O Filho do Milionário só tirava Nota Baixa — até que a Faxineira Pobre o contou um Segredo

Clara sai do autocarro lotado na esquina do bairro mais nobre de São Paulo. Aos 32 anos, ela caminha pelas ruas arborizadas até chegar ao portão imponente da mansão lousada. A casa é um moderno palácio de três andares, com jardins que mais parecem um parque, piscina olímpica e garagem para 10 automóveis importados.
A Clara trabalha ali há apenas uma semana como empregada de limpeza, substituindo a dona Marta, que se reformou-se após 20 anos de serviço. “Clara, chegaste.” Cumprimenta a Rosa, a governanta da casa há 15 anos, uma mulher de 50 anos com ar severo e métodos rígidos. Hoje vai limpar o andar de cima. Mas cuidado com o quarto do menino.
Cuidado como o Nicolas tem 12 anos e é complicado. Não gosta que mexam nas coisas dele. Clara sobe as escadas de mármore, observando os quadros caros nas paredes e os lustres de cristal. Tudo na casa grita luxo, mas há algo frio, sem vida, como se de um museu se tratasse em vez de um lar. Quando chega ao corredor do segundo piso, escuta uma discussão vinda do quarto do fundo.
Nicolau. Vai se atrasar para o colégio? A voz grave de um homem adulto. Não quero ir. A resposta vem de uma voz jovem cheia de raiva. Não é uma questão de querer. Vai para quê? Para tirar nota baixa novamente. Clara para à frente da porta entreaberta e vê um homem alto de cabelos grisalhos, fato caríssimo, tentando convencer um rapaz moreno de cabelos encaracolados a arranjar-se para a escola.
Nicolas, as suas notas não melhoram porque não se esforça. Eu me esforço sim, mas não consigo compreender nada. Todos da nossa família sempre foi inteligente. O problema é que você não presta atenção. O miúdo baixa a cabeça derrotado. Está bom, pai. Vou para escola. O homem sai do quarto apressado, quase a esbarrar em Clara no corredor. Desculpe, é a empregada de limpeza nova? Sim, senhor. Clara Mendes. Rodrigo Lousada.
Bem-vinda à família. Ele olha para o relógio. Tenho reunião daqui a 20 minutos. Qualquer coisa fala com a Rosa. Rodrigo Lousada é proprietário de uma das maiores empresas de construção do país. Homem que construiu um império do zero, mas que trabalha 16 horas por dia e raramente está em casa. perdeu a esposa há 5 anos num acidente de carro e desde então refugia-se no trabalho para não lidar com a dor.
Depois de ele sair, Clara escuta soluços vindos do quarto. Ela bate à porta devagar. Posso entrar? Quem é? Sou a Clara, a nova empregada de limpeza. Pode entrar. Clara abre a porta e encontra Nicolas sentado na cama, ainda de pijama, os olhos vermelhos de chorar. O quarto é enorme, cheio de videojogos, computadores, livros caros, mas o menino parece perdido no meio de tanto luxo.
Olá, Nicolas, eu sou a Clara. Olá, você não queres ir para a escola hoje? Nicolas abana a cabeça. Odeio aquela escola. Por quê? Porque lá toda a gente é mais inteligente que eu. Quem disse que você não é inteligente? Todo o mundo. O meu pai, os meus professores, os meus colegas. Clara observa o menino mais atentamente.
Ele tem olhos espertos, mas tristes. Mãos que se mexem muito quando ele fala, como se precisasse de gesticular para pensar. Nicolas, posso contar-te um segredo? O menino olha-a com curiosidade. Que segredo? Quando eu tinha a tua idade, também achavam que eu era burra. Sério? Sério. Na escola, tirava sempre as piores notas da turma.
E o que você fez? Descobri que não era burra, só aprendia de uma forma diferente. Nicolas franze a testa. Como assim? Tem gente que aprende lendo, há pessoas que aprendem ouvindo, há pessoas que aprendem fazendo. Cada pessoa tem o seu jeito. E qual é o o seu jeito? A Clara sorri. Eu aprendo contando histórias.
Transformo tudo em história para conseguir recordar. Como assim? Por exemplo, a matemática. Em vez de decorar as contas, inventava pequenas histórias com os números. Os olhos de Nicolas brilham de interesse. Você pode me ensinar? Posso, mas agora você precisa de ir para a escola. Não quero. Que tal fazermos um acordo? Que acordo? Você vai hoje para a escola, presta atenção nas matérias que têm dificuldade e quando voltar ajudo-te a estudar do meu jeito. Nicolas pensa por um momento.
Promete? Prometo. O miúdo levanta-se e vai-te arrumar. Pela primeira vez em semanas, alguém se ofereceu para o ajudar de verdade. Enquanto Nicolas toma banho, Clara observa o quarto dele. Nas estantes, centenas de livros que claramente nunca foram abertos. Na mesa, pilhas de trabalhos de casa rabiscados e cheios de notas vermelhas.
No lixo, testes com notas três, 4, 5. Mas o que mais chama a atenção é um caderno escondido debaixo da cama. Clara apanha-o e folheia. Está cheio de desenhos incríveis, carros futuristas, robôs detalhados, paisagens fantásticas. O menino tem uma criatividade impressionante. Gosta dos meus desenhos? Nicolas aparece atrás dela já vestido para a escola. São lindos.
Você tem muito talento. O meu pai diz que desenhar é perda de tempo. O seu pai está errado. A arte desenvolve a inteligência. Sério? Sério. Quem desenha bem é geralmente bom em geometria, em ciências, em história. Mas eu sou mau em tudo isto porque ninguém ensinou da forma certa para você. Nicolas pega na mochila pela primeira vez, entusiasmado para voltar da escola.
Clara, estudaste até que série? A pergunta apanha Clara de surpresa. Parei no primeiro ano do ensino secundário. Por quê? Clara hesita. Como explicar a um rapaz de 12 anos que engravidou aos 16 anos, foi expulsa de casa, teve de largar os estudos para trabalhar? Por vezes, a vida obriga-nos a fazer escolhas difíceis.
Mas você voltou a estudar? Estou a voltar agora. Faço supletivo à noite. E vai fazer faculdade? Sonho fazer pedagogia. Quero ser professora. Você já é professora, pelo menos para mim. Clara emociona-se com as palavras do menino. Obrigada, Nicolau. Agora vai para a escola antes que se atrase. Está bom. Até à tarde.
