MILIONÁRIO encontra GAROTA DE RUA na VARANDA onde Filho Morreu—”Foi aqui que ele me SALVOU”

Foi aqui que ele me salvou. Eduardo Monteiro sentiu o sangue gelar antes mesmo de processar de onde vinha a voz. Três anos. Tr anos desde que mandara trancar aquela porta. Tr anos evitando o corredor do segundo andar, fingindo que a varanda já não existia. Mas ali estava ele com a chave que arrancou do cofre há minutos, empurrando a porta de madeira que resistiu antes de ceder com um gemido.
A menina estava de pé, encostada ao parapeito de vidro, 12, talvez 13 anos. Roupas que já foram de outra pessoa, rasgadas nos joelhos, sujas de uma sujidade que vende dias sem banho, cabelo apanhado num rabo de cavalo desfeito, pés descalços, calejados, com unhas escuras de terra, nos braços arranhões recentes. Ela segurava uma mochila poída contra o peito, olhando para ele sem medo, sem vergonha, apenas cansaço.
Eduardo deu um passo atrás instintivamente. Como entrou aqui? Pela janela do casa de banho do primeiro andar. A voz era firme para alguém tão pequeno. Estava aberta. O trinco está avariado faz tempo. Ele devia chamar a polícia. Deveria gritar por Luía, a criada que chegaria em meia hora. Mas algo no jeito que ela olhava para a varanda, como se estivesse a visitar um túmulo, o fez hesitar.
Conhecia o meu filho? Não era pergunta. Ela assentiu lentamente. Rafael, ele deu-me comida quando eu estava a passar fome na praça da igreja. Três vezes, sempre escondido, como se tivesse a fazer algo errado. Ela abriu a mochila e tirou um caderno velho com a capa já a soltar-se. Ele deu-me isso também. Disse que era importante eu escrever, que ajudava a organizar os pensamentos.
Eduardo reconheceu o caderno. Tinha comprado uma dúzia deles para Rafael quando o filho entrou na terapêutica, dois anos antes de morrer. O terapeuta tinha sugerido journaling. Rafael detestou a ideia, ou pelo menos era aquilo que o Eduardo pensava. Por que razão está aqui? A sua voz saiu mais dura do que pretendia.
Tomy, ele ainda não sabia o nome dela, puxou algo de dentro do caderno, uma folha dobrada, amarelada nas bordas. Porque ele escreveu isto uma semana antes de morrer e precisava que lesse. O Eduardo pegou no papel com mãos que tremiam mais do que gostaria de admitir. A letra era de Rafael, sem dúvida, mas a caligrafia estava apressada, irregular, diferente da habitual.
Se me acontecer alguma coisa, Ana vai trazer-lhe este caderno. Não ignora-a. Sei que vai parecer loucura, mas precisa de acreditar nela. Tem pessoas a usar o meu nome para fazer coisas que te vão destruir, pai. Coisas na empresa. Eu tentei resolver sozinho, tentei protegê-lo, mas ficou grande demais. Perdoa-me por não ter contado antes. Perdoa-me por ter sido fraco.
Te amo. Sempre te amei. Mesmo quando você não tinha tempo. O papel tremeu na mão de Eduardo. Leu de novo e de novo. Cada palavra era uma faca lenta e precisa. Ele não se matou. A Ana disse quebrando o silêncio. Eu sei que foi isso que tu pensou. Todos pensaram, mas ele não fez isso.
Eduardo levantou os olhos, a garganta demasiado apertada para formar palavras. Eu vi alguém aqui naquela noite antes de ele morrer. Ela apertou a alça da mochila. E tenho medo que se eu contar, essa pessoa venha atrás de mim também. A luz da manhã entrava pela varanda, iluminando o pó suspenso no ar.
