MILIONÁRIO ENCONTRA GAROTO NO CEMITÉRIO AO LADO DO TÚMULO DO FILHO—”Ele vem TODO DIA falar comigo”

MILIONÁRIO ENCONTRA GAROTO NO CEMITÉRIO AO LADO DO TÚMULO DO FILHO—”Ele vem TODO DIA falar comigo” 

Ele vem cá todos os dias a falar comigo. A voz infantil cortou o silêncio do cemitério como uma lâmina afiada. Eduardo Almeida gelou a mão ainda segurando o vaso de orquídeas brancas que acabara de ajustar sobre a lápide de mármore italiano. Virou-se lentamente, o coração a acelerar de um jeito que não acontecia há anos.

 O menino estava ali há poucos metros, ajoelhado junto do túmulo vizinho ao de Gabriel, olhando diretamente para ele com aqueles olhos escuros, demasiado velhos para um rosto tão jovem, não mais de ve ou 10 anos, roupas surradas, ténis rasgados com a soltando, cabelo despenteado, colado na testa suada.

 Eduardo abriu a boca, mas não saiu qualquer som, apenas o vento frio da manhã de quinta-feira, balançando as copas do ciprestes, transportando o cheiro de terra molhada e betão. Desculpa, o quê? Eduardo conseguiu finalmente articular a voz rouca de quem passara os últimos minutos a falar sozinho com uma pedra.

 O miúdo não repetiu, apenas continuou a olhar com aquela intensidade perturbadora que fazia Eduardo sentir-se exposto, vulnerável, como se cada segredo enterrado em 5 anos de quintas-feiras solitárias estivesse sendo lido nesse instante. Eduardo Almeida vinha ao cemitério todas as ª feiras, sempre às 7 da manhã, sempre sozinho.

 era o único compromisso que nunca desmarcava, nem para reuniões com ministros, nem para videoconferências com investidores internacionais, nem para os jantares beneficentes, onde discursava sobre legado e responsabilidade social. A lápide de Gabriel refletia o céu cinzento. Gabriel Almeida, 1995-20 anos. Apenas 23 anos.

 Eduardo passava a mão pelas letras gravadas em baixo relevo todas as semanas, sentindo a superfície fria sobre os dedos, como quem tenta tocar algo que não existe mais. 5 anos. 5 anos desde a noite chuvoso, 5 anos desde a discussão sobre expectativas e desilusões. 5 anos desde que o telefone tocou às 3 da madrugada e uma voz desconhecida do outro lado da linha disse palavras que Eduardo ainda escutava.

 Cada vez que fechava os olhos. Senr. Almeida, lamento informar. A empresa continuava crescendo. Os conselhos administrativos continuavam a aplaudir, as manchetes econômicas continuavam a estampar o seu nome como um dos empresários mais influentes do país. Mas Eduardo Almeida só conseguia respirar de verdade ali diante daquela lápide, onde não precisava de fingir que estava tudo bem.

Chegara naquela manhã, como sempre, conduzindo o seu próprio carro, um Mercedes preto, discreto, sem condutor, porque eram os únicos 30 minutos da semana em que não queria ninguém a observar. Estacionara no portão lateral, longe dos outros visitantes. Caminhara entre os jazigos com os passos pesados, de quem carrega 62 anos e uma culpa que pesa mais do que qualquer fortuna.

 Remover as folhas secas em redor do vaso de bronze, ajeitar as orquídeas brancas. Gabriel sempre gostara de orquídeas, embora nunca o tivesse admitido em voz alta. Eduardo descobrira-o foliando os cadernos do filho após o funeral, encontrando desenhos delicados entre apontamentos de faculdade. Desenhos que nunca vira quando Gabriel ainda era vivo, porque nunca perguntara o suficiente, nunca olhara o suficiente, nunca estivera presente o suficiente.

 O silêncio do cemitério era diferente do silêncio da mansão. Ali, pelo menos, não havia esposa a evitar o o seu olhar durante o pequeno-almoço. Não havia executivos a medir cada palavra. Não havia espelhos a refletir um homem que construíra um império e perdera o que realmente importava. E então escutara os passos ligeiros, pequenos, hesitantes sobre o cascalho.

