Caminhoneiro Solitário Encontra Menina Abandonada Pelos Pais… E Toma Uma Atitude Inesperada…

Há dias em que a solidão pesa mais que a carga, 22 toneladas de cortiça no reboque, destino Braga. E eu ali sozinho na cabine do Scania, com o rádio desligado, porque cansei de ouvir as mesmas músicas tristes e os mesmos locutores animados demais para quem passa o dia inteiro sozinho. A estrada de terra batida esticava-se à minha frente, feito uma cicatriz antiga no meio do montado, cheia de buracos e poeira que se agarrava aos dentes.
Setembro, no interior do Alentejo, é assim. O dia queima, a tarde desaparece rápido e ficamos no meio da nada a tentar ganhar mais uns quilômetros antes de a noite engolir tudo. O meu nome é Walter, tenho 63 anos, 37 deles na estrada. Já rodei este Portugal de ponta a ponta. Já vi nascer e morrer vilarejos inteiros ao longo dessas estradas esquecidas por Deus e pelo governo.
Já carreguei de tudo, cereais, gado, madeira, sonhos alheios, mas nunca tinha carregado o peso que viria naquela tarde de setembro, naquele trecho estreito entre Portel Vidigueira, onde quase nunca passa ninguém, o sol já estava a descer atrás das árvores retorcidas do montado, deixando tudo alaranjado, cor de fogo velho.
As cigarras cantavam alto, anunciando a noite que se aproximava. Eu tinha pressa. Queria chegar ao próximo posto antes de escurecer, porque aquele trecho não tem luz nenhuma e os buracos podem quebrar o eixo de qualquer caminhão. Mas de repente algo na beira da estrada me fez pisar no travão sem pensar. No começo achei que fosse um cão ou um saco de lixo.
A gente vê de tudo abandonado nessas estradas. Pneus velhos, sofás partidos, até frigoríficos sem porta. Mas quando a poeira baixou e eu forcei a vista, senti o coração dar um pulo estranho no peito. Num banco de madeira, daqueles toscos de madeira bruta que alguém deve ter deixado ali há muito tempo, estava sentada uma menina sozinha no meio do nada, cabeça baixa, os ombros caídos, abraçando os próprios braços, como se tentasse segurar um pouco de calor, mesmo com o calor daquela tarde.
Ao lado dela, espalhadas no chão vermelho, havia umas trouxas de roupas atadas às pressas com lençóis velhos, uma mala pequena de cartão aberta, com peças amarrotadas e sujas, e marcas de pneus recentes na terra fofa, como se alguém tivesse saído dali com pressa demais para olhar para trás. Por um instante só fiquei ali parado, com o pé no travão e o motor a roncar baixo.
Achei que fosse um boneco esquecido, coisa de alguma brincadeira macabra ou oferenda de benzedeira. Mas quando ela ergueu o rosto devagar, muito devagar, eu vi. Vi os olhos marejados, vermelhos, de tanto chorar. Vi o rosto sujo de poeira, agarrada às lágrimas secas. Vi aquela expressão de quem já chorou até não ter mais forças.
de quem já gritou até a voz sumir. Ela não devia ter mais de 12 anos, talvez menos. O vestido fino, cor-de-osa, desbotado, cheio de manchas, não segurava o vento que começava a correr pelo montado. Senti um arrepio subir pelas costas. Aquilo não era normal. Aquilo era errado de um jeito que machucava só de olhar. Encostei o caminhão devagar na beira da estrada, o coração a bater rápido demais para um homem da minha idade.
Desliguei o motor. O silêncio que veio depois foi pesado, só cortado pelo canto das cigarras e pelo vento seco, batendo nas folhas secas do montado. Peguei o meu boné velho, ajeitei os óculos no rosto suado e desci da cabine. Cada passo que eu dava na direção dela deixava mais claro o tamanho do abandono. A menina segurava contra o peito um ursinho velho de pelúcia, marrom e surrado, com um olho só, apertando-o como se fosse o último pedaço de mundo que ainda tinha sentido.
Os pés dela estavam descalços, sujos de terra vermelha, com arranhões pequenos nos calcanhares. Quando ela percebeu a minha aproximação, tentou limpar o rosto com a manga do vestido, mas o tremor das mãos entregava tudo. “Está tudo bem, minha filha?”, perguntei baixo, com medo de assustar. Ela não respondeu, só chutou a poeira com o pé descalço, fazendo uma nuvenzinha vermelha subir e sumir no ar quente.
Ficou a olhar para o chão como se tivesse vergonha até desistir. Esperei. Aprendi com os anos que silêncio também é resposta. Depois de alguns segundos que pareceram horas, com a voz tão fraca que quase se perdeu no vento, ela disse: “Eles foram embora. Disseram que já voltavam, mas não voltaram. Senti o estômago revirar. Olhei de novo para o chão, as roupas espalhadas, a mala aberta, as marcas de pneus ainda frescas na terra.
Tudo ali gritava a mesma verdade amarga. Ela tinha sido deixada e não fazia muito tempo. A poeira ainda não tinha coberto as marcas direito. “Quem, minha filha?”, Perguntei, agachando devagar na frente dela, tentando olhar nos olhos que não me olhavam de volta. Quem foi embora? Ela apertou mais o ursinho contra o peito.
O vento levantou uma mecha de cabelo sujo e atirou-a para a frente do rosto dela. Depois de mais um silênciolongo, quase sem voz, ela completou. Eles, a minha mãe e o namorado dela disseram que iam buscar água, mas levaram tudo. Levaram as malas boas e não voltaram. A voz dela quebrou no final, mas ela não chorou. Já não tinha mais lágrimas, só aquele tremor nos ombros magros, aquele jeito de quem já entendeu tudo, mas não consegue aceitar.
E há quanto tempo eles saíram? Perguntei, sentindo a garganta apertar. Não sei. O sol ainda estava alto, agora já está quase a sumir. Umas tr 4 horas, talvez mais. Tempo demais para ser descuido. Tempo demais para ser engano. Aquilo foi proposital, friamente proposital. E você tem fome? Sede? Ela acenou com a cabeça devagar, sem olhar para mim.
Levantei do chão, senti o joelho estalar e voltei para o caminhão. Peguei a garrafa de água gelada que tinha no isopor e o pão com mortadela que eu ia comer mais tarde. Voltei e estendi para ela. Toma, come devagar. Ela pegou a garrafa com as duas mãos trêmulas e bebeu com uma sede desesperada a água a escorrer pelo canto da boca.
Depois pegou o pão e comeu rápido demais, engasgando, como se tivesse medo de que eu fosse tirar. Fiquei ali parado, de pé, segurando o boné na mão, sem saber direito o que fazer. Não sou pai, nunca fui. Casei uma vez há muito tempo, mas ela foi embora antes de a gente ter filhos. disse que eu amava mais a estrada do que a ela e talvez tivesse razão.
Mas ali, naquele pedaço esquecido do mundo, diante de uma menina destruída e abandonada, ao lado de algumas trouxas de roupa velha e um ursinho de um olho só, eu entendi que aquela não era mais uma viagem comum, não era mais um trecho de estrada, não era mais um dia igual aos outros. A menina terminou de comer e limpou a boca com as costas da mão.
Finalmente, ela ergueu os olhos para mim. Olhos castanhos, fundos, cheios de uma tristeza que nenhuma criança deveria carregar. Eu atrapalhava. Ela disse tão baixo que quase não ouvi. A minha mãe disse que eu atrapalhava, que o namorado dela não queria criança, que eu ia estragar tudo de novo. Essas palavras bateram em mim como um murro no estômago.
Nenhuma criança deveria acreditar nisso. Nenhuma. Mas ela acreditava. Eu via nos olhos dela. Via na postura curvada, no jeito de se fazer pequena, como se quisesse desaparecer. Fiquei parado, segurando o boné na mão, tentando achar as palavras certas, mas não tinha palavras certas. Não, para isso. A estrada estava quieta, só o vento a passar, levantando poeira em volta dela.
O sol já tinha sumido quase todo, deixando só uma faixa vermelha no horizonte. O frio da noite começava a chegar. Qual é o seu nome? Perguntei porque precisava começar de algum lugar. Júlia, ela disse quase num sussurro. Júlia, nome bonito. Coloquei o boné de volta na cabeça. Eu sou Walter e você não atrapalha nada. Está a ouvir-me? Nada.
Quem a deixou aqui é que está errado, muito errado. Ela não respondeu, só olhou para o chão de novo. Dei mais um passo à frente devagar, como quem se aproxima de algo muito frágil. Ali naquele trecho de terra batida no meio do montado alentejano, com a noite a chegar e o frio a começar a morder, eu sabia que tinha uma escolha a fazer.
Podia seguir viagem, ligar para a GNR de algum posto mais na frente, deixar o problema nas mãos de quem sabia lidar com isso. Mas quando olhei de novo para a Júlia, para aquele vestido fino a tremer no vento, para aquele ursinho apertado contra o peito, para aqueles olhos que já tinham visto demais, eu soube que não conseguiria.
Não conseguiria virar as costas, não conseguiria seguir em frente como se nada tivesse acontecido. Vem”, eu disse, estendendo a mão. “Vem comigo. Aqui não é lugar para você ficar”. Júlia olhou para a minha mão como se fosse uma armadilha, como se tivesse medo de confiar de novo e eu não podia culpá-la. “Eu não a vou deixar aqui, Júlia, eu prometo.” Ela hesitou.
O vento soprou mais forte, trazendo o cheiro de terra seca e mato queimado. Finalmente, devagar, ela estendeu a mão pequena e suja e segurou a minha. E foi exatamente ali, naquele momento, com a mão gelada de uma criança abandonada dentro da minha, que tudo começou a mudar para ela e para mim. Peguei as trouxas de roupa do chão, a mala de cartão e caminhei com ela até o caminhão.
Abri a porta da cabine e ajudei-a a subir. Júlia encolheu-se no banco do passageiro, abraçando o ursinho, a olhar para a frente com aquele olhar vazio, de quem já não espera mais nada de ninguém. Dei a volta, subi na cabine, liguei o motor. O ronco do Scania encheu o silêncio. Olhei de novo para o banco, onde ela tinha ficado sentada sozinha, à espera de gente que nunca ia voltar.
Senti uma raiva subir pela garganta, uma raiva velha, profunda, de tudo que é injusto neste mundo. Engrenei a marcha e segui pela estrada de terra. A noite tinha chegado de vez agora e os faróis do caminhão iluminavam só uns metros à frente. O resto era escuridão. Mas dealguma forma, pela primeira vez em muito tempo, eu não me sentia completamente sozinho. Júlia não disse mais nada.
ficou ali quieta, a olhar pela janela escura e eu dirigi em silêncio, tentando entender o que tinha acabado de acontecer, tentando entender porquê de todas as estradas de Portugal, de todos os trechos esquecidos, eu tinha passado justamente ali naquele momento. Não acredito em coincidência, não depois de 37 anos de estrada.
A estrada escolhe a gente tanto quanto a gente a escolhe. E naquela tarde de setembro, no meio do nada alentejano, a estrada tinha me escolhido para algo maior do que uma carga de cortiça. Tinha me escolhido para salvar alguém, ou talvez, quem sabe para ser salvo. A noite caiu de vez e o frio começou a entrar pelas fras da cabine.
Júlia continuava encolhida no banco do passageiro, abraçada ao ursinho, os olhos fixos na escuridão lá fora. não chorava, não falava, só respirava devagar, como se tivesse medo de ocupar espaço demais. Eu dirigia no automático, as mãos no volante, a cabeça longe. Já tinha rodado aquele trecho dezenas de vezes, conhecia cada curva, cada buraco, cada placa enferrujada.
