marcados com posições táticas.
Campos de tiro, pontos de cobertura. Não eram mapas de agricultor, eram mapas de operador. Ele ainda não apanhou nada, apenas verificou. Confirmou que estava tudo onde devia estar. Depois trancou o barracão de novo e voltou para a casa. Jantou normalmente, carne, arroz, feijão. Assistiu ao jornal.
Às 9 da noite, apagou as luzes e foi dormir. Mas não dormiu descansado. Nunca dormia descansado quando sabia que algo estava a vir. No dia seguinte, 18 de agosto, acordou às 5, como sempre. Fez a ronda, verificou cercas, orientou os colaboradores sobre o trabalho do dia, rotina normal. Mas agora prestava atenção a coisas diferentes, pontos de entrada, percursos de fuga, onde teria vantagem tática, onde estaria exposto.
Ao meio-dia recebeu uma chamada, número desconhecido. E aí, velho? Pensou. Era o Juliano. Prazo termina amanhã. Pensei. Táilum. Não vou pagar. Silêncio do outro lado. 5 segundos. Depois, uma risada. sem humor. Tem a certeza do que está fazendo? Tenho. Beleza, a sua escolha. A ligação caiu. O agricultor desligou o telemóvel, tirou a bateria, guardou-a na gaveta, pelo que chamou os funcionários.
Disse que deviam tirar o resto da semana de folga. Pagou adiantado, insistiu. Disse que tinha questões pessoais para resolver e preferia ficar sozinho. Os homens estranharam, mas não discutiram. patrão mandando-o embora e pagando. Aceitaram. Às 15 horas, a propriedade estava vazia. Só ele, 1200 cabeças de gado e a certeza de que teriam visitas em breve.
Ele foi até ao galpão. Desta vez pegou no equipamento, o colete, a pistola, dois carregadores extras, o rádio. Vestiu roupas escuras, práticas, sem nada que se pudesse enroscar. Depois pegou em algo que estava no fundo da última caixa, um distintivo antigo. Polícia militar do estado de São Paulo. Gat, grupo de ações táticas especiais.
Olhou para o distintivo por 10 segundos, não tinha visto aquilo em 20 anos. Guardou-o de volta. Não precisava de distintivos. Precisava do treino que veio com eles. Tenente Marco Aurélio Silva, 15 anos de serviço. Oito no G. Operações de socorro, combate urbano, invasões táticas, 52 operações de alto risco, 13 confrontos diretos com organizações criminosas, três medalhas por bravura, zero processos disciplinares e um dia ele simplesmente pediu baixa.
Aposentou-se cedo, pegou no dinheiro acumulado, comprou terra longe de tudo, tentou esquecer, mas não esqueceu. Não completamente. Treinamento de elite não sai do corpo, reflexos permanecem, a memória muscular fica. E quando três carrinhas entraram na propriedade ameaçando, alguma coisa dentro dele acordou, algo que estava quieto há duas décadas, algo que os Os homens do PCC não faziam ideia que existia.
Regressaram no dia 19 às 7 da noite, quando já estava a escurecer. Duas carrinhas desta vez, seis homens, Juliano à frente, desceram armados, sem cerimónias, sem conversa amigável. Entraram directamente na casa, porta destrancada, luzes apagadas. “Velho, onde estás?”, gritou Juliano, verificou os quartos vazio, olhou pela janela, viu luz no barracão das traseiras, sorriu ali.
Caminharam até ao barracão, porta aberta, luz acesa no interior. O Juliano entrou primeiro, de pistola em punho, dois homens atrás dele, espingardas prontas. O barracão estava vazio, só caixas, ferramentas, mas algo estava errado, muito organizado, demasiado limpo. E no centro, sobre uma mesa, um papel. O Juliano pegou.
Vocês escolheram a quinta errada. Só isso. O Juliano amassou o papel, atirou-o para o chão. Estava a começar a ficar irritado. Onde estava o velho? Espalhem, encontrem. Ele não pode ter ido longe. Os homens saíram do barracão, começaram a procurar curral, estábulo, casa. Novamente gritavam o seu nome, praguejavam, atiravam para o ar, tentando assustar, fazê-lo aparecer.
