Integrantes do PCC Pararam Num Posto Às 3h da Manhã em SP — Não Sabiam Que o Frentista Era Ex-BOPE

Integrantes do PCC Pararam Num Posto Às 3h da Manhã em SP — Não Sabiam Que o Frentista Era Ex-BOPE 

3 da manhã 20. Posto de abastecimento de combustível na zona leste de São Paulo, rodovia Airton Sena. Um golo preto parou na bomba número dois. Quatro homens saíram. Nenhum pediu combustível. O frentista estava de costas, organizando prateleiras na loja de conveniência. Virou-se devagar quando ouviu as portas a bater.

 Contou os homens com um único olhar. Calculou distâncias. Identificou quem transportava peso na cintura. Tudo isto em menos de 3 segundos. Depois voltou a empilhar pacotes de bolachas como se nada tivesse mudado. Mas tinha mudado. E nos próximos 20 minutos, aqueles quatro homens descobririam que tinham escolhido o posto errado, ou melhor, o frentista errado.

 A rodovia Airton Sena cortava a zona oriental como uma cicatriz de asfalto. Às 3 da manhã, poucos carros passavam, camionistas de madrugada. motoristas de aplicação de regresso a casa, às vezes alguém que preferia não ser visto. O posto ficava num troço isolado, rodeado por terrenos vazios e um barracão abandonado, perfeito para quem não queria testemunhas.

 Marcelo Ferreira trabalhava ali há 8 meses, turno da madrugada, das 11 da noite às 7 da manhã, salário mínimo, acrescido de comissão por litro vendido. No currículo que entregou ao gerente apenas constava experiência anterior em segurança privada. O gerente não fez muitas perguntas, precisava de alguém disposto a cobrir a madrugada e Marcelo aceitou sem negociar.

 O que não constava no currículo, 12 anos no batalhão de operações policiais especiais do Rio de Janeiro. 143 operações em bairros de lata dominados por facções. 17 tiroteios de alta intensidade, três com decorações por bravura, uma reforma médica aos 38 anos depois de ter levado dois tiros no ombro esquerdo durante a invasão no complexo do alemão.

 Marcelo não falava sobre isso com ninguém. Quando os colegas de trabalho perguntavam sobre as cicatrizes nos braços, dizia que tinha caído de moto há anos atrás. Quando alguém comentava sobre a forma como andava sempre de frente para a porta, observando carros que chegavam, ele mudava de assunto. Não era vergonha, era sobrevivência. Ex-polícia de elite em São Paulo tinha dois caminhos: esconder-se ou virar-se alvo.

 Escolheu esconder-se, mudou de estado, mudou de nome nos documentos informais, arranjou trabalho simples, pagava a renda de um apartamento pequeno em Itaquera. Mandava dinheiro para a ex-mulher e a filha no Rio. Evitava problemas, queria paz. Naquela madrugada de quinta para sexta-feira, março de 2025, a paz acabou. Marcelo estava sozinho no posto desde a meia-noite, quando o outro frentista saiu.

 Rotina tranquila até ali, 15 carros abastecidos, dois camiões, um entregador de aplicações que comprou energético e cigarro. Nada fora do normal. Ele aproveitava os intervalos para organizar a loja de conveniência, verificar o stock, manter-se em movimento. Hábito militar: nunca parar completamente, ter sempre visão das entradas.

 Quando o Gol Preto entrou no posto, Marcelo registou pormenores automaticamente. Modelo antigo, matrícula de São Paulo, suspensão rebaixada, vidros escuros. parou na bomba, mas o motor continuou ligado durante 10 segundos antes de desligar. Quatro ocupantes, todos homens, entre os 20 e os 30 anos. O passageiro da frente desceu primeiro e ficou parado junto à porta, observando a rua.

 Os outros três saíram depois, sem pressas. Nenhum se aproximou da bomba de combustível, nenhum olhou para o painel de preços. Caminharam diretamente para a loja de conveniência. O que estava à frente usava boné do Corinthians e sweatshirt preto. Tinha uma tatuagem no pescoço que Marcelo reconheceu-o de longe.

 As letras PCC estilizadas. Primeiro comando da capital. A maior organização criminosa do Brasil. Marcelo não se moveu imediatamente. Continuou empilhando pacotes de bolachas, mas mudou de posição. Agora ficava de frente para a porta. Pés afastados à largura dos ombros, peso distribuído, mãos livres.

 A cicatriz no ombro esquerdo latejou. Memória muscular. O corpo dele já sabia o que a mente ainda processava. Problemas estavam entrando pela porta. O homem do boné foi o primeiro a entrar. Olhou em redor com atenção exagerada, verificou as câmaras de segurança, contou quantas pessoas havia no posto, viu apenas Marcelo, sorriu. Os outros três entraram atrás.

Um deles trancou a porta e virou a placa de aberto para fechado. Gesto rápido, praticado. Marcelo largou os pacotes de bolacha e ficou parado atrás do balcão. Manteve as mãos à vista. Não demonstrou medo, mas também não demonstrou desafio, postura neutra. Era o que ensinavam no BOP, em situação de inferioridade numérica, não provocar, mas também não mostrar fraqueza.

