MILIONÁRIO FLAGRA BABÁ POBRE REZANDO PARA CURAR O FILHO CEGO DELE… E DECIDE FAZER O IMPOSSÍVEL!

6 horas da manhã, Maria das Graças empurrava o portão da mansão dos Almeida com o coração apertado. Aos 32 anos, ela transportava às costas não só a mochila idosa com os seus pertences, mas também o peso de uma vida inteira de luta. Fazia duas semanas que trabalhava como empregada de limpeza naquela casa imensa e todos os dias se impressionava com o tamanho da riqueza que existia no mundo.
“O meu Deus!”, murmurava enquanto olhava para os jardins perfeitamente cuidados. Tem pessoas que têm tanto e há pessoas que não não tem nada. Ricardo Almeida, aos 40 anos, era proprietário de uma das maiores empresas de tecnológica do país. Herdeiro de uma fortuna construída durante três gerações, nunca tinha conhecido necessidade, mas toda a sua riqueza não conseguia resolver o maior problema da sua vida.
O seu filho Gabriel, de 8 anos, tinha nascido cego. “Papá, já saíste?”, perguntava o Gabriel todas as manhãs, sentado na cama do quarto decorado, com os mais caros brinquedos importados. “Ainda não, campeão. O papá vai trabalhar daqui a pouco. Posso ir contigo hoje?” Ricardo sentia o coração apertar. “Não pode, filho.
Tem aula com a professora particular.” Gabriel baixava a cabeça resignado. Desde pequeno que havia aprendeu que o seu mundo estava limitado aos divisões da mansão e às aulas com professores especializados que vinham em casa. Ricardo, apesar de amar o filho, não sabia como lidar com a deficiência. Sentia um misto de culpa, tristeza e impotência.
Maria das Graças tinha perdeu o marido num acidente de trabalho dois anos antes. Desde então, sustentava sozinha os três filhos pequenos numa casa minúscula na periferia. O emprego na mansão dos Almeida era uma bênção. Pagava o dobro do que ela conseguia noutros locais. A dona Maria, disse a dona Conceição, a governanta de 55 anos que trabalhava na casa há 15 anos. O Sr.
Ricardo é bom patrão, mas tem uma grande tristeza no coração. Tristeza porquê, dona Conceição? Por causa do menino Gabriel. Nasceu ceguinho, tadinho. A Maria parou de passar o pano na mesa de cristal. O menino é cego? É sim. E o pai sofre muito com isso. Não sabe como cuidar direito. Onde está ele agora? No quarto dele, brincando sozinho como sempre.
Maria sentiu uma pontada no peito. Ela conhecia bem a dor de ver um filho sofrendo. O seu caçula havia nascido com uma deficiência na perna e ela sabia como era difícil. Nesse mesmo dia, por volta das 10 horas, a Maria estava limpando o corredor do segundo piso, quando ouviu uma voz infantil vinda de um dos quartos.
Alguém pode brincar comigo? Estou sozinho aqui. Era o Gabriel. A Maria olhou em redor, não viu ninguém. e aproximou-se da porta entreaberta. “Olá”, disse ela baixinho. Gabriel virou a cabeça na direção da voz. “Quem é você?” “Sou a Maria, trabalho aqui em casa. Queres brincar comigo?” Maria hesitou. Não sabia se podia.
Não sei se o seu pai deixa. Ele não está. E eu estou muito sozinho. O coração de Maria derreteu. Que tipo de brincadeira lhe gosta? Gosto de montar puzzles, mas não consigo ver as peças. E se eu te ajudar, posso descrever as peças para você. Gabriel sorriu pela primeira vez naquele dia. Pode. A Maria entrou no quarto e ficou impressionado.
Era maior que toda a sua casa, cheio de brinquedos caros, mas o menino estava sentado sozinho no chão, claramente aborrecido. “Vamos lá”, disse ela, sentando-se ao lado dele. “Esta peça é azul e tem o formato de um triângulo. Onde será que ela vai?” “Vamos procurar juntos. Aposto que está no céu do puzzle.” Durante uma hora, a Maria ajudou o Gabriel a montar o puzzle, descrevendo cada peça, cada cor, cada detalhe.
O menino ria, fazia perguntas, parecia uma criança completamente diferente. Maria, tem filhos? Tenho três. Como são? O O João tem 10 anos, é muito esperto. A Ana tem oito, tal como você. É muito arteira. E o Pedro tem cinco, é o meu bebé. Eles enxergam? Vêem, mas o Pedro tem um probleminha na perna. Que tipo de problema? Ele coxea um pouquinho, mas isso não o impede de correr e brincar.
Gabriel ficou pensativo. Maria, você acha que posso brincar igual às outras crianças, mesmo sem ver? Maria sentiu os olhos encherem-se de lágrimas. Claro que pode, meu amor. Você pode fazer tudo o que quiser. Como? Com criatividade, com carinho, com pessoas que te ajudem. Pode me ajudar? Posso sim.
Naquele momento ouviram passos no corredor. Maria levantou-se rapidamente. Gabriel, preciso de ir trabalhar agora. Volta amanhã? Volto. Promete? Prometo. A Maria saiu do quarto emocionada. Fazia anos que não via uma criança tão carente de atenção e carinho. Durante o resto da semana, todos os dias, a Maria encontrava um tempinho para falar com o Gabriel.
Ele perguntava sempre pelos filhos dela, sobre como era o mundo lá fora, sobre coisas que nunca tinha vivenciado. Maria, como é andar na rua? É saboroso, Gabriel. Há barulho de carros, conversa de gente, cão a ladrar, passarinho cantando. E como sabe para onde ir? A gente vai aprendendo o caminho. E quando não sabe, pergunta a alguém.
Nunca andei na rua sozinho. Por quê? O papá diz que é perigoso para mim. Maria ficou pensativa. Ela compreendia o medo de Ricardo, mas também via que Gabriel estava a ser privado de experiências importantes. Na sexta-feira dessa semana, a Maria chegou mais cedo do que o normal. Queria terminar o trabalho rapidinho para ir buscar os filhos à escola.
Quando estava a limpar a sala, ouviu Gabriel a chorar no quarto. Gabriel, que foi? Ela correu para ver o que estava a acontecer. Caí e me magoei. Ele estava no chão com o joelho esfolado. Deixa-me ver. Maria ajudou-o a levantar-se e examinou o machucado. Não foi nada de grave, apenas um arranhãozinho. Dói muito. Eu sei que dói. Vamos limpar e colocar um penso.
Maria levou Gabriel até à casa de banho, lavou a ferida com carinho e colocou um bandade. Pronto. Agora é um guerreiro com medalha de guerra. Gabriel Rio. Medalha de guerra. É todo machucado. É uma medalha que mostra que você foi corajoso. Maria, posso te contar um segredo? Pode. Às vezes eu tenho medo.
Medo de quê? De ficar sozinho para sempre. De nunca conseguir fazer nada sozinho. Maria ajoelhou-se na altura dele. Gabriel, ouve bem o que eu vou falar. Não vai ficar sozinho e pode fazer muita coisa sozinho. Como sabe? Porque já conheci outras pessoas cegas que fazem coisas incríveis. Conheceu onde? A Maria pensou rapidamente. Na igreja está lá um senhor que é cego e toca guitarra lindamente. Sério? Sério.
E há uma rapariga que faz artesanato só no tato. O Gabriel ficou fascinado. Eu posso aprender a tocar guitarra? Pode sim. E o meu pai, será que deixa? Vamos conversar com ele. Nesse momento, ouviram a voz de Ricardo no andar de baixo. Gabriel, onde está você? Estou aqui, papá. Gabriel gritou.
O Ricardo subiu às escadas e encontrou Maria e Gabriel na casa de banho. O que aconteceu aqui? Gabriel magoou-se, mas já está tudo bem, disse a Maria. O Ricardo olhou para o Bandade no joelho do filho. Como é que ele se magoou? tropeçou no quarto. Gabriel, quantas vezes já disse-lhe para ter cuidado? Gabriel baixou a cabeça. Desculpa, papá.
Ricardo irritou-se. Você precisa de ser mais cuidadoso. Se acontecer algo de grave, não vai conseguir defender-se. A Maria viu que o Gabriel ficou triste e não conseguiu ficar quieta. Senr. Ricardo, posso dizer uma coisa? Ricardo olhou-a surpreendido. Não esperava que uma funcionária se metesse na conversa.