Não funcionou. Juliano voltou para a carrinha, pegou no telemóvel, ligou para o número do agricultor. Não completou. Bateria removida. Atirou o telemóvel para o banco, pensou rápido. O velho estava ali em algum lugar escondido, provavelmente com medo. Bom, o medo era útil. Queimem o estábulo. Um dos homens olhou para ele, hesitante.
Chefe, há ali gado. Eu sei. Queimem. Pegaram nos bidons de gasolina da carrinha, despejaram nas paredes de madeira do estábulo mais pequeno, acenderam. O fogo subiu rapidamente. As chamas iluminaram a noite, criaram sombras dançantes. O gado começou a ficar agitado, mugia alto, tentava afastar-se do calor e da luz.
Juliano cruzou os braços, observando o fogo. Esperava que o lavrador aparecesse a correr, tentando salvar os animais, implorando para parar. Não apareceu. 15 minutos depois, o estábulo era só estrutura em brasa. Juliano estava a começar a ficar preocupado, não pelo velho, mas pela situação. Fogo chamava a atenção. Alguém na região podia ver, ligar para os bombeiros, para a polícia.
Precisavam terminar aquilo rapidamente. Vamos embora. Ele vai aparecer quando sairmos. Amanhã voltamos com mais gente de dia e resolve isso direitinho. Entraram nas carrinhas, ligaram os motores, começaram a manobrar para sair. E foi aí que o primeiro pneu rebentou. Tiro de espingarda. Preciso. Depois o segundo. Terceiro, os seis pneus das duas carrinhas furadas em sequência.
Menos de 10 segundos. Sete tiros, seis alvos. O sé tiro atingiu o motor da primeira caminhonete. Eles ouviram o assobio da bala, o barulho do impacto no metal. Os homens saíram dos veículos, procuraram cobertura, mas não sabiam onde disparar. O atirador estava longe, muito longe. A distância era de, pelo menos, 300 m, julgando pela trajetória, no escuro, sem iluminação adequada, atingindo alvos móveis pequenos como pneus.
Não era sorte, era habilidade. Muita habilidade. Juliano sentiu o primeiro aperto real de medo, pegou no rádio, chamou os outros dois homens que tinham ficado na cidade como backup, pediu reforços, mais armas, mais gente. Precisava de vantagem numérica. Os reforços chegaram 40 minutos depois. Mais uma carrinha de caixa aberta, quatro homens, 10 no total.
Agora, Juliano reorganizou o grupo, formou duas equipas, uma ficaria protegendo os veículos, outra iria caçar o atirador. Luz de lanterna, movimento coordenado. Procedimento básico de varredura. Avançaram na direção de onde vieram os tiros. Campo aberto, pasto alto, difícil. Avançaram 100 m, 200 nada. Só erva, silêncio e as lanternas cortando a escuridão.
Então o primeiro homem caiu. Não foi bala, foi arame, esticado entre duas árvores altura do pescoço. Ele bateu de cara, caiu para trás, gritou. Os outros pararam, apontaram as armas a todos os os lados. Nada, sem atirador visível. Juliano mandou dois homens ajudarem o caído. Enquanto se baixavam, algo explodiu.
Não era uma bomba, era um rojão, amarrado em latão, escondido na erva. Fez barulho, luz intensa, fumo. Os homens atiraram-se para o chão, protegendo a cabeça. Quando o fumo baixou, estavam cobertos de tinta, tinta laranja, marcadores, como no treino militar. Juliano compreendeu naquele momento. O velho estava a brincar. Estava a mostrar que podia ter matado, que podia ter utilizado granada real climor, explosivo de verdade. Mas usou rojão e tinta.
Era aviso, era uma demonstração de superioridade tática. Recuar, todos recuar para os carros. Recuaram a correr, tropeçando. Dois homens perderam-se no escuro. Tiveram de ser guiados por gritos. Quando chegaram de volta aos veículos, encontraram mais problemas. Alguém tinha cortado as mangueiras de combustível, gasolina derramada no chão.
Os veículos não iam funcionar, estavam ali presos. O Juliano sentou-se no chão, encostado à roda traseira da carrinha, tentando pensar. Pegou no telemóvel, ligou para o número de contacto dentro da polícia. Alguém de confiança, alguém que avisava quando tinha a operação a chegar. Precisava de informação.
Quem era aquele velho? O telefone tocou quatro vezes. Atenderam. Preciso que verifique um nome para mim. Marco Aurélio Silva, lavrador, 52 anos, propriedade rural em Góis. Silêncio do outro lado. Depois uma respiração pesada. Onde está? Na quinta dele. Por quê? Sai já daí, pega nos seus homens e sai. Quê? Por quê? Esse nome não é de um agricultor comum.
