Milionário Retorna De Viagem E Surpreende Madrasta Abusando Da Filha No Chiqueiro, O Que Ele Faz…

O Mercedes-Benz classe S preto ronronava suavemente enquanto Ricardo Mendes circulava pela Avenida Marginal em direção a Cascais. O milionário empresário acabara de aterrar no aeroporto de Lisboa, vindo diretamente de Nova Iorque, onde fechara o maior contrato da história de a sua construtora.
Três semanas intensas de negociações que renderiam mais de 2 milhões de euros em lucros. Ele deveria estar eufórico, mas algo lhe pesava no peito como uma pedra. As mensagens de Isabela, a sua filha de 8 anos, não lhe saíam da cabeça. Mensagens estranhas, demasiado formais para uma criança que costumava enviar áudios longos contando sobre desenhos animados e pedindo-lhe para voltar logo.
Está tudo bem, papá? Estou a estudar muito. A mamã Valéria está a cuidar bem de mim. Todas escritas à mesma hora, todas com a mesma frieza. A Isabela nunca escreveu assim. Ela mal sabia usar pontuação direito. O Ricardo pegou no telemóvel no suporte e releu as mensagens pela décima vez. O seu instinto de pai gritava que algo estava errado.
Valéria, a sua mulher, há dois anos, sempre fora a madrasta, perfeita, meiga, carinhosa, dedicada. Mas estas mensagens pareciam ter sido ditadas por um adulto. O portão automático da mansão abriu-se quando o sensor reconheceu o carro. Ricardo conduziu pela Alameda de pedras portuguesas, observando os jardins impecáveis, as palmeiras imperiais alinhadas à piscina cristalina que brilhava sobletores.
Tudo exatamente como deixara, mas faltava algo. O silêncio. Isabela sempre corria para o receber quando regressava de viagem. Estava sempre na janela do quarto à espera do barulho do carro. Descia sempre as escadas a correr e se atirava-o para os seus braços, gritando: “Papai chegou!” Mas agora nada.
As janelas estavam fechadas, as cortinas puxadas, como se a casa estivesse vazia. O Ricardo estacionou na garagem e pegou nas malas. Havia trouxe presentes a Isabela de Nova York bonecas que ela pedira antes da viagem. Mal podia esperar para ver a carinha dela de felicidade. Entrou pela porta principal, utilizando a chave, mas ainda antes de chamar por Isabela, ouviu a voz de Valéria vinda do andar de cima.
Isabela, acabaste o trabalho de casa, porque se não terminou, já sabe para onde vai dormir hoje. O tom era áspero ameaçador. Ricardo franziu o sobrolho. Valéria nunca falava assim com a Isabela. Pelo contrário, sempre fora doce paciente a professora particular que se tornara não apenas a sua mulher, mas a mãe que Isabela perdera aos do anos.
deixou as malas na entrada e subiu as escadas silenciosamente. Queria surpreender a Isabela ver a expressão dela quando percebesse que ele estava de volta, mas quando chegou ao corredor do segundo andar, ouviu algo que o fez parar um soluço abafado. Não era choro comum de criança a fazer birra, era um choro de desespero, de medo vindo do fundo da casa.
Ricardo conhecia aquele choro. Era o mesmo que Isabela fazia quando era bebé e acordava com pesadelos. Seguiu o som pelo corredor, passou pelo quarto da filha, passou pelo escritório até chegar à escada das traseiras que levava ao porão. O porão que fora transformado em depósito quando casaram com Valéria, o local que a Isabela nem sabia que existia.
O choro ficou mais nítido. O Ricardo desceu as escadas duas de cada vez, o coração batendo com força no peito. Lá em baixo, no canto mais escuro da cave, entre caixas velhas e móveis cobertos por lençóis, havia uma porta de ferro que ele não se lembrava-se de ter visto antes. A porta estava trancada com um cadeado novo.
Do outro lado vinha o choro de Isabela. Por favor, mamã Valéria, já terminei o dever. Eu prometo que não vou mais entornar comida. Deixa-me sair, por favor. A voz da menina estava rouca, como se estivesse a gritar há muito tempo. Ricardo sentiu as pernas tremerem. Não conseguia acreditar no que estava a ouvir.
A sua filha, a menina dos os seus olhos, estava fechada no porão animal. Subiu as escadas, correndo o sangue a ferver nas veias. Procurou por Valéria pela casa e encontrou-a na cozinha a preparar o jantar como se nada estivesse a acontecer. Ela estava de costas, a cortar legumes com uma faca grande a trautear uma música suave. Valéria.
A voz de Ricardo saiu mais grave que o normal. Ela se virou-se com um sorriso ensaiado no rosto. Os mesmos olhos verdes que o tinham conquistado há dois anos brilharam com falsa alegria. Amor, que bom que você voltou. Como decorreu a reunião? Fechou o contrato. Ela aproximou-se para beijá-lo, mas Ricardo deu um passo para trás.
Onde está a Isabela? No quarto fazendo o trabalho de casa. Sabe como ela é preguiçosa. Precisa de disciplina. Ricardo olhou-a nos olhos. Eram os mesmos olhos que o tinham conquistado quando era apenas a professora particular Isabela. Olhos verdes brilhantes que pareciam guardar segredos, mas agora via algo diferente neles, algo frio, calculista.
Eu ouvi-a chorando. As crianças choram, amor. Faz parte da educação. Você mima demais, esta menina. A frieza na voz de Valéria fez gelar o sangue de Ricardo. Ela está na cave, Valéria, trancada como um animal. O sorriso falso desapareceu do rosto dela. Ela estava de castigo. Derrubou sumo na mesa de jantar de propósito, só para me desafiar.
As crianças precisam aprender que as ações têm consequências. Consequências. Chama-lhe consequência trancar uma criança de 8 anos na cave. Ela precisa aprender o respeito, Ricardo. Você viaja demais. Não sabe como ela se comporta quando não está. Ela desafia-me, me desobedece, faz birra por tudo. Ricardo não respondeu, virou costas para ela e voltou para a cave.
Desta vez não tentou ser silencioso. Pegou num martelo da caixa de ferramentas e partiu o cadeado de uma marretada. A porta abriu-se com um rangido sinistro. Isabela estava encolhida no canto usando o mesmo vestido que usava quando ele viajou há três semanas. O vestido rosa com borboletas estava sujo rasgado e ela tinha emagrecido tanto que parecia uma boneca partida.
O cheiro do pequeno espaço era insuportável. Havia um balde no canto que servia de casa de banho e pratos com restos de comida estragada espalhados pelo chão. Quando viu o pai Isabela, não correu para ele, ficou parada encolhida, como se não acreditasse que ele era real. Papá. A voz saiu fraca, quase inaudível.
Ricardo ajoelhou-se na frente dela, estendendo os braços. Eu estou aqui, princesa. O papá voltou. Isabela se atirou-lhe, abraçando-o com força desesperada. Eu pensei que nunca mais ia voltar. A mamã Valéria disse que estavas cansado de mim, que por isso foi-se embora. Ricardo fechou os olhos, sentindo a raiva crescer dentro dele, como um vulcão prestes a explodir.
Mas não podia explodir agora. Não na frente de Isabela, já tinha sofrido demais. O papá, ela disse que tu mandaste ela me educar, que se eu não obedecesse, tu ia dar-me a outra família. Eu nunca disse isso, princesa. Nunca. Ricardo pegou na filha ao colo e levou-a para fora do porão.
Isabela era demasiado leve, demasiado magra. As suas costelas estavam visíveis sob o vestido sujo. Valéria estava ao pé da escada com a faca ainda na mão. Ela estava de castigo, Ricardo. Não pode simplesmente Cala a boca. A voz de Ricardo saiu tão baixa e perigosa que Valéria deu um passo para trás. Vai embora desta casa agora. Não me pode expulsar.
Eu sou a sua esposa. Já não és nada minha. Ricardo passou por ela carregando Isabela e subiu para o quarto da menina. Valéria seguiu-o gritando, tentando se justificar. Ela é uma criança difícil. Não sabe como ela se comporta quando não está. Ela precisa de disciplina. Disciplina. Você chama-lhe disciplina deixar uma criança sem tomar banho durante três semanas, sem comida decente trancada no escuro.
Eu dava comida aos ela, eu levava. Restos de comida estragada igual a um animal. Ricardo deitou Isabela na cama e virou-se para Valéria. Os seus olhos estavam vermelhos de raiva contida. Tem 5 minutos para sair da minha casa. Se não sair, eu Chamo a polícia. Você não vai fazer isso. Pense no escândalo. Você é um empresário respeitado.
Eu não me importo com escândalo. Eu preocupo-me com a minha filha. Valéria percebeu que ele estava falando a sério. Mudou de estratégia tentando parecer vulnerável. Ricardo, por favor, deixa-me explicar. Eu amo-vos aos dois. Eu só queria educar a Isabela direito. A minha mãe criou-me com pulso firme e eu tornei-me uma mulher de sucesso.
A tua mãe criou-te ou te torturou? Ricardo aproximou-se dela e Valéria viu algo nos seus olhos que a fez tremer. Eu conheço pessoas como tu, Valéria. Gente que magoa a criança e depois diz que é por amor. Gente que usa o sofrimento dos outros para se sentir poderosa. Está a exagerar. Ela estava apenas apenas o quê? Apenas sendo torturada. Apenas a ser humilhada.
Ricardo apontou para Isabela, que estava a tremer na cama. Olha para ela. Olha o que fez à minha filha. Eu não não fiz nada de mais. Criança precisa aprender. Aprender o quê? A ter medo, a se odiar, a achar que não merece amor. A voz de Ricardo subiu de tom e Isabela se encolheu-se na cama.
Ele respirou fundo, tentando controlar-se. Você tem 3 minutos agora. Valéria percebeu que havia perdido. Saiu do quarto pisando forte, murmurando ameaças. Você vai se arrepender, Ricardo. Eu vou contar para toda a gente que tipo de pai é que abandonou a filha para viajar e ganhar dinheiro. Pode contar a quem quiser, pelo menos eu nunca a magoei.
O Ricardo ficou ao lado da cama acariciando os cabelos de Isabela. A menina estava suja com o cabelo emaranhados e o rosto sujo de lágrimas. Papá, vais viajar de novo? Não, princesa. Nunca mais te vou deixar sozinha. Promete? Prometo. Ela disse que não gostas de mim quando choro, que o papá fica zangado com criança chorona.
Eu nunca fico zangado quando tu chora, Isabela. Chorar é normal. Você pode chorar sempre que quiser. Isabela começou a chorar desta vez de alívio. Papá, eu fiquei com tanto medo. Eu pensei que te tinhas esquecido de mim. Nunca te esquecerei, princesa. És a coisa mais importante da minha vida. Ricardo abraçou a filha, sentindo como estava frágil, como uma boneca que podia quebrar a qualquer momento.
Papá, posso tomar banho? Eu estou com mau cheiro. Claro, princesa. Vamos dar um banho bem gostoso em si. Ricardo carregou Isabela para a casa de banho. Estava tão fraca que mal conseguia ficar em pé. Enquanto enchia a banheira, observou as marcas no corpo da filha. Hematomas antigos, riscos, marcas que pareciam de corda nos pulsos.
A Isabela, tal como você, magoou o braço. A mamã Valéria amarrou-me quando eu tentei sair do porão. Disse que eu ia ficar quieta até aprender a obedecer. Ricardo cerrou os punhos. Ela te amarrou. Só quando fazia muito barulho, ela disse que o vizinho ia reclamar. Que mais ela lhe fez? Isabela hesitou com medo de falar.
Você podes contar-me tudo, princesa. Eu não vou ficar zangado contigo. Ela batia-me com a cana de pesca quando chorava. Dizia que o choro irrita os adultos. Onde está essa vara? No seu closet, ela guardava lá. Enquanto Isabela tomava banho, Ricardo foi até ao closet de Valéria. Encontrou a cana de pesca escondida atrás dos vestidos.
Na ponta tinha sangue seco. O seu sangue gelou. Como não tinha percebido como tinha deixado que isso acontecesse, voltou para a casa de banho, onde A Isabela estava a brincar com os patinhos de borracha, como se fosse uma criança normal. Papá, trouxeste presente para mim? Trouxe sim, princesa. Trouxe várias bonecas de Nova Iorque. Posso ver? Pode.
Depois de comer alguma coisa. O Ricardo preparou uma sanduíche simples para Isabela. Ela comeu devagar, como se não tivesse a certeza se a comida ia continuar ali. Papá, a comida não vai acabar. Não, princesa. Pode comer sempre que tiver fome. Mamãe Valéria disse que a comida custa caro, que eu só podia comer se merecesse.
Você sempre merece comer, Isabela. Você merece tudo de bom. Enquanto a Isabela comia, o Ricardo observou cada movimento dela. Ela olhava para a porta constantemente, como se esperasse que a Valéria aparecesse. Comia rápido, como se alguém fosse tirar a comida dela. Pedia licença para ir à casa de banho.
Havia-se tornado uma criança assombrada. Depois do jantar, Ricardo mostrou os presentes a Isabela. Bonecas da Disney, roupinhas, livros de colorir. Isabela sorriu pela primeira vez, mas ainda assim olhava para a porta. Papá, ela não vai voltar mesmo. Não, princesa. Ela foi-se embora para sempre. Mas ela disse que esta casa é dela também, que lhe deu.
Eu não lhe dei nada. Esta casa é nossa, só nossa. Isabela tranquilizou-se um pouco e começou a brincar com os bonecas. Mas Ricardo percebeu que ela não brincava como antes. Fazia as bonecas lutarem uma batendo na outra. A boneca filha foi má. Assim a boneca mãe vai castigá-la porque a boneca filha foi má.