Pela primeira vez em meses, Nicolas sai de casa sorridente. Durante o dia, enquanto limpa a casa, Clara pensa no menino. Ela reconhece nele a mesma frustração que sentiu na infância. A sensação de ser considerado burro quando, na verdade só precisava de uma abordagem diferente. Às 2as da tarde, Nicolas regressa da escola carregando a mochila pesada e uma expressão derrotada.
“Como foi?”, pergunta Clara, terrível. Tirei zero na prova de matemática. Zero? Não percebi nada. Equações do primeiro grau. Deixa-me ver. A Clara pega na prova e analisa. As questões são simples, mas apresentadas de forma muito abstrata. Nicolas, você percebe o que é uma balança? Claro. Então compreende a equação. Como assim? Clara leva Nicolas para a cozinha e pega numa balança de cozinha antiga.
Imagina que esta balança é uma equação. De um lado temos x + 3, do outro lado temos 7. Ela coloca pesos nos dois lados da balança. Paraa a balança ficar equilibrada, X tem de valer quanto? Nicolas pensa observando a balança. 4. Exato. Porque 4 + 3 = 7. Ui, é só isso? É só isso. Equação é encontrar o peso que falta para equilibrar a balança.
Durante uma hora Clara ensina equações utilizando a balança, frutas, brinquedos. O Nicolas entende tudo rapidinho. Porque é que o meu professor não explica assim? Porque ele não sabe que é preciso ver e tocar para aprender. E sabe? Eu desconfio. Você mexe muito as mãos quando fala, desenha para explicar as coisas, aprende melhor quando vê exemplos concretos. É verdade.
Como é que percebeu isso? Porque eu sou assim também. Nessa noite ao jantar, Nicolas conta ao pai sobre a aula com Clara. Pai, aprendi hoje equações. Rodrigo olha surpreendido. Aprendeu como? A Clara ensinou-me usando uma balança. Foi muito mais fácil. A a fachineira ensinou-te matemática? É, ela é muito inteligente.
Rodrigo franze a testa. Nicolas, não pode incomodar os funcionários com os seus deveres, mas ela ofereceu-se para ajudar. Mesmo assim, não é função dela. Para isso, tem professor particular. O professor particular só me confunde mais. Então, vamos mudar de professor. Não quero trocar. Quero que a Clara continue a ajudar-me. Rodrigo suspira.
Filho, a Clara tem o seu trabalho, não pode estar a perder tempo com lição. Mas pai, assunto encerrado. Nicolas fica triste, mas não desiste da ideia. Na manhã seguinte, procura Clara antes de ir para a escola. Clara, o meu pai disse que não me pode ajudar mais. Eu sei, a Rosa contou-me, mas eu quero continuar a aprender com você.
Clara olha em redor para ter a certeza que ninguém está a ouvir. Que tal fazermos assim? Quando voltares da escola, me procura na zona de serviço. Se não tiver ninguém por perto, estudamos um pouquinho. Pode ser? Pode sim. O nosso segredinho. A partir desse dia, Nicolas e Clara estabelecem uma rotina secreta.
Todas as tardes, eles se encontram na zona de serviço, na dispensa ou no jardim das traseiras para estudar. Clara descobre que Nicolas é muito inteligente, só tem uma forma diferente de aprender. Ela ensina português através de histórias de aventura, ciências usando experiências simples com ingredientes da cozinha, geografia através de narrativas de viagem.
Clara, como sabe tantas coisas se estudou até ao primeiro ano do ensino secundário? Porque nunca deixei de estudar sozinha. Leio muito, pesquiso, Faço cursos à distância. Que cursos? Pedagogia, psicologia infantil, métodos de ensino alternativos. Ui, você é tipo uma professora secreta. Clara ri-se. Algo assim. Por que não fez faculdade? Clara fica séria. Porque aos 16 anos engravidei.
E o bebé? O meu filho morreu aos do anos. Leucemia. Nicolas fica chocado. Sinto muito. Por isso me identifiquei com você. Ele teria a sua idade agora. Por isso ajuda-me? Eu ajudo-te porque tu merece. Toda a criança merece ter alguém que acredite nela. Nicolas abraça Clara. Obrigado por acreditar em mim.
Sempre vou acreditar. Durante duas semanas, as as aulas secretas continuam. Clara descobre que o Nicolas não tem só dificuldades de aprendizagem, ele tem características de sobredotação em algumas áreas, especialmente as artes e o raciocínio espacial. Nicolas, já fez teste de Qi? Fiz sim. Deu 85 abaixo da média. Impossível. Você é muito inteligente.
Não sou, não. É sim. O teste é que estava errado. Como assim? Teste de QI tradicional não mede todas as formas de inteligência. Você tem inteligência visual, espacial, sinestésica, criativa. Isso existe. Claro. Howard Garner identificou oito tipos de inteligência. A escola só valoriza duas. Clara explica para Nicolas sobre as múltiplas inteligências.
Ele fica fascinado ao descobrir que a sua forma de pensar não é defeito, é diferença. Você quer dizer que posso ser inteligente do meu jeito? Não, só pode como é muito inteligente. As notas de Nicolas começam a melhorar gradualmente. Na segunda prova de matemática, tira seis. Na terceira, oito. Pai, olha a a minha nota.
Ele mostra-se orgulhoso no jantar. Oito. Como conseguiu? Estudei muito sozinho. Nicolas hesita com novos métodos. Que métodos? Transformo tudo em história e desenho. Rodrigo fica intrigado. Quem te ensinou isso? Aprendi sozinho. Hum. Que bom, filho. Continue assim. Mas o sucesso da O Nicolas chama a atenção na escola. A professora de matemática, Dra.
Beatriz Moreira, estranha a súbita melhoria. Nicolas, pode explicar-me como resolveu esta equação? Claro, professora. É como uma balança. De um lado tem x + 5, do outro tem 12. Para equilibrar, X tem de ser 7. A professora franja a testa. Aquela não é a metodologia que ela ensina. Onde você aprendeu esta forma de resolver? Eu eu inventei.
Inventou? É, fico a imaginar que os números são coisas reais. Dout. Beatriz fica desconfiada. Uma criança não desenvolve um método de ensino sozinha. Nicolas, alguém o está a ajudar em casa? Não, professora. Estudo sozinho. Tem a certeza? Tenho. Mas a Dra. Beatriz não acredita. Nessa tarde ela liga para Rodrigo.
