MENINA DE RUA implora pelo FUNERAL do IRMÃO BEBÊ — a resposta do VIÚVO BILIONÁRIO vai te CHOCAR

A caixa de cartão ainda guardava o cheiro a sabão em pó, aquele aroma artificial de limpeza que nunca combinava com o local onde Sofia dormia. Ela tinha-a encontrado três semanas atrás atrás de uma lavandaria no centro e desde então aquela caixa se transformou no berço mais seguro que conseguiu dar ao irmão.
Por dentro, forrou com dois cobertores felpudos que uma senhora deixou num banco de jardim. Cobertores com estrelinhas amarelas que pareciam brilhar mesmo sob a luz fraca dos postes. Todas as noites, a Sofia acomodava Miguel ali dentro com um cuidado quase cerimonial. Ajeitava as dobras, verificava se não existiam insetos, passava a mão na lateral interna para ter a certeza de que nenhum grampo ou fiapo de metal podia arranhar a pele delicada do bebé.
Ele tinha quatro meses, olhos escuros que ainda pareciam tentar compreender o mundo, um sorriso desdentado que ela provocava fazendo caretas enquanto aquecia o biberão improvisada com água morna de um banheiro público. Ela nunca soube exatamente quando começou a sentir que ser mãe e irmã eram a mesma coisa. Talvez tenha sido no dia em que a própria mãe desapareceu seis semanas atrás, deixando apenas um bilhete amassado com três palavras: “Não consigo mais”. A Sofia tinha 12 anos.
O Miguel tinha 2 meses. E a resposta para aquilo tudo resumia-se a uma escolha que nem parecia escolha. Ou ela cuidava dele ou ninguém cuidaria. As manhãs começavam sempre do mesmo jeito. A Sofia acordava antes do sol. Verificava a respiração de Miguel, colocando a mão levemente sobre o peito minúsculo.
Esperava sentir o subir e descer reconfortante. Só depois disso é que ela se permitia respirar também. Depois vinha à rotina, pedir dinheiro na frente da padaria, juntar garrafas plásticas para trocar por moedas, negociar as sobras com o dono do restaurante japonês que tinha pena dela, mas nunca pena suficiente para oferecer ajuda de verdade.
Ninguém perguntava porque uma menina transportava um bebé enrolado em panos pelas ruas. As pessoas desviavam o olhar como se olhar de frente fosse admitir que aquilo existia, que uma criança que cuida de outra criança era possível, aceitável, ignorável. A Sofia aprendeu a interpretar esses silêncios. Sabia quando alguém ia dar esmola antes mesmo de a pessoa enfiar a mão no bolso.
Sabia quando vinha bronca, quando vinha o desprezo, quando vinha nada. Ela guardava cada moeda em uma lata de leite achocolatado que escondia dentro de uma fenda no muro perto da estação de metro. Contava o dinheiro toda a noite. Fazia contas mentais que aprendeu sozinha. Fraldas, leite em pó, toalhitas quando dava sorte. Nunca sobrava.
Nunca faltava o suficiente para sobrar. Era um equilíbrio impossível que ela mantinha através de milagres diários pequenos e silenciosos. O Miguel não chorava muito. Isso assustava a Sofia. Às vezes os bebés choravam, toda a gente sabia disso. Mas O Miguel era demasiado quieto, como se já tivesse compreendido que chamar a atenção não trazia comida, não trazia calor, não não trazia nada além de olhares incómodos.
Apenas observava o rosto da irmã com aqueles olhos encovados. E a Sofia se perguntava o que via quando olhava para ela, se via uma irmã, uma mãe ou apenas o único rosto que prometia continuar ali amanhã. Na última semana, algo mudou. O Miguel deixou de sorrir, deixou de reagir às caretas. A pele ficou demasiado quente, depois demasiado fria.