Eduardo olhou para a menina, magra, suja, assustada, mas de pé, e depois para a carta nas próprias mãos. Três anos a construir uma narrativa, três anos a carregar culpa e agora tudo o que ele pensava que sabia estava desmoronando. “Como te chamas?”, perguntou a voz fraca. “Ana. Ana.” Ele repetiu como se estivesse a testar o peso da palavra. “Precisas de me contar tudo” desde o começo.
Ela hesitou, os olhos movendo-se para a porta atrás dele, calculando vias de fuga. Você vai acreditar em mim. O Eduardo não sabia. Não sabia mais em que acreditar, mas olhou para a carta de novo, para a letra desesperada do filho morto e assentiu. Vou tentar. Ana sentou-se no chão da varanda, a mochila ao lado.
Eduardo puxou a única cadeira que ali restava, a mesma onde Rafael costumava sentar-se, e esperou. A menina respirou fundo três vezes antes de começar. Conheci o Rafael há uns seis meses antes de ele morrer. Eu estava na praça perto da igreja tentando pedir alguma coisa e toda a gente passava reto. Parou, perguntou-me se eu tinha comido. Eu menti, disse que sim.
Ele não acreditou. Ela olhou para as próprias mãos. Regressou 20 minutos depois com dois sanduíches e uma garrafa de sumo. Sentou-se ao meu lado e comeu um também para eu não me sentir, não sei, envergonhada, eu acho. Eduardo sentiu algo contrair-se no peito. Rafael nunca tinha mencionado nada disso.
Depois voltou mais duas vezes, sempre comida. Na terceira vez me deu este caderno. Disse que escrever salvou-o quando estava no fundo, que se quisesse, também podia tentar. Ana passou a mão pela capa gasta. Eu não sabia escrever corretamente. Ele disse que não importava, que era só para mim mesma. E a última vez que ouviu, Eduardo forçou a pergunta.
A Ana fechou os olhos. Foi numa terça-feira. Ele estava diferente, nervoso, a suar frio, mesmo sem estar calor. Deu-me um envelope com dinheiro, não muito, uns R$ 200, e disse que precisava de desaparecer por um tempo, ir para outro bairro, longe daqui. Ela abriu os olhos e havia lágrimas acumuladas. Eu perguntei porquê.
Ele não respondeu direito. Só disse que tinha feito algo de errado e que ia reparar, mas que era perigoso. Que dia foi isso? 7 de agosto. Eduardo sentiu o estômago revirar. Rafael faleceu no dia 12, c dias depois dessa conversa. Eu não fui embora. Ana continuou a voz a tremer. Eu devia ter ido, mas não fui.
Eu fiquei na praça a dormir debaixo do banco e na noite do dia 12 vim aqui. Por quê? Porque tinha medo. Medo que ele fizesse alguma asneira. Ele estava tão, tão perdido naquele dia. Ela limpou as lágrimas com o punho da blusa. Subi pela árvore, tal como ele me tinha mostrado uma vez quando me trouxe aqui para me dar um cobertor.
Quando cheguei perto da varanda, vi a luz acesa. O Eduardo se inclinou-se para a frente. E o que você viu? O Rafael estava aqui, mas não estava sozinho. A Ana apontou para o canto oposto da varanda. Tinha um homem alto, cabelo grisalho, fato escuro. Eles estavam a discutir baixo, mas dava para sentir a raiva no ar. Ouviu o que falavam? Pedaços.
O homem falava sobre os depósitos, sobre contas que não batiam. Dizia que Rafael tinha assinado tudo e que agora ia ter de terminar o serviço. Ana engoliu em seco. Rafael chorava. Eu nunca tinha visto um homem adulto a chorar daquele jeito. Ele implorava, dizia que não queria mais, que lhe ia contar. O Eduardo sentiu o coração acelerar.
E o que o homem disse? Ele disse: “Se contar ao o seu pai, eu destruo-o. Destruoa a empresa, a reputação, tudo. Você vai ser responsável por acabar com a vida que ele construiu. É isso que quer?” O silêncio que se seguiu era denso como concreto. E então, o Eduardo sussurrou. Então, o homem foi-se embora, desceu pela escada interior.
