Nenhuma Babá aguentava o Filho do Milionário — Até que a Babá sem experiência fez o impossível

A mansão dos Rodrigues está em silêncio absoluto até que um grito perfurante rompe a paz matinal. No quarto do segundo andar, Miguel Rodrigues, de 4 anos, está a ter uma das suas crises. Ele atira brinquedos contra a parede, grita como se estivesse a ser torturado e se debate no chão como um animal ferido. “Não quero, não quero, não quero”.
Ele berra, repetindo as palavras como um mantra de desespero. Do lado de fora do quarto, Carla Mendes, a sétima ama, em três semanas, está com as costas contra a porta, a tremer e a chorar. Não aguento mais”, sussurra à dona Rosa, a governanta da casa. “Este menino não é normal. Ele mordeu-me, me arranhou, partiu todos os brinquedos.
É impossível! A Dona Rosa, uma senhora de 60 anos que trabalha na casa há 15 anos, balança a cabeça com pena. É o que todas falam, minha filha. Já houve sete amas em três semanas. O que lhe acontece? Ninguém sabe. Desde que a mãe morreu, há dois anos, ele virou aquilo ali. O barulho no quarto intensifica.
Agora o Miguel está pontapeando a porta por dentro. Quero a minha mama. Quero a minha mama, grita entre soluços. Gabriel Rodrigues, de 35 anos, aparece no corredor a correr. É um homem alto, cabelo castanho, olheiras profundas que nem o fato caro consegue disfarçar. Nos últimos dois anos, desde que perdeu a sua mulher Laura num acidente de carro, a sua vida tornou-se um caos.
O que aconteceu agora? pergunta cansado. Carla olha-o com uma expressão de quem já decidiu. Senr. Gabriel, não consigo mais. O menino é impossível. Gabriel sente o peito apertar. É a mesma conversa que teve com as outras seis babás. Carla, por favor, ele só precisa de paciência. Paciência. Ela mostra os riscos no braço.
Ele atacou-me quando tentei dar-lhe o pequeno-almoço. Ele está a passar por um momento difícil, senhor, com todo o respeito, mais duas horas a tentar que ele escovasse os dentes e ele partiu o lavatório da casa de banho. Partiu a pia. Gabriel passa a mão pelos cabelos desesperado. Como CEO de uma empresa multinacional, ele resolve problemas complexos todos os dias, mas com o próprio filho não sabe sequer por por onde começar.
Quanto quer? Posso duplicar o salário? Não é uma questão de dinheiro. É que eu tenho medo dele. A frase apanha Gabriel como um estalo. Uma mulher adulta com medo de uma criança de 4 anos. Carla, desculpe, Senr. Gabriel, mas não dá. Vou arrumar as minhas coisas. Carla sai apressada, deixando Gabriel sozinho no corredor, com os gritos do filho ecoando atrás da porta.
Dona Rosa se aproxima. Senhor, talvez seja melhor chamar um especialista. Já chamei três psicólogos infantis. Miguel não colabora, grita, esperneia, foge. E um internato, um local especializado. Gabriel olha para a porta do quarto, onde o filho continua a gritar: “Não vou internar o meu filho, ele só tem 4 anos. Mas, senhor, nenhuma ama aguenta e o senhor não pode deixar de trabalhar.
Gabriel sabe que a dona Rosa tem razão. A sua empresa está a passar por uma fusão importante. Ele não se pode dar ao luxo de faltar, mas também não pode abandonar Miguel. Tenta de novo, liga para o agência, pede alguém com experiência em crianças difíceis. Já tentámos isso, senhor.
As mais experientes são as que saem mais depressa. Gabriel encosta a testa na parede, está no limite das suas forças. Do quarto vem o som de algo se quebrando, provavelmente outro brinquedo. Miguel, Gabriel bate na porta. Abre aqui. Não vai embora. Eu te odeio. As palavras do filho trespassam o coração de Gabriel como facas. Ele sabe que o Miguel não o odeia verdadeiramente.
O menino está com dores, revolta, saudades da mãe. Mas isso não torna as palavras menos dolorosas. Filho, para de quebrar as coisas. Não pára, não pára. Quero partir tudo. Gabriel suspira e olha para a dona Rosa. Liga para a agência. Qualquer uma, não importa a experiência. Nessa mesma manhã, a 15 km dali, Sofia Carvalho está na fila do desemprego.
Aos 22 anos, cabelo encaracolado, preso num rabo de cavalo, roupa simples, mas limpa, transporta uma pasta com currículos que ninguém quer aceitar. Próxima. Sofia aproxima-se da atendente. Bom dia. Vim ver se há alguma vaga. Qual é a sua área? Qualquer coisa. Limpeza, cozinha, vendas. A atendente olha para o currículo da Sofia e faz uma cara. Não tem experiência em nada.
Por isso, procuro uma oportunidade. Mas como vou indicar alguém sem experiência? A Sofia sente o desânimo apertar o peito. Desde que saiu do orfanato, aos 18 anos, luta para se sustentar. Trabalhou numa lanchonete, loja, escritório. Nunca consegue ficar muito tempo em lado nenhum, sempre por falta de experiência ou qualificação.
Por favor, qualquer coisa serve. Olha, há aqui uma vaga um bocado complicada. Babá para criança difícil, família rica, mas pelos vistos nenhuma babá quer ficar. Sofia anima-se. Eu gosto de crianças. Tem experiência com crianças? Não profissional, mas cresci no orfanato, cuidando dos menores. A atendente hesita.
Olha, vou ser sincera, já enviaram sete amas para essa casa em três semanas. Todas saíram a correr. Por quê? O menino é problemático. Sofia pensa na conta da pensão que está atrasada, no frigorífico vazio, na eletricidade que pode ser cortada. Eu quero experimentar. Tem a certeza? A última ama saiu hoje de manhã. Tenho sim. A atendente abana a cabeça e pega no telefone. Olá, dona Rosa. É da agência.