Senhor lousada, preciso conversar sobre o Nicolas. Aconteceu alguma coisa? Na verdade, ele está muito bem. As suas notas melhoraram impressionantemente. Que ótimo. Mas estou intrigada. Ele está utilizando métodos de ensino que não são nossos. Alguém o está a ajudar em casa? O Rodrigo pensa bem. Ele tem professor particular.
Liguei para o professor. Disse que Nicolas faltou as últimas cinco aulas. Como assim faltou? disse que estava doente. Rodrigo fica confuso. O Nicolas não estava doente. Vou investigar e volto. Naquela noite, Rodrigo confronta Nicolas. Filho, por que mentiu ao seu professor particular? Nicolas fica vermelho. Porque não gosto das aulas dele.
E como está a estudar então? Sozinho. Nicolas, não me minta. As notas não melhoram assim do nada. O miúdo baixa a cabeça. Prometi que não ia contar. Prometeu a quem? Nicolas fica em silêncio. Filho, alguém te está ajudando, não é? Pai, por favor, não fica zangado. Não vou ficar zangado. Só quero saber a verdade.
Nicolas respira fundo. A Clara ajuda-me. A empregada de limpeza? É, ela é mais inteligente que todos os meus professores juntos. Rodrigo fica chocado. Desde quando? Faz um mês. E onde estudam? Escondido. Na área de serviço, no jardim, na dispensa. Nicolas, proibi-te de incomodar a Clara. Ela que insistiu para me ajudar, disse que eu me lembro do filho dela.
Filho dela? que morreu de cancro quando era pequeno. Rodrigo fica abalado. Não sabia que Clara tinha perdido um filho. Nicolas, mesmo assim não é certo. Por que não? O Rodrigo não sabe explicar sem soar preconceituoso. Como dizer que uma empregada de limpeza sem estudos não deveria ensinar o seu filho? Porque ela tem outras obrigações.
Mas ela gosta de me ensinar e ensina melhor que qualquer um. Como sabe que ela ensina bem? Porque pela primeira vez na vida, percebo as matérias. Rodrigo sente-se culpado. Ele nunca teve paciência para ajudar o filho com os deveres. Nicolas, amanhã vamos falar com a Clara. Não vai despedi-la, certo? Não vou despedir. Só quero conversar.
Na manhã seguinte, Rodrigo procura Clara na lavandaria. Clara, posso falar contigo um minuto? Claro, senor Rodrigo. Vão para o escritório. Soube que está a ajudar o Nícolas com os estudos. Clara fica tensa. Desculpe, senhor, eu sei que não devia. Por que fez isso? Porque vi que ele estava sofrimento e porque adoro ensinar.
Você adora ensinar? Sempre adorei. Quando criança brincava à escolinha, sonhava ser professora. E porque não se tornou? Clara hesita. A vida foi por outro caminho. Que caminho? Clara respira fundo. Engravidei aos 16 anos, senhor. Tive de largar os estudos para trabalhar. Rodrigo fica surpreendido. E o bebé? O meu filho morreu com do anos.
Leucemia. Sinto muito. Deve ter sido muito difícil. foi, mas também me ensinou muito sobre as crianças, sobre educação, sobre o amor. E você realmente acredita que pode ajudar o Nicolas? Sim, posso, senhor. O Nicolas não é burro. É superdotado em algumas áreas e tem dificuldades noutras. Rodrigo fica impressionado com a análise da Clara.
Como sabe disso? Observando-o. E por que razão estudo sobre isso? Estuda onde? Faço curso de pedagogia à distância, leio livros sobre psicologia infantil, pesquiso na internet. Rodrigo percebe que subestimou completamente Clara. Clara, posso-te fazer uma proposta? Que proposta? Que tal se se tornasse tutora oficial do Nicolas? Como assim? Em vez de fachineira, seria responsável pelos estudos dele? Clara fica chocada. Senr.
Rodrigo, eu não tenho diploma. Você tem conhecimento e mais importante, tem paciência e carinho. Mas e a limpeza da casa? Contratámos outra pessoa e o salário? Triplicamos. Clara não acredita no que está a ouvir. Senhor, eu aceito, mas tenho condições. Quais? Quero terminar os meus estudos.
Preciso de estudar à noite. Sem problema. E quero que o Nicolas faça uma avaliação psicopedagógica completa. Para quê? para identificar exatamente o perfil de aprendizagem dele. Pode ser mais alguma coisa? Quero liberdade total para desenvolver métodos personalizados para ele. Tem Clara começa a chorar de emoção. Obrigada por confiar em mim.
Obrigado por salvar o meu filho. A notícia da promoção de Clara espalha-se pela casa. Rosa, a governanta, fica indignada. Senr. Rodrigo, com todo o respeito, isso não está certo. Por que não está certo, Rosa? A Clara é empregada de limpeza, não pode tornar-se tutora assim do nada. Ela tem competência para isso.
Competência? Ela mal tem ensino fundamental. Rosa, ela está a ajudar o Nicolas há semanas. As notas dele melhoraram drasticamente. Pode ser sorte. Não é sorte, é competência. Rosa fica irritada. Senhor, a família lousada sempre teve funcionários qualificados. O que os vizinhos vão pensar? Vão pensar que contratei a melhor pessoa para ajudar meu filho.
Senhor, isto vai dar problema. E a Rosa tinha razão. Em poucos dias, a notícia espalha-se entre as famílias da elite paulista. Na quinta-feira, durante o almoço, no clube hípico, as senhoras da sociedade não falam de outra coisa. Souberam que o Rodrigo Lousada contratou uma empregada de limpeza para dar aulas ao filho”, comenta Marcela Bitencur.
“Não acredito, responde Patrícia Vega, uma fachineira”. “É verdade. A Rosa contou-me pessoalmente. Que absurdo. Criança rica tem de ter um professor formado. Concordo totalmente. O Rodrigo deve estar enlouquecendo. Deve ser solidão.” Especula Fernanda Lima. 5 anos viúvo, o homem está carente, mas não é motivo para fazer loucura com o filho, contrapõe Marcela.
Alguém precisa de falar com ele, conclui Patrícia. As fofocas chegam até Helena Lousada, mãe de Rodrigo, uma senhora de 70 anos, rígida e conservadora, que vive numa mansão ainda maior no mesmo bairro. Rodrigo, que história é esta de você ter contratado uma empregada de limpeza para ensinar o meu neto? Ela pergunta ao telefone.