Sofia molhava panos em fontes públicas e colocava sobre a testa dele. Sussurrava promessas que não sabia se conseguiria cumprir. Rezava para santos, cujos nomes aprendeu a ouvir velhas na igreja, onde por vezes escondia-se da chuva. Quando deixou de respirar, foi no amanhecer de terça-feira, no mesmo cartão com cheiro a sabão em pó enrolado nos mantas com estrelinhas amarelas.
Sofia percebeu pelo silêncio, um silêncio diferente, permanente. E a única coisa em que ela conseguiu pensar, segurando o corpinho imóvel contra o peito, foi que o Miguel merecia mais do que aquela caixa de cartão como último lugar no mundo. A Sofia ficou parada por tempo demais. Não sabia se se tinham passados minutos ou horas desde que percebeu que o Miguel não acordaria mais.
O sol começou a subir, jogando às riscas de luz alaranjada sobre o cartão, onde ela ainda segurava o irmão contra o peito. O corpo já não tinha aquele calor que ela verificava sempre nas madrugadas. Agora era só peso, um peso demasiado pequeno para significar uma vida inteira. Ela precisava de fazer alguma coisa, sabia disso.
Mas todas as opções que me vinham à mente pareciam impossíveis ou perigosas. Levar o Miguel a um hospital significava perguntas. Perguntas levavam a assistentes sociais. Assistentes sociais levavam para abrigos separados, para famílias diferentes, para este tipo de destino que ela já tinha visto acontecer com outras crianças de rua.
E mesmo que nada disto importasse mais para o Miguel, importava para Sofia. Ela não podia simplesmente entregar o irmão como se ele fosse um problema a ser resolvido por estranhos. Foi quando viu a agência funerária. Sofia passava por aquele local quase todos os dias. Um edifício de dois andares com fachada cinzenta e uma porta de vidro escuro que parecia sempre fechada, mesmo quando estava aberta.
nunca tinha prestado atenção de verdade. Funerárias eram para pessoas que tinham famílias, documentos, apelidos em lápides de mármore. Não eram para um amigão de nascimento, sem registo, sem nada, para além de uma irmã que nem sabia o número do próprio CPF. Mas nessa manhã, com o corpinho do irmão enrolado na manta de estrelinhas, a Sofia parou no passeio em frente ao lugar.
Havia uma mulher de taur preto varrendo a entrada, cabelo apanhado num coque apertado, expressão cansada de quem já tinha começado o dia faz tempo. Quando se apercebeu de Sofia parada ali, parou de varrer e limitou-se a olhar. Não com pena, não como, apenas olhou. A Sofia deu dois passos em frente. A voz saiu rouca, quebrada por horas de choro silencioso.
Quanto custa enterrar um bebé? A mulher largou a vassoura lentamente, como se movimentos bruscos pudessem quebrar algo. Olhou para o embrulho nos braços de Sofia, para os pés descalços da menina, para o rosto marcado pela sujidade e lágrimas secas. Depois suspirou de um forma que parecia carregar o peso de muitas histórias parecidas.
“Entra, foi tudo o que disse. Dentro da funerária, tudo cheirava a flores artificiais e produto de limpeza. Havia cadeiras de veludo bordeaux alinhadas contra a parede, um balcão de madeira escura com folhetos sobre planos funerários, uma pintura de anjos que A Sofia achou meio assustadora. A mulher pediu-lhe que se sentasse, mas Sofia ficou de pé, segurando Miguel, como se sentar fosse uma traição.
Outro homem apareceu, mais velho, de fato preto, com uma gravata que devia ser cara. Não olhou para Sofia com nojo, mas também não olhou com bondade. Olhou com o tipo de neutralidade profissional de quem já tinha visto coisas a mais para se impressionar. Velório infantil básico com urna simples e enterramento em cemitério municipal. R$ 3.
200, disse foliando uma pasta. Isto sem flores naturais, sem vé, sem carro, só o essencial. R$ 3.200. A Sofia sentiu o chão desaparecer debaixo dos pés. A lata de leite achocolatado, onde guardava as moedas tinha 87$. Tinha contado na noite anterior. R$ 87 que custaram semanas de humilhação, de frio, de fome, e ainda faltavam 3.113.