Mas naquela noite tudo parecia diferente, mais pesado, mais real. O ronco do motor, o balanço da suspensão, o cheiro de diesel misturado com poeira, tudo isso que antes era rotina, agora carregava um peso novo. “Tem fome ainda?”, perguntei, quebrando o silêncio, que já durava uns 20 minutos. Ela demorou para responder.
Quando falou, a voz saiu tão baixa que quase se perdeu no barulho do motor. Tenho. Olhei para o painel. O marcador mostrava que estávamos a uns 40 km de Castro Verde, uma cidadezinha pequena que fica no meio do caminho, na N2. Tinha um posto ali, uma padaria que ficava aberta até tarde e talvez, só talvez, um telefone que funcionasse para eu tentar entender o que fazer com aquela situação.
A gente vai parar daqui a pouco numa cidade. Vou comprar comida para você, roupa limpa, se der, e a gente precisa conversar sobre o que fazer. Júlia não respondeu, só apertou mais o ursinho contra o peito. O silêncio voltou, mas era diferente agora. Não era vazio. Era cheio de coisas não ditas, de perguntas que nenhum de nós tinha coragem de fazer. Eu queria saber mais.
Queria entender como uma mãe consegue fazer aquilo com a própria filha, mas ao mesmo tempo tinha medo das respostas. Tinha medo de ouvir coisas que não ia conseguir esquecer. Depois de mais uns 15 minutos na estrada de terra, finalmente chegamos ao asfalto da N2. O camião ganhou velocidade, o balanço ficou mais suave e eu senti um alívio pequeno, quase idiota, por estar de volta numa estrada de verdade, como se o asfalto pudesse fazer as coisas fazerem mais sentido.
Castro Verde apareceu no horizonte como um punhado de luzes fracas espalhadas no escuro. Não é dessas cidades que aparecem no mapa, é daquelas que existem porque precisam existir. Um posto de gasolina, uma oficina mecânica, uma igreja, uma padaria. Meia dúzia de casas. O tipo de lugar onde todo mundo conhece todo mundo e forasteiro é sempre motivo de curiosidade.
Encostei o caminhão na frente do posto. A luz amarelada dos postes iluminava mal a pista vazia. Um cão vio dormia esparramado perto da bomba de gasolina. O empregado do posto, um rapaz magro de boné, levantou a cabeça do telemóvel e acenou preguiçosamente. “Fica aqui”, eu disse para a Júlia.
Vou ali na padaria comprar umas coisas, tranco a porta. Está bem? Ninguém a vai incomodar. Ela olhou para mim com aqueles olhos fundos, cheios de medo. Vai voltar? A pergunta cortou o fundo. Percebi que ela já tinha ouvido essa promessa antes e tinha sido mentira. “Vou”, eu disse, segurando o olhar dela. “Eu sempre volto, pode esperar.
” Tranquei a cabine, dei a volta ao caminão e atravessei a rua até a padaria. Era um lugar simples, com chão de cimento queimado e prateleiras de madeira velha. Cheirava a pão fresco e café velho. Atrás do balcão, uma mulher gorda de avental xadrez mexia no telemóvel. Levantou os olhos quando entrei. Avaliou-me rapidinho, caminhonista, sujo de estrada, cara de cansado, e voltou para o celomóvel. Boa noite, eu disse.
Noite? Ela respondeu sem tirar os olhos da tela. Peguei pão, mortadela, queijo, bolacha, sumo de pacote, duas bananas meio machucadas. Parei na frente de um cabide com roupas penduradas, camisolas infantis desbotadas, calções de fato de treino, um vestidinho azul com flores. Peguei o vestido, uns calções, uma camisola branca. Chutei o tamanho.
Júlia era magra, pequena demais para a idade. Levei tudo para o balcão. A mulher passou os produtos com cara de sono, sem fazer perguntas. Melhor assim. Paguei em dinheiro, peguei a sacola e saí. Quando voltei para o caminhão, Júlia ainda estava na mesma posição, encolhida, a olhar para a porta com aquela expressão de quem espera o pior.
Quando me viu, o corpo dela relaxou um pouco, só um pouco. Abri a porta, subi, entreguei asacola. Toma, tem comida e roupa limpa, pode trocar aqui mesmo. Eu viro de costas. Ela pegou a sacola devagar, olhou lá dentro como se fosse achar uma bomba e finalmente tirou o pão. Comeu devagar. dessa vez mastigando direito, bebendo o sumo aos poucos.
Fiquei ali sentado a olhar pela janela, dando privacidade e esperando. Depois de uns minutos, ouvi o barulho dela a mexer-se, a trocar de roupa. Dei mais tempo. Finalmente, ela disse baixinho. Pronto, virei-me. Ela estava com o vestido azul, ainda largo demais, mas limpo. Tinha tentado passar a mão no cabelo, arrumar um pouco.
O rosto ainda estava sujo, mas parecia menos perdida, menos fantasma. Ficou bonito”, eu disse. Ela não respondeu, mas vi um brilho diferente no olho, algo parecido com gratidão ou com alívio, ou com as duas coisas. Liguei o motor de novo e saí do posto, mas não voltei para a estrada. Virei à esquerda, entrando nas ruas estreitas de Castro Verde, à procura do posto da GNR.
Precisava fazer a coisa certa. Não podia simplesmente sair com uma criança por Portugal. Além disso, era caso de polícia, de comissão de proteção de crianças e jovens, de gente que sabia lidar com isso. Mas quando encontrei o posto da GNR, um prédio pequeno de porta azul descascada e uma luz fraca acesa lá dentro e encostei o caminhão na frente, Júlia entrou em pânico.
“Não!”, ela gritou a primeira vez que levantava a voz. “Não me leva lá dentro, por favor.” Olhei para ela assustado com a reação. Júlia, eu preciso. A gente precisa avisar alguém. Precisa achar a sua mãe ou não? Ela gritou de novo e dessa vez tinha lágrimas nos olhos. Eles vão me colocar num lugar cheio de gente, vão me separar. Vão me colocar com gente ruim.
Eu já fiquei num abrigo antes. Eu sei como é. Por favor, não me leva. As lágrimas desciam agora, molhando o vestido novo. Ela tremia toda, abraçada no ursinho, os olhos arregalados de pavor verdadeiro. E eu ali parado, com a mão na chave no contacto, senti o peito apertar. Ela já conhecia o sistema, já tinha passado por isso antes e o medo dela era real, visceral, do tipo que não se inventa.
Fiquei ali parado a olhar para o posto da GNR, depois para a Júlia. Depois de novo para o posto da GNR. A luz fraca piscava lá dentro. Provavelmente só tinha um polícia de serviço. Talvez nem isso. E eu sabia, no fundo, eu sabia que se entrasse ali, ia soltar Júlia num sistema que não ia cuidar dela de verdade. Ia jogá-la em mais um abrigo superlotado, mais uma assistente social sobrecarregada, mais um processo que ia durar meses enquanto ela ficava esquecida numa cama de ferro dividida com outras crianças quebradas.
“Por favor, Walter”, Júlia, sussurrou, a voz rachada. Não me deixa lá. Eu prometo que não vou atrapalhar. Eu prometo que fico quietinha. Eu prometo que Para, eu disse. E a minha voz saiu mais grossa do que eu queria. Para de pedir desculpa por existir. Ela ficou quieta, os olhos arregalados, ao olhar para mim como se não entendesse. Eu respirei fundo.
Senti o cansaço de 63 anos, a pesar nos ombros. Senti o peso de todas as escolhas erradas que já tinha feito na vida. E senti também que naquele momento, naquela noite, naquela cidade esquecida, eu tinha a chance de fazer uma coisa certa, mesmo que fosse errada aos olhos da lei. Dei a marcha atrás no caminhão, saí da frente do posto da GNR, voltei para a rua principal e seguia em direção à N2.
Júlia olhava-me confusa, com medo de acreditar. “Para onde a gente vai?”, ela perguntou. Para Braga, eu disse, vou entregar a minha carga e depois a gente descobre o que fazer. Mas e a GNR? A gente descobre depois, Júlia. Agora você precisa comer direito, dormir direito, sentir-se segura. O resto a gente resolve na estrada.
Ela ficou em silêncio por um longo tempo. Depois, tão baixo que quase não ouvi, ela disse: “Obrigada”. E pela primeira vez, desde que a encontrei, vi algo no rosto dela que não era desespero, era esperança. Fril, pequena, quase invisível, mas era esperança. A noite engoliu Castro Verde no retrovisor.
Voltamos para a estrada escura, só o farol do caminhão a iluminar o asfalto negro. Júlia recostou a cabeça no banco, ainda abraçada ao ursinho, e aos poucos os olhos dela foram fechando. O cansaço venceu o medo. Ela dormiu e eu segui dirigindo com o coração pesado e confuso, sem saber se tinha feito a coisa certa ou a pior asneira da minha vida.
Mas uma coisa eu sabia, não conseguia deixar aquela menina para trás, não conseguia fazer o que a mãe dela tinha feito. A estrada esticava-se na minha frente, infinita. cheia de perguntas sem respostas. E pela primeira vez, em 37 anos a rodar este Portugal, eu não sabia para onde ela me ia levar. Só sabia que dali para a frente eu não estava mais sozinho.
Isso mudava tudo. A madrugada chegou devagar, trazendo um frio úmido que entrava pelas frestas da cabine. Júlia dormia encolhida no banco do passageiro, a cabeça apoiada na janela, ursinho aindaapertado contra o peito. Respirava fundo, às vezes estremecia, como se mesmo a dormir não conseguisse descansar de verdade.
rodava no automático, os olhos a arder de cansaço, mas sem conseguir parar. A N2 estava vazia naquele horário, só eu e os grilos a cantar no mato às margens da estrada. De vez em quando passava um carro na contramão, faróis altos que me cegavam por uns segundos e depois voltava o escuro. A minha cabeça não parava, ficava a repassar tudo.
O banco na beira da estrada, as trouxas de roupa, o olhar vazio dela, a pergunta que tinha me cortado fundo. Você vai voltar? E a decisão que eu tinha tomado virando as costas para a GNR. Uma decisão que podia me meter numa encrenca do tamanho de um caminhão carregado. Mas toda vez que olhava para a Júlia a dormir, toda vez que via aquele rosto de criança cansada demais para a idade dela, eu sabia que não podia ter feito diferente.
Não conseguia, simples assim. Parei num posto às 4 da manhã, já perto de tomar. O lugar estava quase vazio, só um empregado do posto a bocejar e um camionista velho a encher o tanque de um Volvo enferrujado. Desci devagar para não acordar Júlia, abastecer e usar a casa de banho. Quando voltei, ela estava acordada, sentada à direita no banco, os olhos arregalados, a olhar para todos os lados, como o bicho acuado.
“Calma”, eu disse, subindo na cabine. “Sou eu.” A gente só parou para abastecer. Ela relaxou um pouco, mas continuou tensa. Vi que tinha chorado, o rosto estava molhado e ela limpava os olhos com as costas da mão. Pesadelo? Perguntei. Ela acenou que sim com a cabeça. Sonhei que você tinha ido embora também. Senti um aperto no peito.