Mãe, a Clara é uma pessoa muito competente. Competente? Ela é uma empregada doméstica. Era empregada, é agora tutora. Rodrigo, tu perdeu o juízo? Perdi não, mãe. Nicolas nunca esteve tão bem na escola. Isso é casualidade, não é não? A Clara tem um método especial. Que método pode ter uma mulher sem estudos? Mãe, a senhora está sendo preconceituosa.
Preconceituosa? Estou a ser realista. As pessoas da nossa posição não misturam trabalho doméstico com a educação. Por que não? Porque não se faz. Imagine o que vão pensar no clube, nos negócios, na escola do menino. Vão pensar que me importo mais com o bem-estar do meu filho do que com as aparências.
Helena fica exasperada. Rodrigo, precisa de pensar na reputação da família. Preciso de pensar na felicidade do meu filho. As duas as coisas andam juntas. Nem sempre, mãe. A pressão da família e da sociedade aumenta de dia para dia. Rodrigo recebe chamadas de amigos preocupados, sócios incomodados, conhecidos que oferecem ajuda para encontrar uma tutora adequada.
“Rodrigo, soubemos que o senhor está com problemas para encontrar professor para o Nícolas”, diz Carlos Montenegro, sócio da empresa. “Não estou com problemas. Encontrei uma ótima tutora.” “Tutora? Quem?” Uma pessoa muito competente, formada onde? Em competência prática. Carlos fica confuso. Como assim, Carlos? As notas do Nicolas melhoraram a 100%.
É o que importa. Mas, Rodrigo, a educação é uma coisa séria. Não pode improvisar. Não estou improvisando. Posso indicar-te uma professora de excelência, formada pela USP, mestrado em pedagogia, doutoranda na França. Obrigado, mas não preciso. Tem certeza? A educação de uma criança não é brincadeira.
Rodrigo percebe que todos os estão a questionar a sua decisão, mas as evidências estão a seu favor. Em dois meses de aulas com a Clara, o Nicolas está irreconhecível. Pai, tirei nove a português. Nicolas mostra entusiasmado no jantar de sexta-feira. Nove? Como? A Clara me ensinou a escrever uma composição contando histórias.
Que histórias? Ela disse que toda a redação tem três partes, como uma aventura. Apresentação do herói, o desafio que enfrenta e como ele resolve. Rodrigo fica impressionado. E qual foi o tema da redação? O meu maior herói. Escrevi sobre ti, pai. O coração de Rodrigo aquece-se sobre mim. Pois, escrevi como construiu a empresa do zero, como trabalha para dar o melhor para mim.
Como é forte mesmo quando fica triste porque sente saudades da mamã. Rodrigo abraça o filho emocionado. Pela primeira vez, apercebe-se que o menino realmente o observa e admira. E a Clara ajudou-te a escrever isso? Ela só me ensinou a organizar as ideias. As palavras foram todas minhas. O Rodrigo vai procurar Clara no escritório que improvisou-lhe numa sala dos fundos.
Clara, posso interromper? Claro, senor Rodrigo. Quero agradecer-te. Agradecer o quê? Por devolver o meu filho para mim. Como assim? Nicolas nunca foi tão feliz, tão confiante. Ele está se tornando a criança que sempre deveria ter sido. A Clara sorri. Ele sempre foi especial. Só precisava de alguém que enxergasse isso. Você viu? Porque sei o que é ser julgado pela aparência ou pelas dificuldades.
O Rodrigo compreende. Clara foi julgada por ser fachineira, tal como Nicolas foi julgado por ter dificuldades de aprendizagem. Clara, fizeste muito mais do que ensinar matemática e português para ele. O que mais? Ensinou autoestima, confiança, amor próprio. Toda a criança merece isso.
Sim, mas nem toda a criança tem a sorte de ter alguém como você. Ficam se olhando por um momento, uma ligação silenciosa entre duas pessoas que compreenderam a importância de acreditar no potencial humano, mas a a felicidade dura pouco. Na semana seguinte, Helena Lousada surge na mansão acompanhada por três amigas, Beatriz Morais, Sílvia Campos e Carmen Santos.
Todas da alta sociedade, todas com opiniões muito firmes sobre a educação e posição social. Rodrigo, viemos aqui para uma intervenção”, anuncia Helena solenemente. Intervenção? Sobre esta situação absurda com a empregada. Mãe, a Clara já não é empregada, é tutora do Nicolas. Tutora? Beatriz R sarcástica. Uma faxineira tornou-se tutora.
Ela tem qualificação para isso. Que qualificação? Pergunta a Sílvia com desdém. Curso de Kumon. Ela está estuda pedagogia e tem resultados concretos. Onde estuda? Carmen menospreza. Numa escolinha de bairro. O Rodrigo sente raiva. Ela estuda onde pode e ensina melhor do que muitos professores formados. Rodrigo. Helena intervém com firmeza.
Não pode deitar fora o futuro do meu neto por causa de um capricho. Não é capricho. É a melhor decisão que tomei para o Nicolas. A melhor decisão seria contratar um professor a sério, insiste Beatriz. Um professor formado numa verdadeira universidade, acrescenta Sílvia, com referências de outras famílias importantes, completa Carmen.
Que compreenda a posição social do Nicolas, termina Helena. Rodrigo percebe que está lutando contra uma mentalidade enraizada. Vocês não conhecem a Clara. Se conhecessem, mudariam de opinião. Não queremos conhecer, diz Helena friamente. Queremos que volte à razão. E se eu não voltar? Helena faz uma pausa dramática.
Então vamos tomar providências. Que providências? O seu pai deixou 40% da empresa em meu nome. Posso questionar a sua competência empresarial se continuar tomando decisões irracionais. Rodrigo fica chocado. Mãe, estás-me chantageando? Estou a proteger a família e o património do meu neto. Protegendo de quê? De alguém que o está a ajudar.
Proteger de uma aventureira que pode estar a manipular-vos os dois. A Clara não é aventureira. Como pode ter certeza? Pergunta a Beatriz. As mulheres como ela são muito espertas. As mulheres como ela, pobres, sem família, sem perspectiva, esclarece Silvia, sempre à procura de uma chance de subir na vida. E qual seria o problema de ela querer melhorar de vida? O problema é usar uma criança para isso, a Carmen responde.