Eduardo virara-se à espera de ver um funcionário ou outro enlutado perdido entre os túmulos. Mas vira o menino, aquele miúdo magro e sujo, caminhando entre as lápides com uma familiaridade estranha. como quem conhece cada desvio daquele labirinto de mortos. O menino passara por ele a direito, sem olhar, transportando uma sacola plástica amassada.

parara exatamente junto do túmulo de Gabriel, no jazigo vizinho. Um túmulo simples, sem flores, sem manutenção, com a lápide manchada pelo tempo. E ali, ajoelhado no chão de pedra irregular, o miúdo tirara algo do saco, uma garrafa de refrigerante pela metade, colocara ao lado da lápide esquecida com um cuidado quase irreverente e começara a falar baixinho, como quem conversa com alguém que está ali a ouvir.

 Eduardo ficara imóvel, a observar. Não era apenas curiosidade, era um incómodo profundo, quase visceral, ver aquela criança a repetir o mesmo ritual solitário que ele próprio executava todas as quintas-feiras. O menino permanecera ali durante quase 10 minutos, falando sozinho, ajeitando pedras em redor do túmulo.

 Quando finalmente se levantara, limpara as mãos sujas na calça rasgada. O Eduardo não planeava falar, mas as palavras saíram-lhe antes que pudesse controlá-las. Você vem aqui sempre? E o miúdo responderá aquilo, aquela frase impossível que ecoava agora no ar frio da manhã. Ele vem cá todos os dias falar comigo.

 Eduardo sentiu o chão oscilar sob os seus pés, abriu a boca, fechou, voltou a abrir. “Como assim? Ele vem falar contigo.” A voz saiu mais baixa do que pretendia, quase um sussurro. O menino apontou para a lápide ao lado, a lápide de Gabriel. Ele, o moço deste túmulo ali, o miúdo falou com a naturalidade de quem descreve algo óbvio.

 Todos os dias ele vem, fica ali ao lado e vai falando, falando um monte. Às vezes também chora. Eduardo sentiu o ar faltar-lhe nos pulmões. Eduardo sentiu o mundo a girar. As palavras do menino ainda vibravam no ar frio da manhã. Impossíveis, absurdas. Todo dia ele vem, fica ali ao lado e fica falando. Deu dois passos para trás, tropeçando ligeiramente no lancil de betão que separava as fileiras de túmulos.

 A mão direita procurou apoio na lápide mais próxima, os dedos apertando a pedra gelada até os nós ficarem brancos. Isso, isso não faz sentido. Eduardo ouviu a própria voz sair trémula, fraca. O meu filho está morto. Morto há 5 anos. O miúdo inclinou a cabecinha de lado, como quem observa um adulto a dizer algo demasiado óbvio para merecer resposta.

 Ele limpou o nariz com as costas da mão suja e encolheu os ombros. Eu sei que ele está morto. Eu não sou burro, moço. A voz tinha uma paciência cansada, demasiado velha. Mas ele vem sim todas as quintas-feiras de manhã, fica ali parado, a olhar para o nome dele na pedra. Às vezes mexe nas florzinhas brancas, às vezes chora baixinho e fica a falar.

Eduardo sentiu um calafrio subir pela espinha. Quinta-feira, as orquídeas brancas. Ele nunca vira aquele menino antes. O cemitério estava sempre vazio quando chegava. Era exatamente por isso que escolhera aquele horário. Sempre sozinho. Sempre. Você, está a inventar isso. Eduardo tentou soar firme, mas a voz falhou-lhe.

Nunca me viu aqui. O menino cruzou os braços magros sobre o peito, os olhos escuros fixos nele, com uma intensidade que fazia Eduardo querer desviar o olhar. Vens de carro preto para ali longe e vem andando. Usa roupa social mesmo sendo cedo, mexe sempre nas flores, passa sempre a mão nas letras da pedra. Bem devagar.

