Caminhoneiro Solitário Vê A Sogra Expulsar A Mãe De Casa… Então Ele Toma Uma Atitude Surpreendente…

Caminhoneiro Solitário Vê A Sogra Expulsar A Mãe De Casa… Então Ele Toma Uma Atitude Surpreendente… 

Eu circulava sozinho por uma estrada de terra quando vi uma mãe descalça e fraca com um bebé quase sem forças ao colo. Tinha sido expulsa de casa pela própria sogra e não tinha para onde ir. Naquele momento, pude simplesmente seguir viagem ou então mudar tudo. Se este vídeo lhe apareceu, é porque esta história vai emocionar-te e arrepiar.

 Então já subscreva o canal se gosta deste tipo de história e comente de que cidade está assistindo. Há dias em que a estrada parece não ter fim. Você olha para a frente e tudo o que vê é pó, calor e aquela linha reta que desaparece no horizonte, como se te estivesse a enganar, prometendo que logo ali há algo diferente, mas nunca tem.

 É sempre mais do mesmo. Mais quilómetros, mais solidão, mais horas dentro desta cabine que se tornou a minha casa, o meu refúgio e minha prisão ao mesmo tempo. O meu nome é Roberto, mas na estrada chamam-me sombra. Não sei bem quem começou com esse apelido. Acho que foi porque eu sempre andei sozinho. Sempre preferi o silêncio a estar a falar besteira nos postos.

 Ou talvez seja porque eu meio que me transformei nisso mesmo. Uma sombra, alguém que passa, que transporta a carga de um lugar para outro, mas que ninguém vê realmente, ninguém se lembra, ninguém pergunta como está. São 23 anos de estrada. Parece pouco quando falo assim, mas quando se somam as noites dormindo na boleia, os aniversários passados ​​sozinho, os natais em algum posto vagabundo, comendo marmita requentada no ferro. quente do motor.

 Aí apercebe-se quanto tempo realmente passou, quanto tempo deixou passar. Tive uma família, tive uma mulher que se cansou-se de esperar e dois filhos que cresceram sem me conhecerem bem. Minha mãe morreu enquanto eu estava a três estados de distância, carregando o adubo. Quando cheguei para o velório, já estava no caixão, fria e quieta, e nem me pude despedir direito, porque cheguei atrasado até para isso.

 A estrada cobra o seu preço, todos sabe, mas nós aceitamos pagar porque no fundo achamos que não há escolha ou porque foge de algo que dói mais do que a solidão. Eu fugia dos olhos da minha ex-mulher, daquela maneira que ela tinha de olhar para mim, como se eu fosse menos do que ela esperava.

 Fugia da voz dos meus filhos a chamarem-me pai, mas sem nenhuma intimidade, como se eu fosse um estranho a visitar a própria vida. Então tornei-me camionista de verdade. Não aquele que regressa a casa no fim de semana, mas aquele que desaparece, que se torna lenda, que as pessoas dizem: “Ah, o Roberto, este está sempre na estrada, nunca pára, não”.

 Naquela quinta-feira de setembro, descia por uma estrada de terra batida no interior de Goiás, entre porangatu e alguma aldeia esquecido, que nem sequer tinha nome direito no mapa. A carga era de ração para gado, com destino a uma quinta perto da fronteira com Tocantins. Um serviço simples, daqueles que se faz no piloto automático.

 Pega na carga, roda, descarrega, embolsa o dinheiro, segue viagem. O solva no ponto mais alto do céu, meio-dia, talvez meio-dia e pouco. Aquele tipo de calor que não dá trégoas, que derrete o asfalto quando há asfalto e que levanta a poeira de uma forma que sente-se o sabor dela na boca. mesmo de janela fechada.

 Eu tinha ligado o ar condicionado há tempos, mas aquela máquina velha mais fazia barulho do que refrescava alguma coisa. O suor descia pelas minhas costas, colava a camisola no banco e só pensava em chegar logo, descarregar e encontrar um local com sombra para esticar as pernas. A estrada de terra era larga, mas cheia de buracos.

Conhecia cada um de cor. já tinha passado ali tantas vezes que sabia exatamente onde desviar, onde acelerar e onde segurar bem no volante, porque vinha uma lombada disfarçada que sacudia o camião inteiro. A paisagem era sempre a mesma: Vedação de arame farpado dos dois lados, pasto seco, algumas árvores retorcidas pelo sol, gado magro deitado à sombra rala e nada mais.

 Nada que chamasse a atenção, nada que fizesse você parar. Até que vi. No início a fosse miragem. Sabe quando o calor distorce tudo e vê coisas que não existem? Mas depois pisquei, olhei de novo e a imagem continuava lá. Uma mulher a caminhar sozinha pela beira da estrada, descalça. Eu reduzi a marcha instintivamente, franzindo o sobrolho, tentando perceber o que estava a ver.

Não fazia sentido. Ninguém anda por ali a pé, ainda mais àquela hora, ainda mais sem sapato. O chão estava tão quente que se conseguia ver o ar tremendo por cima da terra. devia estar uns quarenten-se facilmente. A mulher caminhava devagar, meio cambaleando. Usava um vestido simples daqueles de algodão barato, todo sujo, de pó vermelha.

 O tecido estava colado ao corpo pelo suor. O cabelo escuro caía solto e despenteado pelas costas, e nos braços, apertado contra o peito, ela transportava um bebé. O meu pé aliviou mais ainda o acelerador. O camião foi perdendo velocidade enquanto tentava processar aquilo. A mulher não olhou para trás, não acenou pedindo boleia, não fez nada, apenas continuou a andar um passo depois do outro, como se estivesse hipnotizada ou como se já não tivesse forças nem para pedir ajuda.

 Eu vi quando ela tropeçou. O corpo dela se desequilibrou-se para a frente e, por um segundo, pensei que ia cair de cara no chão. Mas ela segurou-se no último instante, fazendo um esforço brutal para não deixar o bebé bater no chão, protegendo a criança com o seu próprio corpo, mesmo que isso significasse se magoar. O bebé chorava.

 Eu conseguia ouvir mesmo de dentro da cabine, mesmo com o motor a roncar. Era um choro fraco, daqueles que dão agonia porque tu sente que a criança já não tem força nem para chorar em condições. Um choro de desistência. Algo dentro do meu peito apertou. Não sei explicar bem. Foi instintivo. Eu já tinha visto muita coisa na estrada.

 Gente a pedir boleia, gente desesperada, gente a fugir de problemas. Mas aquilo era diferente. Aquilo era uma mulher e um bebé no meio do nada, sob um sol que matava, sem água, sem rumo, sem hipótese nenhuma. A estrada ensina-nos a não se envolver. Aprende-se isso rápido. Vê alguém em apuros, segue-se em frente. Porque se parar para ajudar todo o mundo que precisa, nunca mais chega a lado nenhum.

 E porque às vezes ajudar dá problema. Há gente que finge, tem gente que rouba, há gente que transforma a sua boa acção na sua pior dor de cabeça. Eu sabia isso tudo. Tinha aprendido à força. Uma vez dei boleia para um rapaz que parecia perdido perto de Barreiras, na Baía. Duas horas depois, tentou assaltar-me com um canivete enferrujado.

 Outra vez parei para ajudar uma mulher que disse que o carro tinha avariado. Era golpe. O marido dela apareceu detás de um barranco e tentaram estorquir-me, dizendo que eu a tinha assediado. Consegui sair porque tinha uma câmara no painel e gravei tudo. Então eu sabia. Sabia que o certo, o inteligente, o prudente era seguir viagem, fingir que não tinha visto nada, deixar aquilo para trás, como deixei tanta coisa para trás em todos estes anos de estrada.

 Mas pelo retrovisor, vi quando ela caiu de joelhos. foi rápido. Num segundo ela estava de pé, no outro estava no chão. As pernas simplesmente cederam, mas mesmo caída, mesmo com os joelhos na terra quente, ela manteve o bebé erguido, protegido. As costas dela curvaram, a cabeça pendeu para a frente, mas os braços seguraram firmemente aquela criança, como se fosse a única coisa que importava no mundo inteiro.

 E foi aí que apercebi-me de uma coisa que mudou tudo. Ela não tentou levantar-se. Ficou ali de joelhos na poeira, balançando lentamente. E vi que ela tinha desistido. Tinha chegado ao limite. O corpo tinha dito: “Basta”. As forças tinham acabado e ela estava aceitando. Ia ficar ali, ia deixar o sol terminar o serviço.

 A minha mão apertou o volante, a minha mandíbula travou e antes que eu pudesse pensar direito no que estava a fazer, o meu pé já estava no freio. O camião chiou, levantou uma nuvem de poeira vermelha e parou. Fiquei ali sentado por uns segundos, mãos no volante, coração a bater mais rápido do que devia. A poeira foi baixando devagar.

Pelo-brisa vi a mulher ainda de joelhos a cerca de 50 m à frente. Ela tinha virado a cabeça na direção do camião, mas não se mexeu. Só olhava com uma expressão que não consegui decifrar dali. Desliguei o motor. O silêncio ficou ainda mais pesado. Consegui ouvir o vento quente a bater na chapa, o canto das cigarras escondidas no mato seco, o choro fraquinho do bebé.

 Abri a porta. O calor atingiu-me como uma parede. Era diferente de dentro da cabine, mesmo com o ar condicionado quebrado. Era um calor físico que se sentia-o na pele, nos olhos, na garganta. Desci lentamente, os pés afundando-se na terra fofa da estrada. Comecei a caminhar em direção a ela.

 Cada passo levantava uma nuvenzinha de pó que se colava ao suor das pernas e das mãos. O sol batia diretamente na minha cabeça, sem qualquer sombra para me proteger. Com 30 segundos de caminhada, já suava como um condenado. Não conseguia imaginar há quanto tempo ela tinha estado ali caminhando, segurando aquele bebé, aguentando aquele inferno.

 Quando cheguei perto, vi melhor e o que vi apertou-me o coração de um jeito que eu não sentia há anos. Era jovem, 20 e poucos anos, talvez menos. O rosto estava pálido debaixo do pó, os lábios gretados e brancos de tão secos, os olhos encovados, avermelhados e inchados de tanto chorar. As marcas das lágrimas estavam desenhadas no rosto sujo.

 As mãos que seguravam o bebé tremiam. Os pés descalços estavam em carne viva, vermelhos de sangue misturado com terra. O bebé não devia ter mais do que alguns meses, três, quatro, no máximo. Estava mole nos braços dela, a cabecinha caída de lado, os olhinhos fechados com força, a boquinha aberta a tentar respirar o ar quente.

 A fralda estava suja, a roupinha encharcada de suor. Parei a cerca de 3 m de distância, com medo de a assustar. Moça, falei baixo. Está bem? Que pergunta idiota. Era óbvio que ela não estava bem, mas não sabia o que mais dizer. Ela levantou os olhos para mim e naquele olhar vi tudo. Vi desespero, vi medo, vi vergonha, vi exaustão.

 Vi uma pessoa que tinha chegado ao fim da linha e não sabia se queria ser salva ou se queria apenas que aquilo acabasse logo. Ela tentou falar, mas a voz não lhe saiu. A garganta estava demasiado seca. Ela engoliu, fez força, tentou de novo. Quando finalmente o conseguiu, foi quase um sussurro. Água, uma palavra, apenas isso.

Mas carregava um universo de desespero. Eu virei-me e corri de volta para o camião. Abri a porta, peguei na garrafa térmica que sempre carreguei. Estava meio vazia, mas ainda tinha uns 2 L. Voltei a correr, ajoelhei-me na frente dela e abri a garrafa. Beba devagar”, avisei, segurando a garrafa junto dos lábios dela.

 Ela bebeu como quem estava há dia, sem água. Engoliu demasiado rápido, engasgou-se, tociu, mas continuou a beber. precisei de segurar a garrafa porque as mãos dela tremiam tanto que ela não conseguia segurar direito. Quando ela parou para respirar, molhei a mão e Passei no rosto do bebé. A criança se mexeu um pouco, gemeu baixinho. Molhei novamente e, desta vez passei-o nos lábios.

O bebé abriu a boca instintivamente, procurando. Inclinei a garrafa com cuidado e deixei cair alguns pingos. O bebé engoliu, fez uma careta, mas engoliu. Quando foi a última vez que vocês beberam água?, perguntei. Ela olhou para mim com aqueles olhos vermelhos e abanou a cabeça devagar. Hoje de manhã, cedo, olhei para o sol.

Já passava do meio-dia, umas 6, 7 horas sem água naquele calor e a andar, carregando um bebé. O que aconteceu? Perguntei, mas logo me arrependi da pergunta. Não era da minha conta. Mas ela respondeu: “Talvez porque estivesse desesperada, talvez porque necessitava falar, talvez porque eu era a única pessoa em quilómetros e ela sabia que se não falasse comigo, não falaria com mais ninguém.

” “Puseram-me fora de casa”, disse a voz gretada, os olhos enchendo-o de lágrimas de novo. “Hoje de manhã”, ela parou, engoliu em seco e continuou. “O meu marido morreu há dois meses num acidente. Ele trabalhava numa quinta. caiu do telhado de um galpão. Morreu de imediato. As lágrimas começaram a escorrer. Ela não fez nada para as segurar.

 A gente vivia numa casa da família dele. Era da mãe dele, a sogra. Depois de ele morrer, ela mudou comigo. Disse que eu tinha de ajudar mais, que tinha de trabalhar, mas eu tinha acabado de ter um bebé, não conseguia. E ela foi ficando cada vez mais raivosa. A voz dela quebrou. Ela apertou o bebé contra o peito, como se estivesse a tentar proteger-se da própria memória.