Pode. O Gabriel é uma criança normal. Criança cai, magoa-se. É assim mesmo. Mas ele é diferente. Tem limitações. Tem a limitação da visão, mas pode aprender a lidar com isso. Ricardo franziu o sobrolho. Como assim? Existem técnicas, terapias, atividades que ajudam as pessoas cegas a serem independentes. Você entende disso? Maria hesitou.
Compreendo um pouco. O meu filho também tem uma deficiência. Que tipo de deficiência? Problema na perna. E aprendi que não podemos proteger tanto que acaba por limitar. O Ricardo ficou incomodado. Maria, obrigado pela ajuda com o Gabriel, mas cuidar dele é responsabilidade minha. Claro, Sr. Ricardo, estava apenas a tentar ajudar.
Eu sei, mas prefiro que se concentre no trabalho de limpeza. Maria sentiu-a, mas por dentro ficou triste. Ela via claramente que Gabriel precisava de mais estímulo, mais independência. Naquela noite, a Maria chegou a casa e encontrou os seus três filhos a fazer dever de casa na mesa da cozinha pequena.
“Mãe!”, gritaram os três quando a viram. “Olá, meus amores. Como correu a escola hoje?” “Foi boa”, disse a Ana. Aprendi uma canção nova. Que música? A Ana começou a cantar uma canção infantil e o Pedro tentou acompanhar, desafinando completamente. A Maria riu-se e abraçou os dois. E você, João, como correu o seu dia? Foi giro, mãe, mas posso perguntar uma coisa? Pode.
Por que fica triste às vezes quando chega do trabalho? Maria ficou surpreendida com a perceção do filho. Não fico triste. Fica assim. Hoje está com cara de preocupada. Maria suspirou. É que na casa onde trabalho há um menino da idade da Ana que é ceguinho. Ceguinho como? Perguntou a Ana. Nasceu sem conseguir ver.
Que triste disse Pedro. Ele não pode brincar. Pode, mas o o pai dele não deixa muito. Por quê? Porque tem medo que ele se magoe. O João, que era o mais velho, compreendeu melhor. Mãe, igual quando eu não queria deixar o Pedro brincar por causa da perna dele. Igual. Mas depois você me ensinou que ele precisava de tentar. Exato.
E o pai do menino cego não aprendeu que ainda? Ainda não. Pedro aproximou-se da mãe. Mãe, pode ensiná-lo? Não é tão simples, meu amor. Por quê? Porque ele é rico e eu sou apenas uma empregada de limpeza. E daí? Disse a Ana. És mesmo inteligente sendo empregada de limpeza. A Maria sorriu e abraçou os filhos.
Obrigada por acreditarem na mamã. No domingo, dia que não trabalhava, Maria levou os filhos à igreja, como sempre fazia. Durante a missa, ela distraiu-se pensando em Gabriel. Será que estava sozinho em casa? Será que alguém estava a brincar com ele? Senhor, ela rezou em silêncio. Ajuda-me a encontrar um jeito de ajudar aquele menino. Ele precisa de carinho.
Precisa de aprender a viver com a cegueira dele. Depois da missa, Maria procurou o O padre Miguel, um homem de 60 anos que conhecia bem a sua família. Padre, posso falar com o senhor? Claro, a minha filha. Que foi? A Maria contou sobre Gabriel, sobre a sua situação, sobre a super proteção do pai.
E o que você gostaria de fazer? Queria ajudar, mas não sei como. O pai dele não vai aceitar conselho de uma empregada de limpeza. Padre Miguel pensou por momentos: “Maria, já tentou rezar por eles? Rezo toda a noite. Mas já tentou rezar na presença deles? Como assim? Por vezes, quando as as pessoas veem a nossa fé em ação, elas se abrem para ouvir. Não percebi bem.
Reze por Gabriel em sua casa. Deixe que Deus utilize-o como instrumento. A Maria ficou pensativa. Esse o patrão não gostar. Então, pelo menos tentou. Na segunda-feira, a Maria chegou ao trabalho determinada. Durante a manhã, aproveitou que o Ricardo tinha saído e foi procurar Gabriel. Olá, Gabriel.
Maria, que bom que você veio. Posso entrar? Pode. Maria entrou no quarto e sentou-se ao lado dele no chão. Gabriel, posso ensinar-te uma coisa? Pode. Acredita em Deus? Acredito. O meu pai disse que Deus existe. E achas que Deus te ama? Gabriel hesitou. Não sei. Se ele me amasse, por que me fez cego? Maria sentiu o coração apertar. Gabriel, Deus ama-te muito.
A cegueira não é castigo. Então, por que nasci assim? Não sei, mas sei que Deus tem um plano para si. Que tipo de plano? Talvez tenha nascido assim para ensinar outras pessoas sobre coragem, sobre a superação. O Gabriel ficou pensativo. Maria, pode ensinar-me a rezar? Posso sim. Como faz? É só conversar com Deus, falar o que está no coração. Vamos rezar juntos.
Vamos. Maria ajoelhou-se ao lado da cama de Gabriel. Ele imitou a posição. Querido Deus, começou Maria. Obrigada por este menino especial que é o Gabriel. Deus, continuou Gabriel tímido. Obrigado por ter enviado a Maria para ser minha amiga. Senhor, dá força e sabedoria para Gabriel aprender tudo o que ele pode aprender e dá paciência para o meu pai compreender que eu posso fazer muitas coisas.
Maria emocionou-se com a oração do menino. Amém. Amém, repetiu Gabriel. Gabriel, como se sente agora? Melhor, mais tranquilo. A oração faz isso connosco. Maria, pode ensinar-me mais coisas sobre Deus? Posso. A partir desse dia, Maria começou a passar mais tempo com Gabriel, sempre que o Ricardo não estava em casa. Ela contava histórias da Bíblia, ensinava orações, mas principalmente dava-lhe algo que estava em falta, atenção e carinho genuínos.
Maria, o Gabriel disse numa tarde, posso contar-te outro segredo? Pode. Às vezes eu finjo que és a minha mãe. A Maria se emocionou. Por quê? Porque me trata como se eu fosse normal. Você é normal, Gabriel. Não sou. Não sou cego. Ser cego é apenas uma característica sua. Como ter cabelo castanho ou ser alto.
Mas é uma má característica. Não é mau nem boa. É diferente. Gabriel pensou por um momento. Maria, acha que a minha mãe gostaria de mim se ela estivesse viva? Claro que gostaria. Ela amaria-te muito. Como sabe? Porque é um menino maravilhoso, mesmo sendo cego, especialmente sendo cego. Por quê? Porque é corajoso, inteligente, carinhoso.
A cegueira não mudou nada disso. Gabriel sorriu. Maria, quando eu crescer, posso viver contigo? Maria riu. Tens o teu pai, Gabriel, mas ele não brinca comigo como tu. Ele ama-te à maneira dele. E você? Você ama-me, Maria? por um segundo, depois respondeu com o coração: “Amo sim, como se eu fosse seu filho. Como se fosses o meu filho.
” Gabriel atirou-se para os braços dela e começou a chorar. Eu também te amo, Maria. Maria abraçou o menino com força, sentindo que estava a desenvolver um amor maternal por ele. Na semana seguinte, aconteceu algo que mudou tudo. A Maria estava a limpar a biblioteca quando ouviu o Gabriel a gritar lá de cima: “Socorro! Alguém me ajuda? Ela largou tudo e correu.
Encontrou Gabriel no chão da casa de banho. Tinha escorregado e bateu com a cabeça. Gabriel, o que aconteceu? Escorreguei no tapete molhado. Acho que estou a sangrar. Maria examinou. Tinha um pequeno corte na testa, nada de grave, mas estava a sangrar. Fica calmo. Não foi nada de grave. Ela limpou a ferida, colocou gelo para parar a hemorragia e fez um curativo.
Dói muito. Dói um pouco, mas tu me acalmou. Vamos descer e eu faço um chá para si. Maria ajudou Gabriel a descer as escadas e levou-o para a cozinha. Ela preparou um chá de camomila e sentou-se com ele à mesa. Gabriel, posso-te perguntar uma coisa? Pode. Você tem medo de andar pela casa? Às vezes. Por quê? Porque não vejo os obstáculos.
Mas conhece bem esta casa, certo? Conheço. Então, porque não anda sozinho? Gabriel pensou. O papá sempre disse para não andar sozinho. Entendo. Mas acha que poderia aprender? Aprender como? Com treino. Devagar, prestando atenção aos barulhos, à distância dos passos. O Gabriel ficou animado.