[música] Eu não tenho. Sofia sussurrou. Mas posso conseguir. Só preciso de tempo. Preciso de rapariga. Sem pagamento adiantado não podemos fazer nada. O homem cortou sem crueldade, mas também sem compaixão. E há a questão da documentação. Certidão de óbito. Identidade da responsável legal. Responsável legal.
A Sofia tinha 12 anos. Não era responsável legal de ninguém, nem dela própria. Por favor, ela tentou de novo e a voz saiu-lhe num fio. Ele é meu irmão. Eu não posso deixá-lo. Eu não posso. A mulher do Tyer colocou a mão no ombro de Sofia, gentil, mas firme. Querida, volta quando tiveres o dinheiro.
A gente vai precisar de guardar o corpo no frigorífico até lá. Mas não pode ser muito tempo, percebe? Sofia entendeu. Entendeu que Miguel seria colocado num local frio e sozinho até que ela conseguisse dinheiro que nunca conseguiria. Compreendeu que o último gesto de amor que ela podia dar ao irmão custava 3.200$, que poderiam ser 3 milhões.
Ela saiu da funerária, ainda segurando Miguel. As ruas estavam agora cheias. Gente apressada com cafés descartáveis e fones de ouvido, ninguém a olhar para nada para além do próprio caminho. A Sofia sentou-se na calçada, encostou a cabeça à parede fria e fechou os olhos. Não sabia o que fazer, mas sabia que tinha até ao fim do dia antes de Miguel ser levado embora dela também.
A Sofia não voltou para o papelão nessa noite. Não conseguia. A ideia deitar Miguel de volta para aquela caixa, como se ele ainda fosse acordar a pedir leite, parecia pior do que qualquer outra coisa. Então ela caminhou, caminhou pelas ruas que conhecia de cor, com o irmão nos braços enrolado no cobertor, enquanto a cidade aos poucos acendia as suas luzes e se transformava numa outra versão de si mesma, mais barulhenta, mais embriagada, mais perigosa.
Ela precisava de dinheiro, muito dinheiro, rápido. A primeira coisa que tentou foi pedir, não como sempre pedia, com a mão estendida e os olhos baixos. Desta vez, a Sofia parou pessoas na rua, segurou mangas de casacos, forçou o contacto visual, contou a verdade crua. O meu irmão morreu.
Preciso de o enterrar com dignidade. Por favor, ajude-me. A maioria desviou-se com desconforto, alguns deram moedas. Um homem de fato deu uma nota de 50$ e disse: “Deus te abençoe”. Antes de desaparecer na multidão, ao ao fim de 3 horas, a Sofia tinha R$ 240. Ainda faltavam quase 3000. Foi quando lembrou-se do ferro velho.
O seu Anacleto era um homem sem idade definida, com mãos grandes e uma voz que parecia sair de dentro da terra. Ele comprava metal, plástico, vidro, tudo o que pudesse ser revendida ou derretida. A Sofia já lhe tinha vendido coisas antes. Carrinhos de supermercado abandonados, fios de cobre que encontrou nas construções, uma vez até um portão de ferro que estava caído num terreno baldio.
Anacleto nunca perguntava de onde vinham as coisas, apenas pesava, calculava e pagava. Mas agora Sofia não não tinha nada para vender, exceto uma ideia desesperada. O Sr. Anacleto ela começou a voz trémula enquanto mexia numa pilha de radiadores velhos. Preciso de um empréstimo ele deixou de mexer. Virou lentamente, olhou para ela e depois para o embrulho nos braços dela.
Não era idiota. Sabia o que era aquele silêncio, aquele cheiro adocicado e estranho que começava a formar-se. Empréstimo para quê? Para enterrar o meu irmão, Anacleto coçou a barba grisalha, soltou um suspiro longo e tirou um cigarro do bolso. Acendeu sem pressas, deu duas tragadas, olhou para o céu escurecido. Quantos anos tens, menina? 12.
