A Milícia Do RJ Invadiu Uma Padaria Na Baixada — Jamais Imaginaram Que O Padeiro Era Ex-Fuzileiro

23 de agosto, 19h42. Quatro homens armados entraram na padaria São Jorge, na Baixada Fluminense. Três deles nunca mais saíram pela sua própria conta. O quarto correu sangrando, deixando um rasto vermelho no chão de cimento queimado. Dentro da padaria, entre sacos de farinha rasgados e caixas de fermento derrubadas, o dono limpava as mãos num avental branco manchado de sangue.
Não era o sangue dele. Os seus movimentos eram precisos, metódicos, quase mecânicos, como se tivesse feito aquilo antes. Muitas vezes antes. Ajeitou uma das prateleiras tombadas, recolheu três armas do chão e trancou a porta da frente. Depois ligou para um único número. Quando atenderam, disse apenas seis palavras.
Elas foram suficientes para alterar o mapa do poder naquele pedaço da Baixada pelos próximos dois anos. Mas a história não começa ali. Começa três semanas antes, num amanhecer comum de segunda-feira, quando ninguém sabia ainda que a milícia tinha acabado de cometer o erro mais caro da a sua história recente.
O Roberto acordou às 5 da manhã. acordava sempre às 5. Não precisava de despertador. O corpo tinha um relógio interno calibrado por anos de rotina, que já não fazia sentido manter, mas que persistia como fantasma de outro tempo. Levantou-se da cama de casal vazia, tomou banho frio de 3 minutos exatos, vestiu calças de ganga e camisa de botões branca, simples, sem marcas, sem detalhes, roupa que não chamavam a atenção.
desceu à padaria por uma escada de madeira que rangia no quinto degrau. Ele saltava sempre o quinto degrau. Hábito antigo, som desnecessário. A padaria São Jorge ficava no térrio de um prédio de três andares na rua António Carlos em Nova Iguaçu. Bairro trabalhador. Movimento desde cedo, paragem de autocarro na esquina. Roberto tinha comprado o lugar cinco anos atrás, quando chegou à Baixada, vindo de não se sabe onde, pagou à vista, dinheiro limpo, documentação em dia, sem perguntas.
Vizinhos acharam estranho no início. Homem sozinho, pouco mais de 40 anos, sem família visível, abrindo padaria. Mas era educado, fazia bom pão, cobrava justo. Em seis meses já era apenas mais um comerciante da rua. Esquecível, invisível. Era exatamente assim que ele queria. Roberto ligou o forno industrial às 5:15. Enquanto esperava aquecer, preparou as primeiras massas: pão francês, pão de forma, bisnaguinha.
Os seus movimentos eram demasiado precisos para alguém que aprendeu o ofício sozinho, mas ninguém reparava nisso. As mãos amassavam com pressão uniforme, dobravam em ângulos exatos, moldavam sem desperdício, cada gesto milimétrico, como se existisse uma régua invisível, orientando cada ação. Ele não pensava no que fazia.
O corpo executava enquanto a mente varria o ambiente. Porta das traseiras trancada, janela da cozinha com o fecho no lugar. Câmera da esquina a funcionar, luz verde a piscar, rua ainda vazia. Primeiro autocarro passaria em 12 minutos. Às 6 em ponto, destravou a porta da frente e virou a placa para aberto. A Dona Cida foi a primeira cliente, como sempre.
Reformada do centro de saúde, morava dois quarteirões acima. levou três pães franceses e comentou que a manhã estava fria. Roberto concordou com meio sorriso, embrulhou os pães, devolveu o troco contado. Ela saiu agradecendo. Veio depois o senhor Augusto taxista, levou café com leite e dois pães na chapa. Comentou o jogo do Flamengo.
Roberto ouviu sem opinar. Assentiu quando apropriado. Serviu o café na temperatura certa. Cliente satisfeito, cliente que regressa, cliente que não faz perguntas. Por volta das 7, o movimento engrossou. Pessoas a ir para o trabalho, estudante a fazer o lanche antes da escola, pedreiro enchimento de garrafa térmica de café.
O Roberto atendia todos com a mesma eficiência discreta. Bom dia. Pois não, só isso mesmo? Aqui está. Volte sempre. Palavras automáticas que não diziam nada, não revelavam nada. Mas enquanto falava, ele observava. Cada pessoa que entrava recebia uma avaliação instantânea e inconsciente. Postura, mãos, olhar.