Pode me ensinar? Posso tentar. Nesse momento, ouviram a porta da frente a abrir-se. O Ricardo chegava do trabalho mais cedo. Gabriel, onde estás? Estou na cozinha, papá. O Ricardo entrou na cozinha e viu Gabriel com um penso na testa, sentado à mesa com Maria. O que aconteceu? Por que razão está magoado? Escorreguei na casa de banho, papá, mas a A Maria ajudou-me.
O Ricardo olhou para Maria com um misto de gratidão e irritação. Obrigado por cuidar dele, Maria. Não foi nada, Senr. Ricardo Gabriel, quantas vezes já lhe disse para não andar sozinho pela casa? Mas, papá, eu só fui à casa de banho. Mesmo assim, você podia ter-se machucado gravemente. A Maria não conseguiu ficar quieta. Senr. Ricardo, posso sugerir uma coisa? Ricardo olhou-a sério.
O quê? Gabriel precisa de aprender a deslocar-se sozinho. É importante para a independência dele. Maria, com todo o respeito, não compreende a situação. Compreendo sim, senor Ricardo. Sei que o senhor tem medo, mas não sabe nada. O Ricardo explodiu. Não tem um filho cego. Você não sabe o que é essa responsabilidade. Gabriel assustou-se com o grito do pai.
A Maria ficou magoada, mas controlou-se. Tem razão, Senr. Ricardo. Peço desculpa. Maria, obrigado por cuidar do Gabriel hoje, mas prefiro que se concentre no trabalho de limpeza. Sim, senhor. Maria levantou-se para sair, mas Gabriel segurou-a pela mão. Maria, não vai embora. Preciso de trabalhar, Gabriel.
Mas voltas amanhã. Volto. Depois que Maria saiu, Ricardo sentou-se com Gabriel. Filho, não podes ficar dependente da Maria. Por quê? Porque ela é funcionária. Está aqui para trabalhar, não para cuidar de si. Mas ela gosta de mim. Eu sei que gosta, mas tem professores para tal. Os professores não são como a Maria.
Como assim? Eles tratam-me como se eu fosse doente. A A Maria trata-me como uma criança normal. O Ricardo ficou pensativo com a observação do filho. Nessa noite, a Maria chegou em casa mais triste do que o normal. Durante o jantar, a Ana apercebeu-se que a mãe estava quieta. Mãe, o que foi? Você brigou com alguém? Não briguei, filha.
Assim, por que está triste? Maria suspirou. É que o pai do menino cego não gosta que eu converse muito com ele. Por quê? Perguntou o João. Porque tem medo que eu meta-me onde não devo. Mas você só estava a ajudar, disse o Pedro. É, mas às vezes as pessoas não compreendem a nossa intenção.
Mãe, disse a Ana, porque é que não reza por eles? Eu rezo, mas reza na frente deles. Maria olhou surpreendida para a filha de 8 anos. Como assim? Na igreja, a professora de catequese disse que, por vezes, Deus usa a nossa oração para tocar o coração das pessoas. É verdade, concordou o João. Lembra-se quando ficou doente e rezámos juntos? Melhorou mais rápido.
A Maria ficou pensativa. Os filhos estavam a dar uma sugestão semelhante à do padre Miguel. Vocês acham que eu devia rezar à frente do pai do menino? Acho disse a Ana. Mas tem de ser uma oração de verdade, não fingida. E é como assim? Tem de ser do coração, pedindo a Deus para ajudar de verdade. A Maria sorriu.
Às vezes os filhos surpreendiam-na com a sabedoria. Na terça-feira, a Maria foi trabalhar com uma ideia na cabeça. Durante a manhã, soube que Gabriel se tinha sentido mal durante a noite. A Dona Conceição contou que teve pesadelos e acordou chorando. “O menino está abalado desde ontem”, disse a dona Conceição.
“Acho que a bronca do pai deixou-o nervoso. Onde ele está agora?” “No quarto. Não quis descer para tomar café. A Maria ficou preocupada, aproveitou que Ricardo tinha saído e subiu para ver Gabriel. Gabriel, posso entrar? Maria, és tu? Sou eu. Maria entrou e encontrou Gabriel ainda na cama, com cara de quem tinha chorado.
Que foi, meu amor? A Dona Conceição disse que se sentiu mal à noite. Tive pesadelos. Que tipo de pesadelos? Sonhei que estava sozinho numa casa escura e não conseguia encontrar ninguém. Maria sentou-se na cama ao lado dele. Que medo, não é? Foi horrível. Eu gritava e ninguém me ouvia. Mas foi só sonho. Não está sozinho.
Às vezes sinto-me sozinho mesmo quando há pessoas perto. Por quê? Porque as pessoas não me entendem. A Maria sentiu vontade de chorar. Gabriel, posso fazer uma coisa? O quê? Posso rezar por si para que Deus tire esses medos? Pode. A Maria se ajoelhou-se ao lado da cama. e começou a rezar, mas desta vez em voz alta, para que Gabriel ouvisse cada palavra.
Senhor Jesus, este menino precisa de ti. Ele está com medo, está a sentir-se sozinho. Gabriel escutou em silêncio. Deus, o O Gabriel é uma criança especial, inteligente, carinhosa. Ele merece ser feliz. Senhor, dá-lhe a coragem que necessita para enfrentar a cegueira. Gabriel começou a emocionar-se e Deus toca no coração do pai, ajuda-o a compreender que o Gabriel pode fazer muitas coisas.
Dá sabedoria a todos nós sabermos como ajudar e principalmente, Senhor, mostra ao Gabriel que tu nunca o abandona. Maria fez uma pausa e Gabriel sussurrou. Amém. Amém, respondeu Maria. Maria, como sabe que Deus me escuta? Porque ele escuta todas as crianças, sobretudo as que mais precisam. E acha que ele me pode ajudar a não ter mais medo? Tenho certeza.
E pode ajudar o meu pai a me compreender melhor? Pode. Gabriel sorriu pela primeira vez nessa manhã. Obrigado, Maria. Por quê? por me ensinar que Deus se preocupa comigo. Naquele momento, ouviram passos no corredor. O Ricardo tinha voltado mais cedo do trabalho porque estava preocupado com Gabriel. Gabriel, como está? Ele entrou no quarto.
Melhor, papá. O Ricardo viu a Maria ao lado da cama do filho. Maria, obrigado por estar cuidando dele. De nada, senor Ricardo. Gabriel, a dona Conceição, disse que o senhor teve pesadelos. Tive, mas a Maria rezou por mim e agora estou melhor. O Ricardo olhou para a Maria surpreendido. Rezou por ele? Maria ficou nervosa. Desculpe, senor Ricardo.
Sei que não era para me meter, mas não. Ricardo interrompeu-a. Não precisa de se desculpar. É que nunca ninguém tinha rezado por Gabriel antes. Como assim? Eu não sou religioso. Nunca pensei em oração como forma de ajudar. O Gabriel se animou. Papá, a Maria disse que Deus se importa comigo mesmo eu sendo cego.
Ricardo sentiu algo estranho no peito. É mesmo? É. E ela disse que Deus me pode dar coragem. O Ricardo olhou para a Maria. E acredita nisso? Acredito, Sr. Ricardo. Acredito que Deus tem um propósito para cada pessoa, mesmo para quem nasce com deficiência, especialmente para quem nasce com deficiência. Por quê? Porque estas pessoas ensinam o resto de nós sobre a superação, sobre força, sobre o que realmente importa na vida.
Ricardo ficou em silêncio durante um momento. Maria, posso fazer-te uma pergunta? Pode. Como aprendeu a lidar com a deficiência do seu filho? Com muita oração, muita paciência e, principalmente, aceitando que ele é diferente, mas não menos capaz. E deu certo. O meu Pedro hoje brinca, corre, vai à escola normal. A perna dele não o impede de nada. O Gabriel ficou entusiasmado.
Papá, eu também posso ir à escola normal? Ricardo hesitou. Não sei, filho. Por que não? Perguntou a Maria gentilmente. Porque tenho medo que ele sofra bullying, que seja rejeitado. Senr. Ricardo, posso dizer uma coisa? Pode. Gabriel vai enfrentar preconceito em algum momento da vida. É melhor que ele aprenda a lidar com isso agora, com o apoio da família, do que descobrir sozinho quando for adulto.