Ela não está a usar o Nicolas. Claro que está, insiste Helena. Conquista o menino primeiro, depois o pai. Isto é ridículo. É estratégia antiga, complementa Silvia. Mulher esperta usa sempre criança para chegar ao homem. As quatro saem deixando Rodrigo perturbado. Ele nunca imaginou que a família chegaria a tanto para destruir Clara.
Naquela noite, ele conversa com Clara no jardim enquanto ela ajuda o Nicolas com um projeto de ciências sobre os vulcões. Clara, estou com um problema. Que problema? A minha família está a pressionar para eu te despedir. Clara fica pálida. Por quê? Acham que não tem qualificação para ensinar o Nicolas? E o senhor? O que acha? Acho que és a melhor coisa que aconteceu para o meu filho em anos.
Então, qual é o problema? Rodrigo conta a ameaça da mãe. Clara, ela pode tomar parte da empresa e pior, pode espalhar boatos que destruam a minha reputação profissional. Senhor Rodrigo, não quero causar problemas. Você não está a causar. Eles que estão a criar problemas. Talvez seja melhor eu sair. Não, não pode sair. O Nicolas precisa de si.
Mas se a sua empresa, a empresa não vale mais do que a felicidade do meu filho. Clara fica emocionada. Obrigada por confiares em mim, mas não posso deixar-te perder tudo por minha causa. Você não é causa de nada. O preconceito é que é a causa. Nicolas, que estava a fingir fazer o vulcão, mas escutando tudo, intervém.
Pai, não pode deixar a avó mandar a Clara embora. Filho, a situação é complicada. Não é, não é simples. A Clara ajuda-me, eu fico feliz. Sem ela, fico triste de novo. Nicolas, há coisas que as crianças não entende. Compreendo sim. A avó não gosta da Clara porque era empregada de limpeza, mas isso é injusto.
Rodrigo fica surpreendido com a maturidade do filho. É injusto mesmo, filho. Assim luta contra a injustiça. Como não os deixa mandar a Clara embora? Clara abraça Nicolas. Meu amor, às vezes os adultos têm de tomar decisões difíceis, mas você prometeu que nunca me ia deixar e não vou deixar. Mesmo que eu saia daqui, vou ser sempre sua amiga.
Não quero que sejas minha amiga longe. Quero que seja a minha professora aqui. Rodrigo observa a cena e toma uma decisão. Clara, não vais sair daqui, senor Rodrigo. Não vai sair. Vamos enfrentar qualquer problema em conjunto. No dia seguinte, Helena põe o plano em ação. Ela liga para o diretor do colégio de Nicolas.
Professor Alberto, sou a Helena Lousada, avó do Nicolas. Boa tarde, dona Helena. Como posso ajudá-la? Estou muito preocupada com a educação do meu neto. Porquê preocupada? As notas dele melhoraram drasticamente. É exatamente isso que me preocupa. Como assim? Melhora muito repentina pode indicar que alguém está a fazer os deveres para com ele.
O professor Alberto fica interessado. A senhora tem provas disso? Tenho fortes suspeitas. Meu filho contratou uma pessoa totalmente sem qualificação para ajudar o menino. Que tipo de pessoa? Uma ex-faxineira. O diretor fica escandalizado. Uma empregada de limpeza dando aula. Exato. E agora o Nicolas está a tirar notas demasiado altas para o seu histórico escolar.
Isso é muito irregular, dona Helena. Por isso estou a ligar. Podem investigar? Podemos. Sim. Vou marcar uma reunião urgente com o pai do Nicolas. E se descobrirem que realmente tem irregularidade, teremos de tomar medidas disciplinares. Pode até resultar em expulsão. Helena desliga satisfeita. O plano está a funcionar perfeitamente.
Na sexta-feira, Rodrigo recebe uma ligação do colégio. Senr. Lousada, preciso conversar urgentemente sobre Nicolas. Aconteceu alguma coisa? Prefiro não falar ao telefone. Pode vir aqui hoje à tarde. O Rodrigo vai ao colégio intrigado e preocupado. Professor Alberto recebe-o no gabinete com uma expressão muito séria. Senr.
Lousada, recebemos uma denúncia grave. Que denúncia? De que alguém está a fazer os deveres do Nicolas? Isso é mentira. Como o senhor pode ter a certeza? Porque eu vejo o meu filho a estudar todos os dias. Com quem é que ele estuda? Rodrigo hesita. com a tutora dele. E qual a formação académica dessa tutora? Ela está estudando pedagogia.
Onde ela se formou no ensino superior? Ainda não se formou. O professor Alberto anota tudo com cara de reprovação. Senr. Lousada, vou ter de aplicar uma série de provas extraordinárias no Nicolas para verificar se ele domina realmente o conteúdo. Pode aplicar. Tenho a certeza que ele vai bem. Espero que sim, porque caso contrário vamos ter de tomar medidas disciplinares severas.
Que medidas? Dependendo da gravidade, pode ir desde a suspensão até à expulsão. Rodrigo sai do colégio preocupado. Se Nicolas não se sair bem nas provas, pode ser expulso da melhor escola particular de São Paulo. Em casa, conta a Clara sobre a situação. Clara, o colégio vai testar o Nicolas.
Que tipo de teste? provas extra para verificar se ele sabe realmente a matéria ou se alguém estava a fazer para ele. Clara fica nervosa. E se ele não se sair bem? Ele vai bem. Você ensinou direito. Mas e se ele ficar nervoso? Criança nervosa consegue raciocinar. Como podemos ajudá-lo, pensa Clara. Precisamos de o preparar psicologicamente e preciso de rever todo o conteúdo com ele no fim de semana.
Durante o fim de semana, a Clara trabalha intensivamente com Nicolas. Ela revê todas as matérias, utilizando os métodos visuais e práticos que desenvolveu. Nicolas, segunda-feira vais fazer umas provas especiais. Por quê? Para mostrar que realmente aprendeu tudo o que estudámos juntos. E se não conseguir? Vai conseguir sim. Lembra-se das técnicas que aprendemos? Das pequenas histórias, dos truques visuais? Lembro-me.
Portanto, usa tudo isso, transforma cada questão numa aventura. E se eu esquecer? Não se vai esquecer. Tudo o que aprendeu está aqui dentro. Clara toca no peito do menino no seu coração e na sua mente. Clara, vai continuar sendo minha professora depois das provas? Claro que sim, meu amor. Promete? Prometo. Mas Clara está aterrorizada.