 O miúdo apontou para o vaso de orquídeas. Semana passada trouxeste flores cor-de-rosa. Mas depois trocou novamente para brancas. O coração de Eduardo disparou. Ele trouxera realmente orquídeas cor-de-osa na semana anterior. Foi a única vez em 5 anos que mudara a cor, porque a florista dissera que as brancas estavam em falta, mas no dia seguinte voltara e comprara brancas de outro lugar, porque não se sentia bem deixar o Gabriel com flores diferentes.

Como é que aquele miúdo sabia disso? Você fica a espiar-me? A voz saiu mais elevado do que Eduardo pretendia, e coando entre os túmulos silenciosos. O menino não recuou, apenas continuou olhando com aquela estranha calma. Eu não ando a espiar ninguém. Eu venho aqui todos os dias. Acordo cedo, apanho uns trocados vendo bala no farol, compro um refrigerante e venho falar com o meu pai.

 Ele gesticulou para o túmulo simples junto do de Gabriel. Você que vem no mesmo horário que eu, sempre às 7, sempre quinta. Eduardo olhou para a lápide que o miúdo apontava. Pela primeira vez em 5 anos, realmente a observou. Estava coberta de limo, as letras quase apagadas pelo tempo. Conseguiu ler apenas fragmentos.

Sousa, 1992-27. Um ano antes de Gabriel. O seu pai. Eduardo sussurrou a garganta apertada. O menino assentiu, os olhos baixando para o chão de gravilha. Ele morreu quando eu tinha 5 anos. A minha mãe disse que foi acidente de moto. Ela morreu dois anos depois. Depois fui morar com a minha avó. Deu um pontapé numa pedrinha, as mãos enfiadas nos bolsos das calças surradas.

Mas a minha avó morreu no ano passado. Agora eu vivo bem. Eu viro-me. O Eduardo sentiu algo se partir dentro do peito. Aquele menino era órfão, completamente sozinho, vivendo nas ruas, vindo ao cemitério todos os dias falar com um pai que morrera quando ainda era criança. “Quantos anos tem?”, a pergunta saiu rouca.

“10. Faço 11 em Março. 10 anos. A mesma idade que Gabriel tinha quando Eduardo passava semanas a viajar a trabalho, quando deixava de ir às apresentações da escola, quando dizia que depois compensaria o tempo perdido. Depois, sempre depois. Eduardo fechou os olhos tentando organizar os pensamentos. Aquilo não fazia sentido.

 Nadaquilo fazia sentido. Mas, ao mesmo tempo, por que disse aquilo? Eduardo abriu os olhos de novo, fitando o menino. Por que disse que ele vem falar consigo? O miúdo voltou a encolher os ombros. Por que vem? Ele fica ali parado, a olhar para o túmulo dele e fica a falar baixinho. Eu escuto.

 Ele pede desculpa por um monte de coisa. diz que queria ter sido pai melhor, que queria ter prestado mais atenção. O menino levantou os olhos e havia algo de estranho naquele olhar, algo entre a compaixão e o conhecimento. Ele fala com o Gabriel. Eu sei porque ele repete o nome. Gabriel. Gabriel. Gabriel. Eduardo sentiu as pernas fraquejarem.

 Agarrou-se à lápide com as duas mãos, o mundo girando em torno dele. I Ele engoliu em seco, a boca subitamente seca. Eu sou ele. Eu sei, disse o menino simplesmente. Por isso Vim falar consigo hoje. O vento soprou mais forte, trazendo folhas secas que rodopearam entre os túmulos. Eduardo olhou para aquele miúdo magro, sujo, sozinho, e sentiu que algo estava prestes a mudar.

 Algo grande, algo inevitável. Por quê? Eduardo sussurrou. Por que razão veio falar comigo hoje? O menino meteu a mão no bolso das calças rasgadas e tirou algo de lá. Um papel amarelado dobrado várias vezes, gasto nas pontas, estendeu-se para Eduardo com mãos trémulas, porque hoje encontrei isto na gaveta velha da minha avó e tem lá o nome dele, o nome do Gabriel.

 Se esta história te apanhou até aqui, subscreva o canal. Ainda tem muito por vir. O que este papel revela vai mudar tudo. O Eduardo pegou no papel com mãos trémulas. O material estava tão gasto que quase se desfazia entre os seus dedos, amarelado pelo tempo, com manchas de humidade nas bordas. Ele desdobrou lentamente, o coração a bater tão forte que podia sentir o pulso a martelar nas têmporas.