Onde paravam, como moviam-se, olhavam-se para as saídas. Treino antigo que nunca desligava completamente. Não era paranóia, era precaução embutida na medula óssea. Por volta das 8, um carro parou em frente à padaria. Saveiro Branco, vidros fumet, placa tapada com fita isolante. Três homens desceram. Roberto registou tudo sem mexer a cabeça, tipo físico, roupa, forma de andar.
O da frente era magro, camisola de equipa, boné da Oakley falso. Os outros dois maiores, um de regata, outro de t-shirt preta esticada sobre barriga de cerveja à pressão. Os três entraram devagar, olhando em redor antes de entrar. O último a entrar fechou a porta atrás de si. Detalhe pequeno, significado grande. O da frente aproximou-se do balcão.
Não pediu nada, ficou parado, sorriso torto no rosto, esperando Roberto reconhecer a situação. Os outros dois espalharam-se, um perto da porta, outro perto das prateleiras. Posicionamento tático básico, bloqueio de saída, contenção de movimento. Roberto limpou as mãos num pano e esperou.
Não demonstrou medo, não demonstrou nada. rosto neutro, postura relaxada, mas não desleixada. Esperando. O magro apoiou-se no balcão, olhou para o Roberto como quem avalia a mercadoria, deixou o silêncio esticar durante 5 se segundos. Técnica de intimidação rudimentar. Funciona com gente assustada. Roberto não desviou o olhar, não encheu o silêncio com nervosismo, apenas esperou.
Isso incomodava o magro, que esperava outra reação. “Padaria bonita”, disse finalmente. “Bom movimento, deve dar lucro, não é?” O Roberto não respondeu. Estava a calcular distâncias. 3,5 m até a porta das traseiras, 2 m até à faca de pão em cima da bancada, 120 m até ao extintor de incêndio na parede, 5 m até a porta da frente bloqueada.
O da regata tinha uma pistola à cintura, lado direito sem coldre, destro, então movimento previsível. O de preto mantinha as mãos nos bolsos. Arma ou faca, difícil dizer sem ver. O magro não não mostrava nada, mas a forma como se apoiava no balcão indicava algo nas costas, na cintura, provavelmente 38. “Estamos aqui para conversar sobre segurança”, continuou o magro.
“Este bairro está a crescer, né? Muita gente mau por aí. Ladrão vagabundo. A gente cuida da área. Garante que o seu negócio funciona sem problemas, sem problema. O Roberto ainda não tinha dito uma palavra. Isto começava a irritar o magro que não estava habituado a esta frieza. Geralmente as pessoas já estavam falando, justificando-se, tentando negociar. Aquele padeiro só olhava.
Quieto demais, demasiado calmo. Você tá-me ouvindo, chefe? A voz ficou um tom mais dura. Estou. O Roberto disse simples, direto. Então entende a paragem 500 por semana, todas as segundas-feiras. A gente passa aqui, procura e fica tranquilo. Ninguém se mete com o seu estabelecimento, ninguém te enche o saco.
Negócio justo, certo? 500$ por semana, 2000 por mês, 24.000 1 por ano, dinheiro que comprava silêncio, comprava proteção imaginária, comprava a ilusão de segurança, mas principalmente comprava submissão. Era aquilo que milícia vendia, não segurança, controle. O Roberto sabia exatamente o que estava a acontecer.
Conhecia o modelo, conhecia a estrutura, conhecia o que viria mais tarde. Começava com 500, em 3 meses seria de 700, daqui a 6 meses 1000. E se se queixasse, vinha o cacete, vinha o incêndio, vinha a ameaça para a família. Ele conhecia porque já tinha visto isto de outro ângulo, noutros lugares, sob outras bandeiras. “Não Tenho interesse”, disse Roberto.
“Vozma, sem agressividade, sem medo.” O magro piscou. Não esperava a resposta tão direta. “Como é que é?” “Não tenho interesse, Roberto” repetiu. “Já pago impostos, há polícia no bairro. Não Não preciso de mais nada. O magro se endireitou-se, olhou para os companheiros, depois de volta para Roberto. Acho que não percebeste, Veli.
Isto não é tipo assim, uma oferta. É como as coisas funcionam aqui. Roberto manteve a expressão neutra. Entendi perfeitamente. E não tenho interesse. Silêncio pesado. O da regata deu dois passos para a frente. O de preto tirou as mãos dos bolsos. Faca. Confirmado. Canivete barato, lâmina de 8 cm. Roberto registou, atualizou os cálculos.