º E o teu irmão tinha o quê? 4 meses. 4 meses? Sofia confirmou, sentindo as lágrimas queimarem nos olhos. Ele merece um enterro. Não posso deixá-lo numa cova de indigente. Não posso. Anacleto fumou em silêncio durante demasiado tempo. Depois atirou o cigarro para o chão, pisou com força.
Eu não empresto dinheiro paraa criança. Dá problemas. Mas ele fez uma pausa como se estivesse a calcular algo perigoso. Há um tipo que talvez ajude, Ricardo Voz. Ele tem dinheiro, muito dinheiro, e dizem que ele, sei lá, nos ajuda às vezes. Onde o encontro? Anacleto escreveu um endereço num pedaço de papel rasgado, um bairro que Sofia só conhecia de nome.
Bairro de mansões, de muros altos, de câmaras e seguranças. Vai de manhã, toca à campainha, diz que o Anacleto mandou, mas ouve bem. Ele segurou o braço de Sofia com firmeza, olhos cravados nela. Se ele disser que não, tu aceitas e vais embora. Não fica insistindo, não faz escândalo. Esse tipo de pessoas, têm poder para ajudar, mas também para te lixar a vida de vez.
Entendeu? A Sofia entendeu ou fingiu que entendeu. Guardou o papel no bolso, agradeceu e saiu do ferro velho com uma mistura de esperança e terror atravessada no peito. Passou a noite numa estação de metro, sentada num canto escuro, onde os seguranças não costumavam ir. Miguel continuava nos braços dela.
Algumas pessoas olhavam e desviavam rapidamente. Uma mulher perguntou se estava tudo bem, mas Sofia apenas abanou a cabeça e fingiu dormir. Não queria explicar. Não queria que levassem O Miguel embora. [música] Quando o dia clareou, ela apanhou o autocarro que ia para o bairro Nobre. utilizou os últimos três reais da lata de leite achocolatado.
Desceu na avenida larga, arborizada, tão limpa que parecia irreal. As casas tinham jardins que pareciam pinturas, portões que brilhavam ao sol. A Sofia caminhou lentamente, sentindo-se cada vez mais pequeno, mais suja, mais deslocada. encontrou a morada, um portão de ferro negro, alto como um muro de prisão, intercomunicador embutido em granito polido.
Do outro lado, uma mansão de vidro e concreto que parecia ter saído de uma revista. A Sofia carregou no botão do intercomunicador. Esperou. Nada. Apertou de novo. Desta vez uma voz masculina impaciente. Quem é? A Sofia olhou para o Miguel, para a manta de estrelinhas, já encardido, para os próprios pés descalços. Respirou fundo.
O meu nome é Sofia. Eu preciso de ajuda para enterrar o meu irmão. Silêncio do outro lado. Um silêncio longo, pesado, que parecia estar a avaliar se ela merecia uma resposta. Então a voz voltou. Mais baixa agora. Diferente. Espera aí. O portão começou a abrir, lento e silencioso, como algo de outro mundo.
Já viveu algo assim? Já precisou de pedir ajuda a alguém completamente desconhecido e sentiu o coração disparar sem saber o que vinha pela frente? Conta aqui nos comentários. Quero muito ler. O homem que abriu a porta da mansão não parecia um bilionário. Parecia alguém que tinha esquecido como dormir. Olhos fundos, barba por fazer, uma t-shirt branca simples que provavelmente custava mais do que tudo o que Sofia já tinha vestido na vida.
Ficou parado no batente por demasiado tempo, apenas olhando para ela, não para o rosto dela, para o embrulho nos braços dela. Quantos anos tinha ele? A voz saiu rouca. como se não fosse utilizada com frequência. 4 meses. O homem fechou os olhos, respirou fundo. Quando voltou a abrir, havia ali algo diferente, uma dor antiga que Sofia reconheceu, porque via a mesma dor no próprio reflexo cada vez que passava por uma montra. Entra.