 Manter o controle emocional. Observar. Calcular. O líder aproximou-se do balcão. Os outros três espalharam-se pela loja. Um ficou perto da porta. Outro verificou a casa de banho e o depósito. O terceiro caminhou até ao frigorífico de bebidas, mas não apanhou nada, apenas se posicionou com visão do balcão. Tática básica de controlo do ambiente.

 Marcelo reconheceu. Já tinha utilizado a mesma em operações de apreensão. O líder tirou um maço de cigarros do bolso. Acendeu um sem pedir autorização. Soltou o fumo lentamente, olhando fixamente para Marcelo. Esperava reação. Medo, talvez. súplica. Marcelo não deu nenhuma das duas, apenas esperou.

 Olhar direto, respiração controlada. O silêncio esticou-se por 15 segundos. Parecia mais. Finalmente o líder falou. Voz calma, quase educada. Disse que estavam ali para conversar sobre o pagamento mensal. Proteção do posto, 500$ por semana. Explicou que todos os comércios da região contribuíam. Era pelo bem de todos, segurança, tranquilidade, nenhum problema com ladrões ou vândalos.

Marcelo respondeu que não era o proprietário, apenas trabalhava ali. O gerente chegava às 7 da manhã. Poderiam voltar e conversar com ele. Voz firme, mas não agressiva, tomá sendo razoável. O líder deu uma gargalhada, curta, seca. disse que o recado já estava dado. Agora Marcelo passaria a informação ao gerente e, entretanto, para mostrar boa vontade, poderia começar por abrir o caixa, só o que ali tinha, como sinal de respeito.

Foi nesse momento que algo mudou no ar, subtil. Um dos homens perto do frigorífico colocou a mão na cintura, não sacou arma, mas deixou clara a intenção. O que estava à porta deu um passo em frente, fechando o cerco. Tática de pressão controlada. Aumentar a tensão sem partir direto para a violência, dar hipótese da vítima cooperar.

 Marcelo manteve a calma externamente, mas por dentro os anos de formação assumiram o comando. Avaliou a situação por camadas. Quatro adversários, pelo menos dois armados, provavelmente todos. Ele desarmado, sem colete, sem rádio, sem reforço. Porta trancada. Câmaras a gravar, mas só seriam vistas mais tarde. Rodovia vazia, posto isolado.

 Ninguém passaria ali nos próximos minutos. Estava sozinho. Mas estar sozinho era algo que Marcelo conhecia bem. Já tinha estado em situações piores. Complexo do alemão, 2018, rodeado por 12 traficantes em bec saída. Conseguiu sair. Rossinha 2020. Refém usado como escudo durante tiroteio. Libertou o refém e neutralizou três hostis. Cidade de Deus, 2021.

Encurralado em laje com munições a terminar, improviso com material de construção, salvou-lhe a vida. A diferença era que naquela altura ele estava fardado, armado, com uma equipa de apoio a um rádio de distância. Agora vestia uniforme de frentista, não tinha qualquer canivete e a única ajuda possível era a Polícia Militar, que levaria no mínimo 15 minutos para chegar, se chegasse, mas tinha uma vantagem que aqueles quatro homens não imaginavam.

 Marcelo não era um frentista comum que acaba de ser colocado naquela situação. Era um operador de elite que tinha enfrentado os piores criminosos do Rio de Janeiro e sobrevivido. O treino não desaparece. As competências não desaparecem, o instinto permanece. Ele disse que precisava da chave para abrir o caixa. Estava no depósito. Poderia ir buscar.

 Pediu com tom de cooperação genuína. O líder concordou, mas mandou um dos homens ir junto. O que estava perto do frigorífico veio baixo, forte, cavanhaque. Levou a mão abertamente à pistola na cintura quando passou por Marcelo. Demonstração de poder. Os dois foram até ao armazém. Espaço pequeno, 3 m por tr.

 Prateleiras com produtos, porta que dava para os traseiras do posto. Marcelo entrou primeiro. O homem ficou na soleira da porta, bloqueando a saída. Marcelo moveu-se até uma prateleira do fundo, pegou numa caixa de cartão, abriu devagar, procurou dentro, ganhou tempo, observou o ambiente pelo espelho de segurança no canto, calculou ângulos.

 O homem estava a 2,5 m, confiante. Mão ainda na arma, mas não varanda. Erro. Primeiro erro deles. Marcelo encontrou a chave, rodou de frente para o homem, disse que era aquela. levantou a mão, mostrando a chave. O homem relaxou, não muito, mas o suficiente. Tirou a mão da arma, fez sinal para Marcelo voltar.

 Segundo erro, voltaram para a loja. Marcelo abriu o caixa. Tinha R$ 240, notas amassadas, algumas moedas, fraco movimento da madrugada. O líder olhou para o dinheiro e franziu o rosto. Disse que não era suficiente. Queria mais. Perguntou sobre o cofre. Marcelo explicou que o cofre era eletrónico, com password que só o gerente conhecia.

 Não tinha como abrir. Mentira, mas mentira convincente. O líder não pareceu acreditar totalmente, mas também não insistiu imediatamente. Pegou no dinheiro do caixa, contou devagar, guardou no bolso. Disse que voltariam todas as semanas e da próxima vez esperava valor superior, muito maior. Os quatro começaram a deslocar-se em direção à porta.