O magro apoiou as duas mãos no balcão, se inclinou-se para a frente, tentando usar o tamanho, a proximidade, a ameaça implícita. Olha aqui, meu patrão. Parece ser boa gente, trabalha direito, mente o seu negócio. Mas isso aqui não é conversa de querer ou não querer, é conversa de como é. Toda a gente aqui paga.
O bar da esquina paga, o mercadinho paga, a farmácia paga. Você vai pagar também. É melhor pagar bonzinho do que a gente ter que voltar e cobrar da maneira difícil. Estou a ser educado, brother, mas a minha educação tem um limite. Roberto cruzou os braços. Movimento simples, mas mudou completamente a sua postura.
Ficou mais fechado, mais sólido, como uma porta a trancar-se. Não vou pagar. Podem ir embora. O magro bateu com a mão no balcão. Som seco, alto. Você tá de sacanagem, não é? Acha que é o quê? Acha que pode dar uma de esperto? Não estou dando de nada. Só não vou pagar. A voz de Roberto não tinha subido um decíbel.
A mesma calma, a mesma firmeza. Isso desconcertava mais do que qualquer grito. Grito é medo disfarçado de bravata. Calma assim era outra coisa. Era uma certeza. O da regata puxou a pistola, apontou para Roberto, braço esticado, dedo fora do gatilho ainda. Ó o papo velho. Deixa de dar rolê. Paga o bagulho e fica na boa.
O Roberto olhou para a arma como quem olha para um objeto qualquer. Não recuou, não levantou as mãos, apenas olhou. Avaliou. Taurus 9 mm modelo PT92, carregador de 15 mais um na câmara. Arma robusta, fiável. Mas o homem segurava mal. Muita tensão no pulso, cotovelo bloqueado. Se disparasse dali, o recu ia lançar a mira para cima e para a direita.
Primeiro tiro erraria. Segundo também. No terceiro. Se chegasse ao terceiro, Roberto já teria fechado a distância, mas nada disso lhe apareceu no rosto. Só uma calma inabalável que começava a parecer antinatural. “Guarda isso, Roberto”, disse. Não foi pedido, foi instrução. O da regata piscou.
“Estás maluco, porra? Queres morrer? Guardai isso e saiam da minha padaria.” O magro riu, riso alto. exagerada. Rapaz, tens coragem. Vou dar-te essa. Mas coragem de burro não serve para nada. Voltamos na segunda que vem e na na próxima segunda-feira ou tem os 500 ou a gente apaga o teu sorriso. Percebeu bem? O Roberto não respondeu.
Sustentou o olhar do magro até ele se desviar primeiro. Pequena vitória psicológica, mas vitória. O magro fez sinal aos outros. Guardaram as armas, se dirigiram-se à porta. Antes de sair, o magro virou-se uma última vez. Segunda que vem, chefe, pense bem, nós não estamos de brincar. A porta fechou-se. A Saveiro arrancou com barulho de motor forçado.
Roberto ficou parado atrás do balcão durante 30 segundos completos. Respiração controlada, batimentos cardíacos estáveis. Depois moveu-se, trancou a porta, virou a placa para fechado, foi até às traseiras, abriu um armário de metal escondido atrás de caixas de fermento. Lá dentro estava um telemóvel antigo, tipo que só serve para ligar.
Ele apertou um número, chamou três vezes antes de atender. E depois, voz rouca do outro lado. Três homens. Saveiro branca, milícia. Extorão. Valor 500 semanais. Aceitou? Não. Pausa. Som de cigarro a ser tragado. Sabe que vão voltar. Eu sei. E e nada. Volto a ligar se precisar. Roberto desligou antes da resposta.
Voltou para ir padaria, reabriu as portas, retomou o expediente. Clientes entraram, compraram, saíram. Ninguém notou nada de diferente, apenas um padeiro a fazer o seu trabalho. Nada para ver, nada a perguntar, mas alguma coisa tinha mudado. Algo pequeno, invisível, mas definitivo, como primeira peça de dominó tocada.
O resto ainda estava de pé por enquanto. A semana passou devagar. Roberto manteve a rotina. Acordar às 5, abrir às 6, fechar às 7 da noite, fazer pão, atender cliente, limpar balcão. Vida simples, vida comum. Mas começou a prestar mais atenção. Carros que passavam devagar, rostos repetidos na calçada oposta, movimentação estranha no fim da rua. Nada de concreto, apenas sensação.