Tenho mais uma candidata. Sim, eu sei que saíram muitas. Esta é diferente. Cresceu a cuidar de crianças. Está bem. Mando-a aí. Sofia pega no endereço e sai a correr. Não pode perder esta oportunidade. Uma hora depois, ela está parada em frente de um portão gigantesco, olhando para uma mansão que parece um castelo.
Nunca viu uma casa tão grande na vida. “Nossa Senhora”, ela murmura. O porteiro recebe-a e ela caminha pela entrada de mármore, passando por jardins perfeitos, chafarizes, estátuas. A Dona Rosa a espera na porta principal. Deve ser Sofia. Sim, senhora. Vim para a vaga de ama. Entre. Mas primeiro preciso de te avisar de uma coisa.
Elas se sentam-se na sala principal, decorada com móveis caríssimos. A criança que você vai cuidar é especial. Especial como difícil, muito difícil. Desde que a mãe morreu, não aceita ninguém. Sofia sente compaixão. Coitadinho, deve estar sofrendo muito. Sofrendo e fazendo todo o mundo sofrer também.
Já foram sete as amas em três semanas. O que aconteceu com elas? Saíram todas, não aguentaram. A Sofia pensa nas crianças do orfanato. Algumas também eram difíceis. agressivas, revoltadas, mas sempre por algum motivo. Onde está ele agora? No quarto, provavelmente destruindo mais alguma coisa, como se fosse um sinal. Um barulho alto vem do segundo andar.
É ele, a dona Rosa confirma. Posso conhecer? Pode, mas não diga que não avisei. Elas sobem as escadas de mármore. O barulho fica mais forte. Sons de coisas a serem partidas, gritos, choro. Miguel, dona Rosa bate à porta. Há aqui uma pessoa que te quer conhecer. Não quero conhecer ninguém. Vai-se embora.
A Dona Rosa olha para Sofia, viste? É sempre assim. A Sofia se aproxima-se da porta. Miguel, eu sou a Sofia. Posso entrar? Silêncio repentino. Quem é você? A voz do menino vem desconfiada. Sou a Sofia. Vim conversar contigo. Vai-se embora também. A pergunta parte o coração de Sofia. Uma criança de 4 anos já está habituada a abandono. Não sei.
Depende se você quiser que eu fique mais silêncio. Depois barulho de pequenos passos se aproximando-se da porta. É babá? Posso ser deixar. Todas as amas são más. Por que razão são maus? Porque elas ficam zangada quando choro. Sofia sente um nó na garganta. Eu não fico zangada quando criança chora. Por quê? Porque todo o mundo precisa de chorar.
Às vezes a porta abre-se devagar. Miguel aparece na fresta. É um menino pequeno para 4 anos. Cabelo castanho despenteado, olhos verdes enormes, cheios de tristeza. Está sujo, com a roupa rasgada, o rosto manchado de lágrimas. Olá, Miguel. Sofia ajoelha-se para ficar à altura dele. Ele observa-a desconfiado. Parece diferente das outras.
Diferente como Não tem cara de medo. A Sofia sorri. Não tenho medo de si. Todas têm. Por que razão teriam medo? Miguel baixa a cabeça. Porque eu sou mau. Quem disse que é mau? Todo mundo. As amas, os médicos, toda a gente. A Sofia sente raiva dos adultos que fizeram uma criança de 4 anos achar-se má.
Posso entrar no seu quarto? Miguel hesita, depois abre a porta. Sofia entra e vê o cenário de destruição. Brinquedos partidos espalhados pelo chão. Livros rasgados. A cama revirada. Ena, que confusão. Miguel prepara-se para o sermão. Se me quiser xingar, pode xingar. Por que razão te xingaria? Porque eu parti tudo? A Sofia olha em redor e depois senta-se no chão no meio da confusão.
Sabe o que eu acho? O quê? Acho que estava com muita raiva. Miguel fica surpreendido. Nenhum adulto nunca entendeu isso. Estava sim. Raiva de quê? Miguel senta-se no chão também, mas longe dela. Raiva porque a minha mama morreu. Deve ser muito difícil ficar sem a mamã. Pois, quero-a de volta. Eu sei. Conheceu a sua mama? A pergunta apanha Sofia desprevenida.
Não. A minha mãe deixou-me no orfanato quando eu era bebé. Miguel olha-a com interesse. No orfanato? Sim. Cresci lá. Era mau. às vezes, mas tinha outras crianças. A gente cuidava uma da outra. O Miguel processa a informação. Pela primeira vez conhece alguém que também não tem mãe. Fica triste sem a sua mama? Fico sim, mas aprendi que a a tristeza não vai embora se a gente partir as coisas. Não vai, não.
A a tristeza fica aqui dentro. A Sofia aponta para o peito e só se vai embora aos pouquinhos com tempo e carinho. Miguel aproxima-se um pouco. As outras amas não sabiam disso. Cada pessoa sabe coisas diferentes. O que sabe, Sofia pensa. Sei fazer origami. Sei cantar música de embalar? Sei fazer bolacha de chocolate? Os olhos de Miguel brilham.
Bolacha de chocolate? Sabe sim. Quer aprender? Posso? Claro, mas primeiro vamos arrumar esta confusão. Que tal? Miguel olha em redor. É muita coisa. A gente arranja junto. Dividindo torna-se mais fácil. Para surpresa da dona Rosa que espreita da porta, Miguel começa a ajudar a Sofia a recolher os brinquedos. Este aqui era o meu favorito.
Mostra um carrinho quebrado. A gente pode tentar colar. Às vezes as coisas partidas até ficam mais bonitas depois de arrumadas. Como assim? No orfanato a gente partia brinquedo toda hora. A a tia Marta ensinava-nos a colar com cola colorida. Ficava diferente, mas bonito. Miguel sorri pela primeira vez em semanas.