Ela deitou água, agora vai ficar fechada no quarto escuro. Ricardo sentou-se no chão, ao lado da filha. Isabela, quer fazer as bonecas serem felizes. Vamos brincar em família feliz. Podem ser felizes? Claro que podem. Olha, a boneca mãe pode abraçar a boneca filha e dizer que a ama. Isabela olhou para o pai como se ele estivesse falando uma língua estrangeira.
Mãe abraça filha. Mãe boa abraça sim e diz que ama. A Isabela pegou na boneca mãe e a fez abraçar a boneca filha. Eu amo-te, filha. Muito bem, princesa. Agora as bonecas estão felizes. Naquela noite, A Isabela não conseguiu dormir sozinha. Cada vez que Ricardo saía do quarto, ela começava a chorar.
O papá, não vai embora. Eu não vou embora, princesa. Vou ficar aqui. Promete que não vai viajar mais. Prometo. Nunca mais vou deixar você sozinha. O Ricardo ficou observando Isabela dormir, prometendo a si mesmo que nunca mais deixaria ninguém magoar sua filha. Quando ela finalmente adormeceu, ele desceu para a sala e ligou para o seu advogado.
Doutor Marcos Silva, sou o Ricardo Mendes. Preciso de dar entrada num processo de divórcio imediatamente e quero que me investigue a minha esposa. Quero saber tudo sobre o passado dela. Aconteceu alguma coisa, Ricardo? Ela maltratou minha filha, torturou-a durante três semanas. Quero que ela pague tudo. Vou iniciar o processo amanhã de manhã.
E Ricardo documente tudo. Tire fotografias das lesões graves depoimentos. Guarde tudo. Já estou a fazer isso. Ricardo desligou o telefone e voltou para o quarto de Isabela. Ela estava a ter pesadelo, se mexendo na cama e murmurando: “Por favor, não me bata mais”. Acordou-a delicadamente. Está tudo bem, princesa.
Foi apenas um sonho. Papá, ela não vai voltar mesmo. Nunca mais, Isabela. Eu prometo. O Ricardo passou a noite toda acordado, a observar a filha a dormir. Cada vez que ela se mexia, ele verificava se estava tudo bem. Quando o sol nasceu, pai e filha estavam finalmente juntos, em segurança. E Valéria era apenas uma terrível recordação que nunca mais voltaria a assombrar as suas vidas.
Na manhã seguinte, Ricardo acordou antes do sol nascer. Havia dormiu pouco, mas sentia-se mais determinado do que nunca. Isabela ainda estava a dormir finalmente tranquila após uma noite inteira de pesadelos. O médico de família chegaria em algumas horas para a examinar e Ricardo queria que tudo estivesse documentado. Cada ferido, cada marca, cada evidência do que Valéria tinha feito.
Enquanto preparava café na cozinha, o seu telemóvel tocou. Era Marcos Silva, o seu advogado. Ricardo, bom dia. Consegui algumas informações preliminares sobre a sua ex-mulher. Já foi rápido. Tenho um investigador privado muito competente. Ricardo, não vai gostar do que descobrimos. Fale primeiro. Ela mentiu sobre praticamente tudo.
O nome verdadeiro dela é Valéria Santos Silva. Não apenas Valéria Santos, como vocês se conheceram. Ela tem 34 anos, e não 28. é do porto não de Lisboa e não é viúva. Ricardo sentiu o estômago revirar. Como assim não é viúva? É divorciada, foi casou com um engenheiro chamado Paulo Santos. Tiveram uma filha em comum.
Uma filha? Sim. A menina chama-se Ana Paula, tem 12 anos. Vive com o pai desde que os pais divorciaram-se há 4 anos. Por que divorciaram-se? Paulo Santos entrou com um processo contra ela por maus tratos contra a filha. Segundo os documentos que consegui, ela batia na menina, a trancava na casa de banho durante horas, a fazia dormir no chão quando ela desobedecia.
Ricardo teve de se apoiar na bancada da cozinha, igual ao que ela fez com Isabela. Exatamente. E há mais. Depois do divórcio, trabalhou como ama em duas famílias diferentes em Lisboa. Nas duas, foi despedida por maus tratos com as crianças. Meu Deus! Na primeira família, os pais apanharam-na a bater numa criança de 5 anos, porque tinha derrubado um copo de água.
Na segunda, foi despedida porque a criança de 3 anos estava com terror de estar sozinha com ela. Ricardo fechou os olhos. Então, ela sempre foi assim, sempre maltratou crianças sempre. E o mais impressionante é que ela é muito estratégica na escolha das vítimas. Procura sempre homens solteiros com filhos pequenos que trabalham muito e precisam de ajuda.
Homens como eu. Exatamente. Ela estuda o perfil conquista a confiança, se casa ou vai viver junto e depois revela a verdadeira personalidade, mas só para as crianças. Ricardo, preciso de te dizer uma coisa importante. Consegui o contacto do ex-marido dela. Ele quer falar com você. Ele sabe da nossa situação.
Sabe. O meu investigador entrou em contato com ele ontem à noite. Quando soube o que aconteceu com a Isabela, ele disse que quer ajudar. Que tipo de ajuda? Ele tem gravações. Ricardo conversas com ela onde admite que bate em crianças que acha que uma criança precisa de sofrer para aprender.
Gravações que podem ser utilizadas no processo. O coração de Ricardo disparou. Essas gravações são giras? São. Ele gravou as conversas durante o processo de divórcio com autorização judicial e está disposto a testemunhar contra ela. Quando posso falar com ele? Ele vem hoje para Lisboa. Pode se encontrar-me convosco no meu escritório às 2 da tarde. Eu vou lá estar.
Ricardo desligou o telefone e subiu para verificar Isabela. Ela estava acordada, sentada na cama, abraçando uma das bonecas que trouxera de Nova Iorque. Bom dia, princesa. Bom dia, papá. A voz dela ainda estava rouca de tanto chorar. Dormiu bem? Tive pesadelos. Sonhei que ela voltou. Foi apenas um sonho, princesa. Ela nunca mais vai voltar.
Ricardo sentou-se na cama ao lado da filha. Isabela, hoje vai vir um médico aqui para te examinar, só para ter certeza de que está bem. Ele vai-me dar injeção. Não, princesa. Ele só vai conversar consigo e ver se está machucada. Isabela mostrou os braços com hematomas. Eu estou magoada. Eu sei, princesa.
Por isso o médico precisa de ver para a ajudar a ficar boa. O papá, posso fazer-te uma pergunta? Claro. Por que casou com a mamã Valéria? A pergunta atingiu Ricardo como um murro no estômago. Porque eu pensei que ela era uma boa pessoa e porque achava que precisava de uma mãe. Você estava com saudades da mamã. Isabela raramente falava sobre a mãe biológica que tinha morrido quando ela tinha apenas do anos. Estava.
E eu pensei que também estava. Não me lembro muito da mamã. Só me lembro que ela cheirava bem e que cantava para mim. Ela cantava muito toda a noite antes de dormir. A mamã Valéria nunca cantou para mim. Ela só gritava. Ela não era uma mãe de verdade, Isabela. Mãe de verdade não grita, não bate, não magoa. Assim, por que ela me fez isto? Porque ela é uma pessoa má.
Algumas pessoas são má princesa, mas a culpa não é sua. Isabela ficou quieta por um momento. Papá, você acha que fiz alguma coisa de mal? Não, princesa, não fizeste nada de errado. Nada do que aconteceu foi culpa sua. Mas ela disse que eu era má, que merecia ser castigada. Ela mentiu. Você não é má. És uma menina boa, carinhosa, inteligente. A Isabela começou a chorar.
Papá, eu fiquei com tanto medo. Eu pensei que nunca mais ias voltar. Eu vou sempre voltar, princesa. Sempre. Ricardo abraçou a filha, sentindo como ela estava frágil. Agora vamos tomar o pequeno-almoço. Deve estar com fome. Posso mesmo comer? Claro que pode. Pode comer sempre que quiser. Desceram para a cozinha, onde Ricardo preparou um pequeno-almoço especial.
Panquecas frutas sumo de laranja. A Isabela comeu devagar, sempre a olhar para a porta. Papá, ela não vai aparecer, não é? Não, princesa. Ela foi embora para sempre. Mas ela tem chave da casa. Troquei todas as fechaduras ontem à noite. Só eu e tu temos chave agora. A Isabela sentiu-se um pouco mais segura e continuou a comer.
Papá, posso ir para a escola hoje? Não, hoje, princesa, precisa de descansar. Amanhã pode voltar. Os outros meninos vão perguntar onde estava. Você não precisa de contar se não quiser. Pode dizer que estava doente. Eu estava doente mesmo. Doente por dentro. A frase da menina partiu o coração de Ricardo. Você já não está doente, Isabela.
Você está se curando. Às 10 da manhã, o Dr. Henrique Costa chegou. Era pediatra de Isabela desde bebé e conhecia bem a família. O Ricardo explicou a situação e o médico ficou chocado. Ricardo, isto é muito grave. Vou fazer um exame completo nela. Doutor, preciso que documente tudo. Vou processar a Valéria. Claro. Vou fotografar todas as lesões e fazer um relatório detalhado.
O exame revelou coisas que fizeram o Ricardo ficar enjoado. Além dos hematomas visíveis, Isabela tinha marcas de corda nos pulsos e tornozelos, cicatrizes de queimaduras de cigarro às costas e estava desnutrida. Ricardo, estas queimaduras são intencionais. Ela foi torturada. Meu Deus. E a subnutrição é grave. Ela perdeu quase 4 kg.
Para uma criança de 8 anos, isso é muito perigoso. Ela vai ficar bem? Vai, mas vai precisar de acompanhamento médico e psicológico. O trauma foi significativo. Depois de o médico sair, Ricardo se sentou-se com a Isabela na sala. Princesa, pode dizer-me como se magoou-se nas costas? A Isabela ficou vermelha de vergonha.
Mamãe Valéria queimou com um cigarro. Por quê? Porque eu fiz xixi na cama. Ela disse que eu era porca. Não é porca, Isabela. Fazer fazer xixi na cama é normal quando se está com medo. Ela disse que eu era nojenta, que ias ficar com nojo de mim. Eu nunca vou ter nojo de ti, princesa. Nunca. Ricardo abraçou a filha.
Mais alguma coisa que ela fez? Ela amarrava-me quando chorava muito. Dizia que ruído incomoda os vizinhos. Onde ela amarrava-te? no porão, nos pés e nas mãos, até parar de chorar. Por quanto tempo? Às vezes, a noite toda ficava com câimras, mas não podia dizer nada. Ricardo teve de se controlar para não chorar à frente da filha.
Ela batia-te com alguma coisa, com a cana de pesca e com o cinto, e por vezes com a mão. Onde ela batia-te? Nas costas, na barriga, nas pernas. Ela dizia que não podia bater na cara porque ias ver. Meu Deus, Isabela. Papá, não vai contar a ninguém, não é? Ela disse que se eu contasse, ela ia dizer que eu era mentirosa. Eu vou contar sim, princesa, ao médico, para a polícia, para o juiz, porque ela precisa de pagar pelo que fez.
Não vai ter vergonha de mim. Vergonha? Eu tenho orgulho em ti, Isabela. Orgulho de como foste corajosa, de como aguentou tudo isso. Eu não fui corajosa, chorei muito. Chorar não é cobardia, princesa. É normal. Qualquer pessoa ia chorar. A Isabela abraçou o pai. O papá, agora vai ser só eu e tu.
Vamos ser só nós os dois durante o tempo que quiser. Eu quero que seja para sempre. Então vai ser para sempre. À tarde, Ricardo deixou Isabela com a sua irmã Carmen e foi para o escritório do advogado. Paulo Santos já estava ali um homem de 40 e poucos anos, com aparência de quem tinha sofrido muito. Ricardo, muito prazer. Sinto muito pelo que você e a sua filha passaram.
Obrigado por se dispor a ajudar o Paulo. Pá, quando soube da tua história, não consegui dormir. É exatamente o que aconteceu com a minha filha. Paulo abriu uma pasta cheia de documentos e fotos. Estas fotos foram tiradas pela escola da Ana Paula. Ela chegava sempre magoada com hematomas arranhões. Como você descobriu o que estava a acontecer? Um dia regressei do trabalho mais cedo porque estava a sentir-se mal.
Ouvi gritos vindos do quarto da Ana Paula. Quando fui ver, encontrei a Valéria a bater-lhe com uma vara. O que fez? Separei as duas na hora, peguei na Ana Paula ao colo e saí de casa. Fomos logo para o hospital. E a Valéria, ela correu atrás de mim, gritando que eu estava a exagerar, que estava só a educar a menina. Você acreditou? Claro que não.
Principalmente depois de a Ana Paula me ter contado outras coisas no hospital. Que coisas? Torturas, Ricardo. Ela obrigava a Ana Paula a ficar de joelhos no milho durante horas. Fazia-a dormir no chão da casa de banho quando ela desobedecia. Não deixava-a comer quando ela se comportava mal. O Ricardo sentiu náuseas igual ao que ela fez à Isabela.
Pior, a Ana Paula contou-me que a Valéria dizia que ela era uma má criança, que ninguém gostava dela, que se eu soubesse como ela realmente era, eu ia devolver ela para o orfanato. Ela disse isso. Disse e durante muito tempo a Ana Paula acreditou. Achava que eu não gostava dela, que por isso eu trabalhava tanto. O Paulo pegou num gravador digital.
