“Eu Consigo Fazer Você Voltar A Andar” — A Milionária Deu Uma Risada… Até Que O Inesperado Aconteceu

Estava na cadeira de rodas há dois anos, sem esperança, até que uma menina de 7 anos perguntou-lhe: “Posso fazer voltas a andar?” A milionária riu, mas o que aconteceu a seguir mudou tudo. Sara Montenegro ajeitou a manta sobre as pernas e suspirou. Mais um dia igual aos outros, Osvaldo parou o carro adaptado à entrada do Parque Eduardo Stio, em Lisboa, e desceu para ir buscar a cadeira de rodas do porta-bagagens.
Ela nem precisava falar nada. Há ito meses, todos os dias úteis, às 15 horas, a rotina era sempre a mesma. “Dona Sara, quer que eu ficar por perto hoje?”, Osvaldo perguntou enquanto a ajudava a se transferir para a cadeira. Ele sempre fazia essa pergunta e ela sempre respondia: “Não, podes ir, Osvaldo, volta numa hora”.
Ela empurrou as rodas com força, seguindo o caminho habitual até ao banco número 17. Este banco ficava debaixo da grande árvore, em frente ao lago, o mesmo local onde ela vinha tentar perceber como é que a sua vida tinha virado de cabeça para baixo em questão de segundos. Foram duas cirurgias, seis meses de fisioterapia e milhares de euros gastos em tratamentos.
Nada funcionava e os médicos diziam que ela tinha tudo para voltar a andar, mas as suas pernas simplesmente não obedeciam. A Sara estava a mexer no telemóvel quando escutou uma voz fininha atrás dela. “Olá, menina da cadeira de rodas.” Sara virou a cabeça e viu um menina pequena, não devia ter mais de 7 anos, com um casaco escuro que lhe tornava-se demasiado grande, provavelmente herdado de alguém.
Os sapatos estavam sujos e gastos pelo uso, e o cabelo arranjado com carinho tinha um corte simples. Um sorriso doce iluminava o seu rosto e, embora estivesse sozinha, emanava um ar de dignidade que chamava a atenção. “Olá”, respondeu Sara sem grande interesse, pois uma criança perdida era a última coisa com que queria ter de lidar nesse dia.
A menina aproximou-se mais e sentou-se na relva, mesmo em frente à cadeira da Sara. O meu nome é Laura. E o seu? Perguntou a menina com curiosidade. Sara. Sara olhou em redor, procurando pelos pais da Laura. Onde está a sua mãe, Laura? Ah, ela está a trabalhar, está sempre a trabalhar. A Laura respondeu como se fosse a coisa mais normal do mundo, uma criança de [música] 7 anos ficar sozinha no parque.
Posso sentar-me consigo? Parece triste. A Sara não sabia o que responder. Já há muito tempo que alguém não lhe falava de forma tão direta. Pode, respondeu a Sara. Laura sorriu e ficou a olhar para as pernas de Sara, [música] que estavam cobertas pela manta. “Há quanto tempo é que não anda?”, perguntou a Laura.
Há dois anos, a resposta saiu de forma automática. Sara estava habituada à curiosidade das pessoas, sobretudo das crianças. Ui, bastante tempo mesmo. [música] Deve ser aborrecido estar só sentada. É verdade, concordou Sara. A Laura ficou em silêncio por um momento, balançando as perninhas. Sabe o que eu acho? Acho que pode voltar a andar.
Ai, é? A Sara deu uma risadinha amarga. E como é que sabe disso? Porque eu consigo fazer-te voltar a andar? As palavras saíram da boca da menina com uma confiança que fazia Sara deixar de mexer no telemóvel. Ela olhou bem nos olhos de Laura. Não havia brincadeira ali. A menina estava a falar a sério. Laura, isto não é brincadeira.
[música] Tenho um problema grave na coluna. Os melhores médicos de Lisboa já examinaram-me. Não é uma questão de querer ou não querer andar. [música] Eu sei que não é brincadeira”, disse Laura, levantando-se e aproximando-se da cadeira. “Mas também sei que você pode andar. Eu sinto isso.” A Sara sentiu um estranho arrepio, pois havia algo no maneira da menina dizer que não era normal para uma criança daquela idade.
“Como pode ter tanta certeza de uma coisa dessas?”, perguntou a Sara. A minha avó dizia sempre que algumas pessoas ficam presas, não por causa do corpo, mas por causa do coração, que quando o coração se cura, o corpo também se cura. Sua avó? A Sara repetiu devagar. E onde é que ela está? Ah, ela está meio doentinha agora, está mais em casa, mas fala muito de si. O sangue de Sara gelou.
Fala de mim? Como assim? A Laura baixou a cabeça e começou a fazer desenhos na terra com o dedo. Ela conta sempre histórias de uma rapariga muito boa que ela cuidava. Uma rapariga bonita, de cabelo escuro, que vivia numa casa grande e tinha um escritório cheio de papéis importantes.
A Sara agarrou as rodas da cadeira com força. Qual é o nome da sua avó, Laura? Mercedes. Mercedes da Silva. Mas toda a gente a trata por dona Mercedes. O mundo de Sara parou. Ela sentiu como se tivesse levado um soco no estômago. A Dona Mercedes, a mulher que trabalhou em casa dela durante 15 anos, a mulher que ela acusou de lhe roubar as jóias, a mulher que ela mandou embora no pior dia da sua vida, gritando, chamando-a de ladra, dizendo que nunca mais a queria ver pela frente.
“Não pode ser”, sussurrou Sara. “Pode, sim”, respondeu a Laura. “Ela sempre [música] diz que eras como uma filha para ela, que a viu crescer. Tornar-se uma mulher forte e corajosa que cuidou de si quando estava doente, quando chorava. para Sara interrompeu enquanto as lágrimas começavam a descer-lhe pelo rosto. Pára com isso.
Mas Laura continuou agora com a voz mais baixa, mais carinhosa. Ela também diz que você ficou muito magoada por dentro quando descobriu que aquele homem não prestava e que estava com tanto medo e tanta raiva que não conseguia pensar direito. Sara estava a tremer. a dor, a traição, as jóias que desapareceram, o desespero, a confusão, o acidente três dias depois de mandar a Mercedes embora.
Como é que sabe dessas coisas? Você é apenas uma criança. A a minha avó contou-me tudo. Ela nunca ficou zangado consigo, sabe? Ela dizia sempre que não estava a ser te naquele dia, que a Sara de verdade nunca faria uma coisa daquelas. Sara cobriu o rosto com as mãos. Eu não posso ouvir isso. Não posso. A Laura ajoelhou-se na relva mesmo em frente da cadeira.
Tia Sara, olhe para mim. O jeito carinhoso com que ela disse: “Tia Sara”, fez algo partir-se no peito de Sara. Ela baixou as mãos e olhou nos olhos da menina. A a minha avó não quer que sofra mais. Ela sabe que já sofreu demais e mandou-me aqui para ajudar. Mandou? Como assim mandou? Ela sabe que vem cá todos os dias.
Ela sabe que fica neste banco à mesma hora, sempre sozinha. E ela pediu-me para vir falar consigo. Sara olhou novamente em redor. Mas onde é que ela está? Como é que soube? O Osvaldo A Laura disse simplesmente, ele conhece a minha família há muito tempo. Ele sempre soube onde estava a avó. A Sara sentiu como se o chão tivesse desaparecido debaixo dela.
Osvaldo, o o seu motorista há 5 anos, sabia onde Mercedes estava e nunca tinha dito nada. Ele sabia. Sabia, mas a avó pediu-lhe para não dizer nada. Ela disse que a ia procurar quando estivesse pronta, só que nunca a procurou. As lágrimas de Sara caíam sem parar. Agora foram 15 anos de convivência.
Mercedes fazia o pequeno almoço da forma que ela gostava, recordava-a dos compromissos importantes e ficava acordada à espera quando a Sara chegava tarde do trabalho. Era mais do que uma criada, era família. Eu estraguei [música] tudo, Laura. Eu disse coisas horríveis para ela, coisas que não têm perdão. Tem perdão, sim.