 Hoje de manhã, ela disse que já não era problema dela, que a casa não era minha, que tinha que sair. Eu implorei. Disse que não tinha para onde ir, que não tinha família, que não tinha dinheiro. Ela não quis nem saber. Pegou nas minhas coisas e deitou no quintal. Empurrou-me para fora, trancou a porta. Ela soluçou, limpou o rosto com as costas da mão.

 Fiquei batendo à porta, implorando. Os vizinhos olhavam, mas ninguém fazia nada, ninguém se quis meter. Aí ela abriu a janela e gritou que se eu não fosse embora, ela ia chamar a polícia, ia dizer que eu a estava a ameaçar. Fiquei com medo, peguei no menino e saí andando. Ela olhou para a estrada vazia, para o nada que se estendia em todas as direções.

 Nem sei para onde eu ia, só andando, achando que ia aparecer alguma coisa, algum lugar, alguém. O silêncio caiu pesadamente entre nós. Só o vento quente, as cigarras e o choro baixinho do bebé. Eu olhei para ela, para aquela mulher jovem devastada pela vida, e pensei na minha própria mãe. Lembrei-me de como ela me tinha criado sozinha depois do meu pai ir embora.

Lembrei-me das noites em que ela chorava escondido, pensando que eu não ouvia. Lembrei-me de como ela trabalhou como uma condenada para me dar comida, roupa e escola. E morreu cansada. Morreu sozinha. Morreu enquanto eu estava longe, rodando na estrada, perseguindo uma vida que, no fim não levou a nada. Olhei para a estrada vazia.

 Pensei em subir para o camião e seguir viagem. Pensei em deixá-la ali, em fingir que não tinha visto nada. em preservar a minha paz, a minha rota, a minha vida sem complicações. Mas depois olhei de novo para o bebé, para aquela criancinha que não tinha culpa de nada, que tinha nascido e em poucos meses já estava ali no meio do nada, a morrer de calor e de sede, seguro apenas pelos braços trémulos de uma mãe que já não tinha nada.

 E alguma coisa dentro de mim quebrou. Talvez fosse culpa, culpa por não ter estado lá quando a minha mãe precisou. Culpa por não ter sido um bom pai, um bom marido. Culpa por ter passado 23 anos a fugir de tudo o que doía. Ou talvez fosse apenas humanidade. Aquilo que sobra quando se tira todo o resto. Tirei a minha camisa. Estava ensopada de suor, mas era melhor que nada.

 Estendi no chão, no espaço entre ela e o camião. Pise aqui, falei. O chão está a arder. Ela olhou-me sem entender. Venha, insisti. Você e o bebé vão subir para o camião. Ali há sombra, há água, há lugar para vocês descansarem. Os olhos dela se arregalaram. Por um segundo vi esperança, mas logo a seguir vi medo. Eu não tenho dinheiro para pagar, sussurrou. Não estou a pedir dinheiro.

Então porquê? Por quê? A pergunta mais simples e mais impossível de responder? Por que razão ajudamos? Por que a gente para? Porque nos preocupamos? Eu não sabia. Só sabia que tinha de o fazer. Porque não dá para vos deixar aqui? Falei simples assim. Ajudei-a a levantar. Segurei-a pelo braço enquanto ela caminhava pela camisa estendida no chão até ao camião.

 Ela subiu lentamente, trôpega, e sentou-se no lugar do pendura. com o bebé ao colo. Eu fui buscar a camisa, sacudi o pó e atirei atrás do banco. Subi para a cabine, fechei a porta, liguei o camião e ali, sentado ao volante com uma mulher desconhecida e um bebé ao meu lado, sentiu o peso da decisão cair sobre mim como uma carga de 20 toneladas.

 Eu não sabia quem ela era de verdade. Não sabia se a história era real, não sabia se estava a fazer a coisa certa ou se estava a cometer o maior erro da minha vida. Mas eu sabia uma coisa: se eu me fosse embora e a deixasse ali, aquilo ia perseguir-me para sempre. Então eu pus o camião em marcha e segui. Andei uns 40 minutos em silêncio.

 Ela sentada quieta no banco do pendura, o bebé ao colo, olhando pela janela como se estivesse em transe. Eu mantinha os olhos na estrada, mas de vez em quando dava uma olhadela de soslaio. Ela já não chorava, apenas olhava o nada passar. O bebé tinha parado de chorar, tinha dormido exausto. A cabecinha balançava no ombro dela a cada solavanco do camião.

 Era um rapaz, percebi agora. Tinha uns três meses, talvez quatro. “Como é que ele se chama?”, perguntei mais para quebrar o silêncio do que por curiosidade. Ela demorou a responder. Quando falou, a voz saiu-lhe baixa. Miguel, bonito nome, foi o pai dele que escolheu. Silêncio de novo, mas desta vez um silêncio mais pesado, carregado de dor.

E você, como se chama? Cláudia. Eu sou Roberto. Chamam-me sombra na estrada. Ela olhou para mim pela primeira vez desde que subiu para o camião. Os olhos dela ainda estavam vermelhos, mas havia algo diferente agora. Uma curiosidade fraca, um resquício de vida. Sombra? É apelido de camionista.

 Todo o mundo tem um. Ela voltou a olhar para a janela. Para onde vai o senhor? Tenho que descarregar essa carga numa exploração perto de Nova Roma, lá no Nordeste de Goiás. Mas antes preciso de passar em Porangatu. Há lá um posto onde costumo abastecer. Dá uns 60 km daqui. Via processar a informação, calculando distâncias e possibilidades.

 E depois, depois ajudo-te a encontrar um lugar. Deve haver algum conselho tutelar, alguma assistência social, alguém que possa dar-lhe abrigo até que se organizar. Ela não respondeu, apenas assentiu ligeiramente com a cabeça. Chegamos a Porangatu quando o sol começava a declinar. A cidade era pequena, daquelas que se atravessa em 10 minutos se não parar.

Ruas empedradas, casas simples, comércio concentrado em duas ou três quadras. O posto ficava à entrada, um local antigo, mas bem cuidado, com bomba de gasóleo e uma cafetaria anexa. Encostei o camião à bomba. O frentista veio logo, um rapaz magro de boné sujo. “Cleta o depósito”, pedi. Enquanto ele abastecia, olhei para Cláudia.

 Ela estava imóvel, a olhar para a cafetaria com uma expressão que eu reconheci-o na hora. Era fome. Fome de verdade, daquela que dói no estômago e deixa a pessoa fraca. “Quando foi a última vez que comeu?” Ela desviou-se o olhar envergonhada. Ontem à noite um resto de arroz. 24 horas. 24 horas sem comida, andar ao sol, carregar um bebé, amamentando.

 Venha, vamos comer alguma coisa. Eu não tenho, eu pago. Descemos do camião. Ela tropeçou no último degrau, as pernas ainda fracas. Segurei-a pelo braço. O bebé acordou e começou a choramingar outra vez. A snack-bar era simples. Seis mesas de fórmica, um balcão comprido, cheiro a óleo de fritura e café velho. Tinha um ventilador de teto a rodar lentamente, mais espalhando o calor do que refrescando.

Sentámo-nos numa mesa perto da parede. A dona do lugar, uma mulher gorda de uns 50 anos, veio anotar o pedido. olhou para a Cláudia com aquela expressão que mistura curiosidade e julgamento. O que vão querer? Dois pratos feitos, falei, e um copo de leite morno, se tiver. A mulher anotou e foi-se embora.

 Cláudia olhou para mim confusa. O leite é para expliquei, apontando para o Miguel. Não sei se tem leite para dar. Ela abanou a cabeça, os olhos enchendo-se de lágrimas de novo. Eu tentei amamentar no caminho, mas acho que secou. De tanto tempo sem comer, sem beber, não sai quase nada. A dona voltou com o leite. Coloquei numa colherzinha e ofereci a o bebé.

 Recusou no começo, virou o rosto, mas à terceira tentativa abriu a boca e engoliu. Era pouco, devagar, mas era alguma coisa. A comida chegou. Arroz, feijão, um pedaço de carne de panela, farofa. Cláudia olhou para o prato como se fosse a coisa mais bonita do mundo. Pegou no garfo com a mão trémula e começou a comer devagar no início, depois mais rápido, quase desesperada.

“Calma”, avisei. “Coma devagar, senão sente-se mal”. Ela obrigou-se a ir mais lentamente, comeu metade do prato, parou e respirou. “Ofereci mais leite ao Miguel. Ele bebeu um pouco mais desta vez. Enquanto ela acabava de comer, eu saí para apagar o frentista e verificar o camião.

 Quando regressei, encontrei a dona da cafetaria a conversar com Cláudia, ou melhor, interrogando-a. E para onde vão agora? Cláudia olhava para baixo sem responder. Moça, estou a perguntar uma coisa. Você é a esposa dele? Dona Regina? Intervim lendo o nome no avental dela. A gente só parou para comer, não precisa de se preocupar. Ela olhou-me de cima a baixo.

 Reprovação estampada no rosto. Só quero saber quem está a passar pela minha cidade. A gente tem de ter cuidado com os forasteiros. A gente não vai ficar. Estamos de passagem. Melhor mesmo. Já temos os nossos problemas aqui. Não precisamos dos problemas dos outros. Peguei na Cláudia pelo braço e saímos. Na rua, ela murmurou. Desculpa.

 Pelo quê? Por causar problema. Não causou problema nenhum. Há pessoas que são assim, fazem parte. Mas enquanto voltávamos para o camião, percebi que ela tinha razão. O problema estava apenas a começar, porque ali, naquela pequena cidade, onde todo o mundo conhece toda a gente, a gente já tinha chamado a atenção.

 E atenção era a última coisa que precisávamos. Subi no camião decidido a ir embora logo, mas quando liguei a chave, o motor tciu e morreu. Tentei novamente a mesma coisa. À terceira tentativa, nem virou. Merda! Sussurrei. A Cláudia olhou para mim assustada. O que foi? Bateria. Acho que descarregou. Desci e abri o capô. O cheiro a óleo quente subiu.

 Olhei para a bateria, testei os terminais. Estava descarregada mesmo. Provavelmente algum problema no alternador que vinha ignorando há semanas. O frentista se aproximou. Não pegou. Bateria arriada. Há um mecânico ali na esquina, à oficina do Ademir, mas a essa hora ele já deve ter fechado. Olhei para o céu. O sol já se estava a pôr, tingindo tudo de laranja e vermelho.

 E amanhã, amanhã ele abre às 7 horas da manhã. Isso significava passar ali a noite. Normalmente não seria problema. Eu já tinha dormido no camião mil vezes, mas com Cláudia e o bebé a situação era diferente. Voltei para a cabine. Ela me olhou à espera de uma explicação. Vamos ter que passar a noite aqui. Amanhã cedo arrumo o camião e a gente segue.

 Vi o medo cruzar o rosto dela. Aqui no posto, no camião. É seguro. Eu já fiz isso centenas de vezes. Mas e se alguém? Ninguém vai fazer nada. Eu fico acordado. Não era verdade. Eu estava exausto. Mas ela precisava de se sentir segura. A noite caiu rápido. O posto acendeu umas lâmpadas fracas que mais criavam sombras do que iluminavam.

 O movimento diminuiu até sumir. Só ficou a gente e o vigia nocturno, um velho que se sentou numa cadeira à porta da cafetaria e ficou ali a fumar e a olhar o nada. Dentro da cabine, o calor do dia ainda era preso. Abri as janelas, mas não ajudou muito. O ar estava parado, pesado. A Cláudia tinha conseguido que o Miguel dormir de novo.

 Ela própria estava sonolenta, a cabeça a pender, lutando contra o cansaço. “Deita-te ali atrás”, falei, apontando para a cama estreita na cabine. Você e ele. Eu fico aqui à frente. E o senhor? Eu durmo sentado, já estou habituado. Ela hesitou, mas o cansaço venceu. Deitou-se com o Miguel, encolhendo-se os dois no espaço apertado.

 Em poucos minutos estavam a dormir. Fiquei ali sentado no banco do condutor, olhando pela janela. O posto estava silencioso. De vez em quando passava um automóvel na auto-estrada, os faróis cortando a escuridão por alguns segundos antes de desaparecer. Pensei no que tinha feito. Pensei em todas as consequências que ainda não conseguia prever.

 Pensei se estava a ser corajoso ou apenas idiota. E pensei em quantas outras Cláudias existiam por aí. Quantas mulheres expulsas, abandonadas, atiradas na estrada sem nada. Quantos bebés morrendo de fome e de sede enquanto o mundo seguia em frente, indiferente. A cabeça pesou-me, lutei contra o sono, mas ele era mais forte.

 Aos poucos, fui cedendo, os olhos a fecharem-se, a consciência escorregando. Quando Acordei, já era madrugada. Levei uns segundos para se lembrar onde estava, o que tinha acontecido. Olhei para trás. Cláudia e Miguel ainda dormiam, enroscados um no outro e depois ouvi vozes lá fora. Olhei pela janela. Dois homens conversavam perto da bomba de gasolina. Um deles era o vigia.

 O outro não conhecia. Estava de costas, mas pela postura, pela forma como gesticulava, dava para perceber que estava alterado. Desci do camião lentamente, fechando a porta sem fazer barulho. Fui-me aproximando, tentando ouvir a conversa. Disseram que ela fugiu com o bebé”, dizia o homem desconhecido. “A dona Ana está à procura.