Pode me ensinar? Posso sim. Eles passam uma hora a arrumar o quarto. O Miguel não grita, não atira nada, não faz birra, pelo contrário, conversa, ri, faz perguntas. Sofia, porque é que não tem medo de mim? Porque não vejo maldade em você. Só vejo um menino triste e tu não vai embora.
A Sofia deixa de guardar os livros e olha para ele. Miguel, vou-te falar a verdade. Eu preciso muito deste trabalho. Não tenho casa, não tenho família, não tenho mais ninguém. Igual a mim. É igual a si. Então, se me aceitar aqui, vou cuidar de si do melhor maneira que eu souber. O Miguel pensa por um momento. Pode dormir no meu quarto? Se o seu pai deixar.
E pode-me ensinar a fazer origami? Posso. E cantar música de embalar? Posso. O Miguel se aproxima-se e dá a mão a Sofia. Então pode ficar. A Dona Rosa, que assistiu a todos os escondida, desce a correr para avisar O Gabriel que acabou de chegar do trabalho. Senhor, senhor Gabriel, o que foi? A nova ama já foi embora? Não, senhor, é o contrário.
Como assim? O O Miguel está no quarto a conversar com ela, a arrumar os brinquedos. Gabriel quase derruba a pasta. Conversando, o Miguel? Sim, senhor. Fazem duas horas que lá estão e não se ouve qualquer grito. Gabriel sobe a correr às escadas. Quando chega à porta do quarto, para incrédulo.
O Miguel está sentado no chão, ajudando a Sofia a colar um livro rasgado. Olha, Sofia, se colar assim fica torto. Então cola-te. As suas mãozinhas são mais certinhas que as minhas. O Gabriel nunca viu o filho tão calmo, tão normal. Miguel, o menino levanta a cabeça. Oi, papa. Olha, esta é a Sofia. Ela sabe colar coisa partida.
O Gabriel olha para Sofia. É uma rapariga jovem, simples, mas há algo diferente nos olhos dela. Uma doçura genuína. Boa tarde, Sr. Sou Sofia Carvalho. Gabriel Rodrigues. Prazer. Papa. A Sofia vai fazer bolachas de chocolate comigo. O Gabriel não acredita no que está a ouvir. Há semanas O Miguel não demonstra interesse por comida. Sério? Sério.
E ela vai-me ensinar origami também. A Sofia se levanta. Senr. Gabriel, posso falar com o senhor um minuto? Claro, Miguel, fica aqui a arrumar que já voltamos. Está bom, papa. No corredor, Gabriel está visivelmente emocionado. Como fez isso? Fiz o quê? Ele está normal. Há três semanas só grita, parte tudo, ataca qualquer pessoa que se aproxime.
Conversei com ele. Só isso. A Sofia pensa em como explicar. Senr. Gabriel, posso dar a minha opinião? Por favor. O Miguel não é uma criança má. Ele está a sofrer muito e não sabe como lidar com a dor. Os psicólogos disseram a mesma coisa, mas ele não colabora com o tratamento, porque o tratamento parece castigo para ele.
Ele precisa de alguém que compreenda a dor dele. E você compreende? A Sofia pensa na própria infância. Entendo. Sim. Cresci sem mãe, igual a ele. Gabriel vê a sinceridade nos olhos dela. As outras As amas não conseguiram se conectar com ele porque tinham medo dele. Criança sente quando o adulto tem medo. E não tem? Tenho medo de não conseguir ajudá-lo, mas medo dele não.
O Gabriel sente algo que não sentia há muito tempo. Esperança. Sofia, vou ser direto contigo. Não sei mais o que fazer com o meu filho. Desde que a mãe morreu, tornou-se outra criança. O senhor quer que eu tente? Quero. Mas preciso avisar que não vai ser fácil. Tem crises, surtos, dias impossíveis. Eu sei.
A Dona Rosa contou-me sobre as outras amas. Você tem experiência com crianças difíceis? Sofia hesita. Deveria mentir para conseguir o emprego? Não tenho experiência profissional, mas cresci num orfanato com 50 crianças. Muitas eram problemáticas, agressivas, traumatizadas. Aprendi que por detrás da agressividade tem sempre dor.
Gabriel fica impressionado com a maturidade dela. Quantos anos tem? 22.º É muito nova. Mas é a idade que tenho. Gabriel sorri pela primeira vez em semanas. Está bem. Quer experimentar? Quero sim. Qual é o o seu salário? A Sofia não sabe sequer quanto pedir. Nunca trabalhou como ama. O que o senhor achar justo? Vou pagar o mesmo que pagava às outras. 3.
000 por mês. Mais comida e quarto se quiser dormir aqui. Sofia quase desmaia. É mais dinheiro do que ela já ganhou na vida. Aceito. Ótimo. Mas a Sofia, sim. Se em algum momento não aguentar, pode-me avisar. Não vou ficar zangado. Está bem. Voltam para o quarto, onde Miguel continua a colar o livro. Miguel, a A Sofia vai trabalhar aqui a cuidar de você.
O que acha? Miguel olha para Sofia com esperança. Todos os dias. Todos os dias? E de noite também? Se ela quiser. A Sofia se ajoelha-se à altura de Miguel. Quer que eu dorme aqui? Quero no meu quarto. Gabriel vai dizer que não. Mas Sofia responde primeiro. Posso dormir num colchãozinho no seu quarto até se habituar comigo. Depois a gente vê.
Miguel bate palmas. Eba! Gabriel fica surpreendido com a naturalidade de Sofia para lidar com os pedidos da criança. Nos próximos dias, algo impressionante acontece. Miguel, que antes era incontrolável, torna-se uma criança diferente com a Sofia. Ela estabelece uma rotina carinhosa, mas firme.