 Era uma foto velha, desbotada, tirada com uma daquelas câmaras instantâneas que já ninguém mais usava. A imagem mostrava um jovem a sorrir, cabelo escuro despenteado pelo vento, olhos claros a brilhar sob o sol, aquele sorriso torto que Eduardo conhecia tão bem. Gabriel, mas não o Gabriel da altura da faculdade, não o rapaz de 23 anos que morrera à chuva.

 Era um Gabriel mais jovem, talvez 17, 18 anos, usando uma t-shirt velha de banda sentado num banco de jardim com o braço à volta de Eduardo sentiu o ar escapar-lhe dos pulmões. Uma rapariga jovem, bonita, sorriso tímido, cabelo comprido, apanhado num rabo de cavalo e no colo dela, claramente visível, mesmo com a foto desbotada, uma barriga arredondada, grávida.

 Eduardo virou a foto. No verso com letra apressada e desigual, estava escrito: “Gabriel e Mariana, 6 meses.” Dezembro 2016. Dezembro de 2016. Gabriel tinha 21 anos. Estava no terceiro ano de engenharia. Eduardo lembrava-se daquele período. Fora o ano em que expandira os negócios para o Nordeste, passara 4 meses praticamente a viver em hotéis, regressando a São Paulo apenas nos fins de semana.

 Gabriel reclamara algumas vezes. Dissera que precisava de conversar sobre algo importante. Mas Eduardo havia sempre uma reunião, havia sempre uma chamada urgente, havia sempre algo mais importante do que sentar-se e ouvir o filho. Onde o conseguiu? A voz saiu rouca, partida. Estava numa caixa de sapato no armário da minha avó, junto com certidão de nascimento, uns papéis velhos, umas cartas.

 O menino enfiou a mão no outro bolso e tirou mais um papel dobrado. E isto aqui também. Eduardo pegou no segundo documento. Era uma certidão de nascimento, desgastada, com carimbos oficiais. Ele leu o nome na linha superior. Miguel Sousa Almeida. Miguel. Data de nascimento. 15 de março de 2017. Nome da mãe: Mariana Souza. Nome do pai: Gabriel Eduardo Almeida.

 O mundo parou. O Eduardo leu de novo e de novo e de novo. As letras dançavam na frente dos olhos embaciados. Gabriel Eduardo Almeida, seu filho, pai daquele menino que estava ali parado à frente dele, olhando com aqueles olhos escuros que agora Eduardo se apercebia. Percebia com um choque elétrico que percorreu todo o corpo, que tinham exatamente o mesmo formato dos olhos de Gabriel, a mesma curva, a mesma intensidade.

 Você, Eduardo olhou para o miúdo, depois para a certidão, depois para a foto. Você é filho do Gabriel. Miguel, porque agora O Eduardo sabia o seu nome. Miguel, o seu neto. Meu Deus, o seu neto. Assentiu devagar. A minha mãe disse que sim, que o meu pai era o Gabriel, que era de família rica que vivia longe, que ela não lhe quis contar sobre mim porque tinham brigado.

 A voz do menino saía baixa, monótona, como quem recita uma história tantas vezes contada, que já perdeu o peso emocional. Ela disse que era muito novo, que ia estragar a vida dele. Então, ela desapareceu. Foi morar com a minha avó aqui longe, no bairro da Muca. trabalhou de empregada de limpeza até eu nascer.

 Eduardo sentiu as pernas cederem. Deixou-se cair de joelhos no chão de saibro, a certidão de nascimento ainda apertada entre os dedos. Pequenas pedras cortaram a pele através da calça social cara, mas ele não sentiu nada. Apenas um vazio imenso, abissal que se abria dentro do peito. O Gabriel tinha um filho. Gabriel fora pai e morrera sem o saber. ou sabendo não.

 A certidão dizia março de 2017, Gabriel falecera em outubro de 2018, um ano e meio depois. Se soubesse, teria dito alguma coisa. Teria ou não teria? Eduardo lembrou-se das discussões, das expectativas, de quantas vezes dissera a Gabriel que precisava de se focar nos estudos, que Os relacionamentos sérios eram distração, que havia tempo para estas coisas depois de se formar.