 Disse que vai dar parte na polícia. O vigia deu uma passa no cigarro. E porque é que acha que ela está aqui? Porque alguém a viu a subir num camião hoje à tarde aqui neste posto, um camião escuro. O meu sangue gelou. O homem virou-se. Era jovem, uns 30 anos, forte, com cara de poucos amigos. Este é o camião”, disse, apontando para o meu Scania e começou a caminhar na nossa direção.

 O meu corpo reagiu antes da minha mente. Dei três passos rápidos e coloquei-me entre o homem e o camião. Parou, encarando-me com um misto de surpresa e desconfiança. “Posso ajudar?”, perguntei, mantendo a voz firme, mas não agressiva. “Você é o proprietário deste camião?” “Sou. E você deu boleia para uma mulher hoje? Uma mulher nova com um bebé? Pensei rápido.

 Mentir podia complicar tudo, mas confirmar também. Por que razão quer saber? Porque ela fugiu, roubou o bebé e fugiu. A família está à procura. Roubou? Repeti, deixando a incredulidade vazar na voz. Como é que alguém rouba o próprio filho? Não é filho dela, é do falecido marido. A família tem direito sobre a criança.

Direito? Senti a raiva a subir. Que direito. O homem deu um passo em frente. Era maior do que eu, mais novo, mais forte. Olha aqui, camionista. Não sei que história ela contou-lhe, mas esta mulher não presta. Abandonou a família, deixou a sogra desamparada, fugiu feito ladra. E agora a dona Ana está desesperada, sem saber onde está o neto.

Desamparada. Quase gargalhei. Foi a sogra que a pôs na rua no meio do dia com o bebé ao colo, sem água, sem nada. Ela mentiu-lhe. A dona Ana nunca faria isso. Eu vi os pés dela. Estavam em carne viva de tanto andar no sol quente. Isso não é mentira. O vigia aproximou-se, tentando acalmar os ânimos.

 Calma, gente, não é preciso brigar. Mas o homem ignorou, deu mais um passo, agora bem perto de mim. Onde ela está? Não é da sua conta. Eu posso chamar a polícia agora mesmo, denunciar que a está a esconder. Pode chamar. Eu também vou fazer uma denúncia de maus tratos, abandono de incapaz. Deixar morrer uma mãe e um bebé no meio da estrada é crime.

 Ficamos nos encarando. Senti o coração batendo forte, os punhos cerrados, o corpo preparado para o pior, mas alguma coisa no meu olhar fê-lo recuar meio passo. Isto não vai ficar assim, os dona Ana tem contactos. Ela vai encontrar-vos. Que ache, mas vai ter de explicar à polícia porque pôs a nora e o neto para morrer.

 Ele cuspiu para o chão, me lançou um último olhar de ódio e foi embora. Entrou numa velha carrinha estacionada do outro lado do posto e saiu a derrapar, levantando poeira. O vigia abanou a cabeça. Você arranjou problema, rapaz. Não fui eu que arranjei. Já lá estava antes de eu chegar. Mesmo assim, esta cidade é pequena. Toda a gente conhece a dona Ana.

É dona de terras, tem influência. Se ela quiser lixar-te, vai conseguir. Por isso, é melhor ir embora cedo amanhã. É melhor, mesmo. Voltei para o camião. As minhas mãos tremiam de raiva e adrenalina. Subi devagar, tentando fazer barulho, mas quando fechei a porta, ouvi a voz dela vinda de trás. Eu ouvi tudo.

Virei. Cláudia estava sentada na cama, o bebé ainda a dormir no colo. Mesmo na penumbra da cabine, via-se o medo nos olhos dela. Era o Ronaldo disse ela, a voz engasgada. Cunhado do meu marido. Sempre foi amigo da dona Ana. Ele disse que a família tem direito sobre o Miguel. Não tem, não. O Miguel é o meu filho. Eu que carreguei, eu que dei à luz.

 Eu que cuido. Não querem o Miguel. Eles querem castigar-me. A dona Ana sempre odiou-me desde o início. Dizia que o filho dela merecia melhor. E por que não foi à polícia quando ela pôs-te para fora? Por que não denunciou? Ela riu-se. Um riso amargo, sem humor. Polícia naquela cidade. O delegado joga ao truco com o genro da dona Ana todos os fim de semana.

 Acha que iam ajudar-me? Ela tinha razão. Eu conhecia como estas pequenas cidades funcionavam. Conhecia o poder das famílias antigas, dos lavradores, dos comerciantes. Quem tinha dinheiro tinha lei. “Precisamos de ir embora daqui”, falei. “Amanhã cedo arrumo o camião e a gente desaparece.” E depois, para onde a gente vai? Eles vão procurar-me, vão dizer que raptei o meu próprio filho. Vão inventar qualquer coisa.

 Ela estava certa e eu não tinha resposta. Fiquei ali parado no meio da cabine, sentindo o peso da situação. Não era só dar boleia, não era só levá-la até ao cidade seguinte, era entrar numa guerra que não era minha, contra pessoas que eu nem conhecia, por uma mulher que eu tinha encontrado há poucas horas.

 Devia voltar atrás, devia deixá-la ali, seguir minha vida, esquecer tudo isto. Mas quando olhei para ela, vi a minha mãe, vi minha ex-mulher, vi todas as mulheres que a vida massacrou e que ninguém ajudou. “Vamos dar um jeito”, falei sem saber bem como. Ela não respondeu, apenas apertou o bebé contra o peito e começou a chorar.

 Um choro silencioso de quem já chorou tanto que já não tem força para fazer barulho. Não dormi mais nessa noite. Fiquei sentado no banco do condutor, olhando o posto vazio, à espera do amanhecer. Cada barulho fazia-me saltar, cada farol na estrada deixava-me em alerta. Quando o céu começou a clarear, desci e fui até ao oficina.

 O Ademir já estava a chegar, um homem baixo e gordo, de fato-macaco sujo de graxa. Preciso de uma bateria nova, falei. É urgente, urgente, urgente. Todo mundo tem sempre urgência, resmungou. Que camião é? Scania ali o preto. Ele olhou e abanou a cabeça. Bateria desse tamanho não tenho aqui. Tenho que buscar em Goiás velho.

 Vai demorar umas 2 horas. 2 horas? Duas horas ali parado exposto, esperando que o Ronaldo voltasse com reforço. Não há maneira de ser mais rápido? Não. A não ser que o queira arriscar com uma bateria mais pequena. Pode funcionar, pode não funcionar. Traga qualquer coisa. Eu só preciso de sair daqui.

 Ele percebeu o desespero na minha voz. Olhou para o camião, depois para mim. Problema com mulher? Pode-se dizer que sim. Sempre é. Ele cuspiu para o chão. Está bom. Eu tenho aqui uma usada que talvez funcione. Vou cobrar mais barato. Sem d fechado. Mas bote já. Enquanto ele trabalhava, voltei para o camião. A Cláudia estava acordada, a dar leite morno para o Miguel.

 Tinha molhado o rosto, penteado o cabelo com os dedos. Parecia um pouco melhor, mas ainda estava pálida, com olheiras profundas. A gente vai sair em breve, avisei. Para onde? Não sei ainda. Longe daqui. Você não precisa de fazer isso disse ela a voz baixa. Eu já causei problema a mais. Pode me deixar aqui. Eu dou um jeito.

 Que jeito? Não tem dinheiro, não tem família, não tem para onde ir e eles vão apanhar-te. Mas não posso arrastá-lo nisso. Você tem a sua vida, o seu trabalho, as suas coisas. Eu sou ninguém. Só uma desconhecida que você encontrou na estrada. Sentei-me no banco do condutor, virei-me para encará-la. Cláudia, passei 23 anos nessa estrada.

 23 anos a rodar de um lado para o outro, carregando carga, entregando encomenda. Sabe o que eu conquistei? Nada. Perdi a minha família, perdi os meus filhos, perdi a minha mãe, tudo porque achava que tinha coisas mais importantes de fazer. E no fim não tinha não. No fim eu só estava a fugir. Respirei fundo. Ontem, quando te vi ali a morrer naquele sol, eu podia ter passado direto.

 Devia ter passado, mas alguma coisa dentro de mim travou. E sabe o quê? Pela primeira vez em anos, senti que estava a fazer alguma coisa que importava de verdade. Não era carga, não era um prazo, não era dinheiro, era uma vida, duas vidas. Ela olhou para mim, os olhos brilhando. “Então não te vou deixar aqui”, continuei.

 “Não porque precisa de mim, mas porque talvez precise de você. Preciso de lembrar que ainda sou humano, que ainda sou capaz de fazer a coisa certa, mesmo quando é difícil”. Ficámos em silêncio por um tempo. Miguel tinha voltado a dormir, satisfeito. Lá fora, o Ademir trabalhava no motor, praguejando baixinho.

 “Obrigada”, sussurrou Cláudia. “Não me agradeça já. Nós ainda não saiu desta.” Meia hora depois, o Ademir bateu no capot. Pronto, tenta aí. Rodei a chave. O motor torsiu uma vez, duas, e à terceira apanhou. Ronco forte. saudável. Valeu, Ademir. Tenha cuidado por aí e se essa bateria der problema, não volte aqui a reclamar.

 Eu avisei que era usada. Coloquei o camião em movimento. Saí do posto, fiz-me à estrada, acelerei. Pelo retrovisor vi por Angatu, ficando para trás, cada vez mais pequeno, até desaparecer completamente. Mas, juntamente com o alívio veio a certeza. A gente tinha fugido e quem foge tem sempre alguém correndo atrás.

 Rodamos em silêncio pela BR153. A manhã estava clara, o sol ainda suave, a estrada vazia. No interior da cabine, cada um perdido nos próprios pensamentos. Foi Cláudia quem quebrou o silêncio. Tem família? A pergunta apanhou-me de surpresa. Tinha. O que aconteceu? A vida aconteceu. Eu escolhi a estrada. Eles escolheram ficar.

 No fim, cada um seguiu o seu caminho. Tem filhos? Dois, um rapaz e uma rapariga, homem e mulher. Agora, na verdade, já estão grandes. Não os vejo há anos. E você não sente saudades? Sinto a resposta estava na ponta da língua, mas engoli porque admitir que sentia falta era admitir que tinha errado. Era admitir que desperdicei anos a perseguir algo que não existia.

 Por vezes, respondi vago, mas habituamo-nos à ausência. Não, não se habitua, disse ela categórica. A gente só aprende a conviver com o buraco. Mas ele continua lá sempre. Ela sabia do que estava falando. Tinha perdido o marido há dois meses. Tinha sido expulsa pela família. Estava sozinha no mundo, só ela e aquele bebé. E você? Perguntei.

 Tem família para além do Miguel? Não. A minha mãe morreu quando nasci. O meu pai criou-me, mas era alcoólico, batia. Quando fiz 15 anos, fugi. Fui viver com uma tia em Goiânia. Trabalhei em casa de família, limpando, cozinhando. Foi aí que conheci o Júnior, o meu marido. Ela sorriu fracamente, perdida na memória.

 Ele era bom, trabalhador, carinhoso. A gente casou rápido, a família dele não gostou muito. Achavam que ele podia arranjar coisa melhor, mas ele não ligou. Fomos viver em casa da mãe dele porque nós não tinha dinheiro. Eu tentei ser uma boa nora, ajudava em tudo, não se queixava, mas a dona Ana sempre me tratou como intrusa. E quando morreu, piorou.

Ela começou a culpar-me. Dizia que eu tinha dado azar ao filho, que se ele não tivesse casado comigo, estaria vivo. Não fazia sentido nenhum. Mas quando a gente está de luto, procuramos culpado. E eu era a culpada mais fácil. O bebé choramingou. Ela ajeitou-o no colo, abanou-o devagar até ele se acalmar.

 Quando o Miguel nasceu, pensei que ia melhorar. Achei que ela se ia afeiçoar ao neto, que a gente ia unir-se, mas não. Ela mal olhava para ele. Dizia que ele tinha o meu sangue, que não era um verdadeiro da família. E os outros, o Ronaldo, os vizinhos, ninguém te defendeu? Ninguém. Na hora em que precisa, descobre quem realmente se preocupa.

 E a resposta é quase sempre ninguém. A frase ficou ecuando na cabine. Ninguém. Era a palavra que resumia a vida de tanta gente. Ninguém para ajudar, ninguém para defender, ninguém para se importar. Mas agora ela tinha alguém. Por mais estranho que fosse, por mais improvável, ela tinha eu, um camionista calejado, sozinho, com mais arrependimentos do que certezas.

 E talvez isso bastasse, pelo menos por agora. O céu começou a escurecer por volta do meio-dia. Nuvens densas acumulavam-se no horizonte, cinzentas e ameaçadoras. O vento mudou de direção, trazendo aquele cheiro de terra molhada que anuncia a tempestade. “Vai chover”, murmurei, “ma mim mesmo do que para ela.” Cláudia olhou pela janela.

 Miguel estava agora acordado, os olhinhos arregalados, a observar o mundo pela primeira vez com alguma curiosidade. Ela tinha conseguido amamentar um pouco. Não muito, mas o suficiente para ele parecer mais calmo. “A chuva é boa”, disse ela. “Lava tudo”. Meia hora depois, as primeiras gotas começaram a cair, grossas, pesadas, batendo no para-brisas com força.

 Em poucos minutos, transformou-se num temporal. A visibilidade desceu para quase zero. Eu reduzi a velocidade, ligando os faróis, tentando ver a estrada através da cortina de água. A BR153 ficou escorregadia. O asfalto brilhava, traiçoeiro. Algumas poças começaram a formar-se nos pontos mais baixos.