Acorda o Miguel a cantar uma música alegre, ajuda-o a vestir-se contando historinhas. Transforma o pequeno-almoço numa aventura. Miguel, que tal se hoje fosses um pirata a tomar café no navio? Como assim? O pão pode ser o mapa do tesouro, o leite é a água do mar e o achocolatado é a poção mágica do pirata. Miguel ri-se e embarca na brincadeira.
Come toda a comida sem reclamar. Na hora do banho, que antes era uma guerra, Sofia inventa jogos. Agora és um peixinho oceano nadando. Os peixinhos gostam de estar limpos para brilhar por baixo d’água. Miguel diverte-se tanto que não quer sair da banheira. Gabriel observa tudo de longe, impressionado. Como é que Sofia consegue fazer parecer tão fácil? Uma manhã resolve perguntar: “Sofia, como é que faz para ele cooperar com tudo?” “Não forço nada.
Transformo obrigação em brincadeira. É só isso? E paciência, muita paciência. As outras amas não tinham paciência? A Sofia pensa em como responder sem criticar as colegas de profissão. Acho que elas tentavam dominá-lo em vez de conquistar. Qual a diferença? Dominar é impor. Conquistar é seduzir. Criança se conquista, não se domina.
Gabriel fica impressionado com a sabedoria de Sofia. Onde é que aprendeu isso? Na prática, no orfanato tinha crianças de todo o tipo. As Asivas eram sempre as que mais precisavam de carinho. E como vocês, cuidadores, lidavam com elas? No início não sabíamos. Tentámos ser rígidos, impor regras, não funcionava. Aí a diretora trouxe uma psicóloga que ensinou que o amor não é permissividade.
Como assim? Pode amar uma criança e ainda assim estabelecer limites. A diferença é como se estabelece. Gabriel pensa na sua própria relação com Miguel. Desde que Laura morreu, ele oscila entre a culpa excessiva, permitindo tudo e irritação, sendo demasiado rígido. Sofia, posso fazer-te uma pergunta pessoal? Pode.
Quer ter filhos um dia? A Sofia fica vermelha. Por quê? Porque tem talento natural para isso. Obrigada. É que as crianças sempre foram a minha paixão. No orfanato, eu era a que mais cuidava dos mais pequenos. E por que não estudou pedagogia ou algo do tipo? A Sofia fica triste. Não tive oportunidade. Quando saí do orfanato, precisava de trabalhar para me sustentar.
Gabriel sente vontade de oferecer ajuda, mas não quer soar com descendente. Duas semanas depois, algo inesperado acontece. É quinta-feira de manhã quando Gabriel recebe uma chamada da escola onde tentou matricular o Miguel. Senr. Rodriguees soube que contratou uma nova ama para Miguel. Contratei sim. Por quê? Gostaríamos de tentar novamente a adaptação dele. Gabriel fica surpreendido.
A escola tinha-se recusado a aceitar Miguel depois de este ter mordido uma professora. Vocês acham que agora já pode dar certo? Ouvimos comentários de que está muito mais calmo. O Gabriel olha pela janela e vê Sofia e Miguel no jardim plantando flores. É verdade. Ele mudou muito. Assim gostaríamos de tentar novamente. Gabriel desliga pensativo.
Seria bom para o Miguel socializar com outras crianças. Mas e se ele voltasse a ficar agressivo? À noite conversa com Sofia. A escola quer que o Miguel tente estudar lá novamente. Que bom, criança precisa de conviver com outras crianças. Mas tenho medo que ele volte a tornar-se agressivo. Por que voltaria? Porque foi o que aconteceu das outras vezes. Sofia pensa. Senr.
Gabriel, posso sugerir uma coisa? Claro. Que tal eu acompanhá-lo nos primeiros dias? Só até ele se adaptar? A escola permite isso? Podemos perguntar? Explicamos a sua situação especial. O Gabriel gosta da ideia. A Sofia tem uma forma de resolver problemas que ele nunca considerou. Cai se a escola não aceitar.
Aí a gente pensa noutra estratégia. Gabriel sorri. Gosta do agente que a Sofia utiliza. Como se eles fossem uma equipa. Na segunda-feira seguinte, Gabriel e Sofia levam Miguel para conhecer a escola. O menino está nervoso, agarrado à mão de Sofia. E se as crianças não gostarem de mim? Por que não gostariam? pergunta a Sofia.
Porque eu sou ma, Miguel. Sofia para e ajoelha-se à altura dele. Você não é mau. Você estava com dores. Mas agora está melhor, não está? Miguel pensa. Sim, estou. Então as as crianças vão gostar de si. E se eu ficar nervoso? Aí respira-se fundo e pensa numa coisa boa. Que coisa? No bolacha que vamos fazer quando voltar para casa. O Miguel sorri.
Pode ser de morango hoje. Pode ser da cor que quiser. Na escola, a diretora, dona Carmen, recebe-os com cautela. Senhor Gabriel, vamos tentar novamente, mas com algumas condições. Sabe quais? A babá pode acompanhá-lo na primeira semana, depois fica sozinho. E se ele não se adaptar? Vamos ter paciência. Mas se houver episódios de agressão, vamos ter que repensar. O Gabriel concorda.
É a melhor chance que o Miguel tem. No primeiro dia de aulas, a Sofia acompanha Miguel até à sala. Lembra o que conversamos? Lembro-me. Se ficar nervoso, respiro fundo. E penso no quê? No biscoito de morango. Isso mesmo. E se precisar de mim, eu estou aqui fora. Miguel entra na sala de aula com a professora tia Paula.
Sofia fica no corredor ansiosa. Uma hora depois, a tia Paula aparece sorridente. Como ele está? pergunta a Sofia. Ótimo. Está brincando com as outras crianças participando nas atividades. Sofia suspira de alívio. Ele não causou qualquer problema. Nenhum. Na verdade ajudou um coleguinha que estava a chorar.