Sentei no banco do motorista e fiquei ali parado a olhar para ela, sem saber direito o que dizer. Nunca fui bom com palavras. Na estrada a gente aprende a falar pouco e a escutar menos ainda. Eu não vou embora, Júlia, eu disse devagar. Eu já disse, pode confiar nisso. Ela me olhou com aqueles olhos fundos, procurando mentira, procurando falha, mas não respondeu.
Só limpou o rosto de novo e ficou a olhar pela janela. Quer comer alguma coisa? Perguntei. Tem uma lanchonete ali. Ah, não tenho fome. Júlia, você precisa comer. Eu disse que não tenho fome. Ela explodiu, a voz saindo mais alta, mais raivosa do que devia. Depois encolheu-se de novo, como se arrependida. Desculpa.
Não precisa pedir desculpa. Você pode ficar brava, pode gritar. Você tem direito. Ela me olhou de novo, confusa, como se ninguém nunca tivesse dito isso para ela. O silêncio voltou, mas era um silêncio diferente. Tinha raiva nele agora, tinha dor e tinha também um pedacinho de confiança a começar a nascer, frágil como broto de planta no meio do concreto.
Liguei o motor de novo e voltei para a estrada. O céu começava a clarear no horizonte, uma faixa roxa que foi virando rosa, depois laranja. O sol nasceu vermelho, enorme, iluminando o montado seco e as plantações de sobreiros que se esticavam até onde a vista alcançava. “É bonito”, Júlia disse de repente, a voz baixa. Olhei para ela.
Estava a olhar pela janela, os olhos a acompanhar o sol a nascer. É, eu concordei. Às vezes a gente esquece de reparar, mas é bonito, sim. Eu nunca vi o sol nascer na estrada. Ela continuou. A minha mãe nunca parava para ver essas coisas. Dizia que era perda de tempo. Guardei aquela informação. Cada pedacinho que ela soltava era uma peça de um quebra-cabeça que eu estava a tentar montar, tentando entender quem era aquela menina, de onde vinha e quanto dano tinha sido feito nela.
Há quanto tempo você mora com a sua mãe e o namorado dela?”, perguntei com cuidado, como quem tateia no escuro. Júlia demorou para responder. Continuou a olhar pela janela, os dedos a mexer nervosos no pelo surrado do ursinho. Uns dois anos. Antes a gente morava só nós duas, mas aí ela conheceu ele. E como era antes dele, ela deu de ombros.
Um gesto pequeno, cansado, ruim também. Ela bebia muito, gritava. às vezes sumia por dias. Eu ficava sozinha em casa. A voz dela era monótona agora, como se estivesse a contar a história de outra pessoa. Mas pelo menos ela voltava. Sentia a raiva subir de novo, uma raiva velha, profunda, do tipo que não tem para onde ir.
E o seu pai? Eu não sei quem é, ela cortou seca. A minha mãe nunca quis falar dele. Disse que ele foi embora antes de eu nascer, que era melhor eu esquecer. Silêncio de novo, pesado, dolorido. E o abrigo que você falou ontem, você ficou lá quando? Quando eu tinha 8 anos. A assistente social levou porque a gente estava a morar na rua. Fiquei lá seis meses.
Ela parou, respirou fundo. Tinha umas meninas lá que batiam em mim, roubavam a minha comida e ninguém fazia nada. Os adultos só gritavam para a gente ficar quieta. E a sua mãe foi buscá-la. foi disse, disse que tinha melhorado, que tinha arrumado emprego, que ia ser diferente. Júlia deu uma risada curta, amarga, velha demais para uma criança.
Durou três meses, aí ela perdeu o emprego e começou tudo de novo. Eu apertei o volante com força, não sabia o que dizer. Não tinha palavras para consertar uma vida assim. Não tinha nada que pudesse apagar o que ela tinha passado. Júlia, eu eu sinto muito. Por quê? Ela perguntou, virando o rosto para mim pela primeira vez. Você não fez nada, eu sei, mas eu sinto mesmo assim.
Ela ficou a olhar para mim por um tempo longo, depois voltou a olhar para a janela. A maioria das pessoas finge que não vê”, ela disse baixinho. Quando eu pedia comida na rua, quando eu dormia na calçada com a minha mãe, as pessoas passavam e olhavam para o outro lado, como se a gente não existisse.
“Eu sei”, eu disse. “Eu já vi muita gente assim na estrada, criança, adulto, velho, todo mundo a fingir que não vê.” “Por que você parou ontem?”, ela perguntou de repente a olhar para mim de novo. “Por que você não passou direto?” A pergunta me pegou desprevenido. Fiquei em silêncio a pensar porque eu tinha parado, nem eu sabia direito.
Instinto, pena, culpa de alguma coisa que nem lembrava mais. Eu não sei eu disse honesto. Eu só não consegui seguir em frente. Não conseguia deixá-la lá. Mas você não me conhece. Eu podia ser perigosa. Podia roubar as suas coisas. Você é uma criança, Júlia. Criança não é perigosa, criança é só criança. Ela ficou quieta de novo, mas viu uma lágrima a escorrer devagar pelo rosto dela. Não limpou, deixou escorrer.
Rodamos mais uns quilômetros em silêncio. O sol já estava alto, agora a queimar forte, fazendo o asfalto brilhar ao longe. Passamos por Santarém, uma cidade pequena, com igreja barroca no centro e casas coloridas agarradas umas nas outras. Júlia olhava tudo com atenção, como se estivesse a ver o mundo pela primeira vez.
“Você tem medo de mim?”, ela perguntou de repente. “Medo de você?” “É medo de eu fazer alguma coisa errada? Medo de eu lhe trazer problema?” Olhei para ela, para o rosto pequeno, para os olhos cansados, para o ursinho velho abraçado contra o peito. “Não, Júlia, eu não tenho medo de você.” “A minha mãe tinha”, ela disse e a voz dela rachou.
Ela tinha medo de eu estragar a vida dela, de eu afastar o namorado dela, deu, de eu existir. As lágrimas vieram agora silenciosas, molhando o vestido novo. Ela não soluçou, não fez barulho, só chorou quieta, como quem já aprendeu a chorar em silêncio para não incomodar. Encostei o caminhão no acostamento, desliguei o motor.
O silêncio ficou absoluto, só o vento a bater na lataria e o canto distante de algum pássaro. “Júlia, olhe para mim”, eu disse. Ela demorou, mas olhou. Você não estraga nada. Você não atrapalha nada. Você não é um problema. Você é uma criança que merecia ter sido cuidada. E quem não a cuidou é que está errado. Não você, nunca você.
Ela me olhou com aqueles olhos cheios de lágrimas e pela primeira vez vi algo quebrar lá dentro. A parede que ela tinha construído, a armadura que usava para se proteger, tudo rachou um pouco. “Por que você está a ser legal comigo?”, ela perguntou a voz a tremer. “Porque você merece?”, eu disse. Simples assim.
E então ela desabou, soluçou alto, o corpo todo a tremer, o rosto escondido nas mãos. Chorou de um jeito que partia o coração, um choro que vinha lá de dentro, de um lugar fundo onde ela guardava toda a dor. Não sabia o que fazer. Fiquei ali sentado, desajeitado, com medo de fazer errado, mas depois estendi a mão devagar e toquei o ombro dela levemente, só para ela saber que não estava sozinha.
Ela continuou a chorar e eu deixei. Porque às vezes a gente precisa chorar tudo que não chorou antes para conseguir seguir em frente. Ficamos ali parados na beira da estrada, no meio do nada alentejando, enquanto ela chorava e eu segurava o ombro dela sem dizer nada, porque não tinha nada a dizer.
E naquele momento, naquele silêncio cheio de dor e lágrimas, alguma coisa mudou entre nós. Não sei explicar direito, mas era como se um fio invisível tivesse se formado. Um fio frágil, fino, mas real, um fio que me amarrava aquela menina e ela a mim. Quando ela finalmente parou de chorar, limpou o rosto com a manga do vestido e olhou para mim com olhos vermelhos, mas mais leves. “Desculpa”, ela disse.
“Não precisa pedir desculpa por chorar, Júlia, nunca.” Ela acenou com a cabeça. Depois, pela primeira vez desde que a conheci, ela deu um sorriso, pequeno, triste, mas um sorriso. “A gente pode ir agora?” A gente pode eu disse. Liguei o motor de novo, voltamos para a estrada. E dessa vez, quando olhei para o retrovisor, não era só eu que ouvia ali. Éramos dois.
E isso mudava tudo. O calor foi aumentando conforme o sol subia no céu. Meio-dia bateu e o termômetro do painel marcava trisentry tono lá fora. Dentro da cabine, mesmo com as janelas abertas e o vento a bater, o ar parecia ferver. Júlia tinha tirado os tênis velhos que eu nem tinha reparado que ela usava eesticado os pés descalços no painel, deixando os dedinhos apanharem o vento.
“Está com calor?”, perguntei. “Estou”, ela disse, “mas não é ruim. É diferente do calor da cidade. Esse vento cheira a mato. Sorri. Era verdade. O vento do montado tem cheiro de terra seca, de capim queimado pelo sol, de flores pequenas que ninguém vê, mas que perfumam tudo mesmo assim. É um cheiro que se agarra na memória, que fica com a gente mesmo quando a gente sai da estrada.
Paramos para almoçar num restaurante de beira de estrada em Montemoro Novo. Era um daqueles lugares simples de telha de zinco e chão de cimento, com mesas de fórmica e ventiladores barulhentos no teto. Tinha cheiro de cozido a portuguesa e carne assada. O meu estômago roncou só de sentir. Júlia desceu do caminhão devagar, a olhar em volta com desconfiança.
Tinha gente ali, caminhonistas, vendedores, uma família com três crianças barulhentas. Ela ficou perto de mim, quase escondida atrás, como se quisesse se fazer invisível. “Vem”, eu disse, “vamos comer alguma coisa direito.” Sentamos numa mesa no canto. Uma moça jovem, de avental florido e cara cansada veio anotar o pedido.
“Para vocês vai ser o quê?” “Dois pratos feitos, eu disse, “e sumo de laranja”. A moça olhou para a Júlia, depois para mim, com aquele olhar que eu já conhecia. Aquele olhar que pergunta sem perguntar: “Quem é ela? É sua neta? Por que ela está tão quieta? Por que parece tão assustada?” “É sua filha?”, ela perguntou, tentando ser casual.
Senti Júlia enrijecer do meu lado. Olhei para a moça e sorri do jeito mais natural que consegui. “É minha sobrinha. Estou a levá-la para a casa da avó em Braga.” A mentira saiu fácil demais, fácil e necessária. A moça acenou com a cabeça, anotou o pedido e foi embora. Júlia me olhou de soslaio.
Por que você mentiu? Porque a verdade ia trazer perguntas que a gente não quer responder agora. Eu disse baixo. E porque por enquanto é mais seguro assim. Ela ficou quieta a pensar, depois acenou com a cabeça devagar. Você é bom a mentir. Não é mentir, Júlia, é proteger. Qual a diferença? Fiquei sem resposta. Porque talvez não tivesse diferença nenhuma.
Talvez fosse só o jeito que a gente justifica as coisas que faz quando não tem escolha melhor. A comida chegou. arroz, feijão, carne assada, farofa, vinagrete, pratos cheios, fumegantes, a cheirar a comida de verdade. Júlia olhou para o prato como se fosse um tesouro, pegou o garfo devagar e começou a comer devagar no começo, depois mais rápido, depois quase engolindo, como se tivesse medo de que alguém fosse tirar.