 Eu conhecia aquela estrada, sabia dos perigos, mas mesmo assim precisava de toda a atenção para manter o camião no traçado. “Está perigoso?”, perguntou Cláudia, a voz tensa. “Um pouco, mas já conduzi em coisa pior.” Não era mentira. Eu já tinha enfrentado temporais que transformavam a estrada num rio. Já tinha atravessado cheias, derrapado em barrel, quase capotado em curvas molhadas, mas sempre sozinho.

 Nunca com alguém a depender de mim. A chuva aumentou. Agora era uma parede líquida, impossível ver mais do que alguns metros à frente. Tive de reduzir ainda mais, a andar a menos de 40 kmagem. Outros camiões passavam na direção contrária, levantando ondas de água que batiam na lateral do Scania como chicotadas. Foi aí que vi os faróis.

Vieram demasiado depressa pelo retrovisor, uma carrinha de caixa aberta a acelerar feito louca, mesmo debaixo daquela chuva. Piscou os faróis, buzinou. Merda! Sussurrei. O que foi? Cláudia virou-se, olhando para trás. Vem alguém atrás da gente? A carrinha colou no para-choques traseiro, buzinou de novo, mais comprido, mais insistente.

 Piscou os faróis repetidas vezes. É ele disse Cláudia, a voz trémula. É o Ronaldo. Eu sei que é. Tentei acelerar, mas o camião carregado não respondia rapidamente. A estrada era demasiado perigosa para arriscar. A carrinha aproveitou, ultrapassou pela esquerda, fechou na frente do camião. Pisei o travão. O Scania derrapou, as rodas perdendo aderência no asfalto molhado.

 Por um segundo pensei que ia bater. Girei o volante, compensando, sentindo o peso da carga, puxando para o lado. O camião cantou o pneu, abanou, mas manteve-se no traçado. A carrinha parou atravessada na faixa de rodagem, bloqueando a passagem. Fique aqui”, ordenei para Cláudia. “Tranque a porta. Não desça. Fique aqui.” Abri a porta.

 A chuva fez-me atingiu como um murro. Em segundos estava encharcado. Desci lentamente, os pés afundando-se nas poças. A água escorria pelo rosto, entrando nos olhos, na boca. A porta da carrinha abriu-se. Desceram três homens. O Ronaldo na frente, mais dois que não conhecia, todos molhados, todos com cara de poucos amigos.

 Acabou a brincadeira, camionista! Gritou Ronaldo, a voz lutando contra o barulho da chuva. A mulher e o miúdo vão voltar com a gente. Não vão, não. Você não tem escolha. São três contra um e nós não está a pedir. Os outros dois se espalharam, um para cada lado, me cercando. Eram grandes, fortes. Um deles segurava um pedaço de madeira.

 Cabo de enchada parecia. O meu coração disparou. Eu não era quezilento, nunca fui. Na estrada aprende-se a evitar confusão, não a procurar. Mas daquela vez não tinha como evitar. Olha, eu não quero luta, falei levantando as mãos. Mas a A Cláudia não vai voltar. Ela tem medo de vocês. Ela tem motivo.

 Motivo? Ronaldo deu uma gargalhada seca. Ela encheu a sua cabeça de mentira. Camionista, você não sabe de nada. Sei que ela estava moribundo no meio da estrada. Isso já basta. Ela escolheu sair. Ninguém mandou. Ela foi expulsa. Você não estava lá. Não sabe o que aconteceu. Ele deu um passo em frente. Os outros dois também.

Última oportunidade”, disse Ronaldo. “Entrega a mulher ou nós pegamos à força”. Para os três, olhei para a madeira na mão de um deles. Olhei para a chuva que caía sem parar, para a estrada vazia, para o camião atrás de mim, com a Cláudia e Miguel para dentro, e tomei uma decisão. Não. Ronaldo fez um sinal.

 Os outros avançaram. O primeiro chegou por trás, tentando imobilizar-me. Dei uma cotovelada nas costelas dele. Ouvi o ar sair dos pulmões. Ele afrouchou. Eu me soltei. Girei. O segundo vinha com a madeira erguida. Baixei. A madeira passou silvando por cima da minha cabeça. Avancei. Ombro no estômago dele, jogando o meu peso.

 Ele cambaleou para trás, escorregou na água e caiu de costas na lama. Ronaldo veio por último. Era mais rápido, mais treinado. Acertou um soco na minha cara. Senti o sabor de sangue na boca. Acertou outro no estômago. O ar saiu. Dobrei torcendo. Agarrou-me a camisa, puxou-me para cima, preparando outro soco. Mas antes que se ligasse, ouvi um grito. Para.

 Era Cláudia. Tinha descido do camião. Estava parada debaixo da chuva, o bebé enrolado num cobertor nos braços. Eu Vou convosco”, disse ela, a voz alta, mas trémula. “Só não o magoem.” “Não!”, gritei. “Volta para o camião.” “Basta, Roberto, chega. Já fizeste demais.” O Ronaldo largou-me, limpou a boca com as costas da mão e sorriu.

 Olha só, a cachorrinha voltou para o dono. Cláudia aproximou-se, a cabeça baixa. Quando passou por mim, os nossos olhos se encontraram e naquele olhar vi tudo. Vi desistência, vi derrota. Vi uma mulher que tinha tentado fugir, mas que a vida tinha puxado para trás. Ela seguiu em direção à carrinha. Ronaldo a acompanhou de perto, satisfeito.

 E então aconteceu. Um dos homens, aquele que eu tinha derrubado, levantou-se da lama. Estava furioso, apanhou a madeira do chão e avançou em direção à Cláudia pelas costas, braço levantado, pronto para bater. “Vagabunda!”, gritou, “Vais aprender?” Não pensei, apenas reagi. Corri, escorreguei na água, quase caí, mas mantive o equilíbrio.

 Cheguei a ele um segundo antes da madeira descer. Agarrei o braço dele e torci com toda a força que tinha. Houvi um estalido, um grito. A madeira caiu. Ronaldo virou, mas era tarde. Empurrei o homem contra ele. Os dois chocaram e caíram juntos na lama. Agarrei a Cláudia pelo braço. Corra. Corremos.

 A chuva castigava, a estrada escorregava, o bebé chorava. Chegamos ao camião, praticamente atirei-a para dentro, subi atrás, bati com a porta e rodei a chave. O motor tociu. “Não, não, não, agora”, murmurei rodopiando de novo. Pelo retrovisor, vi os três a levantarem-se. O Ronaldo gritava qualquer coisa que eu não conseguia ouvir.

 Corriam na nossa direção. Rodei a chave pela terceira vez. O motor pegou. Enfiei a marcha. Acelerei. O camião deu um solavanco, as rodas patinaram na água, mas depois encontraram aderência. Avançamos. A carrinha estava atravessada na pista, mas tinha espaço suficiente para passar no acostamento. Acelerei mais. O camião inclinou-se quando as rodas da direita saíram do asfalto, afundando-se na terra molhada.

 Por um segundo pensei que ia atolar, mas a carga deu peso suficiente para as rodas morderem. Passamos pelo retrovisor. Vi Ronaldo correndo atrás, gritando, mas ficando cada vez mais para trás, até desaparecer na cortina de chuva. Dentro da cabine, apenas o barulho da chuva no tecto e o choro do bebé assustado. A Cláudia estava tremendo, não só de frio, mas de medo, de adrenalina, de choque.

 Eu também tremia, as mãos suadas no volante, o coração a bater descompassado. “Estás bem?”, consegui perguntar. Ela não respondeu, apenas apertou o bebé contra o peito e chorou. Eu conduzia em silêncio, tentando colocar a maior distância possível entre nós e aquela caminhonete. A chuva continuou por mais uma hora violenta, implacável.

 Quando finalmente começou a aliviar, eu já tinha feito quase 100 km. Encostei numa área de descanso vazia. Desliguei o motor. O silêncio que se seguiu foi quase assustador depois de tanto barulho. “Vão continuar atrás da gente”, disse Cláudia, com a voz apagada. Eu sabia que ela tinha razão. Aquilo não tinha acabado, tinha apenas começado.

 “A gente precisa de sair do estado”, falei. “Ir para longe, para algum lugar onde eles não te consigam encontrar”. “Não existe lugar assim. A dona Ana tem dinheiro, tem contactos. Se ela quiser, ela dá-me acha.” Então, não podemos parar. Temos que continuar a mover-nos até encontrar uma solução.

 Que solução? Ela me encarou, os olhos vermelhos. Eu não tenho documento, não tenho dinheiro, não não tenho nada. Como vou recomeçar? Como vou cuidar do Miguel? Não tinha resposta. Só tinha perguntas, dúvidas, medo, mas tinha uma certeza. Não ia desistir. Não daquela vez. A gente vai dar um jeito. Repeti, como um mantra. Não sei como, mas vamos.

 Ela me olhou durante muito tempo, depois a sentiu-se fraca. Lá fora, a chuva tinha parado completamente. O sol começava a abrir entre as nuvens, iluminando a estrada molhada, fazendo brilhar a água. Um novo começo, ou talvez apenas mais um adiamento do fim. Só o tempo o diria. Rodámos até ao anoitecer sem parar. Passei por Nova Roma, segui pela T130.

Entrando em Tocantins. Depois peguei na BR235 em direção ao Piauí. Cada quilómetro era uma tentativa de colocar distância entre nós e aquela família, entre nós e o passado, que teimava em nos perseguir. O bebé tinha finalmente dormido de verdade. A Cláudia conseguiu amamentar de novo, desta vez com mais calma.

 Ela mesma parecia melhor, ainda assustada e frágil, mas com um pouco mais de cor no rosto. Quando o sol começou a pôr-se, pintando o céu de laranja e vermelho, encontrei um posto de combustível isolado na berma da estrada. Era pequeno, quase abandonado, com apenas duas bombas enferrujadas e um edifício baixo que devia servir de snack-bar e dormitório.

 Parei o camião afastado das bombas num canto escuro, onde a luz dos postes não chegava direito. “Vou abastecer e comprar alimentos.” Avisei. “Vocês ficam aqui. Tranquem a porta. Vocês vai demorar?” Não, 15 minutos no máximo. Ela assentiu. Tranquei a porta por fora, guardei a chave no bolso. Pelo menos se alguém tentasse abrir, não conseguiria.

O posto era ainda mais decadente de perto. A tinta descascada, vidros sujos, chão rachado. Um homem velho atendia a bomba, o rosto marcado pelo sol e pelos anos. Pedi para completar o tanque enquanto eu entrava na cafetaria. Dentro cheirava a óleo velho e bolor. Tinha três mesas vazias e um balcão com alguns salgados debaixo de uma estufa de vidro.

 Uma mulher magricela fritava qualquer coisa num fogão ao fundo. Boa noite”, cumprimentei. Ela apenas acenou com a cabeça, sem parar o que estava a fazer. Encomendei dois pratos de comida para levar: água mineral, leite em pó e pão. Enquanto ela preparava tudo, os meus olhos caíram num telefone público ao canto, um daqueles antigos, de ficha.

 Fazia anos que não via um a funcionar. Sem pensar muito, tirei algumas moedas do bolso e aproximei-me. Marquei um número que ainda estava gravado na memória mesmo passado tanto tempo. Chamou três vezes antes de alguém atender. Alô? A voz da minha filha, Débora, 24 anos agora. Eu nem me lembrava bem como era o rosto dela.

 As únicas fotos que tinha eram antigas de quando ela era criança, Débora. A minha voz saiu rouca. Sou eu, o teu pai. Silêncio do outro lado. Um silêncio pesado, carregado. Pai. A voz dela era fria, distante. Você está a ligar de onde? De um posto no meio da estrada. Eu só queria ouvir a sua voz. Há três anos que não liga. Tr anos? Eu sei. Desculpa.

 Eu Tu o quê? Pai estava ocupado. Esqueceu-se que tinha filhos? A raiva dela era palpável, mesmo através da linha má. E eu merecia cada palavra. Eu penso em vós. Consegui dizer todos os dias. Pensar não chega. Pensar não paga conta. Não aparece nos aniversários. Não está lá quando a gente precisa. Eu sei. Tem razão.

 Eu fui um pai horrível. Não foi horrível, foi ausente. É pior. Ouvi uma voz masculina ao fundo. Alguém a perguntar quem era. É ninguém, respondeu Débora à pessoa. Depois voltou para mim. Preciso desligar. Espera só. Como está? E o Rafael? A gente está bem sem ti. A gente aprendeu a viver sem ti faz tempo.

 A frase atingiu-me como um soco no estômago. Débora, eu adeus, pai. Ela desligou. Fiquei ali parado, com o telefone na mão, ouvindo o tom de linha ocupada, sentindo o vazio crescer dentro do peito. Ninguém. Ela tinha dito que eu era ninguém e estava certa. Paguei a comida, peguei nos sacos e voltei para o camião.

 As minhas mãos tremiam quando destranquei a porta. A Cláudia percebeu na hora. Aconteceu alguma coisa? Não, está tudo bem. Está pálido. Estou só cansado. Entreguei-lhe a comida. Enquanto ela comia devagar, cuidando para não acordar o Miguel, fiquei sentado no banco do condutor, olhando para o nada. “Tem filhos, não tem?”, perguntou ela de repente.

 Olhei para ela surpreendido. “Tenho. Como é que sabe?” Jeito de pai. Olha-se para o Miguel de uma forma diferente, como alguém que conhece aquilo que já viveu. Dois, a Débora e o Rafael. Você vê-os? Não, faz anos. Por quê? A pergunta simples carregava um peso enorme. Porque eu escolhi a estrada? Porque eu fugi das responsabilidades.