Sério? A sério?” Disse ao menino que quando está triste tem de pensar em bolacha de morango. A Sofia ri. O Miguel está aplicando as técnicas que ela ensinou. No final do primeiro dia, Miguel sai da escola radiante. Sofia. Sofia, fiz um amigo. Que giro. Como é que ele se chama? Pedro. E também gosta de carrinhos igual a mim.
Gabriel, que veio buscar Miguel, fica emocionado ao ver o filho feliz. Como correu na escola, campeão? Muito bom, papá. A tia Paula é simpática e tem um montão de brinquedos. No carro, Gabriel olha para Sofia pelo retrovisor. Obrigado. Por quê? Por fazer o meu filho voltar a ser criança. A Sofia fica emocionada.
Ele sempre foi criança, só estava perdido. E encontrou-o nessa noite? O Miguel está tão feliz que não quer dormir. Sofia, conta a história do orfanato de novo. Qual a parte? Da menina que chorava todas as noites. Sofia acomoda-se na cadeira ao lado da cama de Miguel. Era uma menina chamada Ana. Tinha 5 anos e chorava toda a noite porque sentia saudades da mãe.
Igual a mim, igual a ti. E sabem o que eu fazia? O quê? Cantava música de Ninar para ela até adormecer. A mesma que cantas para mim? A mesma. E ela parou de chorar. Parou porque percebeu que não estava sozinha. Miguel pensa: “Eu também não estou sozinho, não é?” Não está, não. Tem o papá, há a dona Rosa, há a tia Paula, há o Pedro e tem-te a ti. E há eu.
O Miguel sorri e fecha os olhos. Sofia. Hum. Podes ser minha mãe. A pergunta apanha Sofia de surpresa. Miguel, é que eu gosto muito de ti e tu cuida de mim como uma mãe. A Sofia sente os olhos marejarem. Eu também gosto muito de si. Então pode ser. Posso cuidar de você como se fosse meu filho. Isso pode? Miguel pensa. Pode, mãe Sofia.
Sofia beija-lhe a testa. Boa noite, meu amor. Boa noite, mamã. Do corredor, Gabriel ouve a conversa e sente uma mistura de emoções. Felicidade porque o filho está feliz. Preocupação porque O Miguel está a afeiçoar-se muito a Sofia. E algo que não quer admitir, o ciúme. Ciúme porque o seu filho chama outra pessoa de mãe.
Ciúme porque a Sofia consegue fazer o que nunca conseguiu. Acalmar o Miguel completamente. E há algo mais que Gabriel não quer reconhecer. Está a sentir-se atraído por Sofia. Nos últimos dias, tem prestado atenção a pequenos detalhes. Como ela se ri quando o Miguel faz algo engraçado. Como canta baixinho enquanto arruma a casa.
Como fica bonita quando sorri. Pára com isso, Gabriel murmura para si próprio. É funcionária e muito nova, mas o coração não escuta a razão. Na manhã seguinte, algo perturba o rotina tranquila que a Sofia construiu. Helena Rodrigues, mãe de Gabriel, aparece de surpresa na mansão. A Helena é uma mulher de 60 anos, elegante, rica e com opiniões muito firmes sobre a forma como as coisas devem ser.
Ela nunca gostou de Laura. Achou que o filho casou abaixo do nível social da família e tem agora preconceitos ainda maiores sobre a situação. Gabriel, ela grita da entrada. Onde está? Gabriel desce a correr. Mãe, que surpresa? Surpresa boa ou má? Boa, claro. Porque veio sem avisar? Porque queria ver como está o meu neto. Soube que ele está a estudar. Está sim.
e muito bem adaptado. Graças à nova ama pelo que me contaram. Gabriel sente um tom estranho na voz da mãe. A Sofia tem sido maravilhosa com ele. Sofia? Que nome é esse? O nome dela. Nome de empregada doméstica. Gabriel irrita-se. Mãe, não comece. Começar o quê? Só fiz uma observação.
Nesse momento, Sofia desce as escadas com Miguel pela mão. O menino está limpo, arranjado, sorridente. Avó. Miguel corre para abraçar Helena. Meu netinho lindo, como tu cresceste. Miguel vira-se para Sofia. Avó, esta é a minha mãe Sofia. O silêncio na sala é constrangedor. A Helena olha para a Sofia de cima a baixo, vê uma rapariga simples, jovem, claramente de classe social inferior.
A sua mãe? Helena repete com frieza. Pois é, Miguel responde inocentemente. Ela cuida de mim e ama-me como uma mãe. Sofia fica vermelha. Miguel, eu sou a sua ama, mas tu és igual mãe para mim. Helena olha para Gabriel com uma expressão que diz: “Precisamos de conversar.” Miguel Helena ajoelha-se à altura dele. Babá não é mãe.
Mãe é quem dá à luz a criança. Miguel fica confuso. Mas a Sofia, a Sofia é funcionária, pessoas que trabalham para nós. A Sofia sente uma humilhação profunda, não pela posição social, mas pela forma cruel como Helena fala em frente a Miguel. Com licença, Sofia murmura e sai da sala. Miguel fica sem compreender.
Avó, por que a Sofia foi embora? Porque ela percebeu qual é o lugar dela. Gabriel está furioso, mas se controla por causa do filho. O Miguel vai brincar no seu quarto. Preciso de conversar com a avó. Posso chamar a Sofia para brincar comigo? Pode sim. Quando o Miguel sai, Gabriel explode. Como se atreve humilhar a Sofia à frente dele? Humilhar? Só disse a verdade.
Ela é empregada doméstica. Ela é muito mais do que isso. É mesmo? O que é ela então? Gabriel hesita. O que é a Sofia para ele? Para Miguel. Ela é Ela cuidou do Miguel quando mais ninguém conseguia. Por dinheiro. Não é só por dinheiro. Ah, não. E por que mais seria? Porque ela se importa com ele de verdade.