Mas Roberto aprendera há muito tempo que sensação era frequentemente intuição disfarçada. E a intuição era frequentemente o primeiro sinal antes do perigo se tornar facto. Na quinta-feira, a Saveiro Branca passou duas vezes pela rua. Não parou, apenas passou devagar, vidros fechados. Reconhecimento, avaliação. Roberto registou.
continuou trabalhando. Na sexta-feira, o carro passou de novo e, desta vez parou. Os mesmos três homens desceram, entraram. O magro se apoiou-se no balcão com a mesma pose, só que agora não tinha sorriso, tinha apenas frieza. Na próxima segunda-feira, chefe, não esquece. Roberto estava a cortar fiambre para um cliente.
Continuou corte, fatias finas, uniformes, não olhou para o magro. Já disse, não vou pagar. É mesmo? O magro bateu no balcão. Acha que tá a brincar com quem? Acha que a gente é ladrãozinho de esquina? A gente manda neste bairro todo, meu irmão. O que a gente fala acontece. O que nós mandamos, o povo obedece.
Se é apenas mais um, mais um que vai entrar na linha ou vai sair de maca. O Roberto acabou de cortar o fiambre. Embrulhou, pesou, cobrou. O cliente pagou e saiu rapidamente, sentindo a tensão no ar. Quando a porta se fechou, Roberto finalmente olhou para o magro. E o que ele viu naquele olhar fez algo mudar na expressão do miliciano.
Por uma fracção de segundo, viu algo que não devia estar nos olhos de um padeiro, algo frio, calculado, mortalmente calmo. E aí o olhar voltou a mudar, voltou ao neutro, mas o magro tinha visto e isso o incomodou. Segunda-feira, repetiu. Voz menos firme agora. Os 500 ou a gente volta com toda a gente. Eles saíram. Roberto limpou o balcão com movimentos metódicos, atirou o pano para o cesto.
Foi até ao armário dos fundos, pegou no telemóvel, marcou o número. “Vão voltar na segunda”, disse quando atenderam. “Quantos? Disseram que com todos? Quer sair? Posso tirar-te hoje?” Não. Sabe o que vai acontecer se ficar. Eu sei. É mesmo assim. Vai ficar. Vou. Pausa mais longa. Som de algo pesado a ser mexido. Está bem.
Mas depois disso vai ter de desaparecer. Sabe disso, não é? Eu sei. Está bom. Boa sorte. Roberto desligou, guardou o telemóvel, voltou para o balcão, atendeu os últimos clientes do dia, fechou a padaria a sete em ponto, subiu para o apartamento, jantou arroz, feijão e frango grelhado, sem sal, pouco óleo, comida funcional não prazerosa.
Lavou a loiça, tomou banho, deitou-se às 9, dormiu 7 horas exatas. Sábado passou, domingo passou. Na segunda-feira de manhã, o Roberto abriu a padaria normalmente. Acordou às 5, preparou as massas, ligou o forno. Às 6, destravou a porta, movimento normal até às 8. Depois voltou a Saveiro Branca. Dessa vez não veio sozinha, veio com outro carro atrás.
Mãos a preto, baixo, som alto. Seis homens no total. Os três conhecidos, mais outros três novos. Eles desceram, bloquearam o passeio. Um deles ficou do lado de fora, a vigiar a rua. Os outros cinco entraram. O magro veio novamente à frente, mas agora tinha um homem mais velho ao lado. 50 e poucos anos, barba grisalha, camisa social aberta, corrente de ouro ao pescoço.
Ele era quem mandava. Isso ficava claro pela forma como os outros se posicionavam ao redor dele. Círculo de respeito e proteção. Então é este aqui o mais velho disse. Voz rouca de cigarro. O padeiro corajoso. Roberto estava a organizar sonhos na montra. Terminou o que estava fazendo antes de se virar.
Movimentos deliberados, sem pressas. Isso irritou o mais velho, que esperava atenção imediata. Mas o Roberto tinha aprendido que controlar o tempo de uma interação era controlar toda a interação, pequenos gestos de dominância que alteravam toda a dinâmica. “Pois não”, Roberto disse quando finalmente se virou.