O Ricardo nunca tinha pensado dessa forma. Você tem razão. E outra coisa, continuou Maria, O Gabriel é uma criança muito inteligente. Ele precisa de desafios, de estímulos. Que tipo de estímulos? Música, desportos adaptados, atividades com outras crianças. Gabriel entusiasmou-se. O papá, posso aprender guitarra igual o senhor cego da Igreja da Maria? O Ricardo olhou surpreendido.
Que senhor cego? A Maria conhece um senhor cego que toca guitarra lindamente. O Ricardo olhou para a Maria. É verdade. É sim. O senhor Antônio é cego de nascença e toca guitarra maravilhosamente. E onde é que ele aprendeu? Na igreja mesmo. As pessoas da comunidade ensinaram. Ricardo ficou pensativo. Gabriel, gostaria mesmo de aprender música? Gostaria muito, papá.
Então vou pesquisar professores especializados. Gabriel saltou para a cama de alegria. A sério, papá? Sério? E a Maria? Obrigado pelas sugestões. De nada, senor Ricardo. Na verdade, queria perguntar-te uma coisa. O quê? Aceitavas ajudar-me com o Gabriel, não só no trabalho de casa, mas como conselheira? A Maria ficou surpreendida.
Eu? É, percebes dele de um jeito que eu não consigo. Senor Ricardo, não tenho estudo para tal. Mas tem experiência e, principalmente, tem fé. Gabriel entusiasmou-se. Maria, você aceita ser a minha segunda mãe? Gabriel, repreendeu o Ricardo. Não é bem assim. Mas ela pode ser a minha amiga especial. O Ricardo sorriu.
Pode ser sua amiga especial. Maria emocionou-se. Seria uma honra. A partir desse dia, a relação entre Ricardo, Gabriel e Maria mudou completamente. O Ricardo deixou de ver Maria apenas como funcionária e começou a valorizá-la como conselheira e amiga da família. Na semana seguinte, Ricardo contratou um professor de guitarra especializado no ensino de pessoas cegas.
O Gabriel ficou radiante. Maria, vens assistir à minha primeira aula? Claro que vou. A aula foi emocionante. O Gabriel tocou as primeiras notas no violão e ficou encantado com o som que ele mesmo produzia. Papá, consegui. Conseguiu, filho. Estou muito orgulhoso. Ricardo olhou para Maria com gratidão. Obrigado por terme aberto os olhos.
O senhor já tinha os olhos abertos, só precisava de coragem para os usar, mas nem tudo seriam rosas. Na Mansion, havia outras funcionárias que não gostaram da proximidade da Maria com a família, principalmente Lúcia, a governanta assistente de 45 anos, que trabalhava lá há 5 anos e sempre teve ciúmes da posição da dona Conceição.
Quem é que esta Maria pensa que é? Lúcia coxixava com as outras funcionárias. Chegou aqui há um mês e já está mandando na casa. E o patrão a dar moral para ela. Concordava Sandra, a cozinheira. Nunca vi isso. Ela está se aproveitando-se da situação do menino, continuou Lúcia, fazendo de conta que tem pena para se dar bem.
Dona A Conceição, que ouvia tudo, não gostou. Lúcia, está a ser injusta. A Maria é uma boa pessoa. Boa pessoa? Dona Conceição, abra os olhos. Ela está manipulando o patrão através do rapaz. Manipulando como? Fazendo de conta que é religiosa, que se preocupa com o Gabriel. Ela importa-se mesmo? Claro que não. As pessoas pobres têm sempre segunda intenção.
A Dona Conceição ficou irritada. Lúcia, para com este preconceito. O preconceito é realidade. Você vai ver. Logo ela vai pedir um aumento ou emprego para a família toda. As palavras de Lúcia começaram a plantar sementes de dúvida na mente das outras funcionárias. Enquanto isso, Maria continuava a trabalhar e a ajudar Gabriel sem saber das fofocas que corriam pela casa.
Uma manhã, o Gabriel acordou entusiasmado com uma ideia. Maria, posso mostrar-te uma coisa? Pode. Gabriel levou-a até ao piano que havia na sala de música da mansão. Aprendi a tocar isto ontem. Sentou-se ao piano e tocou uma melodia simples, mas bonita. Gabriel, que lindo. O professor disse que tem o ouvido musical. Tem mesmo.
Você é muito talentoso. Maria, posso ensinar-te a tocar também? Eu, Gabriel, não sei nenhuma nota musical. Eu ensino. É fácil. Durante a hora seguinte, Gabriel ensinou a Maria as notas básicas do piano. Ficou impressionada com a paciência e a didática do menino. “Você daria um ótimo professor”, disse ela. “Você acha?” “Tenho a certeza”.
Nesse momento, A Lúcia passou pela sala e viu a cena. Maria sentada ao piano caro, recebendo aulas do patrãozinho. “Aquilo foi a gota de água”. “Que absurdo”, murmurou. Agora ela está utilizando os instrumentos da família como se fosse dona da casa. À tarde, quando O Ricardo chegou do trabalho, a Lúcia o procurou.
Senhor Ricardo, posso falar com o senhor? Pode, Lúcia. Que foi? É sobre a Maria. Ricardo franziu o sobrolho. O que tem a Maria? Senhor, não quero falar mal de um colega de trabalho, mas estou preocupada. Preocupada com o quê? com o comportamento dela. Que comportamento? Lúcia hesitou, fingindo relutância. Hoje vi-a na sala de música usando o piano como se fosse dela.
Ela estava a tocar piano, estava e o Gabriel ensinando-a. Ricardo não viu problema nisso. E daí, senor Ricardo, com todo o respeito, acho que ela está a se aproveitando-se da bondade do senhor. Como assim? Ela chegou aqui há um mês como empregada de limpeza, agora já está a utilizar os instrumentos da casa, dando palpites na educação do Gabriel.
Os palpites dela têm sido muito bons. Mas, senhor, ela é só uma empregada doméstica, não tem qualificação para educar uma criança. O Ricardo começou a ficar irritado. Lúcia, a Maria tem-me ajudado muito com o Gabriel. Eu sei, senhor, mas não acha estranho ela ter aparecido precisamente agora, quando o Gabriel mais precisa de atenção? O que está a insinuar? Nada demais.
Só acho que ela pode ter segundas intenções. Que segundas intenções? Bem, ela é pobre, tem três filhos para sustentar. O senhor é viúvo, milionário? O Ricardo ficou chocado. Lúcia, está a sugerir que a Maria tem interesse romântico por mim? Não sei, senhor. Só acho prudente tomar cuidado. Cuidado com o quê? Com pessoas que se aproveitam da vulnerabilidade dos outros. O Ricardo ficou pensativo.
Será que a Maria tinha realmente segundas intenções? Ele nunca tinha pensado nisso. Lúcia, obrigado pela preocupação, mas acho que está a exagerar. Oxalá que eu esteja errada, senhor. Depois de Lúcia sair, Ricardo ficou incomodado. Será que ele estava a ser ingénuo? Será que Maria se importava com Gabriel ou estava apenas aproveitando-se da situação? Naquela noite, durante o jantar, Ricardo observou a Maria mais atentamente.
Ela ajudava o Gabriel a cortar a comida, conversava com ele sobre a aula de música. Parecia genuinamente interessada no bem-estar do menino. “Maria”, disse O Ricardo de repente. “Sim, senor Ricardo, posso fazer-te uma pergunta pessoal?” “Pode.” “Porque é que se importa tanto com o Gabriel?” A Maria ficou surpreendida com a pergunta.
“Como assim? Você não é obrigada a envolver-se tanto. A sua função é limpar a casa. É verdade. Assim, por que faz isso? Maria olhou para Gabriel, que ouvia tudo atentamente, porque quando o vejo, lembro-me dos meus filhos e penso como gostaria que alguém cuidasse deles se eu não pudesse. Só isso? E porquê? Porque o Gabriel é uma criança especial.
merece todo o amor do mundo. Gabriel sorriu. Eu também adoro tu, Maria. O Ricardo ficou a observar a interação entre os dois. Parecia genuína, mas a dúvida plantada por Lúcia continuava na mente dele. No dia seguinte, quinta-feira, aconteceu algo que mudaria tudo. A Maria estava a limpar o escritório de Ricardo quando encontrou uma pasta com documentos sobre Gabriel.
Eram relatórios médicos, exames, pareceres de especialistas. Curiosa, ela abriu a pasta e começou a ler. Os documentos datavam dos primeiros anos de vida de Gabriel. Havia um relatório que chamou a sua atenção. Paciente Gabriel Almeida, 8 anos cegueira congénita, criança com potencial de desenvolvimento normal, desde que estimulada adequadamente.