Helena ri-se sarcástica. Gabriel, está a ser muito ingénuo. Como assim? Essa menina está a manipulá-lo através do Miguel. Isso é mentira. É verdade. Ela percebeu que é viúvo, rico, desesperado por ajuda com o filho. Está a fazer-se de indispensável. Mãe, não conhece a Sofia? Conheço o tipo mulher jovem, bonita, pobre, que sabe usar os atributos para subir na vida.
Gabriel sente raiva. A Sofia não é assim. Todos os homens pensam isso até descobrirem a verdade. Que verdade? Que elas sempre têm segundas intenções. Gabriel balança a cabeça. Está preconceituosa. Estou realista, Gabriel. Você tem um património de 50 milhões. Acha que esta menina não sabe disso? Ela nem sabe quanto tenho. Claro que sabe.
Uma casa destes, empregados, motorista, ela sabe exatamente com quem está a lidar. Gabriel fica dividido. Será que a mãe tem razão? Mãe, mesmo que fosse verdade, não importa. O Miguel está bem. É isso que conta. E você, como está? Como assim? Helena aproxima-se do filho. Gabriel, está a envolver-se emocionalmente com esta mulher? Gabriel torna-se desconfortável.
Não sei do que está a falar. Sei como olha para ela. Sei como fala dela. Está se apaixonando. Mãe, ela sabe disso. Está a jogar com você. Você está a ver coisas que não existem. Estou vendo o que toda a gente vai ver. Um bilionário viúvo a ser enganado pela babá. Gabriel sente a pressão social que a mãe está a aplicar.
E daí, se estivesse, não me posso apaixonar? Pode por alguém do seu nível. O meu nível? Social, cultural, financeiro. Alguém que acrescentar a sua vida, não que se aproveite dela. Gabriel pensa em todas as mulheres do seu nível que conhece. Fúteis, interesseiras à sua maneira, frias. A Sofia não é interesseira.
Prove como Helena sorri maldosamente. Vou-te mostrar. Nessa tarde, Helena coloca o seu plano em ação. Ela vai até ao quarto da Sofia, que está a ajudar o Miguel com um puzzle. Sofia, posso falar contigo? Claro, dona Helena. Em particular. Sofia deixa Miguel a brincar e acompanha Helena até à sala. Senta.
A Sofia senta-se na ponta da poltrona, nervosa. Quero conversar sobre a sua situação aqui. A minha situação? Sei que está a esforçar-se com o Miguel. Gosto muito dele. Isso é bom, mas preciso de te alertar para uma coisa. Sobre o quê? Helena faz uma pausa teatral. O meu filho está se envolvendo emocionalmente contigo. A Sofia fica vermelha.
Dona Helena, eu percebeu, não foi? Não sei de que é que a senhora está falando. Sofia, sou mulher. Reconheço os sinais. Sofia fica sem saber o que dizer. A questão é: Quais são as suas intenções? As minhas intenções? Com o meu filho e com o meu neto. Só quero cuidar bem do Miguel. Só isso. Sofia hesita. Não pode mentir, dizendo que não sente nada por Gabriel.
Dona Helena, eu Respeito muito o Senr. Gabriel respeitar não foi o que perguntei. Eu, eu gosto dele como pessoa. A Helena sorri como uma aranha que acabou de apanhar uma mosca. Imagino. Homem rico, bonito, disponível. Não é por isso. Não. Então porquê, Sofia pensa? Porque gosta de Gabriel? pela forma como ama o filho, apesar das dificuldades, pela vulnerabilidade que demonstra, pela força que tem de recomeçar a vida, porque ele é um homem bom e um pai dedicado.
Ah, claro. E o facto de ele ter 50 milhões não influencia em nada. Sofia fica chocada. 50 milhões? Eu não sabia que ele tinha tanto dinheiro. Não sabia? A Helena ri. Sofia, estás numa mansão de 3000 m quadrados com cinco empregados, três automóveis importados na garagem. Como não sabia? A Sofia sente-se estúpida.
Claro que ela sabia que o Gabriel era muito rico, mas nunca imaginou a dimensão da fortuna. Dona Helena, o dinheiro não me interessa. Não. Então porque não arranja um emprego normal em vez de ser ama de rico? A pergunta é cruel e Sofia não sabe responder sem suar patética. Porque preciso de trabalhar e esse foi o emprego que apareceu.
E se o Gabriel fosse pobre, ainda se interessaria por ele? Sofia pensa honestamente. Se Gabriel fosse pobre, ela tê-lo-ia conhecido? Não sei. Provavelmente não teríamos conhecido. Exato. Então, o seu interesse por ele está ligado à posição dele. Não é verdade? A Helena se inclina-se para a frente. Sofia, vou ser direta contigo.
Você é uma menina bonita. Mas sem futuro, órfã, sem estudo, sem família. Pegou no meu neto numa fase vulnerável e está a usá-la para seduzir o meu filho. Isso não é verdade. É sim. E eu não vou permitir. Não vou permitir o quê? Que destruas a minha família. Sofia sente lágrimas nos olhos. Eu nunca faria mal ao Miguel.
Talvez não intencionalmente, mas quando o meu filho cansar-se de si, quando aparecer uma mulher mais interessante, vai embora e o Miguel vai sofrer. Eu não vou embora. Vai sim, porque pessoas como tu vai sempre embora. Gente como eu, pobre, oportunista, sem raízes, Sofia se levanta dignamente. Dona Helena, posso não ter dinheiro, mas tenho carácter. O carácter não paga conta.
Não, mas deixa-me dormir em paz. Sofia sai da sala de cabeça erguida, mas o coração despedaçado. A Helena sorri satisfeita. Plantou a semente da dúvida. À noite, o Gabriel repara que Sofia está estranha. Durante o jantar, ela mal fala, evita olhar para ele. Sofia, estás bem? Sim, estou. Parece preocupada. Está um pouco cansada.
O Miguel, sempre esperto, repara na atenção. Sofia, estás triste? Não, meu amor, só pensativa. Por quê? A Sofia olha para Gabriel, depois para Helena, que assiste tudo com um sorriso discreto. Às vezes a gente fica a pensar no futuro. Que futuro? Nada de importante, Miguel, come a sua comida.