A Laura disse, estendendo a mãozinha e tocando no braço da Sara. A minha avó dizia sempre que o o amor perdoa tudo e ela ama aa muito. A Sara olhou para a mão pequena da menina no seu braço. Havia algo de reconfortante naquele toque, algo que ela não sentia há muito tempo. Por que razão veio falar comigo, Laura? Porquê hoje? Porque hoje senti que era o momento certo e porque quero mesmo ajudar a voltar a andar.
Mas como? Como pode uma menina de 7 anos? Eu não sei como a Laura encolheu os ombros. Só sei que posso. A minha avó dizia sempre que tinha um dom especial, que eu conseguia ver coisas que os outros não vêm. A Sara enxugou os olhos com as costas da mão. E o que é que vê em mim? Laura olhou-a bem nos olhos por um longo momento.
Vejo uma rapariga muito triste que esqueceu-se do que é ser feliz. Vejo alguém com muito medo de tentar novamente e vejo pernas que conseguem andar, mas que não andam porque o coração está muito pesado. As palavras da menina atravessaram a Sara [música] como uma flecha. Ela nunca tinha pensado nisso dessa forma. Laura, não preciso de falar nada agora.
Laura levantou-se e ajeitou o casaco grande no corpo pequeno. Vou regressar amanhã à mesma hora. Se quiser, podemos experimentar algumas coisas juntas. Que tipo de coisas? Coisas simples, exercícios, conversas. Às vezes só precisamos de lembrar ao corpo como as coisas funcionam. Sara olhou para a menina com um misto de desconfiança e curiosidade.
E se não funcionar? Vai funcionar. A Laura sorriu. Eu tenho a certeza. Como pode ter tanta certeza? Porque a minha avó ensinou-me que os milagres acontecem quando acreditamos de verdade. E eu acredito na tu, tia Sara. Nesse momento, Sara viu o Osvaldo a chegar com o carro. Laura também o viu e acenou-lhe.
Olá, o seu Osvaldo. Osvaldo parou o carro e saiu, claramente surpreendido por ver Laura ali. Laura, o que está aqui a fazer, menina? A conversar com a tia Sara. Laura respondeu naturalmente. Vamos ser amigas. Osvaldo olhou para Sara, que ainda tinha os olhos vermelhos de tanto chorar. Dona Sara, a senhora está bem? Estou. A Sara mentiu.
Laura, vai mesmo voltar amanhã? Vou sim, à mesma hora, no mesmo lugar. A Laura deu um beijinho ao rosto de Sara. Até amanhã, tia Sara. Sonhe com coisas boas hoje. E saiu a correr, acenando aos dois. Sara ficou a olhar a menina a afastar-se até desaparecer entre as árvores. Osvaldo ajudou-a a voltar para o carro em silêncio. Osvaldo! A Sara disse quando já estavam na estrada. Sim, dona Sara.
Conhece mesmo a família desta menina? Osvaldo suspirou. Conheço sim. Porque nunca me disse nada sobre a Mercedes? Porque a senhora nunca perguntou e porque é que a dona Mercedes pediu-me para não interferir? Sara encostou a cabeça ao vidro da janela. Ela está bem? Está cuidada. A filha dela trabalha muito para pagar os medicamentos, mas elas arranjam-se.
E a Laura? A Laura é especial, sempre foi. [música] Há uns maneiras diferentes, sabe? Parece que ela compreende coisas que uma criança normal não entende. A Sara fechou os olhos. Pela primeira vez em dois anos, ela sentiu algo parecido com a esperança a crescer no peito e também muito medo. Osvaldo, você acha que é possível eu voltar a andar? Dona Sara, eu acho que tudo é possível quando encontramos a razão certa para tentar.
Nessa noite, a Sara não conseguiu dormir. Ficou na cama recordando cada palavra que Laura tinha dito. O rosto de Mercedes aparecia na a sua mente o tempo todo, o último dia em que se viram, os gritos, as acusações, o desespero nos olhos da mulher que a criou como filha. Pela primeira vez em dois anos, Sara Montenegro perguntou-se se ainda havia tempo para reparar o que se tinha partido e se uma menina de 7 anos poderia realmente fazer o impossível acontecer.
A Sara passou a noite inteira acordada, virando-se de um lado para o outro na cama. Cada vez que fechava os olhos, via o rosto de Laura, aqueles olhos de criança que pareciam guardar segredos de adulto. As palavras dela ecoavam na cabeça de Sara sem parar. Posso fazer-te andar de novo? Às 3 da manhã, a Sara desistiu de tentar dormir e foi para a sala no piso térrio, empurrando a cadeira de rodas pelo corredor silencioso da Casa Grande.
Tudo ali lembrava a época em que as suas pernas funcionavam, as escadas que ela subia a correr, o tapete da sala onde dançava sozinha quando chegava feliz do trabalho, a cozinha onde Mercedes preparava o pequeno-almoço enquanto conversavam sobre a vida. Mercedes. Sara parou a cadeira em frente à janela e olhou para o jardim escuro.
Como tinha conseguido esquecer durante tanto tempo uma pessoa que foi tão importante? [música] Foram 15 anos de convivência, 15 anos de cuidado, carinho e cumidade. E ela tinha deitado tudo fora em apenas um dia. Foi como se um filme começasse a passar na a sua cabeça do há anos e três meses o pior período da sua vida.
A Sara estava no auge da carreira. Aos 32 anos, comandava uma das maiores empresas de consultoria de Lisboa, casada há 5 anos com Eduardo, um advogado encantador que conheceu numa festa de finalistas. Tudo parecia perfeito. Casa lindíssima, carro do ano, viagens para o estrangeiro. Ela achava que tinha conseguido tudo o que sempre desejara.
A Mercedes esteve presente em todos os momentos importantes. Quando a Sara regressava cansada do escritório, ela deixava o jantar pronto e ficava a conversar na cozinha. Quando a Sara brigava com Eduardo, Mercedes sabia exatamente o que dizer para a acalmar. Quando Sara adoecia, Mercedes cuidava dela como uma mãe cuida de uma filha.
Menina Sara, trabalha demais. A Mercedes dizia sempre [música] que com aquela voz carinhosa. O dinheiro é importante, mas a saúde e a família são ainda mais importantes. A Sara sorriu e respondeu: “Ainda bem que te tenho para cuidar de mim, Mercedinha”. E Mercedes sorria de volta com aquele jeito maternal que fazia Sara sentir-se protegida.
Tudo começou a desmoronar-se numa quinta-feira de março. A Sara chegou à casa mais cedo porque estava com dores de cabeça. O Eduardo deveria estar no escritório até tarde, como sempre. Ela subiu logo para o quarto, querendo tomar um banho e descansar. Abriu a porta e viu uma cena que lhe partiu o mundo em pedaços.
O Eduardo estava na cama dela com a sua secretária, na cama onde dormiam juntos há 5 anos, no quarto que ela considerava o lugar mais sagrado da casa. O que veio depois foi uma mistura de gritos, choro e confusão. Eduardo a tentar explicar, inventando desculpas. A secretária a correr para se vestir. Sara a atirar-lhe as roupas pela janela, gritando que nunca mais o queria ver.
Mercedes subiu a correr quando ouviu o barulho. Menina Sara, o que aconteceu? Traiu-me Mercedes, aqui na minha casa, na minha cama. A Sara estava fora de si, a chorar e a tremer. Mercedes abraçou a Sara e ficou ali a segurá-la enquanto ela chorava. Calma, minha filha, respira. Vamos conversar com calma. Mas não houve conversa com calma.
O Eduardo saiu de casa nesse mesmo dia levando algumas roupas e prometendo que ia resolver tudo. A Sara ficou sozinha com Mercedes, tentando perceber como tudo tinha corrido mal tão rápido. Nos dias seguintes, Sara descobriu que a traição não era recente. O Eduardo tinha casos há mais de um ano com várias mulheres e a secretária apenas a mais recente.
Pior ainda, estava a desviar dinheiro da empresa dele para sustentar o estilo de vida duplo que levava. Sar entrou numa espiral de desconfiança e paranóia. Se Eduardo mentiu durante tanto tempo, quem mais estaria a mentir-lhe? Se ele fingiu amor há 5 anos, o que mais na vida dela era mentira? Foi quando as jóias desapareceram.
Sara tinha uma coleção de joias herdadas da mãe guardadas num cofre no quarto. Eram peças antigas, de muito valor sentimental e financeiro. Um dia, ela abriu o cofre e viu que três peças tinham desaparecido: o colar de pérolas da avó, os brincos de diamantes que a mãe usou no casamento e uma pulseira de ouro que era da bisavó.