 Porque eu fui um cobarde. A Cláudia comeu mais um pouco em silêncio. Depois perguntou: “Você se arrepende-se todos os dias? Então, por que não volta? Por que não tenta corrigir? Porque há coisas que não se corrigem. Há pontes que se queimam e não há como reconstruir. Há sempre como, enquanto a gente está vivo, pode sempre tentar de novo. Eu quis acreditar nela.

 Quis acreditar que não era tarde demais, mas a voz da Débora ainda ecuava na minha cabeça. A frieza, a raiva, a indiferença. E você? Perguntei desviando o assunto. Há mais alguém além do Miguel? algum amigo, alguma prima, alguém que possa ajudar? Ela abanou a cabeça. Eu sempre estive sozinha.

 Desde que a minha mãe morreu, o meu pai nunca me quis de verdade. Via-me como fardo. Quando eu fugi, ele nem procurou. A tia que me acolheu morreu no ano passado. Câncer. O O Júnior foi a primeira pessoa que realmente me viu, sabe? Que me fez sentir que eu importava. A voz dela ficou embargada. E quando ele morreu, eu morri um pouco também.

 A única coisa que manteve-me viva foi o Miguel, saber que tinha que cuidar dele, que ele precisava de mim. Ela limpou as lágrimas com as costas da mão. A dona Ana tirava isso de mim. Fazia-me sentir que eu não era suficientemente boa nem para ser mãe, que eu ia estragar o Miguel, que eu era uma maldição. “Tu não és maldição nenhuma”, falei firme.

 “És uma mãe que está a lutar, que não desistiu mesmo quando tudo conspirou contra si. Eu quase desisti naquela estrada antes de você aparecer. Eu quase deixei tudo acontecer. Quase aceitei que tinha chegado ao fim.” Mas não aceitou. Os continuou a andar, continuou segurando o Miguel, continuou viva.

 Ela olhou para mim, os olhos a brilhar. Porque sou teimosa ou burra, não sei. É corajosa, é diferente. Ficámos em silêncio por um tempo. Lá fora, a noite tinha caído completamente. O posto estava quase vazio. Apenas o nosso camião e uma moto velha encostada à parede. “A gente é parecido”, disse Cláudia, de repente. “Como assim? Nós carregamos peso, arrependimento, culpa.

 A diferença é que o teu é pelo que fizeste, o meu é pelo que me fizeram. Ela tinha razão. Éramos dois feridos a tentar sobreviver numa estrada que não perdoava a fraqueza. “Achas que a gente consegues?”, perguntou ela a voz baixa. “Fugir deles, recomeçar, viver? Eu não sei, mas vamos tentar. E se não der certo, depois tentamos de novo e de novo até dar. Ela sorriu fracamente.

 Foi a primeira vez que a vi sorrir de verdade. Um pequeno sorriso, triste, mas genuíno. “Também é teimoso?”, disse ela. “Ou burro, não sei. Desta vez ela riu, um riso baixo, mas real. Terminamos de comer num silêncio mais confortável.” O Miguel acordou, mamou um pouco, voltou a adormecer. A Cláudia se deitou-se na cama atrás da cabine, exausta.

Em poucos minutos estava a dormir também. Fiquei acordado à frente, como sempre, olhando à noite, pensando em tudo e em nada, pensando na Débora, no Rafael, na minha ex-mulher, a pensar na a minha mãe, que morreu sozinha enquanto Eu fazia a BR101 carregando milho, pensar em todas as escolhas erradas que tinha feito, em todas as pessoas que tinha desiludido, em todos os momentos que tinha perdido e nunca mais ia recuperar.

 Mas também pensando que talvez, apenas talvez ainda desse tempo de fazer alguma coisa bem, de salvar pelo menos vida, uma vez que não consegui salvar as outras. Peguei no telemóvel velho que trazia no bolso. Tinha alguns contactos ali, nenhum que eu ligasse fazia anos. Percorri a lista até encontrar o seu nome, Rafael, o meu filho.

 O dedo pairou sobre o botão de ligar. Fiquei ali indeciso, com o coração a bater forte, mas ainda não liguei. Não. Primeiro precisava de resolver aquilo. Precisava de ter a certeza de que Cláudia e Miguel estavam em segurança. Precisava de provar para mim mesmo que ainda era capaz de terminar o que começava.

 Aí sim, talvez eu tivesse coragem para enfrentar os meus próprios fantasmas. Guardei o telemóvel de volta para o bolso e acomodei-me no banco. O sono vinha pesado, mas eu lutava contra ele. Precisava de estar alerta. Não sabia se a carrinha ia aparecer de novo. Não sabia se Ronaldo tinha desistido ou se estava apenas a reorganizar forças.

 A noite era longa, a estrada silenciosa e dentro do camião três almas perdidas tentando encontrar um caminho, ou pelo menos tentando sobreviver até ao amanhecer. Acordei com o sol a bater no rosto. Deviam ser umas 6 horas da manhã. Tinha dormido sem querer, a cabeça pesada inclinada contra a janela, o pescoço doendo da má posição.

 Pisquei várias vezes, tentando focar, desorientado durante alguns segundos antes de se lembrar onde estava e porquê. Olhei para trás. Cláudia ainda dormia enrolada numa manta velha que guardava na cabine. O Miguel estava acordado, quieto no colo dela, apenas observando o tecto com aqueles olhinhos curiosos.

 Quando me viu a olhar, fez um barulhinho. Não era choro. Era mais como se estivesse tentando comunicar do jeito que sabia. Bom dia, pequeno”, sussurrei. Ele olhou para mim sem compreender, mas ficou quieto, como se soubesse instintivamente que precisava de silêncio. Saí do camião lentamente, fechando a porta com cuidado para não acordar a Cláudia.

 O ar da manhã estava fresco. Uma brisa leve balançava as árvores em redor do posto. O lugar estava vazio, nem sinal do velho que tinha-me atendido na noite anterior. A bomba de gasolina continuava ali silencioso, um monumento à solidão das estradas brasileiras. Caminhei até ao parte de trás do posto, onde tinham os banheiros.

 Eram imundos, como era de esperar, mas funcionavam. Lavei o rosto na água gelada, tentando espantar o cansaço. Olhei para o meu reflexo no espelho partido. Barba por fazer, olhos vermelhos, cabelo desgrenhado. Parecia um fugitivo, talvez porque era exatamente isso que eu tinha me tornado. Quando voltei para o camião, a Cláudia estava acordada, sentada no banco do pendura, amamentando o Miguel, a olhar pela janela com aquela expressão distante que eu já estava começando a reconhecer.

 Era o olhar de quem está presente no corpo, mas com a mente muito longe, perdida em memórias ou em medos. “Dormiu bem?”, perguntei subindo para a cabine. “Dormi melhor do que eu esperava.” Acordou duas vezes, mas voltou a adormecer rapidamente. Acho que ele finalmente entendeu que não estamos mais em perigo imediato.

 “A gente nunca está em perigo imediato até estar”, respondi sem querer soar tão pessimista, mas incapaz de disfarçar. Ela olhou para mim, ler algo no meu rosto que preferia esconder. Dormiu um pouco? Mentira, dormiu sentado. Vi quando acordei de madrugada. Você estava a ressonar. Não pude evitar um sorriso débil. Então dormi mesmo.

 Precisa de descansar direito, Roberto. Não adianta nada fugirmos se bater com o camião porque caiu no sono. Ela tinha razão, mas descansar direito significava parar. E parar significava dar hipótese de sermos alcançados. Era um dilema sem solução fácil. “Vou ficar bem”, menti. “Já rodei 36 horas seguidas. Isto aqui é canja”. Não pareceu convencida, mas não insistiu.

 O Miguel tinha terminado de mamar e agora olhava em redor com curiosidade, os olhinhos fixando-se em tudo o que se movia. A luz da manhã, uma mosca que zumbia perto da janela, os dedos da própria mãe. Ele está com fome do mundo, comentei. Está a crescer. Mesmo com tudo o que aconteceu, ele não deixa de crescer. É estranho. A gente pensa que quando a vida se transforma em caos, as as coisas param, mas não param.

 O tempo continua, as crianças continuam crescendo, o sol continua a nascer. Tinha uma poesia triste naquelas palavras. Uma resignação que vinha de alguém que tinha aprendido à força que a vida não espera que estejamos prontos. Liguei o motor. Ele pegou no primeiro giro o ronco familiar enchendo a cabine. Ajustei os espelhos, verifiquei se estava tudo certo e coloquei o camião na estrada outra vez. Rodamos durante horas.

Passei por Palmirante, uma pequena cidade minúscula que mais parecia ter sido esquecida pelo tempo. Depois, Vanderlândia, igualmente pequena. A estrada desenrolava-se monótona, sempre igual, sempre deserta. Era uma quinta-feira de manhã e parecia que éramos os únicos vivos num mundo abandonado.

 Cláudia falou pouco durante a manhã. Ficou ali a segurar o Miguel, olhando pela janela, perdida nos próprios pensamentos. Respeitei o silêncio dela. Por vezes, a pessoa precisa de estar quieta, processar tudo sozinha antes de conseguir verbalizar. Foi perto do meio-dia que o problema começou. Senti primeiro uma vibração estranha no volante, depois um barulho diferente proveniente do motor.

 Não era alto, era subtil. Mas quando se passa anos conduzindo o mesmo camião, conhece cada som, cada vibração. E aquilo estava errado. Olhei para os ponteiros, temperatura do motor a subir, não muito, mas o suficiente para acender um alerta mental. O que foi? perguntou a Cláudia, percebendo a minha atenção. Não sei ainda.

Pode ser nada. Mas não era nada. 15 minutos depois, a temperatura disparou. O ponteiro entrou na zona vermelha e comecei a ver fumo a sair do capô. Merda. Reduzi a velocidade, procurando um local seguro para parar. A estrada tinha mato de ambos os lados, sem berma decente. Finalmente Encontrei uma entrada para uma estrada de terra.

 que devia levar a alguma quinta. Encostei-me ali, o mais longe possível da pista principal. Desliguei o motor, o fumo continuava a sair. Desci, abri o capot. O calor atingiu-me na cara. Água a ferver espirrava de algum lugar. Vapor a subir em nuvens espessas. O que aconteceu? A Cláudia tinha descido também o bebé ao colo, mantendo distância do capô aberto.

 Radiador furado ou mangueira rebentada, talvez os dois. É grave, é sem água, o motor funde e nós estamos no meio do nada. Olhei ao redor. Não tinha casa, não tinha vedação, não tinha nada. Só mato, árvores esparsas e aquela estrada de terra batida desaparecendo no horizonte. O sol estava a pino, sem piedade.

 Devia estar a fazer uns 38 edixindo. Peguei na garrafa de água que tinha comprado no posto, estava pela metade. Olhei para a quantidade ridícula de líquido e depois para o radiador fumegante. Não ia dar nem de perto. “Precisamos de água”, falei mais para mim próprio. “Onde deve haver um rio, um ribeiro, alguma coisa por aqui, tem que ter.

 E se não tiver?” Não respondi porque não queria pensar nessa possibilidade. Fique aqui com o Miguel. Eu vou procurar água sozinho aqui. Não vou demorar. Uma hora no máximo. Se não encontrar nada, volto e a gente pensa noutra coisa. Vi o medo nos olhos dela, mas também vi que ela sabia que não tinha escolha. Tome, entreguei o telemóvel.

 Não há sinal aqui, mas se aparecer alguma coisa, você grita e eu volto a correr. Ela pegou no telemóvel com mãos trémulas. Olhou para o Miguel, depois para mim. Tome cuidado. Tomo sempre. Peguei num galão vazio que guardava no camião, orientei-me pelo sol e comecei a caminhar pela estrada de terra. O calor era brutal.

 Em 5 minutos, eu já estava a suar, a camisa colada nas costas, a garganta seca. Cada passo levantava poeira vermelha que se colava ao suor, transformando a minha pele numa camada de lama seca. Andei e andei e andei. 15 minutos, meia hora, 45 minutos. Nada, só mato seco, terra gretada, silêncio opressor interrompido apenas pelas cigarras, cantando o seu canto eterno e indiferente.

 Comecei a pensar em voltar. Estava demasiado longe do camião. Se acontecesse alguma coisa com a Cláudia e o Miguel, não ia ouvir, não ia conseguir ajudar. Mas ao mesmo tempo, se eu voltasse sem água, nós estava lixado do mesmo jeito. Mais 10 minutos, decidi. Mais 10 minutos e eu volto. Foi ao nono minuto que ouvi um som diferente, água a correr, fraco, quase imperceptível, mas lá estava.

 Saí da estrada, mergulhei no mato. Galhos arranharam-me os braços, espinhos rasgaram as calças, mas eu continuei, seguindo o som, como um homem no deserto, seguindo a miragem de um oásis, sem saber se era real ou se a minha cabeça estava a inventar. E era real, um ribeiro pequeno, quase seco, mas correndo.

 A água estava barrenta, cheia de folhas e paus, mas estava a se movendo. Não era uma poça estagnada, era água viva. Ajoelhei-me na margem e mergulhei o galão. A água entrou ruidosa, enchendo o recipiente. Quando estava cheio, coloquei a tampa, abracei o galão contra o peito e voltei correndo. O caminho de regresso pareceu mais longo.

 O galão pesava, os meus braços ardiam, os pulmões ardiam, mas eu não parei. Não podia parar. Quando finalmente avistei o camião, uma onda de alívio me atingiu. Ainda estava lá intacto. Cláudia estava sentada na sombra por baixo da carroçaria, o bebé no colo, cantarolando-lhe baixinho. Ela levantou-se quando me viu, os olhos arregalados, esperançosos.