A casa por dentro era enorme e vazia ao mesmo tempo. Móveis modernos que pareciam ter sido escolhidos por alguém que não ligava para conforto. Paredes demasiado brancas, silêncio a mais. A Sofia pisou com cuidado, deixando marcas de terra no chão de mármore claro, sentindo-se como uma mancha em algo que deveria ser perfeito.
Levou-a até uma sala com janelas que iam do chão ao teto. Do lado de fora, um jardim impecável. Do lado de no interior, uma foto emoldurada sobre a lareira, uma mulher sorridente com um bebé no colo. A foto tinha aquele brilho de coisa cara, mas também tinha pó acumulada nas arestas. A minha esposa, [música] meu filho.
Ele falou olhando para a foto, não para a Sofia. Acidente de viação. Faz dois anos. A Sofia não sabia o que dizer. Não existiam palavras certas para este tipo de coisa. Então ela apenas ficou ali segurando o Miguel, à espera. Por que veio até mim? Porque eu preciso enterrar o meu irmão com dignidade. Sofia respondeu.
E a voz saiu firme pela primeira vez em dias. Ah, é porque eu Não tenho ninguém, nenhum parente, nenhum documento, nenhum dinheiro. Mas ele merece mais do que ser atirado para uma vala comum. Ele merece ter um lugar onde possa ir visitar, onde possa dizer, onde eu possa dizer que eu tentei. O homem, Ricardo Voss, ela lembrou-se do nome, virou-se para ela, caminhou lentamente até ficar de frente, agachou-se para ficar à altura dos olhos dela e pela primeira vez desde que chegou, a Sofia viu alguém realmente olhando para ela, não atravessando, não
desviando, olhando. Posso vê-lo Sofia hesitou. Depois abriu o cobertor de estrelinhas com cuidado, revelando o O rosto do Miguel, os olhos fechados, a pele demasiado pálida, as mãozinhas pequenas cruzadas sobre o peito, do maneira que a Sofia tinha arranjado, porque parecia mais digno assim.
O Ricardo ficou imóvel, não tocou, apenas olhou e quando voltou a levantar os olhos para Sofia, havia ali lágrimas [música] que ele não tentou esconder. “Ele parece-se com o meu filho.” sussurrou Ricardo. “Mesma boca, mesmas sobrancelhas finas”. A Sofia não respondeu. Não precisava. Ricardo levantou-se, passou a mão pelo rosto, caminhou até à janela, ficou ali parado demasiado tempo.
olhando para o jardim vazio. Quando voltou a falar, a voz estava diferente, decidida. Vou pagar o funeral, tudo. Velório, caixão, flores, campa, tudo o que ele merece. Ele virou-se, mas tem uma condição. A Sofia sentiu o estômago apertar. Tinha sempre uma condição. Tinha sempre algo em troca. Você vai-me deixar enterrá-lo ao lado do meu filho. Silêncio.
Um silêncio enorme que encheu a sala toda. Eu comprei três talhões no cemitério. Um paraa minha esposa, um para o meu filho, um para mim. Mas eu Ele engoliu em seco. Eu não consigo ir lá. Não consigo olhar para aquele lugar sem sentir que deveria estar ali também. Mas se eu enterrar o seu irmão ao lado do meu filho, talvez consiga ir de novo. Talvez consiga levar flores.
Talvez me consiga lembrar que ainda há coisas vivas que precisam de atenção. A Sofia não entendeu completamente o que estava a dizer, mas compreendeu o suficiente. Ele queria usar o Miguel para curar alguma coisa dentro dele que estava partido fazia tempo. E em troca, Miguel teria um lugar, um lugar a sério, com relva, com árvores, com uma lápide onde estivesse escrito o seu nome.
“Ele vai ter um nome na lápide?”, Sofia perguntou, e a voz saiu-lhe trémula. “Ele vai ter tudo, o Ricardo prometeu, [música] nome, data, flores e vai poder visitar sempre que quiser. Eu vou-te levar as vezes que precisar”. A Sofia olhou para o Miguel, para o rostinho quieto que nunca mais ia abrir os olhos, para as mãozinhas que nunca mais iam segurar o dedo dela.