Recomenda-se a integração social, atividades musicais e desportivas adaptadas. A Maria continuou a ler. O relatório tinha três anos e recomendava exatamente as coisas que ela tinha sugerido para o Ricardo: música, socialização, independência. “Por que razão o O Senor Ricardo nunca seguiu estas recomendações?”, pensou ela. Continuou leitura e encontrou a resposta noutro documento.
Era uma carta de uma psicóloga. Senhor Almeida, entendo a sua dor pela perda da esposa e o seu preocupação com o Gabriel, mas a super proteção não está a ajudar o seu filho. Ele precisa de desafios, de contacto com outras crianças, de oportunidades para desenvolver a sua independência. A Maria entendeu tudo.
O Ricardo não estava protegendo Gabriel por maldade, mas por medo e tristeza. A morte da esposa o tinha deixado aterrorizado com a possibilidade de perder o filho também. Nesse momento, a porta do escritório abriu-se e Ricardo entrou. Maria, o que está a fazer aí? A Maria assustou-se e tentou fechar a pasta rapidamente. Desculpe, Sr.
Ricardo, estava a limpar e a pasta caiu. Os papéis espalharam-se. Ricardo viu que ela estava a mentir. Maria, estava a ler os documentos do Gabriel. Senor Ricardo, posso explicar? Não pode nada. Você violou a minha privacidade. Não foi por mal, juro. Não foi por mal, Maria. Estes são documentos pessoais da minha família. Gabriel, que estava no andar de cima, ouviu os gritos e desceu.
Papá, por que está a discutir com a Maria? Gabriel regressa ao seu quarto. Mas pai, vai para o quarto. O Gabriel subiu triste e assustado. Maria, continuou Ricardo furioso. Isto é inaceitável. Senor Ricardo, deixe-me explicar. Não há nada a explicar. Você abusou da a minha confiança, mas só queria entender.
Perceber o quê? Porque o senhor nunca seguiu as recomendações dos médicos. O Ricardo ficou ainda mais zangado. Como se atreve a questionar-me? Não estou questionando. Só quero ajudar. Ajudar? Maria? Você é empregada de limpeza, não é psicóloga, não é médica. Mas eu, tu nada. Cansei-me dessa situação. Senhor Ricardo, está despedida.
A Maria sentiu o mundo desabar. Demitida. Isso mesmo. Pegue nas suas coisas e vá embora. Mas e o Gabriel? O Gabriel é problema meu, não teu. Senr. Ricardo, por favor. Não há. Por favor, você passou dos limites. A Maria sabia que tinha errado, mas tentou uma última vez. Posso pelo menos despedir-me do Gabriel? Não é melhor ir embora agora.
Mas vai sofrer. Ele vai compreender que algumas pessoas não são de confiança. A frase foi como uma bofetada na cara de Maria. Senr. Ricardo, eu sou de confiança. Só cometi um erro. Um erro que mostra quem você realmente é. Eu sou alguém que se importa com o seu filho. Você é alguém que aproveita-se da situação dos outros.
A Maria começou a chorar. Isto não é verdade. A Lúcia tinha razão sobre si. Lúcia, o que é que ela disse? Que estava aproveitando-se da nossa vulnerabilidade. Maria entendeu que tinha sido vítima de uma armação, mas já era tarde demais. Senor Ricardo, a Lúcia está a mentir. E você está a dizer a verdade? Estou.
Eu amo o Gabriel como se fosse meu filho. Então, porque violou a nossa privacidade? Maria não tinha resposta. Tinha mesmo errado, movida pela preocupação, mas errado. Senr. Ricardo, dá-me mais uma chance. Não, pegue nas suas coisas e vá-se embora. A Maria subiu para pegar na sua mochila. No corredor encontrou Gabriel sentado no chão, a chorar.
Gabriel, Maria, é verdade que vais embora? É verdade. Por quê? Porque fiz uma coisa errada. Que coisa? Li uns papéis do seu pai sem autorização. Só isso. Só isso. Mas foi grave. O Gabriel se levantou-se e abraçou-a. Eu perdoo-te. Obrigada, meu amor. Maria, voltas? Não sei. Mas vou sentir a sua falta. Eu também vou sentir a sua.
Maria, posso te pedir uma coisa? Pode. Reza por mim todo o dia e não se esquece de mim. Jamais vou esquecer-te. Gabriel abraçou-a forte e começou a chorar. Eu amo-te, Maria. Eu também te amo, Gabriel. Muito. Maria desceu as escadas de coração partido. À porta de saída encontrou a dona Conceição.
Menina, o que aconteceu? Por que está a chorar? Fui despedida, dona Conceição. Despedida porquê? Fiz uma asneira. Que disparate. Li uns documentos do Gabriel sem autorização. A Dona Conceição ficou surpreendida. Só isso? Só isso? Mas por que razão o fez? Porque queria perceber porque é que o Gabriel não tinha a vida que podia ter.
Dona Conceição abanou a cabeça. Menina, meteu-se onde não devia. Eu sei, mas foi por amor ao Gabriel. Eu sei que foi, mas o Senr. O Ricardo está muito hurt. E agora, o que vai ser do Gabriel? Não sei. Só sei que ele vai sofrer muito sem ti. Maria saiu da mansão a chorar no portão, olhou para trás uma última vez e viu Gabriel à janela do quarto, acenando tristemente.
Durante a semana seguinte, a vida na mansão mudou drasticamente. Gabriel voltou a ficar apático, triste, recusava-se a tocar guitarra ou piano. “Gabriel, o que foi?”, perguntava o Ricardo. “Porque é que não quer mais tocar música?” Não tenho vontade. Mas estavas a ir tão bem. Era porque a Maria estava aqui. Gabriel, é preciso aprender a não depender das pessoas, mas sinto a falta dela.
Vai passar. Mas não passava. O Gabriel parecia ter regredido. Voltou a ter medo de andar sozinho pela casa. Voltou a ter pesadelos. Ricardo começou a questionar se não tinha sido demasiado duro com Maria. Afinal, ela só tinha lido os documentos, não tinha roubado nem partido nada. No domingo, uma semana após a demissão de Maria, Gabriel estava particularmente triste.
Papá, posso te perguntar uma coisa? Pode, filho. Você acha que a Maria está bem? Por que pergunta isso? Porque estou preocupado com ela. Ricardo ficou sensibilizado com a preocupação do filho. Tenho a certeza que ela está bem. Mas ela era pobre e agora não tem emprego. Gabriel, isto não é responsabilidade nossa.
Por que não? Porque ela que escolheu fazer coisa errada. Gabriel ficou pensativo. O papá, posso contar-te um segredo? Pode. Eu li os seus documentos médicos uma vez. O Ricardo ficou surpreendido. Quando? Mês passado. Quando deixou a pasta aberta no escritório. E o que viu? Vi que os médicos o mandaram me colocar na escola.
O Ricardo ficou sem jeito. Gabriel, porque é que nunca me colocou? Porque tenho medo que você sofra. Mas eu já sofro aqui em casa. Como assim? Sofro de solidão. A resposta de Gabriel foi como um murro no estômago do Ricardo. Sente-se sozinho às vezes mesmo comigo aqui? Papá, você me adora, mas não brinca comigo. Não conversa comigo como a Maria conversava.
Como ela conversava, como se eu fosse uma criança normal. Ricardo começou a compreender que talvez tivesse cometido um erro maior do que imaginava. Gabriel, queres que eu trazer a Maria de volta? O Gabriel se animou. Você faria isso se quiser muito. Quero. Quero muito. Então vou pensar. Mas pensar era uma coisa, encontrar Maria era outra.
Ricardo percebeu que nem sabia onde ela morava. Chamou a dona Conceição. Conceição, sabe o endereço da Maria? Sei sim, senhor. Pode dar-me? Posso, mas posso perguntar porquê? Estou a pensar em recontratá-la. Dona A Conceição sorriu. Ainda bem, senhor. O menino Gabriel não é o mesmo sem ela. Eu sei.
No domingo à tarde, o Ricardo decidiu visitar Maria, pegou no carro e foi até ao morada que a dona Conceição havia dado. Era uma casa pequena e simples numa rua de terra. Ricardo estacionou e bateu no porta. “Quem é?”, perguntou uma voz feminina. “É o Ricardo Almeida. A porta está abriu e a Maria apareceu surpreendida. Senr. Ricardo. Olá, Maria.