O mais velho sorriu, sorriso que não chegava aos olhos. “O meu nome é Anderson, podes tratar-me por Dinho. Eu tomo conta de toda esta região, do Santa Rita até ao São Miguel. Tudo o que acontece aqui fico a saber. Tudo o que funciona aqui passa por mim. Entendeu? O Roberto não disse nada, esperou. Os meus meninos aqui disseram-me que está com dificuldade de entender como as coisas funcionam.
Achei que era mal entendido. Mas depois voltaram e continuou com a mesma conversa. Agora eu próprio vim aqui para ver se a as pessoas entendem-se porque olham. Dinho deu dois passos em frente, apoiou as mãos no balcão. Eu não gosto de desrespeito. Quando eu mando os meus homens falarem com alguém, espero que essa pessoa escute obedeça.
É simples assim. Não vou pagar, disse Roberto. Mesma voz calma. Dinho piscou os olhos, depois riu. Gargalhada curta, sem humor. Rapaz, você é mesmo teimoso. Está vendo esses rapazes aqui? Ele gesticulou para os cinco homens ao redor. Cada um deles já partiu mais gente do que se pode contar.
Cada um deles sabe o que fazer quando alguém não colabora. E acha que vai ficar aqui a desafiar-me? Você acha que a sua padarazinha vale a sua vida? A padaria não é o problema, Roberto disse. Não? Então qual é? Vocês silêncio absoluto. Os cinco homens se entreolharam. Ninguém falava assim com Dinho nunca. Dinho ficou parado, processando a resposta, depois se endireitou.
A máscara de falsa cordialidade caiu completamente. Ok, agora entendi. Você quer ser herói? Quer ser o tipo que enfrenta a milícia? Problema é que herói morto não serve para nada. Ele fez sinal. Dois homens aproximaram-se. Um sacou de um taco de beasebol. Outro uma barra de ferro. Última oportunidade. Agora ou partimos tudo aqui e quebra c junto.
O Roberto olhou para o taco, para a barra, para os cinco homens. Calculou ângulos, distâncias, sequências. Fez cálculos que um padeiro comum não saberia fazer. Chegou a conclusões que um padeiro comum não chegaria e tomou uma decisão. Não ele disse. O Dinho fez sinal. O do taco avançou primeiro. Movimento amplo, previsível.
Roberto baixou-se, pegou na faca de pão na bancada e num movimento único, jogou. A faca rodou uma vez no ar e cravou-o no ombro do homem. Ele gritou, largou o taco. Roberto já estava a se movendo. Saltou o balcão, pegou no taco no ar antes de cair no chão, rodopiou e atingiu o joelho do segundo homem com precisão cirúrgica.
Está de osso a partir, dois no chão em menos de 3 segundos. O terceiro tentou sacar a arma. Roberto avançou. Bateu com o taco na mão armada. Pistola voou. Segundo golpe na têmpora. O homem caiu com força. Dinho recuou, de olhos arregalados. O magro puxou a 38. Roberto rodou o corpo, usou o terceiro homem caído como escudo parcial.
O tiro pegou de raspão no braço. Ardor ignorável. Roberto atirou o taco, acertou no nariz do magro. Caiu para trás, sangrando. Sobrava um. o da regata. Tinha a pistola na mão, mas estava congelado. Vendo um padeiro mover-se como algo completamente diferente, Roberto caminhou até ele devagar. O homem apontou a arma, mas a mão tremia.
O Roberto simplesmente tirou a arma da mão dele. Movimento rápido, preciso. Desarmou sem esforço. Desmontou a pistola, tirou o carregador, destrancou a câmara. Tudo em menos de 2 segundos. Depois atirou as peças para o chão. “Saiam”, Roberto disse. Voz ainda calma, mas agora tinha algo por baixo, algo frio e definitivo.
O Dinho estava encostado à parede, respirando pesadamente. “Você tá morto? Não sabe o que fez. Você não sabe quem eu sou?” Roberto aproximou-se. Dinho tentou recuar, mas já estava na parede. Roberto parou a 30 cm, olhou para os olhos dele e quando falou, a sua voz tinha mudado. Já não era voz de padeiro, era voz de alguém que tinha dado ordens, seguido ordens, executado ordens.
Alguém que tinha visto e feito coisas que deixam marcas permanentes. Eu sei exatamente quem é e não faz ideia de quem eu sou. Agora pega os seus homens e sai daqui antes que eu mudei. Din olhou nos olhos de Roberto e viu. Viu o que os outros tinham visto em flashes. Viu completo agora e compreendeu que tinha cometido um erro, um erro grande.