Tenho algumas gravações que fiz depois da separação. Ela ligava-me, zangada, queixando-se que eu estava a estragar a Ana Paula. Posso ouvir? Claro, mas prepare o coração. Paulo tocou a primeira gravação. A voz de Valéria era fria, calculista. Paulo, está a estragar a menina. Criança precisa aprender a obedecer.
Precisa de ter medo das consequências. Ficas a mimar ela, por isso é que não me respeita. Quando ela vem cá aos fins de semana, demora dias para eu conseguir reeducar ela. Tem mais? Tem. Escuta esta. Na segunda gravação, Valéria estava a conversar com uma amiga. Eu sempre escolho homens com filhos pequenos. Eles ficam desesperados por ajuda, principalmente os viúvos.
Quando você casa com eles, as crianças ficam sob a sua responsabilidade. Aí pode educar do forma certa, sem interferência. O Ricardo ficou chocado. Ela planeia isso. Planeia. Ela caça homens vulneráveis com filhos pequenos que trabalham muito, estuda o seu perfil, conquista a confiança e depois mostra quem realmente é. Mas só para as crianças. Exato.
Com os homens, é perfeita, carinhosa, atenciosa, compreensiva. Por isso, é tão difícil provar o que ela faz. Paulo mostrou mais documentos. Olha isto aqui. Relatório de uma psicóloga que atendeu a Ana Paula. Ela descreveu sintomas de stress pós-traumático grave. Como a sua filha está agora? Melhor, faz terapia há 4 anos, ainda tem pesadelos de vez em quando, mas está a recuperar.
O importante é que ela sabe que foi vítima que não foi culpa dela. Ela gostaria de conversar com a Isabela. Posso perguntar para ela? Acho que seria bom para as duas saberem que não estão sozinhas. O Paulo guardou os documentos. Ricardo, há mais uma coisa. A Valéria tentou contactar-me várias vezes depois que soube do seu caso.
Como assim? Ela ligou-me ontem dizendo que estava a inventar histórias sobre ela, que queria livrar-se dela para ficar com o dinheiro. Ela disse isso. Disse e pediu-me para mentir no seu processo, dizer que ela era uma boa madrasta. Gravou essa conversa? Gravei. Quero que escute. Na gravação.
A voz de Valéria estava desesperada. Paulo, tem que me ajudar. O Ricardo está a inventar que eu maltratei a filha dele. Você sabe que isso não é verdade. Eu sei que é verdade, Valéria. Fez a mesma coisa com a nossa filha. Eu nunca fiz nada demais. As crianças precisam de disciplina. Disciplina não é tortura, Valéria. Eu não torturei ninguém.
Eu só ensinei limites. Queimou a Ana Paula com cigarro. chamou a isto ensinar limites. Ela precisava de aprender. Vocês, homens, não compreendem como é difícil educar uma criança. Você está doente. A Valéria precisa de ajuda. Eu não estou doente. Eu sou uma educadora. Eu sei o que é melhor para as crianças.
A conversa continuou por mais alguns minutos com a Valéria, alternando entre súplicas e ameaças. Ricardo, essa gravação é de ontem. Ela está desesperada. Bom, significa que ela sabe que está perdida. Há mais uma coisa. Ela disse que vai tentar recuperar a guarda da Isabela. O quê? Ela disse que vai processá-lo por abandono de incapaz que deixou a filha com ela para viajar, que isso prova que é um pai negligente.
O Ricardo sentiu o sangue ferver. Ela não vai conseguir. Não vai mesmo? Não. Com todas as provas que temos. Marcos Silva, o advogado, interrompeu a conversa. Senhores, acabei de receber uma convocatória. Valéria entrou com um processo contra Ricardo, pedindo a guarda provisória da Isabela. Por qual motivo? Ela alega que Ricardo é um pai ausente que abandonou a filha para viajar e que as acusações contra ela são vingança porque ela pediu o divórcio.
Isso é um absurdo. É, mas vamos ter de nos defender. A audiência é na próxima semana. O que significa? Significa que Isabela pode ser chamada a depor, que teremos de provar que a Valéria é uma mentirosa. Ricardo ficou pálido. Isabela não tem condições para depor. Ela ainda está muito traumatizada. Eu sei.
Vou pedir para que o depoimento ser feito em câmara reservada com a presença de uma psicóloga. E se o juiz der-lhe a guarda, não vai dar. Não com todas as provas que temos. Paulo se levantou. Marcos, posso testemunhar no processo. Claro que o seu depoimento será fundamental e as gravações vão ser apresentadas como prova juntamente com o relatório médico da Isabela e as fotos das lesões. Ricardo respirou fundo.
Quanto tempo vai demorar? Alguns meses, talvez, mas no final ela vai pagar tudo o que fez. Quando Ricardo regressou a casa, A Isabela estava a brincar no jardim com as bonecas. parecia mais animada, mais parecida com a menina que conhecia. “Como correu o passeio, papá?” “Foi bom, princesa.
Conversei com um homem que tem uma filha da sua idade. Ela também apanhou da mamã Valéria. Não da Valéria, mas de alguém parecido com ela. Ela está bem agora. Está. E você também vai ficar bem?” Isabela sorriu e continuou a brincar. “Papá, posso-te perguntar uma coisa?” Claro, porque algumas pessoas são más. Não sei, princesa.
Talvez porque elas foram magoadas quando eram crianças. Assim eu também posso ficar má. Não, Isabela, porque tem amor. Eu te amo. Tem família que o ama. Você tem amigos. As pessoas que tm amor não ficam mais. Mesmo se eu ficar zangada às vezes. Mesmo se ficar zangada. Ficar zangado é normal. Ser má é diferente. A Isabela abraçou o pai. Papá, eu amo-te.
Eu também te amo, princesa, mais que tudo no mundo. Nessa noite, Ricardo deitou a Isabela a dormir e ficou pensando no que estava para vir. A luta agradável seria difícil, mas ele estava determinado a proteger a sua filha. Valéria tinha ferido Isabela fisicamente e emocionalmente, mas não conseguiria destruir o amor entre pai e filha.
Essa era uma batalha que Ricardo estava disposto a travar até ao fim. Três dias depois da alta hospitalar de Isabela, O Ricardo estava no escritório de casa revendo os documentos do processo quando recebeu uma chamada urgente. Era Carmen a sua irmã, que tinha procurado A Isabela na escola. A voz dela estava trémula, carregada de uma preocupação que fez disparar o coração de Ricardo como um tambor de guerra.
Ricardo, precisa de vir para aqui agora. Aconteceu algo de terrível na escola da Isabela. O que foi? Ricardo levantou-se da cadeira tão depressa que derrubou a chávena de café sobre os papéis. A diretora ligou-me em pânico. Eles encontraram a Valéria a conversar com Isabela no pátio da escola durante o recreio.
Como assim? Ela não pode chegar perto da Isabela? Pois, mas ela conseguiu entrar na escola. Se fez passar por uma tia da Isabela, disse que tinha autorizado ela a ir buscar a menina. Meu Deus. E a Isabela está em choque. O Ricardo quando me viu, ela correu e atirou-o para os meus braços, chorando desesperadamente. A professora disse que estava falando normalmente com as outras crianças quando de repente ficou pálida e começou a tremer.
O Ricardo largou tudo e correu para casa de Carmen. O trânsito de Lisboa parecia conspirar contra ele. Cada sinal vermelho, uma eternidade. Cada engarrafamento uma tortura. As suas mãos suavam no volante enquanto pensava no que Valéria poderia ter dito à Isabela, que tipo de ameaça tinha feito, que sementes de medo tinha plantado na mente da sua filha.
Encontrou Isabela encolhida no sofá da sala de Carmen, abraçada a uma boneca que Ricardo reconheceu como sendo uma das que tinha trazido de Nova Iorque. Ela olhava fixamente para a parede, com os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar como uma boneca partida que alguém tinha deixado de lado. Quando viu o pai, ela atirou-se a ele como se estivesse a afogar-se e ele fosse uma boia salvavidas.
“Papá, ela veio-me buscar.” Disse que a mandou me buscar. As palavras saíram entrecortadas pelos soluços cada sílaba carregada de terror. Calma, princesa. Respira fundo e conta ao papá exatamente o que aconteceu. O Ricardo sentou-se no sofá e colocou Isabela ao colo, acariciando os seus cabelos castanhos que ainda cheiravam ao champô de morango que ela tanto gostava.
Isabela respirou fundo várias vezes, tentando acalmar-se. Suas mãozinhas tremiam enquanto ela segurava a boneca contra o peito. Eu estava brincando com a Maria e a Júlia no recreio. A gente estava no escorrega rindo e eu estava a sentir-me feliz pela primeira vez em muito tempo. E depois o que aconteceu? Depois a tia da secretaria veio chamar-me.
Dona Cláudia aquela que usa óculos cor-de-rosa. Ela disse que a minha tia tinha vindo buscar-me que era urgente. E foi? Fui porque a dona Cláudia é simpática, ela nunca me mentiria. Mas quando cheguei à secretaria e vi ela, a Isabela parou de falar e começou a tremer novamente. Ela quem princesa? A mamã Valéria, ela estava lá, mas estava diferente.
Tinha cortado o cabelo bem curto e pintado de loiro. Usava óculos que nunca tinha visto, mas era ela. Eu reconhecia o perfume, aquele cheiro doce que ela utilizava e, principalmente, reconhecia os olhos dela. O Ricardo sentiu a raiva crescer como lava vulcânica no seu peito, mas se controlou para não assustar ainda mais a filha. Ela estava a sorrir.
Estava, mas era um sorriso diferente. Um sorriso que não chegava aos olhos, um sorriso que me deu medo. O que é que ela lhe disse? Ela disse que estava no hospital, que tinha acontecido um acidente, que eu tinha que ir com ela urgente. Ela falou que estava a pedir por mim, que estava ferido e precisava de me ver. E você acreditou no início, sim, porque fiquei apavorada pensando que estava machucado.
O meu coração começou a bater muito rápido e comecei a chorar. Isabela limpou o nariz com as costas da mão, mas depois ela disse uma coisa que me fez lembrar tudo. O que é que ela disse? Ela baixou-se bem pertinho da minha orelha e sussurrou: “Anda, Isabela! Sabes que quando o adulto chama uma criança, obedece sem questionar.
Não me faça ter que te ensinar isso outra vez. Era exatamente igual ao que ela sempre falava quando me obrigava a fazer coisas que eu não queria. A última frase foi como uma punhalada no coração de Ricardo. E o que fez? Eu comecei a chorar e gritar que não queria ir com ela, que não era minha tia, que ela era má.
A secretária ficou confusa porque a mamã Valéria tinha mostrado documentos a dizer que era a irmã da tia Carmen. Que documentos? Tinha uma carteira de identidade e uns papéis. A dona Cláudia disse depois que parecia tudo verdadeiro e depois a secretária ia entregar-me a ela quando comecei a gritar bem alto: “Ela não é minha tia. É a mulher má que me magoou.
Ela batia-me e trancava-me no porão. Gritei tão alto que até as crianças do pátio ouviram. Carmen aproximou-se e sentou-se ao lado deles. Ricardo, a diretora, disse que foi uma confusão terrível. Isabela gritava tanto que outras crianças começaram a chorar também. Algumas professoras vieram a correr ver o que estava a acontecer e a Valéria tentou convencer toda a gente que Isabela estava a ter uma crise, que ela era uma criança problemática, que tinha problemas psicológicos.
Ela falava com aquela voz doce que ela sabe fazer, tentando parecer preocupada. Mas a professora da Isabela interveio. Sim, a professora Mariana. Ela conhece bem a Isabela, sabe que ela não é de fazer escândalos. Então ela baixou-se à altura da Isabela e perguntou: “Isabela, conhece esta senhora?” Isabela respondeu: “Conheço sim.
É a mulher má que me magoou quando o papá viajou. É ela que me batia e me trancava no quarto escuro.” Ricardo abraçou Isabela com mais força, sentindo como o corpinho dela ainda tremia. E então o que aconteceu? A professora Mariana pediu à secretária para não entregar Isabela para aquela mulher. A diretora foi chamada e fez várias perguntas a a Valéria.
Que perguntas? Perguntou o nome completo dela, onde vivia, o telefone, o número de identidade. A A Valéria respondeu a tudo, mas a diretora achou estranho porque nos registos da escola não constava nenhuma tia da Isabela. E aí? Depois a diretora disse que ia ligar ao Sr. Ricardo para confirmar se tinha autorizado alguém a buscar a Isabela.
A Valéria ficou nervosa e disse que não era necessário, que estava com pressa. Ela tentou sair. Tentou, mas a diretora disse que era protocolo da escola, que nenhuma criança sai sem confirmação dos pais. E a A Valéria começou a ficar zangada. Não aquela zangada a gritar, mas aquela zangada gelada que ela ficava comigo.
Ela disse que tinha direito sobre mim, que era praticamente a minha mãe, que tinhas dado autorização por escrito, mas não havia autorização nenhuma. Não havia. E quando a secretária foi verificar nos ficheiros, não encontrou nada. Foi aí que a Valéria tentou pegar-me no braço e disse: “Vamos embora agora, Isabela.
O teu pai está à espera. E tu?” Mordi a mão dela e gritei: “Solta-me, tu não és minha mãe, és má”, gritei tão alto que toda a gente na escola ouviu. Carmen continuou a história. Ricardo, a diretora, disse que foi aí que a situação tornou-se feia. Valéria agarrou Isabela pelo braço e tentou arrastá-la para fora da escola.
Isabela debatia-se e chorava, e várias crianças que estavam no pátio ficaram assustadas. E então a professora de educação física, que é um homem grande, segurou a Valéria e mandou- ela soltar a Isabela. Ela saiu gritando que ia voltar com a polícia que tinha direito sobre a criança, que a escola ia dar-se mal por impedi-la de levar a própria filha.