 Depois de entrar na empresa, depois de estar estabelecido, sempre depois, Gabriel tentara contar aquele ano, 2016. Pai, preciso de falar consigo sobre uma coisa importante. E Eduardo respondera o quê? Depois, Gabriel, estou no meio de uma negociação crucial. A gente conversa no fim de semana. Só que no fim de semana tinha surgido outra coisa e depois outra.

 e outra, até que Gabriel deixara de pedir para conversar. “A minha mãe morreu quando tinha sete”, continuou Miguel, a voz ainda plana. Foi atropelada quando regressava do trabalho. A minha avó criou-me mais dois anos, mas depois teve um AVC. Morreu dormindo. Ele pontapeou outra pedrinha, as mãos enfiadas nos bolsos.

 Os vizinhos queriam colocar-me no abrigo. Eu fugi. É melhor na rua do que lá. Eduardo ergueu os olhos para o menino, para o Miguel, o seu neto, o filho de Gabriel, e viu o sujidade nas roupas, os ténis rasgados, o cabelo despenteado. Viu as marcas escuras de cansaço sobre os olhos, viu a magreza dos braços das bochechas fundas.

 10 anos a viver nas ruas, sozinho. Há quanto tempo sabe que o Gabriel era o seu pai? Eduardo conseguiu perguntar a voz saindo em frangalhos. sempre soube. A minha mãe falava dele, dizia que era bonito, inteligente, bondoso, que ela o amava, mas não podia estragar-lhe a vida. Miguel tirou a mão do bolso e apontou para o túmulo de Gabriel.

 Quando ela morreu, a minha avó trouxe-me aqui uma vez, mostrou onde estava. Disse que o meu pai tinha morrido num acidente que eu devia saber. Desde então tenho vindo todos os dias. Todos os dias. Uma criança de 10 anos a viver nas ruas, vindo ao cemitério todos os dias falar com o pai morto que nunca conheceu.

 O Eduardo sentiu algo quente escorrer pelo rosto. Demorou para perceber que eram lágrimas. “Por que vieste falar comigo hoje?”, ele sussurrou. “Porquê agora?” Miguel encolheu os ombros, mas havia algo diferente no olhar, algo semelhante a esperança ou o medo ou as duas coisas. Porque tu és o meu avô e eu não tenho mais ninguém.

 Já viveu algo assim? Já descobriu um segredo de família que mudou tudo? Conta aqui nos comentários. Quero muito ler a sua história. Eduardo permaneceu de joelhos no chão de cascalho, as lágrimas escorrendo pelo rosto, sem que este fizesse qualquer esforço para as esconder. A certidão de nascimento tremia entre os seus dedos. Miguel Souza Almeida, neto, seu neto.

Eu, ele tentou falar, mas a voz tornou-se partiu. Engoliu em seco, tentou de novo. Eu não sabia. O Gabriel nunca me contou. Ele tentou, acho eu, mas nunca ouvi de verdade. Miguel permaneceu imóvel, os braços cruzados sobre o peito magro, como quem se protege de um golpe que pode vir a qualquer momento.

 “Você é rico, não é?” A voz do menino saiu cautelosa, testando terreno desconhecido. A minha mãe dizia que a família do meu pai tinham muito dinheiro, que viviam numa mansão. Eduardo sentiu-a devagar, incapaz de falar. Então, por que razão você deixou-o morrer sem saber de mim? A pergunta surgiu como uma facada, simples, direta, devastadora.

Eduardo sentiu o chão abrir-se sob ele porque era verdade, verdade absoluta, brutal, incontornável. Deixara Gabriel morrer sem saber que tinha um filho, sem saber que havia deixado algo real, algo verdadeiro neste mundo, porque estava demasiado ocupado construindo um império, demasiado ocupado para ouvir, demasiado ocupado para ver que o filho estava a pedir ajuda, a pedir atenção, pedindo apenas que o pai olhasse para ele. De verdade.