Marcelo pensava que tinha acabado, que iriam embora, que tinha conseguido evitar o confronto, mas depois o líder parou, virou-se, olhou em redor da loja de novo. Olhar diferente agora, mais atento, como se tivesse percebido algo que não encaixava. Ele caminhou até ao balcão de novo, lentamente, olhou para Marcelo com mais atenção, depois olhou para as câmaras, para a posição onde Marcelo ficava, para a forma como se movimentava e perguntou por Marcelo não tinha demonstrado medo? A pergunta pegou Marcelo de surpresa. Não a questão em

si, mas o facto de ter sido feita. Significava que o líder não era apenas músculo, tinha observação, inteligência, percebia pormenores. Era o tipo de adversário mais perigoso. Marcelo deu de ombros, disse que estava cansado, habituado a madrugadas ruins. Já tinha visto de tudo em ito meses de posto.

 Resposta casual, desinteressada, como se realmente não se importasse. O líder não comprou. Inclinou a cabeça. Estudou Marcelo durante mais alguns segundos. Depois comentou sobre a postura. Disse que Marcelo ficava parado de uma forma diferente, não corcunda como frentista normal, sempre de frente para a porta, observando sempre como segurança ou policial.

 A temperatura no posto pareceu cair 5º. Os outros três homens pararam o que estavam a fazer. O que estava perto da porta voltou para dentro. O clima mudou. Já não era cobrança de proteção, era interrogatório. Marcelo manteve a expressão neutra. Disse que já tinha trabalhado em segurança, sim, em shopping há anos. Nada demais. A explicação era razoável.

 Muitos seguranças desempregados tornavam-se frentistas, mas a dúvida já estava plantada. e a dúvida no mundo do crime era perigosa. O líder pediu a Marcelo levantar a camisola, mostrar se tinha marca de colete ou tatuagem de corporação. Marcelo hesitou, podia recusar, mas isso confirmaria a suspeita.

 Levantou a camisa lentamente, mostrou o tronco, duas cicatrizes no abdómen, uma no flanco esquerdo, marcas de bala. O líder viu, o seu rosto endureceu, perguntou de onde eram as cicatrizes. Marcelo disse: “Acidente de moto resposta automática já ensaiada, mas a explicação não convencia. Marca Dybala tem formato específico. Qualquer criminoso experiente reconhece.

E aquele líder era experiente. A situação estava a resvalar para território perigoso. O que era a cobrança simples tornava-se investigação e investigação podia tornar-se execução. PCC não gostava de infiltrados, não gostava de polícias, não gostava de surpresas. Se suspeitassem que Marcelo era mais do que frentista, não sairiam dali sem resolver a questão permanentemente.

 Marcelo precisou de tomar decisão. Podia continuar negando, manter a farça, esperar que fossem embora. Mas o instinto dizia que não funcionaria. O líder já estava desconfiado, já procurava confirmação. Encontraria e aí seria tarde. Ou podia mudar a abordagem, admitir parte da verdade e construir nova história.

 Marcelo escolheu a segunda opção. Disse que sim, tinha sido segurança, mas não de shopping, de comboio, escolta armada de carga de valor. Trabalhou 3 anos, foi baleado durante um assalto em auto-estrada, por isso as cicatrizes. deixou a profissão depois disso. Tornou-se frentista porque era trabalho tranquilo, sem risco. A explicação era boa, tinha lógica.

Explicava as cicatrizes, a postura, a falta de medo e não colocava Marcelo no lado da polícia. A escolta privada era neutro, nem herói, nem vilão, só profissional. O líder considerou, olhou para os outros, conversaram baixo entre eles. Marcelo não conseguiu ouvir, mas viu linguagem corporal, tensão decrescente, concordância, decisão tomada.

 O líder virou-se para Marcelo, disse que tudo bem acreditava, mas deixou o aviso claro: “Se descobrissem que Marcelo era polícia, alcaguete ou qualquer coisa do género, voltariam e não seria para conversar”. Marcelo acenou: “Entendido? Claro, sem problema. Os quatro foram finalmente embora. Destrancaram a porta, saíram, entraram no Gol Preto, o motor ligou, o carro saiu do posto e virou à esquerda na rodovia. desapareceu na noite.

 Marcelo ficou parado durante um minuto inteiro, não se moveu-se, apenas respirou lento, controlado. Deixou baixar a adrenalina, depois voltou a trancar a porta, foi até a casa de banho, lavou o rosto, olhou no espelho. Os olhos que o fitavam de volta eram os mesmos de há 12 anos. Duros, alertas.

 O frentista tinha desaparecido durante 20 minutos. O operador do BP tinha tomado o seu lugar e agora precisava decidir o que fazer. Primeira opção, chamar a polícia, fazer um boletim de ocorrência, mas isso significava expor-se, responder a perguntas, explicar porque não ligou durante o assalto. Talvez reconhecerem o seu passado. E se reconhecessem, o PCC também saberia.