Isabela levantou a cabecinha do peito do pai. O papá, ela disse que eu sou filha dela. É verdade. Não, princesa, não és filha dela. Ela nunca foi a sua mãe de verdade. Mas ela disse a toda a gente que eu sou filha dela. Ela mentiu. Só tem uma mãe que está no céu e tem um pai que sou eu. Então, porque é que ela disse isso? Porque ela está a tentar confundir as pessoas para te conseguir levar.
E ela vai conseguir nunca. Eu não vou deixar. Nessa tarde, o Ricardo foi à escola falar pessoalmente com a diretora. A Dona Margarete era uma mulher de 50 anos com cabelos grisalhos e óculos de leitura pendurados ao pescoço. Dirigia à escola há mais de 20 anos e já tinha visto de tudo. Senr. Ricardo, que situação terrível.
Nunca vi uma criança tão apavorada. A Dona Margarete, como aquela mulher, conseguiu entrar no escola. Ela apresentou-se na secretaria como Valéria Mendes, irmã da senora Carmen. Disse que o senhor estava no hospital e tinha-lhe pedido para ir buscar Isabela urgentemente. Que documentos ela mostrou? Uma carteira de identidade em nome de Valéria Santos Mendes e um papel que parecia uma procuração do senhor, autorizando-a a buscar Isabela em casos de emergência.
Posso ver estes documentos? Infelizmente, ela levou quando saiu, mas a secretária teve a presença de espírito de fotografar os documentos antes de devolver. Aqui ficam as fotos. A diretora mostrou as imagens no telemóvel. A carteira de identidade era uma falsificação bem feita, mas Ricardo reparou em alguns detalhes errados.
A procuração era uma imitação grosseira da a sua assinatura. Dona Margarete, estes documentos são completamente falsos. Imaginei, sobretudo depois da reação violenta da Isabela, uma criança não reage assim com uma pessoa da família. A senhora conhece bem a minha filha. Ela alguma vez reagiu mal com algum adulto. Nunca.
A Isabela é uma das crianças mais meigas e educadas da escola. Todos os professores gostam dela, por isso é que ficamos tão chocados com a reação dela hoje. E o que a senhora achou da mulher? Inicialmente ela parecia normal, bem vestida, educada, preocupada, mas quando Isabela começou a resistir, ela mudou completamente.
Ficou agressiva, tentou forçar a situação. Agressiva como tentou apanhar Isabela à força, falou com rispidez, como se estivesse zangada com uma criança desobediente. Foi aí que percebemos que havia algo de muito errado. O que a senhora pode fazer para garantir que este não voltar a acontecer? Já mudamos completamente o protocolo de segurança.
A partir de amanhã, qualquer pessoa que venha buscar qualquer criança da escola precisa de estar na lista de autorizados com documentos reconhecidos em notário e vão verificar a identidade. Sim, e nenhuma criança sai da escola sem confirmação direta junto dos pais ou responsáveis por telefone, mesmo que a pessoa esteja na lista.
Isso deixa-me mais tranquilo. Senora Ricardo, posso fazer uma pergunta pessoal? Claro. Essa mulher fez realmente mal a Isabela. A menina disse coisas muito específicas. Fez sim coisas terríveis que prefiro não detalhar. Estamos a processá-la criminalmente. Entendo. A Isabela é uma menina muito especial.
Todas as professoras têm carinho por ela. Vamos fazer tudo para protegê-la. Muito obrigado, Dona Margarida. Isto significa muito para mim. Quando Ricardo regressou a casa, encontrou Isabela no jardim a tentar brincar com as bonecas, mas apercebeu-se que ela não estava a conseguir se concentrar. A cada barulho de um carro na rua, olhava nervosa para o portão.
“Como te sentes, princesa?” Com medo, papá. “Medo de quê? Medo de que ela volte? Medo de que da próxima vez ela me consiga levar? Ela não vai conseguir, Isabela. Eu vou tomar providências para que este nunca acontecer. Que providências? Vou contratar pessoas para te proteger e vou fazer com que seja presa.
Como? Porque o que ela fez hoje foi crime. Tentar raptar uma criança é crime grave. Raptar é quando alguém tenta levar uma criança sem autorização dos pais. Então, ela tentou raptar-me. Tentou, mas você foi corajosa e impediu que ela conseguisse. A Isabela ficou pensativa por alguns momentos. O papá, posso perguntar-te uma coisa? Claro.
Porque ela quer levar-me se não gosta de mim? Quem disse que ela não gosta de si? Ela própria. Ela sempre dizia que eu era má, que dava trabalho, que eu atrapalhava a vida dela. Isabela, pessoas como a Valéria são muito complicadas. Elas não sentem as coisas como pessoas normais. Como assim? Ela não te quer levar porque gosta de ti ou porque sente saudades.
Ela quer levar-te para me magoar. Como assim magoar-te? Ela sabe que você é a pessoa mais importante da minha vida. Se ela conseguir levar-te, ela sabe que eu vou ficar desesperado, que vou sofrer muito. Então, ela quer fazer-te mal através de mim. Exato, princesa. É como se tu fosses uma forma de ela me atingir. Isto é muito maldade.
É muita maldade mesmo. Papá, acha que ela ama alguém? Não sei, princesa. Acho que pessoas como ela não sabem o que é o amor de verdade. Que pena. Deve ser muito triste não saber o que é o amor. É triste mesmo. Por isso, devemos ter pena dela, mas ao mesmo tempo proteger-nos dela. Nessa noite, o Ricardo ligou ao Paulo Santos.
Paulo a Valéria tentou raptar a Isabela hoje na escola. O que? Como? O Ricardo contou todo o episódio. Paulo ficou em silêncio durante alguns segundos. Ricardo, isso é muito grave. Ela está a entrar numa fase perigosa. Que fase? A fase do desespero. Quando pessoas como a Valéria se sentem encurraladas, tornam-se imprevisivelmente perigosas.
Você passou por isso com a Ana Paula. Passei e foi terrível. pode me contar. Nos últimos meses antes do divórcio, depois de ela percebeu que ia perder a guarda da Ana Paula, ela tentou de tudo. Primeiro tentou chantagear-me. Como disse? Que se eu não desistisse do divórcio, ela ia contar a toda a gente que eu batia nela.
Ia inventar que eu era violento, que abusava da Ana Paula. E você cedeu? Claro que não. Eu sabia que era mentira e tinha a certeza de que a verdade apareceria. E depois depois ela tentou manipular-me emocionalmente. Aparecia em casa a chorar, dizendo que se ia matar se a abandonasse, que não conseguia viver sem mim e sem a Ana Paula. E funcionou.
Durante alguns dias, fiquei confuso. Ela sabia exatamente quais botões apertar para me fazer sentir culpado. Mas manteve a decisão. Mantive. E foi aí que ela mostrou a verdadeira face. Como assim? Ela tentou raptar a Ana Paula duas vezes. Conta para mim. A primeira vez foi igualzinho ao que aconteceu hoje com a Isabela. Ela apareceu na escola da Ana Paula se passando por uma tia.
Disse que eu estava no hospital e conseguiu. Conseguiu. A escola era mais pequena, menos rigorosa. Ela levou a Ana Paula a um hotel em Fátima. Como descobriu? A diretora ligou-me, perguntando se estava tudo bem comigo, porque a minha irmã tinha dito que eu estava hospitalizado. Foi aí que descobri que a Ana Paula não estava na escola.
E o que fez? Chamei a polícia imediatamente. Eles rastrearam o telemóvel dela e encontraram o hotel. Em em que estado estava a Ana Paula? Estava bem fisicamente, mas psicologicamente destruída. Valéria tinha passado horas dizendo-lhe que eu não queria mais ser pai dela, que a ia abandonar num orfanato. Meu Deus! E há mais.
Quando a polícia chegou ao hotel, encontraram a Ana Paula amarrada na casa de banho. Amarrada, com cordas nos pés e nas mãos. A Valéria disse que era porque a Ana Paula estava a tentar fugir que estava a ser rebelde. E a Ana Paula confirmou isso mesmo. A A Ana Paula estava tão confusa e assustada que não conseguia falar corretamente.
Só chorava e pedia para voltar para casa. E a segunda tentativa, esta foi pior. Três semanas depois, ela invadiu a minha casa a meio da madrugada. Como é que ela entrou? Ela tinha cópia das chaves. Eu não havia trocado as fechaduras ainda e tentou levar a Ana Paula. Tentou. Entrou no quarto dela às 2 da manhã e tentou acordá-la dizendo que íamos viajar.
A A Ana Paula acordou. Acordou e estranhou porque ela sabia que não tínhamos viagem marcada. Quando a Valéria tentou tirá-la da cama, a Ana Paula gritou: “E tu ouviste?” Ouvi e corri para o quarto. Encontrei a Valéria a tentar tapar a boca da Ana Paula com a mão e depois eu a empurrei e gritei para ela sair da minha casa.
Ela saiu a correr, mas não antes de gritar que ia levar a Ana Paula de qualquer maneira que eu ia pagar por estar a tirar-lhe a filha. E depois, depois disso, pedi uma medida de proteção urgente e mudei as fechaduras. Instalei alarme e câmaras de segurança. Funcionou durante algum tempo, mas ela ficou a rondar a casa, seguindo a Ana Paula na escola, telefonando para os meus parentes e inventando histórias sobre mim.
Que histórias? Que eu estava a beber muito, que estava a negligenciar a Ana Paula, que andava a namorar várias mulheres e deixando que estranhos cuidem dela. E os seus parentes acreditaram. Alguns sim. Ela era muito convincente e chorava no telefone. Dizia que estava preocupada com o bem-estar da Ana Paula.
Como você resolveu? Tive de reunir toda a família e mostrar as provas do que ela tinha feito, os relatórios médicos, as fotos das lesões, as gravações. E depois, então compreenderam e deixaram de atender as chamadas dela, mas ela deixou de tentar. Não, na verdade piorou. Como não conseguia mais atingir-me através da família, ela mudou de estratégia.
Que estratégia? Começou a espalhar mentiras sobre mim no trabalho. Ligava para a minha empresa dizendo que eu estava com problemas psiquiátricos, que não era fiável. Isso teve consequências. Teve. O meu chefe chamou-me para uma conversa. Eu tive que explicar toda a situação e ele acreditou.
inicialmente ficou na dúvida, mas quando mostrei os documentos do processo e ele viu como ela era insistente nas chamadas, ele compreendeu. E no final, no final foi presa em flagrante numa quarta tentativa de sequestro. Como foi? Ela tentou apanhar a Ana Paula à saída da escola usando um carro alugado. A Ana Paula gritou. Os pais de outros alunos intervieram.
Alguém chamou a polícia e foi detida na hora. foi e desta vez não houve como negar. Várias pessoas viram tinha câmaras da escola a filmar. Quanto tempo ela ficou presa? Ficou três meses até ao julgamento. Depois foi condenada a do anos, mas cumpriu apenas um. Por quê? Bom comportamento na prisão? E porque ela convenceu o psicólogo penitenciário de que estava arrependida que havia foi submetido a tratamento, mas não estava curada? Claro que não.
Pessoas como ela não se curam, Ricardo. Elas apenas aprendem a esconder melhor quem realmente são. E depois que saiu da prisão, desapareceu. Durante 4 anos não tivemos notícias dela. A Ana Paula chegou a relaxar. Achou que ela tinha desistido até aparecer na minha vida. Exato. E agora estou a ver que ela não mudou nada.
Continua a usar os mesmos métodos. Paulo, acha que ela vai tentar novamente com a Isabela? Tenho certeza absoluta e da próxima vez ela vai ser mais preparada, mais cuidada. O que me aconselha? Primeiro, contrate segurança profissional para Isabela. Não apenas um condutor ou ama, mas alguém com formação em proteção pessoal. Já estou a providenciar.
Segundo, mude a rotina da Isabela completamente. Escola, horários, caminhos, tudo. Isso não vai traumatizar ela ainda mais, menos do que ser raptada por Valéria. Terceiro, instale GPS em tudo o que a Isabela utilizar. Mochila, sapatos, roupa. GPS nas roupas. Sim, existem dispositivos minúsculos que podem ser cosidos nas roupas.
Se ela for levada, consegue rastreá-la. E quarto, converse com Isabela sobre os códigos de segurança, palavras que só vocês os dois sabem para ela usar se alguém lhe disser que você mandou-a buscar. Que tipo de códigos? Por exemplo, se alguém disser que você está no hospital e mandou-a buscar, ela deve perguntar qual é a palavra secreta.
Se a pessoa não souber, ela deve gritar e fugir. Isto é uma boa ideia. E o Ricardo tem uma coisa muito importante que precisa de saber. O quê? A Valéria vai tentar atingir-te de outras formas. Também vai inventar histórias sobre si. Vai tentar prejudicar o seu trabalho, a sua reputação. Como me protejo disso? Documentando tudo.
Grave todas as chamadas que ela fizer. Guarde todas as mensagens. Mantenha um diário de todas as tentativas de contacto. E se ela inventar que eu agredi, por isso é que precisa de testemunha sempre que esta aparece. Nunca fique sozinho com ela. Entendi. E Ricardo, prepara Isabela psicologicamente. Ela precisa de entender que pode haver outras tentativas.
Não quero assustá-la mais do que ela já está. É melhor ela estar preparada e assustada do que despreparada e sequestrada. Tem razão. E lembre-se, a Valéria é inteligente, manipuladora e desesperada. Esta é uma combinação muito perigosa. Paulo, posso fazer-te uma pergunta pessoal? Claro. Não sente raiva dela pelo que fez com a Ana Paula.
