MILIONÁRIO FLAGRA BABÁ POBRE CUIDANDO DO FILHO AUTISTA — E TOMA ATITUDE CHOCANTE! 

Eram 2as da tarde de quinta-feira. Marcela Santos empurra o carrinho de limpeza pelos corredores da mansão dos Carvalho, tentando fazer barulho. Há três semanas a trabalhar nesta casa, ela ainda não se habituou ao silêncio pesado que paira sobretudo. Aos 28 anos, mãos calejadas de tanto trabalho, Marcela perdeu o emprego anterior quando a família mudou-se para o estrangeiro.

Agora, como mãe solteira de uma menina de 6 anos, necessita deste trabalho mais que tudo. O grito agudo que vem do andar de cima corta o silêncio como uma lâmina. É um som que ela já ouviu várias vezes, mas que ainda faz o seu coração apertar. É o menino Thomas, de 8 anos, filho de Eduardo Carvalho, um dos empresários mais ricos da cidade.

 Não, não, não. O grito repete-se cada vez mais desesperado. Marcela para de limpar e olha para o teto. Lá em cima, Tomás está a ter mais uma crise. Nos últimos dias, isto acontece sempre que alguém tenta cortar-lhe o cabelo. Eduardo Carvalho aparece no corredor, os passos rápidos ecoando pelo mármore. Aos 35 anos, empresário milionário, parece ter envelhecido anos nas últimas semanas.

 O cabelo despenteado, a camisa amarrotada, olheiras profundas. Desde que a esposa morreu num acidente há seis meses, o Eduardo já não consegue lidar com o Thomas. Sónia! Ele grita para a ama, que vem a correr das escadas. Sónia Mendes, 45 anos, especialista em crianças especiais, foi contratada há dois meses. Com 15 anos de experiência, ela deverá ser a solução para os problemas do Thomas, mas não está a ser.

Senor Eduardo, ele não quer de jeito nenhum. Sónia fala ofegante. Já tentei de tudo. Mostrei vídeos, expliquei, prometi recompensas. Sónia, há uma semana que a escola está reclamando. Dizem que ele não pode ficar assim. O Thomas tem autismo. Para ele, alterar a rotina é traumático. Cortar o cabelo é uma alteração que o seu cérebro não aceita facilmente.

 Desde que a mãe morreu, que era quem lhe cortava sempre o cabelo, já ninguém consegue tocar nele. “Talvez se trouxéssemos um profissional especializado,” Sónia sugere. Já trouxemos três. Todos saíram a correr quando ele começou a gritar. Marcela ouve a conversa do andar de baixo, o coração apertado. Ela conhece aquele desespero.

 A sua própria filha, A Sofia tem TH. Não é autismo, mas ela sabe como é difícil lidar com uma criança neurodivergente. O choro de Thomas torna-se mais intenso. Não é um choro normal de uma criança fazendo birra. É um verdadeiro choro de pânico de alguém que está a ser forçado para além do limite. Preciso de trabalhar.

 Eduardo passa a mão no cabelo. Tenho reunião numa hora. A escola ligou hoje novamente de manhã. O que disseram? Sónia pergunta. Que se o Thomas não melhorar a higiene pessoal, vão ter de falar sobre outras alternativas educativas. Marcela engole em seco. Ela sabe o que isso significa. Vão tirar o menino da escola regular.

Senhor Eduardo, talvez seja a altura de considerar medicação mais forte. Sónia sugere. Não quero drogar o meu filho. Não é drogar, é ajudá-lo a regular. Eduardo fica em silêncio, claramente dividido. Marcela sobe as escadas devagar, fingindo que vai limpar o andar de cima, mas na verdade querendo ver como está o Tomás.

 Quando chega ao corredor, vê pela porta entreaberta. Thomas está encolhido no canto do quarto, as mãos a tapar a cabeça, balançando o corpo para a frente e para trás. O cabelo está realmente comprido, tapando os olhos, despenteado. Meu amor, precisa de cortar só um bocadinho. Sónia tenta aproximar-se com uma tesoura. Não.

 Thomas grita mais alto, se atirando para o chão. Marcela vê a cena e sente algo a mover-se dentro do peito. Aquele menino não está a fazer birra, está em sofrimento real. Tomás, se deixar a tia cortar, ganha um brinquedo novo. Eduardo tenta negociar, mas Thomas não ouve. Está em uma crise sensorial completa, perdido em o seu próprio mundo de angústia.

 É quando A Marcela faz algo que não devia. Bate ligeiramente na porta. Com licença, Sr. Eduardo. Eduardo vira-se irritado. Marcela, agora não é altura. Desculpe, Sr. Eduardo, é que posso sugerir uma coisa? Sugerir o quê? Sónia pergunta claramente incomodada com a intromissão de uma fachineira.

 Marcela hesita, mas vendo Thomas no chão, decide continuar. Minha filha tem TAH. Sei que não é a mesma coisa, mas às vezes as crianças respondem melhor quando a abordagem é diferente. Eduardo olha para Tomás, depois para Marcela. Que tipo de abordagem? Deixá-los participar, dar controlo sobre a situação. Sónia ri sarcástica.

 Não é assim que se lida com autismo. A criança precisa de aprender a aceitar, não ter controlo sobre tudo. Marcela baixa a cabeça. Peço desculpa. Não me quis intrometer. Ela vai sair, mas Thomas, que estava no chão, levanta a cabeça e olha diretamente para ela. É a primeira vez que faz contacto visual em dias. Quem é você? Tomás pergunta, a voz ainda trémula.

 Sou a Marcela. Trabalho aqui a limpar a casa. Tomás aproxima-se devagar. Você tem filhos? Tenho uma menina da tua idade. Ela corta o cabelo. Marcela ajoelha-se à altura dele. Corta sim. Mas sabe como? Thomas abana a cabeça que não. Ela própria escolhe como quer que seja cortado. Ela que segura a tesoura junto comigo.

 Os olhos de Thomas brilham com interesse. Junto, junto. Ela é que manda. Eduardo e Sónia observam a conversa em silêncio, surpreendidos com a reação de Tomás. Tomás, mas a rapariga não é especialista. Sónia intervém. Não pode cortar cabelo. Tomás volta a fechar-se, o momento de ligação a perder-se. É é melhor voltar ao trabalho, Marcela.

Eduardo diz, mas a sua voz não tem convicção. Marcela sai do quarto com o coração pesado. Sabia que não devia ter-se metido, mas ver aquele menino sofrimento foi mais forte do que ela. Na manhã seguinte, sexta-feira, Marcela chega para trabalhar e ouve a mesma cena a repetir-se. Tomás gritando, Eduardo desesperado, Sónia tentando forçar uma situação que claramente não está a funcionar.