 Eu não sabia, Eduardo sussurrou, mas até para ele as palavras soavam vazias. Eu não sabia que existias tu, mas sabias que o meu pai estava a sofrer? Eduardo ergueu os olhos. Miguel encarava-o com aquela intensidade antiga, demasiado velha, para um rosto de 10 anos. Sabia que ele queria falar consigo, que ele precisava de si? A voz do menino não tinha raiva, tinha algo pior.

 Tinha compreensão. A minha avó contou-me. disse que a minha mãe chorava porque o Gabriel ligava-lhe dizendo que o pai dele não tinha tempo, que estava sempre viajando, que quando tentava falar de coisas importantes, desligava-se o telefone porque havia uma reunião. Cada palavra era uma lâmina, abrindo feridas que Eduardo passara 5 anos a tentar ignorar.

 Fechou os olhos, mas as memórias vieram mesmo assim. Gabriel ligando a meio de uma apresentação para investidores. “Pai, preciso mesmo de falar contigo.” E Eduardo a responder apressado. Agora não dá, filho. Ligo depois. Só que depois nunca chegava. Gabriel aparecendo no escritório sem avisar. Pai, tem uma coisa que precisa de saber.

 E Eduardo dizendo: “Marca com a minha secretária. Estou no meio de um processo de fusão. Como se o filho fosse mais um compromisso na agenda.” Gabriel a enviar mensagens, a ligar tarde da noite, esperando na sala quando O Eduardo chegava de viagem. E Eduardo sempre com pressa, sempre com algo mais urgente, prometendo sempre que depois, depois, depois, até que não houve mais depois.

 Ele morreu, pensando que você não se importava, disse Miguel. E não era acusação, era apenas um facto. A minha avó disse que a minha mãe soube do acidente pelos jornais. disse que o O Gabriel regressava de uma festa, que tinha bebido, que bateu com o carro numa noite de chuva. O menino fez uma pausa, mas ela também disse que a minha mãe sempre achou que não foi só um acidente, que ele estava conduzir demasiado rápido, perigoso demais, como quem não quer saber se vai viver ou morrer.

 Eduardo sentiu algo se estilhaçar dentro do peito, porque ele sabia. sempre soubera no fundo onde não tinha coragem de olhar. Gabriel não fora embriagado para o carro nessa noite por acidente, fora depois de mais uma discussão, a última discussão. Eduardo gritando que o filho era irresponsável, imaturo, que precisava de crescer e parar de desperdiçar oportunidades.

 E Gabriel gritando de volta pela primeira vez na vida, dizendo que o Pai nunca estivera presente, nunca se tinha importado, nunca o conhecera de verdade. “Você não é meu pai”, dissera Gabriel, com a voz entrecortada. “É apenas o homem que assina os cheques.” E Eduardo respondera a pior coisa que poderia ter dito.

 “Então, talvez precise de aprender a viver sem os cheques.” Gabriel saira batendo a porta, entrara no carro. E três horas depois o telefone tocara. Eduardo nunca o contara a ninguém, nem à esposa, nem à polícia, nem a si mesmo na maioria das noites. Mas agora, ajoelhado diante do filho de Gabriel, perante o neto que nunca conhecera, não conseguia mais fugir.

 “A culpa foi minha”, – sussurrou Eduardo, com a voz rasgada. Ele morreu por minha culpa. Miguel ficou em silêncio durante um longo momento. O vento soprava entre os túmulos, transportando folhas secas e o som distante do corta-relva. Depois, o menino deu um passo em frente e outro, até ficar mesmo à frente de Eduardo. “A minha avó ensinou-me uma coisa antes de morrer”, disse Miguel baixinho.

 Ela disse que não podemos mudar o que já aconteceu, mas pode escolher o que faz agora. Eduardo ergueu o rosto molhado de lágrimas. “O meu pai morreu sem te conhecer verdadeiramente”, continuou Miguel, a voz a tremer pela primeira vez. “E eu estou vivo aqui na frente de ti e tu pode escolher.

 Pode ir embora, voltar para o seu carro preto e fingir que nunca viu-me.” Os olhos do menino brilhavam húmidos. “Ou pode ficar.” Eduardo olhou para aquele rapaz, magro, sujo, sozinho, mas com os olhos de Gabriel. com a testa de Gabriel, com aquele jeito de inclinar a cabeça que era exatamente igual ao do filho.