Sinto uma raiva imensa, mas aprendi a canalizá-la para proteger minha filha, não para procurar vingança. E a Ana Paula, como lida com este hoje? Ela cresceu, tem 12 anos, entende agora que a mãe biológica é doente, que o que aconteceu não foi culpa dela. Ela tem medo de encontrar a mãe na rua. tinha muito medo, mas com terapia e tempo, ela aprendeu que está segura comigo.
“Vocês fazem terapia ainda?”, a Ana Paula faz. Eu parei há dois anos quando me senti mais confiante para lidar com a situação. E como a Ana Paula reagiu quando soube que Valéria estava envolvida com outra família? Ficou preocupada, disse que queria avisar-vos a si e à Isabela sobre quem ela realmente era. “Por isso aceitou ajudar também?” A Ana Paula disse: “Pai, a gente não pode deixar que ela faça com outra criança o que me fez.
Sua filha é muito corajosa.” Sim. E a Isabela também é. Vocês as duas são sobreviventes. Quando Ricardo desligou o telefone, ele tinha uma lista mental de providências a tomar. No dia seguinte, contactou uma empresa de segurança especializada em proteção dos executivos e das suas famílias. Senhor Ricardo, vamos precisar de uma equipa de quatro pessoas a trabalhar em turnos para garantir proteção 24 horas.
Quatro pessoas, sim. Duas para acompanhar a Isabela durante o dia, uma para segurança da residência durante o noite e uma de reserva para cobrir folgas e emergências. E qual seria o protocolo? A Isabela nunca ficará sozinha. Haverá sempre pelo menos um agente a no máximo 10 mpet de distância da mesma. Isso não vai parecer excessivo. Senhor.
Sua ex-mulher já tentou raptar a filha duas vezes. Não existe excesso quando se trata de proteger uma criança. Tem razão. Vamos também instalar um sistema de seguimento GPS nas roupas, sapatos e acessórios da Isabela. Como funciona? São dispositivos do tamanho de um botão. Fica costurado na roupa ou colado no sapato.
Tem uma bateria que dura 30 dias e sinal que pode ser rastreado até dentro de edifícios. E se ela mudar de roupa? Por isso, colocamos em vários itens sapatos, mochila, até na escova de cabelo, se necessário, e a escola. Vamos trabalhar em conjunto com a escola. Um dos nossos agentes ficará no pátio durante todo o horário escolar disfarçado de funcionário da manutenção ou jardineiro.
A Isabela vai saber que está a ser protegida. Vamos apresentar os agentes como amigos seus que vão acompanhá-la. As crianças desta idade não precisam de saber todos os detalhes, mas precisam de confiar nas pessoas que as protegem. No dia seguinte, Ricardo conheceu João, o segurança principal que protegeria a Isabela.
Era um ex-polícia de 40 anos com experiência em proteção das crianças e histórico exemplar. Senr. Ricardo, vou proteger a sua filha como se fosse a minha própria filha. Obrigado, João. Pode falar-me sobre a sua experiência? Trabalhei 15 anos na Polícia Militar, os últimos cinco na Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente.
Já lidei com muitos casos de rapto parental e abuso. E como costumam terminar, quando os pais tomam as precauções certas como o senhor está fazendo, geralmente acabam bem. A a prevenção é sempre melhor do que a reação. E quando não tomam, prefiro não falar sobre isso à frente da menina, mas digamos que as consequências podem ser irreversíveis.
Ricardo entendeu a gravidade da mensagem e apresentou o João para Isabela como o seu novo amigo e protetor especial que ficaria sempre por perto. Uma semana depois da implementação do novo esquema de segurança, a estratégia foi testada pela primeira vez. O João estava no pátio da escola disfarçado de funcionário da manutenção quando se apercebeu de uma mulher observando Isabela através da grade.
A mulher usava boné e óculos escuros, mas havia algo de familiar na sua postura. João aproximou-se discretamente e a reconheceu pelas fotos que Ricardo tinha fornecido. Era a Valéria, mas com uma aparência completamente diferente. Havia cortado o cabelo ainda mais curto, tingido de ruivo, e usava roupas masculinas.
Se não fosse o treino e as fotografias, seria quase impossível reconhecê-la. O João acionou imediatamente o sistema de comunicação. Base. Aqui é João. Temos código vermelho. O alvo está no perímetro da escola. Recebido, João. A Mariana está a caminho. Mantenha a visual no alvo e na criança. Entendido. O João observou a Valéria durante alguns minutos.
Ela estava claramente a estudar a rotina da escola, observando os horários dos recreios, as saídas dos crianças, os pontos cegos da segurança. Estava a fazer exatamente o que um sequestrador faria antes de agir. Mariana, a segunda agente, chegou a poucos minutos disfarçada de mãe de aluno. João, onde está ela? Ali próxima ao portão lateral.
Está a filmar com o telemóvel. Vou aproximar-me e tentar ouvir aquilo de que ela está a falar. A Mariana se posicionou-se estrategicamente e conseguiu captar parte de uma conversa telefónica que a Valéria estava a ter. Sim, ela sai sempre no mesmo horário. Tem um homem que fica por perto, mas não parece ser segurança profissional.
Não, não vai ser difícil. Já estudei a rotina toda. Amanhã à tarde pode ser o momento certo. O João ligou imediatamente para o Ricardo. Senr. Ricardo, a sua ex-mulher está na escola. Ela está a fazer reconhecimento e a planear algo para amanhã. Tem certeza? Absoluta. Ela está a filmar a escola e a falar ao telefone sobre raptar a Isabela amanhã à tarde.
Vou ligar para a polícia agora mesmo. Boa ideia. Mas, o Senr. Ricardo, recomendo que Isabela não venha à escola amanhã. É melhor prevenir. Tem razão. Vou inventar que ela está doente. Ricardo desligou o telefone e imediatamente ligou para a polícia. Delegado Silva, sou o Ricardo Mendes. A minha ex-esposa está a rondar a escola da minha filha, planeando um sequestro.
Senor Ricardo, vamos enviar uma viatura para lá agora mesmo. Consegue mantê-la sob vigilância. Os meus seguranças estão a observá-la, mas delegado, ela está muito diferente da última vez. Mudou completamente a aparência. Isso é típico. Vou mandar dois polícias à paisana para a prender. Obrigado, delegado.
Quando a polícia chegou, Valéria já tinha saído. João e Mariana conseguiram segui-la até um hotel barato no centro da cidade, onde ela estava alojada, sob um nome falso. Ricardo descobrimos onde está hospedada. Hotel Tôlei no centro. Está a usar o nome de Vera Santos. A polícia já sabe. Já passámos a informação. Eles vão prendê-la esta noite. Ótimo.
E a Isabela está segura. Nem se apercebeu que algo estava a acontecer. Nessa noite, a polícia invadiu o quarto de hotel onde Valéria estava hospedada. Encontraram mapas da escola, fotos da Isabela, horários anotados, disfarces, documentos falsos e até cordas e fita adesiva. “Senor Ricardo, prendemos a sua ex-mulher.
” Ela estava com material que comprova claramente a intenção de sequestro. Que material? Mapas da escola com rotas de fuga marcadas, fotos da sua filha, horários da rotina escolar e instrumentos que seriam utilizados para a contenção da criança. Instrumentos. Cordas, fita adesiva, um frasco de clorofómio. O Ricardo sentiu náuseas. Clorofórmo.
Sim. Ela pretendia mesmo drogar a criança para facilitar o rapto. Meu Deus, ela não ia só levar a Isabela e a magoá-la. pelas evidências. Sim, desta vez ela vai ficar presa durante muito tempo. Na manhã seguinte, Ricardo contou a Isabela que a mulher má tinha sido presa. O papá, ela não vai mais tentar me levar. Não, princesa.
Ela está presa e vai ficar presa durante muito tempo. Quanto tempo? Alguns anos. Tempo suficiente para que cresça e fique forte. E depois, depois vai ser grande e forte e ela já não vai conseguir te magoar. Isabela sorriu, mas Ricardo percebeu que ela ainda estava preocupada. Papá, posso continuar a ter o João como amigo mesmo com ela presa? Claro, princesa.
O João vai continuar sendo o seu amigo especial. Que bom, eu Gosto muito dele. Três dias depois, O Ricardo recebeu uma chamada inesperada do advogado de Valéria. Senor Ricardo, Sou o Dr. Augusto Fernandes, advogado da senora Valéria. Ela gostaria de conversar com o senhor. Ela não tem nada para conversar comigo.
Ela está disposta a confessar tudo e a pedir perdão em troca de uma redução da pena. Não me interessa, Senr. Ricardo. Ela tem informações que podem ser importantes para o senhor. Que informações? Sobre outras famílias que ela possa ter prejudicado, outros homens que ela possa ter enganado. O Ricardo ficou intrigado. Que outros homens? Ela não me quis dar detalhes.
Disse que só falaria com o senhor pessoalmente. Eu não a vou ver. Então ela disse que vai falar com a imprensa, vai contar a versão dela da história. Que versão? Que o senhor é um pai negligente que abandonou a filha para viajar que só estava a tentar proteger a criança. Isso é mentira. Eu sei, Senr. Ricardo, mas ela é muito convincente e pode causar problemas para a sua reputação.
Ricardo ficou pensativo. Se eu concordar em vê-la o que ela quer em troca, que o senhor retire algumas acusações, principalmente a de tentativa de sequestro. Impossível. Ela ia drogar minha filha. Ela alega que o clorofórmio era para uso pessoal que estava a pensar em matar-se. Isto é ridículo. Pode ser, mas é a versão dela. Dr.
Augusto, diga para a sua cliente que não vou levantar acusação nenhuma. E se ela falar com a imprensa, vou mostrar todas as provas do que ela fez. Está bem, Sr. Ricardo. Vou passar o recado. Naquela tarde, o Ricardo conversou com o Paulo Santos sobre a proposta de Valéria. Paulo, o seu advogado, disse que ela tem informações sobre outras famílias que ela pode ter prejudicado.
Isso é possível. Depois de ter sido presa, várias pessoas podem ter vindo ao de cima. Acha que vale a pena ouvir? Não, Ricardo, é uma armadilha. Ela quer-te manipular de novo. Mas e se ela tem realmente informações importantes? Assim ela pode passar essas informações para a polícia, não tem de passar para você. Tens razão, Ricardo.
Pessoas como Valéria nunca param de tentar manipular. Mesmo na prisão, ela vai tentar atingir-te. Como pode inventar que abusou da Isabela, que é violento, que forjou as provas, qualquer coisa para te prejudicar e se ela conseguir convencer alguém? Por isso, precisa de estar sempre preparado. Guarde todas as provas organizadas, todas as testemunhas disponíveis.
Entendi. E Ricardo, há uma coisa que precisa de saber. Ana Paula quer falar consigo. Comigo porquê? Ela disse que tem algo importante para contar sobre a mãe biológica, algo que pode ajudar no processo. O que é? Ela não me quis contar. Disse que só falaria consigo na presença de Isabela. Na presença de Isabela? Sim.
Ela acha que a Isabela precisa de saber também. Saber o quê? Não sei. Mas a Ana Paula está muito decidida. diz que é algo que pode ajudar Isabela a superar o trauma. Está bem. Quando ela pode vir cá hoje à tarde, se quiser. Pode vir. Vou preparar a Isabela. Quando o Ricardo contou a Isabela que Ana Paula queria conversar com elas, ficou entusiasmada.
O papá, a A Ana Paula é minha amiga. Ela pode falar o que quiser, mas ela disse que é algo sério sobre a mamã Valéria. Não tenho medo. A Ana Paula compreende-me. Está bem, princesa. Ela vem cá esta tarde. À tarde, o Paulo chegou com a Ana Paula. A menina de 12 anos estava séria, mas determinada. Olá, Isabela.
Oi, tio Ricardo. Olá, Ana Paula. O que quer contar-nos, pai? Vocês podem sentar-se, é uma conversa longa. Todos se sentaram na sala. Ana Paula respirou fundo antes de começar. Isabela, sabe que a mamã Valéria também me fez coisas más, né? Sei. O papá contou-me, mas tem uma coisa que nunca contei a ninguém, nem ao meu pai.
Paulo inclinou-se para a frente. O que é, filha? A mamã Valéria me contou coisas sobre outros homens que ela namorou, sobre outras crianças que ela magoou. Que coisas. Ela disse que antes de casar com o meu pai, ela trabalhou como ama em Lisboa. Mas não foram apenas duas famílias, como vocês descobriram. Foram pelo menos cinco. Cinco famílias? Sim.
E em todas ela fez coisas más com as crianças. Que tipo de coisas? Ela contava como se fossem histórias engraçadas. Dizia que tinha que educar as crianças porque os pais eram muito moles. A Ana Paula fez uma pausa. Ela contava que uma vez trancou um menino de 5 anos na cave três dias porque fez xixi na cama. Três dias? Sim.
Os pais estavam a viajar e deixaram ela a cuidar do menino. Quando voltaram, o menino estava desidratado e teve de ir para o hospital. E o que aconteceu? Ela inventou que o menino tinha caído e bateu com a cabeça. Os pais acreditaram: “Meu Deus, há mais!” Ela contou que em outra casa ela queimou uma menina de 6 anos com ferro de engomar.
Queimou? Sim, porque a menina não queria comer a comida que ela fez. Ela segurou o braço da menina e encostou o ferro quente e os pais. Disse que a menina estava com febre e a delirar que as queimaduras eram de uma reação alérgica. E eles acreditaram, acreditaram, levaram a menina para o hospital, mas a Valéria foi junto e convenceu os médicos de que era alergia.