 Desta vez ela decide não se meter. Vai diretamente para a lavandaria e começa a trabalhar. Mas os gritos de Thomas ecoam por toda a casa, impossíveis de ignorar. Às 10 da manhã, o silêncio repentino preocupa-a mais que os gritos. Ela sobe devagar e encontra Thomas trancado na casa de banho. Eduardo do lado de fora batendo à porta.

 “Tomas, abre a porta, filho. Não vou sair.” A voz do menino vem abafada. Vocês vão cortar o meu cabelo. Não vamos cortar se não quiser. Mentira. A tia Sónia disse que me vai segurar se eu não parar quieto. Eduardo olha para Sónia que fica vermelha. Eu disse que às vezes precisamos de ser firmes. Você ameaçou o meu filho? Não ameacei.

 Apenas expliquei que existem consequências. Marcela observa de longe o coração apertado. O Tomás está claramente numa crise maior que antes. Thomas, filho, abre a porta para o papá. Só se a menina da limpeza vier junto. Eduardo franze o sobrolho. Que moça da limpeza? Aqui está uma filha igual a mim. Eduardo olha para Marcela, que estava tentando passar despercebida.

Marcela, pode vir cá. Ela aproxima-se nervosa. Sim, senor Eduardo. Tomás, a A Marcela está aqui. A porta abre-se devagar. Tomás aparece com os olhos vermelhos de chorar, o cabelo ainda mais desarrumado. Olá, Thomas. Marcela fala suave. Olá. A sua filha está bem? Está sim. Ontem cortou o cabelo. Como? Ela escolheu o modelo, escolheu o comprimento. Ela que comandou tudo.

Tomás olha para o pai, depois para Sónia, depois para Marcela. Você pode ensinar como se faz? Sónia se adianta. Tomás, a rapariga não é profissional, isso é perigoso. Mas ela percebe de crianças como eu. Não é como a filha dela, Tomás. Tem necessidades especiais. Marcela sente uma pontada de raiva, mas se controla.

 Senhor Eduardo, posso falar com o senhor um minutinho? Eduardo hesita, mas aceita. Eles afastam-se um pouco. Senhor Eduardo, sei que não é da a minha conta, mas fala, Marcela, o Tomás não precisa de menos controlo, ele precisa de mais. Quando as crianças como ele sentem-se seguras, participam melhor. Mas a Sónia é especialista. E eu Sou mãe, Sr. Eduardo.

 Às vezes a a experiência prática vale tanto como a teoria. Eduardo olha para Tomás, que continua a observar Marcela com interesse. O que sugere? Deixa-me tentar uma abordagem diferente. Se não der certo, vocês voltam ao método da Sónia. Sónia escuta a conversa e se aproxima. Senr. Eduardo, isso é muito arriscado.

 A senhora não tem qualificação para lidar com uma criança autista. Sónia, nada do que tentámos até agora funcionou, mas é uma questão de persistência. Eventualmente ele vai ceder. E se ele não ceder? E se isso traumatizá-lo ainda mais? Sónia fica sem resposta. Eduardo ajoelha-se na frente de Tomás. Filho, gostarias que a Marcela te ajudasse com o cabelo? Tomás olha para Marcela.

 Você vai-me dar igual controlo dá à sua filha? Vou sim. Vai ser o chefe da operação. E se eu mudar de ideias no meio? Depois paramos na hora. Tomás pensa por um longo momento. Está bom. Mas só ela. A tia Sónia não pode ficar. Sónia fica ofendida. Senor Eduardo, que é um absurdo. Sou eu que cuido da criança.

 Sónia, pode descansar um pouco. Vou ficar aqui a supervisionar. Mas foi uma decisão, Sónia. Depois de Sónia sair claramente irritada, Marcela ajoelha-se ao lado de Tomás. Então, chefe, como vamos fazer isso? Não sei. Nunca fui chefe de corte cabelo. Marcela sorri. Então, vamos aprender juntos. Primeira decisão. Onde quer que seja? Na casa de banho, no quarto, na sala? O Tomás pensa no jardim.

Lá é mais calmo. Ótima escolha. Segunda decisão. Que ferramenta vamos utilizar? Tesoura ou máquina? Tenho medo da máquina. Faz barulho. Tesoura. Então, terceira decisão. Quanto vamos cortar? Tomás tira uma madeixa do cabelo. Só um pouquinho para não ficar nos olhos. Perfeito. E quem vai segurar a tesoura? Nós as duas juntas. Exatamente.

 Eduardo observa tudo em silêncio, impressionado com a paciência de Marcela. No jardim, Marcela senta Tomás numa cadeira de plástico. Primeira regra, manda-se parar, a gente pára. Combinado? Combinado. Segunda regra, escolhe-se a madeixa que vamos cortar. Terceira regra, nada é definitivo. Se não gostar, a gente para e pensa noutra coisa.

Thomas relaxa visivelmente. Você promete? Prometo. Marcela pega na tesoura e coloca-o na mão de Thomas, cobrindo com a dela. Agora é você que escolhe onde começar. Thomas aponta para uma madeixa à frente. Aqui só um bocadinho. Juntos fazem o primeiro corte. É irregular, meio torto, mas Thomas não desespera.

Gostou? pergunta a Marcela. Gostei. Posso fazer mais? Você é que manda. Durante uma hora trabalham juntos. O Tomás vai relaxando, conversando, até rindo de alguns cortes tortos que fazem. Sabe o que gosto em ti? Tomás pergunta no meio do processo. O quê? Você não fica zangada quando erro, mas não errou nada. Está a ser um ótimo chefe.

 Eduardo observa de longe, emocionado. Há meses que não via o filho tão tranquilo. Quando terminam, o cabelo de Thomas não está perfeito, mas está limpo, fora dos olhos. E ele está feliz. Papá, olha. Tomás corre para Eduardo. Eu cortei o cabelo. Ficou lindo, filho. Eduardo abraça Tomás, os olhos húmidos. A Marcela deixou-me ser o chefe.

Eduardo olha para Marcela com gratidão. Obrigado. Não foi nada, Sr. Eduardo. Mas quando Sónia vê o resultado, fica furiosa. Isto é um absurdo. Ela explode. Olha como ficou irregular. Parece que foi cortado por uma criança. Foi cortado por uma criança. Eduardo responde calmamente. Pelo meu filho. E ele está feliz. Mas não é profissional.