O Rafael ficou aqui sozinho, a chorar. Eu quase desci da árvore para falar com ele, mas tive medo. A voz de Ana quebrou. Esperei uns 10 minutos. O Rafael entrou em casa. Eu ia embora, mas depois ela parou tremendo inteira. Então o quê, Ana? Então vi o homem voltar. As lágrimas desciam agora sem controlo. Ele entrou de novo pela porta da cozinha. Ele tinha chave e eu ouvi.
Eu ouvi o Rafael gritar. E depois, silêncio. Eduardo levantou-se tão depressa que a cadeira caiu para trás com estrondo. Está a dizer que alguém matou o meu filho? A Ana assentiu soluçando. Quem era o homem? Reconhecê-lo-ia? Eu? Ana abriu a mochila com as mãos trémulas e tirou um telemóvel velho à tela rachada.
Tirei uma foto com zoom. A câmara é mau, mas dá para ver o rosto. Eduardo pegou no telefone. A imagem estava granulado, escuro, mas o perfil era inconfundível. O relógio dourado no pulso, a cicatriz fina acima do sobrancelha esquerda. Roberto Sales, seu sócio há 20 anos. Se esta história te apanhou até aqui, subscreva o canal.
O que vem a seguir vai mudar tudo o que pensava que sabia. O Eduardo não dormiu. Como poderia? Passou a noite fechado no escritório, Ana a dormir no sofá ao lado, enquanto lia cada página do caderno do Rafael. Cada palavra era uma confissão silenciosa de um filho que tentou proteger o pai e acabou por se perder no processo.
As entradas começavam inocentes. Rafael descrevia o estágio na empresa de construção, o orgulho de trabalhar ao lado do pai, a excitação de finalmente fazer parte de algo real. Depois, as anotações mudaram de tom. O Tio Beto pediu-me para assinar uns documentos hoje. Disse que era procedimento padrão, que o pai estava demasiado ocupado.
Eu assinei, nem li direito. Agora tenho medo de ter feito algo errado. Três semanas depois, Descobri que as contas que assinei eram fantasmas, empresas que não existem, dinheiro a ir para lugares que não fazem sentido. Confrontei o tio Beto. Ele riu. Disse que eu já estava dentro e que era melhor estar quieto se não quisesse afundar o pai junto.
O Eduardo teve que deixar de ler. As mãos tremiam tanto que as letras borravam. O Roberto estava usando Rafael para lavar dinheiro através da empresa construtora e o filho, com medo de destruir o pai engoliu o terror sozinho. Quando o sol nasceu, o Eduardo já tinha um plano. Não era bom, não era seguro, mas era a única coisa que fazia sentido. Ana, acorda.
Ele tocou no ombro dela gentilmente. A menina saltou do sofá como se tivesse levado um choque, os olhos arregalados. Reflexo de quem dormiu na rua demasiado tempo. Desculpa-me, não queria assustá-lo. Eduardo recuou. Preciso que me ajude com algo, mas é perigoso. Se não quiser, eu compreendo. A Ana esfregou os olhos.
O que é que quer que eu faça? Preciso de provas. A foto não é suficiente. O caderno é a palavra de um morto contra um vivo. Advogados vão destruir isso. Eduardo respirou fundo. Rafael escreveu sobre um lugar, um barracão no porto, onde guardam os documentos reais. Quer invadir? Quero recuperar o que é meu, o que o meu filho arriscou a vida tentando proteger.
O Eduardo olhou-a nos olhos, mas eu preciso de alguém pequeno, alguém que consiga entrar por espaços que eu não consigo. A Ana ficou em silêncio durante um longo momento. Se eu fizer isso, você promete proteger-me depois, porque se a gente falhar, este homem vai matar-me. Eu prometo. Eduardo estendeu a mão.