Isabela, que estava a ouvir tudo, perguntou: “Ana Paula, porque ela contava-lhe essas coisas?” Porque ela dizia que eu precisava de aprender como ser obediente, que se não fosse obediente, ela ia fazer a mesma coisa comigo. E ficava com medo. Muito medo. Mas ao mesmo tempo sabia que ela estava a dizer a verdade. Como você sabia? Porque ela descrevia os pormenores, os gritos das crianças, como elas choravam, como elas pediam para parar.
A Ana Paula começou a chorar. Ela gostava de contar essas histórias. sorria quando contava. Ricardo sentiu o estômago revirar. Ana Paula, lembra-se dos nomes dessas famílias? Lembro-me de alguns. Família Costa, família Oliveira, família Pereira. E sabe onde vivem? Não, mais sei que são todos de Lisboa. Porque é que nunca contou isso antes? Porque eu estava com medo e porque eu pensava que ninguém ia acreditar.
Mas agora decidiu contar. Sim, porque quando soube que ela fez a mesma coisa com a Isabela, entendi que ela ia continuar a fazer. Acha que essas famílias sabem a verdade? Acho que não. Era demasiado esperta para esconder. O Paulo olhou para o Ricardo. Essas informações podem ser muito importantes para o processo.
Sim, vou passar tudo para a polícia e pode ajudar outras crianças que foram magoadas por ela. Ana Paula virou-se para Isabela. Isabela, não tem de ter medo dela nunca mais. Ela está presa e vai ficar presa durante muito tempo. Eu sei, o papá me explicou, mas há uma coisa que você precisa de saber. O quê? O que ela fez com não foi culpa sua.
Eu sei que também. Não, não sabe. Você ainda pensa que fez alguma coisa de errado. A Isabela ficou quieta. É verdade, não é? Ainda pensa que se tivesse sido mais obediente, ela não te teria magoado? Às vezes penso que sim. Então, ouve bem o que te vou dizer. Não importa o que tivesse feito, ela ia magoar-te do mesmo jeito.
Como sabe? Porque ela me contou. Ela disse que gostava de magoar crianças, que não importava se fossem obedientes ou não. Ela disse isso. Disse ela dizia que as crianças demasiado obedientes eram chatas. E crianças desobedientes mereciam castigo. Ela encontrava sempre uma desculpa. Isabela ficou pensativa. Por isso, não importava o que eu fizesse.
Não importava. Ela ia magoar-te de qualquer jeito. E as outras crianças? Ela magoou todas mesmo as que eram obedientes. A Isabela começou a chorar, mas desta vez não era de medo, era de alívio. Portanto, não foi culpa minha. Nunca a culpa foi sua, Isabela. Nunca. As duas meninas abraçaram-se chorando juntas.
O Ricardo e o Paulo observaram emocionados. Ana Paula, é muito corajosa por contar isso. Obrigada, tio Ricardo. Eu queria ajudar a Isabela a compreender que ela não fez nada de errado. Você conseguiu. E agora podemos ajudar outras crianças também. Sim, vou fazer questão de que estas famílias saibam a verdade.
Nessa noite depois de Paulo e Ana Paula foram embora, Ricardo conversou com Isabela. Como se está a sentir, princesa? Melhor. Muito melhor. Por quê? Porque agora entendo que não foi culpa minha que ela era má com todo o mundo. Sempre foi assim, princesa. Nunca foi culpa sua. Papá, acha que as outras crianças estão bem? Espero que sim.
Mas agora que sabemos delas, podemos ajudar. Como? Vou contar à polícia. Eles vão procurar essas famílias e descobrir a verdade. E se ainda estão feridas, então vamos ajudá-las a curar-se. Igual a que está se curando. Papá, posso fazer uma coisa? O que quer fazer? Posso escrever uma carta para as outras crianças. Que tipo de carta? Uma carta explicando que não foi culpa delas, que não são más. Acho uma ideia linda, princesa.
Ajudas-me a escrever? Claro, vamos escrever em conjunto. A Isabela foi buscar papel e lápis. Pai, como é que eu começo? Pode começar assim. Olá, o meu nome é Isabela e quero que saiba que não foi culpa sua. A Isabela começou a escrever com a letra caprichada de criança. Oi, o meu nome é Isabela e quero que tu saiba que a culpa não foi sua.
A mamã A Valéria magoou-o, mas não foi porque tu eras má, foi porque ela é má. Muito bem, princesa. Continue. Eu também apanhei dela. Ela bateu-me, queimou-me, fechou-me no porão escuro, mas o meu o papá salvou-me. Quer contar mais alguma coisa? Quero dizer que agora estou feliz que ela já não me pode magoar e que também vão ficar bem.
Então escreve isso. Isabela continuou escrevendo. Agora estou feliz porque o meu papá protege-me. A mamã Valéria está presa e já não pode magoar ninguém. Você também vai ficar bem. Você é uma boa criança e merece ser amada. Está linda, princesa. Quer assinar? Quero e quero desenhar um coração. A Isabela assinou a carta e desenhou um coração colorido.
Papá, você acha que elas vão gostar? Vão adorar princesa? Você escreveu do coração. Posso fazer uma carta para a Ana Paula também? Claro, ela merece. Vou agradecer por ela me ter ajudou a compreender que não foi culpa minha. Ótima ideia. Isabela pegou noutra folha e começou a escrever. Ana Paula, obrigada por me ajudar.
Você é a minha melhor amiga agora. Eu sei que não foi culpa minha e também sabe que não foi culpa sua. Nós somos corajosas e fortes. Eu amo-te. Está perfeita, princesa. Papá, posso perguntar-te uma coisa? Claro. Está orgulhoso de mim. Muito orgulhoso. Tu és a menina mais corajosa do mundo, mesmo tendo chorado muito, principalmente por ter chorado.
Chorar mostra que sente as coisas que é humana. E por ter gritado na escola, por ter gritado, por ter-se defendido, por ter contado a verdade, salvou-se sozinha. Não sozinha. Você salvou-me. Nós nos salvamos juntos, princesa. É verdade. Nós somos uma equipa, a melhor equipa do mundo. Papá, agora posso voltar a ser criança.
Nunca deixou de ser criança, princesa. Você só passou por uma fase difícil. Mas agora posso brincar sem medo. Pode brincar, pode rir, pode ser feliz, pode ser exatamente quem é. Então vou ser feliz todos os os dias. Todos os dias, princesa, para sempre. Isabela abraçou o pai com força. Eu amo-te, papá. Obrigada por me salvar.
Amo-te mais que tudo, princesa. Obrigada por ser corajosa. Nessa noite, a Isabela dormiu tranquila pela primeira vez em meses sem pesadelos, sem medo, sem culpa. Ela tinha entendido que não tinha culpa do que aconteceu, que outras crianças também tinham sofrido, mas que agora todas estavam seguras. Valéria estava presa e Ricardo estava determinado a fazer com que ela pagasse todos os crimes que havia cometido contra crianças inocentes.
Duas semanas depois, Ricardo estava no gabinete do delegado Silva quando recebeu uma notícia que mudaria tudo. A investigação sobre o passado de Valéria tinha revelado muito mais do que qualquer um esperava. Senr. Ricardo, conseguimos localizar três das famílias que a Ana Paula mencionou e descobrimos algo muito grave.
O que vocês descobriram? A Valéria não foi apenas ama nessas casas. Ela envolveu-se romanticamente com todos os pais, sempre homens solteiros ou viúvos com filhos pequenos. Portanto, era um padrão, um padrão muito bem elaborado. Ela estudava os perfis nas redes sociais, descobria quem tinha filhos pequenos e precisava de ajuda e então se aproximava oferecendo serviços de ama.
E depois, depois ela conquistava a confiança dos homens, se tornava indispensável e, eventualmente casava ou ia viver junto. Era aí que começavam os abusos contra as crianças. O Ricardo sentiu um frio na espinha. Quantas famílias ao todo? Pelos registos que encontrámos pelo menos oito famílias nos últimos 10 anos, mas pode ter mais.
Oito famílias, isto significa pelo menos 15 crianças. Senhor Ricardo, 15 crianças que sofreram às mãos dela. Meu Deus, e onde estão agora estas crianças? Estamos a localizar todas. Algumas já são adolescentes, outras ainda são crianças. Todas vão precisar de acompanhamento psicológico. E os pais eles sabiam.
Nenhum sabia. Ela era extremamente cuidadosa para esconder os abusos. Só agia quando os pais não estavam por perto. Como conseguiram estas informações? Cruzamento de dados, NIF, falso, nomes falsos endereços. Ela mudava sempre de identidade após cada relacionamento. E há quanto tempo ela o faz? Pelo que descobrimos há pelo menos 15 anos, começou ainda muito nova.
15 anos fazendo isso, sim, e sempre com o mesmo padrão. Procurava homens vulneráveis com filhos pequenos, conquistava a confiança, abusava das crianças e depois desaparecia quando era descoberta ou quando se cansava. O delegado mostrou uma pasta com documentos. Senr. Ricardo, há uma coisa que o vai chocar ainda mais.
O que é? Encontrámos um diário que ela mantinha um diário onde se descrevia detalhadamente todos os abusos. Ela escrevia sobre isso. Escrevia como se fossem troféus. Ela descrevia como cada criança reagia, quais os métodos de tortura que funcionavam melhor, como enganar os pais. Ricardo ficou enjoado. Posso ver este diário? Posso mostrar algumas partes, mas aviso que é muito perturbador.
O delegado abriu o diário numa página marcada. Esta entrada é sobre a Isabela. O Ricardo leu com horror. 15 de maio. O Ricardo viajou hoje. Agora posso começar a educação adequada da Isabela. Ela é muito mimada, chora por qualquer coisa. Vou ensinar ela a respeitar a autoridade. Primeiro Vou tirar os privilégios.
Nada de TV, nada de brinquedos. Se ela reclamar castigo severo. Tem mais, tem páginas e páginas sobre a Isabela, sobre a Ana Paula, sobre todas as outras crianças. E ela escrevia isto como se fosse normal, como se fosse um trabalho. Ela realmente acredita que está a educar as crianças. Esta mulher é completamente insana.
É um caso de psicopatia grave, o Sr. Ricardo. Ela não tem capacidade para sentir empatia ou remorço. E agora, o que acontece com ela? Com estas novas evidências, ela será acusada de múltiplos crimes contra 15 crianças. Pode apanhar até 30 anos de prisão. 30 anos? Sim. E desta vez não vai haver redução de pena.
Com tantas vítimas e provas tão claras, ela não sai mais da prisão. Ricardo respirou aliviado. E as outras famílias elas sabem. Estamos a entrar em contacto com todas. Algumas famílias já suspeitavam que algo estava errado. Outras ficaram completamente chocadas. Como assim? Suspeitavam. Mudanças no comportamento das crianças que nunca conseguiram explicar.
pesadelos, medos inexplicáveis, regressões no desenvolvimento. E nunca associaram a Valéria. Ela era muito esperta, tinha sempre explicações plausíveis. Dizia que a criança estava a passar por uma fase difícil que precisava de mais disciplina. Delegado, posso falar com estas famílias? Algumas disseram que gostariam de falar consigo, principalmente os pais, que passaram pela mesma situação.
Eu gostaria muito. A Isabela também pode se beneficiar conhecendo outras crianças que passaram pelo mesmo. Vou organizar um encontro. Mas, Sr. Ricardo, prepare-se. Algumas histórias são ainda piores do que a de Isabela. Piores, como crianças que foram hospitalizadas, que desenvolveram perturbações psiquiátricas graves que tentaram magoar-se.
Meu Deus, a A Isabela teve sorte, o Senr. Ricardo. O senhor regressou de viagem antes que ela sofresse danos irreversíveis. Como assim, sorte? Pelo que lemos no diário, a Valéria estava a planear escaladas muito mais graves nos abusos. Ela começava sempre leve e ia aumentando a intensidade com o tempo. Que tipo de escaladas? Prefiro não detalhar, mas digamos que trancar na cave era apenas o começo.
Ricardo sentiu as pernas tremerem. Então, se eu não tivesse voltado quando regressei? Prefere não pensar nisso, senhor Ricardo. O importante é que a Isabela está segura agora. Delegado, posso fazer uma pergunta? Como é que uma pessoa se torna assim? Segundo os psicólogos que estão a estudar o caso, é geralmente resultado de traumas graves na infância combinados com perturbações de personalidade.
Ela foi abusada quando criança. Estamos a investigar mais pelos padrões comportamentais. É muito provável. Isso justifica o que ela fez? Absolutamente não. Muitas pessoas sofrem abusos na infância e nunca se tornam abusadoras. Ela escolheu esse caminho e ela demonstra algum arrependimento. Nenhum. Na verdade, ela continua afirmando que estava a educar as crianças adequadamente, mesmo sabendo que será condenada.
Mesmo assim, ela vive numa realidade alternativa onde ela é a vítima e vocês pais são os vilões. Isso é assustador. É por isso é importante que ela fique presa para o resto da vida. Nessa tarde, o Ricardo voltou para casa a pensar em como contar à Isabela sobre as outras crianças. Encontrou-a no jardim a brincar com a Ana Paula, que tinha vindo visitá-la.
O papá, a Ana A Paula ensinou-me um jogo novo. Que jogo é esse? É um jogo onde fazemos de conta que somos superheroínas que protegem outras crianças. Que giro! E como vocês, voamos pelo mundo e cada vez que vê uma criança triste, a gente chega e leva-a para um lugar seguro. A Ana Paula completou e nós ensina-lhes que são corajosas e fortes. Muito criativo.