 Todo o dinheiro do mundo, todos os negócios, todas as reuniões e compromissos urgentes, de de repente pareciam cinzas. Nada, menos que nada. Aqui estava a única coisa real que Gabriel deixara, a única coisa que importava. Eduardo estendeu a mão trémula. Fica comigo”, sussurrou, a voz a quebrar completamente. “Por favor, deixa-me arranjar isto.

 Me deixa ser o avô que o teu pai merecia ter como pai”. Miguel olhou para a mão estendida, hesitou. Por um segundo terrível, Eduardo pensou que ele fosse recusar. Mas depois o menino colocou a sua mão pequena e suja na dele e Eduardo o puxou para um abraço. O menino ficou rígido por um instante, depois derreteu, os braços magros a envolver o pescoço de Eduardo, o corpo pequeno, a tremer, com soluços silenciosos.

 E Eduardo segurou-o como deveria ter segurado. Gabriel segurou como se pudesse de alguma forma impossível corrigir todos os erros, recuperar todo o tempo perdido. Ali, entre os mortos, algo renasceu. Se esse momento arrepiou-te tanto quanto a mim, deixa já o teu like. Essa história ainda não terminou. Eduardo não sabia há há quanto tempo estava ali, ajoelhado no chão de cascalho, abraçado àquele menino que tremia nos seus braços.

 Podia ser um minuto, podia ser uma hora. O tempo perdera o significado, dissolvido em lágrimas e silêncio, e no cheiro de terra molhada, misturado com o odor do suor infantil, e roupas que tinham sido lavadas poucas vezes em demasia. Quando finalmente se separaram, Eduardo passou as costas das mãos pelo rosto, tentando limpar as marcas da emoção.

Miguel fez o mesmo, envergonhado, limpando o nariz com a manga surrada da t-shirt. “Tens fome?”, Eduardo perguntou, com a voz ainda rouca. Era uma pergunta idiota, óbvia. É claro que o menino estava com fome. Provavelmente estava sempre com fome. Miguel deu de ombros, mas o seu estômago respondeu com um ronco audível.

 O miúdo baixou os olhos, as bochechas coradas. Eduardo sentiu uma pontada aguda no peito. Levantou-se lentamente, os joelhos protestando, as calças sociais manchadas de terra e pequenas pedras cravadas no tecido caro. Estendeu a mão a Miguel. Anda, vamos sair daqui. O menino hesitou, olhando para o túmulo do pai, depois para o túmulo de Gabriel, como se necessitasse de permissão, como se estivesse a deixar algo importante para trás.

 A gente volta, disse o Eduardo suavemente. Prometo. Vamos voltar toda a quinta-feira, se quiser, juntos. Algo mudou no rosto de Miguel. Uma tensão que Eduardo nem sequer se apercebera que estava ali dissolveu-se. O menino pegou a sua mão. Caminharam em silêncio entre os túmulos, pisando folhas secas que estalavam sob os pés.

 Eduardo guiou Miguel até ao Mercedes preto estacionado no portão lateral. Quando destravou as portas, o menino parou, olhando para o carro com uma expressão estranha. “Nunca andei num carro assim”, Miguel sussurrou. Eduardo sentiu algo se apertar na garganta, abriu a porta do passageiro. Entra. Vamos comer alguma coisa primeiro.

 Depois a gente a gente vai resolver as outras coisas. Miguel entrou devagar, tocando no banco de couro com reverência, como quem toca algo sagrado que pode quebrar. O Eduardo fechou a porta com cuidado e rodeou o carro entrando pelo lado do condutor. Suas mãos tremiam quando colocou a chave na ignição.

 O que estava ele a fazer? O que viria agora? Ele não sabia cuidar de criança, não soubera cuidar nem do próprio filho. Como poderia cuidar de um neto que aparecera do nada, traumatizado, vivendo nas ruas, carregando segredos e dores que Eduardo mal conseguia compreender? Mas ao olhar para o Miguel, demasiado pequeno naquele banco, demasiado sujo para aquele interior imaculado, demasiado perdido para este mundo brutal, Eduardo soube que não tinha escolha. Não, de verdade.