E eu não falho nas minhas promessas. Ana apertou-lhe a mão. A palma era pequena, áspera, calejada. Mão de criança que nunca deveria ter precisado de crescer tão rápido. Chegaram ao porto às 3 da manhã. Eduardo estacionou longe, num beco onde a luz dos postes não chegava. O galpão 14 era uma estrutura metálica enferrujada, rodeada por contentores empilhados de forma caótica.
Não havia guardas visíveis, mas três câmaras cobriam os acessos principais. Aí, a Ana apontou para um duto de ventilação lateral. Consigo passar por ali. Eduardo olhou para a conduta. Estreito, escuro, provavelmente cheio de sujidade e bichos. Tem a certeza? Já passei por piores. Ela tirou da mochila uma pequena lanterna e um canivete.
Se eu não voltar em 20 minutos, vai-se embora. Não te vou deixar aqui. Se for apanhado, ninguém conta a história do Rafael. A Ana começou a subir pela estrutura lateral. Vai-se embora se der merda, promete. O Eduardo não prometeu. A Ana desapareceu dentro da conduta. Eduardo ficou parado, a olhar para o buraco negro onde ela entrou, contando os segundos.
O vento frio do mar trazia cheiro a sal e a gasóleo. Cada ruído, metal a ranger, gato a miar longe, carro passando na avenida paralela, fazia o seu coração disparar. 16 minutos. 17 18. A cabeça da Ana apareceu no oleoduto. Ela acenou. Eduardo correu. Ela deslizou de volta com uma pasta debaixo do braço. Caiu no chão com um baque surdo, mas levantou-se rapidamente.
Consegui. Ela ogava. Tem coisa para caramba lá dentro. Peguei no que parecia mais importante. Eles correram de volta pro carro. Eduardo ligou o motor e saiu lentamente, sem acender os faróis até estar três quarteirões longe. Só então ele respirou. A Ana abriu a pasta no banco do passageiro.
Contratos, transferências bancárias, nomes de políticos, empresários, juízes, valores absurdos. E no meio de tudo, várias assinaturas de Rafael forjadas, todas forjadas. A caligrafia era semelhante, mas não exata. Será que é suficiente?”, perguntou Ana. Eduardo olhou para os documentos, para o menina ao lado, para o caminho em frente.
Vai ter de ser. “O que faria no lugar do Eduardo? Confiaria na polícia ou procuraria justiça de outra forma?” Deixa nos comentários. Quero muito ler. O Eduardo não foi à polícia? Não, ainda, porque sabia que o Roberto tinha contactos por todo o lado, delegados, procuradores, talvez até juízes.
Se entregasse as provas diretamente, poderiam desaparecer antes de chegar onde importava. Ele precisava de algo público, irreversível, algo que não pudesse ser apagado. Foi a Ana quem deu a ideia. Manda para a imprensa, manda para vários de uma só vez. Quando está em todo o lugar, ninguém consegue esconder. E foi o que fizeram.
Eduardo digitalizou cada página da pasta, cada página do caderno do Rafael, criou uma conta de e-mail anónima e enviou tudo para 15 jornalistas de investigação diferentes, grandes veículos, blogues independentes, até canais de YouTube especializados em denúncias. Três dias depois, a bomba explodiu. A manchete do maior jornal do país.
A Construtora Monteiro usada para lavar dinheiro, filho do proprietário, foi morto após descobrir esquema. O telefone de Eduardo tocou sem parar. Jornalistas, advogados, a Polícia Federal. Mas ele não atendeu nenhum. Ficou em casa com Ana à espera, à espera do Roberto aparecer. E ele apareceu. A campainha tocou às 9 da noite.
Eduardo olhou pela câmara de segurança. O Roberto estava sozinho, sem o fato, usando calças de ganga e camisa social. Parecia 10 anos mais velho do que há uma semana. “Fica no quarto, o Eduardo” disse para a Ana. “Tranca a porta, não saia até o chamar”. Ela hesitou, mas obedeceu. Eduardo abriu a porta.