Posso entrar? Pode sim. A casa era bastante pequena, mas limpa e organizada. Havia três crianças a brincar na sala. Estes são os seus filhos? São João, Ana e Pedro. As crianças olharam curiosas para o homem bem vestido. Maria, vim pedir-te desculpas. Desculpas porquê? Por terte despedido de forma tão dura. O senhor não precisa de pedir desculpa. Eu que errei.
Falhou, mas não merecia ser tratada daquele jeito. A Maria ofereceu uma cadeira para ele. Como está o Gabriel? Mal. Muito mal. Por quê? Voltou a ficar como era antes de chegares, triste, sem vontade de fazer nada. Que pena. Maria, posso fazer-te um pedido? Pode. Volta a trabalhar em minha casa. Maria ficou surpreendida.
Voltar? É, Gabriel precisa de si, Senr. Ricardo, eu violei a sua privacidade e violei a sua dignidade. Estamos quites. Maria hesitou. E se voltar a errar? Todos erramos. O importante é aprender com os erros. O senhor tem a certeza? Tenho. Na verdade, não quero que voltes só como empregada de limpeza. Como assim? Quero que seja oficialmente responsável pelo cuidado do Gabriel.
Sério? Sério? Com salário de uma ama especializada, Maria se emocionou. Senr. Ricardo, e tem mais uma coisa. O quê? Li os relatórios médicos do Gabriel com mais atenção. E você estava certa. Ele precisa de ir para a escola. Precisa de socializar. O senhor vai colocá-lo na escola? Vou e quero que que me ajude a escolher a melhor escola.
A Maria começou a chorar de emoção. Claro que ajudo. Então você aceita voltar? Aceito. Ótimo. Pode começar amanhã. Posso. Naquele momento, Ana, a filha de Maria, aproximou-se. Mãe, este é o pai do menino cego? É sim, filha. O menino está melhor. O Ricardo se surpreendeu com a pergunta. Não, ele está triste.
Porque é que a mãe foi embora, Ana? Repreendeu Maria. Não faça perguntas indiscretas. Não há problema, disse Ricardo. Ele está triste porque sente falta da sua mãe. Tal como eu fico quando a mãe sai para trabalhar, igual. Então ele precisa da minha mãe para ser feliz. Precisa. Ana sorriu. Então está bom. Ela pode cuidar dele.
Ricardo ficou sensibilizado com a generosidade da menina. Obrigado por emprestar a sua mãe. De nada. Mas ela tem que voltar todos os dias para casa. Vai voltar sim. Na segunda-feira, Maria regressou à mansão. O Gabriel estava no quarto quando ouviu a voz dela lá embaixo. Maria! Ele gritou, descendo as escadas a correr.
Gabriel! Ela abraçou-o forte. Você voltou. Voltei para ficar. O papá disse que agora vais cuidar de mim oficialmente. É verdade. E disse que vou para na escola. E quer ir? Quero. Vou conhecer outras crianças? Vai sim. O Gabriel dançou de alegria. Finalmente vou ter amigos. Ricardo observava a cena emocionado.
Tinha tomado a decisão certa. Durante as semanas seguintes, A Maria e o Ricardo trabalharam juntos para escolher a melhor escola para o Gabriel. Visitaram três instituições especializadas e uma escola regular que tinha um programa de inclusão. “O que é que acha desta?”, perguntou Ricardo durante a visita à escola regular. Acho ótima.
As crianças parecem recetivas. Os os professores são preparados. E Gabriel, o que acha? Gabriel, que tinha sido apresentado a algumas crianças da sua idade, estava radiante. Gostei muito, papá. As crianças trataram-me normal. Normal como? Fizeram perguntas sobre a cegueira, mas sem pena, apenas curiosidade.
E você gostou disso? Gostei. É melhor que fingir que vejo. A decisão estava tomada. Gabriel estudaria na escola regular. No primeiro dia de aulas, Maria acompanhou-o. Está nervoso? Ela perguntou no carro. Um pouco. É normal. Eu também fico nervosa em sítios novos. Maria, e se não conseguir acompanhar as aulas? Vai conseguir.
Você é muito inteligente. E se as crianças não gostarem de mim? Vão gostar. Você é carinhoso e engraçado. E se me perder na escola? No início vou junto. Depois aprende o caminho. Gabriel respirou fundo. Vamos lá, então. A primeira semana foi de adaptação. Gabriel teve de aprender a se locomover pela escola, conhecer os professores, compreender a rotina, mas ele saiu-se melhor do que esperavam.
“Como foi hoje?”, perguntava Ricardo todos os dias. “Foi ótimo. Fiz amigos”. Que tipo de amigos? O Carlos ensinou-me a jogar dominó. A Beatriz emprestou-me um livro em Brail. O Rafael disse que quer aprender a tocar guitarra comigo. Ricardo ficava emocionado ao ver a felicidade do filho.
Um mês depois do início das aulas aconteceu algo inesperado. Gabriel chegou a casa chorando. Gabriel, que foi? Maria correu para o consolar. Um menino da outra turma disse que eu sou anormal. Que menino? O Bruno. Ele disse que um cego não devia estudar numa escola normal. O Ricardo ficou furioso. Vou falar com a diretora. Não, papá, disse Gabriel. Eu resolvi.
Como resolveu? Disse-lhe que ser cego é igual a ter cabelo loiro. É apenas uma característica. E ele percebeu? Não. Mas a professora o viu e deu-lhe um raspanete. E agora? Agora ele deixa-me em paz. A Maria sorriu orgulhosa. Defendeu-se sozinho. Aprendi contigo. Lembra-se que disse que um dia ia ter de enfrentar preconceito? Lembro-me. Pois é, enfrentei e sobrevivi.
O Ricardo ficou impressionado com a maturidade do filho. Três meses após o regresso de Maria, a vida da família estava completamente transformada. O Gabriel era uma criança feliz, independente, tinha amigos na escola e passatempos em casa. Numa tarde de domingo, o Ricardo chamou Maria para conversar.
Maria, quero-te agradecer. Agradecer porquê? Por ter devolvido o meu filho para mim. Como assim? O Gabriel era um menino triste e limitado. Agora é uma criança normal e feliz. Ele sempre foi normal, Sr. Ricardo. Só precisava de oportunidades. E ensinou-me isso? Não ensinei nada. Só abri os olhos do Senhor para o que já existia. O Ricardo ficou pensativo.
Maria, posso dizer-te uma coisa? Pode. Quando a minha mulher morreu, fiquei com tanto medo de perder também o Gabriel, que acabei por o aprisionar. O Senhor estava protegendo-o, estava a sufocá-lo, mas reconheceu o erro e alterou. Com a sua ajuda, com a graça de Deus, Ricardo sorriu.
Dá sempre crédito a Deus, porque é ele que faz tudo acontecer. Acredita mesmo que foi Deus que trouxe-te para a nossa família? Acredito. Por quê? Porque só Deus sabia que vocês precisavam de mim e eu precisava de vocês. Como precisava de nós, senhor Ricardo? Quando comecei a trabalhar aqui, estava desesperada. Precisava de dinheiro.
Estava com medo de não conseguir sustentar os meus filhos. E agora? Agora tenho um emprego estável, bom salário e, principalmente, tenho uma família que me trata com respeito. Maria, faz parte desta família? Sério? Sério. O Gabriel ama-te como mãe e respeito-te como irmã. A Maria se emocionou. Obrigada, Senr. Ricardo.
Pode chamar-me só Ricardo. Não sei se fica bem. Fica. Somos família agora. Seis meses depois, Gabriel estava a se apresentando-se no recital de final de ano da escola. Ele tocaria guitarra e cantaria uma música que tinha composto. “Está nervoso?”, perguntou Maria no camarim improvisado. “Um pouco. É normal. Mas vai sair-se muito bem.
Maria, posso dizer-te uma coisa?” Pode. Dediquei a música a ti. Para mim? É. Chama Anjo da Guarda. Maria começou a chorar. Gabriel, não chores. É uma música alegre. Estou a chorar de alegria. Quer ouvir antes da apresentação? Quero. O Gabriel pegou no guitarra e começou a tocar. Tinha um menino que vivia na escuridão.
Não sabia que podia voar. Até que chegou um anjo do coração para lhe ensinar a sonhar. Maria, Maria, anjo da guarda, que me ensinou a ver com os olhos do coração e ensinou-me a voar. Maria chorava sem parar. Ricardo, que havia chegado e escutado tudo, também estava emocionado. “Gabriel, que música tão bonita”, disse o Ricardo.