Se o Nicolas não se sair bem, ela será culpada e, possivelmente, ele será expulso. Segunda-feira de manhã, antes de Nicolas ir para a escola, Clara e Rodrigo acompanham-no até à porta. Filho, lembras-te do que falámos? Diz Rodrigo. Mantém-te calmo e usa tudo o que aprendeu. Vai correr tudo bem, Clara complementa. Está preparado? Nicolas abraça os dois.
Obrigado por acreditarem em mim. No liceu, Nicolas passa o dia inteiro fazendo testes. São seis exames diferentes: matemática, português, ciências, geografia, história e inglês. Provas elaboradas especialmente para testar se realmente domina todo o conteúdo do semestre. Durante a prova de matemática, Nicolas recorda os ensinamentos de Clara.
Cada problema de equação se transforma numa balança na cabeça dele. A geometria transforma-se nas formas que desenhou com ela. As frações viram as pizzas que partilharam na cozinha. Na prova de português, ele utiliza a técnica da redação aventura. Identifica personagens, cenários e conflitos. Analisa textos como se fossem histórias de heróis a enfrentar desafios.
Em ciências, lembra-se das experiências que fizeram no jardim. Como as plantas fazem fotossíntese, como funciona o ciclo da água, como os vulcões entram em erupção utilizando bicarbonato e vinagre. Em geografia, utiliza as narrativas de viagem que Clara contava. O rio Amazonas nasce na cordilheira dos Andes e atravessa o O Brasil como um aventureiro em busca do mar.
Em história aplica a técnica dos personagens. Cada figura histórica vira um herói ou vilão numa grande narrativa da humanidade. Em inglês, utiliza as músicas e filmes que Clara trouxe para tornar o idioma mais natural e divertido. Depois das provas, Nicolas sai exausto, mas confiante. “Como foi?”, pergunta Clara ansiosa quando ele chega a casa.
“Acho que correu bem. Usei tudo o que me ensinou. Tenho a certeza que foi incrível. Clara, algumas perguntas eram muito difíceis. E conseguiu resolver? Consegui. Transformei tudo em historinha, como ensinou. Rodrigo abraça o filho. Estou orgulhoso de ti, independentemente do resultado. Pai, se eu for mal, vai mandar a Clara embora? Claro que não.
O resultado das provas não muda o facto de que a Clara é uma ótima professora. Três dias de espera agonizante se passam. Clara mal consegue dormir. Rodrigo está ansioso e Nicolas pergunta a cada hora se o resultado já saiu. Na quinta-feira à tarde, o professor Alberto liga a Rodrigo. Senhor lousada, os resultados das provas são prontos.
E aí? Precisa de vir aqui pessoalmente e se possível traga a tutora do Nicolas também. Rodrigo fica apreensivo. O tom do realizador não revela nada, mas pedir à Clara para ir junto pode ser bom ou mau sinal. No colégio, professor Alberto recebe Rodrigo e Clara no gabinete. Em cima da mesa estão as seis provas de Nicolas, todas corrigidas.
Senr. Lousada, senora Clara, os resultados foram surpreendentes. Como assim? Rodrigo pergunta nervoso. Nicolas tirou notas excecionais em todas as provas. e meio em matemática, nove em português, nove em ciências, 8 e meio em geografia, nove em história e oito em inglês. Rodrigo suspira de alívio.
Clara começa a chorar de emoção. Mais do que isso, continua professor Alberto, as respostas dele mostram um profundo entendimento dos conceitos. Ele não decorou matéria. Ele aprendeu mesmo. Então, ele sabia tudo. pergunta a Clara. sabia mais que isso. Algumas respostas demonstram criatividade e raciocínio superior ao esperado para a idade dele.
Que tipo de criatividade Rodrigo queres saber? Por exemplo, no teste de matemática, ele não apenas resolveu os problemas corretamente, mas explicou o seu raciocínio de forma visual, utilizando desenhos e analogias. Professor Alberto mostra uma das folhas. Nicolas desenhou pequenas balanças ao lado das equações e explicou cada passo como se fosse uma história.
Na prova de ciências, ele criou as suas próprias analogias para explicar conceitos complexos. A Clara olha à prova e vê que Nicolas escreveu: “A fotossíntese é como se a planta fosse um chefe que usa a luz solar como ingrediente principal para fazer comida. E na redação de português, professor Alberto continua: “Escreveu um texto sobre a persistência, que é simplesmente extraordinário para um rapaz de 12 anos.” Rodrigo lê o texto.
“O meu nome é Nicolas e quero contar-lhe sobre a pessoa mais corajosa que conheci. Não é um superherói dos filmes, é a minha professora Clara. Ela ensinou-me que ser inteligente não é conhecer todas as respostas, é não desistir quando não sabemos.” Ela mostrou-me que cada um aprende de uma forma diferente e isso não é defeito, é especial.
Antes de conhecer Clara, eu pensava que era burro. Agora Sei que só precisava de alguém que acreditasse em mim. A Clara perdeu um filho que amava muito, mas não deixou isso a tornar amarga. Ela transformou a dor em amor pelos outros. Por isso, ela é a minha heroína. Porque heróis de verdade não voam nem têm super força. Eles simplesmente não desistem de acreditar nas pessoas.
O Rodrigo está emocionado. A Clara está a soluçar. Senr. Lousada, diz o professor Alberto, preciso desculpar-me profundamente. Por quê? Porque questionei a competência de quem estava a ensinar o seu filho, quando é evidente que essa pessoa tem um método pedagógico excepcional. Obrigado por reconhecer isso. Mais que reconhecer, tenho uma proposta para a senora Clara.
Que proposta? Clara pergunta surpresa. Gostaria que trabalhasse connosco oficialmente. Como assim? Como consultora pedagógica especializada em métodos alternativos de ensino. Professor, não tenho diploma superior. Há algo melhor. Tem resultado concreto e metodologia inovadora. Qual seria a minha função? Treinar os nossos professores em técnicas para alunos com diferentes perfis de aprendizagem e atender a casos especiais como o de Nicolas. Seria um sonho. Clara sussurra.
Então aceita. Aceito, mas quero continuar a ser tutora particular do O Nicolas também. Claro. Inclusive Gostaria que desenvolvesse uma cartilha com os seus métodos para distribuirmos aos outros colégios. O Rodrigo está radiante. Clara, vais revolucionar a educação. Não sei se tanto assim. Eu sei, afirma professor Alberto.