O primeiro pensamento dela foi o Eduardo. Ele conhecia a combinação do cofre e devia ter pegado as jóias para vender e pagar as dívidas que estava a fazer. A Sara ligou-lhe gritando, acusando, mas Eduardo jurou que não tinha apanhado nada. Sara, sei que já não confia em mim, mas juro pela memória da minha mãe que não levei as as suas jóias. Eu nunca faria isso.
Sara não acreditou. Quem mais poderia ter pegado? Apenas três [música] pessoas tinham acesso ao quarto. Ela, o Eduardo e Mercedes. A paranóia tomou conta. Sara começou a observar Mercedes de forma diferente. Reparava se ela demorava muito para limpar o quarto. Prestava atenção se a Mercedes mexia em coisas que não devia.
Começou a desconfiar de cada gesto, cada palavra. Mercedes percebeu a mudança. Menina Sara, está estranha comigo. Fiz alguma coisa de mal? Não, Mercedes, está tudo normal. Sara mentia, mas por [música] dentro estava a ferver de dúvida e suspeita. A gota de água foi quando Sara chegou a casa e viu Mercedes a sair do seu quarto com um pano de limpeza à mão.
O que estava ali a fazer em cima? A Sara perguntou com um tom que nunca tinha usado com Mercedes antes. A arrumar o seu quarto, menina Sara, como faço sempre. Havia alguma coisa específica que estava a procurar? Mercedes ficou confusa. A procurar? Não entendi. A Sara subiu as escadas e foi diretamente ao cofre. Abriu e verificou.
As jóias que restavam estavam lá, mas Sara tinha a certeza [música] de que uma pulseira tinha mudado de posição. Ela desceu as escadas como uma louca. A Mercedes estava na cozinha a lavar a louça. Onde estão as minhas jóias, Mercedes? Mercedes largou o prato que estava a lavar e virou-se assustada. Que jóias, menina Sara.
Eu não sei de que está a falar. Não finja que não sabe. O colar da minha avó, os brincos da minha mãe, a pulseira da minha bisavó. Onde escondeu? Menina Sara, não sei do que está a falar. Que história é esta de joias desaparecidas? Deixa de me mentir, Sara gritou fora de controlo só tu e o Eduardo tinham acesso ao meu quarto.
E se o O Eduardo não pegou, foste tu. O rosto de O Mercedes ficou branco. A Sara, está a dizer que sou ladra? Estou a dizer que as minhas jóias desapareceram e tu é a única pessoa que as poderia ter pegado. Mercedes começou a chorar. Não choro de raiva, mas um choro de dor profunda. Sara, cuidei de ti durante 15 anos.
Vi-o crescer, tornar-se mulher, construir a sua vida. Como pode achar que eu a roubaria? Mas Sara estava cega de raiva e dor. Porque toda a gente me trai. O Eduardo traiu-me. Agora você, toda a gente em quem confio, acaba por enganar-me. Eu nunca a enganei, Sara. Nunca na vida. Então, onde estão as as minhas [música] jóias? Mercedes enxugou os olhos com o avental.
Eu não sei, menina Sara. Eu juro por Deus que não sei. Pare de mentir. A Sara bateu com a mão na mesa da cozinha. Quero-te fora da minha casa agora, Mercedes. Agora pegue as suas coisas e saia e não volte nunca mais. Mercedes ficou parada como se não acreditasse no que estava a ouvir. Sara, por favor, vamos falar com calma.
Não está a pensar direito. Estou a pensar muito bem. Tu és uma ladra e eu não quero uma ladra em minha casa. Não chame-me ladra, Sara. Pelo amor de Deus, não me chame ladra. Mas Sara estava fora de si. É o que você é. uma ladra. 15 anos a fingir que se preocupava comigo quando, na verdade só estava à espera da oportunidade para me roubar.
Mercedes saiu da cozinha a chorar, subiu para o seu quartinho ao fundo da casa, pegou nas poucas coisas que tinha e desceu com uma mala pequena. A Sara estava na sala de braços cruzados, ainda furiosa. Sara, vou-me embora porque está a mandar-me, mas quero que saiba uma coisa. Amo-a como se fosse minha filha e eu nunca, nunca pegaria em nada seu. Nunca. Saia da minha casa.
Mercedes parou à porta, virou-se uma última vez. Um dia descobrirá a verdade e quando descobrir vai lembrar-se das palavras que me disse hoje. [música] E saiu. A Sara ficou sozinha na casa grande, achando que tinha feito a coisa certa, que se tinha protegido de mais uma traição, [música] que tinha sido forte. Três dias depois, ela estava a conduzir para o escritório quando um camião furou o sinal.
O impacto foi na lateral do carro dela. A Sara acordou no hospital com os médicos a dizerem que ia precisar de fazer uma cirurgia à coluna. Duas cirurgias, seis meses de recuperação e as pernas dela nunca mais funcionaram direito. [música] Foi só depois do acidente que ela descobriu a verdade sobre as jóias. Eduardo tinha mesmo apanhado nelas, não para vender, mas para as dar de presente à amante.
A secretária estava a usar o colar de pérolas da avó da Sara numa foto que publicou nas redes sociais. Quando a Sara viu a foto, o mundo voltou a desmoronar-se. Mercedes era inocente, completamente inocente, e Sara tinha destruído a vida da única pessoa que realmente se importava com ela. Agora de madrugada, sozinha na sala escura, Sara chorava, lembrando-se do último olhar de Mercedes, da sua dor nos olhos, da dignidade com que saiu de casa, mesmo sendo humilhada injustamente.
Mercedinha, perdoa-me”, sussurrou Sara no silêncio. “Perdoa-me”. Às 15 horas do dia seguinte, Sara encontrava-se no parque Eduardo Settino de novo. Chegou mais cedo do que o habitual, ansiosa, não sabia bem porquê, mas sentia que precisava de ver a Laura novamente. Precisava de entender como uma menina de 7 anos podia saber tanto sobre a sua vida.
Ela estava no banco há uns 20 minutos quando viu a Laura a chegar. A menina vinha a andar devagar, carregando uma folha de papel na mão. Olá, tia Sara. A Laura acenou e veio a correr. Olá, Laura. Pensei que não virias. Eu disse que ia voltar, não disse? Laura sentou-se na relva como no dia anterior. Trouxe-lhe uma coisa.
Ela estendeu a folha de papel. Era um desenho feito com lápis de cor, duas figuras de mãos dadas, uma mulher numa cadeira de rodas e uma menina pequena. Em baixo estava escrito com letra caprichada: Sara e Laura, amigas para sempre. A Sara sentiu os olhos marejarem. Fizeste isto para mim? Fiz.
A minha avó dizia sempre que desenho feito com carinho tem poder de cura. A Sara segurou o desenho com cuidado. Laura, posso perguntar-te uma coisa? Claro. Como está a sua avó? Ela disse alguma coisa sobre mim ontem? A Laura ficou séria por momentos. Ela está bem, meio cansada, mas bem. E sim, ela falou de si.
O que é que ela disse? Que vieste aqui ontem toda mexida, a chorar, que finalmente alguém falou do passado contigo. Sara franziu o sobrolho. Como é que ela soube disso? Contaste-lhe? Contei que sim, mas ela já sabia que ias ficar mexida. Ela sempre soube. Laura, preciso que entendas uma coisa. Eu fiz uma coisa muito feia à sua avó. Muito feia mesmo.
A Laura abanou a cabeça. Eu sei. Ela contou-me tudo. E mesmo sabendo, ainda queres ajudar-me? Quero, porque a minha avó ensinou-me que toda a gente erra às vezes e que o importante não é o erro, é o que fazemos depois de descobrirmos que erramos. A Sara olhou para a menina com admiração.
Como pode ser tão sábia com apenas 7 anos? A minha avó sempre conversava comigo como se eu fosse adulta. Ela dizia que as crianças também compreende as coisas. Só precisa que alguém explique direito. Sara respirou fundo. Laura, quero contar-te uma coisa, mas é uma coisa muito triste. Podes contar. A Sara contou tudo.