Marco Aurélio Silva. Exenente Gate. Você sabe o que é o Gate? O Juliano sabia. Todo mundo no crime organizado de São Paulo sabia. Gate eram os operadores que invadiam cativeiros, resgatavam reféns, faziam operações de alto risco, os mesmos que haviam desmantelado células do PCC em operações sangrentas nos anos 2000, os mesmos que os criminosos experientes aprendiam a evitar.
Ele está reformado há 20 anos. Não importa. O treino daquele nível não desaparece. Você entrou na propriedade de um operador tático Xgate. Vocês estão no terreno dele. Ele conhece cada metro. Vocês são alvos. Sai agora. A ligação caiu. Juliano ficou parado, a processar. Olhou para os homens em redor, assustados, marcados com tinta, presos numa quinta no meio do nada, com veículos inutilizados, contra alguém que estava a caçá-los no escuro, como se fosse exercício de treino.
Ele tinha entrado numa armadilha, não uma armadilha de metal, uma armadilha humana. E a pior parte era que o agricultor estava a ser gentil. Podia ter matado. Ainda não tinha, mas podia. A gente sai a pé agora. Deixem as armas, deixem tudo. Só saiam. Chefe, são 6 km até a estrada principal. Eu sei. Andem.
Eles começaram a caminhar. 10 homens sem armas pela estrada de terra batida que levava para fora da propriedade. Era humilhante, era derrota completa, mas era sobrevivência. Quando chegaram ao portão de entrada da quinta, havia alguém à espera. O lavrador, de pé do lado da cerca, sem arma visível, só ele, de braços cruzados, olhando para os 10 homens como se fossem crianças que tinham feito asneiras.
O Juliano parou a 3 m de distância. Os outros ficaram atrás dele. “Você é maluco?”, o agricultor não respondeu. “Sabe quem somos? Sabe o que vai acontecer agora?” “Sei. Vocês vão embora. Vão contar a quem mandam vocês que tentaram cobrar um piso a um ex-gate e vão explicar por terem voltado com o rabo entre as pernas, sem armas cobertos de tinta.
Juliano cerrou os punhos, quis avançar, quis fazer alguma coisa, mas não o fez porque sabia. Sabia que se o lavrador estivesse ali sozinho, sem medo, era porque tinha vantagem. Tinha sempre vantagem. Isso não acaba aqui. Sim, acaba. A voz do lavradora era baixa, firme. Porque vocês vão levar uma mensagem a quem quer que comande essa região.
Vocês escolheram a quinta errada, escolheram a pessoa errada. Eu não procuro briga, só quero tocar a minha vida. Mas se voltarem, se insistirem, não vou ser amável de novo. Não vou usar tinta. Não vou dar aviso. Entenderam? Silêncio. Juliano olhou para os olhos do homem. Não viu ódio, não viu raiva, viu profissionalismo frio, viu alguém que tinha feito aquilo muitas vezes antes, viu o operador.
Ele assentiu, virou-se de costas, caminhou pela estrada. Os outros o seguiram. Ninguém olhou para trás. O agricultor ficou ali parado por mais 10 minutos, vendo os homens desaparecerem na escuridão. Assim, voltou para a casa, tirou o colete, guardou a arma, tomou banho, preparou o café, sentou-se na varanda. 3 da manhã.
O fogo no estábulo tinha apagado sozinho. Danos controláveis, sem gado ferido grave. Veículos abandonados na propriedade. Ele ligaria para a polícia de manhã, faria relatório policial, relataria invasão de propriedade e ameaças. Procedimento correto, legal. mas sabia que a história não terminava ali. Organizações criminosas não aceitavam a derrota, não aceitavam a humilhação.
Juliano voltaria ou mandaria outros mais preparados, mais violentos. Era uma questão de tempo. Ele terminou o café, entrou em casa, pegou no telemóvel antigo da gaveta, guardado há anos, colocou a bateria, ligou, esperou carregar. Depois discou um número que ainda sabia de cor. Atenderam ao terceiro toque. Marco, sou eu.