E pela primeira vez desde que ele morreu, ela deixou as lágrimas caírem sem tentar segurar. “Tá bom”, sussurrou ela. “Está bom.” Ricardo assentiu, pegou no telefone, começou a fazer chamadas, funerária, cemitério, florista, cada palavra dita com uma firmeza que parecia estar a segurá-lo inteiro. Sofia sentou-se no sofá branco, ainda segurando Miguel, e, pela primeira vez em dias permitiu que o cansaço tomasse conta.
Do lado de fora, o sol começava a se pôr. E pela primeira vez, Sofia acreditou que talvez existissem finais dignos mesmo para histórias que começavam sem dignidade alguma. Se esse momento arrepiou-te tanto quanto a mim, deixa já o teu like. Essa história merece ser sentida até ao fim. O funeral aconteceu numa manhã de quinta-feira. O céu estava cinzento, mas não chovia.
Sofia achou isso estranho. Nos filmes que ela via nas montras das lojas de eletrónicos, chovia sempre nos funerais, como se o mundo chorasse junto. Mas nesse dia, o mundo apenas ficou quieto, sem vento, sem pássaros, só o som longínquo dos carros numa avenida que ela não conseguia ver. O Ricardo tinha cumprido cada palavra.
O caixão era branco, pequeno, com detalhes prateados que brilhavam mesmo sob a luz ténue da manhã. No interior, Miguel usava uma roupinha nova, um macacão azul claro com bordado de nuvens que Sofia nunca teria conseguido comprar. Ela não sabia de onde tinha vindo aquela roupa, não perguntou, apenas ficou parada ao lado do caixão aberto, olhando para o irmão pela última vez, tentando gravar cada pormenor na memória, como se isso pudesse mantê-lo vivo de alguma forma.
Havia flores, muitas flores, rosas brancas, lírios, margaridas, mais flores do que Sofia tinha visto na vida inteira. O cheiro era forte, adocicado, quase sufocante. Ela queria abrir as janelas da pequena capela, deixar entrar o ar, mas não ousou. Não era dela aquele lugar. Nada ali era dela, excepto o corpinho dentro do caixão.
O Ricardo estava do outro lado da sala, de fato preto, mãos enfiadas nos bolsos. Não falava, não olhava para Sofia, apenas ficava ali parado como uma estátua, com o rosto voltado para a janela. De vez em quando passava a mão pelo rosto, esfregava os olhos, respirava fundo. A Sofia reconhecia aqueles gestos. eram os mesmos que ela fazia quando tentava segurar o choro em público. Só eles os dois estavam ali.
Nenhum padre, nenhuma música, nenhuma palavra bonita sobre a vida eterna ou descanso eterno, apenas silêncio. Um silêncio pesado que parecia ter textura, como se pudesse ser tocado. Quando fecharam o caixão, Sofia não conseguiu olhar. Virou o rosto, apertou os olhos com força, sentiu as unhas cravarem-se nas palmas das mãos.
ouviu o som da tampa sendo selada. Um som definitivo, permanente, o tipo de som que não podia ser desfeito. O cemitério ficava num lugar alto, longe do centro. Árvores antigas circundavam os caminhos de pedra. Lápides de mármore reluziam sob o sol, que finalmente tinha rompido as nuvens. Era bonito, assustadoramente belo. Sofia nunca imaginou que a morte pudesse ter tanta beleza à volta.
A sepultura estava por baixo de um IP amarelo. Ao lado, duas lápides já lá estavam. Uma com o nome Helena Voz, esposa e mãe amada. Outra com Gabriel Voz, o nosso pequeno anjo. As duas tinham flores frescas, rosas vermelhas. Alguém tinha estado ali recentemente. A Sofia olhou para o Ricardo. Ele estava parado na frente das duas lápides, com uma mão apoiada na de Helena, como se estivesse segurando algo invisível.