O acidente, as jóias, a descoberta da traição de Eduardo, a forma cruel como tratou Mercedes. Laura escutou tudo em silêncio, apenas abanando a cabeça de vez em quando. Quando a Sara terminou, a Laura disse: “Tia Sara, queres saber o que a minha avó disse quando chegou a casa nesse dia?” “O quê?” Ela chegou a chorar muito.
A minha mãe perguntou o que tinha acontecido. E sabe o que ela disse? A Sara balançou a cabeça. Ela disse: “A minha menina Sara está de coração partido. Ela não sabe mais em quem confiar. Deus a proteja porque ela vai precisar de muita força.” As lágrimas de Sara caíram como chuva. Ela não ficou zangada? ficou triste, muito triste, mas não com raiva.
Ela dizia sempre que estava a sofrer demais para conseguir ver direito. Sara cobriu o rosto com as mãos. Eu destruí a vida dela, Laura. [música] Não destruiu, não. A minha avó continua a ser a mesma pessoa boa de sempre e continua a amá-la. Como tem tanta certeza disso? A Laura sorriu porque senão ela não me tinha mandado vir falar consigo.
Nesse momento, a Sara olhou para os lados e viu uma figura conhecida parada longe, perto de uma árvore. Uma mulher com cerca de 60 anos, cabelo grisalho, vestido simples, observando de longe. Mercedes. Laura. Sara sussurrou. A sua avó está ali. Laura virou-se e acenou. Olá avó. Mercedes acenou de volta, mas não se aproximou.
A Sara sentiu o coração disparar. Porque é que ela não vem aqui? Porque ela acha que ainda não está pronta para falar com ela. Sara olhou para Mercedes durante um longo momento. A mulher que a criou, que cuidou dela, que a amou como uma filha e que ela tinha humilhado da pior forma possível. Laura Sara disse com a voz embargada.
Achas que a tua avó me perdoaria se eu pedisse desculpa? Acho que sim, mas tem de ter coragem para tentar. A Sara olhou para as suas pernas imóveis. E se eu realmente conseguir voltar a andar como disseste, o que eu faço? A primeira coisa que faz é ir ter com a minha avó e dar-lhe um abraço. Um abraço de verdade.
A Sara sorriu pela primeira vez em muito tempo. Você tem razão. Sempre tenho. A Laura deu uma risadinha. Agora vamos começar. Começar o quê? Os exercícios para que volte a andar. E ali no meio do parque o Eduardo 7, com Mercedes a observar de longe, A Laura começou a ensinar a Sara que às vezes os milagres começam com um simples movimento de perdão.
Nos dias seguintes, A Sara começou a aguardar o horário do parque como se fosse o momento mais importante do dia. Pela primeira vez em dois anos, ela tinha algo por que esperar. A Laura aparecia sempre pontual às 3 da tarde, com aquele sorriso doce e um jeitinho de quem sabia exatamente o que estava a fazer. Bom dia, tia Sara.
Laura cumprimentava sempre com alegria, como se fossem amigas de infância. Sara descobriu que a menina tinha uma forma única de ver as coisas. Enquanto os os médicos falavam de músculos atrofiados, nervos comprimidos e possibilidades remotas, Laura falava de coração apertado, memórias tristes e energia bloqueada.
“Hoje vamos fazer uma coisa diferente”, A Laura disse à quarta vez que se encontraram. “Vamos brincar ao lembrar.” “Lembrar-se do quê?” “De quando as suas pernas funcionavam bem. Feche os olhos.” A Sara obedeceu meio sem graça. Ali no meio do parque, com pessoas a passar, ela sentia-se estranha a fazer aquilo, mas havia algo na voz de Laura que a tranquilizava.
Agora conta-me qual foi a última vez que te lembras de estar realmente feliz a andar? A Sara pensou por um momento. Acho que acho que foi numa festa de Natal da empresa há 3 anos. Eu estava a dançar. Como é que se sentia? livre, leve, como se pudesse voar. E onde é que sentia essa leveza? Nas pernas? Era como se tivessem vida própria. A Laura sorriu.
Agora imagine essa sensação a voltar muito lentamente. A Sara tentou imaginar, mas só conseguia sentir o peso morto das pernas debaixo da manta. Não consigo, Laura, há muito tempo. Muito bem, vamos tentar outra coisa. A Laura levantou-se e ficou na frente da cadeira da Sara. Dê-me as suas mãos.
A Sara estendeu as mãos e a Laura segurou com força. As mãozinhas pequenas eram quentes e firmes. Agora vai tentar empurrar para baixo como se quisesse levantar-se da cadeira. Não precisa de se levantar de verdade, só fazer a força. Laura, isso não vai. Confia em mim. A Sara respirou fundo e tentou fazer força para baixo, como se fosse levantar-se.
Não aconteceu nada nas pernas, mas ela sentiu os músculos dos braços e do abdómen a trabalhar. Sentiu alguma coisa? perguntou a Laura. Nos braços? Sim. Nas pernas? Nada. Mas fez força? Fiz. Portanto, já é um começo. O seu corpo lembrou-se de como se levantar, nem que seja apenas uma parte dele. A Sara olhou para a Laura com curiosidade.
Onde aprendeu essas coisas? A minha avó, ela dizia sempre que o corpo é esperto, só esquece às vezes e que quando nos lembramos uma parte, as outras partes também começam a lembrar-se. Elas repetiram o exercício várias vezes. A Sara empurrava para baixo, segurando as mãos de Laura, tentando imaginar que estava a levantar-se.
No início era só frustração, mas passados alguns dias ela começou a sentir algo diferente. Laura, acho que senti um formigueiro. Onde? Na coxa direita, muito fraquinho, mas senti. A Laura bateu palmas. Eu sabia. Eu sabia que ia resultar, mas foi só um formigueiro. Pode não significar nada. Significa sim.
Significa que alguma coisa lá dentro está a acordar. Era verdade. Nos dias seguintes, os formigueiros tornaram-se mais frequentes. Não eram suficientemente fortes para mover as pernas, mas Sara conseguia senti-los. Era como se alguma coisa estivesse a tentar voltar à vida lá dentro. Tia Sara, a Laura disse numa tarde de sexta-feira, posso dizer-lhe uma coisa sobre a minha família? Claro.
A minha mãe trabalha numa loja de roupa no centro. Ela sai de casa às 6 da manhã e regressa às 8 da noite todos os dias, exceto domingo. A Sara sentiu um aperto no peito. Deve ser muito cansativo. É, ela chega à casa morta de cansaço, mas sabe o que faz ela antes de dormir? O quê? Senta-se na beira da cama da avó e conta como foi o dia dela.
Todos os dias, mesmo cansada, mesmo com sono. Sua mãe parece ser uma pessoa muito boa. É. E sabe quem a ensinou a ser assim? Sara já sabia a resposta. A sua avó. Isso. A a minha avó sempre disse que cuidar das pessoas que amamos não é uma obrigação, é privilégio. As palavras de Laura tocaram Sara de uma forma que ela não esperava.
Mercedes tinha cuidado dela durante 15 anos, não por obrigação, mas porque realmente se importava. E a Sara tinha deitado esse amor fora como se fosse lixo. Laura, a a sua avó está bem de saúde? A Laura hesitou um pouco antes de responder. Ela tem uma condição delicada no coração. Precisa de tomar medicamentos todos os dias.
Às vezes fica muito cansada. E o medicamento é caro? muito. Por isso a minha mãe trabalha tanto. A Sara sentiu uma vontade enorme de ajudar, mas sabia que não podia simplesmente oferecer dinheiro. Mercedes tinha orgulho e Sara não tinha o direito de tentar comprar o perdão. Laura, posso fazer-lhe uma pergunta pessoal? Pode.
Porque vem aqui todos os dias? Por que se está a dedicar tanto a ajudar-me? A Laura ficou quieta por um momento, olhando para o lago. Porque a minha avó chora? Como assim? Ela acha que eu não vejo, mas vejo. Às vezes, quando ela pensa que estou a dormir, fica a olhar pela janela e chora. E eu sei que ela está a pensar em si.
A Sara sentiu como se tivesse levado um murro no estômago. Ela chora por minha causa? Não de raiva, de saudade. Ela diz sempre que era como uma filha para ela e que perdeu duas filhas no mesmo dia. Duas filhas, tu e a minha mãe. A minha mãe ficou muito zangada quando soube o que aconteceu. Ela disse que não queria mais que a avó falasse de si.