 Em São Paulo, a facção tinha olhos em todo o lugar, inclusive dentro de esquadras. Não podia arriscar. Segunda opção, não fazer nada, deixar passar, rezar para que não voltassem. Mas Marcelo sabia que voltariam. Voltavam sempre. Cobrança semanal. E da próxima vez a suspeita ainda lá estaria.

 qualquer deslize e descobririam a verdade. Não dava para sustentar a mentira indefinidamente. Terceira opção, sair dali, largar o emprego, mudar de bairro, recomeçar de novo. Mas estava cansado de fugir. Tinha fugido do rio depois dos tiros, fugido da corporação depois da reforma médica, fugido de relacionamentos, de amigos, de tudo o que o ligava ao passado.

Não queria fugir mais. Quarta opção, a que não queria considerar, mas que o treino militar colocava na mesa, preparar-se, assumir que o conflito era inevitável, agir primeiro. Mas isso significava voltar ao que era antes, voltar à violência, voltar ao operador. E ele tinha jurado que aquilo tinha acabado.

 Marcelo secou o rosto, voltou para a loja, reorganizou os pacotes de bolacha que tinha largado, postura mecânica, mente ainda a processar. Precisava de tempo para pensar, mas tempo era luxo que não havia. Se o PCC realmente suspeitasse dele, a decisão seria tomada rapidamente. Investigariam, descobririam e depois viriam. O resto da madrugada decorreu sem mais incidentes.

Seis carros abasteceram. Um camião. Ninguém entrou na loja. Às 7 horas, o gerente chegou. Homem de 50 anos, barriga grande, sempre a queixar-se de algo. Marcelo pensou em contar sobre a visita, mas decidiu não contar. Ainda não. Precisava de ter a certeza do próximo passo antes de envolver outras pessoas. Saiu do posto às 7:15, apanhou dois autocarros até Itaquera, chegou ao apartamento às 8:40, comeu algo, tentou dormir, não conseguiu.

 A mente trabalhava em círculos, analisando opções, calculando probabilidades, preparando cenários. Às 15h, desistiu de dormir. Levantou-se, foi até ao armário do quarto, abriu a porta, empurrou as roupas para o lado. Ao fundo, atrás de caixas velhas, tinha uma mala de viagem trancada. Marcelo pegou na chave que escondia atrás do criado-mudo, abriu a mala.

 Dentro, documentos falsos, dinheiro em numerário, 10.000 reais, dois chips de telemóvel novos e uma pistola Taurus PT92. Calibre 9 mm, 15 cartuchos. A arma que tinha levado quando saiu do BOP. Não deveria ter levado, era irregularidade grave, mas na altura achou que podia precisar. Paranóico, disseram os psicólogos da corporação.

 Marcelo chamou de prevenido. Pegou na pistola, sentiu o peso frio do metal, memória nos dedos. Passaram 12 anos entre a última vez que segurou aquela arma e agora, mas a sensação era imediata, natural, como voltar a andar de bicicleta. O corpo recordava o que a mente tentava esquecer. Guardou tudo de novo, trancou a mala, colocou-o de volta no fundo do armário.

Não ia usar ainda não, mas saber que estava ali dava uma certa tranquilidade. Opção final, plano Z. Se tudo se desmoronasse, pelo menos não estaria completamente indefeso. Passou o resto do dia a tentar rotina normal, fez comida, viu televisão, mandou mensagem para a filha, perguntou como estava na escola.

 Ela respondeu que estava tudo bem, enviou foto do caderno com nota 10 a matemática. Marcelo sorriu. Pela primeira vez em horas, sentiu algo para além de tensão. Razão para não fazer asneiras, razão para ser apenas frentista, apenas pai, apenas civil. Saiu de casa às 10 da noite, chegou ao posto às 11:15. O frentista da noite entregou o turno.

 Comentou que tinha sido dia calmo, nada de especial. Marcelo acenou, assumiu posição. Mais uma madrugada começava. A primeira hora passou normal, alguns carros, nenhum gol preto. Marcelo se apanhado, olhando a auto-estrada mais vezes que o necessário, verificando retrovisores, observando carros que abrandavam perto do posto.

 Hipervigilância, sintoma clássico de stress pós-traumático. Os psicólogos tinham alertado para isso. Depois de anos em operações, o cérebro ficava bloqueado em modo alerta. via ameaça em tudo. Demorava anos a desligar, se é que desligava. Uma da manhã, o movimento abrandou, a auto-estrada quase vazia.

 Marcelo organizava prateleiras quando viu faróis a aproximarem-se. Carro abrandou, entrou no posto. Marcelo olhou. Volkswagen Gol preto. Mesma placa da noite anterior. O seu estômago apertou. Vieram de novo na noite seguinte, depressa demais. O carro parou na bomba número dois, mesma bomba de ontem. Quatro ocupantes. Marcelo reconheceu o boné do Corinthians do líder. Desta vez vieram preparados.

Um deles transportava um saco. Outro tinha mochila às costas. Não era uma visita de cobrança, era outra coisa. Saíram do carro, caminharam até à loja. Marcelo abriu a porta antes que batessem. Melhor mostrar cooperação, não dar desculpa para a escalada. Os entraram quatro, o líder na frente. Olhar mais duro hoje, menos educado, mais direto ao assunto.

 Disse ao Marcelo trancar a porta. Marcelo obedeceu. O que transportava o saco foi até as câmaras de segurança, tirou fita isoladora da saco, começou a cobrir as lentes um por um, cuidadoso, metódico. Marcelo observou. Aquilo não era cobrança de proteção, era preparação para algo pior. Quando terminou com as câmaras, o homem voltou para trás e posicionou-se perto da porta.