“Calma”, eu disse tocando o braço dela. “Ninguém vai tirar. Come devagar. A comida não vai fugir. Ela parou, olhou para mim e, pela primeira vez vi vergonha no rosto dela. Vergonha de estar com tanta fome. Vergonha de mostrar carência. Desculpa. Para de pedir desculpa, Júlia. Você está com fome. É normal. Ela voltou a comer mais devagar agora.
Limpou o prato inteiro, bebeu o sumo de uma vez. Quando terminou, recostou na cadeira com a mão na barriga, os olhos a brilhar de satisfação. “Há muito tempo que eu não como assim”, ela disse. “Há muito tempo, quanto?”, ela pensou. Uns dias, talvez uma semana, a minha mãe não estava a comprar comida, só comprava cerveja para o namorado dela.
Sentia a raiva apertar o peito de novo, mas não disse nada. Só acenei para a moça trazer mais um sumo e um pedaço de bolo de fubá que tinha na vitrine. Júlia comeu o bolo devagar, saboreando cada garfada, fechando os olhos de vez em quando, como se quisesse guardar aquele gosto na memória. “É bom”, ela disse.
“A minha avó fazia bolo assim antes de morrer. Você tinha avó?” “Tinha a mãe da minha mãe. Ela morreu quando eu tinha 6 anos. era a única pessoa que era legal comigo. A voz dela ficou mais baixa. Depois que ela morreu, tudo ficou pior. Guardei aquela informação também. Mais uma peça do quebra-cabeça, mais uma camada de dor.
Pagamos a conta e voltamos para o caminhão. O solva ainda mais forte. Agora o asfalto a brilhar, o calor a subir em ondas que distorciam a paisagem ao longe. Liguei o motor, liguei o ar condicionado fraco da cabine e voltamos para a estrada. Rodamos mais umas duas horas em silêncio confortável. Júlia olhava pela janela, apontando de vez em quando para coisas que via.
Uma garça branca num açude, um cavalo a pastar perto da cerca, uma casa abandonada com o telhado caído. Parecia estar a descobrir o mundo, como se tivesse passado a vida inteira a olhar para o chão e agora finalmente pudesse levantar a cabeça. Mas então, lá pelas 3 da tarde, o céu começou a mudar. Nuvensam no horizonte, pesadas, baixas, a avançar rápido.
O vento mudou de direção, ficou mais forte. Mais frio. O cheiro de chuva chegou antes da chuva. Aquele cheiro de terra molhada que ainda não molhou, de humidade a vir de longe. “Vai chover”, Júlia disse a olhar para o céu. “Vai”.Eu confirmei e forte. Acelerei um pouco, tentando ganhar tempo, mas sabia que era inútil.
Em questão de minutos, o céu escureceu completamente. Relâmpagos cortaram o horizonte, seguidos de trovões que faziam a cabine tremer. E então a chuva veio. Não foi chuva, foi dilúvio. A água caiu com uma força violenta, batendo no para-brisas, como se quisesse quebrar o vidro. A visibilidade sumiu. Mesmo com o limpa para-brisas no máximo, eu mal conseguia ver 5 m à frente.
Reduzi a velocidade, liguei os faróis e segui devagar, a rezar para não encontrar buraco, vaca na pista ou outro caminhão desgovernado. “Está com medo?”, perguntei para a Júlia. “Estou”, ela disse. A voz a tremer um pouco. “Segura aqui”, eu disse, estendendo a mão. Ela segurou. A mão dela estava gelada, suada. Apertei de leve, tentando passar segurança que eu mesmo não tinha.
A chuva continuou implacável. A estrada começou a alagar em alguns pontos. Tive que desviar de poças enormes, reduzir ainda mais, quase parando. Outros caminhões e carros faziam o mesmo, todos a engatinhar pela N2, tentando sobreviver aquela fúria da natureza. E então, no meio daquela tempestade aconteceu um carro pequeno, um Citroen velho e amassado, vinha na contramão em alta velocidade a derrapar na água. O motorista perdeu o controlo.
O carro rodopeou na pista, bateu no guard rail, capotou uma vez, duas vezes e parou de lado, bem no meio da estrada, a fumegar. Pisei no travão com tudo. O caminhão derrapou na água, a traseira cantou o pneu e por um segundo achei que ia tombar, mas consegui segurar. Parei a uns 10 m do carro capotado. “Fica aqui”, eu disse para a Júlia, largando a mão dela. “Não!”, ela gritou.
“Não sai, vai ser perigoso. Tem gente lá dentro, Júlia. Eu preciso ver se estão vivos.” Abri a porta e desci na chuva. Fiquei encharcado em segundos. A água estava gelada, violenta, a cegar-me. Corri até o carro, abaixei-me, olhei pela janela quebrada. Tinha um homem no banco do motorista, a cabeça a sangrar, desacordado.
E no banco de trás, preso no cinto de segurança, um menino de uns 8 anos a chorar, a gritar por socorro. “Calma!”, gritei para o menino, tentando abrir a porta de trás. Travada. Tentei a da frente. Travada também. Eu vou tirar vocês daí. Voltei correndo para o caminhão. Peguei o pé de cabra que guardava atrás do banco.
Júlia me olhava apavorada pela janela embaciada. “Volta logo”, ela gritou. Voltei para o carro, enfiei o pé de cabra na janela da porta de trás e forcei até o vidro se despedaçar. Passei a mão por dentro, destravei a porta, abri. O menino me olhou com olhos arregalados de terror. “Vem”, eu disse, estendendo os braços. Vem comigo.
Ele saiu do carro trêmulo, encharcado, a chorar. Peguei nele ao colo, era leve, magro, e corri de volta para o caminhão. Coloquei-o na cabine. “Cuida dele”, eu disse para a Júlia. Ela acenou com a cabeça, assustada, mas firme, e puxou o menino para perto dela, abraçando-o, tentando acalmar. Voltei para o carro. O homem ainda estava desacordado.
Tentei abrir a porta dele, não saía. A lataria tinha amassado, prendendo. Forcei com o pé de cabra. Nada. A chuva continuava a cair, a água subindo na estrada e então vi fumaça a sair do capô. Não era vapor, era fumaça de verdade. O motor estava a pegar fogo. “Merda!”, eu sussurrei. Tentei de novo. Forcei com tudo e, finalmente, a porta cedeu. Puxei o homem para fora.
Ele a gemer de dor, ainda inconsciente. Era pesado, gordo, mas a adrenalina me deu força. Arrastei-o pela estrada alarada até o caminhão. Nesse momento, outros camionistas tinham parado. Dois rapazes desceram e vieram me ajudar. Juntos colocamos o homem na cabine do meu caminhão, apertado, mais seguro. “Precisa chamar ambulância?”, um dos rapazes gritou: “Não tem sinal aqui.
” O outro respondeu: “A gente leva ele até o próximo posto”, eu gritei. “Tem um daqui a 20 km.” Voltei para a cabine, estava lotada agora. Júlia, o menino, o homem desacordado, ia sangrar, cheiro de sangue, de chuva, de medo. Liguei o motor, engrenei e saí dali o mais rápido que a chuva deixava.
No retrovisor, vi o carro começar a pegar fogo de verdade, as chamas subindo mesmo debaixo da chuva torrencial. “Ele vai morrer?”, o menino perguntou ao olhar para o pai desacordado. “Não”, eu disse, tentando soar firme. “A gente vai levá-lo para o hospital. Ele vai ficar bem. Mas eu não sabia. Não sabia de nada.
Júlia segurava a mão do menino com uma das mãos e a minha com a outra, os três apertados ali, encharcados, a tremer de frio e medo, e eu a dirigir no meio daquela tempestade, a rezar para chegar a tempo. A chuva não dava trégoa, os 20 km pareceram 200. Mas finalmente, depois de uma eternidade, as luzes do posto apareceram no meio da cortina d’água.
Encostei a buzinar, a gritar por ajuda. Gente correu. Alguém ligou para o 112. Tiraram o homem do caminhão, deitaram-no começaram a fazer os primeiros socorros.O menino chorava, agarrado à Júlia, que agora era ela quem tentava acalmar alguém. Fiquei ali parado, encharcado, a tremer, sentindo as pernas bambas.
Só então percebi que tinha cortado a mão no vidro quebrado, sangue misturado com água da chuva, a escorrer pelos dedos. Uma mulher veio até mim com toalhas cobertores. Estão bem? Ela perguntou. Estamos, eu disse, mas a voz saiu trêmula. Júlia aproximou-se de mim, ainda segurando o menino pela mão. Você salvou eles? Ela disse a olhar para mim com uma expressão que eu nunca tinha visto antes.
Admiração, respeito, algo parecido com orgulho. A gente salvou. Eu corrigi. Você cuidou do menino. Você ajudou. Ela não disse nada, só continuou a olhar para mim. E naquele momento, no meio da confusão, do barulho, da chuva que ainda caía lá fora, eu vi algo mudar nos olhos dela. Ela não me via mais como um estranho que tinha parado na estrada.
Via-me como alguém em quem podia confiar. A ambulância chegou depois de 40 minutos. Levaram o homem e o menino. O homem ainda estava desacordado, mas respirava. O menino não queria soltar a mão de Júlia, mas ela convenceu-o a ir. dizendo que o pai precisava dele por perto. Ficamos ali os dois, sentados numa mesa de plástico dentro do posto a tomar o café quente que a dona tinha feito.
A chuva começou a diminuir, o céu clareou um pouco. “Você tem medo de morrer?”, Júlia perguntou de repente. Olhei para ela, surpreso com a pergunta. “Às vezes, por quê? Porque você não pensou duas vezes antes de sair do caminhão. Você podia ter morrido. O carro podia ter explodido com você perto. Podia, eu disse, mas não dava para não fazer nada.
Por quê? Por quê? Disparei a pensar. Porque a gente não pode virar as costas quando alguém precisa de ajuda, não importa o risco. Júlia ficou em silêncio ao olhar para o café na caneca. Depois, tão baixo que quase não ouvi, ela disse: “Ninguém nunca arriscou nada por mim. Senti um nó na garganta.
Eu estou a arriscar agora”, eu disse. Ela levantou os olhos para mim e dessa vez, pela primeira vez, vi um sorriso verdadeiro. Pequeno, tímido, mas verdadeiro. “Eu sei”, ela disse. A chuva parou completamente. O sol voltou a aparecer tímido atrás das nuvens que se dispersavam. A estrada brilhava molhada, refletindo o céu.
“A gente precisa ir”, eu disse. Ainda falta um bom trecho até Braga. Júlia acenou com a cabeça. Levantamos, agradecemos a dona do posto e voltamos para o caminhão. Sentei no banco molhado, liguei o motor e olhei para ela. “Você foi muito corajosa hoje.” “Eu não fiz nada”, ela disse. “Fez. Você manteve a calma. Você cuidou do menino. Você foi forte.
Dei a partida. Você é mais forte do que imagina, Júlia. Ela não respondeu, mas vi que as palavras tinham chegado, tinham tocado em algum lugar lá dentro. Voltamos para a estrada. A N2 estava limpa agora, lavada pela chuva, a cheirar a terra molhada e recomeço. E conforme rodávamos em direção ao norte, em direção à Braga, em direção a um futuro incerto, eu senti que algo tinha mudado de vez.
Não éramos mais dois estranhos a dividir uma cabine. Éramos duas pessoas que tinham enfrentado uma tempestade juntas. Isso criava um laço que chuva nenhuma ia conseguir apagar. A noite chegou devagar. Paramos num posto de combustível em Visu, já quase a chegar à Braga. Faltavam apenas uns 50 kilômetros para o destino final da carga, mas eu estava exausto.