Roberto entrou lentamente, as mãos nos bolsos. Ele não olhou em redor, apenas ficou parado no meio da sala, os ombros caídos. Você destruiu tudo. A voz dele era rouca, cansada. 20 anos, tudo que construímos acabou. Você matou o meu filho. O Eduardo não gritou. Não precisava. Cada palavra carregava o peso de 3 anos de dor. Eu não queria.
Roberto finalmente olhou para ele e nos olhos havia algo que podia ser remorço ou apenas autocomiseração. O Rafael ia falar, ia destruir tudo. Eu tentei fazê-lo compreender, mas ele era teimoso, tal como você quando é jovem. Tinha 17 anos. Ele era fraco. Roberto passou a mão pelo rosto. Eu só eu só queria assustá-lo, fazê-lo compreender as consequências, mas ele começou a gritar, a dizer que ia ligar para si naquele momento.
E eu Ele parou a voz falhando. Eu empurrei-o só para lhe calar a boca. Não pensei que ele ia cair daquela maneira, que ia bater a cabeça no parapeito. O Eduardo sentiu o chão desaparecer debaixo dos pés. Você tá dizendo que foi um acidente? Foi. Roberto olhou para as próprias mãos como se não as reconhecesse.
Mas depois que aconteceu, eu sabia que ninguém ia acreditar. Então arranjei a cena, fiz parecer suicídio. O silêncio que se seguiu durou uma eternidade. “Podias ter-me contado”, Eduardo sussurrou. Naquele dia, naquele momento, podia ter-me ligado, podia ter salvo alguma coisa. Ia acabar comigo de qualquer maneira, não da forma que vai acabar agora. As sirenes cortaram a noite.
Luzes azuis e vermelhas invadiram as janelas. Roberto não se mexeu, apenas fechou os olhos. “Gravou?”, ele perguntou. Eduardo apontou para o telemóvel na mesa de centro, o ecrã gravando. Cada palavra, Roberto Riu. Não tinha humor, apenas derrota. Você sempre foi mais esperto do que eu pensava. A polícia entrou.
Voz de ordem, mãos na cabeça, algemas. Roberto não resistiu. Deixou-se levar com a resignação de quem já sabia que este dia chegaria. Antes de sair pela porta, olhou para trás uma última vez. Desculpa-me, Eduardo, pelo que virei. O Eduardo não respondeu. A porta fechou-se. O o silêncio voltou e então a Ana saiu do quarto correndo até ele.
O Eduardo se ajoelhou-se e abraçou-a enquanto ela chorava. Chorava por Rafael, por ela mesma, por tudo o que nunca deveria ter acontecido. Se sentiu essa justiça a acontecer junto com a gente, se esse momento arrepiou-te, deixa o teu like agora. Isto mostra-nos que histórias como esta precisam de ser contadas. O julgamento começou 4 meses depois.
Eduardo testemunhou durante duas horas. Contou sobre o Rafael, sobre a Ana, sobre o caderno. Apresentou as gravações, os documentos, as provas. O promotor era jovem, idealista, determinado. A defesa tentou descredibilizar tudo. Chamou a Ana de testemunha não fidedigna. questionou a autenticidade do caderno, sugeriu que Eduardo estava emocionalmente comprometido. Não funcionou.
O Roberto foi condenado a 18 anos por homicídio culposo, seguido de ocultação de cadáver, branqueamento de capitais, formação de quadrilha. Outros 12 envolvidos foram presos. A construtora foi interditada, depois vendida. O Eduardo perdeu a empresa que construiu durante 20 anos. Ele não se importou.
Comprou um apartamento pequeno, três quartos, sala simples, cozinha que cabia uma mesa de quatro lugares, um edifício sem portaria 24 horas, sem elevador espelhado, sem hall de mármore. A Ana escolheu o quarto com a janela que dava para uma praça. Disse que gostava de ver crianças a brincar. Ela estava matriculada numa escola pública.