 Você achou? Achei. Coloquei o galão no chão, as mãos tremendo de cansaço. Respirei fundo algumas vezes, esperando o coração voltar ao normal. Agora vem a parte difícil”, avisei. “Tenho de arranjar o que rebentou antes de colocar água nova, senão ela vai vazar tudo outra vez.” Abri a caixa de ferramentas que estava na lateral do camião.

 Peguei no que precisava, uma lanterna, e mergulhei debaixo do chassis. O problema era pior do que pensava. A mangueira superior do radiador tinha rebentado, mas não só isso, tinha uma pequena fissura no próprio radiador, provavelmente de alguma pedra que embateu na estrada. A combinação dos dois tinha feito com que a água evaporar em minutos.

 Trabalhei durante quase 2 horas. O calor debaixo do camião era insuportável, como estar dentro de um forno. O suor escorria-lhe nos olhos, perturbando a visão. As mãos ficaram pretas de gracha e ferrugem, mas aos poucos fui reparando. Troquei a mangueira por uma reserva que sempre me carregava. Para a fissura do radiador, usei massa epoxi que tinha na caixa de ferramentas.

 Não era solução permanente, mas ia segurar até nós chegar a uma cidade com uma oficina decente. Quando terminei, o sol já estava começando a decair. Devia ser umas 4 horas da tarde. Tinha perdido o dia inteiro ali. Deitei a água barrenta no radiador. Ela entrou barulhenta, enchendo o sistema. Coloquei a tampa, Limpei as mãos num pano sujo e rodei a chave. O motor torciu, voltou a torcer.

À terceira tentativa, apanhou fraco no início, mas depois estabilizou. Olhei para o medidor de temperatura. Começou a subir, chegou a meio e parou ali. Normal. Funcionou, murmurei quase sem acreditar. Cláudia tinha-se aproximado esperançosa. A gente pode ir. Pode, mas devagar. Preciso de ficar de olho na temperatura.

 Se começar a subir de novo, a gente pára. Subimos para o camião, coloquei em marcha, Voltei para a estrada principal e segui viagem, mas a velocidade era ridícula. 40 km no máximo, qualquer coisa mais rápida e o motor começava a aquecer. Era frustrante, desesperante, mas não tinha escolha. O sol pôs-se, a noite caiu e eu continuei a rodar naquele passo de lesma, rezando para que o motor aguentasse, para a massa epoxe segurar, para nós conseguir chegar a algum lado antes que acontecesse alguma coisa pior.

Cláudia tinha estado quieta durante toda a a tarde, mas agora, com a escuridão envolvendo tudo, ela falou finalmente: “Não vamos conseguir, vamos, vamos, a gente vai. Não parece tão certo. Suspirei, os olhos colados na estrada escura à frente. Eu não tenho a certeza de nada, Cláudia.

 Não sei se o camião vai aguentar. Não sei se vamos conseguir fugir deles. Não sei se vai correr tudo bem no final, mas sei uma coisa. Eu não vou desistir e tu também não vai. Ela ficou em silêncio durante um longo tempo, depois murmurou: “Por está a fazer isso de verdade? Porque não me deixou lá, seguiu a sua vida, seria muito mais fácil, porque fácil não significa certo.

 E porque eu já passei a vida inteira a escolher o caminho fácil, fugindo das coisas difíceis, evitando os problemas, fingindo que não era comigo. E sabe onde levou-me? Para lado nenhum. Perdi a minha família. Perdi anos que nunca irei recuperar. Assim, talvez seja a altura de fazer diferente. Talvez seja a altura de ficar, de lutar, mesmo que seja difícil, mesmo que doa.

 Ela olhou para mim e pela primeira vez vi algo de diferente naqueles olhos. Não era só medo ou desespero, era gratidão. Era a esperança frágil, mas esperança. Obrigada, sussurrou. Por ficar. A gente fica junto, respondi até o fim. Seja lá o que isso quer dizer. Rodámos pela noite, lentos, mas constantes. O motor ronronava baixinho, esforçado, mas resistindo.

 A estrada estava vazia. O mundo inteiro parecia ter desaparecido, ficando apenas a nós os três e aquele velho camião lutando contra o próprio limite. E foi ali, no meio do nada, que eu percebi uma coisa. Talvez a gente não chegasse a lado nenhum. Talvez o destino não importasse tanto assim.

 Talvez o que realmente importasse fosse a viagem, as escolhas que fazíamos no caminho, as pessoas que nós decidia carregar junto. A minha mão apertou o volante, o meu pé segurou-se no acelerador e continuei, porque era isso que a gente fazia, continuava sempre. A noite arrastava-se pesada como chumbo. Já passava da meia-noite e o motor do camião continuava aquele ressonar baixo, esforçado, como um animal velho a lutar para não desistir.

 Eu tinha os olhos a arder, a visão embaciando de vez em quando, obrigando-me a piscar forte para recuperar o foco. As mãos estavam dormentes no volante, os dedos rígidos de tanto tempo na mesma posição. A Cláudia tinha adormecido de novo, a cabeça encostada à janela, o Miguel aninhado no colo. A respiração dela era tranquila, o rosto finalmente relaxado.

 Era bom vê-la assim, pelo menos por algumas horas, livre do medo que a perseguia acordada. A estrada continuava vazia, um túnel escuro iluminado apenas pelos faróis fracos do camião. Eu tinha passado por Darcinópolis há cerca de uma hora. Depois, palmeiras do Tocantins, pequenas cidades que mais pareciam fantasmas, apenas algumas luzes tremeluzindo na escuridão, cães magros a atravessar a pista.

 O resto era silêncio. O ponteiro da temperatura se mantinha estável. A massa epóxo, mas sabia que era uma questão de tempo. Aquele arranjo era provisório, uma gambiarra de estrada que podia falhar a qualquer momento. Cada quilómetro era uma pequena vitória contra o inevitável. Foi aí que vi as luzes no retrovisor. A princípio, pensei que fosse apenas mais um veículo, algum camionista fazendo a mesma rota noturna, mas as luzes foram crescendo demasiado rápido e então percebi.

Era uma carrinha de caixa aberta a acelerar, vindo diretamente na nossa direção. O meu estômago se apertou. Cláudia, chamei baixinho, tentando não suar demasiado alarmado. Acorda-a demorou alguns segundos, confusa, passando a mão pelo rosto. O que foi? Tem alguém a vir atrás. Ela virou-se imediatamente, olhando pelo retrovisor lateral.

 Mesmo na escuridão, dava para ver o medo a tomar conta do rosto dela. São eles? Não sei, pode ser coincidência, mas não acreditava nisso. Não. Naquele horário, naquela estrada vazia, com aquela velocidade agressiva. A carrinha colou atrás do camião, buzinou uma, duas, três vezes, piscou os faróis no alto, a luz rebentando no retrovisor, cegando-me.

São eles, disse Cláudia, com a voz a tremer. Eu sei que são. Tentei acelerar, mas o motor protestou imediatamente. A temperatura começou a subir. Tive que aliviar o pé, voltando aos míseros 50 KNCor, que era o máximo que o camião aguentava. A carrinha aproveitou, ultrapassou pela esquerda, acelerou até ficar lado a lado connosco.

Consegui ver três homens lá dentro. O motorista era o Ronaldo. Reconhecia o perfil mesmo na escuridão. Os outros dois não consegui identificar. Ele buzinou de novo, fez gestos, ordenando que eu parasse. Não pares, disse Cláudia. a voz aguda de pânico. Por amor de Deus, não pare. Não vou parar. A carrinha acelerou mais, passou à frente e começou a reduzir a velocidade, obrigando-me a diminuir também.

 Era a mesma tática da chuva, eu obrigar-me a parar. Olhei em redor, desesperado, procurando uma saída. A estrada era estreita, sem berma, mato fechado dos dois lados. Não tinha para onde ir. A carrinha estava quase parando agora, obrigando-me cada vez mais devagar. 15 kilm, 10 c e depois vi uma estrada de terra batida à direita, estreita, mal conservada, desaparecendo no mato, mas era uma saída.

 Sem pensar muito, virei o volante bruscamente. O camião sacudiu violentamente quando as rodas deixaram o asfalto e bateram na terra solta. A Cláudia gritou, segurando o bebé com força. Acertei o volante, acelerando o mais que podia naquela superfície traiçoeira. Pelo retrovisor, via a carrinha travar, as luzes de travagem acendendo vermelho na noite.

 Depois, ela manobrou e veio atrás. A estrada de terra batida era horrível, buracos, pedras, ramos caídos. O camião saltava, rangia, cada suspensão gritando sob o esforço. A carga na carroçaria se deslocava. fazendo barulhos sinistros. Mas continuei, o pé fundo no acelerador, rezando aos pneus não rebentarem, para o eixo não partir, para alguma coisa não desabar.

A carrinha vinha atrás, mais rápida, mais ágil, ganhava terreno a cada segundo. “Roberto!”, gritou Cláudia. “Eu sei!” A estrada fez uma curva apertada. Virei tarde demais. As rodas traseiras derraparam atirando o camião para o lado. Por um segundo, pensei que ia capotar. O mundo rodou, o motor rugiu e depois as rodas encontraram aderência de novo, e o camião endireitou-se com um solavanco violento.

 O Miguel estava a chorar agora, assustado com os solavancos, com os gritos, com o caos. A carrinha tinha ganhado mais terreno, estava a menos de 20 m. conseguia ver os faróis no retrovisor, aquelas luzes cruéis que pareciam olhos de predador. E depois a estrada acabou. Não acabou gradualmente, acabou de repente, abrindo numa grande clareira, onde existia o que parecia ser uma quinta abandonada, um barracão de madeira desabando de um lado, restos de currais do outro, mato a tomar conta de tudo, frei.

 O camião derrapou na terra solta, rodou quase novenedo e deixou de lado, levantando uma nuvem de pó. Antes que eu pudesse processar o que fazer, a carrinha já tinha entrado na clareira também, os faróis iluminando tudo, bloqueando qualquer caminho de saída. Desceram os três, Ronaldo na à frente e os outros dois atrás. Um deles transportava um pedaço de cano, o outro tinha uma ferramenta que parecia um pé de cabra.

 “Fim de linha, camionista”! Gritou Ronaldo, caminhando em direção ao camião. Tranquei as portas por dentro, inútil. Eu sabia, mas era instinto. O que é que a gente faz? Sussurrou a Cláudia, o pânico a tomar conta. O que é que a gente faz? A minha mente estava acelerada, procurando saídas, opções, qualquer coisa, mas não tinha.

 Estávamos encurralados, três contra um. Eu estava exausto, os músculos doendo, os reflexos lentos de tanto tempo sem dormir descansado. “Desça do camião!”, gritou Ronaldo. Entrega a mulher e o miúdo e pode ir embora. Ninguém precisa de se magoar. Não acredite nele, disse Cláudia a tremer. Ele vai magoá-lo de qualquer maneira. Ele sempre foi assim, violento.

 O Júnior tinha medo dele. Ronaldo estava a poucos metros agora. Bateu à porta do condutor com o punho fechado. Última chance. Olhei em redor dentro da cabine, procurando algo, qualquer coisa que pudesse usar como arma. Não tinha nada, apenas ferramentas que estavam guardadas na lateral exterior do camião, inacessíveis. Ronaldo fez um sinal.

 Um dos homens foi até à parte de trás do camião. Ouvi o barulho do metal batendo, ele tentando forçar a tranca da carroçaria. E depois ouvi outro barulho. Um motor vindo da estrada de terra batida pela qual tínhamos entrado. Os faróis apareceram entre as árvores. Um veículo se aproximando-se rapidamente.

 Ronaldo ouviu também. virou-se, protegendo os olhos da luz. Os outros dois pararam o que estavam a fazer. O veículo entrou na clareira. Era uma carrinha também, mas maior, mais nova. Freou, levantando pó, e apagou os faróis. Ficamos todos paralisados, sem compreender o que estava a acontecer. A porta do condutor se abriu.

 Desceu um homem alto, forte, uns 60 anos, cabelo grisalho, boné de lavrador, usava roupa de trabalho e tinha uma autoridade natural no modo de se mover. Que raio está a acontecer aqui? perguntou a voz grave, cortante. Ronaldo deu um passo em frente, tentando recuperar o controlo da situação. Não é da sua conta, velho. Caia fora.

 O homem não se deixou intimidar. Olhou em redor, avaliando a cena. O camião bloqueado, os três homens armados. Atenção no ar. Isto aqui é propriedade privada, disse -lo calmamente. A minha propriedade então é da minha conta. Sim. A gente está só resolvendo um problema. familiar. Não se meta.

 Problema familiar que envolve três homens armados que cercavam um camião no meio da noite. O homem caminhou alguns passos, colocando-se entre Ronaldo e o camião. Não me parece muito familiar, não. Olhe aqui, senhor Maurício. O homem se apresentou. Maurício Teixeira, proprietário destas terras todas aqui à volta. E você? Ronaldo hesitou.

 Podia sentir a autoridade daquele homem, a confiança dos alguém habituado a mandar. Ronaldo Silva. Pois bem, Ronaldo Silva, você e os seus amigos vão embora agora pelo caminho que vieram e vão deixar este camião em paz. Não vai acontecer. A mulher que está neste camião roubou uma criança da família. A gente só quer aquilo que é nosso.

 O Maurício olhou para o camião, os olhos apertando como se estivesse a pensar: “Esa mulher tem nome?” Antes que Ronaldo respondesse, abri a porta do camião. Desci lentamente, as pernas bambas, mas obrigando-me a ficar de pé, a parecer mais confiante do que realmente estava. O seu nome é Cláudia, respondi. E ela não roubou nada.