O corpo doía, a mão enfaixada latejava onde tinha cortado no vidro e a cabeça pesava com tudo que tinha acontecido nas últimas 24 horas. Júlia também estava cansada. Vi pelos olhos vermelhos, pela postura curvada, pelo jeito que ela se arrastava ao descer do caminhão, mas não reclamou. Nunca reclamava. Vamos dormir aqui hoje”, eu disse.
Amanhã eu entrego a carga e a gente vê o que faz. Ela acenou com a cabeça, quieta. O posto tinha uns quartos simples para os camionistas, daqueles bem básicos: cama de solteiro, casa de banho minúscula, cheiro de mofo e desinfetante. Paguei por dois quartos, um do lado do outro. Você fica nesse aqui”, eu disse, abrindo a porta do quarto dela.
“Qualquer coisa é só bater na parede. Eu estou ao lado.” Júlia entrou devagar a olhar em volta, como se nunca tivesse visto um quarto antes. Sentou na beirada da cama, ainda segurando o ursinho. “Walter”, ela chamou quando eu já estava a sair. “Sim, obrigada por tudo. Senti o peito apertar.” “Não precisa agradecer, Júlia. Vá descansar agora.
Fechei a porta e fui para o meu quarto. Sentei na cama, tirei as botas encharcadas, a camisa molhada, olhei para o espelho rachado na parede e vi um velho cansado a olhar para mim de volta, 63 anos a pesar nos ombros, nas costas curvadas, nos olhos fundos. Tomei um banho demorado, deixando a água quente levar um pouco da tensão, mas não levou tudo, nunca leva.
Algumas coisas agarram-se à gente, ficam agarradas na pele, na alma e não saem nem com sabão, nem com reza. Deitei na cama dura, aolhar para o teto manchado de umidade. Tentei dormir, mas o sono não vinha, a cabeça não parava, ficava a repassar tudo. O banco na beira da estrada, o olhar vazio de Júlia, a chuva, o carro capotado, o sangue na minha mão.
E então, sem querer, as memórias vieram. Memórias que eu tinha enterrado fundo há muito tempo e que agora subiam à superfície como o corpo boiar em rio. Lembrei da minha ex-mulher, Raquel. Lembrei do dia que ela fez as malas e foi embora há quase 20 anos. Lembrei dela a gritar que eu nunca estava em casa, que amava mais a estrada do que a ela, que não sabia o que era ter uma família de verdade. E ela tinha razão.
Eu era jovem, cabeça dura, achava que a estrada era tudo que eu precisava. achava que liberdade era mais importante que compromisso. E quando ela foi embora, eu não corri atrás. Deixei ir. Voltei para o caminhão, voltei para a estrada e fingi que não doía. Mas doía. Doeu por anos, ainda dói. Lembrei também do meu pai, caminhonista também, igual a mim, homem duro, calado, que passava meses fora de casa e voltava só para dormir um fim de semana e sair de novo.
Nunca me abraçou, nunca disse que me amava, nunca me ensinou nada além de dirigir e carregar peso. Morreu sozinho numa pensão vagabunda em Évora, de infarte há 15 anos. Ninguém estava com ele. Ninguém segurou a mão dele. Ele morreu do mesmo jeito que viveu, sozinho. E eu estava a ir pelo mesmo caminho. 63 anos.
Nenhuma família, nenhum filho, nenhum neto, só a estrada, só o caminhão, só o silêncio, que às vezes grita mais alto que qualquer barulho. Mas agora tinha Júlia, uma menina que não era minha filha, que não era minha responsabilidade, mas que de alguma forma tinha virado. E eu não sabia o que fazer com isso. Não sabia como ser o que ela precisava, porque nunca fui pai, nunca fui nada além de um homem que dirigia caminhão e carregava peso.
Mas talvez, pensei ali deitado no escuro, talvez essa fosse a minha chance, a minha última chance de fazer alguma coisa certa antes de morrer sozinho numa pensão vagabunda igual ao meu pai. Não sei que horas eram quando finalmente peguei no sono, mas foi um sono inquieto, cheio de pesadelos confusos. Júlia a sumir na chuva, o carro a pegar fogo comigo dentro, Raquel a olhar para mim com pena.
Acordei de madrugada com barulho de choro. Levantei na cama confuso, tentando entender de onde vinha. E então percebi, vinha do quarto ao lado, do quarto de Júlia. Levantei rápido, vesti a calça e saí para o corredor. Bati na porta dela. Júlia, está tudo bem? Silêncio. Depois mais choro abafado. Júlia, eu vou entrar, está bem? Abri a porta devagar.
O quarto estava escuro, só a luz fraca do poste lá fora a entrar pela janela. Júlia estava sentada no canto da cama, abraçada nos joelhos, a balançar para a frente e para trás, a chorar baixinho. “O que foi?”, perguntei, aproximando-me devagar. Ela não respondeu, só continuou a balançar, a chorar.
Sentei na beirada da cama, mantendo distância, sem querer assustar. “Foi pesadelo?” Ela acenou que sim com a cabeça. Quer falar sobre? Ela demorou. Depois, com a voz embargada, ela disse: “Sonhei que você me deixou também. Sonhei que você parou num lugar e mandou eu descer e foi embora. E eu fiquei sozinha de novo.
Senti uma dor no peito. Júlia, eu não vou. Todo mundo diz isso?” Ela gritou de repente, levantando a cabeça. Todo mundo diz que não me vai deixar. A minha mãe dizia, a minha avó dizia e todo mundo foi embora. Todo mundo? As lágrimas desciam pelo rosto dela, a brilhar na luz fraca. “Todo mundo me deixa”, ela continuou, a voz a quebrar.
“Porque eu sou ruim? Porque eu atrapalho, porque eu não presto.” “Não.” Eu disse mais alto do que pretendia. “Não, Júlia, você não é ruim. Você não atrapalha. Você não é o problema. Então, por que ninguém fica?” Ela gritou. Por que ninguém nunca fica? Não tinha resposta. Não tinha nada que pudesse dizer para consertar anos de abandono, anos de rejeição, anos de dor.
Então, fiz a única coisa que consegui pensar. Abri os braços. Vem aqui. Ela me olhou desconfiada, assustada, mas depois devagar ela se moveu. Deslizou pela cama até ficar perto e então se jogou nos meus braços e desabou. chorou, soluçou, tremeu toda. E eu fiquei ali segurando aquela menina pequena, magra, quebrada, e deixei ela chorar.
Deixei ela soltar tudo que tinha guardado por anos. Não sei quanto tempo ficamos assim, talvez 10 minutos, talvez uma hora. Mas aos poucos o choro foi diminuindo, os soluços foram se espaçando e então ela ficou quieta, ainda abraçada em mim, a cabeça no meu peito, o ursinho espremido entre nós dois. “Eu tenho medo”, ela sussurrou.
“Medo de quê?” “De gostar de você”. A voz dela era tão baixa que quase não ouvi. “Porque sempre que eu gosto de alguém, a pessoa vai embora. Eu não sei se aguento mais uma vez. Senti os olhos arderem. Fazia décadas que eu não chorava, mas naquele momento,segurando aquela criança quebrada, senti as lágrimas vindo. Não deixei cair. Engoli em seco. Respirei fundo.
Júlia, eu não posso prometer que vai ser fácil. Não posso prometer que eu sei o que estou a fazer, porque eu não sei. Segurei ela um pouco mais apertado. Mas eu prometo uma coisa. Eu não a vou deixar. Não do jeito que os outros deixaram. Eu estou aqui e vou continuar aqui. Mas por quanto tempo? Pelo tempo que você precisar.
Ela ficou quieta, processando. Depois perguntou: “E se eu precisar para sempre?” Engoli em seco de novo, porque aquela pergunta era grande demais. mudava tudo, comprometia tudo. Mas quando olhei para baixo e vi o rosto dela a olhar para mim com aqueles olhos cheios de medo e esperança, eu soube que não tinha outra resposta possível.
Então vai ser para sempre. Ela apertou os braços em volta de mim e escondeu o rosto no meu peito. E ficamos assim abraçados no escuro, enquanto lá fora a madrugada ia passando devagar. Depois de um tempo, ela começou a cabecear de sono. Ajeitei-a na cama, cobria-a com o lençol fino e fiquei sentado ali ao lado até ter certeza de que ela tinha dormido.
Quando finalmente voltei para o meu quarto, não consegui mais dormir. Fiquei sentado na janela, a olhar para a estrada vazia lá embaixo, os postes de luz a iluminar o asfalto molhado. O que eu tinha acabado de fazer? prometer para sempre para uma criança que nem era minha, como eu ia cumprir isso, como ia cuidar dela, sustentar ela, dar o que ela precisava.
Mas mesmo com todas essas perguntas a martelar na cabeça, mesmo com todo o medo e incerteza, eu sabia uma coisa: Não conseguia voltar atrás, não conseguia desistir dela, porque pela primeira vez em muito tempo, eu não estava a pensar só em mim, estava a pensar em outra pessoa, em alguém que precisava de mim mais do que eu mesmo. E isso, de alguma forma estranha e assustadora, fazia sentido.
O sol nasceu devagar. a pintar o céu de rosa e laranja. Tomei banho, vesti roupa limpa e bati na porta de Júlia. Ela abriu com os olhos inchados de tanto chorar, mas o rosto mais calmo. “Bom dia”, eu disse. “Bom dia”, ela respondeu baixinho. “Vamos tomar café e depois eu vou entregar essa carga e aí a gente conversa sobre o que fazer.
Está bem?” Ela acenou com a cabeça. Descemos juntos. Tomamos café na lanchonete do posto, pão com manteiga, café com leite, bolo simples. Júlia comeu devagar a olhar pela janela, perdida em pensamentos. No que você está a pensar? Perguntei. Em tudo, ela disse. No que vai acontecer agora, se a GNR me vai achar, se vão me levar de novo, se você vai. Não vou. Eu cortei.
Eu já disse e eu não volto atrás no que eu prometo. Ela me olhou, procurando mentira, mas não achou. Você não tem medo de se meter em problema por minha causa? Tenho, eu disse honesto, mas tenho mais medo de a deixar sozinha. Ela ficou quieta. Depois, pela primeira vez desde que nos conhecemos, ela estendeu a mão por cima da mesa e segurou a minha, a mão pequena, quente, segurando a minha velha e calejada.
Obrigada, ela disse, por não desistir de mim. Apertei a mão dela de volta. Nunca vou desistir. E naquele momento, naquela lanchonete simples de beira de estrada, com cheiro de café velho e pãos dormido, nós dois fizemos um pacto silencioso, um pacto de não abandonar um ao outro, um pacto de enfrentar juntos o que viesse pela frente, um pacto que ia mudar as nossas vidas para sempre. Terminamos o café.
Voltamos para o caminhão e seguimos os últimos quilômetros até Braga, carregando não só 22 toneladas de cortiça, mas também o peso de um futuro incerto, que, pela primeira vez em muito tempo, não parecia tão assustador assim, porque não estávamos mais sozinhos. Braga apareceu no horizonte como uma miragem de betão e asfalto.
Prédios altos, ruas largas, movimento de carros. Uma cidade grande, planejada, moderna demais para o gosto de quem passou a vida nas estradas de Portugal profundo. Júlia olhava pela janela com os olhos arregalados, como se nunca tivesse visto tanto prédio junto. “Você já veio aqui?”, perguntei. “Nunca”, ela disse. “Eu nunca saí de Mértola, só morei lá, nasci lá.