Faz quanto tempo? 15 anos. 20.º O que você precisa? Informação. PCC está a cobrar piso das propriedades rurais em Goiás. Invadiram a minha quinta. Dei um susto neles. Eles vão voltar. Preciso de saber quem manda, estrutura, quantos são. Silêncio do outro lado, depois uma risada baixa. Voltou para o jogo? Não, foram eles que me puseram de volta.
Entendi. Vou levantar-me. Envio-te em 24 horas. Obrigado, Marco. Sabe que se isso escalar não há volta a dar, certo? Você não é mais gate. Não tem cobertura institucional, é você sozinho. Eu sei. Então tenta resolver isso do jeito certo. Polícia, justiça, sistema. Vou tentar, mas se não der, sei. Você sempre foi bom no plano B.
A ligação caiu. Marco guardou o telefone, voltou para a varanda, assistiu ao nascer do sol sobre a propriedade. 20 anos ali, 20 anos a construir algo. Paz, silêncio, distância do que ele era. E agora? Agora tudo estava ameaçado porque meia dúzia de criminosos pensava que ele era presa fácil.
Ele não queria voltar, não queria voltar a ser operador, mas também não ia entregar a quinta, não ia pagar extorção, não ia deixar que controlassem a sua vida. Às 8 horas da manhã, ligou para a esquadra da cidade próxima, fez o boletim de ocorrência detalhado, invasão de propriedade, ameaças, incêndio criminoso, dano ao património. A atendente anotou tudo, disse que um investigador entraria em contacto.
Marco agradeceu e desligou. Sabia que não daria em nada. O PCC tinha contactos dentro. O processo seria arquivado, esquecido, mas pelo menos estava registado, documentado. Às 10, os funcionários regressaram. Ele tinha mandado mensagem a avisar que estava tudo resolvido. Encontraram o estábulo queimado, as três carrinhas abandonadas. Fizeram perguntas.
Marco disse que tinha tido problemas com invasores, de que a polícia estava ciente, que estava tudo controlado. Os homens não pareceram convencidos, mas aceitaram a explicação. Tocaram o trabalho. Às 3 da tarde, o telemóvel antigo vibrou. Mensagem: Ficheiro PDF. Marco Abril. Relatório completo. Nome do comando local do PCC na região.
Juliano Roberto Campos. Três condenações. Foragido, perigoso. Abaixo dele, 12 soldados. Em cima, um coordenador regional. Acima deste, a cimeira em São Paulo. Estrutura hierárquica, funcionava como empresa, como o exército. O relatório incluía moradas, casa de Juliano, pontos de encontro, percursos de distribuição, tudo.
O Marco leu duas vezes, memorizou os principais pormenores, depois apagou o ficheiro. Não queria vestígios digitais. Ele tinha duas opções. Opção um, esperar, reforçar a segurança da exploração, defender-se quando voltassem. Possível, mas era reativo. Ele ficaria sempre à espera do próximo ataque, vivendo com medo.
Opção dois, agir primeiro. Levar a luta até eles. Mostrar que continuar a tentar cobrar piso dele sairia mais caro do que valia. Era arriscado, era possivelmente ilegal, mas era eficaz. O Marco passou a tarde pensar, pesando consequências, riscos, benefícios. A noite tomou a decisão. Opção dois, não ia esperar, não ia ficar na defensiva.
Tinha aprendido no Gate que a melhor defesa era a ação coordenada, rápida, que apanhasse o inimigo de surpresa. Dia 20, 3 da madrugada, o Marcos saiu da quinta na sua caminhonete particular, sem distintivos, sem placas que chamassem a atenção. Conduziu até à cidade seguinte, estacionou a três quarteirões da casa de Juliano, caminhou o resto do caminho, roupa escura, ténis sem logótipo, boné anónimo.
A casa era simples, dois quartos, porta da frente e porta dos fundos, sem vedação alta, sem câmaras visíveis, confiança excessiva ou falta de recursos. Provavelmente os dois. Havia um carro na garagem, luzes apagadas. 3h15 da manhã, horário de sono profundo. O Marco não invadiu, não precisava. Apenas deixou algo à porta, um envelope.
Dentro fotos, fotos da casa tiradas de diferentes ângulos, fotos do carro e uma mensagem curta, digitada, sem assinatura. Eu sei onde moras, sei onde vivem os seus homens, sei as suas rotas, conheço a sua estrutura. Você veio na minha casa, agora vim à tua, mas ao contrário de ti, eu não queimei nada. Eu não preciso.