 O que tinha mochila foi diretamente para o depósito. Abriu a porta das traseiras. verificou, voltou e acenou ao líder. Estava livre. O terceiro homem, que Marcelo não tinha prestado muita atenção na noite anterior, puxou de uma pistola da cintura. Calibre 380, apontou para Marcelo. Não disse nada, apenas manteve apontada.

 O líder falou, voz ainda calma, mas com um bordo afiado. Disse que pensaram sobre o Marcelo, sobre a história de segurança de comboios e decidiram que não acreditavam. muita coincidência, segurança que não tem medo, que tem uma postura militar, que tem cicatriz de bala, que trabalha num posto isolado a meio da madrugada.

 Disse que fizeram pesquisa, conversaram com contactos, verificaram e descobriram algo interessante. Há três meses, Polícia Federal fez operação em Guarulhos. Prenderam células do PCC. Durante interrogatórios, alguns detidos referiram que havia infiltrado na zona leste, polícia disfarçado, trabalhando no comércio, recolhendo informações.

Marcelo sentiu o chão desaparecer. Não era sobre ele. Não podia ser. Ele não era infiltrado. Não trabalhava mais para polícia nenhuma. estava reformado, mas para a facção não fazia diferença. Suspeita era suficiente. Melhor eliminar cinco inocentes que deixam um infiltrado vivo.

 O líder aproximou-se, parou a 1 metro de Marcelo. Disse que iam fazer testes simples, perguntariam coisas. Marcelo responderia: “Se as respostas fizessem sentido, sem contradições, talvez acreditassem nele, talvez deixassem vivo, mas se percebessem mentira, falsidade, qualquer sinal de polícia, acabaria ali mesmo.” Marcelo necessitou de tomar decisão em fração de segundo.

 Podia continuar a mentir, insistir que era apenas frentista, e segurança, nada mais, mas a suspeita já estava consolidada. Quanto mais negasse, mais pareceria culpado. E, de qualquer forma, quatro armados contra um desarmado não deixava grande margem. ou podia fazer o impensável, contar verdade, parte dela, a parte que podia salvá-lo.

 Era arriscado, podia dar errado, mas pelo menos era jogada ativa. E Marcelo preferia agir do que reagir. Respirou fundo, olhou diretamente para o líder e falou a verdade. Disse que sim, era polícia. foi passado, BOP do Rio de Janeiro, 12 anos de corporação, saiu porque levou um tiro, reforma médica, não aguentava mais operações, nem política da polícia, nem mortes.

Mudou-se para São Paulo para recomeçar. Só queria trabalho tranquilo, esquecer o passado. Não tinha nada a ver com PCC, não era infiltrado, apenas queria a paz. O silêncio que se seguiu durou a eternidade. Os quatro homens olharam um para o outro, processando. Marcelo tinha acabado de admitir que era tudo o que facções mais odiavam.

 Operador de elite, Bop, o batalhão que invadia bairros de lata e matava traficantes por dúzia. Se quisessem matá-lo, tinham agora razão de sobra. Mas havia algo na admissão de Marcelo que desarmava. A honestidade brutal, a cansaço na voz, o facto de não ter tentou mentir quando estava encurralado. Os criminosos respeitavam certas coisas.

 A coragem era uma verdade direta, mesmo quando doía era outra. O líder perguntou por deveriam acreditar, por não achar que era truque? Marcelo disse que não tinha como provar, só tinha palavra, mas se fosse infiltrado, não trabalharia sozinho num posto isolado, teria apoio, vigilância, equipa. E quando foram cobrar proteção ontem, terá chamado reforço.

 Não teria apenas entregue R$ 240 e esperado irem embora. A lógica era sólida. Infiltrado atua de forma diferente, tem estrutura, não está exposto assim. O líder pareceu considerar. Caminhou pela loja pensando. Os outros esperaram. Pistola ainda apontada a Marcelo, mas com menos tensão. Finalmente o líder voltou.

 Disse que aceitava a explicação por enquanto. Mas agora Marcelo estava em posição delicada. Era esbope em São Paulo, território do PCC. Mesmo reformado, isso criava problema. Se outros membros da facção descobrissem, não seriam tão compreensivos. Veriam apenas inimigo, ameaça a ser eliminada. Então fez proposta. Marcelo poderia continuar a trabalhar ali vivo, desde que cooperasse, pagasse proteção em dobro e avisasse se polícia ou rivais aparecessem pela região.

 Olhos e ouvidos. informal, sem compromisso oficial, apenas sobrevivência mútua. A proposta era armadilha. O Marcelo sabia. Se aceitasse, passaria a ser informante, mesmo que informal. E informante acabava sempre mal, queimado por um lado ou por outro. Mas se recusasse, saía dali em saco de corpo. Não tinha escolha real.

 Disse que aceitava. Voz firme, olhar direto. O líder acenou. Negócio fechado. Apertaram mãos. Gesto quase civilizado no meio da barbárie. Os quatro foram-se embora. Levaram a fita isoladora das câmaras. O posto voltou ao normal, como se nada tivesse acontecido. Marcelo esperou 5 minutos, depois foi à casa de banho, vomitou duas vezes.