“Gostaste, papá? Adorei e tenho a certeza que a tua mãe lá no céu também está orgulhosa. E a Maria aqui na terra também está, completou Gabriel sorrindo. A apresentação foi um sucesso. Gabriel tocou e cantou com uma naturalidade impressionante. Toda a plateia emocionou-se. Depois do recital, várias pessoas se aproximaram para cumprimentar.
“Parabéns”, disse uma senhora. O seu filho é muito talentoso. Obrigado, respondeu o Ricardo. Mas o mérito não é só dele. Como assim? O Ricardo olhou para a Maria. É dela também. A Maria ensinou o meu filho a acreditar em si mesmo. É a mãe? Não, disse Maria. Sou sou a segunda mãe. Segunda mãe? É, explicou Gabriel. A primeira mãe deu-me a vida, a segunda ensinou-me a viver.
Todos ficaram emocionados com a resposta. No regresso a casa, no carro, O Gabriel disse: “Papá, hoje foi o melhor dia da minha vida. Por quê? Porque mostrei a toda a gente que cego também pode ser artista. E que mais? E porque tenho uma família que me ama? Que família? Tu, a Maria, e lá no céu, a minha mãe.
” Ricardo olhou pelo retrovisor e viu Maria a limpar os olhos. Maria, obrigado”, disse ele, “Por quê?” “Por me ensinar que os milagres existem.” “Os milagres existem quando a gente acredita neles”, respondeu Maria. Um ano depois, Gabriel estava irreconhecível. Tocava guitarra profissionalmente, tinha vários amigos na escola, participava em atividades desportivas adaptadas e era uma das crianças mais populares da turma.
Mas o maior milagre ainda estava por vir. Numa manhã de terça-feira, O Ricardo recebeu uma chamada que mudaria tudo para sempre. Senhor Almeida, aqui é Doutor Fernando Silva, do Instituto de Oftalmologia de São Paulo. Pois não, doutor. Senhor, temos uma novidade sobre o caso do seu filho, Gabriel. Ricardo sentiu o coração acelerar.
Que tipo de novidade? Surgiu uma nova técnica cirúrgica experimental para casos como o do Gabriel. A possibilidade de recuperação parcial da visão. Ricardo quase deixou cair o telefone. Como assim, doutor? É uma cirurgia complexa, ainda em fase de testes, mas os resultados têm sido promissores em crianças com o mesmo tipo de cegueira congénita do Gabriel.
E qual seria o percentagem de sucesso? 40% de hipóteses de recuperar pelo menos parte da visão. 20% de hipótese de recuperação quase total. Ricardo não conseguia acreditar no que estava a ouvir. E os riscos são mínimos. Na pior das hipóteses, Gabriel continuaria como está hoje. Doutor, preciso de falar com o meu filho antes de decidir. Claro.
Mas, senhor, há uma questão importante. Qual? A cirurgia necessita de ser feita no máximo em dois meses. Depois dessa idade, o nervo óptico já não responde ao tratamento. Ricardo desligou o telefone em choque, subiu a correr para o quarto de Gabriel, onde o encontrou a estudar Braile com Maria. Gabriel, preciso de falar contigo.
Que foi, papá? Parece nervoso. Um médico ligou. Há uma cirurgia nova que pode fazer ver. Gabriel parou de ler. Enxergar? É uma possibilidade, não é uma certeza. E quer que eu faça? Ricardo hesitou. Quero que decida. Gabriel ficou em silêncio durante um longo tempo. Maria, o que achas? Maria estava demasiado emocionada para falar.
Não sei, Gabriel. É uma decisão muito importante. Papá, se eu fizer a cirurgia e não resultar, vou continuar como estou? Sim. E se correr bem? Você pode voltar a ver pelo menos parcialmente. Gabriel pensou mais um pouco. Posso perguntar uma coisa estranha? Pode. Se voltar a ver, vocês vão continuar a amar-me igual.
Ricardo e Maria entreolharam-se emocionados. Gabriel disse Ricardo, amamos-te pela pessoa que é, não pela sua visão. E Maria, também vais continuar a ser a minha segunda mãe? Sempre, meu amor, para sempre. Gabriel sorriu. Então, quero fazer a cirurgia. Tem a certeza? Tenho, mas não porque sou infeliz sendo cego.
Então, porquê? Porque quero ver o rosto das pessoas que amo. A Maria começou a chorar. Gabriel, quero ver como é o sorriso da Maria. Quero ver como são os olhos do papá. E se não conseguir ver, aí Continuo feliz como estou, porque já sei como é o vosso coração. A preparação para a cirurgia demorou um mês. O Gabriel fez vários exames, falou com psicólogos, preparou-se emocionalmente para ambas as possibilidades.
Está com medo? Perguntou a Maria na véspera da cirurgia. Um pouco de quê? E se eu ver e o mundo for muito diferente do que imagino? Como assim? E se as cores não forem como imagino? E se as pessoas não forem como eu imagino? Gabriel, o mundo pode ser diferente, mas não vai ser pior. Como sabe? Porque já conhece a parte mais importante do mundo. Que parte? O amor.
E amor você pode sentir com qualquer sentido. Na manhã da cirurgia, toda a família estava nervosa. Os filhos de Maria também vieram dar apoio. “Tio Gabriel”, disse Ana, a filha de Maria. “Você é corajoso. Por quê? Porque não tem medo de tentar.” Às vezes tenho medo, mas mesmo assim você tenta. Isto é ser corajoso. A cirurgia durou 6 horas.
Ricardo e Maria passaram esse tempo na capela do hospital rezando juntos. Senhor, orava Maria, se for da sua vontade, devolve a visão ao Gabriel, mas se não for, dá-lhe força aceitar e dá sabedoria para nós continuarmos a ser bons pais para ele”, complementou o Ricardo. Quando o Dr. Fernando saiu da sala de operações, todos apressaram-se a saber o resultado.
“A cirurgia foi tecnicamente perfeita”, disse o médico. “Agora precisamos aguardar. Quanto tempo?” Duas semanas com os olhos vendados. Depois retiramos as ligaduras e vemos o resultado. Foram as duas semanas mais longas da vida de todos. O Gabriel ficou em casa, sendo cuidado por Maria 24 horas por dia.
Maria, acha que vai dar certo? Não sei, meu amor, mas sei que vai ficar bem de qualquer jeito. Como tem tanta certeza? Porque é forte, porque tem uma família que te ama e porque Deus cuida de si. E se eu vir e não souber o que fazer? Depois ensinamos devagar, com paciência. Igual ao que me ensinou a viver sendo cego. Igual.
No dia de retirar as ligaduras, toda a família estava presente. O Dr. Fernando começou a desfazer o penso lentamente. Gabriel, Vou retirar a última camada. Mantenha os olhos fechados até eu falar. Está bem. O médico terminou de retirar as ligaduras. Agora abra os olhos lentamente. Gabriel abriu os olhos lentamente. Primeiro piscou várias vezes, como se estivesse a habituar-se.
“Gabriel, disse o médico. O que está a ver?” Gabriel ficou em silêncio por um momento que pareceu uma eternidade. Eu estou a ver vultos. Que tipo de vultos? Pessoas. Há gente aqui. O médico sorriu. A cirurgia correu bem. Recuperou parte da visão. Gabriel virou o rosto na direção da voz de Maria.
Maria, onde estás? Estou aqui, meu amor. Gabriel localizou-a e ficou a olhar fixamente. Você é ainda mais bonita do que imaginava. A Maria chorou. Está a ver-me? Estou. Não, claramente, mas estou a ver-te. Gabriel virou-se para Ricardo. O papá, os teus olhos são iguais aos meus. Iguais? Que giro. Somos parecidos mesmo. Durante as semanas seguintes, a visão de O Gabriel foi melhorando gradualmente.
Ele não recuperou 100% da visão, mas conseguia ver o suficiente para reconhecer as pessoas, as cores, as formas. “É estranho,” disse a Maria uma tarde, “O que é estranho? Durante 8 anos, imaginei como era o mundo. Agora estou a ver que é muito parecido com o que imaginava. Como assim? Você é exatamente como eu pensava que era.
Carinhosa, bonita, com um sorriso doce. E o seu pai? Também forte, protetor, com olhos gentis. E o mundo, o mundo é colorido e bonito, mas não é mais bonito que o mundo que existia no meu coração. Seis meses após a cirurgia, Gabriel já estava totalmente adaptado à visão parcial. Continuava na mesma escola, continuava tocando guitarra, mas agora podia ver os amigos e professores.