Achei que ia morrer lá também.” A frase saiu casual, mas carregava um peso que me apertou o peito. “Você não vai morrer em lugar nenhum tão cedo”, eu disse. “Vai viver e vai ver muito mais coisa que isso aqui.” Ela me olhou de soslaio, com aquele jeito de quem quer acreditar, mas tem medo. Seguia as placas até o armazém de cereais na zona industrial, lugar enorme, cercado de muros altos e portões de ferro. Buzinei.
Um segurança abriu o portão e entrei devagar, manobrando o Scania, entre outros caminhões que esperavam para descarregar. “Fica aqui dentro”, eu disse para a Júlia. “Tranco a porta. Não desce, não conversa com ninguém. Eu volto logo.” “Walter, ela começou, a voz tensa. Eu volto”, repeti, segurando o olhar dela. “Confia em mim.
” Ela mordeu o lábio, mas acenou com acabeça. Desci e fui até o escritório entregar a documentação. Um homem gordo de camisa suada conferiu os papéis, carimbou, mandou eu esperar na fila para descarga. Voltei para o caminhão. Júlia estava no mesmo lugar, abraçada no ursinho, a olhar pela janela, com aquele jeito assustado de quem espera o pior a qualquer momento.
“Tudo certo”, eu disse subindo de volta. Agora é só esperar descarregar. Quanto tempo? Uma hora, talvez duas, depende da fila. Ela acenou com a cabeça e ficou quieta. Eu liguei o rádio baixinho, tentando trazer algum conforto, mas só tinha música popular e propaganda. Desliguei. O tempo passou devagar. Caminhões na frente foram descarregando, saindo e a fila foi andando.
Júlia não falou nada durante esse tempo todo. Só ficou ali a olhar para a frente, perdida em pensamentos que eu não conseguia adivinhar. Finalmente chegou a nossa vez. Manobrei até a plataforma de descarga, onde uns trabalhadores magros e suados começaram a abrir o reboque e descarregar os sacos de cortiça. Fiquei do lado de fora a supervisionar enquanto Júlia continuava trancada na cabine.
Demorou quase 2 horas. Quando terminaram, conferiram tudo de novo, me devolveram os papéis assinados e eu finalmente pude sair dali. Saí do armazém com o caminhão vazio, mais leve, o motor a roncar diferente, sem o peso da carga. Júlia continuava quieta, mas percebi que ela estava tensa, os ombros duros, as mãos a apertar o ursinho com força demais.
O que foi? Perguntei. Nada, Walter. Ela respirou fundo. Eu fiquei com medo. Com medo de você entrar lá e não voltar. Ou voltar com a GNR ou A voz dela falhou. Sei lá, eu só fiquei com medo. Encostei o caminhão na beira da estrada, ali mesmo no meio do trânsito de Braga. Peguei a mão dela. Eu voltei e voltei sozinho, sem GNR, sem nada. Só eu.
Eu sei, ela disse, mas a voz ainda tremia. Mas o medo não só porque você sabe que não devia ter. Entendi. Entendi demais porque eu mesmo conhecia esse tipo de medo, o medo irracional que não obedece a lógica, que se agarra à gente como carrapato e não solta. Está tudo bem ter medo? Eu disse, “mas que você acredite numa coisa. Eu não vou sumir.
Não vou a entregar. Não vou fazer nada que a machuque. Está bem?” Ela olhou para mim com aqueles olhos fundos, procurando certeza. Depois acenou devagar com a cabeça. Está bem. Voltei a dirigir. Saí de Braga pela N2, sentido sul, de volta para o caminho de onde tínhamos vindo. Júlia franziu a testa. A gente não ia ficar em Braga? Não, eu disse.
Braga é grande demais. Muita gente, muita polícia, muito risco. A gente precisa de um lugar mais tranquilo para pensar direito no que fazer. E para onde a gente vai? Pensei, tinha uma cidadezinha que eu conhecia bem, uns 200 km ao sul de Braga, Visu, pequena, calma, com pensões simples e gente que não fazia muita pergunta.
Um lugar onde a gente podia respirar, se organizar, pensar com calma. Visu, eu disse, a gente passou por lá ontem, lembra? A gente vai ficar uns dias lá, descansar, pensar no próximo passo. E qual é o próximo passo?, ela perguntou. E pela primeira vez tinha uma pontada de medo real na voz. Suspirei porque essa era a pergunta que eu vinha evitando desde que a encontrei naquele banco na beira da estrada.
Eu não sei ainda, Júlia, mas a gente descobre junto. Ela ficou quieta, depois perguntou: “Você está arrependido?” Arrependido de quê? de ter parado, de terme levado, de ter se metido nisso tudo. Olhei para ela, para o rosto magro, para os olhos cansados, para o ursinho velho que ela apertava contra o peito. “Não”, eu disse. E era verdade, nem um pouco.
Ela não respondeu, mas vi que algo relaxou nela. Os ombros desceram, a respiração ficou mais calma. Rodamos por mais de uma hora. O sol estava a começar a baixar quando chegamos a Viseu. Encostei o caminhão numa pensão simples de fachada azul descascada e placa torta. Desci, paguei por um quarto e voltei para buscar Júlia.
Mas quando olhei para a cabine, ela não estava lá. Senti o coração disparar. Olhei em volta, desesperado. Júlia! Gritei nada. Júlia. Corri para o outro lado do caminhão. Corri até a reessão da pensão. Corri de volta e então a vi. Ela estava agachada atrás do caminhão, escondida, a tremer, os olhos arregalados de pânico. Júlia, o que você está a fazer? Ela apontou para a rua, seguiu o olhar dela e sentiu o estômago revirar.
Do outro lado da rua, a conversar com alguém, estava um homem de uns 40 anos, moreno, barrigudo, de boné e camisola regata. E eu não precisava que ninguém me dissesse quem era. Era ele, o namorado da mãe dela. É ele Júlia sussurrou, a voz a tremer. É ele, Walter. Ele está aqui. Senti a raiva subir pela garganta. Aquele filho da pita que tinha abandonado uma criança na beira da estrada estava ali tranquilo a conversar e a rir, como se nada tivesse acontecido.
“Fica escondida”, eu disse, puxando Júlia para mais perto do caminhão. “Não deixa ele te ver. E seele me viu? E se ele vem aqui?” “Ele não vem”, eu disse, “mas não tinha certeza. Fica aqui, eu já volto.” Não. Ela segurou o meu braço com força. Não vá lá. Ele é perigoso. Ele pode te machucar. Júlia, eu só vou ver o que ele está a fazer aqui.
Não vou falar com ele, prometo. Ela me olhou com olhos cheios de lágrimas, mas soltou o meu braço. Atravessei a rua devagar, mantendo distância, tentando ouvir a conversa. O homem estava a falar com um empregado do posto, a gesticular, a parecer perguntar alguma coisa. É menina de uns 12 anos, cabelo comprido, magra, ouvi ele dizer.
Você viu? O empregado do posto negou com a cabeça. O homem pruejou, cuspiu no chão e seguiu andando pela rua. Voltei correndo para o caminhão. Júlia estava onde eu tinha deixado, encolhida a tremer. Ele está à sua procura, eu disse. Eu sabia, ela disse. A voz a sair num sussurro desesperado. Eu sabia que iam procurar. A minha mãe deve ter mudado de ideia ou ele ficou com medo de dar problema.
E agora vão me achar, não vão? Eu disse pegando ela pela mão. Vem, a gente sai daqui. Mas para onde? Não sei, mas a gente não pode ficar aqui. Voltamos para o caminhão. Subi, liguei o motor e saí dali o mais rápido possível. Júlia olhava pelo retrovisor, apavorada, procurando o homem. Ele não viu a gente. Eu disse, fica tranquila.
Mas eu mesmo não estava tranquilo. Se ele estava a procurar, significava que tinha voltado no lugar onde a tinham abandonado. Significava que tinham percebido que ela não estava mais lá e significava que iam continuar a procurar. E se procurassem direito, iam achar. Saí de visu direção certa, só queria distância.
Peguei uma estrada vicinal de terra que cortava o montado e ia dar sabe Deus onde. Rodei por meia hora, levantando poeira, desviando de buracos até a estrada ficar tão ruim que tive que parar. Parei no meio do nada, literalmente só mato, cerca velha e silêncio. Desliguei o motor. O silêncio foi absoluto.
Júlia estava a chorar baixinho, a cabeça escondida entre os joelhos. Eu sabia”, ela repetia. “Eu sabia que não ia dar certo. Eu sabia que iam me achar.” “Eles não acharam.” Eu disse, “E não vão achar. Como você sabe? Porque a gente não vai deixar.” Ela levantou o rosto molhado de lágrimas. “Mas para onde a gente vai? Se a gente voltar para qualquer cidade, eles podem estar lá.
E se a gente fica aqui no meio do nada, a gente vai morrer de fome. Ela tinha razão. Estávamos encurralados, sem dinheiro suficiente, sem plano, sem lugar seguro para ir. Então o camião deu um estalo, um estalo alto vindo do motor. Que foi isso? Júlia perguntou assustada. Tentei ligar o motor de novo. Ele fez um barulho estranho.
Tociu e morreu. Tentei de novo. Nada. Desci da cabine, abri o capô, fumaça saiu, cheiro de óleo queimado. Olhei e vi. A correia tinha arrebentado e tinha vazamento de óleo no motor. “Merda”, eu sussurrei. “O que foi?” Júlia desceu do caminhão vindo até mim. O caminhão quebrou e agora? Olhei em volta. Só mato, só silêncio.
Nenhuma casa, nenhum poste, nenhuma placa. Nada. Agora eu disse e a voz saiu mais cansada do que eu queria. A gente está lixado. O sol começava a descer no horizonte, a pintar o céu de laranja e vermelho. Ficamos ali parados, eu a olhar para o motor quebrado, Júlia ao meu lado, com o ursinho apertado contra o peito, os dois a tentar entender como tínhamos chegado àquela situação.
“Você consegue consertar?”, Ela perguntou, a voz pequena. Olhei para o motor. A correia arrebentada, eu até conseguia improvisar, mas o vazamento de óleo era grave. Sem óleo, o motor gripava e sem ferramentas adequadas, sem peças. No meio do nada, não tinha milagre que resolvesse. “Não”, eu disse, fechando o capô com mais força do que precisava.
Não, aqui precisaria de reboque de oficina de peças novas. E cadê o telemóvel? Não dá para ligar para alguém? Peguei o telemóvel do bolso, sem sinal. Claro que não tinha sinal. Estávamos no meio do montado alentejando, numa estrada vicinal que mal aparecia no mapa. Não tem sinal. Mostrei a tela para ela.
Júlia olhou em volta, os olhos a começar a brilhar com lágrimas que ela tentava segurar. A gente vai morrer aqui? Não disse mais firme do que me sentia. Ninguém vai morrer. A gente só precisa pensar. Mas pensar o quê? Estávamos encalhados no meio do nada, sem comunicação, sem transporte e com um homem perigoso a procurar por Júlia nas cidades por onde passamos.
Se ficássemos ali à espera de ajuda, podia demorar horas ou dias. E se voltássemos a pé pela estrada de terra até achar alguma casa, podia ser quilômetros de caminhada debaixo do sol escaldante com uma criança. Olhei para o céu. O sol já estava a tocar o horizonte. Em meia hora ia escurecer completamente e à noite, sem luz, sem referência, andar naquela estrada seria suicídio.