Eduardo tinha tentado colocá-la numa particular, mas a Ana recusou. Vou-me sentir esquisita ali. Todo o mundo com roupa de marca a falar de viagem para Disney. Nem sei bem como usar talher ainda. Ela não disse isso com autocomiseração, apenas como facto. Então, O Eduardo aceitou e descobriu que a escola pública tinha professores dedicados, diretora atenciosa, psicóloga que atendia a Ana duas vezes por semana.
Não era perfeito. A Ana teve crises de ansiedade nas primeiras semanas, pesadelos onde voltava paraa rua. Dias em que não conseguia sair da cama. O Eduardo aprendeu a não forçar. Aprendeu a sentar-se ao lado dela em silêncio. Aprendeu que, por vezes, a presença bastava. Também começou terapia. Demorou três meses para finalmente admitir em voz alta.
Eu não sabia ser pai e agora não sei se sei ser tutor. A terapeuta não deu respostas fáceis, apenas disse: “Ninguém sabe até tentar. E está tentando? Numa tarde de sábado, a Ana estava na sala a fazer lição de matemática. Eduardo preparava o almoço, nada elaborado, massa com molho de tomate, que era uma das cinco coisas que sabia fazer. A TV estava ligada numa estação de rádio que tocava música suave.
Senhor Eduardo A Ana chamou da sala. Só Eduardo. Está bom, Ana. Ele já tinha pedido isso dezenas de vezes. Eduardo? Ela corrigiu ainda estranhando a intimidade. Posso te perguntar uma coisa? Claro. Você se arrepende-se de ter ido atrás da verdade, de ter perdido tudo? Eduardo desligou o fogão, dirigiu-se ao sala, sentou-se no sofá, ao lado dela.
Eu perdi uma empresa, perdi dinheiro, perdi um sócio que eu pensava que era amigo. Ele olhou para ela, mas descobri quem o meu filho era verdadeiro. Descobri que era corajoso, mesmo com medo, que ele preocupava-se com pessoas que o mundo ignora. E conheci-te. fez uma pausa. Por isso não, não me arrependo.
A Ana mordeu o lábio, tentando conter as lágrimas. Tenho medo de não ser suficiente, de tu perceberes um dia que cuidar de mim é demasiado difícil e desistir. Ana, olha para mim. Eduardo esperou até ela levantar os olhos. Eu vou estragar. Muitas vezes. Vou dizer coisa errada, fazer coisa errada. Vou desiludir-te. Mas desistir, isso não faço.
Desisti do Rafael sem querer, por estar cego demais para ver. Não vou cometer o mesmo erro consigo. Ela atirou-se nos braços dele e chorou. E Eduardo segurou aquela menina, esta sobrevivente, esta pequena guerreira, e deixou-a chorar o quanto precisasse. Depois do almoço, a Ana pediu para ir à praça.
Sentaram-se num banco. A Ana escrevia no caderno que O Rafael tinha dado. Eduardo apenas observava as pessoas a passar. “Você achas que ele está orgulhoso?”, Ana perguntou de repente. “Rafael?” “É.” O Eduardo olhou para o céu. “Acho que sim. Acho que ele está aliviado, que finalmente pode descansar.
A Ana fechou o caderno e encostou a cabeça no ombro de Eduardo. Eu também acho. Se essa parte te tocou, se sentiu a ligação entre duas pessoas a tentarem reconstruir-se juntas, considere apoiar o nosso canal com um super thanks ou inscreva-se já se ainda não está inscrito. Isso fortalece-nos para continuar a contar histórias reais, histórias que precisam de ser ouvidas.