Aquele homem não era um padeiro, nunca tinha sido. Era outra coisa. Algo treinado, testado, temperado em locais onde as pessoas comuns não regressam inteiras. Vamos. O Dinho disse aos homens. Levanta-se. Vamos embora. Juntaram os feridos, o do ombro a sangrar, o do joelho a coxear, o da têmpora cambaleante. Saíram pela porta. O de fora, que tinha ficado a vigiar, viu o estado deles e arregalou os olhos.
Entraram nos carros e desapareceram. Deixaram sangue no chão, pedaços de arma, orgulho destruído. Roberto trancou a porta, virou a placa, limpou o sangue do chão, tirou a faca do armário onde tinha encravado quando falhou o ombro, guardou o taco, atirou os pedaços das armas num saco, depois subiu, trocou de camisa, desceu novamente, abriu a padaria como se nada tivesse acontecido, mas ele sabia, sabia que isto não tinha acabado, tinha apenas começado.
Milícia, não esquece, não perdoa. Quando os enfrenta, só tem dois caminhos. Ou desaparece, ou eles voltam com tudo. O Roberto escolheu não sumir. Três dias depois, na quinta de noite, voltaram. Mas desta vez não foi extorção, foi vingança. 10 homens, quatro carros, armas a sério, agora nada de taco e barra de ferro, pistolas, revólveres, duas espingardas.
Eles cercaram a padaria às 8 da noite, quando O Roberto estava a fechar. Bloquearam a rua de ambos os lados. Dinho saiu do carro, megafone na mão. Padeiro, sai daí. Última oportunidade. O Roberto estava dentro, luzes apagadas, observando pela fresta da janela. Contou os homens, identificou as armas, mapeou as posições.
10 contra um. oddios maus, mas ele tinha enfrentado odes piores e tinha uma vantagem que não imaginavam. Ele conhecia aquele tipo de operação, tinha feito aquele tipo de operação, sabia exatamente como iam agir. “Você tem 10 segundos, depois metemos bala.” O Roberto não respondeu. Abriu o armário de metal nos fundos.
Lá dentro tinha coisas que nenhum padeiro comum teria: colete balístico, faca tática, pistola Glock 17, duas munições extra e um rádio VHF. Vestiu o colete, verificou a pistola, colocou as munições no bolso, ligou o rádio. Estação dois, aqui é a estação um. Tenho 10 hostis a rodear a minha posição. Repito, 10 hostis.
Preciso de extração ou apoio imediato. Estática. Depois uma voz. Estação um. Extração impossível. A tua posição tá bloqueada. Suporte a caminho. Eta 20 minutos. Aguenta lá. 20 minutos. A eternidade sobe. Ouviu de novo o megafone. Se não sair, a gente entra. E quando entrar, vai sair aos pedaços. O Roberto apagou todas as luzes.
Conhecia cada centímetro daquela padaria às escuras. Eles não. Vantagem pequena, mas vantagem. Pegou no extintor de incêndio, esvaziou metade do conteúdo no chão, perto da porta, preparou o ambiente, depois foi para os fundos, se posicionou atrás do forno industrial. Cobertura sólida, linha de visão para a porta da frente e das traseiras. Esperou.
Entraram com violência, pontapearam a porta da frente, três homens à frente, lanternas acesas, armas em punho, pisaram o pó do extintor, perderam aderência. O primeiro caiu. Roberto disparou duas vezes, acertou o segundo no peito. Colete. O homem caiu, mais vivo. Terceiro, recuou, disparando às cegas. Balas acertaram prateleiras, parede, teto.
Nenhuma perto do Roberto. Ele está armado. Está armado, porra. Mais homens entraram. Roberto contou tiros, controlou respiração, não podia desperdiçar munição. 17 na pistola, 34 nas extras, 51 balas contra 10 homens, cinco balas por homem se acertasse em tudo, mas ninguém acerta tudo.
Precisava de ser seletivo, precisava de ser preciso. Eles tentaram cercar, dividir e conquistar, mas a padaria era pequena e no escuro tornaram-se alvos. Roberto moveu-se silencioso, rápido, posições diferentes, ângulos diferentes. Disparou, recuou, realojou, dois tiros no joelho de um, três tiros no braço armado de outro, não matando, desativando, reduzindo o número, controlando o caos.