 Isso não era sobre se sabia o que fazer, era sobre fazer de qualquer maneira. “Você gosta de panquecas?”, perguntou Eduardo ligando o motor. Miguel virou-se para encará-lo, os olhos arregalados. “Nunca comi, nunca comeu panquecas. 10 anos de vida e nunca comer a panqueca. Eduardo respirou fundo, apertando o volante até os nós dos dedos ficarem brancos.

 “Então vamos comer panquecas”, disse, a voz firme pela primeira vez nessa manhã. Conheço um lugar. Fazem as melhores panquecas da cidade. Conduziu em silêncio pelas ruas ainda vazias da manhã de quinta-feira, desviando-se do trânsito ligeiro, seguindo no automático até ao pequena cafetaria americana que ficava a 15 minutos do cemitério.

Era um lugar que ele costumava frequentar com o Gabriel quando o menino era pequeno antes das viagens, antes do império, antes de tudo se desmoronar. estacionou à frente, desligou o motor, ficou ali sentado por um momento, olhando através do pára-brisas para a fachada vermelha e branca. “O meu pai vinhas aqui?”, perguntou o Miguel baixinho.

E o Eduardo percebeu que o menino estava olhando para ele, lendo algo na sua expressão. “Vinha quando era pequeno. Ele adorava as panquecas de chocolate com morangos”. Eduardo sorriu, mas era um sorriso dorido. Pedia sempre três pilhas. Nunca conseguia terminar, mas pedia sempre três. Miguel ficou em silêncio, absorvendo essa informação como se de um tesouro precioso se tratasse.

Pedaços do pai que nunca conhecera. Vai contar-me mais coisas sobre ele? A voz saiu hesitante, cheia de esperança frágil. Eduardo virou-se para o neto, para o Miguel, para o menino que tinha os olhos de Gabriel, o rosto de Gabriel, o direito de conhecer o Gabriel. Vou contar tudo o Eduardo prometeu. E pela primeira vez em 5 anos, sentiu que tinha algo real para oferecer.

 Não dinheiro, não sucesso, mas memórias, histórias, pedaços de um filho que vivera e amara e deixara algo precioso para trás. Vou-te contar tudo sobre o seu pai, as coisas boas e e as coisas que fiz mal também. O Miguel assentiu lentamente. Depois, com uma timidez que partiu o coração de Eduardo, perguntou: “E vais? Tu vai deixar-me ficar?” A pergunta veio carregada de tanto medo, tanta história de abandono e rejeição, que Eduardo sentiu as lágrimas voltarem, mas não as deixou cair. Não agora.

 Agora ele precisava de ser forte. Precisava de ser o que nunca fora para Gabriel. Vou, Eduardo disse. E era uma promessa, um voto. Você não vai voltar para a rua nunca mais. Você é o meu neto, tu és família e eu vou cuidar de si, mesmo que não saiba muito bem como fazer isso ainda. Ele estendeu a mão.

 Miguel pegou nela, apertando com força. Anda, vamos comer e depois descobrimos o resto junto. Saíram do carro. Eduardo colocou a mão no ombro magro de Miguel enquanto entravam na cafetaria, sentindo o peso mínimo daquele corpo franzino, aquele menino que tanto carregava, sobrevivera a tanto e ainda assim encontrara coragem para estender a mão.

 Lá dentro, o cheiro de café fresco e massa doce envolveu-os. A empregada de mesa olhou com estranheza para o homem de fato caro e o menino de rua, mas Eduardo não se importou. Pediu uma mesa no canto. Pediu três pilhas de panquecas de chocolate com morangos. O Miguel comeu devagar no início, depois com fome desesperada lambuzando o rosto.

Eduardo observou o coração apertado e ao mesmo tempo, mais leve do que estivera em anos. Isso não corrigia nada. Não trazia Gabriel de volta. Não apagava 5 anos de quintas-feiras solitárias no cemitério, mas era um começo. Se essa parte tocou-te de verdade, podes apoiar o nosso canal com um super thanks. Isso faz toda a diferença para nós continuar a contar histórias como esta.

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