 Ela fugiu porque estava a ser maltratada. Ela e o bebé, o seu próprio filho. Mentira! Gritou o Ronaldo. Esse camionista está a ajudá-la a fugir. Ele não sabe de nada. O Maurício olhou para mim, depois olhou para dentro da cabine onde estava Cláudia, segurando o Miguel, os olhos arregalados de medo. Moça! Chamou-o, a voz mais suave agora.

 Este bebé é seu filho? Cláudia a sentiu-se tremendo. E esses homens, eles te magoaram? Ela sentiu de novo, as lágrimas começando a escorrer. Maurício voltou-se de novo para Ronaldo. A expressão dele tinha mudado. Já não era apenas autoridade, era raiva controlada. “Saiam da minha propriedade agora. A gente não vai. Eu não pedi, eu ordenei.

” Maurício deu dois passos em frente. Ronaldo recuou. Um. Conheço a sua família, Ronaldo Silva. Conheço a dona Ana. Sei que tipo de pessoas são e sei que o que estão aqui a fazer é errado. Então vão-se embora antes que eu ligue para a polícia e conteiram minha propriedade e estão a ameaçar um camionista e uma mulher com bebé.

 A polícia vai ficar do nosso lado. A dona A Ana tem contactos. Pode ser, mas eu também tenho e os meus são melhores. Maurício tirou um telemóvel do bolso. Quer testar? Ficou tudo em silêncio, apenas o vento a soprar entre as árvores, o choro fraco do Miguel, o motor da carrinha do Maurício ainda a arrefecer.

 Ronaldo olhou para os comparsas, olhou para o camião, olhou para o Maurício. Estava calculando, ponderando as opções. Finalmente cuspiu para o chão. Isso não acabou. Acabou sim, respondeu Maurício. Pelo menos aqui nas minhas terras. Agora vão embora. Ronaldo fez um gesto com a cabeça. Os três voltaram para a carrinha, entraram e bateram as portas com raiva.

 O motor ligou, rugindo. Fizeram uma manobra brusca, atirando terra para todo o lado e saíram em disparada pela estrada. Ficámos ali, eu e Maurício, ouvindo o som do motor desaparecer na distância, até que só restava o silêncio da noite. Maurício guardou o telemóvel e virou-se para mim. Está bem? Assenti, mas na verdade estava a tremer.

 A adrenalina a começar a passar, deixando apenas o cansaço e o medo residual. E a rapariga? Olhei para no interior da cabine. A Cláudia estava chorando, o rosto enterrado no pescoço do Miguel. Ela vai ficar, respondi, a voz a falhar um pouco. O Maurício se aproximou-se do camião, olhando para a frente, onde ainda saía uma pequena fumaça fina do capô.

 Esse motor não te vai levar muito longe, eu sei, mas vou reparar de alguma forma. A quinta principal fica a cerca de 3 km daqui. Tem oficina, tem mecânico, tem água limpa. Vocês podem passar à noite. Amanhã a gente vê o que fazer. Olhei para ele sem perceber porque estava a ajudar. Por que o senhor está a fazer isso? Maurício ficou em silêncio por momentos, os olhos perdidos em alguma memória distante, porque há muitos anos atrás eu também precisei de ajuda.

 Estava a passar por um momento difícil, tinha perdido tudo. Estava na estrada sem saber para onde ir e alguém parou. Alguém me ajudou sem me conhecer, sem me julgar. Deu-me trabalho, comida, um lugar para recomeçar. Ele olhou para mim. Aquilo mudou a minha vida. Então agora, sempre que posso, faço o mesmo. Pago para a frente, como se costuma dizer.

Senti um nó na garganta. Obrigado. Consegui dizer. Não me agradeça já. Ainda tem muito chão pela frente. Mas, pelo menos hoje vocês vão dormir em segurança. Amanhã a gente pensa no resto. Ele voltou para a carrinha dele. Sigam-me devagar. Vão conseguir chegar. Entrei no camião, Olhei para a Cláudia.

 Ela tinha parado de chorar, mas o rosto ainda estava molhado. “Vamos ficar bem”, falei mais, tentando convencer-me do que convencê-la. “Eu quase não acreditei quando ele apareceu”, sussurrou ela. “Pensei que já não tinha saída.” “Há sempre”, respondi mesmo quando parece que não. “Há sempre.” Liguei o motor.

 Ele pegou no terceiro giro, relutante, mas a funcionar. Seguia a carrinha do Maurício pela trilha estreita, que saía do outro lado da clareira. A quinta apareceu depois de alguns minutos. Era grande, bem cuidada, com luzes acesas na casa principal, currais organizados e enormes barracões. Tinha até uma pequena oficina com portão de metal junto a um dos barracões.

Maurício estacionou e desceu, abrindo o portão da oficina. Ponha o camião aqui dentro, amanhã vemos o estrago. Manobrei o Scania para dentro. O espaço era apertado, mas deu. Desliguei o motor e só aí percebi o quanto estava exausto. Cada músculo doía, os olhos ardiam, a cabeça pesava. A casa de hóspedes está ali apontou o Maurício para uma construção pequena, mas limpa, ao lado da casa principal.

 Tem dois quartos, casa de banho, cozinha simples, podem usar. A minha esposa deve estar a dormir, mas amanhã cedo ela prepara pequeno-almoço para vocês. Senhor Maurício, eu não sei como agradecer cuidando desta menina e deste bebé”, respondeu ele simplesmente. “E amanhã, quando tiverem descansado, a gente conversa sobre o que fazer depois”.

 Ele foi-se embora, entrando na casa principal e deixando-nos sozinhos sob a luz fraca dos postes. Ajudei a Cláudia a descer. Ela estava trôpega. exausta. O Miguel tinha adormecido, finalmente exausto do próprio choro. Entramos na casa de hóspedes. Era simples, mas limpa. Cheirava a alfazema e tinha toalhas dobradas na cama.

 “Você dorme no quarto?”, disse eu para a Cláudia. “Eu fico na sala.” “Não é preciso, há dois quartos. Não vou mesmo dormir. Vou ficar de olho por via das dúvidas”. Ela não discutiu. Estava demasiado cansada. Entrou no quarto, deitou o Miguel na cama, descalçou os sapatos e deitou-se ao lado dele. Em poucos minutos estava a dormir.

Fiquei sentado na sala, olhando pela janela, vendo a noite arrastar-se. O corpo pedia descanso, mas a mente estava acelerada, pensando em tudo o que tinha acontecido, pensando no Ronaldo e nos outros que certamente não iam desistir, pensando no Maurício e na sorte absurda de ele ter aparecido exatamente quando precisávamos.

 E pensando nas escolhas, nas milhares de pequenas escolhas que tinham-me levado até ali. Escolher parar quando vi a Cláudia na estrada, escolher não desistir quando apareceram os problemas. Escolher lutar quando seria mais fácil fugir. Eram escolhas que iam custar-me caro. Talvez já estivessem custando, mas eram escolhas acertadas.

 E pela primeira vez em muito tempo, eu tinha a certeza disso. Lá fora, a noite começou a clarear. O céu foi mudando de preto para cinzento, depois para azul claro. O sol estava a nascer e com ele uma nova oportunidade. Acordei sem me aperceber que tinha dormido. A luz da manhã entrava pela janela da sala, clara e quente, desenhando retângulos dourados no chão de madeira.

 Eu estava atirado no sofá, o corpo torto, o pescoço a doer. Levei alguns segundos para me lembrar onde estava, o que tinha acontecido, porque cada músculo do meu corpo gritava de dor. Olhei para o relógio na parede, 7:30 da manhã. Tinha dormido talvez 2 horas, mas era mais do que tinha dormido nos últimos dois dias.

 Levantei-me lentamente, sentindo cada articulação reclamar. Fui até à janela. Lá fora, a quinta estava acordada. Peões a trabalhar nos currais, o som do gado ao longe, tratores ressonando. Era uma propriedade grande, bem administrada. O Maurício devia ser homem de posses. A porta do quarto se abriu. A Cláudia saiu, o Miguel ao colo.

Ela tinha lavado o rosto, penteado o cabelo com os dedos. Parecia mais descansada, mas os olhos ainda carregavam aquela sombra de medo que não ia embora facilmente. Bom dia”, disse ela, a voz baixa para não quebrar o silêncio da manhã. “Bom dia. Dormiu bem? Melhor do que esperava.

 Foi a primeira vez em dias que dormi numa cama a sério.” O O Miguel olhava em redor, curioso. Tinha aquele jeito alerta das crianças pequenas absorvendo tudo, processando um mundo novo a cada segundo. Alguém bateu à porta. Três batidas leves, educadas. Abri. Era uma mulher na casa dos 50 anos. cabelo curto e grisalho, sorriso gentil.

 Usava um avental florido e transportava um cesto coberto com um pano. Bom dia. Vocês devem ser os hóspedes do Maurício. Sou a Dalva, a esposa dele. Bom dia, senhora. Sou o Roberto. Ela é Cláudia. Trouxe o pequeno-almoço para vocês. Ela entrou colocando o cesto na pequena mesa da sala. Pão caseiro, requeijão, compota, café quentinho. Imagino que estejam com fome.

 Estamos sim. Muito obrigado, senhora Dalva. Dalva apenas. Ela tirou o pano do cesto, revelando as iguarias. O cheiro do pão fresco encheu a sala. O Maurício me contou um pouco do que se passou ontem. Devem ter passado por um sufoco. Cláudia assentiu, abraçando o Miguel com mais força. Ele salvou-nos.

 Se não fosse o seu marido, não sei o que teria acontecido. O Maurício é assim. Sempre foi de ajudar quem precisa. Dalva olhou para o bebé, suavizando os olhos. Que gracinha, quantos meses? Quatro, respondeu a Cláudia. Mais quatro meses ontem. Posso? Dalva estendeu os braços. Cláudia hesitou apenas um segundo antes de entregar o Miguel.

 Dalva segurou-o com a naturalidade de quem já tinha cuidado de muitas crianças, balançando devagar, fazendo aqueles barulhinhos que os bebés adoram. Meu Deus, que bom peso. Está bem alimentado. Eu tento. Não é fácil, mas tento. Deve estar precisando de roupa lavada para ele. Fraldas limpas também está. Mas eu não tenho.

 Eu não trouxe quase nada quando saí. Dalva abanou a cabeça compreensiva. Deixe comigo. Tenho umas coisas guardadas de quando os meus netos eram pequenos. Vou buscar depois do café. Ela devolveu o Miguel ao Cláudia. Comam bastante. Vocês precisam recuperar as forças. Se precisarem de qualquer coisa, é só gritar. Estou na casa grande.

 Ela saiu, fechando a porta suavemente atrás de si. Ficamos ali olhando para o cesto de comida, quase sem acreditar na generosidade daquela gente. São bons, murmurou Cláudia. De verdade, não estão a fingir. Não querem nada em troca, são só bons. Parece que sim. Eu quase me tinha esquecido que gente assim existia. Comemos em silêncio.

 O pão estava macio, fresco, derretendo na boca. O requeijão era cremoso, com aquele sabor a quinta. O café estava forte, quente, perfeito. Era a primeira refeição decente que fazíamos desde que nos encontramos. E cada dentada parecia curar um pouco das feridas que carregávamos. Quando terminámos, ouvi o som de um motor no exterior.

 Fui até ao janela. O Maurício estava a sair de uma carrinha de caixa aberta, vestindo roupa de trabalho, boné, protegendo o rosto do sol já forte da manhã. Saí para o encontrar. Ele estava a caminhar em direção à oficina onde o meu camião estava estacionado. Bom dia, senhor Maurício. Bom dia, Roberto. Dormiu bem? Dormi.

 Obrigado por tudo, pela comida, pela casa, por ontem. Não precisa de agradecer. Parou em frente da oficina, olhando para o Scania. Vamos ver que estragos esse camião tem. Passámos a hora seguinte a examinar o motor. Maurício percebia de mecânica, tinha mãos experientes, olhar treinado. Apontava os problemas enquanto eu ia confirmando o que já sabia.

 O radiador estava rachado em dois sítios. A mangueira que tinha trocado era provisória e já começava a ceder de novo. A bomba de água estava com problema e o alternador apresentava sinais de estar no fim da vida útil. Não está bom”, disse Maurício, limpando as mãos num pano. “Para arranjar bem, vai necessitar de trocar metade dessas peças.

 E não são peças baratas. Eu sei quanto o senhor pensa que fica.” “S000, talvez mais.” Senti o estômago apertar. Não tinha esse dinheiro, tinha no máximo oito cres, o pagamento de um frete que tinha feito na semana anterior. O resto estava numa conta que já nem me lembrava mais a palavra-passe direito.

 Eu não tenho essa dinheiro agora, admiti. Mas eu posso trabalhar, posso pagar com serviço, sei conduzir, sei carregar, sei fazer manutenção, qualquer coisa que o Sr. precisar. Maurício ficou em silêncio durante um tempo a pensar, depois coçou o queixo, olhando em redor da propriedade. Tenho uma proposta para si. Pode falar.

 Preciso de alguém para fazer uns fretes. Tenho gado, tenho soja, tenho milho. Produzo bastante, mas dependo de terceiros para transportar. E às vezes deixam-me na mão. Se topar, ficar uns dias, umas semanas, talvez, fazendo esses fretes para mim, eu Reparo o camião, compro as peças, o meu mecânico faz o serviço e nós fica kit.