Não chorava, apenas ficava ali com o rosto imóvel, os olhos fixos em algum ponto distante que só ele conseguia ver. Quando baixaram o caixão de Miguel, Sofia finalmente desabou. Caiu de joelhos na relva, soluçando de um jeito que não conseguia controlar, com as mãos tapando o rosto, porque não queria que ninguém visse aquilo.
Não queria que Ricardo visse como ela estava despedaçada, mas ele já sabia. Claro que sabia. Ela sentiu uma mão pesada no ombro dela. Ricardo tinha-se ajoelhado ao lado, sem dizer nada, apenas ficando ali. Não abraçou, não consolou, apenas ficou. E de alguma [música] forma aquilo foi suficiente. Depois de tudo terminou, depois de a terra ter coberto o caixão e as flores foram arranjadas em volta da lápide provisória que dizia apenas: “Miguel, amado irmão”, Ricardo levou a Sofia até um banco debaixo de outra árvore. Sentaram-se lado a lado,
olhando para o túmulo recém-feito, sem pressa de ir embora. Pode vir aqui sempre que quiser, [música] Ricardo disse, quebrando finalmente o silêncio. Eu vou trazer-te. Ou se preferir, eu coloco um motorista à disposição. Você só precisa de ligar. A Sofia balançou a cabeça. Não conseguia falar ainda. A garganta estava fechada, a arder.
E há outra coisa. O Ricardo tirou um envelope do bolso interior do casaco, estendeu para ela. Isto é para si. Não é caridade, é é reconhecimento pelo que fez por ele. Cuidar dele sozinha com 12 anos, isto é mais do que a maioria dos adultos conseguiria fazê-lo. Sofia pegou no envelope com as mãos trêmulas.
Não abriu, apenas segurou, como se fosse algo demasiado frágil para ser real. “Não sei se vou conseguir continuar”, sussurrou ela, finalmente encontrando a voz. Sem ele, não sei para que acordo de manhã. Ricardo ficou em silêncio durante um tempo longo, depois olhou-a diretamente nos olhos. Acorda porque ele teria querido que acordasse, porque tem 12 anos e merece ter uma vida.
Porque ele não conseguiu crescer, mas ainda pode. Ele fez uma pausa. E por agora tem alguém a visitar? Alguém que vai estar aqui à espera? E isso significa que tem um motivo para voltar sempre. A Sofia olhou para o túmulo de Miguel, para o IP amarelo, a abanar lentamente com a brisa que finalmente tinha começado, para as flores brancas que cobriam a terra recém-revirada.
E pela primeira vez ela percebeu o que significava deixar ir sem abandonar, enterrar sem esquecer, seguir em frente transportando alguém dentro do peito. Ela não sabia se ia conseguir, mas sabia que ia tentar. Se essa parte te tocou de verdade, pode apoiar o nosso canal com um super thanks. Isto faz toda a diferença para nós continuarmos a contar histórias como esta.
E se ainda não é inscrito, este é o momento. A Sofia voltou ao cemitério no sábado seguinte e no outro e no outro depois desse. Sempre sozinha, sempre com algo nas mãos. Uma florzinha que encontrava no caminho, uma pedra bonita. Uma vez um desenho que fez com lápis de cera que alguém deixou cair numa praça.
Pequenas coisas que ela colocava sobre a lápide de Miguel, como se cada objeto fosse uma conversa que ela não conseguia ter em voz alta. O Ricardo aparecia por vezes, nunca no mesmo horário que ela, mas a Sofia sabia quando ele lá tinha estado, porque as flores ao lado, as de Helena e Gabriel, estavam sempre frescas, rosas vermelhas, sempre vermelhas.
Uma vez ela encontrou uma carta dobrada debaixo de um vaso. Não era dirigida a ninguém, apenas algumas linhas escritas à mão com letra tremida. Hoje eu Consegui sorrir a pensar em ti. Acho que isso é progresso. O envelope que O Ricardo tinha dado continhas R$ 3.000. Dinheiro suficiente para tirar documentos, para alugar um quarto pequeno num pensionato, para comprar roupa que não cheirava à rua.