Depois de colocar o Miguel para dormir, a Sofia vai para o seu quarto. Está a arrumar as suas poucas roupas quando Gabriel bate à porta. Sofia, posso entrar? Pode. Gabriel entra e vê as roupa sobre a cama. Você está a arrumar as suas coisas? Sofia hesita. Estou organizando. Para quê? Para nada. Gabriel aproxima-se. Sofia, aconteceu alguma coisa? Ela fica em silêncio.
Foi minha mãe, não foi? A Sofia não responde. O que é que ela disse? Nada demais. A Sofia me olha. Ela levanta os olhos. Estão cheios de lágrimas. O que é que a minha mãe disse? Que não tenho futuro aqui. O Gabriel sente raiva. Ela não tem o direito de dizer isso. Mas ela tem razão. Como assim? Sofia respira fundo.
Gabriel, somos de mundos diferentes. E daí? Daí que este não vai funcionar. O que não vai dar certo, Sofia Cora, sabes do que estou a falar. Gabriel aproxima-se mais. Fala você. Eu eu gosto muito de ti, mais do que deveria. E qual é o problema? O problema é que você é bilionário e eu Sou órfã sem estudo. Para mim isso não faz diferença, mas faz para o resto do mundo e para a sua família.
O Gabriel pega as mãos de Sofia. Sofia, olha para mim. Ela levanta os olhos. Em dois meses, fizeste mais pelo meu filho do que qualquer outra pessoa. Você trouxe alegria para a nossa casa. Você fez-me lembrar que ainda posso ser feliz. Gabriel, não termina. Quero que você saiba que não a vejo como empregada. Vejo como a mulher que salvou o meu filho e que me está a salvar a mim também.
Sofia começa a chorar. E se a sua mãe estiver certa? E se eu for apenas uma oportunista? Você não é. Como tem a certeza? Porque conheço-o, porque vejo como você cuida do Miguel, porque sei que és incapaz de fingir tanto carinho. E se o O Miguel cansar-se de mim? Impossível. Ele ama-te. E você? A pergunta fica no ar.
Gabriel olha nos olhos de Sofia. Eu também te amo. As palavras saem antes dele poder pensar, mas são verdadeiras. A Sofia soluça. Gabriel, isso é uma loucura. Talvez seja, mas é o que sinto. E agora? Agora nada. Vamos continuar como estamos. Vamos deixar as coisas acontecerem naturalmente. E a sua mãe? A minha mãe vai ter de aceitar.
A Sofia se aninha no peito de Gabriel. Pela primeira vez em muito tempo, sente-se protegida. Mas a felicidade dura pouco. No dia seguinte, Helena entra em ação novamente. Ela liga a várias amigas da alta sociedade, difundindo a preocupação sobre a situação do filho. Márcia, precisa de saber o que está a acontecer com o Gabriel.
O que foi, Telena? Ele está a envolver-se com a babá. A ama? Como assim? Uma menina jovem, pobre, sem família, claramente interesseira. Que horror. E o Miguel? Coitado do meu neto. A menina está manipulando-o para chegar ao pai. Isso não pode continuar. Por isso estou ligando. Preciso da ajuda das amigas. Em poucas horas, todo o círculo social de Helena está a par da situação constrangedora do Gabriel.
À tarde, Gabriel começa a receber chamadas. Gabriel, soube que está com problemas domésticos. Que problemas? Com a ama do Miguel. Dizem que a situação está complicada. Não está complicada coisa nenhuma. O Gabriel, como seu amigo, penso que devia ter cuidado. Este tipo de envolvimento pode prejudicar a sua reputação. A minha reputação nos negócios, na sociedade, as pessoas falam.
Gabriel desliga irritado. A segunda ligação é similar. A terceira também. No escritório, o seu sócio Roberto chama-lhe para conversar. Gabriel, preciso de te dizer uma coisa delicada. O que foi? Alguns clientes estão a comentar sobre a sua vida pessoal. Comentando o quê? Sobre você estar a envolver-se com uma funcionária.
Gabriel não acredita que as as fofocas chegaram até ao trabalho. E daí, Gabriel? Somos uma empresa conservadora. A nossa clientela é da alta sociedade. Este tipo de escândalo pode afetar os negócios. Que escândalo? Não estou não fazendo nada de errado. Não é uma questão de estar certo ou errado, é uma questão de aparência.
Gabriel sente a pressão aumentando. Roberto, a minha vida pessoal não diz respeito pelos clientes. Deveria dizer, quando se é figura pública, tudo o que faz reflete na empresa. Gabriel sai do escritório furioso, decide ir para casa e conversar com a Sofia sobre a situação. Quando chega à mansão, encontra uma cena inesperada.
A Sofia está na sala com as malas prontas. O Miguel está a chorar, agarrado à perna dela. O que está a acontecer? A Sofia olha para ele com os olhos vermelhos. Preciso de ir embora. Por quê? Porque não posso ficar mais. Sofia, o que houve? Helena aparece na sala com um sorriso satisfeito. Gabriel, chegou na altura certa. A Sofia tomou uma decisão muito sensata.
Que decisão? de se afastar antes que cause mais problemas. Gabriel olha de Sofia para a mãe. Mãe, o que fizeste? Eu nada. Só mostrei à Sofia algumas artigos de jornal. Gabriel franze a testa. Que matérias? Helena entrega um tablet. No ecrã, uma matéria da coluna social. Bilionário envolve-se com babá do filho. Gabriel lê rapidamente.
O texto insinua que ele está a ser manipulado por uma jovem interesseira que usa o filho órfão para se aproveitar da situação. Quem deu essa informação? Não sei, Helenamente, mas está na internet e toda a gente vai ler. Sofia está destruída. Gabriel, não posso fazer passas por isso, Sofia. Isto é só fofoca. Vai passar? Não vai.