Onde é que ele tá? Alguém acende a porra da luz? Alguém tentou. Roberto disparou sobre a luminária. Vidro explodiu. Escuro continuou. Mais confusão, mais erro deles. Roberto aproveitou, avançou pela lateral, apanhou um por trás. Golpe na nuca com o cabo da pistola. O homem caiu. Roberto tirou-lhe a arma, esvaziou, atirou para longe. Apanhei-o aqui.
Mentira. Pânico. Eles estavam a disparar uns nos outros no escuro. O Roberto ouviu grito, xingamento. Alguém tinha sido atingido por fogo amigo. Ele sorriu sombrio. O treino vence sempre. A disciplina vence sempre. Eles tinham número. Ele tinha método. Mas depois a porta dos fundos explodiu. Quatro homens entraram.
Um deles com espingarda 12, pump action. Três cartuchos rápidos. O Roberto atirou-se para o lado. Chumbo grelhado passou a rasar, acertou o forno. O metal amassou. O Roberto rolou, disparou de baixo, apanhou-o da espingarda no pé. Berrou, largou a arma. Segundo homem tropeçou nele. Roberto disparou de novo, acertou-lhe no ombro. A slide da Glock bloqueou. Carregador vazio.
Roberto ejetou, apanhou o reserva, encaixou, desbloqueou. Trs segundos. Eternidade sob pressão. Bala passou ao lado da cabeça, tão perto que sentiu o deslocamento de ar. Disparou na direção do clarão do tiro. Alguém grunhiu. Acerto. Recua. Recua, porra. Ele está muito bem posicionado. Eles recuaram. Roberto aproveitou.
Mudou de posição de novo. Agora atrás do balcão. Respiração controlada. Batimentos elevados, mais controláveis. Verificou ferimentos. Nenhum. Checou munição. 15 na pistola, 17 no último carregador. 32 balas. Tempo para chegar? 15 minutos. Precisava de segurar. Silêncio do lado de fora. Eles estavam reagrupando, planeando.
O Roberto usou o tempo. Bebeu água da torneira, verificou à saídas. Porta da frente destruída, mas coberta por fogo cruzado. Porta dos fundos iden. Janelas demasiado pequenas. Estava preso. Mas também estavam presos. Presos do lado de fora por medo de entrar. Dinho gritou de fora sem megafone agora. Voz rouca de raiva.
Você não é padeiro. Quem és tu, porra? O Roberto não respondeu. Deixou a pergunta ecoar. Sem resposta era resposta também. Dinho praguejou, mandou entrar mais três. Entraram cautelosos agora, cobrindo ângulo, movendo-se tático, aprendizagem através da dor. Roberto esperou, deixou entrarem.
Quando estavam no meio da padaria, disparou. Não nos homens, na parede. Três tiros sequenciais, buraco aberto, luz da rua a entrar, silhuetas visíveis. Eles ficaram expostos, tentaram recuar. Tarde, Roberto atingiu um no braço, outro na perna. Ambos caíram. O terceiro correu. Fugiu pela porta das traseiras. Nunca mais voltou. Restavam quatro.
Mais Dinho, cinco no total, munições, 27 balas. Tempo 10 minutos. Aí o Roberto ouviu: “Sirene ao longe, não polícia. algo diferente. O suporte tinha chegado cedo. Ou talvez não fosse suporte, talvez fosse outra coisa. Dois carros pretos entraram na rua, farol alto, pararam bloqueando a saída.
Quatro homens desceram, as roupas escuras, sem identificação. Mas a postura, a forma de se movimentar, dizia tudo. Militares, no ativo ou não, não importava. Tinham o porte, tinham o treino. Dinho e os seus homens perceberam. tentaram sair pelo outro lado. Tarde, mais dois carros, mais quatro homens. Eles estavam cercados agora. Um dos homens de negro avançou.
Voz amplificada por megafone. Larguem as armas no chão agora. Dinho tentou negociar. Olha, a gente não quer problema. Só estamos a resolver uma paragem aqui. Última oportunidade, armas no chão. Os homens de Dinho se entreolharam. Três deles largaram as armas. O Dinho e o magro. Não. Dinho gritou. Vocês não sabem quem eu sou.
Eu mando nesta porra toda. Vocês vão-se foder. Resposta foi única, seca. Três tiros de espingarda. Não letal. Pneus dos carros da milícia. Todos rebentaram. Dinho compreendeu-o. Estava encurralado, sem saída, sem regatear. Partiu a 38. O magro largou a sua. Mãos para cima. Os homens de negro avançaram, algemaram todos. rápido, eficiente e silencioso.