Um ano depois, Eduardo estava na varanda da casa nova. Não era a varanda de vidro da mansão. Era uma pequena varanda, com estendal de roupa e vasos de plantas que A Ana insistiu em cuidar. O sol da tarde entrava morno, confortável. A Ana estava na cozinha a fazer bolo de cenoura. Ela tinha descoberto que gostava de cozinhar, não porque precisasse, mas porque queria.
Dizia que era terapêutico. Eduardo não discordava. Ele próprio tinha começado a cozinhar. Queimou arroz 17 vezes antes de acertar. A Ana riu-se de cada uma. O caderno do Rafael estava guardado numa gaveta. Eduardo já não abria todo dia. A dor tinha-se transformado em algo diferente, não menor, mas mais suportável.
como uma cicatriz que não dói mais, mas que sabe que está ali. A Ana terminara o oitavo ano. Notas boas, sobretudo em redação. A professora disse que tinha uma sensibilidade rara, uma capacidade de transformar a dor em palavras. Eduardo emoldurou a redação que a Ana escreveu sobre Rafael. Estava na parede da sala. Tinha conseguido um emprego como consultor.
Ganhava um décimo do que ganhava antes, mas pagava as contas, colocava comida na mesa, guardava um pouco para o futuro. A Ana trabalhava meio período numa biblioteca aos sábados. Ganhava pouco, mas fazia questão de contribuir. Preciso de aprender a me sustentar, dizia. Eduardo respeitou. Naquela tarde, enquanto o cheiro a bolo enchia o apartamento, Eduardo pensou em quantas vidas cabem dentro de uma só vida.
Foi o empresário obsecado, foi o pai ausente, foi o viúvo em negação. E agora era o quê? Tutor, pai adotivo, amigo. Talvez não precisasse de nome. Bolo tá pronto. A Ana chamou da cozinha. Eduardo entrou. A mesa estava posta. Dois pratos, dois copos, guardanapos dobrados da forma torta que Ana fazia. O bolo tinha cobertura de chocolate que escorria para as laterais.
Hoje faz um ano”, disse Ana, cortando a primeira fatia. “Um ano de quê?” “Desde que eu entrei em sua casa pela janela, ela sorriu. Feliz aniversário de família, Eduardo.” Sentiu os olhos arderem. “Família? É.” Ela empurrou o prato com bolo na direção dele. Não é o tipo de família que aparece na TV, mas é a nossa. E eu gosto dela.
Eduardo provou o bolo. Estava bom. Não perfeito, mas honesto, feito com cuidado. Eu também Gosto, Ana. Também gosto. Você sabe, há uma coisa que esta história me ensinou. A gente passa a vida construir coisas, carreiras, reputações, patrimónios. E, por vezes, a vida destrói tudo isto num único momento e fica-se ali no meio dos escombros a pensar que acabou, mas não acaba, porque no meio dos escombros se pode encontrar algo que sempre esteve ali à espera.
Uma verdade, uma pessoa, um propósito que não tem a ver com quantos zeros tem na sua conta bancária. Eduardo não salvou Ana porque era um herói. Ele nem sabia como fazer, mas ele escolheu aparecer. Escolheu acreditar, escolheu ficar e às vezes é só isso que precisa. E você que ficou até aqui, que ouviu esta história inteira, você entendeu isso? Sentiu cada peso, cada escolha, cada pequeno recomeço e imperfeito.
Nem toda a história termina com tudo resolvido. Algumas terminam com duas pessoas, ainda a aprender como viver juntas, ainda cometendo erros, mas presentes, tentando. E talvez seja isso que importa no final. Obrigado por assistir até aqui. Sei que não foi fácil. Histórias assim nunca o são, mas elas precisam de ser contadas, porque em algum lugar alguém está a viver algo semelhante.
E saber que não está sozinho pode ser a diferença entre desistir e continuar. Se esta história tocou-o, tem outra te aguardando no próximo vídeo. Outra vida, outra verdade, outra oportunidade de sentir que não estamos tão sós quanto às vezes parece. A gente vê-se lá. M.