 E essa esta empregada de limpeza não tem qualificação nenhuma para lidar com o autismo. Sónia, ela conseguiu numa hora o que nós não conseguimos em semanas. Por sorte, na próxima vez pode correr mal. Tomás, que estava feliz, começa a ficar ansioso com a discussão. Tia Sónia, não gostou do meu cabelo? Ele pergunta, a voz já tremendo.

 Sónia percebe que falou demais. Não é isso, Tomás. É que você disse que ficou feio. Não disse isso, mas Thomas já se está a retrair. Marcela apercebe-se e ajoelha-se ao lado dele. Thomas, lembra-se da regra número um que fizemos? Que regra? Que é o chefe. Se gostou do seu cabelo, então está perfeito. Thomas sorri timidamente. Eu gostei. Portanto, é isso que importa.

Nessa noite, Eduardo chama Marcela para conversar no escritório. Marcela, Quero agradecer-te pelo que fizeste hoje. Não tem de agradecer, Sr. Eduardo. Qualquer mãe faria o mesmo. Não é verdade? A Sónia é especialista e não conseguiu. Conseguiu porque tem algo que não se aprende na faculdade. O que é a paciência, a empatia, a compreensão real? Marcela baixa a cabeça.

 Senor Eduardo, não quero que pense que estou a tentar fazer o trabalho da Sónia. Marcela, posso fazer-te uma pergunta? Claro. Já trabalhou com crianças antes? Já cuidei de algumas crianças enquanto as mães trabalhavam. sempre gostei. E a sua filha como é com ela? Marcela sorri. A Sofia é intensa, tem tdh No início foi difícil.

 Os médicos queriam medicá-la directamente, mas eu decidi experimentar primeiro outras abordagens. Que tipo de abordagens? rotina, mas com flexibilidade, regras claras, mas não rígidas, e, principalmente, deixá-la participar nas decisões que a afetam. Eduardo ouve interessado e funcionou. Funcionou.

 Ela ainda tem TDHA, sempre vai ter, mas aprendeu a regular-se, a conhecer. Hoje é uma menina feliz. Marcela, posso fazer-te uma proposta? Que tipo de proposta? Além de empregada de limpeza, topava ajudar com o Thomas? Não seria ama oficial, mas uma ajudante especial. Marcela fica surpreendida. Senor Eduardo, a Sónia não vai gostar.

 Deixa a Sónia comigo. E quanto ao pagamento? Duplicamos o seu salário. Marcela arregalai os olhos. Senhor Eduardo, é a sério? Muito sério. O Thomas conectou-se consigo de um maneira que não vejo há meses. Eu preciso dessa ajuda. Então aceito. Ótimo. Amanhã conversamos melhor sobre os pormenores. Na manhã seguinte, sábado, Marcela chega animada para o trabalho.

 Encontra Sónia na cozinha com cara fechada. Bom dia, Sónia. Soube que vai ajudar com Tomás agora. Vou sim. O Sr. Eduardo pediu. Sónia cruza os braços. Escuta bem, Marcela. Eu estudei anos para trabalhar com crianças especiais. Tenho diploma, certificados, referências. Você é uma empregada de limpeza sem qualificação nenhuma.

 Marcela sente-se diminuída, mas responde calmamente. Eu sei, Sónia. Não estou a tentar tomar o seu lugar. Melhor mesmo, porque ontem foi sorte. As crianças autistas são imprevisíveis. Não vai saber lidar quando ele tiver uma crise real. Talvez não, mas posso aprender. Não é uma questão de aprender, é uma questão de qualificação e não tem.

 Tomás aparece na cozinha nesse momento, ainda de pijama, o cabelo agora curtinho, desarrumado de dormir. Bom dia, Marcela. Ele corre para ela, sorrindo. Bom dia, Tomás. Dormiu bem? Dormi e sonhei que cortei cabelo a novo. A Sónia observa a interação com ciúme mal disfarçado. “Tomas, vem cá para tomar café.” Sónia chama, mas Thomas ignora e continua a falar com Marcela.

 Marcela, hoje podes me ensinar mais coisas? Posso sim. O que quer aprender? Não sei. Você que escolhe. Sónia fica ainda mais irritada. Tomás, tem atividades programadas para hoje. Que atividades? Exercícios de coordenação motora, leitura dirigida, terapia comportamental? Tomás faz cara feia. Não quero. Não é questão de querer.

 Faz parte do seu tratamento. Marcela percebe atenção e intervém. Tomás, que tal se fizermos as atividades de uma forma diferente? Como gosta de plantas? Gosto. Que tal se cuidarmos do jardim? Isto é coordenação motora. E podemos ler sobre as plantas. Isto é leitura. Os olhos de Thomas brilham. Posso plantar alguma coisa? Claro, escolhe o que plantar.

 Sónia bufa irritada. Isto não é terapia comportamental. É uma brincadeira. Qual a diferença? Marcela pergunta genuinamente curiosa. A diferença é que a terapêutica tem método, tem objetivo, tem um resultado mensurável. E se o objetivo for ele sentir-se feliz, isso não é mensurável. A Sónia não sabe o que responder.

 Eduardo desce para tomar café e encontra a discussão. Que está a acontecer aqui, pai? Tomás corre para ele. A Marcela vai ensinar-me a plantar. Que bom, filho. Senhor Eduardo. Sónia intervém. Preciso de falar com o Sr. sobre os métodos pedagógicos adequados para crianças autistas. Que métodos? Estrutura rígida, objetivos claros, reforço comportamental sistemático.

Eduardo olha para Tomás, que está animado a conversar com Marcela sobre plantas. Sónia, como é que Thomas reagia a esses métodos? Bem, ele ainda estava a se adaptando. Em dois meses de trabalho, ele adaptou-se a alguma coisa? Sónia fica sem resposta. Marcela conseguiu em um dia o que não conseguiu em dois meses. Foi uma sorte, Sr.

 Eduardo, e eu posso garantir que a abordagem dela não é sustentável. Por que não? Porque ela está a ceder demais, deixando-o mandar. Isto vai criar problemas no futuro. Eduardo olha para Tomás, que está feliz, relaxado, a conversar normalmente. Que tipo de problemas? Ele vai esperar ter sempre controlo sobre tudo.

 Vai ter dificuldade em aceitar a autoridade. Sónia, o meu filho tem autismo. Ele já tem dificuldade de aceitar a autoridade, mas com a Marcela está a colaborar voluntariamente por enquanto. Por enquanto já é mais do que conseguimos antes. Naquele fim de semana, a Marcela trabalha no jardim com Tomás.