Gabriel, perguntou uma professora. Qual a maior diferença entre viver sem ver e viver enxergando? O Gabriel pensou cuidadosamente antes de responder. Quando não via, via com o coração. Agora vejo com os olhos também. Mas o mais importante continua a ser o coração. Por quê? Porque com os olhos eu vejo apenas a aparência das pessoas.
Com o coração vejo quem elas realmente são. A professora ficou impressionada com a resposta. Um ano e meio após a cirurgia, Gabriel fez a sua primeira apresentação musical. onde podia ver a plateia. Tocou o violão e cantou uma música nova que tinha composto especialmente para a ocasião. “Esta música é sobre gratidão”, anunciou para o público.
“Gratidão por todas as pessoas que me ajudaram a chegar até aqui.” E começou a cantar. Eu era um menino que vivia na escuridão, mas nunca estive realmente sozinho. Tinha um pai que me dava proteção e uma segunda mãe que me mostrou o caminho. Maria. Maria. Anjo da terra que me ensinou a sonhar, mesmo sem poder ver, ensinou-me a ver o papá querido que nunca desistiu, mesmo quando o medo falava mais alto.
E hoje que os meus olhos se abriram, vejo o quanto o seu amor é grande. Obrigado, família, por acreditarem em mim. Obrigado, Deus, por não me abandonar. E se um dia puder escolher de novo, escolho-vos para me acompanhar. Não havia uma pessoa na plateia que não estivesse a chorar. Maria e Ricardo abraçavam-se, orgulhosos do filho que tinham ajudado a criar.
Depois da apresentação, uma jornalista aproximou-se para entrevistar Gabriel. Gabriel, qual foi o maior ensinamento que retirou de toda esta experiência? Gabriel pensou por um momento. Aprendi que existem dois tipos de cegueira. Quais? A cegueira dos olhos e a cegueira do coração.
E qual é pior? A cegueira do coração. Porque quem não vê com os olhos pode utilizar outros sentidos, mas quem não vê com o coração não consegue amar nem ser amado. E como se cura a cegueira do coração? Gabriel olhou para Maria e Ricardo com pessoas que te amam verdadeiramente e com fé. Fé em quê? Fé em Deus? Fé na vida. Fé que há sempre esperança.
A jornalista se emocionou. Gabriel, tem algum aconselhamento para outras crianças que passam por dificuldades? Tenho. Nunca desistam. E lembrem-se que às vezes os nossos maiores problemas se transformam nos nossos maiores presentes. Como assim? Se eu não fosse cego, nunca teria conhecido a Maria. Se não tivesse conhecido a Maria, nunca teria aprendido a ter fé.
Se não tivesse fé, nunca teria tido coragem para fazer a cirurgia. Então, está grato por ter nascido cego? Gabriel sorriu. Sou grato por tudo o que vivi. As dificuldades me fizeram crescer, as pessoas boas fizeram-me fizeram-no feliz e Deus deu-me uma família perfeita. 5 anos depois, Gabriel, agora com 13 anos, era um adolescente normal e feliz.
Tocava numa banda na escola, tinha uma namoradinha, sonhava ser músico profissional. Maria continuava trabalhando em casa dos Almeida, mas agora como coordenadora doméstica e segunda mãe oficial de Gabriel. Seus três filhos estudavam em escolas particulares pagos por Ricardo, que os considerava os seus entiados. “Maria”, disse o Ricardo numa tarde de domingo.
“Posso fazer-te uma pergunta?” Pode. Arrepende-se de alguma coisa nesses anos todos? A Maria pensou cuidadosamente. Arrependo-me de ter lido os seus documentos sem permissão. Só isso. Só isso. Todo o resto foi perfeito. Mesmo quando eu te despedi, mesmo quando me despediu, porque me fez valorizar ainda mais quando regressei.
Maria, posso contar-te um segredo? Pode. Quando chegou aqui, eu era um homem amargurado. Vivia revoltado com Deus por ter feito o meu filho cego. E agora? Agora agradeço a Deus todos os dias. Por quê? Porque se Gabriel não fosse cego, nunca teria entrado na nossa vida. E se eu não tivesse entrado? Gabriel continuaria ser uma criança triste e limitada.
E continuaria a ser um pai super protetor e frustrado. Deus tem planos que nós não compreendemos, disse a Maria. Sempre soube que O Gabriel iria ver? Não sabia, mas sempre acreditei que ele seria feliz. Com ou sem visão? Com ou sem visão? Nesse momento, o Gabriel chegou da escola com uma novidade. Pai, Maria, Tenho uma coisa para vos contar.
O que foi? Perguntaram os dois. Fui selecionado para tocar no festival de música da cidade. “A sério”, disse Ricardo. “Que orgulho! E há mais”, continuou Gabriel. “Vou tocar a música que compus sobre nossa família”. “Que música? Milagres existem. É sobre como vocês mudaram minha vida”. Maria emocionou-se. Gabriel, Maria, sempre disseste que os milagres existem quando acreditamos neles.
E acredita? Acredito porque vivi um milagre. Qual milagre? O milagre de ter uma família que me ama exatamente como eu sou. E a visão? Não foi nenhum milagre. Gabriel pensou. A visão foi uma dádiva, mas o maior milagre foi conhecer-vos dois. Por quê? Porque vocês ensinaram-me que o amor não precisa de olhos para ser visto. Ricardo abraçou o filho e Maria.
Somos uma família abençoada. Somos concordou a Maria. Deus juntou três pessoas que precisavam umas das outras e criou uma família perfeita completou Gabriel. Nessa noite depois do jantar, os três sentaram-se no jardim para conversar como faziam todos os domingos. Gabriel disse Maria, quando cresceres e ter a sua própria família, vai lembrar-se de nós? Vou lembrar-vos todos os dias e vai ensinar os seus filhos sobre a fé.
Vou contar-lhe sobre a empregada de limpeza que mudou a vida de um menino cego e sobre o pai que aprendeu a deixar o filho voar”, acrescentou Ricardo. Gabriel sorriu. E sobre um deus que usa pessoas simples para fazer milagres extraordinários. “Que milagres?”, perguntou Maria. O milagre do amor, o milagre da família, o milagre da esperança.
E você, o que vai ser quando crescer? Perguntou o Ricardo. Vou ser músico, mas não só. O que mais? Vou ser uma pessoa que ajuda outras pessoas a acreditar em milagres. Como? Contando a minha história, mostrando que problemas se podem transformar em bênçãos. E se perguntarem qual foi o maior milagre da sua vida? Gabriel olhou para Ricardo e Maria.
Vou dizer que foi ganhar dois pais no lugar de um. Dois pais? Perguntou o Ricardo. Um pai do sangue? Gabriel apontou para Ricardo e uma mãe do coração apontou para Maria. A Maria começou a chorar. Gabriel, Maria, obrigado por ter rezado por mim naquele primeiro dia. Como sabe que eu rezei? Porque reza sempre e as suas as orações são sempre atendidas.
Nem sempre. Sempre. Às vezes Deus responde sim, às vezes responde que não. Às vezes responde espera, mas responde sempre. E qual foi a resposta às suas orações sobre mim? Gabriel sorriu. A resposta foi você. Eu? Foste a resposta de Deus para todas as minhas orações. Precisava de uma mãe. Ele mandou-o. Precisava de amor, ele mandou-te a ti.
Precisava de fé, ele mandou-o a si. E agora? Ainda precisa de mim? Agora preciso de ti para sempre. Não como criança que necessita de cuidados, mas como um filho que precisa de amor. Sempre vai ter o meu amor, disse a Maria. E o meu também, disse o Ricardo. O Gabriel se levantou-se e abraçou os dois. Então estamos combinados.
Somos família para sempre, para sempre, confirmaram Ricardo e Maria. E assim, naquele jardim iluminado pelas estrelas, três pessoas que o destino tinha unido celebraram o maior milagre de todos, o milagre do amor verdadeiro. Porque às vezes Deus utiliza uma simples fachineira que reza com o coração para curar não só a cegueira dos olhos, mas também a cegueira da alma.
E quando este acontece, toda uma família é abençoada para sempre. Fim. Gostou desta história? Achou que a fé da Maria fez realmente a diferença na vida do Gabriel? Me conta nos comentários qual foi a parte que mais te emocionou. M.