“A gente vai ter que passar a noite aqui,”, eu disse. “Aqui no caminhão?” É amanhã de manhã, quando clarear, agente caminha até achar uma quinta, uma casa, algum lugar com telefone. Júlia olhou em volta de novo para o mato fechado, para as sombras que já começavam a crescer, e eu vi o medo nos olhos dela.
E se aparecer cobra ou lobo ou ou aquele homem? Não vai aparecer”, eu disse, tentando soar confiante. “A gente fica dentro do caminhão, tranca as portas e amanhã resolve isso.” Ela não pareceu convencida, mas acenou com a cabeça e subimos de volta para a cabine. Tranquei as portas. O silêncio lá fora era pesado, só cortado pelo canto das cigarras e pelo assobio distante de algum pássaro.
Peguei os últimos restos de comida que tínhamos, meia garrafa de água, três bolachas cream cracker e uma banana já meio passada. Toma. Estendi metade das bolachas para a Júlia. Come devagar. É tudo que a gente tem até amanhã. Ela pegou e comeu em silêncio, mastigando devagar, ao olhar pela janela para o mato que ia ficando escuro. “Walter”, ela disse depois de um tempo.
“Hum, você acha que eles vão desistir de me procurar?”, pensei antes de responder. Podia mentir, dizer que sim, que logo iam esquecer dela, mas Júlia merecia a verdade. “Não sei”, eu disse honesto. “Depende do quanto eles têm a perder. Se você aparecer, se você sumir de vez, ninguém faz pergunta. Mas se você aparecer viva e contar o que fizeram, eles podem ir para a cadeia.
Ela completou. Podem. Ela ficou quieta, processando. Então eles não vão parar de procurar. Talvez não logo. E o que a gente faz? Era a pergunta de milhões, a pergunta que eu vinha evitando desde que virei as costas para a GNR em Castro Verde. “A gente tem três opções”, eu disse ao olhar para ela.
“A primeira é ir à GNR, contar tudo. Você fica sob proteção. Eles vão atrás da sua mãe e do namorado dela e você provavelmente vai para um abrigo até acharem uma família que queira adotar.” Vi o pânico nos olhos dela. A segunda opção, continuei, é tentar achar algum parente seu, tio, tia, primo, alguém da família que possa cuidar de você.
Não tem ninguém, ela disse seca. A minha avó era filha única. O meu avô morreu antes de eu nascer e da parte do meu pai, eu nem sei quem é. Então, sobra a terceira opção. Qual? Respirei fundo porque o que eu ia dizer era loucura, era arriscado, era ilegal, mas era a única coisa que fazia sentido. “Você fica comigo, Júlia?”, ela me olhou confusa.
“Como assim você fica comigo?”, repeti, a gente some. A gente vai para longe, para algum lugar onde ninguém conhece a gente. Eu arrumo o trabalho, você vai para a escola e a gente recomeça os dois. Mas, mas isso não é, você não pode simplesmente não posso. Eu concordei. Aos olhos da lei seria sequestro. Aos olhos da burocracia seria irregular.
Mas aos olhos de quem tem bom senso seria salvar uma criança de morrer abandonada ou de voltar para um sistema que não funciona. Ela ficou em silêncio por um longo tempo a olhar para mim, depois para o ursinho, depois de volta para mim. Por que você faria isso? Ela perguntou e a voz dela era pura confusão. Por que você arriscaria tudo por mim? Você nem me conhece.
Eu sei eu disse, mas eu conheço o suficiente. Conheço o suficiente para saber que você merece uma chance. E eu parei sentindo um nó na garganta. Eu passei 63 anos na estrada, Júlia. 63 anos sozinho, a carregar peso, a dirigir de um lugar para o outro, sem nunca pertencer a nada, sem nunca ter ninguém. E eu estou cansado disso.
Estou cansado de ser sozinho. As lágrimas vieram, apesar de eu lutar contra elas. Você me deu um motivo para parar, eu disse, a voz a rachar, um para acordar de manhã e não ser só mais um dia igual. Você me deu um motivo para ser alguém melhor do que eu fui até agora. Júlia começou a chorar também, lágrimas silenciosas a escorrer pelo rosto.
“E se der errado?”, ela perguntou. “E se a GNR descobrir? E se você se arrepender?” “Então a gente enfrenta,” eu disse, “juntos.” Mas pelo menos a gente tentou. “Pelo menos a gente não desistiu um do outro. Ela se jogou nos meus braços e chorou. Chorou tudo que tinha segurado. Chorou pela mãe que a abandonou, pelo pai que nunca conheceu, pela avó que morreu pelos anos de sofrimento.
E eu segurei ela, chorando também pelas escolhas erradas que fiz na vida, pela esposa que perdi, pela solidão que carreguei, que ali, naquela cabine de caminhão quebrado, no meio do montado escuro e silencioso, dois estranhos que tinham se encontrado por acaso viraram família. Não família de sangue, não família de papel assinado, mas família do jeito que importa, família de escolha, família de quem decide ficar quando todo mundo foi embora.
A noite caiu de vez, o céu encheu de estrelas, milhões delas a brilhar num céu sem poluição luminosa. Júlia encostou a cabeça na minha barriga e foi adormecendo aos poucos, exausta de tanto chorar. Eu fiquei acordado a olhar para as estrelas pela janela, a pensar no que tinha acabado de prometer.
Tinhaprometido uma vida inteira, tinha prometido cuidado, proteção, família e não fazia ideia de como ia cumprir, mas ia tentar com todas as forças. Ia tentar, porque pela primeira vez em décadas eu tinha algo pelo que valia a pena lutar. Devia ser umas 2 da manhã quando ouvi o barulho. Um motor distante, mas a aproximar-se. Acordei num pulo, o coração disparado.
Júlia ainda dormia encolhida no banco. Olhei pela janela e vi ao longe faróis de um carro a vir pela estrada de terra. Senti o pânico subir. Quem estaria a andar naquela estrada àela hora da madrugada? O carro foi se aproximando. Era uma carrinha velha, barulhenta. Passou devagar pelo caminhão, diminuiu a velocidade, parou uns metros à frente.
Tranquei as portas de novo, o coração a bater forte. Júlia acordou com o barulho. O que foi? Ela perguntou assustada. Tem alguém lá fora? Ela ficou pálida. A porta da carrinha se abriu. Desceu um homem alto, magro, de chapéu de palha. caminhou até a janela do caminhão e bateu no vidro. “Boa noite”, ele gritou.
“Vocês estão bem aí dentro?” “Não”, respondi. Júlia encolheu-se no banco a tremer. “O meu nome é Sebastião”, o homem continuou. “Eu tenho uma quinta aqui perto. Vi o caminhão parado aqui de tarde quando passei para a cidade. Voltei agora e vi que vocês ainda estão aqui. Vocês precisam de ajuda?” Olhei para a Júlia. Ela me olhou de volta, apavorada.
Podia ser uma armadilha, podia ser o namorado da mãe dela, podia ser qualquer coisa, mas também podia ser a ajuda que a gente precisava. Você tem telemóvel com sinal? Gritei de volta. Tenho e tenho comida, água e posso levar vocês até a minha quinta para dormirem direito. Amanhã a gente reboca esse caminhão. Olhei para Júlia de novo.
Tinha que decidir confiar ou não confiar, arriscar ou ficar ali encalhados, vulneráveis. O que você acha? Perguntei baixo. Eu estou com medo ela sussurrou. Eu também, mas a gente não pode ficar aqui para sempre, ela pensou. Depois acenou com a cabeça. Está bem, mas você não sai do meu lado nunca. Abri a porta devagar. Desci, ajudei Júlia a descer.
O homem Sebastião sorriu. Era um sorriso genuíno, cansado, de quem trabalha de sol a sol. “Vocês estão bem?”, ele perguntou. “Lipena.” “Estamos”, eu disse. O caminhão quebrou e a gente ficou sem sinal. Imagino, essa estrada aqui não tem sinal mesmo, mas na quinta tem. E tem comida quentinha também.
A minha mulher fez carne com mandioca. Deve ter sobrado. Júlia apertou a minha mão. Então vamos, eu disse. Pegamos as nossas poucas coisas e entramos na carrinha de Sebastião. Ele dirigiu por uns 15 minutos até chegarmos numa quinta simples. Casa de alvenaria, varanda com rede, galinheiro, cheiro de terra e gado. Uma mulher gorda e simpática apareceu na porta.
Meu Deus, Sebastião, que horas são essas e quem são essas pessoas? Encontrei eles na estrada Lourdes, caminhão quebrado. Ofereci. Ela olhou para mim, depois para Júlia, e o rosto dela amoleceu. Vocês devem estar com fome. Vem, vem. Eu esquento comida. Entramos na casa. Cheirava a comida caseira, a café velho, a vida simples e honesta.
Sentamos à mesa enquanto Lourdes esquentava pratos de carne com mandioca, arroz e feijão. Júlia comeu devagar, ainda desconfiada, mas com fome. Eu comi também, agradecendo cada garfada. E de onde vocês são? Sebastião perguntou. De Coimbra? Menti. Eu sou camionista. Estava a levar carga para Braga e resolvi pegar um atalho. Deu errado.
E ela, Lourdes, apontou para Júlia. Sua filha. Júlia me olhou. Eu a olhei de volta e naquele momento eu entendi que essa era a escolha. Essa era a linha que uma vez cruzada mudava tudo. É, eu disse a minha filha. Júlia não disse nada, mas vi que algo mudou nos olhos dela. Um brilho pequeno de esperança, de pertencimento.
Sebastião e Lourdes aceitaram sem questionar. ofereceram um quarto para a gente dormir. E, pela primeira vez em dias, Júlia dormiu em paz numa cama de verdade, coberta com lençol limpo. E eu fiquei acordado mais uma vez, a olhar para ela a dormir e a pensar no que tinha acabado de fazer. Tinha atravessado a linha, tinha feito a escolha e não havia mais volta.
Amanhã chegou com cheiro de café fresco e pão caseiro. Acordei com o corpo doído, deitado numa cama estranha, mas confortável, e por um segundo não lembrei onde estava. Depois tudo voltou. A estrada, o caminão quebrado, Sebastião e Lourdes, a mentira que tinha virado verdade. Júlia ainda dormia na cama ao lado, encolhida debaixo do lençol, o ursinho abraçado contra o peito.
O rosto dela estava relaxado, sereno, sem aquele traço de medo constante que carregava desde que a conheci. Pela primeira vez, ela parecia uma criança de verdade, uma criança que podia dormir sem pesadelos. Levantei devagar para não acordá-la e fui até a cozinha. Lourdes já estava lá a mexer uma panela no fogão à lenha, o cabelo preso num coque, o avental amarrado na cintura larga.
“Bom dia”, ela disse, sorrindo. “Dormiu bem?””Dormi sim. Obrigado pela hospedagem.” Imagina, a gente não ia deixar vocês lá na estrada, né? Ela despejou o café numa caneca de alumínio e estendeu para mim. Senta, o café está pronto e tem pão com queijo. Sentei à mesa de madeira gasta pelo tempo. O café estava forte, quentinho, com gosto de café de verdade.
O pão ainda estava morno, o queijo a derreter. Fazia tempo que eu não comia um café da manhã assim, caseiro, feito com calma. E a sua filha? Lourdes perguntou. Ela está a dormir ainda? Engoli em seco ao ouvir sua filha. A mentira já tinha grudado, já era parte da história. Está, ela está cansada. Foram dias difíceis.