Sara cobriu o rosto com as mãos. Não era só Mercedes que ela tinha magoado, era a família inteira. Mas eu acho que se você pedisse desculpas a sério, toda a gente ia perceber. A Laura continuou. As pessoas boas fazem coisas más às vezes. O importante é reconhecer e tentar reparar. E se for tarde demais? E se ela não me conseguir perdoar? A a minha avó dizia sempre que nunca é tarde para o amor e que o perdão não é um presente que damos aos outros, é um presente que damos a nós próprios.
Naquele momento, a Sara viu uma figura familiar a aproximar-se. Era o Osvaldo, mas ele não estava sozinho. Havia um homem mais velho com ele, de cabelo grisalho e roupa simples. Boa tarde, Dona Sara. Osvaldo cumprimentou. Este é o Senr. João, pai da dona Mercedes. A Sara sentiu o coração parar. [música] O pai de Mercedes.
Ela nunca o tinha conhecido pessoalmente, mas Mercedes falava dele com muito [música] carinho. “Boa tarde, senhor João”, disse Sara sem saber bem como agir. O homem olhou para ela por um longo momento. Os seus olhos eram bondosos, mas Sara viu uma tristeza profunda ali. “Então és a Sara?”, disse finalmente. “A minha Mercedes fala muito de si.
” “Eu imagino que ela não diga coisas boas.” O Sr. João sorriu. Na verdade, fala. Ela diz sempre que era uma boa menina que passou por momentos muito difíceis. A Sara não conseguiu conter as lágrimas. Senhor João, fiz uma coisa terrível à tua filha, uma coisa que não tem perdão. A a minha filha é uma mulher sábia, Sara. Se ela diz que tu és boa, é porque és.
E se está aqui a tentar curar-se, é porque ainda há esperança. O senhor conhece Osvaldo há muito tempo? Conheço. Ele foi vizinho nosso quando a Mercedes era pequena. Sempre foi como um irmão para ela. Sara olhou para Osvaldo com surpresa. Nunca me contou isso. Osvaldo baixou a cabeça. Dona Sara, eu sempre soube onde estava a dona Mercedes.
Sempre mantive contacto com a família, mas ela pediu-me para não interferir. Por quê? Porque ela queria que a senhora a procurasse quando estivesse pronta, não por pressão ou por pena, mas porque queria realmente consertar as coisas. Senr. O João aproximou-se da cadeira de Sara. Posso dizer-lhe uma coisa, menina? A Sara acenou que sim.
Quando Mercedes chegou a casa nesse dia a chorar, fiquei com muita raiva de você. Queria ir a sua casa e dizer-lhe umas verdades. Mas sabe o que ela fez? Ela segurou-me pelo braço e disse: “Pai, a Sara está a sofrer mais do que eu. Ela perdeu o marido, a confiança, a paz. Eu só perdi um emprego. [música] Ela precisa de tempo para se curar.
” A Sara estava a soluçar agora. Como ela consegue ser tão boa? Porque ela aprendeu que guardar mágoa só magoa quem a guarda. Ela preferiu guardar amor. A Laura, que tinha estado quieta durante toda a conversa, aproximou-se do avô. O avô João, conta à tia Sara sobre o Osvaldo. Senr. O João sorriu. Ah, sim, Osvaldo. Conte você. Osvaldo pigarreou.
Dona Sara, preciso de lhe confessar uma coisa. Eu não trabalho só para a senhora. Como assim? Desde que a senhora mandou a dona Mercedes embora, ajudo a família dela financeiramente. Todos os meses dou uma parte do meu salário para ajudar com os medicamentos dela. A Sara ficou boca e aberta. Osvaldo, não podia ver a dona Mercedes a passar necessidade.
Ela sempre foi como uma irmã para mim. E eu sabia que um dia a senhora ia descobrir a verdade e ia querer resolver as coisas. Por isso nunca questionou quando eu Comecei a vir aqui ao parque. Eu sabia que mais cedo ou mais tarde a senhora ia encontrar a Laura e que a Laura ia fazer a ponte entre vocês as duas.
A Sara olhou para a Laura. Foi tudo planeado? A Laura deu de ombros. Não planeado, mas esperado. A a minha avó sempre disse que o amor arranja um jeito. Nesse momento, Sara sentiu algo diferente, um formigueiro mais forte que subiu pela perna direita até à anca. Ela olhou para baixo, assustada. Senti alguma coisa? Ela sussurrou.
O quê? A Laura perguntou animada. Um formigueiro diferente, mas forte. A Laura segurou as mãos da Sara. Vamos tentar de novo. Faça força para se levantar. Sara respirou fundo e empurrou para baixo. Desta vez, ela sentiu algo que não sentia há dois anos. Os seus músculos das coxas contraíram-se. muito pouco, quase imperceptível, mas contraíram.
“Meu Deus!” Mercedes sussurrou. “Sara, as tuas pernas mexeram. Mexeram mesmo?” Sara abriu os olhos, assustada. “Mexeram sim”, Laura gritou. “Mexeram muito. Tenta outra vez.” A Sara tentou uma e outra vez. A cada tentativa, a sensação ficava um pouco mais forte. “Como é possível?”, – perguntou Sara ainda em choque. Laura sorriu porque começou a perdoar.
E quando perdoamos, libertamos espaço para os milagres acontecerem. A Sara olhou em volta para aquelas pessoas que estavam ali por ela. Osvaldo, que abdicou de parte do salário para cuidar dos Mercedes. [música] Senr. João, que escolheu compreender em vez de guardar raiva. Laura, que dedicava as suas tardes a ajudar uma estranha, e Mercedes, que estava em casa, provavelmente a rezar para que a sua menina Sara encontrasse a paz.
Laura, Sara disse com voz firme. Quero ver a a sua avó hoje. Tem a certeza? Tenho. Está na altura de eu parar de fugir. Laura olhou para o avô que acenou positivamente. Avô João, podemos levar a tia Sara lá à casa? [música] Claro, minha neta, acho que chegou a altura. E ali no Parque Eduardo Séo, com o sol a começar a pôr-se, a Sara sentiu que estava prestes a dar o passo mais importante da a sua vida.
Literalmente, a casa era pequena e simples, mas tinha algo que a mansão de Sara não tinha há muito tempo. Calor humano. As paredes eram pintadas de azul claro. Havia vasos com plantas na varanda e o cheiro a café passado no fogão chegava à rua. A Sara estava nervosa no banco de trás do carro de Osvaldo.
As mãos suavam, o coração batia descompassado. A Laura estava sentada ao seu lado, segurando a sua mão em silêncio. Senr. O João ia no banco da frente, dando direções a Osvaldo. É aqui, Osvaldo. Pode parar. O carro parou em frente ao portãozinho de ferro. A Sara olhou pela janela e viu uma mulher na varanda arregar as plantas.
Mercedes, mais magra do que ela se lembrava, cabelo mais grisalho, mas com o mesmo jeito carinhoso de sempre. Ela está ali, sussurrou a Sara. Quer que eu vá falar com ela primeiro? Senr. perguntou o João. Não preciso de fazer sozinha. Osvaldo desceu e pegou na cadeira de rodas do porta-bagagens. A Sara transferiu-se do carro para a cadeira, respirando fundo a cada movimento.
A Laura saltou do carro e correu para a varanda. Avó, avó, a tia Sara veio. Mercedes largou o regador e olhou na direção do automóvel. Quando viu a Sara na cadeira de rodas, a sua expressão alterou-se completamente. Surpresa, emoção e algo que a Sara não conseguiu identificar. Sara empurrou a cadeira lentamente até ao portãozinho.
As suas mãos tremiam tanto que mal conseguia rodar as rodas direito. Boa tarde, Mercedes. Mercedes desceu os três degraus da varanda devagar, como se não acreditasse no que estava a ver. Parou do outro lado do portão, a apenas 2 m de distância. “Sara”, disse ela e a sua voz saiu embargada. “Vieste?” “Eu? Eu preciso falar consigo.
A Mercedes abriu o portãozinho sem dizer nada. A Sara entrou no pequeno quintal, seguida pela Laura, Senr. João e Osvaldo, mas ela mal reparou a presença dos outros. Todos os seus sentidos estavam focados na mulher à sua frente. “Como está?”, perguntou Mercedes e a Sara percebeu que ela estava a chorar. “Eu estou Eu estou [música] muito mal, Mercedes. Muito mal.