 Plantam temperos, conversam sobre as plantas, leem sobre jardinagem. O Thomas está feliz, empenhado, aprendendo. Marcela, posso perguntar-te uma coisa? Claro. Porque é que me deixa escolher as coisas? Marcela para de escavar e olha para ele. Porque as suas escolhas importam, Tomás? A tia Sónia diz que eu não sei escolher direito.

 O que acha? Acho que sei que sim. Às vezes demoro a decidir, mas sei. Então sabe sim, mas e se escolher mal? Todo mundo escolhe mal, às vezes, até os adultos. E aí? Aí a gente aprende e escolhe diferente da próxima vez. Tomás pensa sobre isso. A tia Sónia não deixa eu errar. E como se sente quando não pode errar? Com medo.

 Porque aí eu não posso tentar nada. Marcela sente o coração apertar. Tomás, é importante poder errar. É assim que nós aprende. A minha mãe deixava-me errar. É a primeira vez que Thomas menciona a mãe desde que a Marcela chegou. A sua mãe era sábia. Você é igual a ela. Marcela sente os olhos marejarem. Obrigada, Tomás. Esse é o maior elogio que me podias dar.

 Na segunda-feira, o Eduardo tem uma reunião na escola de Thomas. A Marcela vai juntos porque o Eduardo quer mostrar o progresso do filho. A diretora Toque Carmen Silva recebe-os no escritório. Senor Eduardo, como está o Tomás? Muito melhor. Trouxe a Marcela que tem ajudado com ele. A Dra. Carmen olha para a Marcela com interesse.

 É psicóloga, terapeuta? Não, doutora. Sou ajudante. Que tipo de ajudante? Eduardo intervém. Marcela tem experiência com crianças especiais. Ela conseguiu ajudar o Thomas com algumas questões que estávamos enfrentando. Que tipo de questões? Higiene pessoal, colaboração, engajamento social? A Doutora Carmen fica interessada.

 Como? Marcela hesita, mas Eduardo incentiva-a a falar. Doutora, eu Tenho uma filha com PHDA. Aprendi que às vezes as crianças respondem melhor quando participam nas decisões. Pode dar um exemplo? Thomas estava a recusar cortar o cabelo. Em vez de forçar, deixei-o comandar o processo. Ele mesmo cortou. Eu só ajudei. Dra. Cármen abre uma pasta interessante, porque aqui Tenho relatórios de três profissionais diferentes que não conseguiram sequer chegar perto de Thomas com uma tesoura.

Cada criança responde a abordagens diferentes. E como tem sido o seu comportamento em casa? Eduardo responde: Completamente diferente, mais calmo, mais colaborativo, mais feliz. Senor Eduardo, posso sugerir algo? Claro. Que tal trazer o Tomas aqui para conversarmos com ele? Quero ver essa mudança pessoalmente.

Ótima ideia. Quando Thomas entra na sala da diretora, Marcela percebe que ele fica um pouco tenso. Lugares institucionais ainda o deixam ansioso. Olá, Thomas. Lembra-se de mim? Sou a Dra. Carmen. Thomas acena timidamente. Thomas, o seu pai contou-me que você cortou o cabelo. Posso ver? Tomás olha para Marcela, que faz um sinal de encorajamento. Cortei, sim.

 Eu mesmo a sós com a Marcela. Ela deixou-me ser o chefe. Dra. Carmen, sorri. E como foi ser o chefe? Legal. Eu escolhi onde cortar quanto cortar. E se eu quisesse parar, podia parar. E quis parar alguma vez? Não, porque eu estava a mandar. A Dra. Carmen anota algumas coisas. Tomás, tem gostado de vir ao escola? Thomas hesita por vezes quando gosta, quando posso escolher as atividades e quando não gosta, quando toda a gente quer que eu faça igual aos outros meninos. A Dra.

 Carmen olha para Marcela, depois para Eduardo. Senhor Eduardo, posso falar-vos em particular? Tomás fica na sala ao lado com a secretária enquanto os adultos conversam. Senr. Eduardo, a mudança no Tomás é notável. em apenas algumas semanas. É o trabalho da Marcela. Posso perguntar qual é a sua formação? Dra. Carmen dirige-se a Marcela.

 Doutora, eu não tenho formação específica. Sou mãe de uma criança especial e aprendi na prática. Interessante, porque a sua abordagem está alinhada com as teorias mais modernas de educação inclusiva. Como assim? Protagonismo da criança, escolhas dirigidas, autonomia progressiva, são conceitos avançados. Marcela fica surpreendida.

 Eu só faço o que parece-me natural. Por vezes o instinto materno vale mais do que anos de escolaridade. O senhor Eduardo, tem uma proposta. Qual? Que tal se a Marcela participasse em algumas reuniões pedagógicas, poderia partilhar a sua experiência com os professores? Eduardo olha para Marcela, que fica constrangida.

 Doutora, eu não não tenho nada para ensinar para professores. Tem sim, tem experiência prática a funcionar e isso é muito valioso. Quando regressam a casa, Sônia está à espera com cara fechada. Senr. Eduardo, preciso de falar com o senhor urgentemente. Que foi, Sónia? Recebi algumas informações sobre os métodos que estão sendo usados ​​com o Thomas.

 Que informações? de colegas da área estão dizendo que está a ser aplicada uma abordagem não científica. Eduardo franze a testa. Quem são estes colegas profissionais qualificados que se preocupam com o bem-estar de Thomas? Sónia, o Tomás está melhor do que nunca, por enquanto, mas esta abordagem permissiva pode causar problemas futuros.

 Que tipo de problemas? Dificuldade de adaptação social, expectativas irreais sobre o controlo. Dependência emocional inadequada. Marcela ouve a conversa e sente um frio na barriga. Será que está a fazer algo errado? Sónia, que tipo de abordagem que sugere? Retomar os métodos científicos, estrutura, limite e hierarquia clara.

 Tomás, que tinha entrou feliz, ouve a palavra estrutura e fica tenso. Pai, a tia Sónia vai voltar a mandar em mim? A pergunta inocente de Thomas revela muito sobre como se sentia antes. Filho, ninguém vai mandar em si. Vamos continuar fazendo as coisas juntos. Sónia fica irritada. Senor Eduardo, criança precisa de limite.

 E Tomás tem limites, Sónia, só que agora são limites que fazem sentido para ele. Isto não é científico. Sónia, ciência sem humanidade não serve para nada. Nessa noite, o Eduardo chama Marcela para conversar. Marcela, estou preocupado com uma coisa. Com quê, Senor Eduardo? A Sónia está questionando os seus métodos. Será que estamos a fazer a coisa certa? Marcela suspira.