Em 15 anos como diretor, nunca vi transformação tão radical num aluno. Quando chegam a casa, Nicolas recebe-os ansioso. E aí, como foi? Tirou excelente em todas as provas, anuncia Rodrigo. Nicolas grita de alegria e salta para o pescoço de Clara. A gente conseguiu? Conseguiu sim, campeão. Você foi incrível. Clara, o diretor disse alguma coisa sobre si? Falou: “Sim, ofereceu-me um emprego na escola.
Sério? Você vai ser professora de verdade? Vou sim. Agora já não é empregada de limpeza, é professora.” A Clara sorri. Sempre fui professora, o meu amor. Só faltava alguém dar-me a oportunidade. Mas nem toda a vitória chega sem batalha. Helena Lousada fica furiosa quando soube que Clara foi contratada pelo colégio mais prestigiado de São Paulo.
Isto é um escândalo! Ela grita para as amigas no Country Club. Uma ex-faxineira a virar professora. Como foi possível? Pergunta a Beatriz, quase a engasgar-se com o chá. Aquela mulher manipulou toda a gente. Primeiro o meu neto, depois o meu filho, agora o colégio inteiro. Helena, você tem a certeza que ela não tem qualificação? pergunta Carmen hesitante.
Carmen, está a duvidar de mim? Não é isso. Só estou a pensar que talvez Talvez o quê? Talvez ela seja competente mesmo. Helena olha para Carmen como se ela tivesse cometido traição. Carmen, está a defender essa intrusa? Não estou a defender. Só estou a ser racional. Se o colégio a contratou, deve ter motivo.
O motivo é que ela seduziu todo mundo. Helena, Beatriz intervém. Como é que uma mulher simples conseguiria seduzir uma instituição inteira? Mistério para mim, mas não vou deixar que passar. O que pretende fazer? Pergunta a Sílvia. Vou investigar o passado desta mulher a fundo. Todo mundo tem esqueleto no armário. Helena contrata novamente a investigadora particular Carla Santos.
Carla, preciso que desenterre tudo sobre a Clara Mendes. Dona Helena, já a investigámos antes e não encontramos nada comprometedor. Procure melhor, cave mais fundo, visite o bairro onde ela cresceu, converse com ex-namorados, ex-colegas de trabalho, ex-patrões. Vai custar muito caro. Pago qualquer preço. Quero toda a vida desta mulher escancarada.
Carla passa três semanas a investigar Clara minuciosamente, vai ao bairro periférico onde ela cresceu, conversa com os vizinhos antigos, procura colegas da escola, ex-patrões, qualquer pessoa que possa ter informações comprometedoras. Finalmente encontra algo que considera útil.
Dona Helena, descobri algumas informações interessantes. Quais? Clara Mendes engravidou aos 16 anos e nunca se casou. O pai da criança era casado com outra mulher, perfeita. Ela foi amante. Tem mais. O filho morreu aos dois anos. Algumas pessoas do bairro ensinuam que foi por negligência médica. Negligência da parte dela.
Dizem que ela demorou para levar a criança ao hospital quando ela adoeceu. A Helena está radiante. Ótimo trabalho, Carla. Continue a investigar. Há mais uma coisa. O quê? Ela foi despedida de duas casas de família por comportamento inadequado. Que comportamento? Não consegui detalhes específicos, mas as famílias se recusaram dar referências. Perfeito.
Agora tenho munições para destruir esta aventureira. Na segunda-feira seguinte, Helena vai à mansão de Rodrigo Armada com um dossier completo sobre Clara. Filho, preciso de te mostrar uma coisa muito grave. O quê agora, mãe? Helena espalha fotos. documentos e relatórios na secretária do escritório.
O verdadeiro passado da sua querida tutora. Rodrigo olha para os papéis com desconfiança. De onde tirou isso? Investigação profissional e minuciosa. Você investigou a Clara? Claro. É meu dever proteger a minha família dos aventureiros. Rodrigo lê os relatórios falsificados. Mãe, isso não muda nada. Como não muda? Foi amante de homem casado.
Ela era adolescente, uma criança que foi enganada. E o filho dela morreu por negligência dela. Segundo quem? Fofoqueiros? Segundo vizinhos que presenciaram tudo. Os mexericos não são evidências. Mãe, Rodrigo, estás cego. Esta mulher é perigosa. A única pessoa perigosa aqui é a senhora com esta obsessão doentia.
Helena fica furiosa. Obsessão? Estou a protegê-lo e o meu neto. Está a espalhar o veneno e destruindo pessoas inocentes. Inocente? Rodrigo, abre os olhos. Rodrigo rasga os papéis em frente da mãe. Os únicos olhos que precisam de se abrir são os seus para ver o bem que a Clara fez à nossa família.
Helena sai de casa jurando vingança. Se o Rodrigo não quer escutar, ela vai procurar quem o oiça. Na quinta-feira, ela aparece no colégio de Nicolas a pedir para falar com o professor Alberto. Professor Alberto, preciso falar urgentemente com o senhor sobre Clara Mendes. O que é que ela tem, dona Helena? Descobri informações muito graves sobre o passado dela.
Que informações? Helena conta toda a versão distorcida, clara, sendo negligente e provocando a morte do próprio filho, tendo casos com homens casados, sendo despedida por comportamento inadequado. Dona Helena, estas são acusações extremamente sérias. São factos documentados. A senhora tem provas concretas? Helena mostra as fotos forjadas e os testemunhos falsos que Carla fabricou.
O professor Alberto fica perturbado. Se isso for verdade. É verdade. Essa mulher é uma farçante perigosa. Vou ter que investigar essas alegações. Professor, esta mulher manipula muito bem. Ela vai tentar enganar o senhor também. Mesmo assim, preciso de ouvir a versão dela antes de tomar qualquer decisão.
Cuidado para não cair no encanto dela. Ela é muito esperta. Helena sai do colégio satisfeita. plantou a semente da dúvida na cabeça do diretor. No dia seguinte, professor Alberto chama Clara para uma conversa urgente. “Clara, preciso esclarecer algumas questões delicadas sobre o seu passado.” Clara fica tensa. “Que question? Sobre a morte do seu filho. O rosto de Clara empalidece.