Sara, menina, deixa-me falar primeiro, por favor. Mercedes acenou que sim e sentou-se numa cadeira de plástico na varanda. Sara posicionou a cadeira de rodas bem na frente dela. Mercedes, vim aqui para pedir-lhe uma coisa que não tenho o direito de pedir. Vim pedir perdão. Mercedes limpou os olhos com a barra da blusa. Sara, não, deixa-me terminar.
Sei que o que fiz não tem desculpa. Acusei-a de uma coisa horrível. Chamei-a de ladra. Mandei- a embora da pior forma possível. Destruí 15 anos de amizade, de carinho, de confiança. A Sara parou para respirar. As palavras estavam a sair atropeladas, como se ela tivesse medo de perder a coragem.
Descobri a verdade, Mercedes. Descobri que foi o Eduardo que pegou nas joias. Descobri três dias depois do acidente. Três dias depois de ter destruído a sua vida. Sara, tu não destruiu a minha vida. Destruí, sim. trabalhou comigo durante 15 anos, sempre fiel, sempre cuidadosa, sempre a amar-me como filha, e paguei-lhe com humilhação e acusações injustas.
Mercedes levantou-se da cadeira e ajoelhou-se em frente a Sara, pegando nas suas mãos. Menina Sara, olhe para mim. Sara levantou o rosto com os olhos vermelhos de tanto chorar. Acha que eu não percebi o que estava a acontecer? Acha que eu não vi que estava partida por dentro, que estava desesperada, confusa, sem saber em quem confiar? Mas isso não justifica.
Não justifica, mas explica. Sara, eu criei-a. Eu sei quando está bem e quando está mal. Naquele dia não estava a ser você, estava a ser a a dor, o medo, a traição que estava a sentir. Sara soluçou. Mas eu disse coisas horríveis para si. disse e doeu muito, mas eu sabia que não eras tu a falar, era a ferida a falar. Como consegue ser tão boa? Como consegue perdoar-me? [música] Mercedes sorriu através das lágrimas.
Porque eu a amo, Sara. Amo-a como filha e mãe perdoa, filho. Não importa o que aconteça, Sara já não [música] conseguia falar. Chorava como uma criança, todos os anos de culpa e dor a saírem de uma vez. Mercedes, senti tanto a sua falta, tanto. A casa ficou vazia sem ti. Eu Fiquei vazia sem ti. Eu também senti a a tua falta, menina, todos os dias.
Elas ficaram assim durante alguns minutos a chorar juntas em silêncio. Laura aproximou-se e abraçou as duas. Pronto, agora podem voltar a ser uma família. Mercedes riu no meio das lágrimas. A a minha neta sempre foi sábia. Mercedes. Sara disse, “Quero tentar arranjar as coisas. Quero cuidar de ti como sempre cuidou de mim.
Sara, não me deve nada. Devo sim. Devo amor, cuidado, respeito. Devo anos de convivência que deitei-o fora por orgulho e medo. Naquele momento, uma mulher saiu de dentro do casa. Era jovem, com cerca de 30 anos, com o rosto cansado de quem trabalha muito. Sara soube imediatamente que era a filha da Mercedes, mãe da Laura. Mãe, o que está? A mulher parou ao ver Sara. O seu rosto fechou-se.
O que ela está a fazer aqui? Cláudia, anda cá. Mercedes levantou-se. A Sara veio pedir desculpas. Ah, agora ela quer pedir desculpas. Passados dois anos, depois de humilhar a minha mãe à frente de toda a gente, a Sara sentiu o estômago apertar. A Cláudia tinha todo o direito de estar zangado. Cláudia, sei que tem motivos para me odiar e eu [música] entendo.
Se alguém tivesse feito com a minha mãe o que eu fiz com a tua, eu também estaria furiosa. Você não tem ideia do que passamos. A minha mãe chegou à casa destroçada, [música] chorou durante semanas. teve de tomar remédio para dormir, porque ficava acordada a noite inteira a pensar no que tinha acontecido. Cada palavra de Cláudia era como uma facada no coração da Sara, mas sabia que merecia ouvir tudo. Tem razão.
Eu não faço ideia e não tenho desculpa para o que fiz. Só posso pedir perdão e tentar corrigir se vocês me deixarem. Consertar como dinheiro. Acha que o dinheiro compra o perdão? Não, eu sei que não compra, mas posso tentar mostrar que mudei, que aprendi, que quero ser uma pessoa melhor. A Cláudia olhou para a mãe que estava parada entre as duas.
Mãe, a senhora tem a certeza disso? A senhora volta a confiar nela. Mercedes olhou para Sara por um longo momento. Cláudia, a A Sara sempre foi uma boa pessoa. Ela só perdeu o rumo por uns tempos, mas agora ela encontrou o caminho de volta. Como a senhora pode ter tanta certeza? Porque ela veio aqui numa cadeira de rodas, filha.
Ela está a passar pela sua dor também e a dor ensina-nos a ter compaixão. Sara olhou para Mercedes com gratidão. Mesmo depois de tudo, ela ainda a defendia. Cláudia, a Sara disse, eu compreendo se nunca conseguir perdoar-me, mas deixe-me pelo menos tentar provar que mudei. Cláudia suspirou. Eu vou deixar por causa da minha mãe, mas vai demorar muito tempo para eu confiar em si de novo.
Compreendo e vou esperar o tempo que for necessário. A Laura, que tinha ficado quieta durante toda a discussão, aproximou-se de Sara. A tia Sara, agora que já pediu desculpa, vamos tentar aquela coisa. Que coisa? Levantar-me da cadeira. Toda a gente ficou em silêncio. Mercedes franziu o sobrolho. A Laura, que história é esta? Avó, a tia Sara está a conseguir voltar a sentir as pernas.
Hoje no parque, ela conseguiu fazer força e sentiu os músculos a trabalhar. [música] Mercedes olhou para Sara surpreendida. É verdade. É, não sei explicar, [música] mas desde que comecei a conversar com a Laura, comecei a sentir coisas que não sentia há dois anos. Sara fez todos os exames, falou com os médicos. Fiz.
Dizem que fisicamente eu deveria conseguir andar. que o problema pode ser mais emocional do que físico. Mercedes ajoelhou-se de novo na frente de Sara. Quer experimentar aqui agora? A Sara olhou em redor. Estava rodeada por pessoas que de alguma forma se importavam com ela. Osvaldo, que abria a mão de parte do salário para ajudar Mercedes. Senr.
João, que escolheu compreensão em vez de raiva. Cláudia, que estava a dar uma segunda oportunidade, mesmo magoada. Laura, que acreditava nela sem questionar, e Mercedes. Mercedes, que a amava incondicionalmente. Quero experimentar. Laura bateu palmas. [música] Eu sabia. Vamos tia Sara, tal como fazíamos no parque. Sara respirou fundo e estendeu as mãos para Laura. A menina segurou-o com força.
Agora vai imaginar que se está a levantar para abraçar a minha avó. vai fazer força porque quer muito dar-lhe um abraço. A Sara fechou os olhos e pensou no abraço que queria dar a Mercedes há dois anos. Pensou em [música] todas as vezes que Mercedes consolou-a quando ela estava triste.
Pensou no carinho, no cuidado, no amor incondicional e empurrou-a para baixo. Desta vez, a sensação foi diferente, mais forte. A Sara sentiu os músculos das coxas contraírem de verdade. Sentiu algo a acontecer nas ancas. Meu Deus! Mercedes sussurrou. Sara, as suas pernas mexeram. Mexeram mesmo? A Sara abriu os olhos assustada. Mexeram sim, gritou a Laura.
Mexeram muito. Tenta de novo. A Sara tentou novamente e desta vez conseguiu levantar alguns centímetros da cadeira por apenas um segundo, mas levantou-se. Todo o mundo ficou em silêncio a olhar boque abertos. Eu levantei-me?”, perguntou Sara sem acreditar. “Levantou-se, sim. Mercedes estava a chorar e a rir ao mesmo tempo.