 O stress acumulado, adrenalina, nojo de si próprio. Tinha sobreviveu 12 anos no BOP, mantendo integridade. E em duas noites, como frentista, aceitou tornar-se colaborador de facção. Não importava que fosse fingimento, não importava que não pretendesse realmente colaborar. O facto é que disse que sim. E no mundo do crime, palavra dada era dívida.

 Voltou para a loja, limpou o rosto, verificou o stock mecanicamente, tentou não pensar, mas a mente não parava. Analisava consequências, montava cenários todos maus. Se a facção descobrisse que não estava a colaborar de verdade, matá-lo-iam e, provavelmente, a família também. Se a polícia descobrisse que fez um acordo com o PCC, perdia a reforma.

 talvez enfrentasse processo. Se ficasse no posto, estava exposto a visitas regulares, pressão constante, risco crescente. Se fugisse de novo, perderia tudo o que construiu nestes 8 meses. Voltaria à estaca zero e, provavelmente, a facção iria atrás de qualquer forma. A traição não era perdoada. Todas as opções levavam ao desastre.

 Não tinha saída limpa. A única questão era escolher qual o desastre que seria menos catastrófico. Duas horas passaram. Três. Marcelo atendia clientes automaticamente. Sorriso mecânico. Resposta padrão. Mente noutro lugar. calculando, preparando. A porta que tinha passado anos a tentar manter fechada estava a abrir.

 O operador estava a regressar, não porque quisesse, mas porque circunstâncias não deixavam escolha. 5 da manhã, céu a começar a clarear, aumentando o movimento na auto-estrada, camiões madrugadores, carros de quem trabalhava cedo, normalidade retornando. Mas para Marcelo nada era normal.

 estava no meio de conflito que não procurou, mas não podia ignorar, entre facção criminosa que o podia matar a qualquer momento, e identidade que tentava esconder, mas que estava a ser exposta camada a camada. E depois, às 5h43 da manhã, um carro entrou no posto que mudou tudo. Corolla branco, placa de Rio de Janeiro, dois ocupantes na frente.

 Marcelo viu-os e o seu sangue gelou. reconheceu o motorista imediatamente, capitão Roberto Andrade, ex-comandante da equipa de Marcelo no BOPE, homem com quem tinha feito 10 operações, amigo de décadas, que não via desde a reforma forçada. O capitão saiu do carro, olhou para o posto, olhou para Marcelo. O reconhecimento foi mútuo. O capitão sorriu largamente, genuíno.

Caminhou até à loja, entrou, disse que não acreditava. Marcelo em São Paulo, trabalhando em posto. Que coincidência, que boa surpresa. Marcelo tentou sorrir também, tentou parecer feliz com o reencontro, mas por dentro estava em pânico. Porque se o capitão estava ali num carro com matrícula do rio a passar pela Irton Sena às 5 horas da manhã, havia explicação.

 E essa explicação não era boa. O capitão confirmou. disse que estava em funcionamento ele e o parceiro. Investigação sobre rotas de tráfico entre o Rio e São Paulo, seguindo pista que levava à zona oriental e pararam aí para abastecer antes de continuar. Marcelo sentiu o mundo desmoronar-se. Operação policial na zona oriental, território controlado pelo PCC.

 a mesma facção que agora achava que Marcelo era colaborador. E ali estava ele conversando abertamente com dois polícias do Rio, capitão do BOP em plena luz do dia. Para qualquer um observando, parecia exatamente o que a facção suspeitava. Infiltrado, mantendo contacto com corporação. Precisou de agir rápido. Cortou o capitão educadamente.

Disse que era bom vê-lo, mas estava no meio do turno com movimento. Não podia conversar. Capitão pareceu surpreendido, mas entendeu. Disse que tudo bem, ia buscar um contacto depois. Marcelo disse que sim, claro, depois. Despedida rápida. Capitão saiu, abasteceu o carro, pagou, foi embora. Dois minutos, talvez três.

 Foi o tempo que o capitão ali ficou, mas foi suficiente para confirmar toda a suspeita, para selar sentença de morte, porque Marcelo tinha a certeza absoluta que alguém tinha visto. O posto não estava vazio. Três carros tinham abastecido enquanto o capitão estava. Um deles podia ter observador ou câmara ou só olhos atentos que reportariam o que viram. 6 da manhã.

 Faltava uma hora para o fim do turno. Marcelo precisou decidir. Rápido. Ficar ali era esperar para morrer. Se a facção viu a conversa com o capitão, vinham terminar o serviço. Não haveria mais negociação sem mais teste, apenas execução. Pegou no telemóvel, ligou para o gerente, disse que precisava de sair mais cedo. Emergência familiar. Gerou, mas aceitou.

 Disse que chegava em 20 minutos. Marcelo desligou. Não tinha 20 minutos, mas tinha de manter a aparência de normalidade. Usou os minutos para preparar, limpou digitais de locais que tocou, verificou câmaras estavam a funcionar de novo depois de a facção ter tirado a fita isolante. Registaram a conversa com o capitão. Pior.

 Marcelo apagou gravações dos últimos três dias. Sabotagem. Daria em problema, mas era menor do que estar morto. O gerente chegou às 6:13. Marcelo saiu sem explicar bem, pegou no autocarro, mas não foi para casa, foi para a terminal, comprou o chip novo, ligou para a ex-mulher, disse que aconteceu algo, não conseguia explicar.