O que tem a morte do meu filho? Como exatamente ele morreu? A Clara sente uma punhalada no peito. Leucemia infantil. Tem a certeza absoluta disso? Como assim tenho a certeza? Eu era a mãe dele. Passei dois anos a lutar contra a sua doença. Não foi por negligência sua? Clara fica chocada e ofendida.
Negligência? Quem disse uma coisa horrível destas? O professor Alberto hesita. Recebi informação de quem? De que fonte? de fontes que se dizem fidedignas. Que fontes? Fofoqueiros que não sabem nada da minha vida. Clara, se for verdade, que se for verdade, o quê? Que eu matei meu próprio filho. Clara começa a chorar de indignação.
Professor, meu filho Gabriel teve leucemia linfoblástica aguda. Eu vendi todos os meus móveis para pagar o tratamento. Trabalhei dia e noite para custear a quimioterapia particular. Dormi no hospital durante semanas. Mas porque é que algumas pessoas afirmam? Por que razão as pessoas maldosas sempre procura culpado quando uma tragédia acontece? Porque é mais fácil culpar uma mãe jovem e pobre do que aceitar que algumas doenças não têm cura? Professor Alberto observa o desespero genuíno de Clara e percebe que ela está a dizer a verdade. Clara, perdoe-me por ter dado
ouvidos a estas acusações. Professor, se o senhor não confia em mim, é melhor eu sair. Não quero que saia. Preciso que me perdoe por ter duvidado. Clara limpa as lágrimas. Perdo, mas exijo saber quem espalhou estas mentiras cruéis. Não posso revelar a fonte. Pode não revelar, mas já sei quem foi. Mas o mal já estava feito.
Em poucos dias, os rumores sobre Clara espalham-se como fogo pela elite paulista. Souberam que a ex-fachineira que se tornou professora matou o próprio filho? Comenta Fernanda Lima no salão de beleza. Como assim matou? Pergunta a cliente ao lado. Por negligência. Não quis gastar dinheiro num médico particular. Que absurdo.
E ela está ensino criança? Pois é, Rodrigo Lousada está completamente cego. Os boatos chegam aos ouvidos de Rodrigo através de Carlos Montenegro numa reunião de negócios. Rodrigo, estão falando muito mal da tutora do seu filho. A dizer o quê? Que ela causou a morte do próprio filho por negligência, que tem um passado duvidoso.
Rodrigo fica furioso. Carlos, isto é calúnia pura. Como tem tanta certeza? Porque conheço o carácter da Clara e porque sei quem está a espalhar estas mentiras. Rodrigo, isso está a afetar a sua reputação profissional. Não me importo com a fofoca. Deveria importar-se. Alguns clientes estão a questionar o seu juízo pessoal. Que questionem.
A minha vida pessoal não interfere nos os meus negócios. Interfere sim, Rodrigo. Vivemos numa sociedade onde a aparência é importante. Rodrigo percebe que a campanha de difamação orquestrada por A Helena está a surtir efeito. Em casa, ele conta a Clara sobre os boatos que estão a circular.
Clara, a minha mãe está espalhando mentiras cruéis sobre si. Que mentiras? Que causou a morte do Gabriel por negligência? Clara fica devastada. Como pode ela ser tão cruel? Porque ela quer destruir-te a qualquer custo. Rodrigo, talvez seja melhor eu sair da cidade. Por quê? Porque não aguento ser julgada por uma tragédia que destruiu a minha vida.
Clara, não pode fugir. Isso seria admitir culpa. Não é admitir a culpa, é preservar a minha sanidade mental. Rodrigo senta-se ao lado dela no sofá. E o Nicolas, ele precisa de si. O Nicolas vai ficar bem. Já aprendeu a estudar de forma independente. Não é só sobre estudos. Ele ama-te como mãe. Clara chora. Eu também o amo como filho.
Mas, às vezes amor significa proteger a pessoa se afastando. Não significa não. Significa lutar contra quem nos quer separar. Lutar contra quem? Contra a sua mãe? Contra a alta sociedade inteira de S. Paulo. Se for necessário. Sim. Clara olha para Rodrigo surpreendida. Você faria isso? Enfrentaria toda a gente por mim? Faria.
Por quê? Rodrigo hesita, depois fala com o coração aberto. Porque me apaixonei-me por ti? Clara fica em choque total. O quê? Apaixonei-me perdidamente por ti, Clara. Pela sua inteligência, a sua força, a sua bondade, a sua dedicação ao Nicolas. Rodrigo, isso é impossível. É porquê? Porque somos de mundos completamente diferentes.
E daí? Amor verdadeiro não conhece classe social. As as pessoas vão dizer que sou interesseira, caçadora de fortuna. Quem te conhece sabe que não é. Clara afasta-se. Rodrigo, não posso aceitar isso. Seria injusto para consigo. Injusto como? Você perderia tudo. Família, amigos, clientes, posição social. Ganharia tudo que realmente importa.
Você e uma família completa e feliz. E se der errado? E se correr bem? Eles ficam se olhando intensamente a tensão emocional palpável entre eles. Clara, dá-me uma hipótese de provar que podemos dar certo? Rodrigo, por favor. uma oportunidade de mostrar que o amor verdadeiro supera qualquer obstáculo.
Clara está dividida entre o coração que palpita de amor e a razão que a alerta para as consequências. Antes que ela possa responder, Nicolas aparece na sala, tendo claramente escutado parte da conversa. Clara, vais mesmo embora, meu amor? Ouvi-vos conversando. Vai deixar a gente? Nicolas corre e abraça Clara, a chorar.
Não vai embora, por favor. És a minha mãe, a única que tenho. Meu amor, és o meu filho do coração. Então fica. Família de verdade fica junta. Rodrigo aproxima-se e abraça os dois. Fica, Clara. Vamos enfrentar qualquer tempestade juntos, os três. Clara olha para os dois homens que ama mais do que a própria vida e toma a decisão mais corajosa que já tomou.
Está bem, eu fico, mas vamos ter de ser muito fortes. Vamos ser, promete Rodrigo, unidos somos imbatíveis. Se esta história tocou o seu coração, deixe um like e partilha com alguém especial. Conte-nos nos comentários. Você acredita que família se escolhe? De que lugar você está a observar-me? A sua participação faz toda a diferença para que eu continue trazendo histórias que inspiram e transformam. Um abraço e até à próxima.
M.