 Senor Eduardo, também tenho essa dúvida por vezes, mas Thomas está melhor. Está. Mas E se a Sónia tiver razão sobre os problemas futuros? Eduardo fica pensativo. Marcela, posso dizer-te uma coisa? Claro. Quando a minha esposa morreu, Thomas ficou completamente perdido. Ele não falava, não comia em condições, não dormia. Era como se ele se tivesse desligado do mundo.

Imagino como deve ter sido difícil. Era. E todos os profissionais que trouxemos diziam a mesma coisa: estrutura, medicação, cuidados intensivos, mas nada funcionava. E agora? Agora sorri de novo. Conversa. Participa, Marcela. Não interessa-me se o seu método não tem nome científico, se está a funcionar, é o que importa.

 Obrigada por confiar em mim, Senhor Eduardo. Obrigado por devolverem o meu filho para mim. Na quarta-feira realiza-se algo que muda tudo. Tomás tem uma crise na escola. Não pela primeira vez, mas desta vez o diretor liga a pedir para Marcela ir buscá-lo. Não, Sónia. Por que ligaram-me? Marcela pergunta a Eduardo, porque é você quem consegue acalmá-lo? Quando chegam à escola, encontram Thomas escondido debaixo de uma mesa na sala da diretora, a tremer e chorando.

 O que aconteceu? Eduardo pergunta à Dra. Carmen. Uma professora substituta não sabia sobre as necessidades especiais do Thomas. Tentou obrigá-lo a participar numa atividade em grupo contra a sua vontade. Marcela ajoelha-se ao lado da mesa. Tomás. Sou eu, Marcela. Marcela? A voz dele vem abafada. Sim, estou aqui. A professora gritou-me. Ela não devia ter gritado.

Quer sair daí? Quero, mas não consigo. Porque não consegue? Porque estou com medo. Medo de quê? De ela gritar de novo. Tomás, ela não está mais aqui e o seu pai também está aqui. Papá, estou aqui, filho. Devagar, Tomás. Sai de debaixo da mesa. Está pálido com os olhos vermelhos. Posso ir para casa? Claro que pode.

 No carro, O Tomás fica quieto a maior parte do tempo. Só quando chegam a casa, ele fala: “Marcela, porque é que algumas pessoas não compreendem que sou diferente? Porque não tiveram oportunidade de conhecer alguém como tu? E se eu fosse igual aos outros meninos? Você gostaria de ser igual aos outros?”, Thomas pensa: “Às vezes sim, seria mais fácil.

” Mais fácil como as pessoas não ficariam zangadas comigo? Marcela sente o coração apertar. Tomás, sabe que ser diferente não é algo mau, certo? Sei. É carinhoso, inteligente, criativo, vê coisas que as outras pessoas não vêm. Isso é um dom. mesmo, mesmo. E as pessoas que não conseguem ver isso é que estão a perder. Quando Sónia descobre que a Marcela foi buscar o Thomas à escola, fica furiosa.

 Senhor Eduardo, isto é inadmissível. Sou a responsável pelos cuidados de Tomás. Sónia, a escola ligou a pedir especificamente pela Marcela. Porque permitiu que ela se intrometesse demais. Thomas está a criar dependência emocional inadequada. ou está a criar vínculos saudáveis. Vínculos saudáveis são com profissionais qualificados.

O Eduardo está a começar a perder a paciência. Sónia, Tomás melhorou drasticamente desde que Marcela começou a ajudar. Melhorou aparentemente, mas psicologicamente esta dependência pode ser prejudicial. Que dependência? Ele está mais independente que nunca. Independente? Sónia ri-se sarcástica.

 Ele só se acalma com ela. Isso é dependência clássica. E qual é o problema? Todos nós temos pessoas que nos acalmam, mas não empregadas domésticas. A frase fica no ar como um tapa. Eduardo percebe que chegaram ao cerne da questão. Preconceito de classe. Ah, agora já percebi qual é o real problema.

 Que problema? O problema não é a qualificação da Marcela, é a classe social dela. A Sónia fica vermelha, não é isso? É sim, Sónia. Não suporta que uma fachineira consiga fazer o que lhe com todo o seu diploma não conseguiu. Isto é ridículo. É ridículo, sim, mas é verdade. Nessa noite, a Sónia liga para algumas colegas da área para formarem uma frente contra Marcela.

 Meninas, temos uma situação muito grave aqui. Um pai está a permitir que uma empregada doméstica trate o seu filho autista. Como assim? Pergunta uma das colegas. Ela não não tem qualificação nenhuma, mas conseguiu manipular a família. Que tipo de tratamento ela está a dar? Os métodos não científicos.

 Deixa a criança fazer o que quer, sem estrutura, sem limites. Isso é perigoso. Muito. E o pior é que o pai está a considerar demitir-me. Não pode deixar passar. Tem que denunciar. Denunciar onde? Conselho de Psicologia, Ministério Público, onde for necessário. Criança especial não pode ser tratada por pessoa sem qualificação. No dia seguinte, quinta-feira, Marcela recebe uma chamada inesperada.

 Olá, é a Marcela Santos? Sim, aqui é do Conselho Regional de Psicologia. Recebemos uma denúncia de que a senhora está a prestar serviços psicológicos sem habilitação. Marcela quase deixa cair o telefone. Como assim? A senhora está a tratar uma criança autista? Eu ajudo com algumas atividades, mas não sou psicóloga. Pois é, senhora.

 Isto constitui exercício ilegal da profissão. Mas não me digo psicóloga. Não importa. Se está prestando serviços de natureza psicológica, necessita de habilitação. E agora? A senhora precisa de parar imediatamente com essas atividades. Caso contrário, podem existir consequências legais. Marcela desliga o telefone tremendo. Vai ter com Eduardo e conta-lhe tudo.

Eles disseram que eu posso ser processada. Eduardo fica furioso. Isto é obra da Sónia. Senor Eduardo, talvez seja melhor eu realmente parar. Não quero criar problemas. Marcela, não está fazendo nada de ilegal. Está a ajudar o meu filho como amiga da família. Mas e se processarem? Não vão processar. Vou contratar um advogado para esclarecer isso, senor Eduardo.

 Não quero ser motivo de confusão. Você não é motivo de confusão. Você é a solução. Mas Marcela está assustada. Naquela tarde, quando Tomás pergunta se podem plantar flores novas, ela hesita. Marcela, está estranha. Que foi? Nada, Tomás. Só estou cansada. Já não quer brincar comigo? Quero sim. Assim, por que está triste? Marcela olha para aquele menino que aprendeu a confiar nela e sente o coração partir.