Lourdes me olhou com aquele jeito de quem vê mais do que a gente conta. Ela é quietinha, né? Quase não falou ontem. É, ela é assim mesmo. Sempre foi tímida, mentira em cima de mentira. Mas eram mentiras necessárias, mentiras que protegiam. Sebastião já foi lá ver o seu caminhão. Lourdes disse, servindo mais café. Disse que vai precisar de reboque.
Ele conhece um mecânico em Santarém que pode dar uma olhada, mas vai demorar uns dias para conseguir as peças. Uns dias. A palavra ecoou na minha cabeça. Uns dias ali parados, visíveis. Uns dias em que o namorado da mãe de Júlia podia continuar a procurar. Uns dias em que alguém podia fazer perguntas demais.
Quanto tempo? Mais ou menos? Ah, uns três, quatro dias, talvez uma semana, depende das peças. Senti o estômago apertar. Uma semana era tempo demais, mas também não tinha escolha. Sem o caminhão, não tinha como sair dali. Júlia apareceu na porta da cozinha a esfregar os olhos, o cabelo bagunçado. Olhou em volta, ainda confusa, ainda desconfiada, mas quando me viu, relaxou um pouco.
“Bom dia, minha filha”, eu disse, tentando soar natural. “Vem tomar café”. Ela veio devagar e sentou ao meu lado. Lourdes colocou um prato com pão e queijo na frente dela. “Come, menina! Você está muito magra, precisa engordar.” Júlia comeu em silêncio, os olhos baixos, ainda naquele modo de defesa que ela conhecia tão bem.
Mas depois de alguns minutos, ela ergueu os olhos para Lourdes e disse baixinho: “Obrigada, está gostoso”. Lourdes sorriu daquele jeito maternal que algumas mulheres têm, naturalmente. Que bom, minha filha, come à vontade. Tem mais se quiser. Depois do café, Sebastião voltou da estrada. Era um homem de uns 50 anos. pele queimada de sol, mãos calejadas de trabalho braçal.
Tirou o chapéu ao entrar na casa e me cumprimentou com um aperto de mão firme. Olhei o seu caminhão. Ele disse, está a precisar de correia nova e tem que consertar esse vazamento de óleo. Não vai ser barato. Quanto você acha? Ah, com peça e mão de obra, uns 2000, 2.500 €. Senti o peso da realidade a cair. Eu tinha uns 3.
000€ guardados. Era tudo que tinha. Se gastasse no conserto, ia ficar sem nada. Sem dinheiro para gasolina, sem dinheiro para comida, sem dinheiro para recomeçar em outro lugar. Mas sem o caminhão também não tinha como trabalhar. Está bem, eu disse. Faça o conserto. Quanto tempo demora? Se as peças chegarem rápido, uns quatro, cinco dias, Júlia me olhou de canto de olho, preocupada.
Ela entendia, entendia que estávamos presos ali, vulneráveis à espera. “Vocês podem ficar aqui enquanto esperam”, Lourdes ofereceu. “A gente tem um quartinho nos fundos que não usa. Não é grande coisa, mas é melhor que dormir no caminhão. A gente não quer incomodar”, eu disse. “Não incomoda nada, Sebastião cortou.
Aqui é interior. A gente ajuda quem precisa e vocês precisam”. Olhei para Júlia. Ela me devolveu o olhar, procurando a decisão. Está bem, eu disse, a gente agradece. E assim ficamos. Quatro dias que pareceram quatro semanas. Sebastião e Lourdes eram boas pessoas. Gente simples, trabalhadora, que acordava com o sol e dormia com as galinhas.
Trataram a gente com carinho, sem fazer perguntas demais, sem desconfiar, ou se desconfiavam, não demonstravam. Júlia começou a relaxar aos poucos. No segundo dia, ajudou Lourdes a cuidar das galinhas. No terceiro, estava a sorrir de verdade quando Lourdes contou uma história engraçada. No quarto, estava a brincar com os cães da quinta, correndo no terreiro a rir alto.
Era a primeira vez que eu a via a rir alto e o som daquela risada partiu o meu coração e curou ele ao mesmo tempo. À noite, sentávamos na varanda. Sebastião tocava viola, Lourdes cantarolava baixinho e Júlia ficava sentada ao meu lado a olhar as estrelas. Nesses momentos, quase dava para esquecer o perigo, quase dava para acreditar que tudo ia dar certo.
Mas aí chegou o quinto dia. Eu estava a ajudar Sebastião a consertar uma cerca quando Lourdes veio correndo do terreiro, o rosto pálido. Ah, Sebastião Walter, tem um homem lá na porteira a perguntar se a gente viu uma menina. Senti o sangue gelar. “Como é ele?”, perguntei, tentando manter a voz calma. Moreno, barrigudo, de boné, está num carro preto. Disse que a menina fugiu decasa, que é filha dele.
Era ele, o namorado da mãe de Júlia, tinha nos encontrado. “Cadê a Júlia?”, perguntei já correndo. “Está nos fundos a brincar com os cães,”, Lourdes disse, correndo atrás de mim. “Cheguei nos fundos. Júlia estava agachada a fazer carinho num cão vadio caramelo. Quando me viu, percebeu na hora que algo estava errado.
O que foi? Ele está aqui na porteira à sua procura. O rosto dela ficou branco. O cão fugiu sentindo o medo. O que a gente faz? Ela sussurrou. Pensei rápido. Se ele entrasse na quinta, se visse Júlia, acabou. Ele ia tentar levá-la de volta, ia criar confusão, ia chamar a GNR, ia destruir tudo.
“Você fica escondida aqui,”, eu disse. Não sai, não faz barulho. Eu resolvo isso, Walter, não. Ele é perigoso. Eu sei, mas eu não vou deixar ele te levar. Segurei o rosto dela com as duas mãos, a olhar fundo nos olhos assustados. Confia em mim. Ela hesitou, depois acenou com a cabeça. Confia. Então fica aqui, não sai por nada.
Voltei correndo para a frente da casa. Sebastião já estava na porteira a conversar com o homem. Cheguei perto, mas mantive distância para ele não me reconhecer. Eu não vi menina nenhuma por aqui, Sebastião dizia. Passa pouca gente nessa estrada. Tem certeza? O homem insistiu. Ela pode ter passado a pedir ajuda, comida. Não passou ninguém, não.
O homem olhou ao redor desconfiado. Os olhos dele passaram por mim. Eu mantive a postura relaxada, natural, como se fosse só mais um ajudante da quinta. E aquele caminhão ali? Ele apontou para o meu Scania, ainda parado no canto do terreiro. De quem é? De um caminhonista que quebrou na estrada. Sebastião respondeu.
Está à espera de peça chegar. Ele está sozinho. Sebastião olhou para mim. Eu acenei discretamente com a cabeça. Está. Ele é sozinho. O homem ficou ali parado por mais um tempo, os olhos a vasculhar o terreiro. Senti o suor frio a escorrer pelas costas. Se ele pedisse para entrar, se insistisse, tudo desmoronava. Mas finalmente ele cuspiu no chão e voltou para o carro.
Se vocês virem alguma coisa, me avisem. Estou a deixar o meu número aqui. Entregou um papel amassado para Sebastião e foi embora, levantando poeira na estrada. Ficamos ali parados até o carro sumir completamente no horizonte. Só então respirei de novo. Esse homem é perigoso Sebastião disse ao olhar para mim com uma seriedade que não tinha antes.
E aquela menina que ele procura é sua filha, não é? Não adiantava mentir. Ele tinha entendido tudo. É, eu disse, mas não do jeito que você está a pensar. Então me explica do jeito certo. E ali na varanda daquela quinta, com Lourdes a ouvir também, eu contei. Contei sobre o banco na beira da estrada, sobre a mãe que abandonou, sobre a decisão que tomei.
Contei tudo, menos os nomes, menos os lugares exatos. Quando terminei, Sebastião ficou em silêncio por um longo tempo. Lourdes tinha lágrimas nos olhos. “Vocês fizeram a coisa certa”, ela disse finalmente. “essa menina não pode voltar para aquela gente, mas vocês também fizeram a coisa mais perigosa.” Sebastião completou: “Se a GNR descobrir, você vai preso e ela volta para o sistema.
” Eu sei”, eu disse, “por isso a gente precisa sumir, ir para longe, recomeçar em algum lugar onde ninguém conheça a gente.” “Para onde? Não sei ainda, Sebastião.” Sebastião pensou, depois disse: “Eu tenho um prima em Bragança. Ele tem uma transportadora pequena, sempre precisa de caminhonista e é longe daqui, muito longe. Alentejo, traz os montes.
Aquela gente não vai procurar até lá.” Bragança. Repeti, do outro lado do país, longe de tudo, longe de todo mundo. Eu posso ligar para ele? Sebastião ofereceu falar que você está a procurar trabalho. Ele não faz pergunta e vocês podem ficar lá recomeçar. Olhei para Lourdes. Ela acenou com a cabeça.
É a melhor chance de vocês, pensei. Bragança, uma cidade grande, anônima, onde a gente podia se perder no meio de milhares de pessoas. Onde Júlia podia ir para a escola, ter amigos, ter vida normal, onde a gente podia ser pai e filha de verdade, sem medo. Faça isso eu disse, ligue para ele.
Sebastião entrou na casa, voltou 10 minutos depois. Conversado, ele te espera a semana que vem, tem trabalho garantido e conhece um lugar onde vocês podem alugar um quartinho barato. Senti um peso a sair dos ombros. Uma porta se abrindo. Uma chance real. Obrigado eu disse. E a voz saiu embargada. Obrigado por tudo. A gente só fez o que era certo, Lourdes disse. E vocês também.
Fui buscar Júlia nos fundos. Ela estava encolhida atrás da casa, a tremer, o ursinho apertado contra o peito. Ele foi embora, eu disse, e a gente também vai. A gente vai para bem longe daqui. Para onde? Bragança traz os montes. Um lugar novo, um recomeço novo. Ela me olhou com aqueles olhos fundos, procurando certeza. A gente vai ficar junto.
A gente vai ficar junto, eu prometi para sempre. Ela se jogou nos meus braços e me abraçou forte, e pela primeira vezela me chamou do jeito que nunca tinha chamado antes. Obrigada, Pai. A palavra me atravessou, me quebrou e me reconstruiu ao mesmo tempo. Pai, eu era pai agora, não por sangue, não por papel, mas por escolha, por amor, por promessa, e não havia título maior no mundo.
Três dias depois, o caminhão estava pronto. Paguei o conserto, agradeci Sebastião e Lourdes com abraços apertados e saímos daquela quinta que tinha nos salvado. Júlia acenou pela janela até o casal sumir no retrovisor. Depois se virou para a frente a olhar a estrada que se abria à nossa frente. “A gente vai ser feliz em Bragança?”, ela perguntou.
“A gente vai tentar”, eu disse. E às vezes tentar já é suficiente. Ela sorriu, um sorriso pequeno, mas verdadeiro. E então seguimos. pai e filha, dois desconhecidos que tinham virado família, dois sobreviventes que tinham escolhido um ao outro quando todo mundo tinha desistido. A estrada esticava-se na nossa frente, longa, incerta, cheia de perigos.
Mas pela primeira vez não me sentia sozinho. Pela primeira vez tinha um motivo para seguir em frente, um motivo para acreditar que o amanhã podia ser melhor que o ontem. E esse motivo estava sentado ali ao meu lado, abraçada num ursinho de um olho só, a olhar pela janela com esperança nos olhos.
Júlia, minha filha, minha família, o meu novo caminho.