Só preciso que me entenda. Deixa a quinta em paz. Deixa eu em paz. Ou da próxima vez não deixo só um envelope. O Marco voltou para a carrinha, conduziu de volta para a quinta. Chegou às 5, tomou café, foi trabalhar como se nada tivesse acontecido. O Juliano encontrou o envelope às 7 da manhã, quando saiu de casa, leu a mensagem, olhou para as fotos, sentiu o estômago virar.
O velho tinha estado ali em casa dele. Podia ter entrado, podia ter feito qualquer coisa, mas só deixou o envelope. Aviso. Demonstração de capacidade. Ele ligou para o coordenador regional, relatou tudo. A invasão falhada, a humilhação, o envelope. O coordenador ficou em silêncio durante um minuto inteiro. Tem a certeza que ele é exgate? Tenho, confirmei com o nosso contacto.
E ainda quer continuar com isso? Juliano hesitou. Orgulho dizia sim. Sobrevivência dizia não. Não sei. Eu sei. Deixa-o em paz. A quinta não vale isso. Operador Exgate, reformado, mas ainda ativo, que sabe onde é que nós mora, que pode chegar perto sem ser detectado. Ele vale mais como problema evitado do que como fonte de rendimento.
Esquece. E a imagem, o respeito. A gente vai deixar que um velho nos derrote. Ele não é um velho. Ele é um profissional que a gente subestimou. A imagem que a gente salva agora é admitindo o erro, aprendendo e não repetindo. Já perdemos três veículos, gastámos munições, assustamos os homens. Corta a perda, segue em frente. A chamada terminou.
O Juliano ficou parado no passeio e envelope na mão, sentindo o sabor amargo da derrota, mas também sentindo alívio, porque no fundo ele sabia, se continuasse, se escalasse, o próximo envelope não seria apenas papel, seria consequência real. E ele não estava pronto para enfrentar alguém como o Marco. Nos dias seguintes, não houve mais visitas à quinta de Santa Rita.
Não houve mais ameaças, não houve mais cobranças. O PCC reorganizou as operações na região, incidiu sobre alvos mais simples, evitou a propriedade do ex-gate como se fosse zona neutra. A palavra espalhou-se dentro da organização. Há um fazendeiro em Goiás, exoperador tático. Não te metas com ele.
Não vale a pena a dor de cabeça. O Marco voltou à rotina. Acordar cedo, tratar do gado, gerir a fazenda. Os funcionários repararam que estava mais atento, mais vigilante, mas aos poucos a tensão baixou. A vida voltou ao normal. Ele reconstruiu o estábulo queimado, reparou os danos, seguiu em frente, mas não guardou as armas, não trancou o equipamento de volta nas caixas, deixou tudo acessível porque tinha aprendido algo importante.
O passado não desaparece, as competências não desaparecem e a paz é algo que por vezes precisa ser defendido com a mesma violência que tenta destruí-la. Dois meses depois, Juliano foi detido numa operação policial grande. Outra facção tinha informado a polícia sobre a estrutura do PCC na região. Rivalidade, política criminal.
A operação apanhou sete homens da organização. Juliano foi condenado a 12 anos. O coordenador regional foi realocado para outro estado. A célula local desmantelou-se. O Marco leu sobre isso no jornal local. Não sentiu satisfação, não sentiu vingança, apenas alívio. O problema tinha sido resolvido por caminhos oficiais.
Ele não precisou escalar, não teve de utilizar o plano B completo. Tinha tido sorte, mas a sorte não era fiável. Então continuou treino fins de semana no terreno abandonado, mantendo a mira, mantendo os reflexos, porque tinha aprendido há muito tempo no Gate uma lição simples. Nunca se sabe quando vai precisar de novo.
A Fazenda Santa Rita continua operando. 1200 cabeças de gado, cinco empregados, um dono sossegado, trabalhador, que acorda às 5 e dorme cedo, que paga atempadamente e trata bem todo o mundo. um agricultor comum, um homem de 52 anos que só quer paz. Mas agora os os criminosos da região sabem, sabem que aparência engana, sabem que a subestimação custa caro e sabem que naquele propriedade específica, naquela quinta, mora alguém que não deve ser incomodado, porque não é só um agricultor, é um operador e os operadores não esquecem.