 Como explicar que talvez tenha de se afastar? Tomás, sabe que às vezes as coisas mudam, não é? Que tipo de coisas? Às vezes as pessoas precisam de ir embora. Tomás fica pálido. Vai embora? Eu não quero. Mas vai. Talvez. Tomás começa a tremer. Por quê? Eu fiz alguma coisa errada? Não, meu amor, tu não não fez nada de errado.

 Então, porquê? Marcela não sabe explicar o preconceito e luta profissional para uma criança de 8 anos. Por vezes os adultos complicam as coisas. Tomás começa a chorar. Não Quero que vá embora. Eu também não quero. Então fica. Não é assim tão simples assim. Por que não? Marcela abraça Thomas lutando contra as próprias lágrimas.

 Porque o mundo dos adultos é complicado, meu amor. Eduardo chega nesse momento e vê os dois a chorar. Que está a acontecer aqui, pai? A Marcela vai-se embora. Eduardo olha para Marcela, que abana a cabeça, confirmando. Marcela, o que ficou decidido? Senr Eduardo, não posso arriscar ser processada e não posso causar problemas para o senhor.

 Que problemas? E se os competentes decidirem que Thomas está a ser mal cuidado? E se o tirarem do Senhor? O Eduardo não tinha pensado nessa possibilidade. Isso não vai acontecer, mas pode acontecer e eu nunca perdoar-me-ia. O Tomás está a ouvir tudo cada vez mais desesperado. Pai, não deixa a Marcela ir embora. Filho, é complicado. Não é, não. Você é o patrão.

Você decide. Não é bem assim. Por que não? Eduardo ajoelha-se ao lado do filho. Porque há pessoas que não gostam que a Marcela te ajude. Que pessoas? Pessoas que pensam que só quem estudou na faculdade pode cuidar de si, mas a A Marcela cuida melhor. Eu sei, filho, eu sei. Tomás para de chorar e fica pensativo.

 Pai, posso fazer uma pergunta? Claro. Se a Marcela for embora, vou ficar triste outra vez. Eduardo sente um nó na garganta. Não sei, filho. Eu acho que vou, porque ela compreende-me. Como assim ela te entende? Ela sabe quando eu estou com medo, quando estou confuso, quando estou feliz. Ela não tenta consertar-me. Ela gosta de mim tal como eu sou.

 A simplicidade da explicação de Thomas revela a profundidade do vínculo que ele criou com a Marcela. E as outras pessoas não fazem isso. A tia Sónia quer sempre que eu seja diferente, tu às vezes também. Eduardo sente-se como se levasse um soco. Eu também. Quando fica preocupado porque sou estranho. Filho, não te acho estranho.

 Acha sim. Quando há visita, fica-se nervoso se não me comporto igual aos outros meninos. Eduardo percebe que O Tomás está certo. Ele realmente se preocupa com a opinião dos outros. Tomás, perdoa-me por isso. Tudo bem, pai, mas a Marcela nunca fica assim. Ela acha que eu sou perfeito da maneira que sou. A Marcela está a chorar ouvindo isso.

Thomas, és perfeito do jeito que és. Então, porque é que tem de ir embora? Porque algumas pessoas não concordam comigo e essas pessoas mandam mais do que o papá. A pergunta inocente de Thomas faz Eduardo refletir. Por que razão ele está deixando que outras pessoas decidam o que é melhor para o seu filho? Não, Tomás, ninguém manda mais do que o papá.

 Então, pode dizer-lhes que a Marcela fica? Eduardo olha para Marcela, depois para Tomás. Posso sim, mesmo. Mesmo? Marcela, fica o senhor Eduardo. Mais e os riscos? Vamos enfrentá-lo juntos. Não fez nada errado. Tomás salta de alegria. A Marcela vai ficar. Mas a batalha está apenas a começar. Na sexta-feira, Sónia aparece com um advogado. Senor Eduardo, este é o Dr.

Martins, especialista em direito da família. Eduardo recebe os dois no escritório desconfiado. O Dr. Martins, em que posso ajudá-lo? Senr. Eduardo, fui contratado para o orientar sobre os riscos legais de permitir que uma pessoa não qualificada trate o seu filho. Que riscos? Negligência parental, exposição de menor a riscos, exercício ilegal de profissão.

O Dr. Marcela não exerce profissão nenhuma. Ela ajuda o meu filho, como qualquer pessoa da família ajudaria. Mas não é da família, é funcionária e está prestando serviços de natureza terapêutica. Plantou uma muda no jardim com ele. Isto é terapêutico? Se foi prescrito como atividade terapêutica, sim.

 Eduardo percebe que está a ser encurralado tecnicamente. Doutor, o meu filho melhorou drasticamente. Não vou interromper isso. Senr. Eduardo. Sónia intervém. Entendo a sua posição, mas como profissional qualificada tenho a obrigação de o alertar sobre os riscos. Que riscos, Sónia? Thomas está feliz por enquanto, mas sem acompanhamento profissional adequado, podem surgir complicações. Dr.

 Martins abre uma pasta. Senor Eduardo, tenho aqui pareceres de três psicólogos infantis sobre este caso. Que pareceres? Eles nem sequer conhecem o Thomas. Conhecem o caso através de relatos e todos os concordam que é necessária a intervenção profissional imediata. Relatos de quem? Sónia fica vermelha.

 De quem acompanha a situação de perto. Você espalhou pormenores da vida do meu filho para outros profissionais para o proteger? O Eduardo está a ficar furioso. Sónia, está demitida, senor Eduardo. Isso seria um erro grave. Sem supervisão profissional. O senhor pode enfrentar problemas com o Conselho Tutelar. Está ameaçando-me, o Dr. Martins intervém.

 Não é ameaça, Senr. Eduardo, é orientação jurídica. Em casos de negligência parental, o Estado pode intervir. Negligência? O meu filho está melhor que nunca, aparentemente, mas sem avaliação técnica adequada, não há como comprovar isso. Eduardo percebe que está a ser chantageado, mas não sabe como reagir. O que é que vocês querem? Que a empregada pare de interferir no tratamento de Thomas e que seja contratada a supervisão psicológica profissional? E se eu não concordar? Será uma decisão sua, mas estará assumindo todos os riscos legais. Depois

que os dois saem, Eduardo fica sozinho no escritório desesperado, liga para um advogado conhecido. Dr. Renato, preciso de uma orientação urgente. Fala, Eduardo. Eduardo conta toda a situação. Eduardo, tecnicamente têm razão sobre o exercício ilegal da profissão, mas não se diz psicóloga. Não importa se está a prestar serviços de natureza psicológica, mesmo informalmente pode ser enquadrada.