 Olhei para ele tentando perceber se era grave. O senhor faria isso? Faria. Preciso de gente de confiança. E pelo que vi ontem, o senhor é um homem de palavra. estava a proteger aquela rapariga, mesmo sabendo que se podia dar mal. Isso diz muito sobre o carácter. Pensei rápido. Ficar ali significava adiar a fuga, dar mais tempo para o Ronaldo e os outros nos encontrarem, mas também significava reparar o camião direito, ter um lugar seguro para a Cláudia e o Miguel ficarem, talvez até juntar algum dinheiro para quando precisássemos seguir viagem. Há um, porém, continuei,

aqueles homens de ontem, não vão desistir. Eles vão procurar-nos e se descobrirem que estamos aqui, deixem-me preocupar-me com isso. Essas terras são grandes, há segurança, há pessoas trabalhando. Se aparecerem de novo, não vão passar do portão. E quanto à polícia, se tentarem usar, tenho amigos que podem ajudar.

 Amigos de verdade, não estes contactos comprados que a dona Ana tem. E a Cláudia e o Miguel, eles também ficam aqui. A Dalva já está doida para ter uma criança pequena por perto outra vez. Os nossos netos vivem longe. Ela sente saudades e a casa de hóspedes é vosso pelo tempo que precisarem. Era bom demais para ser verdade.

 Mas olhando nos olhos do Maurício, eu via a sinceridade. Vi um homem que queria muito ajudar sem segundas intenções. Está bem, aceitei. Eu topo e agradeço de coração. Então está fechado. Vou ligar para o mecânico agora mesmo, encomendar as peças. Enquanto isso, descansa hoje. Amanhã começamos. Ele estendeu a mão.

 Apertei sentindo o aperto firme de alguém em quem se podia confiar. Voltei para a casa de hóspedes. Cláudia estava sentada no sofá, o Miguel brincando com os seus próprios pezinhos no colo dela. Quando entrei, ela olhou com aquela expressão esperançosa e receosa ao mesmo tempo. E depois contei tudo. A proposta do Maurício, o acordo, o facto de que iam ficar ali por uns tempos.

 Ela ouviu tudo em silêncio. Quando terminei, os olhos dela estavam marejados. A gente pode ficar a sério? Pode, pelo durante algumas semanas, até o camião estar arranjado e a gente ter um plano melhor. Mas e se descobrirem? O Maurício disse que vai tratar disso e eu acredito nele. Ela abanou a cabeça como se estivesse a tentar processar tudo.

 Uma vida inteira habituada a desilusão, tinha ensinado a não confiar fácil. Mas ali naquela quinta com aquela gente boa, talvez fosse possível acreditar de novo. “Roberto”, disse ela, a voz a tremer. “Acha que acha que conseguimos não só fugir, mas de verdade recomeçar, ter uma vida normal?” Era uma pergunta demasiado grande, demasiado carregada. Eu não tinha resposta.

Não sabia se ia resultar, não sabia se O Ronaldo ia desistir, se a dona Ana ia deixar de perseguir, se algum juiz ou delegado comprado ia aparecer com ordem de busca e apreensão. Mas olhando para ela, para aquela jovem mãe que tinha perdido tudo, mas continuava a lutar, olhando para o Miguel, que nem sabia a batalha que estava a ser travada ao redor dele, soube que precisava de dar uma resposta.

 Precisava de dar esperança, mesmo que fosse uma esperança frágil. Eu acho que sim”, disse eu. “Vai ser difícil, vai ter dias maus, vai ter medo e incerteza, mas se continuarmos tentando, se não desistirmos, eu acho que consegue sim”. Ela limpou as lágrimas, respirou fundo e assentiu. “Então, tentamos. Tentamos.” Os dias que se seguiram foram estranhos.

estranhos porque eram normais, ou o mais próximo de normal que qualquer um de nós tinha experimentado há muito tempo. Maurício cumpriu a palavra. O mecânico apareceu no dia seguinte com as peças e iniciou o trabalho. Era um homem competente, trabalhava rapidamente, mas com cuidado.

 Em três dias, o motor estava praticamente novo. Radiador trocado, mangueiras novas, bomba de água substituída, alternador revisto. O Scania ronronava como não ronronava havia anos. Entretanto, comecei a trabalhar. O Maurício tinha razão. Havia bastante frete acumulado. Levei soja para um armazém em Araguaína, trouxe ração de volta.

 Transportei gado para um leilão em Goiânia. Cada viagem eu fazia com cuidados redobrados, sempre atento aos retrovisores, procurando sempre carrinhas suspeitas, mas nada. Parecia que Ronaldo tinha realmente desistido ou estava apenas à espera do momento certo. A Cláudia ficava na quinta. Dalva tinha-se apegado a ela e ao Miguel como se fossem família.

 Dava roupa, fraldas, comida. Ensinava Cláudia a cozinhar pratos novos, a cuidar melhor do bebé, a lidar com as cólicas e os choros nocturnos. Pela primeira vez desde que o marido morreu, Cláudia tinha uma figura materna por perto, alguém que se preocupava de verdade. Miguel crescia depressa, a cada dia parecia mais esperto, mais atento.

Começou a sorrir quando nos via. Começou a tentar segurar objetos. Era a coisa mais linda e mais assustadora ao mesmo tempo ver aquela pequena vida se desenvolvendo, sabendo que a qualquer momento tudo podia desabar de novo. Nas noites em que estive na quinta, depois do jantar, eu e o Maurício costumávamos sentar-nos no alpendre da casa dele, a beber café, a conversar sobre a vida.

 Contou-me da história dele, de como tinha começado do zero, de como tinha perdido tudo numa seca brutal 20 anos atrás, de como tinha sido acolhido por um estranho que acreditou nele. “Por isso, faço o que faço”, explicou numa dessas noites, com o céu estrelado acima e o som dos grilos em redor, porque eu sei o que é estar no fundo do poço e sei que uma mão estendida na hora certa pode mudar tudo.

 O Senhor mudou a a nossa vida”, falei sincero, a minha e a da Cláudia. “Vocês mudaram a vossa mesmos. Eu só dei um empurrãozinho. Foi mais do que um empurrãozinho.” Sorriu, deu um gole no café. “E o que é que vocês vão fazer? Quando o camião estiver pronto? Quando tiver pago o serviço com os fretes, vão continuar a fugir?” Era uma questão que eu tinha evitado pensar, mas que estava sempre ali no fundo da mente à espera.

 Não sei, admiti. A Cláudia precisa de documentos para o Miguel. Precisa de regularizar a situação, mas tem medo de procurar as autoridades porque não sabe se a família do ex-marido conseguiu alguma coisa contra ela. Posso ajudar nisso? Disse Maurício. Tenho um bom advogado e de confiança. Ele pode verificar se tem algum processo, alguma ordem.

 alguma coisa e se não tiver, ele pode ajudá-la a regularizar tudo direitinho. Isso seria seria incrível. Considere feito. Vou ligar-lhe amanhã. Ficamos em silêncio durante algum tempo, apenas ouvindo a noite. “Posso fazer-te uma pergunta?”, disse o Maurício. “Claro. Tem sentimentos por ela, pela Cláudia?” A pergunta apanhou-me desprevenido.

 Fiquei sem resposta durante alguns segundos. Eu não sei. Não pensei nisso. Não precisa pensar muito. Às vezes o coração sabe antes da cabeça. Pensei na Cláudia, no forma como ela sorria quando o Miguel fazia alguma gracinha, na forma como ela agradecia-me todos os dias, mesmo quando eu dizia que não precisava.

 No jeito que por vezes os nossos olhos se encontravam e ficavam ali por mais um segundo do que o necessário. Acho que sim, admiti finalmente, mas é complicado. Ela acabou de perder o marido, está vulnerável. Não quero aproveitar isso. Aproveitar e cuidar são coisas diferentes disse Maurício. Se os sentimentos forem verdadeiros de ambos os lados, não tem nada de errado.

 O tempo cura as feridas e, por vezes, a melhor forma de curar é ter alguém ao lado. Não respondi. Apenas Fiquei ali a pensar, sentindo o peso daquelas palavras. Uma semana depois, o advogado apareceu. Era um homem de uns 40 anos, sério, mas gentil. passou à tarde a conversar com Cláudia, anotando tudo, fazendo perguntas.

 No fim, ele garantiu que ia investigar, que ia ver o que podia fazer. Demorou três dias. Quando voltou, trazia notícias. Reunimos todos na sala da Casagre. Maurício A Dalva, eu, a Cláudia com o Miguel ao colo e o advogado com uma pasta cheia de papéis. Boas notícias, começou ele. Não não existe nenhum processo contra si, Cláudia.

 Nenhuma ordem de busca, nenhuma denúncia formal na polícia ou na justiça. A família do seu falecido marido nunca mexeu nada oficialmente. Cláudia deixou escapar um suspiro de alívio tão profundo que parecia ter segurado durante semanas. Isto significa que significa que está livre. Legalmente não há nada contra si. O O Miguel é seu filho.

 Tem todos os direitos sobre o mesmo e podemos regularizar toda a documentação sem qualquer problema. Mas e se tentarem algo mais tarde? Aí vamos estar preparados. Vou entrar com uma medida preventiva, documentar todo o histórico de maus tratos, abandono, tudo que me contou. Se tentarem qualquer coisa, vamos ter base legal para nos defender.

 Pela primeira vez, desde que a conheci, vi a Cláudia realmente sorrir, um grande sorriso, genuíno, que iluminou todo o rosto. “Obrigada”, disse ela, com a voz embargada. “Obrigada. Obrigada. Obrigada. Não precisa de agradecer. É o meu trabalho. O advogado guardou os papéis. Vou começar o processo já amanhã. Em algumas semanas está tudo resolvido.

 Naquela noite, depois do jantar, eu e a Cláudia passeámos pela quinta. O Miguel tinha dormido cedo. Dalva tinha-se oferecido para ficar de olho nele. A noite estava fresco, a lua cheia, iluminando tudo com aquela luz prateada, suave. Não acredito que esteja a acontecer”, disse ela, olhando para o céu estrelado. “Que estamos seguros que vai dar tudo bem.

” “Está a acontecer”, confirmei. “E vai correr bem tudo por causa de ti”. Não fui só eu, foi o Maurício, a Dalva, o advogado, mas começou consigo. Ela parou de andar, virou-se para me encarar. Se não tivesse parado naquela estrada, teria falecido, eu e o Miguel. A gente não teria aguentado mais meia hora naquele sol, mas parei e não me arrependo.

Eu também não. Ela deu um passo à frente. Estávamos muito perto agora. Roberto, eu não sei como dizer isso direito, mas você mudou tudo. Não só me salvou, fez-me acreditar de novo em gente boa, em recomeço, em futuro. Meu coração estava acelerado. Queria dizer tantas coisas, mas as palavras não saíam.

 Cláudia, eu beijou a minha bochecha. Um beijo rápido, suave, mas que pareceu queimar. Obrigada”, sussurrou por tudo. Depois voltou a andar, deixando-me ali parado, processando, sentindo. Os dias continuaram a passar. Fiz mais fretes. Paguei a minha dívida ao Maurício. O camião estava impecável agora, melhor do que em anos.

 A Cláudia conseguiu toda a documentação do Miguel. Estava oficialmente regularizada, protegida, mas chegou o dia em que já não tinha desculpa para ficar. O Maurício chamou-me na oficina numa sexta-feira de manhã. Está tudo acertado, disse. Você pagou os fretes. O camião está novo. Não tenho mais nada que vos segurar aqui.

 Eu sei, mas vocês podem ficar se quiserem. Há trabalho aqui, há casa, tem segurança. Era tentador, muito tentador, mas sabia que não conseguia. A estrada me chamava e a Cláudia precisava de um lugar que fosse realmente dela, não emprestado, não por caridade. “A gente precisa de ir”, disse eu. “mas vamos levar-vos no coração para sempre.

 Para para onde vão? Sul, talvez Paraná, Santa Catarina, longe daqui, longe de quem possa reconhecê-la, um lugar para recomeçar de verdade.” Maurício sentiu-a compreensivo. Então, vão com Deus. E se um dia precisarem de alguma coisa, voltem. As portas aqui estão sempre abertas. A despedida foi difícil. Dalva chorou, abraçando a Cláudia e o Miguel como se fossem filhos.

 O Maurício me apertou a mão, aquele aperto firme de homem de palavra. “Cuida dela”, disse ele. “E cuida de ti também. Vou cuidar.” Subimos para o camião, eu na direção, a Cláudia ao lado com o Miguel no colo. O motor pegou no primeiro giro, ronronando perfeito. Acenei para Maurício e Dalva, que estavam no Alpendre. Eles acenaram de volta.

Pus o camião em movimento, saí da quinta, fiz-me à estrada, acelerei. “A gente está mesmo a ir”, disse Cláudia, quase não acreditando. “Estamos para uma vida nova. Você vai ficar comigo connosco?” Olhei para ela, para aquela mulher que me tinha ensinado a parar de fugir, que me tinha mostrado que ainda havia coisas pelas quais valia a pena lutar. Vou, respondi, se V.

quiser. Eu quero. Então está decidido. Ela segurou a minha mão livre. Ficamos assim, mãos entrelaçadas, rodando pela estrada, deixando o passado para trás, indo em direção a algo novo, incerto, mas cheio de possibilidades. O sol nascia à nossa frente, pintando o céu de laranja e cor-de-rosa. Um novo dia, um novo começo.

 E pela primeira vez, em 23 anos de estrada, eu não estava sozinho. Tinha uma família pequena, improvável, nascida do acaso e da necessidade, mas era minha e eu ia protegê-la com tudo o que tinha. A estrada desenrolava-se à frente, longa e desconhecida, mas seguimos juntos. M.