 Mas ela e a filha tinham de estar alertas, trancar portas, não abrir a estranhos. Se alguém perguntasse sobre ele, dizer que não o viam há anos. A ex-mulher ficou assustada, quis pormenores. Marcelo disse que não tinha tempo, apenas prometeu que voltaria a ligar quando pudesse. Desligou, foi para casa, entrou depressa, tirou a mala do armário, documentos, dinheiro, pistola, colocou tudo em mochila, mudou de roupa, calças de ganga, blusão, boné, deixou o uniforme de frentista na cama, já não ia precisar.

Saiu do apartamento às 7:40, apanhou o metro, mudou de linha três vezes. Procedimento contra a vigilância. Tinha que assumir que estava a ser seguido. Desceu na estação da Sé, subiu para a rua. Caminhou sem rumo definido, observando, procurando padrão, carros seguindo, pessoas a manter distância. Não viu nada de óbvio, mas isso não significava que não estavam lá.

 Entrou numa cafetaria, sentou-se no fundo, posição com visão da porta, pediu café, não tocou, apenas observou. 15 minutos. Ninguém entrou atrás dele. Ninguém parou do lado de fora, a observar. Talvez estivesse paranóico. Talvez não tivessem visto a conversa com o capitão. Talvez ainda houvesse tempo para resolver este de outra forma.

 ou talvez estivessem apenas à espera do momento certo, lugar certo. Marcelo não podia arriscar, não com a vida, não com a família. Tinha que assumir pior cenário e agir em conformidade. Ligou para o capitão, número que tinha guardado há anos. Ligação caiu na caixa postal. Tentou de novo. Mesma coisa. Mensagem. Capitão. É o Marcelo.

Preciso de falar urgente. Vida ou morte. Ligue assim que puder. Esperou. 10 minutos. 20.º Telefone tocou. Capitão. Voz preocupada, perguntou o que aconteceu. O Marcelo contou. Resumido. Facção, cobrança, suspeita, conversa desta manhã que podia ter sido vista. Risco de execução. Capitão ouviu. Silêncio depois, processando.

 Finalmente falou. disse que o Marcelo tinha de sair de São Paulo imediatamente, regressar a Rio, se necessário, ou ir para outro estado. Mas ficar era sentença de morte. Facção não perdoava, sobretudo não perdoava ex-polícia, que parecia colaborar, mas era visto a falar com operadores ativos. Marcelo sabia, mas ouvir confirmação doía.

 Significava que 8 meses de reconstrução era um desperdício. Significava recomeçar do zero outra vez. Terceira vez em três anos. O cansaço existencial tomou conta. Quantas vezes teria de fugir? Quantas identidades teria de montar? Quando pararia, mas não tinha tempo para autocomiseração. Capitão tinha razão. Ficar era morrer.

 E morrer não ajudava ninguém. Não ajudava a filha. Não resolvia nada. Sobrevivência primeiro, reflexão depois. Agradeceu ao capitão. Disse que ia desaparecer por tempo. Mudaria de cidade, arranjaria novo emprego, novo nome, nova vida. Capitão desejou sorte. Disse que lamentava. Marcelo disse que a culpa não era dele, era só azar, mau timing.

 desligou, saiu da cafetaria, caminhou até ao rodoviária, comprou bilhete para Curitiba. Próximo autocarro saía em duas horas. Tempo suficiente para a facção ter descoberto que ele desapareceu. Tempo suficiente para estarem à procura, mas não tinha melhor escolha. Sentou-se em banco da estação rodoviária, mochila entre as pernas, mão no fecho, perto da pistola.

 Se viessem, pelo menos não seria fácil. olhou em redor pessoas normais, viajantes, famílias, ninguém prestando-lhe atenção. Ninguém parecia ameaçador. Uma hora passou, ninguém apareceu. Marcelo começou a relaxar. Talvez tivesse resultado. Talvez conseguisse sair de São Paulo antes que a facção mobilizasse. Em Curitiba podia recomeçar. Cidade grande, anónima.

O emprego seria difícil, sem referências, mas conseguiria. Sempre conseguia. Sobrevivente nato. Faltavam 20 minutos para o autocarro quando viu três homens a entrar na estação rodoviária. Um deles usava um boné do Corinthians, líder do PCC. Os outros dois eram novos, não tinham estado no posto, reforços. Entraram e pararam, olharam em redor, procurando.

 Marcelo baixou a cabeça, virou-se de costas discretamente, não correndo, não chamando a atenção, apenas mudando de posição. Foram até ao balcão de informação, mostraram foto no telemóvel para a atendedora. Marcelo não conseguiu ver a foto, mas sabia que era dele, tirada das câmaras do posto antes que ele apagasse, ou de documento que tivessem conseguido. A Facção tinha recursos.

Contatos. Se queriam encontrar alguém, encontravam. A atendente apontou para a área de embarque. Os três homens se moveram nessa direção. Marcelo tinha minutos, talvez segundos. Autocarro para Curitiba saía da plataforma 11. Ele estava perto da plataforma 7. precisava atravessar átrio sem ser visto. Levantou-se, caminhou depressa, mas não correndo.