Posso conversar com vocês as duas sobre uma coisa importante. Claro, papá. Sentem-se aqui comigo. As duas meninas sentaram-se ao lado de Ricardo no banco de jardim. A polícia descobriu que a mamã Valéria magoou outras crianças além de vocês duas. Quantas outras? Perguntou a Ana Paula. Muitas, pelo menos 15 crianças. 15.º A Isabela arregalou os olhos. É muito.
É sim. E agora estas famílias sabem a verdade sobre o que aconteceu. Elas estão tristes. Umas estão, outras estão aliviadas por finalmente compreenderem o que aconteceu aos seus filhos. Papá, a gente pode conhecer essas crianças. Vocês gostariam? Sim, responderam as duas ao mesmo tempo. Por que, a Ana Paula respondeu primeiro? Porque nós podemos ajudá-las igual eu ajudei a Isabela.
E como podem ajudar? Mostrando que estivemos bem, que elas também vão ficar. Isabela completou e explicando que não foi culpa delas, que não são más. Vocês são muito especiais. Sabiam disto? Sabemos. riram as duas. Assim vou organizar um encontro, mas há uma coisa importante que precisam de saber. O que é? Algumas destas crianças estão mais magoadas que vocês.
Podem estar com mais medo, mais tristeza. Não tem problema, disse a Isabela. A gente vai ter paciência e vamos mostrar que é possível voltar a ser feliz, acrescentou Ana Paula. Muito bem, vou falar com os pais dessas crianças. Uma semana depois, O Ricardo organizou um encontro na casa de uma família que também tinha sido vítima da Valéria.
Era a família Costa que Ana Paula tinha mencionado. O casal tinha dois filhos, o Pedro de 8 anos e a Maria de seis. Quando Ricardo Isabela e Ana Paula chegaram, encontraram uma família claramente traumatizada. As crianças se escondiam-se atrás dos pais e o Pedro começou a chorar quando viu pessoas estranhas. “O Pedro não precisa de ter medo”, disse a mãe, Carla.
“Essas pessoas também passaram pelo mesmo que vocês.”. “É verdade?”, perguntou Pedro, ainda chorando. Isabela aproximou-se devagar. “É verdade, a mulher má também me magoou. Como é que ela te magoou? Ela me batia, queimava-me, trancava-me no porão escuro. Ela também me fez isso. Eu sei. E ficou com muito medo, certo? Muito. Eu ainda tenho medo.
Eu também tinha, mas agora já não tenho. Por quê? Porque ela está presa e porque o meu o papá protege-me. O Pedro olhou para o pai. Papá, você também me protege? Claro que sim, filho. Nunca mais vou deixar que ninguém te magoar. Ana Paula aproximou-se de Maria, que estava ainda mais assustada. Olá, Maria. Eu chamo-me Ana Paula. Oi.
Maria sussurrou. Você quer brincar comigo? Posso? Claro. Vamos brincar aos boneca. Eu gosto de bonecas. Então vem comigo. Enquanto as crianças brincavam, os adultos conversaram. Senr. Ricardo disse Carlos, pai de Pedro e Maria. Quando a polícia nos contou a verdade, senti-me o pior pai do mundo.
Por quê? Porque não percebi o que estava a acontecer com os meus filhos. Eles mudaram completamente depois da A Valéria veio trabalhar para aqui, mas eu pensei que fosse coisa da idade. Não se culpe. Ela era demasiado esperta para esconder, mas os sinais estavam todos lá. O Pedro fazia chichi na cama todas as noites, coisa que não fazia há anos.
A Maria deixou de falar durante semanas e ela dava explicações sempre. Dizia que o Pedro estava a regredir por ciúmes da irmã que A Maria estava a passar por uma fase introspetiva. E você acreditou? Acreditei. Ela parecia tão competente e tão carinhosa com eles quando eu estava por perto.
Quando descobriu a verdade? Há uma semana, quando a polícia veio cá até então, eu achava que a A Valéria tinha sido uma boa ama. E como as crianças reagiram quando souberam que vocês sabiam? O Pedro chorou de alívio. Disse que estava a guardar o segredo há muito tempo. Que segredo? Que a Valéria batia-lhe todos os dias, que ela dizia que se ele contasse, eu ia mandá-lo embora de casa.
E a Maria? A Maria ainda não consegue falar sobre o que aconteceu. Só chora quando lhe perguntamos. É normal. A Isabela também demorou a conseguir falar. Como a ajudou? Com muito amor, muita paciência e terapia profissional. Nós já marcamos terapia para os dois, mas preocupa-me se vão conseguir superar. Vão conseguir.
Olha como a Isabela e a Ana Paula estão bem. O Carlos olhou para as crianças a brincar e sorriu pela primeira vez. É verdade, as suas filhas parecem normais. São normais, só passaram por uma má experiência. Senor Ricardo, posso fazer uma pergunta pessoal? Claro. Você não sente vontade de matar esta mulher? Sinto uma raiva imensa, mas aprendi que a melhor vingança é ver a Isabela feliz.
Como consegue controlar a raiva canalizando-a para proteger a minha filha? A raiva motiva-me a ser pai melhor. Faz sentido, Carlos? Posso dar um conselho? Claro. Não se culpe pelo que aconteceu. Culpe-se apenas se não fizer tudo para ajudar as suas crianças daqui para a frente. Obrigado. Isso ajuda.
E lembre-se, os seus filhos precisam ver que é forte. Se eles perceberem que está quebrado, eles vão-se sentir mais inseguros. Tem razão. Preciso de ser forte por eles. E procure outras famílias que passaram pela mesma situação. Vocês podem ajudar-se mutuamente. A polícia disse que tem mais famílias. Tem. E todas estão a passar pelo mesmo que vocês.
Seria bom conversar com elas. Vou dar o meu telefone. Podemos organizar encontros regulares. Ao final da tarde, quando estavam a despedir-se, Pedro se aproximou-se de Isabela. Isabela, posso-te fazer uma pergunta? Claro. Você ainda tem pesadelos, por vezes, mas muito poucos. E quando tem o que faz? Eu chamo o meu papá.
Ele vem ao meu quarto e fica comigo até eu adormecer. O seu papai não fica zangado nunca. Diz que é normal ter pesadelos depois do sucedido. O meu papá também pode ficar comigo. Claro, o papá fica sempre com a gente quando estamos com medo. O Pedro sorriu. Obrigado por me explicar. De nada. A pessoas podem ser amigos. Pode.
Então vou voltar aqui para brincar consigo. E eu posso ir a sua casa. Pode, meu papá vai adorar conhecer-te melhor. Maria, que tinha estado quieta o tempo todo, se aproximou-se de Ana Paula. Ana Paula, você pode ser minha amiga também. Claro, você quer. Quero. Você é simpático. Você também é legal.
E sabe que mais? O quê? Você é muito corajosa tal como eu e a Isabela. Eu não sou corajosa. Tenho medo de tudo. Ter medo não significa que não seja corajosa, significa que é humana. Como assim? Corajoso é quem tem medo, mas faz a coisa certa na mesma. E qual é a coisa certa? Contar a verdade para os pais pedir ajuda quando precisa e não desistir de ser feliz.
Você acha que vou conseguir ser feliz? Tenho certeza igual eu consegui. Promete que vamos ser amigas para sempre. Prometo e prometo que te vou ajudar sempre que que precisar. A Maria abraçou a Ana Paula. Obrigada. De nada. É para isso que servem as amigas. No caminho de regresso para casa, Isabela estava pensativa. O papá, o Pedro e a Maria estão muito tristes. Estão.
Mas viu como eles melhoraram só de falar convosco? Vi. O Pedro até sorriu no final. É o poder da amizade princesa. Quando a gente vê que não está sozinho, fica mais fácil ultrapassar os problemas. Papá, posso ajudar mais crianças? Como assim? Posso visitar outras famílias? Posso ser amiga de mais crianças que foram magoadas? Claro, princesa, se quiser.
Eu quero. Quero ajudar todas elas. Por quê? Porque agora sei como é bom ter amigos que nos compreendem. Você é uma menina muito especial, Isabela. E você é o melhor papá do mundo. Nós os dois juntos somos uma equipa imbatível. É verdade. E a nossa equipa está a crescer. Como assim? Temos agora a Ana Paula, o Pedro, a Maria e vai ter mais uma grande família de crianças corajosas.
Exato. E vamos mostrar para todas elas que dá para voltar a ser feliz. Vai sim, princesa. Vai sim. Naquela noite, Ricardo olhou para Isabela, a dormir tranquila, e percebeu como ela tinha mudado. De vítima tinha-se transformado em sobrevivente. De sobrevivente havia se transformado em alguém que queria ajudar outras pessoas.
A experiência terrível pela qual tinha passado estava transformando-se em força para ajudar outros. E Ricardo sabia que era essa a verdadeira vitória sobre Valéria. A mulher tinha tentado quebrar Isabela, mas só tinha conseguido torná-la mais forte e mais compassiva. O mal fora vencido pelo bem, o ódio fora vencido pelo amor e o medo fora vencido pela coragem.
Seis meses depois do primeiro encontro com a família Costa, a vida de Ricardo e Isabela havia-se transformado completamente. O que começou por ser uma A tragédia pessoal se tornara uma missão de vida. A casa em Cascais agora recebia regularmente crianças e famílias que tinham sido vítimas de Valéria, transformando-se num verdadeiro centro de apoio e recuperação.
Isabela, que antes era uma menina traumatizada e assombrada por pesadelos, tinha-se tornado uma pequena líder, ajudando outras crianças a ultrapassar os seus medos e traumas. Ana Paula continuava a ser a sua melhor amiga e parceira nesta missão de cura e esperança. Naquela manhã de sábado, O Ricardo estava a preparar a casa para receber mais uma família.
Era a família Oliveira de Lisboa, que tinha viajado especialmente para Cascais, depois de saber sobre o grupo de apoio que se formara naturalmente em redor de Isabela e Ana Paula. “Papá, quantas crianças vêm hoje?”, perguntou Isabela. ajudando a arrumar almofadas na sala. Três princesas, dois rapazes e uma menina.
Que idade têm? O mais velho tem 10 anos, o do meio tem oito igual você. E a menina tem cinco. A menina é muito pequenina, então é sim. E ela está muito assustada ainda. Não se preocupa, papá. A gente vai cuidar bem dela. Eu sei que vão. Vocês são especialistas em cuidar de crianças assustadas. Isabela sorriu com orgulho.
A Ana Paula disse que a gente é como anjos da guarda para estas crianças. E é verdade, vocês são anjos mesmo. Às 14 horas, a família Oliveira chegou. José e Márcia Oliveira estiveram visivelmente nervosos, e as três crianças escondiam-se atrás dos pais. O mais velho, Thago, observava tudo com desconfiança.
O do meio, Rafael, chorava baixinho. A mais pequena Beatriz sugava o dedo e agarrava-se à saia da mãe. “Boa tarde”, disse José, estendendo a mão para o Ricardo. “Sou o José Oliveira. Muito obrigado por nos receberem. Imaginem, é um prazer ajudar. Estas são as nossas crianças: Thago, Rafael e Beatriz. Olá, crianças! Eu sou o Ricardo e esta é à minha filha Isabela.
Isabela se aproximou-se lentamente, sorrindo gentilmente. Olá, pessoal. Vocês querem conhecer o meu jardim? Tem lá vários brinquedos giros. Thago foi o primeiro a responder. Você é a menina que a mulher má magoou também. Sou sim, tal como ela magoou vocês. E já não tem medo. Tenho às vezes, mas muito pouquinho.
E quando tenho medo, o meu papá ajuda-me. O seu o papá acredita em ti sempre. Ele nunca duvidou de mim. O Rafael parou de chorar e olhou para Isabela com curiosidade. A mulher mate batia também. Batia, me queimava com cigarro e fechava-me no porão escuro. Ela fez-me isso também, sussurrou o Rafael. Eu sei. E doía muito, não é? Doía e eu ficava com muito medo. Eu também ficava.
Mas sabe o que descobri? O quê? que a gente é mais forte que ela, que nós conseguimos voltar a ficar bem. Como conseguiu? Com a ajuda do meu papá, dos médicos e de amigos como vocês, Beatriz, que estava escondida atrás da mãe, espreitou A Isabela com um olhinho curioso. “Olá, Beatriz”, disse Isabela baixando-se na altura da menina.
“Quer ver as minhas bonecas?” Beatriz acenou que sim com a cabeça, mas não largou a mãe. “Posso pedir à minha mamã para vir junto?” Claro, as mamãs também podem vir. Enquanto as crianças conheciam-se no jardim, os adultos conversaram na sala. “Senor Ricardo”, disse Márcia. “Quando o polícia nos falou da Valéria, eu pensei que ia enlouquecer.
Imagino como foi difícil. A gente não percebia porque os nossos filhos tinham mudado tanto. O Tiago, que sempre foi uma criança alegre, tornou-se agressivo e arredio. E O Rafael, o Rafael começou a fazer chichi na cama todas as noites e desenvolveu gaguez severa. Antes ele falava normalmente e a Beatriz? A Beatriz parou de falar completamente.
Há o ito meses. Ela não diz uma palavra sequer. O meses? Sim. Os médicos disseram que é mutismo seletivo causado por trauma. E como é que descobriram que era culpa da Valéria? José respondeu: “A gente nunca desconfiou dela. Ela era perfeita quando estávamos por perto. Carinhosa, atenciosa, responsável, tinha sempre explicações para o comportamento das crianças.
dizia sempre que Thago estava numa fase rebelde típica da idade, que Rafael estava com ciúmes da irmã mais nova que Beatriz estava a ser manhosa para chamar a atenção. E vocês acreditaram totalmente. Ela parecia tão conhecedora de psicologia infantil. Márcia continuou. A gente chegou a levar as crianças em psicólogos, pensando que éramos nós que estávamos a fazer algo errado. E os psicólogos.