 E quanto ao Conselho Tutelar, aí é mais complicado. Se alguém denunciar alegando negligência, são obrigados a investigar. E se investigarem? Vão avaliar se o Thomas está a ser bem cuidado. Se estiver, não há problema. Por isso não preciso de me preocupar, Eduardo. Na teoria não. Na prática, estas as investigações são sempre traumáticas, especialmente para crianças especiais.

Eduardo desliga ainda mais angustiado. Nessa noite, conversa com Marcela. Marcela, a situação está complicada. Eu sei, Senr. Eduardo. Talvez seja melhor eu afastar-me mesmo. Não quero que você afastar, mas também não quero colocar tomas em risco. Que tipo de risco? Investigação do Conselho Tutelar, processo judicial, exposição pública.

Marcela fica pálida. Meu Deus, eu não imaginava que podia chegar a isso. Nem eu. Mas parece que sim, senor Eduardo. E se deixasse de trabalhar diretamente com Thomas, voltasse a ser apenas empregada de limpeza, toparia para proteger os dois? Sim. Mas e o Tomás? Como vamos explicar para ele? Não sei.

 Esta é a parte mais difícil. No sábado de manhã, tentam explicar a Tomás. Filho, a Marcela vai continuar a trabalhar aqui, mas não vai mais fazer atividades especiais com você. Por quê? Porque algumas pessoas pensam que só quem estudou psicologia pode fazer estas atividades. Mas as atividades com a Marcela não são de psicologia, são de brincar.

 Para algumas pessoas é a mesma coisa. Tomás fica confuso. Então já não posso brincar com a Marcela. Pode brincar, mas não podem ser brincadeiras de aprender coisas. Mas todas as brincadeiras ensinam alguma coisa. A lógica simples de Thomas expõe o absurdo da situação. É, filho, todas ensinam. Assim, é proibido eu aprender com a Marcela? Eduardo não sabe o que responder.

 Tomás fica pensativo por um momento. Depois pergunta: “Pai, porque é que estas pessoas não gostam da Marcela? Não é que não gostam dela, é sim. Se gostassem, iam querer que ela me ajudasse. É complicado, filho. Não é, não. Elas não gostam porque ela não tem licenciatura. Eduardo fica surpreendido com a perceção de Tomás.

 Como sabe disso? Porque já ouvi a tia Sónia a falar. Ela sempre diz que a Marcela não estudou. E o que acha disso? Acho que quem estudou mais tem de ser mais inteligente, não é? Em teoria, sim. Então, porque é que a Marcela consegue me compreender e quem estudou não consegue? O Eduardo não tem resposta para isso. Durante o fim de semana, o Thomas fica visivelmente triste.

 A Marcela ainda está na casa, mas mantém a distância. Ela limpa, cozinha, mas já não brinca com ele, não conversa sobre assuntos educativos. Marcela, está zangada comigo? Thomas pergunta no domingo. Claro que não, meu amor. Então, por que já não queres brincar comigo? Não é que não quero, é que é complicado. Todo mundo diz que é complicado, mas ninguém explica porquê.

 Marcela ajoelha-se ao lado dele. Tomás, lembra-se quando falamos sobre regras? Lembro-me. Às vezes há regras que não fazem muito sentido, mas temos que seguir mesmo assim. Que nem na escola. Isso. Mas na escola pode reclamar com a diretora? Às vezes. Sim. Então, porquê não se queixa dessas regras? Porque quem fez as regras é mais poderoso do que eu. Tomás fica pensativo.

 Mais poderoso como há mais dinheiro, mais estudo, mais influência. E isso faz com que eles mandarem em si? Infelizmente sim. Isso é injusto. É sim, meu amor. Às vezes o mundo é injusto. Tomás abraça Marcela. Quando for grande, vou mudar estas regras. Você vai? Vou vou fazer regras que deixem as pessoas de bem cuidar das crianças, mesmo que não tenham estudado.

Marcela sente os olhos marejarem. Vai ser um adulto muito especial. Tu que me ensinaste a ser especial. Você já era especial, Tomás. Eu só te ajudei a perceber. Na segunda-feira, Eduardo recebe uma chamada que muda tudo. Senor Eduardo, aqui é da Secretaria de Educação. Temos uma denúncia anónima sobre a situação do seu filho.

 Eduardo sente o estômago a virar. Que tipo de denúncia? As alegações de que a criança está a ser submetida a tratamento inadequado por pessoa não qualificada. E o que significa? que precisamos agendar uma visita técnica para avaliar a situação. Quando? Esta semana, quinta-feira, às 14 horas, Eduardo desliga o telefone e chama Marcela.

Marcela, a situação agravou-se. Vão fazer uma investigação. Meu Deus, é por minha causa. Não é culpa sua, é desta guerra que declararam contra nós, senor Eduardo. E se eu realmente me for embora? Talvez assim parem com isso. Marcela, se for embora agora, vai parecer que temos algo a esconder. E se eu ficar? Vamos enfrentar juntos e vamos provar que o Thomas está melhor do que nunca.

 Como? Reunindo evidências, relatórios médicos, depoimentos da escola, vídeos do progresso dele. Você acha que vai resultar? tem que dar, porque a verdade está do nosso lado. Durante a semana, preparam-se para a investigação. Eduardo contacta o pediatra de Thomas, a escola, outros profissionais que acompanharam o menino. O Dr.

 Souza, pediatra do Thomas há 3 anos, fica indignado quando Eduardo conta a situação. Eduardo, o Tomás está melhor que nunca. Quem está a fazer essa denúncia? Profissionais que se dizem preocupados com ele. Que profissionais? Porque comigo ninguém entrou em contacto para saber como ele está. É o que eu achei estranho. Eduardo, posso dar-lhe um relatório médico completo.

 Peso, altura, desenvolvimento neurológico, comportamento. Tudo indica melhoria significativa. Doutor, pode colocar no relatório quando essa melhoria começou? Posso. Foi há cerca de dois meses. Coincidiu com alguma alteração na rotina? Foi quando a A Marcela começou a ajudar com ele. Então vou deixar isso bem claro no relatório.

A diretora da escola também fica indignada. Senhor Eduardo. Quem teve a coragem de dizer que o Thomas está a ser mal cuidado? Pessoas que nem conhecem ele direito. Porque aqui na escola a melhoria dele é notável. Ele está mais comunicativo, mais colaborativo, menos ansioso. Dra. Carmen, a senhora poderia prestar um depoimento por escrito? Claro.