 Manteve a cabeça baixa, boné puxado, passou entre pessoas, famílias, bagagens. Usou-o como cobertura, olhou de relance. Os três tinham-se dividido. Um ficou no balcão, outro foi para o cafetaria. Terceiro, o líder caminhou em direção às plataformas. Marcelo estava no seu caminho, desviou-se, entrou no casa de banho masculina, três cabines, todas vazias, entrou na última, trancou, sentou-se no vaso, mão na mochila, na pistola.

 Esperou, ouviu porta do casa de banho abrir, passos pararam, silêncio. Depois continuaram a verificar debaixo das portas, procurando pés. Marcelo levantou os pés, equilibrou-se na borda do vaso, posição desconfortável, mas escondida. Os passos pararam em frente da cabine dele, testaram a porta trancada, bateram. Voz do lado de fora perguntou se tinha alguém. Sotaque paulista.

 Não era o líder, era um dos reforços. Marcelo não respondeu, conteve a respiração. O homem bateu de novo, mais forte. Depois desistiu, saiu. Marcelo esperou um minuto completo antes de se mover. Desceu do vaso, destrancou a porta, espiou. Casa de banho vazia, saiu, verificou o relógio. 5 minutos para o autocarro. Precisava de chegar à plataforma, mas não podia usar caminho direto.

 Teria de dar volta. Tempo não permitia. Decidiu arriscar. Saiu da casa de banho, virou à esquerda. caminhou rápido em direção às plataformas. Estava a 15 m quando a ouviu. Aí grito o líder tinha visto. Marcelo não olhou para trás, correu. As pessoas gritaram, afastaram-se, alguém derrubou mala. O Marcelo saltou. Continuou.

Plataforma 11 à frente. Autocarro com motor ligado. Porta aberta. Motorista do lado de fora a fumar. O Marcelo subiu. Condutor gritou que ainda não era altura. Marcelo ignorou. Entrou. Passou pela torniquete, sentou-se no fundo, olhou pela janela, viu os três homens a chegar. Líder gritou para motorista, disse para abrir.

 Condutor disse que tinha que esperar. Líder puxou algo da cintura. Motorista viu, entrou no autocarro a correr, fechou porta, gritou que iam sair agora. Não esperava mais ninguém. Ligou o sistema. O autocarro começou a se mover. Devagar. Plataforma de embarque. Os três homens correram atrás. Um deles bateu à porta. Vidro a gritar para parar.

 Autocarro acelerou, deixou a rodoviária, entrou no trânsito. Marcelo olhou para trás, viu os três parados na passeio, olhando o autocarro ir embora. líder com telefone no ouvido, já reportando, já mobilizando, talvez já organizando gente em Curitiba para esperar quando o autocarro chegasse. Marcelo percebeu que não podia ir para Curitiba.

 Teria de descer antes, mudar direção e improvisar. Pediu para condutor parar na próxima estação rodoviária interestadual. Disse que se esqueceu de algo. Tinha de voltar. Motorista reclamou, mas parou. Marginal Tiet. Rodoviária do Tiet. Grande, cheia. anonimato, desceu, entrou no terminal, comprou bilhete para Brasília, depois para Goiânia, depois para o Campo Grande.

 Três destinos, três passagens. Usaria uma, deixaria as outras como rasto falso, tática básica de fuga, confundir perseguidores. Escolheu o Campo Grande. Saía em 40 minutos, dirigiu-se para a plataforma, embarcou. Autocarro saiu rodovia, direção oeste, Mato Grosso do Sul, longe de São Paulo, longe do PCC, ou pelo menos era o que esperava. Viagem durou 14 horas.

 Marcelo não dormiu. Ficou acordado, vigilante, observando cada paragem, cada pessoa que subia. Ninguém pareceu ameaçador. Ninguém lhe prestou atenção. Quando chegou ao Campo Grande, era madrugada de novo, ciclo completo. 48 horas desde que tudo começou. Saiu da estação rodoviária, caminhou sem rumo. Cidade desconhecida, clima diferente, mas quente, seco.

 Não era o Rio, não era São Paulo, era outra vez recomeço, terceiro em 3 anos. e sabia que não seria último, porque o erro que a facção cometeu não foi mexer com um frentista, foi mexer com alguém que não esquece, que não perdoa, que não desaparece completamente. Os operadores do BOP são treinados para missões impossíveis, para sobreviver contra tudo, para voltar quando menos esperam.

 Marcelo tinha fugido, tinha recuado, mas no fundo sabia que aquilo não acabou. O PCC tinha o seu rosto agora, o seu nome, a sua história. E facção não esquece, caça até encontrar, até terminar o serviço. Mas o que não sabiam é que funcionava nos dois sentidos. Marcelo também não se esquecia. E quando a ameaça viesse de novo e viria, ele não seria apanhado de surpresa, não seria indefeso, não seria apenas exoperador vivendo vida pacata.

 seria o que sempre foi. Predador, sobrevivente, homem que o BOP treinou para entrar no inferno e voltar. E da próxima vez que o encontrassem, descobririam o erro completo que cometeram. Não ao parar no posto nessa madrugada, mas ao deixá-lo vivo quando tiveram oportunidade. Esse foi o maior erro e seria o último.