Levantou-se? Mas como? Como é que isso é possível?” A Laura sorriu. [música] Porque perdoou, tia Sara? E quando perdoamos de verdade, os milagres acontecem. Sara tentou uma e outra vez. A cada tentativa conseguia levantar-se um pouco mais, estar de pé um pouco mais tempo. À quinta tentativa, ela conseguiu ficar de pé quase 10 segundos, segurando as mãos de Laura.
“Mercedes?” A Sara disse ainda de pé, a tremer de emoção. “Posso dar-lhe aquele abraço agora?” Mercedes levantou-se rapidamente e abriu os braços. Sara deu dois passos hesitantes, [música] bambos, mais firmes, e atirou-se para os braços da mulher, que sempre foi a sua verdadeira mãe. Elas abraçaram-se a chorar ali no pequeno quintal da casa simples e a Sara soube que estava a viver o verdadeiro milagre da sua vida.
Não era só voltar a andar, era voltar a amar, era voltar a confiar, era voltar a ter uma família. Eu adoro a Mercedes, amo-a tanto. Eu também a amo, a minha menina, para sempre. E ali, nos braços da Mercedes, Sara Montenegro finalmente compreendeu o que Laura tinha tentado ensinar desde o primeiro dia. A a verdadeira cura começa sempre no coração.
Seis meses depois desse dia transformador no quintal de Mercedes, Sara estava de pé, em frente a um prédio novo, moderno, com uma placa reluzente à entrada. Instituto Laura Mercedes de Reabilitação Integral. Ela segurava uma tesoura na mão, rodeada por dezenas de pessoas que vieram à inauguração oficial. As pernas dela ainda eram um pouco trémulas e necessitava de uma bengala para longas caminhadas.
Mas ela andava, andava e sorria. Andava e sonhava, andava e ajudava outras pessoas a fazerem o mesmo. “Sara, estás pronta?”, [música] Osvaldo perguntou, ajeitando o microfone no palanque improvisado. Mais do que pronta, respondeu a Sara, olhando para o multidão. A Mercedes estava na primeira fila com Laura ao lado, Senr.
João, Cláudia e dezenas de pessoas que ela tinha conhecido nos últimos meses. [música] Pessoas com histórias semelhantes com a dela, pessoas que precisavam de uma segunda oportunidade. A Sara aproximou-se do microfone, respirou fundo e começou a falar. Há seis meses, estava numa cadeira de rodas, não por causa de um problema físico, mas por causa de um coração partido.
Eu tinha perdido a capacidade de confiar, de amar, de perdoar, principalmente de me perdoar. Fez uma pausa olhando para Laura, que sorria radiante. Era uma menina de 7 anos que me ensinou que os verdadeiros os milagres não acontecem quando o nosso corpo se cura, mas quando a nossa alma encontra paz. E hoje vamos inaugurar um local onde outras pessoas possam descobrir isso também.
As palmas foram calorosas. A Sara cortou a fita vermelha e as portas do instituto abriram-se. O edifício tinha três andares. No andar térrio, uma reão acolhedora, salas de fisioterapia com equipamentos modernos e uma sala especial que Sara fazia questão de mostrar a toda a gente, a sala Laura. Ali, crianças como a Laura ajudavam outros doentes com exercícios de imaginação e esperança.
No segundo piso ficavam os consultórios dos psicólogos, terapeutas ocupacionais e uma biblioteca com livros sobre a superação e o crescimento pessoal. No terceiro andar existiam apartamentos pequenos para os doentes que vinham de outras cidades para tratamento prolongado. Mas o que tornava o instituto especial não eram os equipamentos ou a estrutura, era a filosofia por detrás de tudo.
Aqui nós não tratávamos só o corpo Sara explicava a cada visitante. Nós tratamos a pessoa inteiro porque às vezes a paralisia não está nas pernas, está no coração. Mercedes aceitara o convite para ser a supervisora geral dos cuidadores. Ela treinava a equipa com a mesma filosofia que sempre utilizou com a Sara: cuidar com amor, paciência e esperança genuína.
A Dona Mercedes, uma das fisioterapeutas, perguntou numa reunião: “Como a senhora sabe sempre o que cada doente está a precisar?” Mercedes sorriu. Porque eu escuto não só o que falam, mas o que não falam. E porque eu lembro-me que cada pessoa aqui é alguém que alguém ama muito. Laura tornou-se a mascote oficial do instituto.
Todos os dias depois da escola, ela aparecia para ajudar. Sara descobriu que a menina tinha mesmo um dom especial. Ela conseguia fazer ligações com os doentes que os adultos não conseguiam, como no caso da dona Lúcia. Lúcia chegou ao instituto três semanas depois da inauguração. Uma mulher de 50 anos que tinha perdido o movimento das pernas num acidente de carro.
O condutor que causou o acidente era o seu próprio filho, de 22 anos, que estava a conduzir embriagado. “Não consigo perdoar-lhe”, Lúcia disse a Sara na primeira consulta. Ele destruiu a minha vida, destruiu a nossa família. “Como vou perdoar uma coisa dessas?” A Sara entendeu perfeitamente. Lúcia, ninguém lhe está a pedir para perdoar hoje, nem amanhã.
O perdão é um processo, não um momento. Mas toda a gente fica a dizer que preciso de perdoar para me curar, que enquanto guardar raiva não vou melhorar. Quem lhe disse isso? Os outros terapeutas, os médicos, até o meu marido. Sara suspirou. Lúcia, pode esquecer tudo isso. Não é obrigada a perdoar ninguém. É obrigada só a cuidar de si. A Lúcia olhou para a surpresa.
Como assim? O perdão não é sobre a outra pessoa, é sobre si. Quando estiver pronta, se um dia estiver pronta, vai perdoar porque vai ser bom para si. Não porque alguém mandou. Foi a Laura quem conseguiu quebrar a resistência dos Lúcia. Tia Lúcia. A Laura disse num dia, sentada no chão, junto da cadeira de rodas.
Posso contar-lhe uma história? Pode. A minha avó tinha uma vizinha que tinha um cão muito bravo. Todos os dias o cão ladrava e assustava a minha avó. Um dia o cão mordeu a minha avó na perna. Uau, e o que aconteceu? A minha avó ficou muito zangado com a vizinha. Disse que nunca mais ia falar com ela. Mas sabe o que aconteceu depois? A minha avó descobriu que a vizinha também tinha medo do cão, que não lhe obedecia, que ela chorava todos os dias porque não sabia o que fazer.
A Lúcia ficou quieta, pensativa. Por vezes, continuou Laura, as pessoas que nos magoam também estão magoadas. Não significa que esteja certo o que elas fizeram. Só significa que elas também precisam de ajuda. E a sua avó perdoou a vizinha? Não perdoou o cão, mas compreendeu que a vizinha não era má, era apenas uma pessoa que também estava a sofrer.
A Lúcia chorou nesse dia e no dia seguinte pediu para ligar para o filho. Não estou pronta para perdoar. Ela disse-lhe pelo telefone, mas estou pronta para compreender. Foi o início da cura dela. [música] Três meses depois, Lúcia deu os seus primeiros passos e seis meses depois [música] estava a trabalhar como voluntária no instituto, ajudando outros pais que passavam por situações semelhantes.
O sucesso de casos como o de Lúcia fez com [música] com que o instituto ganhasse repercussão nos media, jornais, revistas, programas de televisão. Toda a gente queria perceber como Sara tinha criado um método tão eficaz de tratamento. Não é um método, a Sara explicava sempre. É só amor.
Amor verdadeiro, sem julgamento, sem pressão, sem prazo para melhorar. Foi durante uma dessas entrevistas que A Sara recebeu uma visita inesperada. Eduardo. Ele apareceu numa tarde de quinta-feira quando a Sara estava a sair do instituto mais magro, cabelo grisalho nas têmporas, com uma expressão cansada no rosto. Sara.
A Sara parou quando o ouviu. Por momentos, sentiu o estômago apertar. Depois olhou bem para ele e percebeu que já não sentia raiva, nem amor, nem ódio, nada mais do que uma ligeira tristeza por tudo o que tinha sido desperdiçado. Eduardo, o que pretende? Queria falar consigo, [música] se deixar. A Sara olhou em redor. Estava na passeio em frente ao instituto.
Mercedes estava a sair também e parou perto dela, claramente preocupada. Tudo bem, Mercedes. Podes ir para casa, Osvaldo. Leva-me. Mercedes hesitou. Tenho certeza, menina Sara? Tenho. Eduardo esperou que Mercedes se afastasse antes de falar. Sara, vim pedir desculpa, Eduardo. Isto foi há quase três anos. Não precisa. Preciso sim.