A sua mãe tem razão. Eu não sou do teu mundo. O seu mundo é onde escolher que seja. Miguel puxa a roupa de Sofia a chorar. A Sofia não vai embora. Você prometeu. Meu amor, por vezes as promessas quebram. Não quero que se partam. Gabriel apanha Sofia pelos ombros. Não vai embora. Não por causa de boatos. Gabriel.
Isso vai destruir a sua reputação. Que se dane a minha reputação e os negócios e o futuro do Miguel. O futuro do Miguel é estar com quem ele ama e ele ama-o a si. Sofia olha para o Miguel que continua a chorar. Miguel, meu amor, anda cá. Ela ajoelha-se à altura dele. Se eu ficar, as pessoas vão dizer mal do seu papá.
Não me importo. Mas eu preocupo-me porque amo vocês os dois. Então fica. A Sofia olha para Gabriel. E se não resultar? E se você cansar-se de mim? Impossível. Como tem certeza? Gabriel ajoelha-se também e pega nas mãos de Sofia e Miguel. Sofia Carvalho, queres casar comigo? O silêncio na sala é total. Até Helena fica em choque. O quê? A Sofia sussurra.
Casa comigo. Passava a minha esposa, mãe do Miguel, dona desta casa. Gabriel, tu está louco? Louco por ti. Miguel bate palmas. Eba! A Sofia vai ser a minha mãe de verdade. A Sofia está a chorar tanto que mal consegue falar. Gabriel, tu tem a certeza? Nunca tive tanta certeza de nada na vida. Helena explode.
Gabriel, enlouqueceu. Não pode casar com uma empregada doméstica. Posso e vou. Isso vai destruir a nossa família. A nossa família já estava destruída. A Sofia que está consertando. Helena sai da sala furiosa, gritando que vai deserdar o filho. O Gabriel nem liga, está a olhar para Sofia, à espera da resposta.
Então, aceita. Sofia olha para Miguel, que está radiante. Olha para Gabriel, que está esperançoso. Olha para as suas malas, símbolos de uma vida sem raízes. Aceito. Gabriel beija-a à frente de Miguel, que grita de alegria: “O papá e a mamã vão casar! O papá e a mamã vão casar! Três meses depois, numa cerimónia simples no jardim da mansão, Gabriel e Sofia se casam.
Miguel é o pagem a lançar pétalas de cor-de-rosa e sorrindo como nunca. Helena não comparece, mas várias pessoas que realmente importam estão lá. Dona Rosa, que chora de emoção. Doutor Roberto, que mudou de ideias sobre Sofia depois de a conhecer melhor. Algumas verdadeiras amigas de Gabriel que viram como Sofia o transformou.
Na lua de mel que fazem numa casa de praia, Miguel os acompanha. Não é tradicional, mas é o que eles querem. Sofia, Miguel diz na primeira noite, agora és a minha mãe para sempre. Para sempre. E se o papá ficar chato? Sofia ri. Depois damos um tempo nele. E se ficar chata? Depois tu e o papá me dão tempo. Miguel pensa.
E se eu ficar aborrecido? Gabriel e Sofia entreolham-se e respondem em conjunto. Impossível. Dois anos depois, numa manhã de sábado, a Sofia está preparar o pequeno-almoço quando sente uma mão pequenina tocar-lhe na barriga. Mãe, ele está a dar pontapés outra vez. Sofia sorri e põe a mão de Miguel sobre o barriga redonda. É o seu irmãozinho.
Está ansioso por nascer. Será que ele vai ser aborrecido como as outras crianças? Não sei. Mas se for, vai ensiná-lo a ser simpático, não é, Miguel? Pensa. Vou ensinar-lhe a fazer origami. Boa ideia. Gabriel entra na cozinha e abraça Sofia por trás. Como está o meu bebé? Qual dos dois? A Sofia brinca. Os três.
Miguel faz cara feia. Pai, já não sou bebé. Para mim serás sempre o meu bebé. E eu, pergunta a Sofia. És o meu amor. Miguel faz cara de nojo. Eca que meloso. Gabriel e Sofia riem-se. É uma família imperfeita, não tradicional, mas cheia de amor verdadeiro. À tarde, quando estão no jardim a ver o Miguel brincar, Sofia comenta: “Quem diria que o menino impossível se tornaria o filho mais doce do mundo?” “Ele nunca foi impossível, O Gabriel responde. Só estava perdido.
Igual a mim, igual a nós os dois.” Eles beijam-se enquanto Miguel grita: “Eca! Parem com isso!” E todos se riem porque sabem que encontraram exatamente o que sempre procuraram, uma verdadeira família, construída não sangue, mas no amor. No final, Helena acabou por regressar quando o neto nasceu, não porque mudou de opinião sobre Sofia, mas porque percebeu que perderia o filho e os netos se mantivesse a teimosia.
“Ainda acho que podia ter escolhido melhor”, ela disse a Gabriel no hospital. Não podia não, mãe. A Sofia é perfeita para mim. Espero que não se arrependa. O único arrependimento que tenho é não ter encontrado ela antes. A Sofia, ouvindo a conversa do corredor, sorri. Aprendeu que não necessita da aprovação de Helena. Tem o amor do Gabriel, o carinho do Miguel e agora um bebé a caminho.
É tudo que sempre quis, uma família. E às vezes, quando está sozinha, pensa nas sete amas que não aguentaram o Miguel e Sussurra: “Obrigada por terem desistido. Se vocês tivessem ficado, eu nunca teria encontrado o meu lar, porque por vezes o impossível acontece quando a pessoa certa aparece no momento certo.” Gostou desta história? Acha que a Sofia merecia encontrar a sua família? Me conta nos comentários o seu nome e de que local escuta-me.
É um enorme prazer ter-te aqui. Um abraço e até à próxima.