Uns diziam que era fase, outros sugeriram alterações na dinâmica familiar. Ninguém suspeitou de abuso porque ela não deixava marcas físicas visíveis. Exato. Ela era muito cuidadosa para magoar apenas em locais que a roupa cobria. E como reagiram as crianças quando souberam que vocês sabiam a verdade.
O Tiago desabou, chorou durante horas, dizendo que achava que nós nunca ia acreditar nele. Que segredo? Que a Valéria lhe batia todos os dias. Que ela dizia que se ele contasse, eu ia mandá-lo embora de casa. E a Maria? Maria ainda não consegue falar sobre o que aconteceu. Só chora quando lhe perguntamos. É normal.
Isabela também demorou a conseguir falar. Como a ajudou? Com muito amor, muita paciência e terapia profissional. Nós já marcamos terapêutica para os dois, mas estou preocupados se vão conseguir superar. Vão conseguir. Olha como Isabela e Ana Paula estão bem. Carlos olhou para as crianças que brincavam e sorriu pela primeira vez. É verdade.
As suas filhas parecem normais. Elas são normais. Só passaram por uma experiência ruim. Senr. Ricardo, posso fazer uma pergunta pessoal? Claro. Você não sente vontade de matar esta mulher? Sinto uma raiva imensa, mas aprendi que a melhor vingança é ver Isabela feliz. Como você consegue controlar a raiva? canalizando-a para proteger a minha filha. A raiva dá-me energia para lutar.
E funciona? Funciona porque eu transformo um sentimento destrutivo num algo produtivo. Faz sentido, José, posso dar um conselho? Claro. Não deixe a raiva consumir-te. Suas crianças precisam de ver que é forte e estável. Tem razão. Às vezes fico tão zangado que não consigo pensar direito. É normal, mas lembre-se, a melhor vingança contra a Valéria é ver os seus filhos felizes e bem-sucedidos. Verdade.
Márcia juntou-se à conversa. Senr. Ricardo, quanto tempo acham que os nossos filhos vão precisar para recuperar totalmente? Márcia, não existe recuperação total no sentido de esquecer completamente, mas existe superação. Qual a diferença? Esquecer seria negar que aconteceu. Superar é integrar a experiência de forma saudável na história de vida deles.
E como sabemos que eles superaram? Quando conseguem falar sobre o que aconteceu sem ficar devastados, quando conseguem confiar em novamente adultos, quando conseguem ser crianças de novo. Isabela e Ana Paula conseguem isso. Conseguem. Olha elas ali brincando normalmente, ajudando os outros crianças. É verdade. Elas parecem crianças normais.
Elas são crianças normais que passaram por uma experiência anormal, mas não deixaram que essa experiência as definisse. Nesse momento, Beatriz aproximou-se de Ricardo, puxando -lo pela mão em direção aos desenhos. Olá, Beatriz. Quer mostrar-me os seus desenhos? A Beatriz acenou que sim e apontou para um desenho específico.
Era um desenho de uma família pai mãe e três crianças todos a sorrir com um sol grande e amarelo no céu. Que desenho lindo é a sua família? Beatriz acenou que sim sorrindo. E todos estão felizes no desenho. Beatriz acenou que sim novamente. Isto significa que quer que a sua família seja feliz. Beatriz olhou para Ricardo por um momento, depois olhou para os pais e depois acenou que sim, com mais convicção.
Então vou contar-te um segredo, Beatriz. Sua família já é feliz porque se amam e estão juntos. A Beatriz pensou por um momento, depois apontou para si própria e abanou a cabeça que não. Acha que não está feliz? A Beatriz confirmou. Mas quer ser feliz? Beatriz acenou que sim. Então sabe o que é que pode fazer? A Beatriz olhou curiosa.
Você pode começar pequeno, pode sorrir para a sua mamã hoje, pode abraçar o seu papá, pode brincar com os seus irmãos. Beatriz olhou para a família e depois para Ricardo. E sabe que mais? A Isabela e a Ana Paula vão ser suas amigas e vão ajudá-lo a ficar feliz de novo. A Beatriz sorriu e correu para abraçar a mãe.
Beatriz, exclamou a Márcia emocionada. Que abraço tão gostoso! Tiago, que tinha observado toda a interação, se aproximou-se de Ricardo. Senr. Ricardo, posso falar com o senhor? Claro, Thago. Eu queria agradecer. Agradecer porquê? por ter organizado isso, por ter mostrado que não estamos sozinhos. Imagina, Thaago, é um prazer ajudar.
Eu pensava que era o único rapaz do mundo que tinha passado por isso. E agora você sabe que não é. Agora sei que tem muitas crianças iguais a mim e que elas ficaram bem. E você também vai ficar bem. Eu sei, sobretudo agora que tenho amigos que me compreendem. Thaago, posso dizer-te uma coisa? Pode. Você é um menino muito corajoso e um irmão mais velho muito protetor. Como o Sr.
sabe? Eu vi como cuidaste do Rafael e da Beatriz hoje. Como ficou na frente deles quando aqui chegaram. É que eu sou o mais velho. Tenho que proteger eles. Exato. E fez um ótimo trabalho. Mas às vezes fico zangado com ele sem motivo. Isso é normal. Tiago, passou por muitas coisas difíceis, mas não é justo que paguem por isso.
Verdade. Por isso é importante que falar com os seus pais quando sentir raiva. Eles vão compreender. Vão. Eles te amam muito, Senr. Ricardo. Posso vir aqui outras vezes? Sempre que quiser. Tu, o Rafael e a Beatriz são bem-vindos sempre. E posso trazer outros amigos. Que outros amigos? Há um menino na a minha escola que eu acho que passa por maus tratos em casa.
Como sabe? Ele tem sempre hematomas e quando perguntam, ele inventa desculpas estranhas igual vocês faziam, igual. E ele fica muito assustados quando adultos gritam: “Tu falou com ele?” Tentei, mas ele nega tudo. É normal. Ele deve estar com medo. O que posso fazer? Conversa com os seus pais. Podem falar com a escola ou com o Conselho Tutelar.
E se for falso alarme, é melhor preocupar-se sem motivo do que deixar uma criança sofrer. Tem razão, Thago. Você está a tornar-se uma pessoa muito especial, alguém que se importa com as outras pessoas. Aprendi com Isabela e Ana Paula. Elas são bons exemplos mesmo. Ao final da tarde, quando a família Oliveira estava a se despedindo, houve uma transformação visível nas três crianças.
Thago estava mais descontraído e sorridente. O Rafael havia parado de gaguejar e conversava animadamente com a Isabela sobre jogos de videojogo. E Beatriz, embora ainda não tivesse falado, estava a sorrir e interagindo muito mais. “Senhor Ricardo”, disse José, “não sei como agradecer. Em poucas horas vocês fizeram mais pelos nossos filhos do que meses de terapêutica.
Por vezes, tudo o que as crianças precisam é saber que não estão sozinhas. É verdade. Obrigado mesmo. Vocês vão continuar a terapêutica. Vamos, mas agora com mais esperança. Ótimo. E mantenham contacto connosco. Vamos. As crianças já estão a planear a próxima visita. Márcia abraçou a Isabela e a Ana Paula.
Obrigada, meninas. Vocês são anjos. Imagina tia Márcia, disse a Isabela. A gente só fez o que alguém fez por nós. E o que foi isso? Mostraram que podíamos ficar bem outra vez. Quando a família Oliveira partiu, Ricardo, Isabela, Ana Paula e Paulo reuniram-se no jardim para conversar. “Como se sentem depois de hoje?”, perguntou Ricardo.
“Feliz”, respondeu Isabela imediatamente. “Por quê?” “Porque ajudámos outras crianças a sentirem-se melhor. E você, Ana Paula? Também me sinto feliz e orgulhosa. Orgulhosa de quê? De como a gente conseguiu mostrar-lhes que dá para superar. Paulo, o que achou? Emocionante ver a Ana Paula a ajudar outras crianças faz-me perceber como ela cresceu.
E como se está a sentir, Ricardo? Realizado. Sinto que estamos a transformar algo terrível em algo bom. É verdade, concordou Paulo. Vocês criaram algo muito especial aqui. Não fomos só nós, foi o amor destas crianças que criou isso. Papá, disse a Isabela, posso perguntar-te uma coisa? Claro, princesa. Achas que a mamã Valéria sabe que a gente está a ajudar outras crianças? Não sei.
Por quê? Porque eu quero que ela saiba. Por quê? Para ela saber que ela não conseguiu destruir-nos, que a gente ficou mais forte. Isabela, isso é muito maduro da sua parte. É que eu percebi uma coisa. O que entendeu? Que a melhor forma de vencer as pessoas más é sendo boas pessoas. O Ricardo sentiu os olhos marejarem. Princesa, esta é a coisa mais sábia que já disse.
Aprendi contigo, papá. Não, princesa. Você que me ensinou. Ana Paula juntou-se à conversa. Tio Ricardo, posso sugerir uma coisa? Claro, podíamos fazer um livro. Que tipo de livro? Um livro contando a nossa história para ajudar outras crianças que passam pela mesma coisa. É uma ótima ideia, mas vocês teriam coragem de contar as suas histórias.
Teria, disse Ana Paula. E eu também, completou a Isabela. Se pode ajudar outras crianças, tenho a coragem de contar qualquer coisa. Então, vamos fazer. Vamos escrever um livro sobre superação, sobre a esperança, sobre como o o amor pode vencer qualquer coisa. E vamos colocar desenhos da Beatriz, sugeriu Isabela. Ótima ideia.
Os desenhos dela são muito expressivos. Papá, você acha que muitas crianças vão ler o nosso livro? Espero que sim, princesa. Espero que a nossa história ajude milhares de crianças. Assim todas elas vão saber que não estão sozinhas. Exato. E vão saber que é possível superar qualquer trauma com amor e apoio.
Nessa noite, após Ana Paula e Paulo partirem, Ricardo deitou a Isabela a dormir. O papá, hoje foi um dia muito especial. Foi mesmo, princesa. Comportou-se como uma verdadeira heroína. Eu não sou uma heroína, sou apenas uma menina que quer ajudar. Exatamente por isso é que é heroína. Papá, posso contar-te um segredo? Claro.
Hoje, quando vi o Thago a proteger os irmãos mais novos, lembrei-me de como me protegeu. E como isso te fez sentir? Fez-me sentir sortuda, porque nem toda a criança tem um papá como você. E nem todo o papá tem uma filha como você. Papá, você se arrepende-se de ter casado com a mamã Valéria? Por vezes penso que se não tivesse casado, não teria sofrido, mas se não tivesse casado com ela, não teríamos descoberto que ela magoava crianças verdade, e outras crianças continuariam a sofrer.
Você tem razão. Portanto, talvez tenha sido o destino. Talvez tenha sido o mesmo. Papá, achas que a mamã que está no céu está orgulhosa de mim? Tenho a certeza que sim, princesa. Ela deve estar muito orgulhosa de ver como se tornou corajosa e bondosa. E você está orgulhoso de mim? Mais orgulhoso do que é possível expressar por palavras.
Então, está tudo bem. Se tu e a mamã do céu estão orgulhosos, eu estou feliz. Durma bem, princesa. Sone com coisas boas. Vou sonhar que estou a ajudar todas as crianças do mundo a serem felizes. Que sonho lindo. Boa noite, papá. Amo-te. Boa noite, princesa. Eu também te amo. Ricardo saiu do quarto de Isabela e foi para o seu escritório.
Ligou o computador e começou a escrever. Era uma vez um milionário que descobriu que o maior tesouro do mundo não era o dinheiro, mas o sorriso da sua filha. E era uma vez uma menina corajosa que transformou a sua dor em força para ajudar outras crianças. Esta é a história de como o o amor vence sempre o mal, de como a a esperança supera sempre o desespero e de como as crianças podem ser os maiores heróis do mundo.
E assim, Ricardo começou a escrever o livro que contaria a história de Isabela Ana Paula e de todas as as outras crianças corajosas que tinham transformou o trauma em triunfo, a dor em propósito e sofrimento em solidariedade. Um mês depois, Valéria foi condenada a 35 anos de prisão por crimes múltiplos contra 15 crianças.
No dia do julgamento, Ricardo estava presente, mas não por vingança. Estava lá para representar todas as crianças que tinham encontrou a sua voz, todas as famílias que se tinham unido e toda a rede de amor e apoio que tinha crescido a partir da tragédia. Quando a sentença foi lida, Ricardo não sentiu satisfação ou alívio.
Sentiu apenas tristeza por uma mulher que tinha escolhido o caminho da escuridão quando poderia ter escolhido a luz. Mas também sentiu esperança, porque sabia que a sua história com Isabela tinha provado que mesmo as experiências mais terríveis podem ser transformadas em algo belo quando enfrentadas com amor, coragem e determinação.
A Isabela estava na escola quando a sentença foi anunciada a brincar no recreio com os seus amigos, rindo sendo simplesmente uma criança feliz de 8 anos. E isso Ricardo sabia, era a verdadeira vitória. Não a prisão de Valéria, mas a felicidade de Isabela. Não o castigo do mal, mas o triunfo do bem.
Não o fim de uma história terrível, mas o início de uma história bonita, de cura, esperança e amor incondicional entre pai e filha. Se chegou até aqui, deixa um comentário a contar o que achou. A sua opinião é muito importante para nós. Partilha este vídeo com os seus amigos e familiares e não esquece de subscrever o canal e ativar o sininho para não perder nenhum dos os nossos novos conteúdos.
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