Eu estraguei a a nossa vida, a nossa família e ainda por cima acuseia-a de estar louca quando descobriu as jóias. A Sara encostou-se à parede. Porque fizeste isso, Eduardo? Por traiu-me? Porque levou as jóias da minha mãe? [música] Eduardo baixou a cabeça porque eu era um cobarde. Tinha medo de não lhe ser suficiente.
Você era tão forte, tão determinada, tão bem-sucedida. E eu sentia-me pequeno perto de si. Então traiu-me. Eu traí-me primeiro. Traí quem eu queria ser. E quando começou a desconfiar das jóias, entrei em pânico e deixei que acusasse a Mercedes. A Sara sentiu uma pontada [música] de tristeza. Você sabia que ela era inocente e não disse nada.
Eu sabia [música] e odeio-me por isso até hoje. Eduardo, sabe que por causa disso quase perdi a Mercedes para sempre, que fiquei dois anos sem andar. Sei e sei [música] que não há perdão para o que fiz. Sara ficou em silêncio por um momento, olhando para o homem que um dia a amou. Eduardo, não vou fingir que não me magoou, que o que fez não teve consequências terríveis.
Teve, eu sei, mas também não vou carregar mais raiva de si, porque carregar raiva é como tomar veneno à espera que a outra pessoa morra. Eduardo levantou o rosto surpreendido. Não a perdoo porque merece perdão. A Sara continuou. Eu perdoo-a porque mereço paz. Sara Eduardo, desejo que encontre uma forma de se perdoar também e que encontre uma forma de ser feliz sem ter de magoar ninguém.
Acha que isso é possível? Sara sorriu. Eu acho que tudo é possível quando deixamos de fugir de quem realmente somos. Eduardo assentiu com os olhos marejados. Tornou-se uma pessoa ainda mais incrível, Sara. O que está a fazer aqui é lindo. Obrigada. Posso? Posso dar-lhe um abraço? Sara hesitou por um momento, depois estendeu os braços.
Foi um abraço de despedida, de encerramento, de paz. Cuide-se, Eduardo. Tu também, [música] Sara. E ele foi embora, desaparecendo na multidão da rua movimentada. A Sara ficou ali parada por alguns minutos a refletir. Três anos atrás, aquele encontro tê-la ia destruído. Hoje ela sentia-se apenas grata por ter conseguido fechar mais um ciclo. Tia Sara.
A Laura apareceu a correr. Está bem? Vi o homem a falar consigo. Estou bem, Laura. Muito bem. Era alguém importante. A Sara sorriu. Era alguém que já foi importante. Agora é só alguém que faz parte do passado. [música] E o passado já não pode magoar-te? Não, minha pequena. O passado já não me pode magoar. Os meses seguintes foram de crescimento constante para o instituto.
A Sara contratou mais profissionais, alargou os serviços e começou a receber doentes de todo o país. Mas o projeto que mais a orgulhava era o programa Pequenos Anjos. Laura tinha sugerido a ideia: “Tia Sara, e se outras crianças como eu pudessem ajudar também?” A Sara adorou a proposta. Ela criou um programa onde as crianças especiais, algumas com necessidades físicas, outras com capacidades emocionais únicas, como a Laura, se voluntariavam-se para ajudar doentes adultos.
O programa tornou-se um sucesso estrondoso. As crianças tinham uma forma única de conectar com os adultos. Elas não tinham preconceitos, não tinham medo, não tinham julgamentos, só tinham amor e esperança. É incrível como uma criança consegue quebrar barreiras que nós, adultos, não conseguimos quebrar”, disse a doutora Helena, uma das psicólogas do instituto.
“Porque criança não compliques as coisas, Mercedes respondeu: “A criança vê diretamente para o coração.” No primeiro aniversário do instituto, A Sara organizou uma grande festa no salão principal. Doentes, ex-doentes, familiares, funcionários, voluntários, toda a gente que fazia parte daquela família especial.
Há um ano, Sara disse ao microfone: “Pensei que tinha perdido tudo, a minha capacidade de andar, de confiar, de amar. Hoje sei que não tinha perdido nada. Eu só tinha esquecido onde procurar. Ela olhou para Mercedes, que estava na primeira fila, com a Laura ao colo. Eu aprendi que família não é só quem tem o mesmo sangue.
Família é quem fica quando tudo desmorona. Quem perdoa quando não merece perdão. Quem acredita em si quando deixou de acreditar em si mesmo? A Laura levantou a mãozinha. Posso dizer uma coisa, tia Sara? A Sara riu. Claro, Laura. A Laura desceu do colo do Mercedes e subiu ao palco. A Sara baixou o microfone para ela. Eu queria dizer para toda a gente que os milagres existem.
Eu vi um acontecer e se aconteceu com a tia Sara, pode acontecer a qualquer pessoa aqui. A plateia aplaudiu-a. Laura continuou. Mas o segredo não é ficar à espera do milagre. O segredo é ser o milagre de outra pessoa. Quando ajudamos alguém, também nos curamos. A Sara pegou Laura ao colo e sussurrou-lhe ao ouvido dela.
Como consegues ser tão sábia? A Laura sorriu. Porque a minha avó ensinou-me que a sabedoria não vem da idade, provém do amor. Naquela noite, quando todos se foram embora e o instituto ficou quieto, a Sara e a Mercedes ficaram sentadas na reessão a conversar. “Sara, posso perguntar-lhe uma coisa?”, Mercedes disse. “Claro, é feliz?” A Sara [música] pensou por um momento.
Sabes, Mercedes, eu pensava que a felicidade era não ter problemas. Hoje sei que felicidade é ter propósito. E qual é o o seu propósito? Ajudar outras pessoas a descobrirem que são mais fortes do que imaginam, que o fim de uma história pode ser o início de uma história ainda melhor. Mercedes sorriu.
A sua mãe ficaria orgulhosa de si e da sua mãe também ficaria orgulhosa de ti. Você salvou-me, Mercedes. Salvou-me sem sequer saber. Salvamo-nos, Sara. Uma salvou a outra. A Sara olhou pela janela da reessão. Na rua, algumas pessoas ainda caminhavam no passeio, cada uma com a sua história, os seus problemas, os seus sonhos.
Mercedes, sabes o que eu descobri? O quê? que a vida não é sobre não cair, trata-se de aprender a levantar-se e sobre ajudar os outros a levantarem-se também. E aprendeu mesmo? Aprendi com a melhor professora do mundo. Elas ficaram ali no silêncio confortável de quem se entende sem precisar de palavras.
Dois anos depois, o Instituto Laura Mercedes tinha atendido mais de 500 pessoas. A Sara tinha escrito um livro sobre a sua experiência, que se tornou bestseller nacional, mas o que mais a orgulhava não eram os números ou o reconhecimento. Era saber que a Mercedes dormia todas as noites na sua antiga casa, no quarto que Sara tinha preparado especialmente para ela.
Era ver a Laura a crescer feliz e saudável, sendo amada e cuidada por toda a família que elas tinham construído juntas. era receber cartas de pessoas como Lúcia, que agora ajudava outros pais em situações semelhantes. Era saber que Eduardo tinha encontrou tratamento para os seus problemas e estava a reconstruir a sua vida de forma honesta.
era acordar todas as as manhãs, sabendo que tinha um propósito, mostrar ao mundo que nenhuma história está completamente terminada, enquanto ainda há amor para ser dado e recebido. Na parede do seu escritório, A Sara pendurou uma foto da festa de inauguração. Nela, ela estava de pé a sorrir, rodeada por Mercedes, Laura, Osvaldo, Cláudia, Senr.
João e dezenas de outras pessoas que faziam parte da a sua nova família. Por baixo da foto, uma frase que Laura sugerira: “Os milagres acontecem quando o amor encontra coragem para tentar de novo”. E cada vez que a Sara olhava para aquela foto, ela recordava-se de uma menina de 7 anos que um dia se aproximou dela no parque e disse: “Posso fazer-te andar outra vez?” Laura não tinha mentido.
Ela realmente tinha feito Sara andar de novo, não só com as pernas, mas com o coração.