Sofia utilizou parte do dinheiro para tal. Outra parte, ela guardou numa conta poupança que uma assistente social a ajudou a abrir. Para emergências, a mulher tinha dito, mas Sofia sabia que não era só isso. Era para ter algo seu, algo que provasse que ela existia para além da menina que dormia em cartão.
Ela ainda não sabia o que ia fazer da vida, não tinha planos grandiosos, não sonhava ser médica, advogada, engenheira. Só queria acordar de manhã sem sentir medo. Só queria ter um sítio onde pudesse dormir sem verificar se alguém lhe ia roubar as coisas. Só queria, talvez, um dia conseguir olhar para uma criança pequena, sem sentir o peito doer.
Três meses depois do funeral, Ricardo levou-a para tomar gelado. Não foi nada planeado. Ele simplesmente apareceu no pensionato, bateu à porta do quarto dela e disse: “Queres sair um bocadinho?” A Sofia aceitou porque não tinha motivos recusar e porque, de alguma estranha, a sua presença não assustava mais.
Sentaram-se num banco de jardim, cada um com um picolé nas mãos, observando crianças brincarem num parque infantil próximo. Não falaram muito, não precisavam, apenas ficaram ali. Dois desconhecidos unidos por perdas que não curavam, mas aprendiam a existir lado a lado. Acha que eles estão juntos, Sofia? perguntou de repente, olhando para o céu que começava a escurecer.
“Miguel e o Gabriel?” Ricardo não respondeu imediatamente. Lambeu o picolé, pensou, olhou para as próprias mãos. “Eu não sei se acredito nisso”, admitiu, “mas gosto de pensar que sim, que estão algures brincando, rindo, sem sentir dor, e que de vez em quando eles olham para nós e pensam: “Olha só, eles estão a tentar, estão realmente tentando”. Sofia sorriu.
Um sorriso pequeno, triste, mas real. Acho que eles ficariam orgulhosos. Acho que sim. Sabe, tem algo sobre histórias como esta que a gente raramente fala. A gente sempre quer finais felizes, quer que tudo se resolva, que as feridas cicatrizem completamente e que as pessoas encontrem paz absoluta. Mas a vida real não funciona assim.
E talvez não precise funcionar assim. Por vezes, tudo o que alguém precisa é de alguém que simplesmente fique, que não tente reparar, que não prometa que vai melhorar. Apenas alguém que diga: “Eu vejo-te e não estás sozinho”. Sofia não se tornou rica, não se tornou uma história de superação que surge em programas de televisão.
Ela continuou sendo uma menina de 12 anos, tentando compreender como sobreviver num mundo que não foi feito para ela. Mas agora ela tinha um lugar para onde voltar, um túmulo com flores, um homem que atendia o telefone quando ela precisava e o certeza de que Miguel, onde quer que estivesse, sabia que ela tinha tentado. Tinha tentado com tudo o que tinha.
E você que ficou até aqui, que ouviu esta história até ao último segundo, talvez também transportar alguém dentro do peito. Talvez também esteja tentando encontrar um local onde possa simplesmente ser, sem ter de explicar a dor que ninguém vê. Se for esse o caso, quero que saiba, não está sozinho.
E o simples facto de ter ficado até aqui, de ter sentido em conjunto, é já uma forma de resistência. De dizer que histórias como estas importam, que vidas como a de Sofia e Miguel importam. Nem todo o recomeço precisa de ser barulhento. Alguns só precisam de ser verdadeiros. Obrigado por assistir até ao fim.
Histórias como esta não são fáceis de contar, mas são as mais importantes. Se esta história te tocou, se ela encontrou-o em algum lugar da sua própria jornada, há outro vídeo aqui no canal que talvez também fale consigo. Clica, assiste, encontramo-nos lá. [música] E lembra-te, não estás só, nunca esteve. Yeah.