Depois um deles foi à padaria, bateu à porta dos fundos. Roberto, somos nós! Roberto destravou, abriu, o homem entrou. 40 anos, cabelo curto militar, cicatriz na sobrancelha. Nome: Lucas, conhecido de outro tempo, outro lugar. Cumprimentaram-se com aceno de cabeça, sem abraço, sem sorriso, profissional. “Demorou.
” Roberto disse: “Trânsito”. Lucas olhou em redor. Fez bonito aqui. 10 contra um. Quantos baixas deles? Sete feridos. Nenhum morto. Controlado. Bom. O Lucas olhou para Roberto. Mas agora já sabe que acabou, certo? Não dá mais para não querer a sua cabeça. Eu sei. Já tem tudo pronto. Documentos novos, bilhete, localização. Sul, longe daqui.
Começa de novo. Roberto olhou em redor. A padaria destruído, vidro partido, parede furada, sangue no chão. 5 anos construindo aquela vida, 5 anos de paz. Acabou numa noite, porque milícia escolheu o alvo errado. Porque ele não soube ficar quieto, porque fantasmas do passado nunca morrem verdadeiramente. Está bom, disse. Vamos agora.
A gente limpa isto aqui. Você desaparece. Roberto subiu, pegou numa mala já pronta, sempre pronta. Roupa, dinheiro, documentos falsos, rotina de quem sempre soube que um dia teria de correr de novo. Desceu. O Lucas estava à espera na porta dos fundos. Carro ligado, motor baixo. Vão ficar em cana? Roberto perguntou.
Durante algumas horas depois soltos, mas vão ficar assustados. Sabem que tem alguém maior por trás de si. Não vão perseguir? Tem a certeza? Não. Mas é o melhor que se pode fazer. Roberto entrou no carro, o Lucas conduziu. Saíram da Baixada em silêncio, atravessaram a cidade, chegaram a um discreto hotel em Copacabana.
Roberto entrou com nome falso, subiu para o quarto, olhou pela janela, Mar ao Longe, cidade grande e anónima. podia desaparecer ali de novo, sempre de novo. Três dias depois, Roberto estava em Porto Alegre, nome diferente, documentos diferentes, mesma pessoa por dentro, mesmo peso nas costas, mesmo fantasma no espelho. Ele alugou um pequeno apartamento num bairro tranquilo, começou a procurar emprego, padaria, mercado, qualquer coisa discreta.
reconstruir de novo, sempre de novo. Mas no rio a história tornou-se lenda. A padaria São Jorge, onde um padeiro enfrentou 10 homens armados e saiu vivo, onde a milícia aprendeu que nem todo o alvo é fácil, onde alguém comum se revelou ser algo completamente diferente. As pessoas contavam versões, diziam que era ex-militar, ex-polícia, ex-bandido, ex-agente secreto.
Cada versão diferente, mas todas concordavam num ponto. Ele não era que parecia. E estavam certos. Roberto nunca foi um verdadeiro padeiro. Foi fuzileiro. 14 anos de serviço, forças especiais, operações que não constam de registo público, lugares que não aparecem num mapa, coisas feitas que não são contadas. Ele saiu com honra, com condecorações escondidas numa gaveta, com bagagem emocional demasiado pesada.
Tentou a vida civil, tentou esquecer, tentou ser normal, mas o fuzileiro nunca morre. só adormece. E quando milícia invadiu aquela padaria, quando ameaçaram, quando empurraram, eles acordaram algo que deveria ter ficado dormindo. O erro deles foi esse, não pesquisar, não investigar, não saber com quem estavam a mexer.
Viram um padeiro e pensaram que era só isso. Mas por detrás da farinha tinha formação, por trás do avental tinha músculo, por trás dos olhos calmos tinha decisões tomadas em frações de segundo, sob pressão máxima. A milícia do rio invadiu uma padaria na Baixada. Nunca imaginaram que o padeiro era ex-fuzileiro.
E quando descobriram, já era tarde demais. O erro estava feito. O preço estava pago. Três homens baleados, quatro feridos, orgulho destruído, território questionado. E no final tudo o que restava era uma padaria vazia e uma lição aprendida da forma mais duro possível. Nunca subestime ninguém, porque nunca se sabe quem está realmente do outro lado do balcão.