 E vou incluir a opinião dos professores também. Na quinta-feira, a equipa da secretaria chega a horas. São três pessoas: uma psicóloga, uma assistente social e um coordenador pedagógico. Senhor Eduardo, sou a Dra. Patrícia, psicóloga da secretaria. Esta é a assistente social Helena e o coordenador Roberto. Sejam bem-vindos.

 Onde está a criança? No quarto a brincar. E a pessoa que está a prestar serviços psicológicos irregulares? A Marcela está na cozinha, mas ela não presta serviços psicológicos. É o que vamos avaliar. A equipa conversa primeiro com Eduardo. Senhor Eduardo, pode dizer-nos qual é exatamente a função desta funcionária? A Marcela é empregada de limpeza, mas como tem experiência com crianças especiais, às vezes ajuda com tomas.

 Que tipo de ajuda? Atividades do quotidiano, cortar cabelo, tratar do jardim, conversar. E considera que é tratamento psicológico? Considera o cuidado humano. A psicóloga anota tudo. Senr. Eduardo, tem relatórios de acompanhamento profissional recente? Eduardo entrega os relatórios médicos e da escola. Interessante, diz Ducra Patrícia lendo.

Aqui diz que houve melhoria significativa nos últimos dois meses. Exato. E coincide com a chegada desta funcionária? Coincide. Podemos conversar com ela? Claro. Marcela entra nervosa, mas determinada a dizer a verdade. Senhora, qual é o seu nome completo e escolaridade? Marcela Santos.

 Tenho o ensino secundário completo, formação na área da saúde ou educação. Não tenho formação formal, tenho experiência como mãe de uma criança com PHDA. E que tipo de atividades desenvolve com a criança? Atividades normais: brincar, conversar, ajudar com tarefas simples. A senhora considera-se terapeuta? De maneira nenhuma.

 Sou apenas uma pessoa que gosta de crianças. A assistente social faz perguntas sobre a rotina, a casa, os cuidados básicos. Tudo está em ordem. Agora queremos conversar com a criança. Tomás entra tímido, mas quando vê Marcela, relaxa. Olá, Thomas. Sou a médica Patrícia. Vim conversar contigo. Olá, Thomas, você gosta de viver aqui? Gosto.

 E como é que você se sente? Bem. Há aqui alguém que cuida bem de si? Tem o meu pai e a Marcela. Como é que a A Marcela cuida de si? Ela brinca comigo, conversa comigo, ajuda-me quando estou triste. E ela ensina-te coisas? Ensina, sim. Ensinou-me a cuidar de plantas, a cortar-me o cabelo, a não ter medo de experimentar coisas novas.

 Tomás, a psicóloga continua. Alguém já te magoou ou te obrigou a fazer alguma coisa? A tia Sónia às vezes tentava me obrigar a fazer coisas. que me deixavam nervoso. E a Marcela? A Marcela nunca me força. Ela deixa-me escolher. E você se sente-se seguro com ela? Muito. Ela me entende. A equipa troca olhares. Claramente não estão a encontrar nada irregular.

 Tomás, quer continuar morando aqui? Quero. E quero que a Marcela continue aqui também. Por quê? Porque ela me faz feliz. Depois da conversa com Thomas, a equipa reúne-se em particular. Eduardo espera ansioso no escritório. Quando regressam, a Dra. Patrícia tem uma expressão séria. Senor Eduardo, vamos ser diretos.

 Eduardo prepara-se para o pior. Não encontramos qualquer irregularidade. Eduardo suspira de alívio. A criança está bem cuidada, feliz, segura. A casa oferece todas as condições adequadas. E quanto à Marcela, não há evidência de que ela esteja a exercer psicologia. Está a prestar cuidados domésticos e oferecendo apoio emocional, o que é natural em pessoas próximas da criança.

Portanto, não há problema. Não há problema. Inclusive, queremos felicitá-lo pelo cuidado com o Tomás. Eduardo quase chora de alívio. Doutor, posso dar uma sugestão? Diz a assistente social. Claro que continue exatamente como está. O Thomas está bem adaptado, feliz, progredindo. Qualquer mudança brusca agora seria prejudicial.

 Depois que a equipa sai, Eduardo chama Marcela e Tomás. Marcela, pode voltar a ajudar o Thomas normalmente mesmo. Sem problemas? Sem problema nenhum. Os profissionais disseram que está tudo certo. Tomás salta de alegria. A Marcela podes brincar comigo outra vez? Pode sim, filho. E plantar flores. E plantar flores.

 E falar sobre coisas importantes. E conversar sobre tudo o que vocês quiserem. Tomás abraça Marcela e Eduardo juntos. Agora somos uma verdadeira família de novo, mas a guerra ainda não tinha acabado. Na sexta-feira, Sónia aparece na casa furiosa. Senr. Eduardo, soube que a investigação não deu em nada. Deu sim.

 Sónia comprovou que Thomas está bem cuidado. Isto é um absurdo. Como uma fachineira pode ser considerada adequada cuidar de uma criança autista? Porque ela cuida bem. Simples assim. Senor Eduardo, isto não vai ficar assim. Vou acionar outras instâncias. Que instâncias? Conselho Regional de Psicologia, Ordem dos Advogados, Ministério Público.

 Sónia, você está obsecada. Estou a proteger uma criança. Está a tentar destruir uma pessoa inocente por puro ego ferido. Ego ferido? Sónia grita. Eu estudei anos para trabalhar com crianças especiais e não conseguiu ajudar o meu filho em dois meses. Marcela conseguiu em duas semanas porque ela não segue protocolos, não tem responsabilidade técnica.

 Sónia, você está despedida definitivamente. Isto é um erro que o senhor se vai arrepender. O único erro foi ter demorado tanto tempo a tomar essa decisão. Depois que Sónia sai, Eduardo reúne Marcela e Thomas. Pronto, agora somos só nós os três. O papá, a a tia Sónia não vai mais voltar. Tomás pergunta. Não vai mais. Que bom.

 Ela não gostava de mim. Por que razão acha isso? Porque ela queria sempre que eu fosse diferente. Eduardo sente uma pontada no coração. E como se sente agora? Feliz porque vocês gostam de mim do jeito que eu sou. Marcela abraça Tomás. Vamos sempre gostar de você. exatamente do jeito que você é. Nos meses seguintes, a vida na mansão encontra o seu ritmo natural.

 Tomás continua progredindo não só com Marcela, mas com toda a vida. Ele faz novos amigos na escola, participa em atividades, sorri mais. Marcela Eduardo chama-a numa tarde de domingo. Posso falar contigo? Claro, senor Eduardo. O Tomás vai fazer 9 anos na próxima semana. Vai sim. Ele está todo animado.

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